quinta-feira, 28 de maio de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XX)

           

PARTE III - O INFERNO

II. Sobre a fome e a sede padecidos no Inferno

Assim como os crimes pelos quais o pecador, nesta vida, provoca a ira de Deus são de vários tipos, também as dores do inferno, pelas quais esses crimes serão punidos, variam em sua natureza. Sabemos que os homens muitas vezes pecam por intemperança, entregando-se avidamente à comida e à bebida. Consequentemente, Deus designou uma pena severa para esse pecado no outro mundo. Cristo o prediz, de fato, com estas palavras: 'Ai de vós que estais saciados, pois tereis fome' (Lc 6,25).

Quando Nosso Senhor pronuncia a palavra 'Ai', Ele sempre pretende ameaçar ou predizer alguma grande calamidade. Consideremos por um momento o que isso realmente significa neste caso. É impossível para nós formarmos uma ideia verdadeira das dores da fome, porque nunca as sentimos. Se durante um dia inteiro alguém não tem nada para comer, o tempo parece muito longo e a pessoa deseja muito algum alimento. E se alguém fosse privado de qualquer alimento por dois ou três dias, que miséria seria! Mas se um homem não tivesse absolutamente nada para comer durante uma semana inteira e fosse deixado à mercê da fome, o que seria dele?

Em tempos de escassez e fome, fica-se horrorizado ao ver quais são os efeitos produzidos pela fome e que terrível flagelo é a escassez de alimentos. Pois, para acalmar as dores insuportáveis da fome, as pessoas devoram tudo o que conseguem encontrar: grama, folhas, animais imundos e repugnantes; sim, os homens chegaram até a se alimentar da carne de seus semelhantes, mães sacrificaram seus filhos, e sabe-se que alguns roeram sua própria carne. E quando os pobres infelizes famintos não têm mais nada, vagam como sombras de si mesmos, pálidos e emaciados como a própria morte.

Eles arrastam uma existência moribunda até que todas as suas forças se esgotem; finalmente, pela tortura da fome, perdem os sentidos; deliram, gritam e uivam, e morrem da mais miserável das mortes. Se tais são os efeitos da fome na Terra, como será a fome que se experimentará no Inferno?

Se a falta de comida por apenas alguns dias causa tal tortura, como será uma fome contínua e sem fim? Quem pode pensar sem horror na fome sofrida no Inferno! Ai daqueles que tiverem de suportá-la. O profeta Isaías testemunha a existência de uma fome real e efetiva no Inferno, nesta passagem da Sagrada Escritura: Deus assim fala pela boca do profeta: 'Porque eu chamei e vocês não responderam, falei e vocês não ouviram; eis que os meus servos comerão e vocês terão fome; eis que os meus servos beberão e vocês terão sede. Meus servos se alegrarão e vós ficareis confusos; meus servos louvarão com alegria no coração e vós chorareis de tristeza no coração, e uivareis de dor no espírito' (Is 65, 12-14). 

Quem pode dizer quão terrível será essa fome no Inferno? O salmista diz dos inimigos de Deus que sofrerão fome como cães (Sl 58,7). Os réprobos serão então constantemente atormentados pela fome mais voraz, por uma fome tão grande que excederá além da medida a fome suportada em tempos de fome, por uma fome que os atormentará para sempre.

O que vocês fizeram, ó infelizes pecadores! Vocês trouxeram sobre si mesmos esta dor eterna. Se tivessem feito penitência nesta vida, não teriam se tornado presas desta fome eterna. Mas vocês desejaram comer e se saciar em vida; consequentemente, agora devem suportar o que Cristo predisse que seria o seu destino: 'Ai de vocês que estão saciados, pois terão fome'.

Que tomem isto especialmente a sério aqueles que costumam negligenciar deliberadamente a observância dos jejuns prescritos e comer carne nos dias de abstinência. Pois quem come carne nos jejuns da Igreja sem necessidade e sem ter sido dispensado, comete um pecado grave. Fazer isso equivale a desafiar a Igreja e excluir-se voluntariamente de sua bênção. E aquele que persiste nesse pecado, e não se arrepende sinceramente dele, não pode esperar a felicidade eterna. O que poderia ser mais imprudente e insensato do que, por uma satisfação tão desprezível, expor-se ao perigo da perdição eterna! Ó pecador obstinado, para onde vais! Pensa na fome sem fim que será suportada no Inferno e tem piedade da tua própria alma!

Além da fome, os condenados sofrem a sede mais ardente, que está além do poder das palavras para descrever. Todos sabem quão terríveis são os sofrimentos causados pela sede: são simplesmente insuportáveis. Aqueles que são atormentados pela sede beberão das fontes mais impuras, e se nada puder ser obtido para saciar sua sede, o resultado será uma morte lenta e dolorosa. A sede sofrida pelas almas perdidas é infinitamente maior, mais intensa, mais dolorosa do que qualquer sede experimentada na terra, por maior que seja. Se um homem mortal pudesse senti-la mesmo que por um breve período, desmaiaria e morreria imediatamente.

Nunca há descanso ou trégua para os condenados; eles são levados de um tormento a outro incessantemente. Isso provoca sede. Mas o calor do fogo do Inferno, no qual ardem dia e noite, para todo o sempre, é a principal causa da sede intolerável que os consome. Eles estão imersos em chamas e nunca obtêm o alívio de um gole de água. Meu Deus, quão grande deve ser a sede deles! É insuportável, e ainda assim eles precisam suportá-la. Ouça o apelo lastimável de uma alma perdida implorando fervorosamente pela graça de uma única gota de água: 'Pai Abraão, tem misericórdia de mim e manda Lázaro molhar a ponta do dedo na água para refrescar a minha língua; pois estou atormentado nesta chama' (Lc 16,24). 

'Deus misericordiosíssimo, peço apenas água; anseio por apenas uma gota de água para dar alívio momentâneo à minha língua em chamas. Tu não recusarás um pedido tão moderado, Tu que és louvado por todas as tuas criaturas como a própria bondade'. Mas esta súplica é em vão. Deus faz ouvidos moucos à voz do seu apelo. Nem uma única gota de água é dada para mitigar os seus sofrimentos. É possível, ó meu Deus, que Tu possas ser tão severo? Pai de compaixão, por que não queres ouvir a oração deles? Tua justiça e Teu ódio ao pecado não te permitem ceder; eles te obrigam a punir o pecado eternamente e da maneira mais terrível.

Mas nos é dito que os condenados não apenas são atormentados por fome e sede excessivas, como também são alimentados com chamas e obrigados a beber do cálice da ira divina. 'Se alguém adorar a besta, também beberá do vinho da ira de Deus, que está misturado com vinho puro no cálice da sua ira, e será atormentado com fogo e enxofre. E a fumaça de seus tormentos subirá para todo o sempre' (Ap 14,10). No livro de Moisés também lemos: 'O vinho deles é o fel dos dragões e o veneno das víboras, que é incurável' (Dt 32,33).

Reflita, ó pecador, sobre esta agonia indescritível. Fogo e enxofre serão o alimento dos condenados e a sua bebida, o vinho da ira de Deus. O que pode exceder tal tortura? Meu Deus, quão rigoroso és! Quão severos são os teus castigos! Pensem, vós, pecadores, que agora bebeis em excesso, pensai qual é o vinho preparado para vós no futuro, pensai na terrível sede que vos consumirá por toda a eternidade. Se não suportais ter sede por um dia, como suportareis a sede ardente da qual nunca obtereis alívio? Refleti sobre isso em vosso coração e não vos entregueis mais à vossa intemperança. Abandonai esse vício, que infalivelmente vos arrastará para a perdição.

São Paulo fecha expressamente a porta do Céu para vocês, quando diz: 'Os bêbados não herdarão o reino de Deus' (1Cor 6,10). Aí está a sentença, pronunciada contra vocês de antemão. Se continuarem a seguir o caminho do mal, não poderão alegar ignorância quanto ao destino ao qual serão condenados.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quarta-feira, 27 de maio de 2026

VERSUS: O MUNDO DOS BONS X O MUNDO DOS MAUS


Nosso Senhor foi um modelo incomparável de paciência: aguentou um 'demônio' entre os seus discípulos até à sua Paixão (Jo 6,70). Dizia Ele: 'Deixai um e outro crescer juntos, até à ceifa, para que não suceda que, ao apanhardes o joio, arranqueis o trigo ao mesmo tempo' (cf Mt 13,29). Tendo a rede como símbolo da Igreja, predisse que esta traria para a praia, quer dizer, até ao fim do mundo, toda a espécie de peixes, bons e maus. E deu a conhecer de muitas outras maneiras, tanto abertamente como através de parábolas, que haveria sempre essa mistura de bons e maus. E, no entanto, afirmou que é necessário vigiar pela disciplina na Igreja quando disse: 'Se o teu irmão pecar, vai ter com ele e repreende-o a sós. Se te der ouvidos, terás ganho o teu irmão' (Mt 18,15).


Mas hoje vemos pessoas que só tomam em consideração os preceitos rigorosos, que mandam reprimir os que causam perturbação, que ordenam que 'não se dêem aos cães as coisas santas', que se 'tratem como aos publicanos' aqueles que desprezam a Igreja, que se repudiem do seu corpo os membros escandalosos (Mt 7,6; 18,17; 5,30). O seu zelo intempestivo causa muita tribulação à Igreja, porque desejariam arrancar o joio antes do tempo e a sua cegueira faz deles próprios inimigos da unidade de Jesus Cristo.

Tomemos cuidado em não deixarmos entrar no nosso coração estes pensamentos presunçosos, em não procurarmos destacar-nos dos pecadores para não nos sujarmos com o seu contato, em não tentarmos formar como que um rebanho de discípulos puros e santos. Sob o pretexto de não convivermos com os maus, conseguiríamos apenas romper a unidade. Pelo contrário, recordemo-nos das parábolas da Escritura, dessas palavras inspiradas, desses exemplos tocantes, onde se nos demonstra que os maus estarão sempre misturados com os bons na Igreja, até ao fim do mundo e até ao dia do juízo, sem que a sua participação nos sacramentos seja prejudicial aos bons, desde que estes não participem dos pecados daqueles.

(Excertos da obra 'A fé e as obras', de Santo Agostinho)

segunda-feira, 25 de maio de 2026

O VALE DOS OSSOS SECOS


1. A mão do Senhor desceu sobre mim. Ele me arrebatou em espírito e me colocou no meio de um vale que estava coberto de ossos.

2. Ele fez-me circular em todos os sentidos no meio desses ossos numerosos que jaziam na superfície. Vi que estavam inteiramente secos.

3. Disse-me o Senhor: 'Filho do homem, poderiam esses ossos retornar à vida?'. 'Senhor Javé' – respondi – 'só vós o sabeis'.

4. Ele disse-me então: 'Profere um oráculo sobre esses ossos. Ossos dessecados, lhes dirás, escutai a palavra do Senhor:

5. eis o que vos declara o Senhor Javé: vou fazer reentrar em vós o sopro da vida para vos fazer reviver.

6. Porei em vós músculos, farei vir carne sobre vós, vos cobrirei de pele; depois farei entrar em vós o sopro da vida, a fim de que revivais. E sabereis assim que eu sou o Senhor.

7. Profetizei, pois, assim como tinha recebido ordem. No momento em que comecei, um barulho se fez ouvir, em seguida um ruído ensurde­cedor, enquanto os ossos se vinham unir aos outros.

8. Prestando atenção, vi que se formavam sobre eles músculos, que nascia neles carne e que uma pele os recobria. Todavia, não tinham espírito.

9. Profetiza ao espírito, disse-me o Senhor, profetiza, filho do homem, e dirige-te ao espírito: eis o que diz o Senhor Javé: vem, espírito, dos quatro cantos do céu, sopra sobre esses mortos para que reviva'.

10. Proferi o oráculo que ele me havia ditado, e daí a pouco o espírito penetrou neles. Retornando à vida, eles se levantaram sobre seus pés: um grande, um imenso exército.

11. Então, o Senhor me disse: 'Filho do homem, esses ossos são toda a raça dos israelitas. Eles dizem: nossos ossos estão secos, nossa esperança está morta; estamos perdidos!

12. Por isso, dirige-lhes o seguinte oráculo: eis o que diz o Senhor Javé: Ó meu povo, vou abrir os vossos túmulos; eu vos farei sair deles para vos transportar à terra de Israel.

13. Sabereis, então, que eu é que sou o Senhor, ó meu povo, quando eu abrir os vossos túmulos e vos fizer sair deles,

14. quando eu colocar em vós o meu espírito para vos fazer voltar à vida e quando vos hei de restabelecer em vossa terra. Sabereis então que sou eu o Senhor, que o disse e o executei – oráculo do Senhor'.

(Ez 37,1-14)

domingo, 24 de maio de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

         

'Enviai o vosso Espírito, Senhor, e da terra toda a face renovai!' (Sl 103)

Primeira Leitura (At 2,1-11) - Segunda Leitura (1Cor 12,3b-7.12-13) - Evangelho (Jo 20,19-23)

  24/05/2026 - DOMINGO DE PENTECOSTES

SOLENIDADE DE PENTECOSTES


Emitte Spiritum tuum et creabuntur et renovabis faciem terrae

'Enviai, Senhor, o vosso espírito criador
e será renovada toda a face da terra'

Originalmente, Pentecostes representava uma das festas judaicas mais tradicionais de 'peregrinação' (nas quais os israelitas deviam peregrinar até Jerusalém para adorar a Deus no Templo), sempre celebrada após 50 dias da Páscoa e na qual eram oferecidas a Deus as primícias das colheitas do campo. No Novo Pentecostes, a efusão do Espírito Santo torna-se agora o coroamento do mistério pascal de Jesus Cristo, na celebração da Nova Aliança entre Deus e a humanidade redimida.

Eis que os apóstolos encontravam-se reunidos, com Maria e em oração constante, quando 'todos ficaram cheios do Espírito Santo' (At 2,4), manifestado sob a forma de línguas de fogo, vento impetuoso e ruídos estrondosos, sinais exteriores do poder e da grandeza da efusão do Novo Pentecostes. Luz e calor associados ao fogo restaurador da autêntica fé cristã; ventania que evoca o sopro da Verdade de Deus sobre os homens; reverberação que emana a força da missão confiada aos apóstolos reunidos no cenáculo e proclamada aos apóstolos de todos os tempos.

O Paráclito é derramado numa torrente de graças, distribuindo dons e talentos, porque 'Há diversidade de dons, mas um mesmo é o Espírito. Há diversidade de ministérios, mas um mesmo é o Senhor. Há diferentes atividades, mas um mesmo Deus que realiza todas as coisas em todos' (1Cor 12,4-6). Na simbologia dos vários membros de um mesmo corpo, somos mensageiros e testemunhas de Cristo no meio dos homens, na identidade comum de Filhos de Deus partícipes e continuadores da missão salvífica de Cristo: 'Como o Pai me enviou, também Eu vos envio' (Jo 20,21).

No Espírito Consolador, não somos mais meros expectadores de uma efusão de graças e dons tão diversos, mas apóstolos e testemunhas, iluminados e portadores da Verdade, pela qual será renovada a face da terra e pelo qual será apagada a mancha do pecado no mundo: 'Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos' (Jo 20,22-23).

sábado, 23 de maio de 2026

TRÊS PESSOAS DISTINTAS E UM ÚNICO DEUS

Vi um grande palácio de magnitude incompreensível, semelhante ao céu sereno, no qual havia inúmeras pessoas assentadas e vestidas com roupas brancas e resplandecentes como os raios do sol. No palácio, vi um trono maravilhoso no qual estava sentado um homem mais resplandecente que o sol, de beleza incompreensível, e Senhor de imenso poder, cujo esplendor era também incompreensível em extensão, largura e profundidade. Ao lado do assento do trono, havia uma Virgem que brilhava com admirável resplendor e usava uma coroa preciosa. Todos os presentes serviam àquele que estava sentado no trono, louvando-o com hinos e cânticos, e honravam com reverência aquela Virgem, como Rainha dos céus.

Então, aquele que estava no trono me disse com voz majestosa: Eu sou o Criador do céu e da terra, um único Deus verdadeiro com o Pai e com o Espírito Santo; porque o Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito Santo é Deus; e, apesar de tudo isso, não são três deuses, mas três pessoas distintas e um único Deus. Mas agora, você poderá me perguntar: se são três pessoas, por que não são três deuses? Ao que respondo que Deus é o próprio poder, a própria sabedoria e a própria bondade, de quem provém todo o poder abaixo e acima do céu, toda a sabedoria e toda a piedade que se possa imaginar. Assim, pois, Deus é trino e uno; trino em pessoas e uno em essência. Porque poder e sabedoria é o Pai, de quem procedem todas as coisas, e que é poderoso acima de tudo, não por ninguém, mas por si mesmo e eternamente.

Poder e sabedoria é também o Filho, igual ao Pai, mas não como poder originado de si mesmo, sim poderosamente e inefavelmente gerado pelo Pai, que é princípio do princípio, e jamais separado do Pai. Poder e sabedoria é também o Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho, eterno com o Pai e com o Filho, e igual em majestade e poder. Há, portanto, um único Deus e três pessoas, porque uma só é a natureza das três, uma só a operação e a vontade, e uma só a glória e o poder; um só em essência e distintos na propriedade das pessoas. Pois todo o Pai está no Filho e no Espírito Santo, e o Filho no Pai e no Espírito Santo, e o Espírito Santo em ambos numa única natureza da Divindade; não antes nem depois, mas de uma maneira inefável, onde nada há anterior nem posterior, nada maior ou menor que o outro ou de outra espécie, mas tudo inefável e igual; por essa razão está sabiamente escrito que Deus é admirável e muito digno de louvor.

Deus, pois, enviou seu Verbo à Virgem Maria por meio de seu anjo Gabriel; mas, no entanto, o mesmo Deus que enviava e era enviado com o anjo, estava em Gabriel e na Virgem antes da missão de Gabriel. Mas, assim que o anjo proferiu aquelas palavras, o Verbo assumiu a carne da Virgem. Esse Verbo sou eu, que estou falando contigo. O Pai enviou-me ao seio da Virgem, mas não de tal forma que os anjos ficassem privados da visão e da presença da minha divindade, mas sim que eu, o Filho, que com o Pai e com o Espírito Santo estive no ventre virginal, era o mesmo no céu com o Pai e com o Espírito Santo na presença dos anjos, governando e mantendo tudo, embora a minha humanidade, assumida apenas por mim, repousasse no ventre de Maria.

Eu, que sou um único Deus, não me desdenho de falar contigo para encontrar o meu amor e para fortalecer a santa fé cristã. E mesmo que te pareça que a minha humanidade está junto a ti e fala contigo, mais certo é que a tua alma e a tua inteligência estão comigo e em mim, pois nada me é impossível, nada me é difícil no céu nem na terra. Eu sou como um poderoso Rei que, quando chega à cidade com seu exército, tudo preenche e ocupa; da mesma forma, minha graça preenche e fortalece todos os teus membros. Estou em ti e fora de ti, e embora fale contigo, sou, no entanto, o mesmo na glória. O que me é difícil, a mim, que com meu poder sustento todas as coisas, com minha sabedoria disponho tudo e com minha virtude supero tudo? Eu, um único Deus com o Pai e com o Espírito Santo, sem princípio e sem fim, que pela salvação dos homens assumi a carne humana, permanecendo intacta a divindade, sofri verdadeiramente, ressuscitei e subi aos céus; agora, na verdade, estou falando contigo.

Eu sou o verdadeiro Imperador e Senhor. Não há senhor mais excelente do que eu, nem houve antes de mim, nem haverá depois de mim; mas todo domínio vem de mim e por mim. Eu sou, portanto, o verdadeiro Senhor, e ninguém deve chamar-se verdadeiro senhor, a não ser eu sozinho, porque de mim procede todo poder e domínio, e ninguém pode resistir ao meu poder.

(Das Profecias e Revelações de Santa Brígida)

sexta-feira, 22 de maio de 2026

AS CRUZES LUMINOSAS

Cercados e envolvidos por tantos afazeres e labores, nem questionamos as pequenas vicissitudes e contrariedades do dia a dia, um amontoado de percalços que, somados, poderiam nos fazer galgadores de montanhas... Mal os percebemos e, uma vez ultrapassados e vencidos, recaem no anonimato dos tempos e nas perdas da memória pouco atenta.

Somos viajantes impelidos pela pressa, pelo seguir sempre em frente, andarilhos de praças e esquinas que não levam a lugar nenhum. E caminhamos sós, ensimesmados, senhores do nosso rumo e escravos dos nossos passos. E fatigados de carregar os fardos da vida, como que autômatos do ir e vir de todo santo dia, dias que na verdade nada têm de santos. 

Porque nunca estamos sós e porque não prestamos atenção como desviamos e superamos os contrapesos e os obstáculos da longa caminhada de uma vida inteira. Deus nos dá, a cada passo e a cada dia, estes benditos frutos de provações e contratempos, não como fardos e preocupações inúteis, mas como pequenas cruzes luminosas para nos guiar, entre as trevas do mundo, no caminho da luz. Quão benditas e venturosas são estas pequenas atribulações cotidianas, que incomodam, inquietam e perturbam o ciclo cotidiano de nossas vidas! Deus nos dá, com elas, centenas de suaves e aveludadas oportunidades de crescer na graça e colher frutos abundantes de santificação pessoal. 

Temos essa percepção? Ou apenas estas coisas induzem em nós tédio e indisposição? Sabemos ver as cruzes luminosas de cada dia ou fingimos estar bem, mesmo envolvidos por completa escuridão? Ansiamos pelos Céus olhando o chão? 

Que Deus nos dê a graça de ter muitas e muitas cruzes luminosas a cada dia, nos guiando para o seu caminho de luz. Que não nos acostumemos a tatear desnorteados na escuridão e nem nos fingirmos de cegos. Que sejamos viajantes de alma lavada e de dias santos. E que mal algum nos possa prostar por terra e nos afastar do amor de Deus. Amém.