quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Ó ESPÍRITO SANTO, ALMA DA MINHA ALMA...

 

Ó Espírito Santo, alma da minha alma, coração do meu coração,
quero encontrar-Vos sempre no mais íntimo do meu ser.
Neste humilde e oculto santuário, não sereis abandonado;
já não permanecereis inativo,
e tudo quanto há em mim vos obedecerá.

É verdade que minha maldade, minhas faltas e minhas misérias
muitas vezes se oporão a Vós;
mas Vós, que sois todo-poderoso, derrubareis, quebrareis ou aniquilareis
tudo aquilo que contra Vós se levantar em mim.

O abismo que é o vosso preencherá o abismo que é o meu.
Abyssus abyssum invocat.
[Um abismo clama outro abismo]

(Virginie Danion (1819–1900), religiosa e mística francesa)

ETYMOLOGIAE (III)


📌Cânones dos Concílios (De canonibus Conciliorum)

1. Cânone (canon) é uma palavra grega; em latim, significa 'régua' ou 'norma' (regula). A régua recebe esse nome porque traça em linha reta (recte) e nunca se desvia. Alguns dizem que ela é assim chamada porque rege (regere), porque oferece uma norma para viver retamente (recte) ou porque corrige (corrigere) tudo o que é deformado ou perverso.

2. Os cânones dos concílios gerais começaram no tempo de Constantino pois, nos anos anteriores, enquanto grassavam as perseguições, havia pouca oportunidade para instruir o povo. 

3. Por essa razão, o cristianismo foi dilacerado por diversas heresias, pois não havia liberdade para que os bispos se reunissem em unidade até o tempo do imperador acima mencionado, que concedeu aos cristãos a faculdade de se congregarem livremente.

4. Sob Constantino, os santos Padres, reunidos de todas as partes do mundo no Concílio de Niceia, promulgaram, em conformidade com a fé evangélica e apostólica, o segundo Credo - o Credo Niceno - depois do Credo dos Apóstolos.

5. Entre os concílios da Igreja, quatro são os veneráveis sínodos que mais plenamente abrangeram toda a fé, assim como quatro são os Evangelhos e quatro os rios do Paraíso.

6. O primeiro deles, o Sínodo de Niceia, composto por 318 bispos, realizou-se durante o governo de Constantino Augusto. Nele foi condenada a blasfêmia da perfídia ariana acerca da desigualdade da Santíssima Trindade, defendida pelo próprio Ário. Esse santo sínodo estabeleceu, por meio de seu Credo, que Deus Filho é consubstancial a Deus Pai.

7. O segundo sínodo, composto por 150 Padres, reuniu-se em Constantinopla sob Teodósio, o Velho. Condenando Macedônio, que negava que o Espírito Santo fosse Deus, demonstrou que o Espírito Santo é consubstancial ao Pai e ao Filho, dando forma ao Credo que todos os fiéis de língua latina e grega proclamam nas igrejas.

8. O terceiro, o Primeiro Sínodo de Éfeso, composto por 200 bispos, realizou-se sob Teodósio Augusto, o Jovem. Condenou, com justa sentença de anátema, Nestório, que afirmava haver duas pessoas em Cristo; e demonstrou que, em duas naturezas, subsiste a única pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo.

9. O quarto, o Sínodo de Calcedônia, composto por 630 sacerdotes, realizou-se sob o imperador Marciano. Nesse sínodo, uma sentença unânime dos Padres condenou Eutiques, abade de Constantinopla, que pregava haver uma única natureza tanto do Verbo de Deus quanto de sua carne; condenou também seu defensor Dióscoro, antigo bispo de Alexandria, e novamente Nestório, juntamente com os demais hereges. Esse mesmo sínodo proclamou que Cristo Senhor nasceu da Virgem e, consequentemente, reconhecemos que em Cristo se encontra a substância tanto da natureza divina quanto da natureza humana.

10. Estes são os quatro principais sínodos, que proclamaram com a maior plenitude a doutrina de nossa fé. E todos os outros concílios que os santos Padres, repletos do Espírito de Deus, sancionaram permanecem em pleno vigor, sustentados pela autoridade desses quatro, cujas realizações estão registradas nesta obra.

(Excertos da obra 'The Etymologies of Isidore of Seville' (Barney et al. 2006), tratado etimológico de Santo Isidoro de Sevilha [560 - 636], sobre o conhecimento da Antiguidade Clássica inserido no contexto de uma visão cristã do mundo)

terça-feira, 25 de agosto de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (146/148)

 

146. COMO MORRE O SOLDADO DE CRISTO

Gabino Alcázar alistou-se aos 80 anos no Exército dos libertadores e, com ele, três de seus filhos. 'Chegou a hora de morrermos mártires' - disse ele aos seus na hora da despedida - 'Tenho ainda pouco tempo de vida, e por que não hei de consagrá-lo a Cristo-Rei? Desejo que a vossa morte seja tal qual a minha. Vamos combater por Deus'.

Isto sucedeu-se a 3 de março de 1927. O velho soldado de Cristo receberia dentro em breve a sua coroa de glória. Tomou parte em três combates com uma tenacidade extraordinária. A 12 de março, numa renhida batalha, saltara da trincheira para avançar contra o inimigo, oculto atrás de uma rocha, e atirou até o último cartucho. Afinal, os soldados de Calles o cercaram, gritando-lhe:
➖ Entrega-te, velho!
➖ Os soldados de Cristo-Rei morrem, mas não se rendem - respondeu com altivez.
➖ Entrega-te ou te matamos.
➖ Cair, sim; ceder, nunca!

E para que os callistas não se apoderassem do seu fuzil, Gabino quebrou-o em dois pedaços e atirou-os contra o inimigo, dizendo-lhes:
➖ Tomai e entregai isso ao vosso Calles-Nero.
Seus olhos tinham um lampejo de alegria. No momento em que levantou a mão aberta para o céu e gritou: 'Viva Cristo-Rei!', uma descarga o prostra por terra.

A Escritura diz: 'As almas dos justos estão nas mãos de Deus; o tormento da morte não chega a tocá-los.
As almas dos justos descansam na paz; atormentados pelos homens, a sua esperança tomou vulto na eternidade'. Como essas palavras se adaptam ao velho soldado Gabino!

147. LEVAVA A COMUNHÃO AOS MÁRTIRES

O governo maçônico e ateu do México metia no cárcere, à espera da morte, sacerdotes e fiéis católicos. Para confortá-los na fé, meninas piedosas e inteligentes, disfarçadas mas com risco da própria vida, levavam-lhes frequentemente a Comunhão.

Rosina Gomez foi uma dessas meninas privilegiadas. Com apenas 12 anos, consagrara-se ao piedoso oficio de levar Jesus-Hóstia aos prisioneiros. Rosina, com permissão de sua mãe, ia todas as manhãs a uma das estações eucarísticas. Ali comungava e o sacerdote entregava-lhe as hóstias consagradas para levar aos encarcerados. A fim de evitar suspeitas, tirava-se o miolo do pão e, em seu lugar, colocavam-se as sagradas espécies envoltas em pano de linho. Deste modo Jesus chegava diariamente aos confessores da Fé, que aguardavam a morte gloriosa.

Durava já três meses esse trabalho; quando Rosina começou a ser observada e seguida pelos callistas. Um dia, cercaram-na e perguntaram-lhe:
➖ Aonde vais?
➖ Para minha casa e tenho pressa - respondeu Rosina.
➖ Que é que tens nas mãos?
➖ Nada para os senhores e tudo para mim.
➖ Joga fora o pão que tens oculto.
➖ Isso eu não faço.

Os policiais apontam-lhe os revólveres. A esse gesto ela responde calmamente:
➖ Não tenho medo de ninguém. Jesus me dará forças. Ajoelhou-se, em seguida, tomou as hóstias e ali mesmo comungou para evitar profanações. Um minuto depois, cai varada de balas daqueles tigres.

148. UM MÁRTIR DE 18 ANOS

Em Jalisco, no México, um bando de comunistas prendeu um rapaz de 18 anos, acusando-o de fomentar um motim. Queriam forçá-lo a gritar: 'Abaixo o Cristo'.
➖ Não posso, respondeu o jovem; sou católico.
➖ Agora não és mais que um revolucionário.
➖ Revolucionário? Nunca! nunca me bandeei para os revolucionários. Ninguém poderá prová-Io. Sou simplesmente católico, e não posso renegar a Cristo.

Declarações tão firmes e decididas tiveram consequências imediatas. O jovem foi primeiramente espancado e, depois, amarrado à traseira de um caminhão e arrastado pelas ruas da cidade entre risos satânicos. Coberto de sangue e de pó, chegou em frente da casa paterna. Os delinquentes pararam o caminhão e mandaram que o mártir gritasse: 'Viva Calles'. Redobrando as forças, o jovem gritou:
➖ Viva Cristo-Rei!

Uma senhora presente à cena correu a chamar a mãe da vítima: 'Que fosse depressa, porque pretendiam obrigar o filho dela a apostatar'. Imediatamente, a mãe, trêmula e pálida como a morte, correu para junto do mártir. Cena capaz de comover as próprias pedras. O filho, seu querido filho de 18 anos, cuja beleza e coragem eram o orgulho da mãe, banhava de sangue a rua. Ela atirou-se sobre aquele corpo, já nas últimas, e gritou-lhe:
➖ Meu filho, ainda que te matem, nunca renegues o teu Deus. Vale mais a Fé do que a vida. Viva Cristo-Rei!
O mártir, num supremo esforço, conseguiu balbuciar repetindo as palavras de sua mãe:
➖ Viva.... Cristo... nosso... Rei!
E morreu sob as vistas da mãe. Não sabemos o que mais admirar, se a fidelidade do filho ou a coragem da mãe.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

A HERESIA DA SOLA SCRIPTURA

 

A chamada Sola Scriptura é a doutrina protestante segundo a qual a Sagrada Escritura constitui a única autoridade infalível e suprema em matéria de fé e moral. Por outro lado, a doutrina católica assume que Escritura, Tradição e Magistério constituem fontes indissociáveis na transmissão e interpretação da Revelação divina. Assim, a doutrina da Sola Scriptura rejeita a Sagrada Tradição e o Magistério da Igreja como autoridades infalíveis ao lado da Escritura.

A questão crucial é, portanto, um problema de origem comum: as Sagradas Escrituras e, neste sentido, vamos desconsiderar em princípio que existe uma diferença fundamental no número dos livros entre a Bíblia Católica (73 livros) e a Bíblia Protestante (66 livros, com a exclusão dos livros de Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, 1 Macabeus e 2 Macabeus, além de algumas partes de Ester e Daniel). Consideremos ainda que a Igreja Católica reconhece e atesta que a Escritura contém toda a revelação divina, bem como tudo que é necessário para a salvação eterna, de forma explícita ou implícita. Até aí, doutrina e heresia sempre caminharam juntas pois, por mais paradoxal que possa parecer, quase todas as grandes heresias que convulsionaram a Santa Igreja pelos séculos foram originadas na própria Escritura ou, melhor dizendo, a partir de interpretações equivocadas, descontextualizadas e manipuladas pelo livre exame dos textos bíblicos, como se a interpretação da Escritura fosse um complemento lógico e inerente à própria Escritura. 

Não é, nem de longe. Isso não significa que o fiel esteja proibido de ler e compreender a Bíblia. Significa que sua interpretação NÃO POSSUI UMA AUTORIDADE AUTÔNOMA E INFALÍVEL. A própria Escritura mostra a necessidade de mestres (Ef 4,11-14), da pregação apostólica (2Ts 2,15) e da autoridade da Igreja para resolver controvérsias (Mt 18,17-18). 

Com efeito, no texto bíblico do encontro de Filipe com o eunuco: 'Filipe correu, ouviu-o ler o profeta Isaías e perguntou: ‘Porventura entendes o que estás lendo?’ Ele respondeu: ‘Como é que posso, se não há alguém que mo explique?’ (At 8,30-31), fica claramente explícito que o eunuco possuía a Escritura e sabia lê-la, mas reconheceu que necessitava de um intérprete autorizado. Filipe, enviado pelo Espírito Santo e participante da missão apostólica, explicou-lhe que a passagem de Isaías se referia a Jesus Cristo. São Pedro reconhece expressamente que existem textos bíblicos difíceis, sujeitos a interpretações errôneas e equivocadas: 'Nelas há algumas passagens difíceis de entender, cujo sentido os ignorantes e vacilantes deturpam, como fazem também com as demais Escrituras, para a própria perdição (2Pd 3,16). Portanto, não se pode afirmar que o verdadeiro sentido seja sempre evidente ou inerentemente acessível a todo leitor. E, pior: estes erros de interpretação afetam também as demais Escrituras (não apenas passagens difíceis de entender) e que são a causa da própria perdição para os que deturpam os textos bíblicos pela livre interpretação.

No Evangelho, em resposta ao apóstolo fiel, Jesus vai oferecer a Pedro o primado da Igreja, como privilégio da glória, poder e realeza de Cristo: 'Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso, eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la' (Mt 16,17 - 18). E Jesus vai declarar em seguida o poder universal e sobrenatural da sua Igreja, criada ali, naquele momento da história, naquele lugar qualquer da chamada 'Cesareia de Felipe': 'Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado nos céus' (Mt 16,19). Ligado ou desligado. Poder absoluto, domínio universal, primado da verdade, Cátedra de Pedro.

O modelo bíblico, portanto, não pode ser nunca: Escritura → interpretação particular autossuficiente (heresia protestante), mas Escritura → fé apostólica → interpretação e decisão da Igreja assistida pelo Espírito Santo (doutrina católica). Se não fosse assim, Cristo não precisaria criar a sua Igreja, como depósito da fé ensinada nos Evangelhos. É neste contexto de unidade e univocidade da Revelação Divina que São Paulo não chama a Escritura isoladamente de 'coluna e sustentáculo da verdade', mas atribui essa função à Igreja, uma única Igreja, à Igreja do Deus vivo: 'A Igreja do Deus vivo, coluna e sustentáculo da verdade' (1Tm 3,15). Sim, a igreja do Deus vivo, a Igreja Católica, repositório da Verdade de Cristo, a única que POSSUI A AUTORIDADE AUTÔNOMA E INFALÍVEL para a interpretação da Escritura pelos selos da TRADIÇÃO e do MAGISTÉRIO

Implodidas estas duas vigas rígidas de sustentação, a Revelação Divina é exposta de forma ambígua e vacilante, a preço vil, por centenas de seitas que proclamam verdades lapidadas por eunucos da graça que não reconhecem a própria ignorância, uma vez consumidos por um orgulho desmedido. Sobre estes tolos, pairam as palavras duras e contundentes de Santo Agostinho: 'A alma abandona Aquele a quem deveria estar unida como seu fim e pretende tornar-se o próprio fim para si mesma' (A Cidade de Deus, XIV,13). 

domingo, 23 de agosto de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

                    

'Ó Senhor, vossa bondade é para sempre!
Completai em mim a obra começada!' (Sl 137)

Primeira Leitura (Is 22,19-23) - Segunda Leitura (Rm 11,33-36) - Evangelho (Mt 16,13-20)

  23/08/2026 - VIGÉSIMO PRIMEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM

'E VÓS, QUEM DIZEIS QUE EU SOU?'


Num dado dia, na 'região da Cesareia de Felipe', Jesus revelou a seus discípulos, num mesmo momento, a sua própria identidade divina e o primado da Igreja. Neste tesouro das grandes revelações divinas, o apóstolo Pedro será contemplado, neste dia, por privilégios extraordinários: seu ato humano de fé perfeita será convertido por Cristo na pedra angular da qual nascerá a Santa Igreja.

Nesta ocasião, as mensagens e as pregações públicas de Jesus estavam consolidadas; os milagres e os poderes sobrenaturais do Senhor eram de conhecimento generalizado no mundo hebraico; multidões acorriam para ver e ouvir o Mestre, dominados pela falsa expectativa de encontrar um personagem mítico e um Messias dominador do mundo. Então, Jesus retira-se para um lugar isolado, afastando-se do júbilo fácil do mundo e das multidões errantes, que O tomam por João Batista, por Elias, por um dos antigos profetas. E se aproxima intimamente daqueles que haverão de ser os primeiros apóstolos da Igreja nascente, compartilhando-lhes na pergunta do juízo de fé: 'E vós, quem dizeis que eu sou?' (Mt 16,15). A resposta de Pedro é um símbolo da confissão perfeita da sua fé: 'Tu és o Messias, o Filho do Deus Vivo' (Mt 16,16).

Sim, Jesus Cristo é o Filho de Deus Vivo: Deus feito homem na eternidade de Deus. A missão salvífica de Jesus há de passar não por um triunfo de epopeias mundanas, mas por um tributo de Paixão, Morte e Ressurreição; não pelo manejo da espada ou por eventos feitos de glórias humanas, mas pela humildade, perseverança e um legado de Cruz. A Cruz de Cristo é o caminho da nossa salvação e da vida eterna, ontem e sempre. Por isso, a mesma pergunta se impõe a todos os homens, de todos os tempos: quem é Jesus para nós, o Filho de Deus Vivo da confissão de Pedro ou um arauto de nossas próprias incertezas, refeito sob a ótica dos interesses humanos?

Em resposta ao apóstolo fiel, Jesus vai oferecer a Pedro as primícias do papado e o primado da Igreja, como privilégio da glória, poder e realeza de Cristo: 'Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso, eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la' (Mt 16,17 - 18). E Jesus vai declarar em seguida o poder universal e sobrenatural da Santa Igreja Católica Apostólica e Romana: 'Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado nos céus' (Mt 16,19). Ligado ou desligado. Poder absoluto, domínio universal, primado da verdade, Cátedra de Pedro. Na terra árida de algum ermo qualquer da 'Cesareia de Felipe', erigiu-se naquele dia, pela Vontade Divina, nas sementeiras da humanidade pecadora, a Santa Igreja, a Videira Eterna.

sábado, 22 de agosto de 2026

ETYMOLOGIAE (II)


📌 Heresia e Cisma (De haeresi et schismate)

1. 'Heresia' (haeresis) recebe esse nome, em grego, a partir de 'escolha' (electio; cf. αἱρεῖν, 'escolher'), sem dúvida porque cada pessoa escolhe (eligere) para si aquilo que lhe parece melhor, como fizeram os filósofos peripatéticos, acadêmicos, epicuristas e estoicos - ou como outros que, seguindo doutrinas perversas, afastaram-se voluntariamente da Igreja.

2. Por conseguinte, 'heresia', palavra de origem grega, recebe seu significado de 'escolha', pela qual cada pessoa, segundo o próprio juízo, escolhe para si aquilo que lhe apraz estabelecer e adotar. A nós, porém, não é permitido introduzir coisa alguma com base em nosso próprio juízo, nem escolher aquilo que outra pessoa tenha introduzido segundo o seu julgamento particular.

3. Temos como autoridades os apóstolos de Deus, que não escolheram por si mesmos coisa alguma para introduzir segundo o próprio juízo, mas transmitiram fielmente ao mundo a doutrina recebida de Cristo. E, ainda que um anjo vindo do céu pregue de outro modo, será declarado anátema.

4. 'Seita' (secta) recebe esse nome de 'seguir' (sequi, particípio secutus) e de 'manter' (tenere), pois empregamos o termo 'seitas' para designar disposições de espírito e instituições ligadas a determinado preceito ou princípio, que as pessoas mantêm e seguem quando, na prática religiosa, professam crenças muito diferentes daquelas professadas pelas demais.

5. 'Cisma' (schisma) recebe esse nome da divisão (scissura) das opiniões, pois os cismáticos conservam o mesmo culto e o mesmo rito que os demais; comprazem-se apenas na dissensão (discidium) dentro da comunidade. O cisma ocorre quando algumas pessoas dizem: 'Nós somos os justos', 'Somos nós que santificamos os impuros' e outras coisas semelhantes.

(Excertos da obra 'The Etymologies of Isidore of Seville' (Barney et al. 2006), tratado etimológico de Santo Isidoro de Sevilha [560 - 636], sobre o conhecimento da Antiguidade Clássica inserido no contexto de uma visão cristã do mundo)

AS VINHAS DE DEUS (IX)

 

57. 'Um rebento sairá da raiz de Jessé' - diz o profeta Isaías; isto é, a Santíssima Virgem; e da Virgem nascerá uma flor, Nosso Senhor Jesus Cristo. Sobre essa flor repousará o Espírito Santo, comunicando-lhe 'o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de ciência e de piedade, e Ele será cheio do temor do Senhor' (Is 11,2). Assim, a sagrada humanidade de nosso Salvador é como uma flor divina sobre a qual repousou o Espírito Santo, para comunicar-lhe os seus sete dons. Isso nos é apropriadamente representado pelo candelabro de ouro com sete braços, que ficava diante do Tabernáculo do Antigo Testamento e que poderia ser chamado de flor, porque os seus braços estavam dispostos em forma de lírios.

58. Se os frutos mais delicados e mais facilmente perecíveis, como as cerejas, os damascos e os morangos, podem ser conservados durante um ano inteiro quando preparados em açúcar ou mel, não é de admirar que nossos corações, embora fracos e insensatos, sejam preservados da corrupção do pecado quando conservados pelo Corpo e Sangue incorruptíveis do Filho de Deus, que é 'mais doce que o mel e o favo de mel'.

59. O matrimônio é um estado que exige mais virtude e constância do que qualquer outro. É um exercício contínuo de mortificação e talvez o seja para vós ainda mais do que habitualmente. Deveis, portanto, preparar-vos para ele com grande cuidado, a fim de que dessa planta de tomilho, apesar de seu amargor natural, possais extrair o mel de uma vida santa. Que o doce Jesus seja sempre o açúcar e o mel que tornarão suave a vossa vocação! Que Ele viva e reine para sempre em nossos corações!

60. Assim como o sumo da videira, se permanecer por demasiado tempo na uva, corrompe-se e se estraga, também a alma humana, se permanecer entregue aos prazeres e à voluptuosidade, aos desejos e anseios, acaba por se corromper; mas, quando esmagada pela tribulação, produz uma doce bebida de penitência e amor.

61. A Divina Providência faz tudo bem e dispõe todas as coisas da melhor maneira. Que felicidade para essa jovem ter sido retirada do mundo antes que a malícia pervertesse o seu entendimento e ter deixado esse lodaçal antes de ser por ele manchada! [sobre a morte de uma jovem religiosa]. Os morangos e as cerejas são colhidos antes das peras e das laranjas, porque a sua estação assim o exige. Deixemos Deus colher aquilo que plantou em seu pomar: Ele colhe cada coisa no seu devido tempo.

62. Sei que vossos sofrimentos aumentaram ultimamente e, por isso, compadeci-me ainda mais de vós. Contudo, juntamente convosco, louvo e bendigo Nosso Senhor pelo seu beneplácito, que Ele realiza em vós, fazendo-vos participar de sua santa cruz e coroando-vos com sua coroa de espinhos... É um bom sinal para essa alma o fato de ter sofrido muitas aflições, pois, tendo sido coroada de espinhos, devemos crer que será coroada de rosas.

63. Plantai Jesus Cristo crucificado em vosso coração, e todas as cruzes deste mundo vos parecerão rosas... Sabeis o que fazem os pastores da Arábia quando percebem que se aproxima uma tempestade? Abrigam-se sob os loureiros, juntamente com seus rebanhos. Quando percebermos que as perseguições e as contradições nos ameaçam, devemos refugiar nossos afetos à sombra da Santa Cruz, com verdadeira confiança de que 'todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus' (Rm 8,28).

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 5, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).