quinta-feira, 9 de julho de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXIII)

PARTE III - O INFERNO

IV. Sobre a companhia no Inferno

Há muitos pecadores audazes que, quando são castigados por seus crimes e ameaçados com o fogo do Inferno, costumam responder atrevidamente: 'Onde quer que eu vá, ao menos não me faltará companhia'. Como se a presença de outros lhes pudesse proporcionar algum consolo ou qualquer alívio em seus tormentos. Para que esses pecadores insolentes vejam quão errados estão ao falar assim, e quão pouco motivo têm para esperar algum conforto da companhia em que se encontrarão, este capítulo será dedicado a mostrar quão miserável será essa companhia e como ela agravará ainda mais a sua desgraça.

A sociedade dos condenados é composta de demônios e de almas perdidas. Ambos são inumeráveis. Quanto à companhia dos demônios, ela é tão detestável que pode ser considerada o pior castigo dos réprobos no Inferno. O lugar dos tormentos seria muito menos digno desse nome se nele não houvesse demônios. Por causa da multidão deles, reina ali tal confusão, tal aflição, tal miséria e tal tirania, que apenas pensar nisso já parte o coração.

Nós, mortais, não temos inimigo pior do que o demônio, que nos odeia com um ódio tão intenso que deseja, a cada instante, lançar-nos no abismo da perdição. E, quando finalmente consegue ter alguém sob seu poder, trata-o com maior barbárie do que jamais o mais cruel dos déspotas tratou o seu mais mortal inimigo. Todo o ódio e toda a inveja que, no momento de sua queda, concebeu contra Deus, e que não pode descarregar sobre Ele, descarrega-os sobre os condenados, atormentando-os com suplícios cujo simples pensamento faz gelar o sangue de qualquer homem. Ainda que não lhes causasse nenhum outro mal, o simples fato de habitar com eles por toda a eternidade seria uma desgraça tão terrível para esses infelizes pecadores, que o horror de sua condição lhes seria como uma morte contínua.

Entre todos os espíritos decaídos, nenhum é tão abominável quanto o chefe de todos eles, o soberbo Lúcifer, cuja crueldade, malícia e perversidade o tornam objeto de terror não somente para os condenados, mas também para os próprios demônios que lhe estão sujeitos. Esse Lúcifer é chamado, nas Sagradas Escrituras, por diversos nomes, todos indicando sua malignidade. Por causa de seu aspecto repugnante, é chamado dragão; por causa de sua ferocidade, leão; por causa de sua malícia, antiga serpente; por causa de seu espírito enganador, pai da mentira; por causa de seu orgulho, rei sobre todos os filhos da soberba; e, por causa de seu grande poder e força, príncipe deste mundo.

Escutai o que dizem os Padres da Igreja e alguns intérpretes das Sagradas Escrituras acerca do terrível aspecto apresentado por Satanás. Eles lhe aplicam a descrição do Leviatã encontrada no Livro de Jó: 'Quem poderá descobrir a superfície de sua veste? Ou quem penetrará no meio de sua boca? Quem abrirá as portas de seu rosto? Em redor de seus dentes reina o terror. Seu corpo é como um escudo fundido, fechado e unido por escamas que se comprimem umas contra as outras. Cada uma se liga à outra, de tal modo que nem mesmo o ar pode passar entre elas. Seus espirros fazem brilhar a luz, e seus olhos são como as pálpebras da aurora. De sua boca saem tochas, e faíscas de fogo se desprendem. De suas narinas sai fumaça, como de uma panela fervente sobre o fogo. Seu hálito acende carvões, e de sua boca sai uma chama. Em seu pescoço habita a força, e diante dele marcha a ruína. Seu coração é duro como pedra, firme como a bigorna do ferreiro. Quando ele se levanta, os anjos estremecem e, cheios de temor, recorrem a Deus em busca de proteção. Faz ferver o mar profundo como uma caldeira. Não há poder sobre a terra que se lhe possa comparar, pois foi criado para não temer ninguém. Contempla tudo quanto é elevado; é rei sobre todos os filhos da soberba' (Jó 41).

É opinião de São Cirilo, Santo Atanásio, São Gregório e de outros sábios intérpretes tanto da Igreja Grega quanto da Igreja Latina que, embora essa descrição se refira literalmente a um monstro marinho, ela foi também destinada, em seu sentido místico, a aplicar-se a Lúcifer. E, se alguém comparar o que é dito do Leviatã com os atributos que são atribuídos ao príncipe das trevas, será impossível negar a semelhança entre ambos. Além disso, sabe-se, como fato geral, que tanto as coisas más quanto as boas possuem, no mundo natural, suas figuras e representações: as primeiras servem para nossa advertência; as segundas, para nosso exemplo.

Além do príncipe das trevas, existem centenas de milhares de demônios inferiores que, embora menos perversos e menos abomináveis do que ele, são ainda assim tão maus e tão horríveis que dificilmente alguém poderia contemplá-los e continuar vivo. Santo Antão relata que um dos irmãos de sua Ordem soltou um grito lancinante ao ver um demônio que lhe apareceu. Os demais monges, acorrendo assustados, encontraram-no mais morto do que vivo. Depois de lhe darem algo que lhe restituísse as forças, perguntaram-lhe o que havia acontecido.

Então ele lhes contou que o demônio lhe aparecera e o aterrorizara de tal maneira que toda a vida parecia ter-lhe abandonado o corpo. Perguntaram-lhe ainda qual era a aparência daquele demônio. Ele respondeu: 'Isso realmente não posso dizer. Apenas posso afirmar que, se me fosse dada a escolha, preferiria ser lançado numa fornalha em brasa do que tornar a contemplar o rosto daquele demônio'. Lemos quase a mesma coisa na vida de Santa Catarina de Sena. Ela também declarou que preferiria atravessar um fogo ardente a fixar, por um único instante sequer, os olhos sobre o demônio.

Se a simples visão do espírito maligno é tão espantosa que os santos a consideram mais intolerável do que o sofrimento de serem expostos às chamas de um fogo ardente, que temor e que horror não experimentarão os condenados, obrigados a habitar para sempre no meio de inumeráveis espíritos infernais! Que terror sentirias se um cão raivoso saltasse de repente sobre ti, te derrubasse ao chão e começasse a dilacerar-te com os dentes! Não imagines que o demônio cairá sobre os condenados com menor fúria, nem que os tratará com maior misericórdia.

O relato que Jó faz de seus perseguidores descreve com grande exatidão o estado de uma alma perdida no Inferno: 'Meu inimigo reuniu contra mim todo o seu furor; ameaçando-me, rangeu os dentes contra mim; fitou-me com olhos terríveis. Abriram contra mim a sua boca; cobrindo-me de insultos, feriram-me na face; todos se juntaram contra mim. Agarrou-me pelo pescoço, despedaçou-me e fez de mim o alvo de seus golpes. Cercou-me de lanças; traspassou-me os rins sem piedade. Rasgou-me ferida sobre ferida; lançou-se sobre mim como um gigante' (Jó 16,10-15).

Essa passagem pode dar-nos alguma ideia do terrível caráter da companhia em cujo meio os condenados se encontrarão no Inferno. Os réprobos talvez procurem, contudo, consolar-se com este pensamento: 'Ao menos teremos conosco os nossos semelhantes no Inferno, e deles não haverá falta'. Guardai-vos de vos iludirdes com esse falso consolo. Toda alma condenada preferiria infinitamente estar sozinha no Inferno, se lhe fosse dada essa escolha. Pois, assim como no Inferno não existe a caridade divina, também não existe o amor ao próximo. Pelo contrário, todos os condenados estão tão cheios de amargura uns contra os outros que desejam mutuamente apenas o mal, escarnecem uns dos outros e se amaldiçoam da maneira mais cruel.

E, assim como nesta vida é extremamente penoso ser obrigado a conviver com um inimigo que nos faz toda sorte de males, assim também não é pequeno tormento permanecer continuamente entre milhares de pessoas, todas as quais se odeiam e se detestam do fundo do coração. Que julgais que sentiríeis se fôsseis cruelmente atormentados, maltratados e perseguidos pelos demônios, a ponto de não poderdes conter altos gritos de dor e aflição e, contudo, entre os milhares que vos cercassem, não encontrásseis sequer uma única pessoa que vos demonstrasse a menor compaixão? Pelo contrário, todos zombariam de vós, todos vos amaldiçoariam, porque cada um se alegraria com o vosso sofrimento.

Até mesmo vosso pai e vossa mãe, vossa esposa e vossos filhos, vossos irmãos e irmãs, vossos amigos e parentes seriam então vossos declarados inimigos e, em vez de vos manifestarem qualquer gratidão, procurariam apenas causar-vos maior dano. Mas, entre todos os vossos inimigos, os mais implacáveis serão aqueles a quem escandalizastes com vosso mau exemplo, aqueles que conduzistes ao pecado por vossos conselhos ou por vossa conduta, aqueles que vos devem a própria perdição. Eles vos odiarão e execrarão com tal amargura e vos atormentarão com tamanha animosidade que parecerão menos homens do que demônios encarnados.

A esse respeito, São Bernardino narra o seguinte exemplo: 'Havia um rico usurário que tinha dois filhos. Um deles entrou para uma Ordem religiosa, enquanto o outro permaneceu no mundo junto de seu pai. Pouco tempo depois o pai morreu e, em breve espaço de tempo, foi seguido ao túmulo por esse filho, a quem havia deixado toda a sua fortuna. O outro filho, que se tornara monge, estava profundamente preocupado com o destino de seus familiares e suplicava insistentemente a Deus Todo-Poderoso que lhe revelasse qual era a sorte deles na outra vida. Por fim, suas súplicas foram atendidas.

Certo dia foi transportado em espírito ao Inferno. Embora olhasse por toda parte, não conseguia encontrar nem seu pai nem seu irmão. Finalmente percebeu um abismo de fogo, cujas chamas se elevavam a enorme altura. Naquele poço ardente, viu justamente aqueles que procurava, acorrentados um ao outro por pesadas cadeias de ferro, enfurecidos e praguejando um contra o outro. O pai amaldiçoava o filho, lançando sobre ele toda a culpa de sua condenação, dizendo: 'Maldito sejas, filho perverso! Tu és o único responsável pela minha perdição. Foi por tua causa, para fazer de ti um homem rico, que pratiquei a usura. Se não fosse por ti, eu não estaria agora mergulhado nesta miséria'. Então o filho respondeu ao pai: 'Maldito sejas tu, pai ímpio! Tu és o único responsável pela minha perdição. Se não tivesses praticado a usura e me deixado em herança teus bens injustamente adquiridos, eu jamais teria possuído riquezas mal adquiridas e não teria vindo parar nesta miséria'. 

Assim acontecerá convosco, se de algum modo fordes responsáveis pela perda de uma alma. Vossa esposa e vossos filhos vos amaldiçoarão e vos lançarão em rosto as ocasiões de pecado que lhes proporcionastes. O rico Epulão sentiu isso tão vivamente que suplicou com insistência ao pai Abraão que enviasse Lázaro à casa de seu pai para dar testemunho a seus irmãos dos sofrimentos que ele suportava, a fim de que eles não viessem também para aquele lugar de tormentos. E não fez isso por amor a seus irmãos, como observa Santo Antão, mas porque sabia muito bem que, se eles viessem juntar-se a ele no Inferno, seus tormentos seriam ainda mais agravados.

Suponhamos, porém, que ainda subsistissem no Inferno os afetos naturais, sobretudo entre aqueles que sinceramente se haviam amado nesta vida e que não tivessem sido causa da condenação um do outro. Mesmo assim, a companhia de uma pessoa que vos fosse querida aumentaria, em vez de diminuir, a vossa dor, e isso na mesma proporção do amor que por ela tivésseis. Pois que angústia seria para vós ver o vosso mais querido amigo torturado e atormentado de todas as maneiras possíveis! Seria suficiente para partir-vos o coração de tristeza e compaixão.

E, além dessa dor interior e espiritual, os condenados aumentam imensamente os sofrimentos exteriores e corporais uns dos outros. Primeiramente, porque permanecem comprimidos uns contra os outros. Em segundo lugar, porque todos exalam um odor repugnante e insuportável. Em terceiro lugar, porque uivam de maneira tão lamentável e fazem ressoar o Inferno com seus gemidos e lamentos. É disso que fala Cristo quando diz: 'Ali haverá choro e ranger de dentes'. Ele repete essas palavras mais de uma vez, para lhes dar maior força e gravar em nossos espíritos a grandeza dos tormentos suportados pelos condenados.

Também os demônios unirão seus uivos aos gritos dos condenados e levantarão tal clamor que o próprio Inferno estremecerá. O tormento dos condenados será ainda mais agravado pelo aspecto horrendo de seus corpos e pelo horror que inspirarão uns aos outros. Pois Santo Anselmo diz: 'Assim como nenhum mau cheiro pode ser comparado ao mau cheiro dos condenados, assim também nada neste mundo pode dar uma ideia de sua aparência hedionda'. Assim, cada vez que uma alma condenada olhar para outra, estremecerá de repugnância, aversão e horror.

Ainda que não houvesse no Inferno outro tormento senão esse, bastaria ele para tornar seus habitantes sumamente miseráveis. Finalmente, o tormento do Inferno será grandemente aumentado pela vergonha eterna que constituirá a herança dos condenados. São Tomás de Aquino ensina que os pecados de cada um serão conhecidos por todos os demais tão claramente como se os contemplassem com seus próprios olhos corporais. Cada um pode imaginar que angústia isso deve causar. Pois que há, nesta terra, de mais doloroso do que ser exposto à vergonha pública? Para um homem que perdeu sua boa reputação, a vida já não merece ser vivida; torna-se apenas um peso.

Antigamente, em alguns países, era costume marcar os malfeitores, como os ladrões, com um ferro em brasa na fronte ou no ombro. Que ignomínia para qualquer pessoa que ainda conservasse um mínimo de amor-próprio! Sempre que alguém olhasse para ela, deveria corar de vergonha. O demônio marcará todos os réprobos com o selo da vergonha sobre a fronte ou naquela parte do corpo com a qual pecaram, para que todas as ações vergonhosas que praticaram durante a vida sejam conhecidas por todos. É essa vergonha eterna que Deus anuncia ao pecador pela boca do seu profeta: 'Farei cair sobre vós um opróbrio eterno e uma vergonha perpétua que jamais será esquecida' (Jr 23,40).

Façam os condenados o que fizerem, jamais conseguirão apagar esse sinal, nem ocultá-lo dos seus companheiros de suplício. Por isso, como diz Santo Efrém, essa vergonha e essa infâmia lhes serão mais insuportáveis do que o próprio fogo do Inferno, porque conservarão continuamente diante de sua memória os pecados com que se mancharam durante a vida. Dionísio, o Cartuxo, narra o caso de um dos religiosos de sua Ordem, na Inglaterra, que, depois de um êxtase que durou três dias, contou aos monges, a pedido insistente deles, o que havia visto. 

Disse ele: 'Meu guia conduziu-me por longo caminho até chegarmos a uma região de trevas e de horror, onde se encontrava uma multidão incontável de homens e mulheres, todos submetidos a terríveis tormentos. Eram aqueles que haviam pecado por meio do corpo. Eram atormentados por enormes monstros de fogo que se lançavam sobre eles e, apesar de toda a resistência que ofereciam, apertavam-nos e os abraçavam com suas garras até fazê-los soltar gritos lancinantes de dor. Entre os que assim eram atormentados vi um homem que eu conhecia muito bem e que, no mundo, gozara de grande estima e consideração. Ao ver-me, exclamou em voz lamentável: Ai de mim! Ai de mim! Desgraçado de mim por haver pecado como pequei durante minha vida! Pois agora o tormento que padeço aumenta de dia para dia. Mas, acima de tudo, o que mais agudamente sinto é a vergonha e a desonra a que meus pecados me expõem, porque todos os conhecem, todos me desprezam e todos zombam de mim por causa deles'.

Vê-se, portanto, que, por mais imensuráveis que sejam os tormentos do Inferno, aquilo que os condenados temem ainda mais do que os sofrimentos físicos é tornarem-se objeto de desprezo e de escárnio para seus companheiros por causa de seus pecados. Assim, sua miséria, longe de ser diminuída pela companhia dos outros, é extraordinariamente aumentada por ela. Portanto, não procureis consolar-vos com o pensamento dos companheiros que encontrareis no Inferno, porque sua convivência é apenas motivo de terror. E, para que jamais sejais lançado em tão miserável companhia, guardai-vos de associar-vos, neste mundo, com aqueles que possam conduzir-vos ao pecado e, talvez, arrastar-vos à perdição.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quarta-feira, 8 de julho de 2026

ORAÇÃO À VIRGEM MARIA NAS TRIBULAÇÕES

 

Eu vos saúdo, Maria, cheia de graça, Virgem serena, singular esperança dos infelizes, terna Mãe dos órfãos, eu vos saúdo!

Ó Maria! Quando todas as portas do Céu se fecham para mim e me é recusado todo acesso junto a Deus, por causa de meus pecados;
Quando toda sabedoria e toda força se retiram de mim e não posso ajudar-me em nada;
Quando o tédio da vida presente e a angústia do coração me apertam tão fortemente que quase não posso fazer mais nada neste mundo;
Quando o sol da alegria transforma-se em noite de temor e tristeza;
Quando a consolação celeste é retirada e uma desolação imensa me ameaça;
Quando o vento da tentação se eleva e as ondas das paixões se levantam;
Quando também chega uma enfermidade imprevista, ou então quando uma adversidade se precipita; 

Quando todos estes males caem sobre mim, para onde fugirei? 
Para que lado me voltarei, senão para Vós, boa Consoladora dos pobres? 
Em que horizonte fixarei meus olhos para atingir o porto, senão sobre Vós, Estrela brilhante do mar, que resplandeceis sempre e que jamais escondeis a graça de vossa luz?

Ó Maria, Mãe doce e bem-amada! Sim, em Vós me refugio. Vós sois a radiosa Estrela do mar, Vós que consolais todos os que Vos olham e chamam por Vós, e os conduzis logo ao porto da tranquilidade! Eu me refugio, pois, junto a Vós!

Se Vós estiverdes a meu favor, minha gloriosa Senhora, quem será contra mim? E se Vós me concedeis vossa graça, quem me poderá arrebatá-la? 
Estendei, pois, vosso braço sobre minha cabeça, para que eu me refugie sob sua sombra. 
Dizei à minha alma: 'Eu sou tua advogada, nada temas; como uma mãe consola seu filho, assim eu te consolarei'.

(Oração mariana de autoria de Tomás de Kempis, publicada na obra 'Esprit des Saints Illustres', século XIX)

terça-feira, 7 de julho de 2026

A SÓS COM DEUS (III)


Quero meditar atentamente sobre quais são os obstáculos que me impedem de viver esta vida espiritual e quais são aqueles que eu mesmo coloco diante de mim. Quero contemplá-los para arrancá-los de minha alma e, com firme resolução, começar a viver a vida que Deus me oferece. Para que eu a vivesse, Ele me chamou e me tirou do mundo; agora inspira-me a sair de mim mesmo e a viver a sua vida, recolhido não apenas no convento mas, sobretudo, nEle mesmo, fazendo da minha vida um Céu, vivendo do seu Amor.

No Céu e na vida do Céu, tudo é luz e beleza; tudo é transparência e claridade; Deus enche todas as coisas e tudo se vê em Deus. Por que, então, ainda não vivo essa vida espiritual? A razão está em ter desperdiçado tantos meios que Ele continuamente me concedeu para viver em união de amor com Ele: meios ordinários e extraordinários, muitos dos quais recordo muito bem.

O maior obstáculo para viver a santa vida interior não é o mundo, nem o demônio: o maior obstáculo está em que tenho mais cabeça do que coração, e mais paixões e dissipação do que prudência e sensatez. Tenho mais 'cabeça', guiada pelo meu egoísmo, pelo comodismo e pelo apego às comodidades, do que 'coração', forte e mortificado, cheio do amor e da humildade de Jesus. Quero saciar minha curiosidade e minha dissipação, e, ao mesmo tempo, permanecer recolhido e atento ao amor de Deus.

Quero o impossível: uma virtude, uma santidade e uma vida de Deus vividas de modo humano e até mundano, tanto quanto isso pode acontecer dentro de um convento. Mas a vida de Deus é vivida à maneira divina, com a atenção voltada para o interior, onde Deus habita. Tenho, pois, de expulsar de mim esse pequeno mundo que afago e alimento com fantasias em meu próprio coração, porque ele é incompatível com o amoroso olhar de Deus. Não posso unir a baixeza da terra à beleza do Céu. A vida do Céu e o amor do Céu devem dar vida ao meu coração. Mais ainda: devo confessá-lo com a fronte por terra, cheio de confusão e, ao mesmo tempo, de alegria: Deus quer ser o meu coração. Se o meu fim é amar a Deus, não deve este pensamento inundar-me de alegria e de júbilo?

A vida eterna na terra consiste em conhecer a Deus com a visão da fé e a posse da caridade; é a experiência de Deus vivido na luz do amor; é conhecê-lo interiormente, no mais íntimo de mim, tanto quanto é possível conhecê-lo, por uma viva presença sua em mim, por uma luz de afeto que ultrapassa toda luz do conhecimento natural, pela atuação da fé viva, cheia de amor, que me dá a certeza de que Deus está em mim, amando-me e preenchendo-me.

Ele está em mim por essência, presença e potência, e me plenifica com o amor de Pai, comunicando-me a sua Vida; está em mim pela vida de amor e me dá o seu amor, um amor que é mais do que amor do Céu. Eu estou em Deus, amando-o. A vida de Deus é amor experimentado; é uma realidade de conhecimento que ilumina. O amor é vida, a mais bela de todas que se vive.

[Excertos da obra 'Com Dios a Solas - Un Carmelita Descalzo', do Pe. Valentin de San Jose (1896 - 1989)]

segunda-feira, 6 de julho de 2026

SALMO 64 - UM CÂNTICO DE ALEGRIA À GRAÇA DIVINA

'O Senhor nosso Deus diz ao teu coração: eu sou a tua riqueza. Estarás atento ao que Deus te promete, se observares a justiça e desprezarás aquilo que o homem te promete para te afastar da justiça. Não te preocupes, portanto, com aquilo que o mundo promete! Tem antes em consideração o que o Criador do mundo promete!'  
(Santo Agostinho)


A vós, ó Deus... vós que atendeis as preces. Todo homem acorre a vós, por causa de seus pecados. Oprime-nos o peso de nossas faltas: vós as perdoais. Feliz aquele que vós escolheis, e chamais para habitar em vossos átrios. 

Possamos nós ser saciados dos bens de vossa casa, da santidade de vosso templo. Vós nos atendeis com os estupendos prodígios de vossa justiça, ó Deus, nosso salvador. Vós sois a esperança dos confins da terra, e dos mais longínquos mares.

Vós que, com a vossa força, sustentais montanhas, cingido de vosso poder. Vós que aplacais os vagalhões do mar, o bramir de suas vagas e o tumultuar das nações pagãs. À vista de vossos prodígios, temem-vos os habitantes dos confins da terra; saciais de alegria os extremos do oriente e do ocidente.

Visitastes a terra e a regastes, cumulando-a de fertilidade. De água encheu-se a divina fonte e fizestes germinar o trigo. Assim, pois, fertilizastes a terra: irrigastes os seus sulcos, nivelastes as suas glebas; amolecendo-as com as chuvas, abençoastes a sua sementeira.

Coroaste o ano com os vossos benefícios; onde passastes ficou a fartura. Umedecidas as pastagens do deserto, revestem-se de alegria as colinas. Os prados são cobertos de rebanhos, e os vales se enchem de trigais. Só há júbilo e cantos de alegria.

(Sl 64, 2-14)

domingo, 5 de julho de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

              

'Bendirei, eternamente, vosso nome, ó Senhor!' (Sl 144)

Primeira Leitura (Zc 9,9-10) - Segunda Leitura (Rm 8,9.11-13) - Evangelho (Mt 11,25-30)

  05/07/2026 - DÉCIMO QUARTO DOMINGO DO TEMPO COMUM

AOS MANSOS E HUMILDES DE CORAÇÃO


Deus prometeu as alegrias eternas aos que são mansos e humildes de coração: 'Aprendei de Mim que sou manso e humilde de coração' (Mt 11,29). Estes serão chamados realmente de Filhos de Deus: 'Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus' (Mt 5,9). Eis a virtude da excelência cristã, chamada Virtude do Cordeiro - a amada virtude de Jesus Cristo. Porque, como um cordeiro sem ira e sem queixa alguma, Ele suportou as dores de Sua Paixão e Crucificação, como exemplo a ser seguido. Bem aventurados os que se submetem pacificamente a todas as cruzes, infortúnios, perseguições e injúrias desta vida!

São estes os chamados 'pequeninos' por Jesus, diante os 'sábios' e 'entendidos' do mundo. O entendimento e a sabedoria, o estudo e a cultura geral, são valores essencialmente bons e agradáveis a Deus, desde que não se transformem em orgulho humano e em pilares da soberba científica. Entendimento e sabedoria são frutos da graça divina, dadas ao homem para a ascensão ao encontro da glória de Deus, e não como compartimentos ou domínios fechados da jactância humana. Deus fecha a estes o caminho das grandes revelações sobrenaturais.

Jesus chama a todos, para a conversão perfeita dos humildes de coração: 'Vinde a mim, todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso' (Mt 11,28). Chama todos a Ele, todos os que estão curvados pelas cruzes do mundo, pelos infortúnios da vida, pelo peso do pecado. As instabilidades e as misérias da vida quebrantam a nossa fé e fazem oscilar a nossa vocação cristã em meio às vertigens do mundo; a Cruz de Cristo é a luz que nos permite emergir da escuridão e das trevas do pecado.

Humildade e mansidão são os frutos da fé e da generosidade despojada daqueles que seguem a Jesus: 'Aprendei de Mim que sou manso e humilde de coração' (Mt 11,29). O caminho da santificação é talhado pela prática destas virtudes e, por meio delas, encontraremos o descanso, a paz e as alegrias eternas, como pequeninos acolhidos às graças do Senhor: 'o meu jugo é suave e o meu fardo é leve' (Mt 11,30).

sábado, 4 de julho de 2026

AS VINHAS DE DEUS (II)

 

8. Como é possível que uma alma racional, tendo uma vez provado as delícias do amor divino, possa algum dia voltar-se voluntariamente para beber as amargas águas do pecado mortal? As crianças que são alimentadas com leite, manteiga e mel detestam o amargor do absinto e da orpina, e choram lastimosamente se são forçadas a prová-los. Como, então, ó verdadeiro Deus, pode uma alma que uma vez experimentou a bondade e o amor de seu Criador abandonar-vos para seguir as vaidades do mundo?

9. A mandrágora é um encanto, que enfeitiça os olhos e suaviza a dor, a tristeza e todas as nossas paixões por meio do sono. Contudo, aquele que lhe aspira o odor por muito tempo torna-se mudo, e aquele que dela bebe profundamente morre sem remédio... Poderiam o fausto, as riquezas e os deleites dos mundanos ser melhor representados? São belos e atraentes; mas quem come desses frutos, isto é, quem os examina cuidadosamente, descobrirá que são destituídos de gosto e de prazer. Não obstante, encantam e acalmam pelo seu vão perfume; e o apreço que os filhos do mundo lhes atribuem perturba aqueles que deles desfrutam em demasia ou neles se entregam com excessiva frequência. Ora, é por uma mandrágora como esta, por vagas sombras de contentamento, que abandonamos o amor de nosso Esposo celeste. E como podemos dizer que o amamos acima de todas as coisas, quando preferimos essas miseráveis vaidades à sua graça divina?

10. Podemos dizer que uma fé morta é como uma árvore seca, sem seiva nem vitalidade, e que, por isso, quando chega a primavera e as outras árvores produzem folhas e flores, permanece desnuda e sem fruto, porque lhe falta a seiva vivificante que corre em toda árvore que vive, ainda que possa parecer morta... Assim acontece com uma fé morta, que nunca pode produzir os frutos e as flores das boas obras, as quais uma fé viva produz em todos os tempos e estações. É, portanto, pelas obras da caridade que sabemos se a fé está viva, morta ou agonizante; e, quando ela não produz boas obras, dizemos que é uma fé morta; quando essas obras são poucas e débeis, dizemos que está morrendo; ao passo que, se, pelo contrário, são frequentes e fervorosas, dizemos que é uma fé viva. Ó quão verdadeiramente bela é esta fé viva!

11. Deveis certamente esforçar-vos por corrigir as vossa pequenas faltas, porque o melhor momento para combatê-las é enquanto ainda são pequenas; pois, se esperardes que cresçam, será mais difícil vencê-las. É fácil desviar o curso de um rio junto à sua nascente, quando ele ainda é apenas um pequeno regato; mas, mais adiante, ele há de zombar dos vossos esforços. 

12. Como é possível que, tendo eu uma vontade tão grande de amar a Deus, tantas imperfeições apareçam e cresçam dentro de mim? Elas não procedem da minha própria vontade, nem são queridas por minha vontade; não, certamente que não! Nascem, parece-me, como o visco que cresce sobre a árvore, mas não faz parte da árvore.

13. O lírio não tem uma estação determinada, mas floresce mais cedo ou mais tarde, conforme a profundidade da terra em que é plantado. Pois, se for plantado apenas à profundidade de três dedos, floresce imediatamente; mas, se for plantado a seis ou nove dedos de profundidade, florescerá tanto mais tarde quanto maior for essa profundidade. Do mesmo modo, se uma alma que deseja amar a Deus estiver profundamente mergulhada nos negócios do mundo, levará muito tempo para florescer. Mas, se viver no mundo apenas na medida em que o seu estado de vida o exigir, então a vereis produzir belas flores e espalhar ao seu redor um suave perfume.

14. Como acontece que, na primavera, os cães perdem o faro e o rastro de um animal com mais facilidade do que em qualquer outra época do ano? Caçadores e filósofos dizem que isso se deve ao fato de que, nessa estação, as ervas e as flores estão em pleno florescimento, e a variedade de seus perfumes embota de tal modo os sentidos dos cães, que eles já não conseguem distinguir entre o perfume das flores e o cheiro da presa. Do mesmo modo, as almas que estão continuamente cheias de desejos, planos e projetos mundanos jamais suspiram pelo amor divino e celestial, nem conseguem seguir as pegadas amorosas do Amor Divino.

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 2, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

sexta-feira, 3 de julho de 2026

O MARTÍRIO DO PAPA SÃO SIXTO II

Era o ano de 258. O imperador Valeriano, cedendo à pressão dos clamores fanáticos levantados contra os cristãos - inflamados pelas desgraças que então afligiam o Império - renovara, no ano anterior, a perseguição à Igreja com severidade ainda maior do que a exercida por Décio.

Pela primeira vez, a santidade dos túmulos deixava de ser refúgio para os perseguidos seguidores de Jesus. O decreto imperial de 257 proibia aos cristãos frequentarem aquilo que os pagãos chamavam de seus 'cemitérios'. Mas o preceito apostólico de 'não abandonar as assembleias' (Hb 10,25) constituía uma lei superior ao édito do imperador; por isso, nas estreitas capelas subterrâneas das Catacumbas, os fiéis continuavam a assistir ao Santo Sacrifício da Missa.

Os agentes do imperador vigiavam cuidadosamente as entradas dos principais cemitérios. O grande cemitério de São Calisto era, naturalmente, o principal objeto de sua vigilância. Por essa razão, no dia 6 de agosto, o santo Pontífice Sisto II escolheu o cemitério de São Pretextato como o lugar onde celebraria os Sagrados Mistérios.

Era esse um local já santificado por mais de um século de recordações sagradas. Ali repousava o tribuno São Quirino, que sofrera o martírio pela fé no tempo do imperador Adriano. Ali a nobre Marmênia construíra uma câmara subterrânea abobadada, onde depositara os preciosos restos de São Januário, o primogênito dos sete filhos mártires de Santa Felicidade, cuja inscrição funerária, composta pelo Papa São Dâmaso, só veio a ser descoberta nos tempos mais recentes.

Ali também haviam sido sepultados Valeriano, esposo mártir de Santa Cecília, juntamente com seu irmão Tibúrcio e Máximo, companheiro de ambos no martírio. Pouco depois, seria igualmente sepultado numa das capelas dessa mesma catacumba o santo bispo Urbano, que justamente naquele lugar os instruíra na fé.

E agora uma procissão de futuros mártires avança pelo corredor excepcionalmente amplo desse antigo cemitério. O mais venerado santuário desse cemitério era o túmulo de São Januário; e é para lá, ao que tudo indica, que a procissão se dirige. Os diáconos Felicíssimo e Agapito preparam o altar, enquanto o arquidiácono Lourenço permanece junto do venerável Pontífice, pronto para servi-lo em tudo. Destacado por sua viril formosura e ardentemente amado por todos os pobres e aflitos entre os fiéis, o arquidiácono, de traços nobres e delicadamente esculpidos, parecia irradiar uma incomum auréola de santidade enquanto ajudava o Papa a revestir-se dos paramentos sagrados e a dar início ao Santo Sacrifício.

A Missa prossegue. Os fiéis já receberam das mãos de Sisto o Pão do Céu. Em seguida, o Pontífice, rodeado pelos seus diáconos, toma assento na cátedra de pedra junto ao altar e começa a dirigir a palavra aos presentes. De repente, ouve-se ao longe um grito de alarme. O estrépito das armas e o tropel de numerosos passos ecoam rapidamente pelo corredor subterrâneo. Aqueles que não conseguem fugir encontram coragem na serenidade imperturbável dos ministros sagrados, enquanto seus corações se fortalecem pelas palavras quase inspiradas do Pontífice.

Um traidor conduzira os sicários de Valeriano aos recessos da Catacumba; e ali eles prenderam os sete diáconos e puseram mãos sacrílegas sobre a pessoa sagrada do Vigário de Cristo. O santo Pontífice suplicou-lhes que lhe tirassem a vida, mas poupassem o seu rebanho: 'Se é a mim que procurais, deixai que estes se retirem em paz'. Quando chegaram à cidade, os guardas encarregados de São Lourenço prepararam-se para separá-lo dos demais. Então, pela primeira vez, um amargo clamor de dor brotou de seu coração. Parecia-lhe que a gloriosa coroa do martírio estava prestes a ser-lhe arrebatada e que somente ele, entre os diáconos de Roma, ficaria privado da honra de acompanhar seu amado Pontífice no supremo sacrifício. 

Exclamou então, dirigindo-se a São Sisto: 'Pai, para onde ides sem vosso filho? Para onde ides, ó sacerdote, sem vosso diácono? Nunca costumastes oferecer o Sacrifício sem que eu vos assistisse como ministro. Em que vos desagradei? Em que faltei ao meu dever? Ponde-me agora à prova e vede se escolhestes um ministro indigno de distribuir o Sangue do Senhor'.

São Sisto, profundamente comovido pelo apelo daquele nobre jovem, consolou-o com palavras que revelavam o quanto conhecia e estimava o caráter de seu dileto arquidiácono: 'Não te deixo, meu filho. Uma prova maior e uma vitória mais gloriosa estão reservadas para ti, que és forte e te encontras no vigor da juventude. Nós somos poupados às torturas por causa de nossa fraqueza e da nossa idade. Dentro de três dias, tu me seguirás' [São Lourenço foi queimado vivo sobre uma grelha]. 

Em seguida, confiou reservadamente ao arquidiácono a missão de distribuir entre os pobres todos os tesouros da Igreja, inclusive os cálices de ouro e os candelabros de prata que haviam despertado a cobiça do prefeito. Logo depois, Sisto foi conduzido perante os juízes e condenado à morte por haver desobedecido ao édito do imperador. E, para tornar ainda mais solene e intimidatória a proibição de frequentar as Catacumbas, determinou-se que Sisto e quatro de seus diáconos fossem executados precisamente na capela onde haviam sido presos.

Mais uma vez o cemitério de São Pretextato ressoou com o tropel de homens armados. Mais uma vez os fiéis acorreram timidamente à entrada da capela subterrânea, que permanecia exatamente como fora deixada quando o sermão de São Sisto havia sido tão brutalmente interrompido. Mas São Lourenço já não estava ao lado do Pontífice. Preparava-se para o seu próprio e glorioso martírio. O venerável Papa foi colocado à força em sua cátedra episcopal, e um soldado decepou-lhe a cabeça, de modo que a cadeira ficou tingida pelo seu sangue. Felicíssimo, Agapito e outros dois diáconos receberam, ao mesmo tempo, a coroa do martírio. Mais tarde, os fiéis lhes deram sepultura na capela de São Januário.

Os preciosos despojos de São Sisto foram, durante a escuridão da noite, transportados com profunda veneração para o vizinho cemitério de São Calisto, onde foram depositados no lugar de maior honra da cripta, junto aos muitos Papas mártires que ali já repousavam. O reboco que revestia a entrada dessa cripta papal conserva numerosas inscrições (graffiti) deixadas pelos peregrinos dos séculos III e IV. Entre todos os nomes ali invocados, nenhum aparece com tanta frequência quanto o de São Sisto II.

Eis um exemplo: Sancte Sixte in mente habeas in orationes Aureliu Repentinu - São Sisto, lembrai-vos em vossas orações de Aurélio Repentino. Esse simples pedido gravado na parede da catacumba testemunha a fé dos primeiros cristãos na intercessão dos santos e a profunda veneração de que gozava o Papa mártir poucas gerações após o seu sacrifício.

No reboco de um lóculo escavado no arco acima da pedra do altar, na capela de São Januário, provavelmente datado da época de São Dâmaso, ainda hoje se pode ler uma singela inscrição: 'Januário, Felicíssimo e Agapito, concedei refrigério* à alma de...' - seguindo-se o nome, hoje perdido, da pessoa ali sepultada.

(Excertos da obra Legends of the Blessed Sacrament, de Emily Mary Shapcote, 1877)

* O termo 'refrigério' traduz o antigo pedido cristão refrigerare animam, muito frequente nas inscrições funerárias das catacumbas.