terça-feira, 20 de outubro de 2026

ORAÇÃO À MÃE E RAINHA PELA PÁTRIA

Querida Mãe, Rainha e Vencedora Três Vezes Admirável de Schoenstatt, diante da grandeza das aflições que oprimem nosso povo e nossa pátria, sentimos profundamente a nossa pequenez filial.

Confiando, porém, inabalavelmente em tua sabedoria, tua bondade e teu poder, colocamos em tuas mãos maternais o destino da nossa pátria.

O Brasil é consagrado ao teu imaculado coração. Por isso, neste tempo angustiante, mostra-te como o grande sinal no céu de nossa pátria e ergue aqui um monumento de teu amor e poder.

Revela tua magnificência como Rainha e Esmagadora da serpente infernal.

Recebe a coroa e o cetro.

Nós te proclamamos e coroamos solenemente como Rainha e Presidente de nosso povo e de nossa pátria. Amém.

O Movimento Apostólico de Schoenstatt* é um movimento católico de espiritualidade mariana, fundado pelo padre José Kentenich em 18 de outubro de 1914, na Alemanha. O nome Schoenstatt vem do lugar onde surgiu, numa pequena capela. Chegou ao Brasil em 1935. Maria é venerada sob o título de 'Mãe, Rainha e Vencedora Três Vezes Admirável de Schoenstatt'.

* pronuncia-se 'chúnstat' em alemão, com ênfase na primeira sílaba; no Brasil, é comum o uso das pronúncias 'chénstat' ou 'chânstat', com ênfase na primeira sílaba.

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

VERSUS: SANTOS DESEJOS

'A razão pela qual, nesta vida, a alma não pode ter essa paz é que seu desejo não fica saciado enquanto não chega à união com a essência divina. Enquanto é peregrina e viajante nesta vida, tem somente fome e desejo: desejo de seguir o caminho reto e fome de chegar ao seu termo e fim. Esse desejo a faz correr pelo caminho, pela estrada trilhada por Cristo crucificado, como foi dito acima; pois, se não tivesse amor ao seu fim, isto é, a Deus, não se preocuparia em conhecer o caminho.

Quero, portanto, que façais crescer o santo e verdadeiro desejo de seguir esse caminho, que vos faz chegar ao vosso destino. Sabei que ele não é obscuro, nem tenebroso, nem cheio de espinhos; pelo contrário, é luminoso, iluminado pela verdadeira luz. Jesus Cristo, que é a própria luz, abriu essa estrada com o seu Sangue. Não há nela espinhos: é perfumada, cheia de flores e de suaves frutos, de modo que, assim que a criatura começa a percorrer essa estrada e esse doce caminho, experimenta tamanha doçura que prefere a morte a abandoná-lo.

E, embora nesse caminho se vejam espinhos, que parecem ser os espinhos de muitas tribulações e ilusões do demônio, e o mundo se apresente diante de nós com sua soberba inflada, digo que a alma que se deleita nesse caminho não lhes dá importância. Faz como aquele que vai à roseira: colhe a rosa e deixa o espinho. Assim também ela deixa para trás as tribulações e angústias do mundo e colhe a rosa perfumada da verdadeira e santa paciência, colocando diante dos olhos do entendimento o Sangue do Cordeiro, que dá vida, posto à frente dessa estrada'.

'Aprendei com Cristo, a primeira e doce Verdade, que, pela fome e sede que tinha, pelo ardente desejo de nossa salvação, clamava no lenho da santíssima cruz, dizendo: 'Tenho sede!' Como se dissesse: 'Tenho mais sede e desejo de vossa salvação do que vos posso demonstrar por meio deste sofrimento finito'. Pois a dor da sede do santo desejo é infinita, enquanto o seu sofrimento é finito. Assim, Ele nos manifesta a sede que tem do gênero humano, embora também fosse corporalmente afligido pela sede.

Ó doce e bom Jesus, ao mesmo tempo manifestais a vossa sede e pedis que vos deem de beber! E quando é que pedis de beber à alma? Quando nos mostrais o vosso afeto e a vossa caridade, Senhor meu... por amor Ele deu o Sangue, e com esse mesmo amor nos pede de beber. Isto é: aquele que ama pede para ser amado e servido. É justo que aquele que ama seja amado. Então a alma dá de beber ao seu Criador quando lhe retribui amor por amor. Mas não pode retribuir-lhe por algum serviço que possa prestar diretamente a Ele, e sim por intermédio do próximo. Por isso, a alma se volta com tanta solicitude a servir o próximo naquele serviço que reconhece ser mais agradável a Deus; e nele se exercita'.

(Das Cartas de Santa Catarina de Sena)

BREVIÁRIO DIGITAL: A PEQUENA VIA (IV)

 

Neste mundo, não há fecundidade sem sofrimento - seja uma dor física, uma tristeza secreta ou provações por vezes conhecidas somente por Deus. Quando bons pensamentos e resoluções generosas brotam em nossas almas pela leitura das vidas dos santos, não devemos nos contentar, como no caso dos livros profanos, em prestar certo tributo de admiração ao talento de seus autores; devemos, antes, considerar o preço que, sem dúvida, pagaram pelo bem sobrenatural que produziram.

(Santa Teresa do Menino Jesus)

domingo, 18 de outubro de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

      

'Ó família das nações, dai ao Senhor poder e glória!' (Sl 95)

Primeira Leitura (Is 45,1.4-6) - Segunda Leitura (1Ts 1,1-5b) - Evangelho (Mt 22,15-21)

  18/10/2026 - VIGÉSIMO NONO DOMINGO DO TEMPO COMUM

 'DAI A DEUS O QUE É DE DEUS'


Os fariseus encontravam-se plasmados em fúria; Jesus lhes dera a conhecer a dureza dos seus corações por meio de diversas parábolas. Tramavam a morte do Senhor, mas não a ousavam praticar de pronto temendo a perda de controle da situação e a insubmissão do povo. Era preciso criar subterfúgios, angariar apoio com encenações hipócritas, mentir e difamar, submeter Jesus a ciladas constrangedoras. Era preciso fazer a perfídia humana assumir a dimensão diabólica de um deicídio.

As velhas serpentes mandam alguns dos seus próprios discípulos e outros tantos coligados a Herodes para, com uma questão aparentemente proposta na forma de um dilema de consequências desastrosas, imporem a Jesus uma prova definitiva de condenação pública e explícita. Depois das adulações fraudulentas - 'Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus...' (Mt 22,16), questionam Jesus se seria lícito ou não pagar o tributo imposto pelo governo romano. Em caso de uma resposta afirmativa, seria um declarado manifesto de submissão ao domínio de Roma; em caso negativo, Jesus seria o potencial mentor de uma sublevação.

Percebendo a malícia diabólica daqueles homens, Jesus os revela publicamente como hipócritas e, tomando nas mãos uma moeda cunhada com a efígie do imperador romano e, em resposta à declaração pública de que a figura e a inscrição presentes na mesma referem-se a César, responde: 'Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus' (Mt 22,21). Em outros termos, Jesus declara à turba ensandecida dos fariseus: as obras humanas são necessárias, boas em si e devem ser feitas de acordo e ajustadas às circunstâncias e valores do mundo; as obras humanas inseridas na vida plena com Deus, entretanto, tornam-se instrumentos de graças e de salvação eterna.

Na moeda romana, convergem a figura de um homem e o valor de uma dada atividade humana. No espelho da alma, reflete-se em nós a própria imagem de Deus. Possuir e conviver com as coisas do mundo e delas se ocupar no cotidiano de nossas vidas, é vida que segue, é o suor do trabalho de nossa herança adâmica. Buscar as coisas do Alto, e projetar todas as nossas ações e pensamentos para a suprema glória divina, é o triunfo de nossa herança como filhos de Deus. No mundo ou passando pelo mundo, o livre arbítrio nos conduz a vivermos para César ou para Deus.

sábado, 17 de outubro de 2026

LENDAS DA BEM AVENTURADA VIRGEM MARIA (III)

O que se segue é, mais propriamente, uma página da história eclesiástica do que uma lenda. Julgamos, porém, que um breve relato do concílio realizado em Éfeso teria lugar muito apropriado num volume dedicado à narração das maravilhas operadas pela intercessão da sempre bendita 'Mãe de Deus'. Ao confirmar à Santíssima Virgem esse sublime título, o Concílio ensinou-nos que jamais poderemos formar uma ideia demasiado elevada do poder e da majestade daquela a quem recorremos em nossas necessidades.

No século V, enquanto ilustres doutores combatiam o arianismo e todas as outras pequenas seitas que atacavam a rocha inexpugnável sobre a qual está estabelecida a cátedra de Pedro, surgiu entre os defensores da Igreja um homem de grande mérito, de palavra poderosa, de vasta erudição e respeitado pela austeridade de sua vida. Chamava-se Nestório e tornou-se patriarca de Constantinopla. Sua vaidade foi estimulada pelos grandes aplausos que recebia. Em um de seus sermões, disse ao jovem Teodósio: 'Purificai a terra das heresias, e eu vos prometo as alegrias do céu'. Era uma afirmação ousada. Ele combatia o arianismo, mas substituiu o zelo da caridade pela violência; incitou o povo contra os arianos, expulsando-os à força de suas assembleias e arrasando suas igrejas. Contudo, durante todo esse tempo, ele próprio sustentava uma doutrina errônea.

Admitia que havia em Cristo duas naturezas que agiam em conjunto. 'Jesus Cristo' - dizia ele - 'enquanto homem, nasceu da Santíssima Virgem, sofreu e morreu; mas Cristo, enquanto Deus, dirigia o homem Jesus, ao qual estava ligado apenas por uma união moral'. Primeiramente, conseguiu o auxílio de homens fracos para pregar essa doutrina, que depois ele próprio passou a professar, no ano de 428. O povo percebeu imediatamente que ele pretendia privá-lo de sua sublime invocação de Maria como 'Santa Mãe de Deus' e levantou-se em massa contra essa inovação.

Mas a obstinação inflexível de Nestório não cedia. São Cirilo de Alexandria escreveu em vão ao patriarca infiel; igualmente infrutíferas foram as súplicas dos fiéis e as advertências e exortações do guardião da fé, o santo papa São Celestino. Nestório não atendia a nenhuma admoestação, mas perseguia seus adversários com grande furor. Foi excluído da comunhão da Igreja, mas ainda assim persistiu em seus erros.

A controvérsia tornou-se tão violenta que se julgou necessário convocar um concílio geral para condenar a heresia propagada por Nestório. Isso se fez com a anuência do imperador Teodósio, o Jovem, e o concílio foi convocado para reunir-se em Éfeso, sem dúvida por um desígnio especial da Providência onipotente, pois a bendita Mãe de nosso Salvador havia vivido naquela cidade, com o discípulo amado, depois da ascensão de seu divino Filho. A tradição desse fato foi conservada com grande fidelidade pelos efésios, conhecidos pelo fervor de sua devoção a Nossa Senhora. Alegraram-se, portanto, ao saber que de sua cidade partiria a defesa de sua sacratíssima dignidade.

No dia 7 de junho do ano de 431, duzentos e sessenta bispos estavam reunidos em Éfeso. Nestório também chegou com numerosa escolta, mas estava mais do que nunca cheio de orgulho e presunção. Como João de Antioquia e outros prelados ainda estavam a caminho para participar do concílio, sua abertura foi adiada, com algum pesar, para o dia 22, pois o dia 7 era a festa de Pentecostes. Contudo, esses prelados, sendo amigos pessoais de Nestório e não desejando presenciar sua condenação, ainda não haviam chegado quando a primeira sessão foi aberta naquele dia. Os bispos e doutores da Igreja ali reunidos dirigiram-se em procissão à igreja de Éfeso, dedicada a Deus sob o patrocínio especial de sua santa Mãe. Nesse edifício realizou-se o concílio.

Todos os habitantes da cidade se abstiveram de trabalhar e, na ânsia de conhecer a decisão dos Padres, cercaram a igreja, invocando Nossa Senhora para que dirigisse seus trabalhos e fizesse reconhecer sua dignidade. Poderia tão numerosa reunião de dignos pastores da Igreja, congregados numa cidade tão devotada a Maria, deixar de ser unânime em sua decisão? Nestório previu que não poderiam e, por isso, recusou-se a comparecer. São Cirilo presidiu o concílio como representante do Sumo Pontífice e pronunciou, em uma das sessões, um discurso do qual se seguem algumas frases:

'Salve, Maria! Tesouro do mundo!'
'Salve, Maria, Mãe de Deus! É por vós que os profetas elevam suas vozes e os pastores da Igreja celebram os louvores do Todo-Poderoso, cantando com os anjos aquele sublime cântico: Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens de boa vontade'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! Por vós os Magos ofereceram seus presentes, guiados por uma estrela resplandecente'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! Por vós o glorioso colégio dos apóstolos foi escolhido por nosso Redentor'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! Por vós São João exultou no ventre de sua mãe; a chama da tocha palpitou na presença da fonte da luz'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! Por vós desceu sobre a humanidade aquela graça inefável da qual fala o Apóstolo, quando diz que ela se manifestou a todos os homens'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! De vós procedeu a verdadeira luz, da qual disse o Evangelista: Eu sou a luz do mundo'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! De vós nasceu Aquele que venceu a morte e o inferno'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! Destes à luz o Criador e Redentor dos homens, nosso guia para o reino dos céus'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! Por vós é salva toda alma fiel'.*

* Como se pode pôr em dúvida que a Santíssima Virgem tem direito a ser chamada Mãe de Deus? Pois, assim como Jesus Cristo, nosso Salvador, é verdadeiramente Deus, assim também a Santíssima Virgem é Mãe de Deus' (Carta de São Cirilo).


Assim, todo o discurso continha, em cada frase uma invocação a Maria, sob o título do qual se havia tentado privá-la. A questão foi decidida no primeiro dia; tão unânimes foram os Padres que não foi necessário consultar cada um individualmente, pois todos exclamaram em coro: Sancta Dei Genitrix! Mater divinæ gratiæ! Mater Creatoris! Mater Salvatoris! - 'Santa Mãe de Deus! Mãe da divina graça! Mãe de nosso Criador! Mãe de nosso Redentor!'

Alguns amigos de Nestório procuraram, de fato, defendê-lo, mas em vão: ele foi condenado. Partiu para o exílio e permaneceu obstinado, orgulhoso e inflexível até sua morte, ocorrida na Líbia, depois de haver vagado por muito tempo de cidade em cidade. Diz-se que, imediatamente após sua morte, verificou-se que sua língua havia sido devorada por vermes.

Os habitantes de Éfeso, que ouviram as aclamações antes de lhes ser anunciada a decisão, logo deduziram o resultado, e grande foi sua alegria. Quando, ao término do sermão, os bispos e os Padres saíram da igreja, todos se reuniram e os acompanharam de volta às suas moradas, ao som de conjuntos musicais, levando tochas e ramos de louro e cobrindo de flores o chão das ruas iluminadas em honra daquela ocasião. As mulheres e as crianças prostravam-se, beijando as vestes dos prelados, entoando-lhes louvores e exaltando Nossa Senhora, em cuja honra a cidade ressoou durante toda a noite com os clamores: 'Viva Maria, Mãe de Deus!'

Desde então, à saudação angélica - 'Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco' - e às palavras de Santa Isabel, por ocasião da Visitação - 'Bendita sois vós entre as mulheres, e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus' - acrescentou-se, desde então, a conclusão adotada pelo Concílio de Éfeso: 'Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte. Amém'.

(Excertos da obra 'Légendes de la Sainte Vierge', por J. Collin de Plancy, 1853)

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

PROPÓSITOS DE UM SANTO


Regulamento de vida: a ser lido todo mês

1. Devo ser um santo, e um grande santo.

2. Para a glória de Deus, devo salvar a mim mesmo e todas as almas, presentes e futuras, por meio da Virgem Imaculada.

3. Fugir a priori não só do pecado mortal, mas também do pecado venial deliberado.

4. Não permitir:
(i) que o mal fique sem reparação e destruição;
(ii) que o bem fique sem fruto e aumento.

5. Seja obediência a tua regra: a vontade de Deus pela Imaculada e eu, nada mais do que instrumento.

6. Pensa naquilo que fizeres; não te preocupes com o resto, bem ou mal que seja.

7. Serva ordinem, et ordo servabit te [Observa a ordem, e a ordem te conservará].

8. Ação pacífica e benévola.

9. Em tudo: Preparação - Ação - Conclusão.

10. Lembra-te de que és coisa exclusiva, incondicional, irrevogável, da Imaculada.

11. Tudo o que és, tudo o que tens e puderes ter - tudo: pensamentos, palavras, ações e inclinações (agradáveis, indiferentes) são propriedade absoluta dela.

12. De tudo ela, e não tu, faça o que quiser.

13. Igualmente são dela todas as tuas intenções: e que ela disponha, faça e corrija, porque não pode errar.

14. És instrumento nas mãos dela e, por isso, deves fazer somente o que ela quiser.

15. Recebe tudo das mãos dela. Recorra a ela como a criança recorre à sua mãe. Confia nela.

16. Cuida dela, da sua glória e das suas coisas, e a ela confie o cuidado de ti e de todas as tuas coisas.

17. Não deves reconhecer coisa alguma como recebido de ti, mas tudo como recebido dela. Todo fruto do teu trabalho depende da união com ela, posto que ela é instrumento da Misericórdia divina...

18. A vida (em cada um dos seus momentos), a morte (onde, quando e como) e a minha eternidade, tudo é vosso, ó Virgem Imaculada: fazei de mim o que vos aprouver.

19. Tudo me é possível nAquele que, pela Imaculada, é o meu conforto.

20. Meus votos de vida interior: primeiramente, tudo pela minha própria santificação, e tudo igualmente pela santificação alheia.

(São Maximiliano Maria Kolbe, propósitos feitos em  setembro de 1920 - O Desbravador, agosto/1986)

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

PÁGINAS DIFÍCEIS DOS EVANGELHOS (IV)

4. A PARÁBOLA DO BANQUETE REAL

Um rei chamou os convidados para a festa de casamento do seu filho. Muitos não foram. No banquete, um homem aceitou o convite, mas não trajava a veste adequada, e foi expulso da festa com todo rigor [Mt 22,11-14].

[11] Quando o rei entrou para ver os convidados, observou aí um homem que não estava usando traje de festa
[12] e perguntou-lhe: 'Amigo, como entraste aqui sem o traje de festa?' Mas o homem nada respondeu. 
[13] Então o rei disse aos que serviam: 'Amarrai os pés e as mãos desse homem e jogai-o fora, na escuridão! Aí haverá choro e ranger de dentes'. 
[14] Por que muitos são chamados, e poucos são escolhidos'.


Na parábola do banquete de núpcias, o rei representa Deus; o banquete, a participação no seu Reino; e o traje de festa, a disposição interior correspondente ao convite recebido: conversão, fé viva e caridade. Impacta particularmente neste trecho bíblico a severidade da cena: um homem que aceitou o convite para participar do banquete é expulso dele com todo rigor e com condenação expressa pelo próprio rei.

O convite feito pressupõe necessariamente a conversão: o pecador é convidado a entrar no Reino de Deus, mas também a merecer tal privilégio, mediante a sua transformação interior pela graça divina. Muitos simplesmente recusam explicitamente a via da salvação, usufruindo desgraçadamente do livre arbítrio a eles confiado. Muitos aqui são a imensa maioria dos homens. Muitos de muitos também a perderão, por participarem do banquete real sem o traje de festa adequado. Correspondem àquela legião dos homens de almas tíbias e vacilantes, que não traduzem a fé que porventura manifestam em obras e nem as graças recebidas em conversão. 

O exército das almas tíbias e vacilantes deste mundo é personificado no homem que adentra ao banquete real sem a veste adequada [11]. O rei se acerca dele e o chama por 'amigo' [12], não como um traço de intimidade, mas como uma repreensão solene a alguém que estava ali como convidado, uma vez que aceitara previamente o chamado de Deus. Mas não basta ser chamado; impõe-se chamar-se, ou seja, investir alma e coração ao chamado divino. Há uma clara divisão entre o chamado e o juízo divinos, expressos pelas duas realidades distintas entre a 'sala cheia de convidados bons e maus' e 'a entrada do rei para ver os convidados'.  

O silêncio do homem [12] ratifica o seu traje inadequado (uma vez desprovido interiormente da graça apenas exterior e aparente) e sela o seu destino final da sua expulsão do banquete e exclusão definitiva da comunhão com Deus, tal como os convidados que recusaram o convite. O 'choro e ranger de dentes' [13] expressa a dor e o sofrimento dessa perda e severidade da cena ressalta a responsabilidade de cada homem diante o convite divino. 

As palavras finais do rei são particularmente duras e reverberam pelos tempos aos homens de todos os tempos: 'Muitos são chamados, e poucos são escolhidos' [14]. O convite a ingressar no banquete real é um dom da infinita misericórdia de Deus; revestir-se da graça divina é a contrapartida para poder merecer ficar no banquete na santa presença de Deus. E estes serão muitos e serão poucos. Pois embora os bons sejam numerosos em si mesmos, são poucos em comparação com os maus, assim como o trigo em comparação com a palha (Santo Agostinho).