domingo, 8 de novembro de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

         

'A minh'alma tem sede de Vós, e vos deseja, ó Senhor' (Sl 62)

Primeira Leitura (Sb 6,12-16) - Segunda Leitura (1Ts 4,13-18) - Evangelho (Mt 25,1-13)

  08/11/2026 - TRIGÉSIMO SEGUNDO DOMINGO DO TEMPO COMUM

 A PARÁBOLA DAS DEZ VIRGENS


No Evangelho deste domingo, Jesus nos exorta a praticar a vigilância constante em relação à hora da nossa morte pois ela há de vir na hora mais inesperada: 'ficai vigiando, pois não sabeis qual será o dia nem a hora' (Mt 25,13). No fim da nossa vida, não haverá mais tempo para prover-nos tributos de salvação e então, no Juízo Particular, Deus vai nos pedir contas da nossa vigilância à Sua Santa Vontade, do cumprimento de nossas ações cristãs e do acervo das graças recebidas e dos talentos aproveitados ou não. Neste momento tremendo de nossa existência, seremos julgados previdentes ou imprevidentes pelo Pai e merecedores ou não do Reino dos Céus.

São palavras de salvação, porque a única coisa realmente importante para o homem é a salvação eterna de sua alma, expressas sob a forma da parábola das dez virgens (Mt 25,1-13) que esperam a chegada do noivo, que tarda a chegar. O ingresso no Reino de Deus se assemelha às núpcias das festas de casamento daquele tempo em que a entrada da esposa na casa do esposo era um evento singular, marcado pela condução ritual da noiva por um certo número de virgens auxiliares.

Na narração evangélica, estas virgens são dez ao todo, cinco delas previdentes e outras cinco imprevidentes. As primeiras, prevendo uma eventual demora do noivo (o Senhor), guardaram uma provisão de óleo para manterem acesas as suas lâmpadas qualquer que fosse a hora que o noivo chegasse; ao contrário, as virgens imprudentes, não tendo o mesmo cuidado, viam angustiadas o óleo ser consumido e as suas lâmpadas prestes a se apagarem. E então recorrem desesperadamente às primeiras para que estas lhes forneçam o óleo necessário, o que lhes é negado peremptoriamente. Na morte, na nossa morte, não teremos tempo nem acesso a 'óleos' alheios, a provisão dos nossos méritos será fruto tão somente daquilo que efetivamente levarmos desta vida.

Diante de Deus, cada um de nós deverá responder por si, como resultado de um julgamento pessoal e intransferível. Ou apresentamos as lâmpadas acesas da graça, providas pelo óleo abundante da fé, para merecermos entrar no Reino de Deus ou ficaremos às escuras diante da porta fechada e da terrível sentença do juiz eterno: 'Não vos conheço!' (Mt 25,12): 'Não vos conheço, porque não seguistes os meus mandamentos, não vivestes segundo os meus princípios e leis, não vos tornastes na terra herdeiros dos Céus!'

sábado, 7 de novembro de 2026

LENDAS DA BEM AVENTURADA VIRGEM MARIA (VI)

 

Malines ou Mechlin é talvez a única cidade do mundo que conservou, em toda a sua perfeição original, as festas ou procissões religiosas da Idade Média. Em 1825, por ocasião do Jubileu de São Romualdo, a quem deve o conhecimento do Evangelho e, em 1838, por ocasião do Jubileu de Nossa Senhora de Hanswyck (nome de uma imagem venerada com grande estima), esta antiga cidade cristã ofereceu o magnífico e popular espetáculo daquelas gigantescas procissões, ricas em alegorias e adornadas com trajes tão atraentes que encantavam a multidão. Sua aparência faz recordar os tempos de Filipe, o Bom, quando as mesmas festas se realizavam exatamente da mesma maneira, diferindo apenas os espectadores.

Descreveremos aqui fielmente, em todos os seus pormenores, a grandiosa procissão de 1838, na convicção de que nossos leitores a apreciarão, pois poucos dentre eles talvez tenham assistido a uma festa de caráter tão extraordinário. À frente marchava, a pé, uma banda de música, trajada segundo a moda da época atual, seguida por um esquadrão de cavalaria. Este conjunto constituía uma introdução moderna a uma cerimônia antiga. A ordem da procissão era a seguinte.

Um grupo de dezesseis anjos a cavalo, com grandes asas estendidas e vestes azul-celestes, tocando trombetas douradas, em torno do arauto que conduzia o estandarte do Jubileu. Anunciavam a chegada da representação da Ladainha da Santíssima Virgem de Loreto. Essa doce e predileta devoção do povo era representada por figuras emblemáticas. Vinham primeiro trinta e seis donzelas, montadas a cavalo, elegantemente vestidas de branco, segundo a moda modesta e decorosa da arte cristã, trazendo sobre a cabeça coroas das quais pendiam ricos véus de renda.

Cada uma levava na mão esquerda o atributo que representava: a Torre de Davi, a Casa de Ouro, a Torre de Marfim, a Rosa Mística, o Espelho de Justiça, etc.; e, com a mão direita, agitavam estandartes de seda branca. Em cada estandarte estava bordado, em letras douradas, um dos títulos atribuídos à nossa Santíssima Senhora, tais como: Mãe Amável, Mãe Admirável, Virgem Poderosa, Virgem Clemente, Causa de Nossa Alegria, Saúde dos Enfermos, Refúgio dos Pecadores, Consoladora dos Aflitos e Auxílio dos Cristãos, etc. Assim, o espetáculo constituía, para o povo, uma oração contínua.

A parte final da Ladainha, na qual a dignidade de Rainha é tão justamente atribuída a Maria, dava lugar a representações ainda mais majestosas. Oito carros triunfais transportavam os grupos emblemáticos desses gloriosos títulos de nossa Rainha Celestial. À frente dos carros, seguiam coros de anjos, com asas brancas como a neve e frontes ornadas de estrelas, tocando harpas e saltérios, montados em palafréns magnificamente ajaezados.

A Rainha dos Anjos ocupava o primeiro carro, puxado por seis cavalos de cor creme. Estava elevada sobre um trono dourado, ao redor do qual se ajoelhavam numerosos espíritos celestiais. Serafins, querubins, arcanjos e anjos rodeavam sua Rainha; as Potestades, os Principados e as Dominações traziam coroas e cetros. Todas essas personagens eram representadas por jovens donzelas, escolhidas entre as famílias mais nobres de Malines.

A Rainha dos Patriarcas ocupava o segundo carro, acompanhada pelas veneráveis personagens da Antiga Lei: Adão, Noé, Abraão, Jacó etc. Em seguida, vinha a Rainha dos Profetas, em torno de cujo trono se viam os homens inspirados, cujas vozes haviam anunciado o futuro, com a mesma clareza com que recordavam o passado, desde Abraão até São João Batista.

O quarto carro transportava a Rainha dos Apóstolos, sentada em um trono elevado, coberto por um dossel, sobre o qual se erguia o brasão da Sé de Pedro, emblema eterno da Igreja. Entre os doze Apóstolos, os escolhidos de Cristo, diretamente encarregados por Ele de propagar o Seu Santo Evangelho, viam-se seus sucessores, que haviam sido os principais instrumentos da difusão da religião cristã no norte da Gália: São Rombaldo, São Servácio, Santo Amando, São Lamberto, São Livino, São Gomer e São Vilibrordo.

A Rainha dos Mártires estava sentada no quinto carro, que representava toda a Terra; pois onde não foi derramado o sangue dos cristãos em defesa da fé? Princesas e religiosas, bispos e soldados, crianças e anciãos, jovens donzelas e mães - todos ali se encontravam, trazendo as palmas de seu triunfo. O sexto carro tinha a forma de um púlpito e transportava a Rainha dos Confessores e sua corte militante. A jovem donzela que segurava as rédeas trazia também uma espada desembainhada, para mostrar que aqueles que trabalham na propagação da fé devem estar sempre prontos a derramar o próprio sangue, se necessário, em sua defesa.

Em seguida, vinha a Rainha das Virgens. A bela condutora desse carro calcava aos pés os prazeres do mundo; atrás dela havia uma roda e uma palma e, à sua direita, um cordeiro, emblema da inocência. O oitavo carro fora concebido para representar os céus, onde reinava a Rainha de Todos os Santos, rodeada por sua corte celestial, em torno da qual resplandecia uma glória brilhante.

A Grande Sociedade Harmônica de Malines seguia a Ladainha; mas seus integrantes, infelizmente, prejudicavam o efeito do conjunto por estarem vestidos segundo a moda moderna. Teria sido preferível atribuir-lhes os trajes dos personagens da corte de Davi, ou outros que correspondessem ao caráter alegórico da festividade. Mas eis que surge a própria Malines, representada por uma bela criança coroada de torres e rodeada por nove donzelas, que traziam os emblemas das virtudes da cidade: Fé, Prudência, Caridade, União, Constância, Fidelidade, Valor, Modéstia e Justiça.

Os oficiais de cavalaria, os ajudantes de campo do rei e os altos dignitários da corte seguiam a cavalo. Atrás deles vinha um carro real, puxado por oito cavalos, no qual eram fielmente representados, por crianças de doze anos, o Rei e a Rainha dos Belgas, sentados em seu trono. Os atributos das artes, do comércio, da justiça e da guerra estavam agrupados a seus pés. O carro era conduzido pela Fidelidade, pela Religião, pela Justiça, pela Bondade; a Bélgica, a Sabedoria e a Generosidade formavam o séquito de suas Majestades. Quatro anjos alados, um em cada canto do carro, sustentavam no alto o estandarte nacional, encimado pelo leão.

Um grupo de oficiais da Marinha fazia a transição para outro espetáculo. Tratava-se de um navio, representando a prosperidade do país, engenhoso emblema, pois a navegação é, para todas as nações, uma fonte de riqueza. A Prosperidade do País era representada por um navio de três mastros, com suas velas, cordames, bandeiras e canhões. Uma figura emblemática da Bélgica comandava a embarcação, acompanhada de seus oficiais e marinheiros. O navio percorria as ruas por meio de engenhosos mecanismos e era seguido por personagens fantásticos, que serviam de precursores ao cavalo Bayard, um animal gigantesco, sobre cujo dorso cavalgavam quatro cavaleiros medievais: os filhos de Aymon.

Segundo a tradição do país, Aymon era conde de Termonde. Seus quatro valorosos filhos defenderam Malines e Brabante, e Bayard, seu fiel corcel, frequentemente ia alimentar-se na floresta de Soigne, onde deixou a marca de seu casco sobre uma rocha. Antigamente, pastava nas férteis planícies banhadas pelo rio Dyle. Depois de Bayard, vinham os Gigantes, pelos quais as cidades do norte são tão famosas. Surgiam então três personagens, com quinze pés de altura (aproximadamente 4,57 metros), cujo pai e cuja mãe se elevavam acima das casas. A mãe, uma princesa colossal, segurava um leque tão grande quanto aqueles com que os criados, nas Índias, refrescam seus senhores.

O avô era ainda mais alto que seu filho, para mostrar que cada geração havia diminuído de estatura. Estava sentado em uma monstruosa carruagem de duas rodas, de formato antigo, escoltado por dois camelos gigantescos montados por cupidos. Tratava-se, segundo se dizia, de uma relíquia dos cruzados, que teriam sido os primeiros a introduzir esses animais na Europa. Depois dessas figuras gigantescas vinha, como uma espécie de lição moral do espetáculo, um bom velhinho que, fumando seu cachimbo, era conduzido em uma carroça miserável e puxava a roda da Senhora Fortuna. A própria deusa era transportada no alto, rodeada por figuras que, à medida que ela se movia, subiam ou caíam, mostrando os caprichos que essa senhora exerce sobre a humanidade.

Esses personagens, elegantemente trajados, representavam um Arlequim e uma mendiga; um caçador e uma leiteira; um cortesão e uma jovem coquete; um eremita e uma velha. Explosões de riso acompanhavam as vicissitudes pelas quais passavam essas diversas personagens durante o percurso. A cavalgada encerrava-se, assim como havia começado, com um numeroso corpo de cavalaria.

Tal era, em rápida descrição, a curiosa procissão que, durante os quinze dias do Jubileu, de 15 de agosto a 1º de setembro de 1838, percorreu quatro vezes a cidade de Malines. Mas que relação, perguntar-se-á, tem tudo isso com Nossa Senhora de Hanswyck? O pouco que conseguimos reunir sobre esse assunto é o que passaremos agora a relatar.

Em 1188, um navio que transportava os preciosos restos de uma pequena igreja em ruínas deteve-se por si mesmo nas águas do rio Dyle e nenhum esforço dos marinheiros conseguiu fazê-lo avançar. A embarcação havia parado justamente diante da pequena aldeia de Hanswyck, onde, pouco tempo depois, foi construída uma capela dedicada à Santíssima Virgem. Em seu santuário foi colocada uma imagem de Nossa Senhora, o mais precioso objeto que o navio transportava.

Essas circunstâncias, tornando-se amplamente conhecidas, e sendo evidente que Nossa Senhora havia escolhido aquele lugar para seu santuário, numerosos peregrinos passaram a visitá-lo. Muitas e maravilhosas foram as curas e graças recebidas por aqueles que ali buscavam seu auxílio. A imagem milagrosa, que ainda existe, traz em um dos braços seu Divino Filho e, na outra mão, um cetro. Inumeráveis têm sido as curas, tanto corporais como espirituais, alcançadas diante dessa imagem. Em 1578, a igreja de Hanswyck foi incendiada e o mosteiro destruído pelos hereges.

Das proximidades desse lugar, os religiosos refugiaram-se em Malines, levando consigo, como seu único tesouro, essa imagem, que mantiveram escondida durante algum tempo. Por fim, construíram um novo mosteiro em Malines, próximo à porta de Louvain, onde colocaram sua preciosa imagem. Em 1585, Nossa Senhora de Hanswyck assinalou seu estabelecimento em Malines, libertando a cidade de um inimigo que a sitiava. Uma das chaves da cidade foi, desde então, confiada à sua guarda pelos magistrados. Seu santuário tornou-se tão frequentado, e tão ricas eram as oferendas ali depositadas, que se construiu a igreja com sua bela cúpula, que desperta a admiração dos visitantes da cidade.

No último Jubileu de Nossa Senhora de Hanswyck, cem mil forasteiros visitaram a cidade. Todas as ruas estavam ornamentadas e iluminadas, e belas pinturas translúcidas eram expostas à contemplação pública. Os trens chegavam a cada meia hora e, quando contemplávamos aquelas belas procissões e festividades, quão tristemente nos vinha ao pensamento o contraste com os espetáculos frios e destituídos de significado de nossa própria terra!

(Excertos da obra 'Légendes de la Sainte Vierge', por J. Collin de Plancy, 1853)

sexta-feira, 6 de novembro de 2026

A PEREGRINAÇÃO DE ETHERIA (I)

I. A primeira contemplação do Monte Sinai


Ao atravessar as montanhas do deserto, Etheria chegou a um vale muito extenso, de onde pôde contemplar pela primeira vez o monte Sinai.

'Chegamos a pé a certo lugar onde as montanhas, por entre as quais caminhávamos, se abriam, formando um vale imensamente grande, inteiramente plano e de extraordinária beleza. Do outro lado do vale aparecia o Sinai, o santo monte de Deus.

Ao chegarmos ali, os santos guias que nos acompanhavam disseram-nos: 'É costume que aqueles que aqui chegam façam uma oração quando, deste lugar, avistam pela primeira vez o monte de Deus'. E assim fizemos.

A distância daquele lugar até o monte de Deus era de aproximadamente quatro milhas, atravessando o grande vale anteriormente mencionado'. 

Reflexão Espiritual: O encontro com os lugares santos começa pela oração. Antes mesmo de subir a montanha, a peregrina reconhece que está diante de um lugar consagrado pela memória da manifestação de Deus a Moisés.

O episódio revela uma característica de toda a obra: para Etheria, a paisagem bíblica não é apenas objeto de contemplação, mas uma ocasião de encontro com Deus.

A Peregrinação de Etheria é um dos mais importantes documentos cristãos da Antiguidade sobre as peregrinações à Terra Santa e, sobretudo, sobre a liturgia da Igreja de Jerusalém praticada no século IV. A obra é também conhecida como Itinerarium Egeriae (Itinerário de Egéria), sendo atribuída a uma peregrina cristã chamada Egéria ou Etéria, que viajou pelo Oriente Cristão provavelmente entre 381 e 384 d.C.

BREVIÁRIO DIGITAL: A PEQUENA VIA (VI)

 

A Vontade de Nosso Senhor enche meu coração até transbordar; por isso, se alguma outra coisa lhe é acrescentada, não consegue penetrar em suas profundezas, mas, como o óleo sobre a superfície de águas límpidas, desliza suavemente sobre elas.

Se meu coração já não estivesse repleto e tivesse de ser preenchido pelos sentimentos de alegria e tristeza que tão rapidamente se alternam, então, certamente, seria inundado por uma onda de amarga dor. Mas essas mudanças, que se sucedem tão depressa, mal chegam a encrespar a superfície de minha alma; e, em suas profundezas, reina uma paz que nada pode perturbar.

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

'POR QUE ESTAIS DORMINDO?'


'Por que dormis? Levantai-vos e orai, para que não entreis em tentação'
(Lc 22,46)

Há horas na história dos homens em que o silêncio deixa de ser prudência e se transforma em omissão; em que a tranquilidade já não é sinal de paz, mas de uma consciência adormecida; em que a indiferença diante do mal se torna mais perigosa do que o próprio mal, porque lhe abre silenciosamente as portas.

E não é essa a realidade do mundo atual? Nunca os homens falaram tanto de liberdade, e nunca tantos se deixaram escravizar pelas próprias paixões. Nunca se proclamaram tantos direitos, e nunca a dignidade da vida humana esteve exposta a tantas contradições. Nunca se multiplicaram tanto os meios de comunicação, e nunca foi tão difícil escutar a voz da verdade no tumulto das opiniões.

E, no entanto, enquanto tudo isso acontece, muitas almas dormem. Dormem embaladas pelas comodidades da vida, pelas distrações intermináveis, pela preocupação exclusiva com os bens passageiros. Dormem porque já não desejam contemplar as realidades eternas. Dormem porque se habituaram ao pecado, à tibieza e à ausência de Deus.

Eis que, através dos séculos, ressoa novamente a pergunta dolorosa de Nosso Senhor no Jardim das Oliveiras: 'Por que estais dormindo?' Naquela noite tremenda, Jesus encontrava-se em agonia. Sobre o seu Coração inocente pesavam os pecados do mundo. Aproximava-se a hora da traição, do abandono, dos açoites e da Cruz. E aqueles que Ele escolhera para acompanhá-lo, vencidos pela tristeza e pelo cansaço, dormiam.

Que imagem impressionante da nossa própria época! Cristo continua a ser ofendido, a verdade continua a ser desprezada, a caridade esfria em muitos corações, e nós, tantas vezes, permanecemos tranquilos, como se nada estivesse acontecendo. O grande perigo dos tempos difíceis não está somente na violência dos que combatem a verdade, mas também na sonolência daqueles que deveriam testemunhá-la.

Vigiar é conservar acesa a lâmpada da fé. É permanecer fiel quando a fidelidade exige sacrifício. É defender a verdade sem abandonar a caridade. É resistir ao pecado sem desprezar o pecador. É não permitir que o espírito do mundo penetre silenciosamente em nossa alma, enfraquecendo nossas convicções e tornando-nos indiferentes à santidade. Vigiar é, sobretudo, rezar. Porque o homem que deixa de rezar começa lentamente a esquecer-se de Deus; e aquele que se esquece de Deus acaba por organizar a própria existência como se a eternidade não existisse. Que terrível ilusão!

Quando as trevas se adensam, uma pequena luz torna-se mais preciosa. Quando a mentira se multiplica, uma consciência reta torna-se um testemunho mais necessário. Quando o egoísmo parece triunfar, um único gesto de verdadeira caridade pode revelar ao mundo a presença de Cristo. Não nos foi prometida uma existência sem tribulações. Foi-nos prometido algo infinitamente maior: a presença do Senhor até a consumação dos séculos. Mas cada um de nós deverá responder, pessoalmente, à pergunta que ecoa no Getsêmani.

Onde estavas quando a tua fé era posta à prova? Onde estavas quando a verdade precisava de testemunhas? Onde estavas quando um irmão necessitava da tua caridade? Onde estavas quando Deus te chamava à conversão? Desperta, pois, ó alma cristã! Desperta da indiferença, da vaidade e da falsa segurança. Volta os olhos para o Crucificado. Aproxima-te dos sacramentos. Recomeça a oração abandonada. Reconcilia-te com Deus. Faz da tua casa um pequeno santuário de fé, de paz e de caridade.

A noite pode ser longa, mas não é eterna. A última palavra da história não pertence ao pecado, à violência ou à morte. Pertence a Jesus Cristo, que venceu o mundo e ressuscitou glorioso. E quando o Senhor vier, seja na hora derradeira da nossa vida, seja na manifestação final da sua glória, que não nos encontre adormecidos entre as ilusões passageiras da terra. Que nos encontre de joelhos, com a fé intacta, a esperança viva e a caridade ardente. Porque, depois de todas as tempestades, de todas as lágrimas e de todos os combates, somente uma coisa verdadeiramente importará: ter permanecido fiel a Deus! - 'Vigiai, pois, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor' (Mt 24,42).

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

FRASES DE SENDARIUM (LXXXV)

 

'Nas coisas essenciais, unidade; nas coisas não essenciais, liberdade; em todas as coisas, caridade'

(Santo Agostinho)

A caridade é a mãe de todas as virtudes, assim como a soberba é a raiz de todos os pecados. Sê humilde e pratica a caridade em tudo e com todos os teus irmãos, em todas as situações de tua vida.

terça-feira, 3 de novembro de 2026

AS TRÊS QUALIDADES DO AMOR

1. Gostaria de começar com uma palavra de São Paulo: 'Se alguém não ama o Senhor Jesus, seja anátema'. Na verdade, devo amar Aquele por quem tenho o ser, a vida e o entendimento. Se sou ingrato, sou também indigno. Senhor Jesus, quem se recusa a viver para Ti é certamente digno de morte e, na realidade, já está morto. Quem não Te conhece é insensato. E quem pretende ser alguma coisa sem Ti, sem dúvida alguma é considerado como nada e nada é. Pois que é o homem, se não Te dignas olhar para ele?

Criastes todas as coisas para Ti, ó Deus, e quem deseja viver para si mesmo, e não para Ti, nada é em tudo aquilo que faz. 'Teme a Deus e guarda os seus mandamentos' - está escrito - 'porque nisto consiste todo o dever do homem'. Se, portanto, nisso consiste tudo, sem isso o homem nada é. Volta para Ti, ó Deus, este pouco de ser que me concedeste. Retira desta vida miserável, eu Te suplico, os anos que ainda me restam. Em lugar de tudo aquilo que perdi por minha má maneira de viver, ó Deus, não desprezes um coração humilde e penitente.

2. Há, porém, alguma coisa que me comove, desperta e inflama ainda mais. Ó bom Jesus, o cálice que bebeste, o preço de nossa redenção, faz-me amar-Te mais do que todas as outras coisas. Somente isso já seria suficiente para reclamar o nosso amor. É isso, repito, que tão suavemente conquista o nosso amor, que tão justamente o exige, que tão firmemente o prende e tão profundamente o comove.

Quanto teve de sofrer o nosso Salvador para realizar essa obra! Na verdade, ao criar o mundo inteiro, o Criador não precisou trabalhar tanto. Na criação, Ele falou, e todas as coisas foram feitas; ordenou, e elas passaram a existir. Mas, para nos salvar, teve de suportar homens que contradiziam suas palavras, censuravam suas ações, ridicularizavam seus sofrimentos e escarneciam de sua morte. Vede quanto Ele nos amou!

3. Seu amor foi suave, sábio e forte. Chamo-o suave porque assumiu um corpo humano; sábio porque evitou o pecado; forte porque suportou a morte. Embora tenha assumido um corpo, seu amor jamais foi sensual, mas sempre guiado pela sabedoria do Espírito. 'O Espírito que está diante de nossa face é Cristo, o Senhor', que tem zelo por nós, mas com o zelo de Deus, não com o dos homens, e certamente não como aquele que o primeiro homem, Adão, teve por Eva.

Assim, aqueles a quem procurou revestido de um corpo, amou-os no espírito e redimiu-os pelo seu poder. Como é doce contemplar, feito homem, o Criador da humanidade! Enquanto preservava cuidadosamente a natureza humana do pecado, expulsava dela, com poder, também a morte. Ao assumir um corpo, inclinou-se até mim; ao evitar o pecado, agiu segundo sua própria sabedoria; ao aceitar a morte, satisfez ao Pai.

4. Cristão, aprende de Cristo como deves amar a Cristo. Aprende a amar com ternura, sabedoria e fortaleza; ama com ternura, não com paixão; com sabedoria, não com insensatez; e com fortaleza, para que não te canses nem te afastes do amor do Senhor. Não permitas que a glória do mundo ou os prazeres da carne te desviem do caminho; a sabedoria de Cristo deve tornar-se para ti mais doce do que todas essas coisas.

Que a luz de Cristo brilhe tão intensamente em ti que o espírito da mentira e do engano não possa seduzir-te. Finalmente, que Cristo, força de Deus, te sustente, para que as dificuldades não te abalem. Que o amor inflame teu zelo, que o conhecimento o oriente e que a constância o fortaleça. Conserva-o fervoroso, prudente e corajoso. Cuida para que não seja tíbio, nem temerário e nem tímido. 

(Sermão 20, São Bernardo de Claraval)