segunda-feira, 19 de outubro de 2026

VERSUS: SANTOS DESEJOS

'A razão pela qual, nesta vida, a alma não pode ter essa paz é que seu desejo não fica saciado enquanto não chega à união com a essência divina. Enquanto é peregrina e viajante nesta vida, tem somente fome e desejo: desejo de seguir o caminho reto e fome de chegar ao seu termo e fim. Esse desejo a faz correr pelo caminho, pela estrada trilhada por Cristo crucificado, como foi dito acima; pois, se não tivesse amor ao seu fim, isto é, a Deus, não se preocuparia em conhecer o caminho.

Quero, portanto, que façais crescer o santo e verdadeiro desejo de seguir esse caminho, que vos faz chegar ao vosso destino. Sabei que ele não é obscuro, nem tenebroso, nem cheio de espinhos; pelo contrário, é luminoso, iluminado pela verdadeira luz. Jesus Cristo, que é a própria luz, abriu essa estrada com o seu Sangue. Não há nela espinhos: é perfumada, cheia de flores e de suaves frutos, de modo que, assim que a criatura começa a percorrer essa estrada e esse doce caminho, experimenta tamanha doçura que prefere a morte a abandoná-lo.

E, embora nesse caminho se vejam espinhos, que parecem ser os espinhos de muitas tribulações e ilusões do demônio, e o mundo se apresente diante de nós com sua soberba inflada, digo que a alma que se deleita nesse caminho não lhes dá importância. Faz como aquele que vai à roseira: colhe a rosa e deixa o espinho. Assim também ela deixa para trás as tribulações e angústias do mundo e colhe a rosa perfumada da verdadeira e santa paciência, colocando diante dos olhos do entendimento o Sangue do Cordeiro, que dá vida, posto à frente dessa estrada'.

'Aprendei com Cristo, a primeira e doce Verdade, que, pela fome e sede que tinha, pelo ardente desejo de nossa salvação, clamava no lenho da santíssima cruz, dizendo: 'Tenho sede!' Como se dissesse: 'Tenho mais sede e desejo de vossa salvação do que vos posso demonstrar por meio deste sofrimento finito'. Pois a dor da sede do santo desejo é infinita, enquanto o seu sofrimento é finito. Assim, Ele nos manifesta a sede que tem do gênero humano, embora também fosse corporalmente afligido pela sede.

Ó doce e bom Jesus, ao mesmo tempo manifestais a vossa sede e pedis que vos deem de beber! E quando é que pedis de beber à alma? Quando nos mostrais o vosso afeto e a vossa caridade, Senhor meu... por amor Ele deu o Sangue, e com esse mesmo amor nos pede de beber. Isto é: aquele que ama pede para ser amado e servido. É justo que aquele que ama seja amado. Então a alma dá de beber ao seu Criador quando lhe retribui amor por amor. Mas não pode retribuir-lhe por algum serviço que possa prestar diretamente a Ele, e sim por intermédio do próximo. Por isso, a alma se volta com tanta solicitude a servir o próximo naquele serviço que reconhece ser mais agradável a Deus; e nele se exercita'.

(Das Cartas de Santa Catarina de Sena)

BREVIÁRIO DIGITAL: A PEQUENA VIA (IV)

 

Neste mundo, não há fecundidade sem sofrimento - seja uma dor física, uma tristeza secreta ou provações por vezes conhecidas somente por Deus. Quando bons pensamentos e resoluções generosas brotam em nossas almas pela leitura das vidas dos santos, não devemos nos contentar, como no caso dos livros profanos, em prestar certo tributo de admiração ao talento de seus autores; devemos, antes, considerar o preço que, sem dúvida, pagaram pelo bem sobrenatural que produziram.

(Santa Teresa do Menino Jesus)

domingo, 18 de outubro de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

      

'Ó família das nações, dai ao Senhor poder e glória!' (Sl 95)

Primeira Leitura (Is 45,1.4-6) - Segunda Leitura (1Ts 1,1-5b) - Evangelho (Mt 22,15-21)

  18/10/2026 - VIGÉSIMO NONO DOMINGO DO TEMPO COMUM

 'DAI A DEUS O QUE É DE DEUS'


Os fariseus encontravam-se plasmados em fúria; Jesus lhes dera a conhecer a dureza dos seus corações por meio de diversas parábolas. Tramavam a morte do Senhor, mas não a ousavam praticar de pronto temendo a perda de controle da situação e a insubmissão do povo. Era preciso criar subterfúgios, angariar apoio com encenações hipócritas, mentir e difamar, submeter Jesus a ciladas constrangedoras. Era preciso fazer a perfídia humana assumir a dimensão diabólica de um deicídio.

As velhas serpentes mandam alguns dos seus próprios discípulos e outros tantos coligados a Herodes para, com uma questão aparentemente proposta na forma de um dilema de consequências desastrosas, imporem a Jesus uma prova definitiva de condenação pública e explícita. Depois das adulações fraudulentas - 'Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus...' (Mt 22,16), questionam Jesus se seria lícito ou não pagar o tributo imposto pelo governo romano. Em caso de uma resposta afirmativa, seria um declarado manifesto de submissão ao domínio de Roma; em caso negativo, Jesus seria o potencial mentor de uma sublevação.

Percebendo a malícia diabólica daqueles homens, Jesus os revela publicamente como hipócritas e, tomando nas mãos uma moeda cunhada com a efígie do imperador romano e, em resposta à declaração pública de que a figura e a inscrição presentes na mesma referem-se a César, responde: 'Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus' (Mt 22,21). Em outros termos, Jesus declara à turba ensandecida dos fariseus: as obras humanas são necessárias, boas em si e devem ser feitas de acordo e ajustadas às circunstâncias e valores do mundo; as obras humanas inseridas na vida plena com Deus, entretanto, tornam-se instrumentos de graças e de salvação eterna.

Na moeda romana, convergem a figura de um homem e o valor de uma dada atividade humana. No espelho da alma, reflete-se em nós a própria imagem de Deus. Possuir e conviver com as coisas do mundo e delas se ocupar no cotidiano de nossas vidas, é vida que segue, é o suor do trabalho de nossa herança adâmica. Buscar as coisas do Alto, e projetar todas as nossas ações e pensamentos para a suprema glória divina, é o triunfo de nossa herança como filhos de Deus. No mundo ou passando pelo mundo, o livre arbítrio nos conduz a vivermos para César ou para Deus.

sábado, 17 de outubro de 2026

LENDAS DA BEM AVENTURADA VIRGEM MARIA (III)

O que se segue é, mais propriamente, uma página da história eclesiástica do que uma lenda. Julgamos, porém, que um breve relato do concílio realizado em Éfeso teria lugar muito apropriado num volume dedicado à narração das maravilhas operadas pela intercessão da sempre bendita 'Mãe de Deus'. Ao confirmar à Santíssima Virgem esse sublime título, o Concílio ensinou-nos que jamais poderemos formar uma ideia demasiado elevada do poder e da majestade daquela a quem recorremos em nossas necessidades.

No século V, enquanto ilustres doutores combatiam o arianismo e todas as outras pequenas seitas que atacavam a rocha inexpugnável sobre a qual está estabelecida a cátedra de Pedro, surgiu entre os defensores da Igreja um homem de grande mérito, de palavra poderosa, de vasta erudição e respeitado pela austeridade de sua vida. Chamava-se Nestório e tornou-se patriarca de Constantinopla. Sua vaidade foi estimulada pelos grandes aplausos que recebia. Em um de seus sermões, disse ao jovem Teodósio: 'Purificai a terra das heresias, e eu vos prometo as alegrias do céu'. Era uma afirmação ousada. Ele combatia o arianismo, mas substituiu o zelo da caridade pela violência; incitou o povo contra os arianos, expulsando-os à força de suas assembleias e arrasando suas igrejas. Contudo, durante todo esse tempo, ele próprio sustentava uma doutrina errônea.

Admitia que havia em Cristo duas naturezas que agiam em conjunto. 'Jesus Cristo' - dizia ele - 'enquanto homem, nasceu da Santíssima Virgem, sofreu e morreu; mas Cristo, enquanto Deus, dirigia o homem Jesus, ao qual estava ligado apenas por uma união moral'. Primeiramente, conseguiu o auxílio de homens fracos para pregar essa doutrina, que depois ele próprio passou a professar, no ano de 428. O povo percebeu imediatamente que ele pretendia privá-lo de sua sublime invocação de Maria como 'Santa Mãe de Deus' e levantou-se em massa contra essa inovação.

Mas a obstinação inflexível de Nestório não cedia. São Cirilo de Alexandria escreveu em vão ao patriarca infiel; igualmente infrutíferas foram as súplicas dos fiéis e as advertências e exortações do guardião da fé, o santo papa São Celestino. Nestório não atendia a nenhuma admoestação, mas perseguia seus adversários com grande furor. Foi excluído da comunhão da Igreja, mas ainda assim persistiu em seus erros.

A controvérsia tornou-se tão violenta que se julgou necessário convocar um concílio geral para condenar a heresia propagada por Nestório. Isso se fez com a anuência do imperador Teodósio, o Jovem, e o concílio foi convocado para reunir-se em Éfeso, sem dúvida por um desígnio especial da Providência onipotente, pois a bendita Mãe de nosso Salvador havia vivido naquela cidade, com o discípulo amado, depois da ascensão de seu divino Filho. A tradição desse fato foi conservada com grande fidelidade pelos efésios, conhecidos pelo fervor de sua devoção a Nossa Senhora. Alegraram-se, portanto, ao saber que de sua cidade partiria a defesa de sua sacratíssima dignidade.

No dia 7 de junho do ano de 431, duzentos e sessenta bispos estavam reunidos em Éfeso. Nestório também chegou com numerosa escolta, mas estava mais do que nunca cheio de orgulho e presunção. Como João de Antioquia e outros prelados ainda estavam a caminho para participar do concílio, sua abertura foi adiada, com algum pesar, para o dia 22, pois o dia 7 era a festa de Pentecostes. Contudo, esses prelados, sendo amigos pessoais de Nestório e não desejando presenciar sua condenação, ainda não haviam chegado quando a primeira sessão foi aberta naquele dia. Os bispos e doutores da Igreja ali reunidos dirigiram-se em procissão à igreja de Éfeso, dedicada a Deus sob o patrocínio especial de sua santa Mãe. Nesse edifício realizou-se o concílio.

Todos os habitantes da cidade se abstiveram de trabalhar e, na ânsia de conhecer a decisão dos Padres, cercaram a igreja, invocando Nossa Senhora para que dirigisse seus trabalhos e fizesse reconhecer sua dignidade. Poderia tão numerosa reunião de dignos pastores da Igreja, congregados numa cidade tão devotada a Maria, deixar de ser unânime em sua decisão? Nestório previu que não poderiam e, por isso, recusou-se a comparecer. São Cirilo presidiu o concílio como representante do Sumo Pontífice e pronunciou, em uma das sessões, um discurso do qual se seguem algumas frases:

'Salve, Maria! Tesouro do mundo!'
'Salve, Maria, Mãe de Deus! É por vós que os profetas elevam suas vozes e os pastores da Igreja celebram os louvores do Todo-Poderoso, cantando com os anjos aquele sublime cântico: Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens de boa vontade'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! Por vós os Magos ofereceram seus presentes, guiados por uma estrela resplandecente'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! Por vós o glorioso colégio dos apóstolos foi escolhido por nosso Redentor'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! Por vós São João exultou no ventre de sua mãe; a chama da tocha palpitou na presença da fonte da luz'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! Por vós desceu sobre a humanidade aquela graça inefável da qual fala o Apóstolo, quando diz que ela se manifestou a todos os homens'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! De vós procedeu a verdadeira luz, da qual disse o Evangelista: Eu sou a luz do mundo'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! De vós nasceu Aquele que venceu a morte e o inferno'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! Destes à luz o Criador e Redentor dos homens, nosso guia para o reino dos céus'.
'Salve, Maria, Mãe de Deus! Por vós é salva toda alma fiel'.*

* Como se pode pôr em dúvida que a Santíssima Virgem tem direito a ser chamada Mãe de Deus? Pois, assim como Jesus Cristo, nosso Salvador, é verdadeiramente Deus, assim também a Santíssima Virgem é Mãe de Deus' (Carta de São Cirilo).


Assim, todo o discurso continha, em cada frase uma invocação a Maria, sob o título do qual se havia tentado privá-la. A questão foi decidida no primeiro dia; tão unânimes foram os Padres que não foi necessário consultar cada um individualmente, pois todos exclamaram em coro: Sancta Dei Genitrix! Mater divinæ gratiæ! Mater Creatoris! Mater Salvatoris! - 'Santa Mãe de Deus! Mãe da divina graça! Mãe de nosso Criador! Mãe de nosso Redentor!'

Alguns amigos de Nestório procuraram, de fato, defendê-lo, mas em vão: ele foi condenado. Partiu para o exílio e permaneceu obstinado, orgulhoso e inflexível até sua morte, ocorrida na Líbia, depois de haver vagado por muito tempo de cidade em cidade. Diz-se que, imediatamente após sua morte, verificou-se que sua língua havia sido devorada por vermes.

Os habitantes de Éfeso, que ouviram as aclamações antes de lhes ser anunciada a decisão, logo deduziram o resultado, e grande foi sua alegria. Quando, ao término do sermão, os bispos e os Padres saíram da igreja, todos se reuniram e os acompanharam de volta às suas moradas, ao som de conjuntos musicais, levando tochas e ramos de louro e cobrindo de flores o chão das ruas iluminadas em honra daquela ocasião. As mulheres e as crianças prostravam-se, beijando as vestes dos prelados, entoando-lhes louvores e exaltando Nossa Senhora, em cuja honra a cidade ressoou durante toda a noite com os clamores: 'Viva Maria, Mãe de Deus!'

Desde então, à saudação angélica - 'Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco' - e às palavras de Santa Isabel, por ocasião da Visitação - 'Bendita sois vós entre as mulheres, e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus' - acrescentou-se, desde então, a conclusão adotada pelo Concílio de Éfeso: 'Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte. Amém'.

(Excertos da obra 'Légendes de la Sainte Vierge', por J. Collin de Plancy, 1853)

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

PROPÓSITOS DE UM SANTO


Regulamento de vida: a ser lido todo mês

1. Devo ser um santo, e um grande santo.

2. Para a glória de Deus, devo salvar a mim mesmo e todas as almas, presentes e futuras, por meio da Virgem Imaculada.

3. Fugir a priori não só do pecado mortal, mas também do pecado venial deliberado.

4. Não permitir:
(i) que o mal fique sem reparação e destruição;
(ii) que o bem fique sem fruto e aumento.

5. Seja obediência a tua regra: a vontade de Deus pela Imaculada e eu, nada mais do que instrumento.

6. Pensa naquilo que fizeres; não te preocupes com o resto, bem ou mal que seja.

7. Serva ordinem, et ordo servabit te [Observa a ordem, e a ordem te conservará].

8. Ação pacífica e benévola.

9. Em tudo: Preparação - Ação - Conclusão.

10. Lembra-te de que és coisa exclusiva, incondicional, irrevogável, da Imaculada.

11. Tudo o que és, tudo o que tens e puderes ter - tudo: pensamentos, palavras, ações e inclinações (agradáveis, indiferentes) são propriedade absoluta dela.

12. De tudo ela, e não tu, faça o que quiser.

13. Igualmente são dela todas as tuas intenções: e que ela disponha, faça e corrija, porque não pode errar.

14. És instrumento nas mãos dela e, por isso, deves fazer somente o que ela quiser.

15. Recebe tudo das mãos dela. Recorra a ela como a criança recorre à sua mãe. Confia nela.

16. Cuida dela, da sua glória e das suas coisas, e a ela confie o cuidado de ti e de todas as tuas coisas.

17. Não deves reconhecer coisa alguma como recebido de ti, mas tudo como recebido dela. Todo fruto do teu trabalho depende da união com ela, posto que ela é instrumento da Misericórdia divina...

18. A vida (em cada um dos seus momentos), a morte (onde, quando e como) e a minha eternidade, tudo é vosso, ó Virgem Imaculada: fazei de mim o que vos aprouver.

19. Tudo me é possível nAquele que, pela Imaculada, é o meu conforto.

20. Meus votos de vida interior: primeiramente, tudo pela minha própria santificação, e tudo igualmente pela santificação alheia.

(São Maximiliano Maria Kolbe, propósitos feitos em  setembro de 1920 - O Desbravador, agosto/1986)

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

PÁGINAS DIFÍCEIS DOS EVANGELHOS (IV)

4. A PARÁBOLA DO BANQUETE REAL

Um rei chamou os convidados para a festa de casamento do seu filho. Muitos não foram. No banquete, um homem aceitou o convite, mas não trajava a veste adequada, e foi expulso da festa com todo rigor [Mt 22,11-14].

[11] Quando o rei entrou para ver os convidados, observou aí um homem que não estava usando traje de festa
[12] e perguntou-lhe: 'Amigo, como entraste aqui sem o traje de festa?' Mas o homem nada respondeu. 
[13] Então o rei disse aos que serviam: 'Amarrai os pés e as mãos desse homem e jogai-o fora, na escuridão! Aí haverá choro e ranger de dentes'. 
[14] Por que muitos são chamados, e poucos são escolhidos'.


Na parábola do banquete de núpcias, o rei representa Deus; o banquete, a participação no seu Reino; e o traje de festa, a disposição interior correspondente ao convite recebido: conversão, fé viva e caridade. Impacta particularmente neste trecho bíblico a severidade da cena: um homem que aceitou o convite para participar do banquete é expulso dele com todo rigor e com condenação expressa pelo próprio rei.

O convite feito pressupõe necessariamente a conversão: o pecador é convidado a entrar no Reino de Deus, mas também a merecer tal privilégio, mediante a sua transformação interior pela graça divina. Muitos simplesmente recusam explicitamente a via da salvação, usufruindo desgraçadamente do livre arbítrio a eles confiado. Muitos aqui são a imensa maioria dos homens. Muitos de muitos também a perderão, por participarem do banquete real sem o traje de festa adequado. Correspondem àquela legião dos homens de almas tíbias e vacilantes, que não traduzem a fé que porventura manifestam em obras e nem as graças recebidas em conversão. 

O exército das almas tíbias e vacilantes deste mundo é personificado no homem que adentra ao banquete real sem a veste adequada [11]. O rei se acerca dele e o chama por 'amigo' [12], não como um traço de intimidade, mas como uma repreensão solene a alguém que estava ali como convidado, uma vez que aceitara previamente o chamado de Deus. Mas não basta ser chamado; impõe-se chamar-se, ou seja, investir alma e coração ao chamado divino. Há uma clara divisão entre o chamado e o juízo divinos, expressos pelas duas realidades distintas entre a 'sala cheia de convidados bons e maus' e 'a entrada do rei para ver os convidados'.  

O silêncio do homem [12] ratifica o seu traje inadequado (uma vez desprovido interiormente da graça apenas exterior e aparente) e sela o seu destino final da sua expulsão do banquete e exclusão definitiva da comunhão com Deus, tal como os convidados que recusaram o convite. O 'choro e ranger de dentes' [13] expressa a dor e o sofrimento dessa perda e severidade da cena ressalta a responsabilidade de cada homem diante o convite divino. 

As palavras finais do rei são particularmente duras e reverberam pelos tempos aos homens de todos os tempos: 'Muitos são chamados, e poucos são escolhidos' [14]. O convite a ingressar no banquete real é um dom da infinita misericórdia de Deus; revestir-se da graça divina é a contrapartida para poder merecer ficar no banquete na santa presença de Deus. E estes serão muitos e serão poucos. Pois embora os bons sejam numerosos em si mesmos, são poucos em comparação com os maus, assim como o trigo em comparação com a palha (Santo Agostinho).

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXX/Final)

PARTE IV - O CÉU

IV. Sobre o número dos que se salvam

Nos três capítulos anteriores, tivemos a agradável tarefa de mostrar quão belo é o paraíso celestial e quão grande é a felicidade de que desfrutam os redimidos. Sem dúvida, no coração de cada um de nossos leitores surgiu um fervoroso desejo de ser admitido nos domínios da luz eterna e de participar de suas alegrias. Talvez cada um se sinta seguro de que suas esperanças a esse respeito serão realizadas.

É, contudo, muito de temer que muitos não alcancem a meta e sejam para sempre excluídos do Reino dos Céus, como este capítulo pretende demonstrar. Permiti-me, porém, suplicar a todos os que o lerem que não deixem que estas palavras os desanimem e os tornem pusilânimes, mas que, pelo contrário, elas aumentem neles o espírito de humildade e de temor salutar, estimulando-os a maior empenho e diligência na obra de sua salvação, caso esta lhes pareça menos fácil do que estavam inclinados a imaginar. Meu único motivo ao escrever este capítulo é abrir os olhos do leitor e mostrar-lhe o perigo em que se encontra. Pois, se eu não o fizesse, ele poderia continuar cegamente pelo caminho errado e somente perceber que se trata do caminho da perdição quando já fosse tarde demais para voltar atrás, quando a mão da morte retirasse o véu de seus olhos. Considero, portanto, que prestarei um serviço àquele que anda desgarrado se o esclarecer acerca do risco que corre e procurar dirigir seus passos para o caminho do Céu.

Permite-me perguntar-te, ó leitor: que proporção de todos os que vivem sobre esta terra julgas que será salva? A metade? A terça parte? Ou talvez a quarta parte? Ah! Receio, e não sem boas razões, que o número esteja muito longe de ser tão grande. Jesus Cristo, que é a Verdade eterna, seus santos Apóstolos e os Padres da Igreja, todos nos dizem que assim será.

Que diz Cristo acerca do número dos eleitos? Suas palavras são estas: 'Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos'. Ele repete essas palavras ao falar do convidado que não trajava a veste nupcial: 'Atai-lhe as mãos e os pés e lançai-o nas trevas exteriores. Pois muitos são chamados, mas poucos são escolhidos'. Ainda que nada mais se encontrasse em toda a Escritura a esse respeito, essa passagem não poderia deixar de nos alarmar. Há, porém, muitas outras semelhantes, das quais citarei uma ou duas.

No Evangelho de São Mateus, lemos que Nosso Senhor disse: 'Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso é o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ele. Quão estreita é a porta e apertado o caminho que conduz à vida, e poucos são os que o encontram' (Mt 7,13). Não são essas palavras capazes de nos inspirar inquietação e apreensão? Não poderemos estar entre aqueles que entram pela porta larga e caminham pela estrada espaçosa que termina na perdição eterna?

Para que possas compreender melhor o sentido das palavras de Nosso Senhor e perceber mais claramente quão poucos são os eleitos, observa que Cristo não disse que eram poucos os que caminhavam pela senda do Céu, mas que eram poucos os que encontravam esse caminho estreito. 'Quão estreita é a porta que conduz à vida, e poucos são os que a encontram'. É como se o Salvador quisesse dizer: o caminho que conduz ao Céu é tão estreito e tão áspero, tão tomado pela vegetação, tão escuro e difícil de distinguir, que muitos passam a vida inteira sem jamais encontrá-lo. E aqueles que o encontram estão constantemente expostos ao perigo de se desviar dele, de tomar uma direção errada e de se afastar inadvertidamente, porque ele é tão irregular e tão encoberto pela vegetação. Assim o diz São Jerônimo em seu comentário à passagem em questão. Além disso, há alguns que, mesmo estando no caminho certo, se apressam em abandoná-lo, porque ele é tão íngreme e penoso. Há também muitos que são atraídos para fora do caminho estreito pelas artimanhas e pelos enganos do demônio e, assim, quase sem perceber, são conduzidos para baixo, rumo ao Inferno. De tudo o que foi dito, podemos concluir que são poucos os que encontram o caminho do Céu, e ainda menos os que perseveram em segui-lo até o fim.

Ora, como Cristo sabia que essas suas palavras seriam mal interpretadas e entendidas em sentido falso tanto pelos crentes como pelos descrentes, em outra ocasião acentuou e reforçou o que já havia dito acerca do pequeno número dos eleitos. Pois, quando um dos discípulos lhe perguntou: 'Senhor, são poucos os que se salvam?' - Ele respondeu: 'Esforçai-vos por entrar pela porta estreita; porque muitos, eu vos digo, procurarão entrar e não poderão' (Lc 13,24). Escuta as palavras do Divino Mestre. Ele nos ordena que nos esforcemos, que nos empenhemos, que empreguemos todas as nossas forças para entrar pela porta estreita. E, o que é ainda mais capaz de nos causar temor, acrescenta que muitos procurarão entrar e não poderão.

Se aqueles que desejam e se esforçam por entrar no Reino dos Céus não conseguem fazê-lo, que será daqueles que levam uma vida descuidada, talvez até ímpia, e não demonstram zelo nem interesse pelo que diz respeito à sua salvação eterna? Já ouvimos Cristo declarar-nos três vezes que o número dos eleitos é pequeno; que, em proporção à grande massa da humanidade, apenas poucos serão salvos. E, como sabia que não tomaríamos a peito essa grave verdade como deveríamos, Ele a repete em linguagem ainda mais explícita.

Depois de dizer a um homem rico que viera procurá-lo que deixasse todos os seus bens e o seguisse, e de o homem se retirar entristecido, Ele disse, dirigindo-se aos discípulos: 'Quão dificilmente entrarão no Reino de Deus os que possuem riquezas!' E os discípulos ficaram admirados com suas palavras. 'Mas Jesus, tornando a falar, disse-lhes: Filhos, quão difícil é para os que confiam nas riquezas entrar no Reino de Deus! É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus. Então, eles se admiraram ainda mais, dizendo entre si: Quem, pois, poderá salvar-se? E Jesus, olhando para eles, disse: Aos homens isso é impossível, mas não a Deus; porque a Deus tudo é possível' (Mc 10,23-27).

Na verdade, essas palavras, vindas dos lábios de nosso Divino Mestre, bastam para nos inspirar profundo temor; quase bastam para nos fazer perder o ânimo. Pois elas nos dizem expressamente que a obra de nossa salvação é de imensa dificuldade, uma realização quase milagrosa, e que é quase impossível à pobre humanidade entrar no Reino dos Céus. É, na realidade, tão milagroso que um homem escape da perdição eterna e alcance a felicidade eterna quanto seria que um único homem, sozinho, vencesse e pusesse em fuga um exército inteiro. Pois todas as potências do Inferno se aliam ao mundo perverso contra nós; todas as potências do Inferno dispõem suas forças em ordem de batalha para vencer e escravizar cada um de nós, mortais. E, com as terríveis potências das trevas, o mundo mau e astuto faz causa comum, assim como as concupiscências da carne, com o propósito de provocar nossa ruína.

Ora, visto que são tantos os adversários que nos assaltam, adversários tão astutos, tão fortes e tão ferozes, quem poderá julgar-se seguro da vitória? É quase um milagre escapar das garras de inimigos tão numerosos e tão formidáveis. Quem poderá esperar vencê-los por suas próprias forças? Devemos necessariamente reconhecer que todos os que venceram o inimigo maligno, o mundo perverso e suas próprias inclinações más foram fortalecidos por Deus com seu auxílio especial. Vemos, assim, quão penosa e laboriosa é a tarefa de conquistar o Céu; e compreendemos a verdade das palavras de Nosso Senhor, quando disse: 'O Reino dos Céus sofre violência, e os violentos o arrebatam' (Mt 11,12).

Para consolo e encorajamento do cristão, deve-se observar aqui que, se o número de seus inimigos é tão assustadoramente grande, o número de seus amigos é ainda maior. 'Não temas, porque são mais os que estão conosco do que os que estão com eles'. Assim falou o profeta Eliseu ao seu servo amedrontado. 'E o Senhor abriu os olhos do servo, e ele viu; e eis que o monte estava cheio de cavalos e de carros de fogo' (4Rs 6,16). Não somos deixados sozinhos no combate; nosso santo Anjo da Guarda e todos os espíritos bem-aventurados estão ao nosso lado; podemos contar com a poderosa proteção da Mãe de Deus, com a eficácia dos sacramentos, com os méritos da Paixão de Cristo, com a inspiração do Espírito Santo e com o socorro de Deus Todo-Poderoso. Por meio desses poderosos auxílios, venceremos, se combatermos corajosamente e não nos entregarmos, por fraqueza, ao cativeiro, como infelizmente tantos fazem. Pois essas pessoas tímidas, indolentes e sem ânimo iludem-se com a falsa esperança de que, afinal, não é difícil conquistar o Céu. Pensam e dizem a si mesmas: a situação não é tão grave quanto alguns querem fazer parecer; Cristo não sofreu por nós em vão; se não fosse da vontade de Deus que nos salvássemos, Ele não nos teria criado para desfrutarmos do Céu. Essas e outras palavras semelhantes ouvimos dos lábios dos filhos deste mundo; eles vivem segundo essas ideias e conseguem enganar a si mesmos e aos outros.

A Sagrada Escritura não nos deixa dúvida de que essas pessoas estão no erro e caminham pela estrada larga que conduz à perdição. Todo o ensinamento do Evangelho se opõe inteiramente aos princípios que elas seguem; e aqueles que levam uma vida descuidada e satisfazem desregradamente os sentidos são repetidamente advertidos de que a morte eterna será sua porção. Escuta a advertência que Cristo dirige aos devotos deste mundo e aos amantes de seus prazeres: 'Ai de vós, os ricos, porque já tendes a vossa consolação! Ai de vós, os que estais saciados, porque tereis fome! Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis! Ai de vós, quando os homens vos louvarem!' - isto é, quando homens de maus princípios, contrários às máximas da religião, aplaudirem vossas palavras, vossas ações e vossas opiniões. Essa condenação, saída dos lábios de Nosso Senhor, bem pode encher-nos de temor. Qual é o objetivo da grande maioria dos homens na vida? Que procuram alcançar e pelo que anseiam? Desejam ser ricos, prosperar, viver no luxo e ser louvados por seus semelhantes. Ninguém considera isso um pecado. E, no entanto, Nosso Senhor declara que a morte eterna será o destino dessas pessoas e as denuncia em termos veementes.

Por essas e outras passagens semelhantes, que abundam na Sagrada Escritura, vês que Deus é mais rigoroso do que imaginas e que perder tua alma é mais fácil do que talvez penses. Portanto, não continues a viver tão descuidadamente, mas trabalha por tua salvação com temor e tremor, como te exorta o Apóstolo. Assim fizeram os santos em todos os tempos, tendo sempre diante dos olhos o temor dos juízos de Deus. Os ímpios, pelo contrário, sempre costumaram dizer, como muitos ainda dizem hoje: Deus é misericordioso; Ele não nos condenará tão facilmente à perdição eterna. Mas recorda o que diz a Sagrada Escritura: 'Não estejas sem temor acerca do pecado perdoado, e não acrescentes pecado a pecado. E não digas: A misericórdia do Senhor é grande; Ele terá misericórdia da multidão dos meus pecados. Pois a misericórdia e a ira vêm prontamente dele, e sua ira recai sobre os pecadores' (Eclo 5,5-7). Encontramos também Santa Catarina de Sena dizendo: 'Ó infelizes pecadores, não vos fieis na grandeza da misericórdia de Deus; crede-me: quanto mais provocardes a ira desse Deus misericordioso pelo pecado deliberado, tanto mais profundamente sereis lançados no abismo da perdição'.

É indubitavelmente verdade que devemos depositar nossa confiança na misericórdia de Deus; mas São Gregório nos ensina qual deve ser a natureza dessa confiança. Ele diz: 'Aquele que faz tudo quanto pode confie firmemente na misericórdia de Deus. Mas, para aquele que não faz tudo o que está ao seu alcance, confiar na misericórdia de Deus seria mera presunção'. A todos e a cada um de nós, o Apóstolo Pedro diz: 'Empenhai-vos ainda mais para tornar certa, pelas boas obras, a vossa vocação e eleição' (2Pd 1,10).

Vários Padres da Igreja consideram que, do fato de apenas oito pessoas terem sido salvas por ocasião do dilúvio, de apenas quatro - a saber, Ló, sua mulher e suas duas filhas - terem escapado com vida da destruição de Sodoma e Gomorra, e de não mais de dois dos seiscentos mil homens aptos que saíram do Egito terem alcançado a Terra Prometida, enquanto todos os demais morreram no deserto, pode-se concluir que o número dos eleitos entre os cristãos será proporcionalmente pequeno. Isso concorda com o que São João Crisóstomo disse certa vez, ao pregar na cidade de Antioquia: 'Que pensais, meus ouvintes: quantos habitantes desta cidade poderão talvez salvar-se? O que estou prestes a dizer é muito terrível; contudo, não vo-lo ocultarei. Desta cidade tão populosa, com seus milhares de habitantes, nem cem se salvarão; duvido até mesmo que sejam tantos. Pois quanta indiferença vemos entre os idosos, quanta maldade entre os jovens, quanta impiedade entre todas as classes de pessoas!'

Palavras como essas bem podem fazer-nos tremer. Hesitaríamos em acreditar nelas se não viessem dos lábios de tão grande Santo e Padre da Igreja. E, se é verdade que, nos cinco primeiros séculos, quando o zelo e a devoção dos cristãos eram muito mais fervorosos do que agora, um número tão pequeno alcançava a salvação eterna, que acontecerá em nossos dias, quando o crime e o vício predominam em proporções tão assustadoras? Visto que ninguém pode negar, ou sequer duvidar, que o número dos eleitos é pequeno em comparação com o dos réprobos, suplico-te, ó leitor cristão, que te empenhes ao máximo em realizar a obra de tua salvação. Sabes quão terrível é ser condenado eternamente.

Os suplícios e tormentos do Inferno são tão terríveis que não se encontram palavras para descrevê-los. Considera, enquanto é tempo, a eternidade dessas torturas indizíveis e acautela-te, para que também tu não sejas lançado no abismo de uma angústia sem fim. Como poderias suportar tormentos tão imensuráveis e tão intermináveis? Não perderias o ânimo e te entregarias ao desespero? Não te enfurecerias e te revoltarias? Contudo, isso de nada te valeria; apenas acrescentaria sofrimento aos teus padecimentos e aumentaria tua miséria.

Tudo isso é terrível, pavoroso e aterrador. Como é que não pensas nisso mais frequentemente? Como é possível que continues a viver tão descuidadamente? Como é possível que não tenhas maior temor do Inferno? Julgas, talvez, que o Céu te está assegurado? Como é que segues a multidão, como se não soubesses que corres grande perigo de perecer com ela?

Se queres salvar-te, segue o conselho de Santo Anselmo, quando diz: 'Se queres ter certeza de estar no número dos eleitos, esforça-te por ser um dos poucos, e não um dos muitos. E, se queres estar inteiramente seguro de tua salvação, esforça-te por estar entre os mais poucos dentre os poucos; isto é: não sigas a grande maioria dos homens, mas segue aqueles que entram pelo caminho estreito, que renunciam ao mundo, que se entregam à oração e que nunca afrouxam seus esforços, nem de dia nem de noite, para alcançar a felicidade eterna'.

CONCLUSÃO

Façamos, meu caro leitor, com coragem e alegria, tudo quanto for necessário; empreendamos tudo e sacrifiquemos tudo para alcançar a felicidade inefável do Céu, pois jamais poderemos pagar por ele um preço demasiado alto. Não nos deixemos abater pelas dificuldades do caminho, pois, afinal, não é tão difícil merecer o Céu. Se fizéssemos pelo Céu a metade do que as pessoas fazem para ganhar o sustento, adquirir um pouco de riqueza, poder ou fama, ou desfrutar da vida, estaríamos certos de assegurar um lugar elevado entre os santos. Tudo o que temos de fazer para alcançar o Céu é guardar os mandamentos de Deus e de sua Igreja, carregar nossas pequenas cruzes, cumprir as obrigações de nosso estado de vida e vencer a tentação; e, embora isso ultrapasse nossas forças naturais, podemos, contudo, contar com a graça de Deus, se a pedirmos com fervor. Com o auxílio de Deus, tudo se tornará relativamente fácil, pois, como diz São Paulo: 'Tudo posso naquele que me fortalece' (Fl 4,13). A oração fervorosa e perseverante nos assegurará o Céu.

Agora, caro leitor, dirijo-te as palavras que a mãe dos Macabeus disse ao seu filho mais novo, ainda um menino, quando ele estava prestes a ser torturado até a morte, como seus seis irmãos haviam sido antes dele: 'Meu filho, suplico-te que olhes para o Céu'. Olha para o Céu todos os dias, especialmente nos momentos de provação e de tentação. O Céu vale plenamente cada sofrimento, cada sacrifício e cada combate que nos são exigidos, e até mil vezes mais! A vida é breve; suas provações, seus sofrimentos, seus trabalhos, seus combates e suas cruzes também são breves e transitórios; mas o Céu e suas alegrias são inconcebíveis, satisfazem todos os desejos do coração e não têm fim! - 'A nossa tribulação presente, momentânea e leve, produz para nós, acima de toda medida, um peso eterno de glória' (2Cor 4,17). Que Deus, em sua misericórdia, conceda esse feliz fim ao autor deste livro e a todos aqueles em cujas mãos ele vier a cair.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)