sexta-feira, 25 de setembro de 2026

BREVIÁRIO DIGITAL: A PEQUENA VIA (I)

'
É tão doce chamar a Deus 'Pai nosso'!… Não consigo imaginar bem o que terei a mais no Céu do que tenho agora. É verdade que verei a Deus; mas, quanto a estar com Ele, já estou com Ele aqui na terra'.

(Santa Teresa do Menino Jesus)

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

GLÓRIAS DE MARIA: NOSSA SENHORA DAS MERCÊS

   

Na coroa de glórias dadas à Nossa Senhora, a Virgem das Mercês é celebrada em 24 de setembro. Mercês significa 'graças', 'favores', 'bênçãos' mas, acima de tudo, 'misericórdia'. A devoção teve origem na Espanha, durante a dura perseguição e prisão imposta aos cristãos numa Europa então invadida pelos mouros.

Na noite de primeiro para 2 de agosto de 1218, Nossa Senhora se manifestou em sonho para São Pedro Nolasco, para São Raimundo de Peñaforte,  seu confessor, e para o rei Dom Jaime I de Aragão, dando-se a conhecer com o título de Mercês, e pedindo a fundação de uma ordem religiosa para o resgate dos cristãos cativos dos mouros. A ordem religiosa dos Mercedários foi, então, fundada em 10 de agosto de 1218, em Barcelona, na Espanha, tendo São Pedro Nolasco como primeiro diretor geral. A devoção logo se difundiu por toda a Europa e chegou ao Brasil, pelas mãos dos frades mercedários, dando origem a várias confrarias no país. Em 1696, o Papa Inocêncio XII estendeu a festa de Nossa Senhora das Mercês para toda a Igreja, estabelecendo a data de 24 de setembro para a sua celebração.


Oração a Nossa Senhora das Mercês

Virgem Maria, Mãe das Mercês,
com humildade acorremos a Vós,
certos de que não nos abandonais
por causa de nossas limitações e faltas.
Animados pelo vosso amor de Mãe,
oferecemo-vos nosso corpo para que o purifiqueis,
nossa alma para que a santifiqueis,
o que somos e o que temos, consagrando tudo a Vós.
Amparai, protegei, bendizei e guardai
sob a vossa maternal bondade a todos
e a cada um dos membros desta família
que se consagra totalmente a Vós.
Ó Maria, Mãe e Senhora nossa das Mercês,
apresentai-nos ao vosso Filho Jesus,
para que, por vosso intermédio
alcancemos, na terra, a sua Graça
e depois a vida eterna.
Amém!

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (153/155)

 

153. POR QUE CHORAS?

Uma menina, mandada a fazer uma compra, perdeu o dinheiro e pôs-se a chorar. Um senhor, que por ali passava, perguntou-lhe:
➖ Menina, por que choras?
➖ Porque perdi o dinheiro com que devia fazer uma compra.
➖ Oh! E por que não tens mais cuidado?
➖ O senhor tem razão; mas o que mais me aflige é pensar no quanto custa ao meu pobre pai ganhar esse dinheiro.

Aquele senhor, compadecido, deu-lhe o dinheiro. Alguns instantes depois voltou a menina para devolver-lhe aquela importância, pois encontrara o dinheiro que havia perdido. O homem, admirado de tanta honradez, não aceitou a devolução e, como recompensa, deu-lhe mais outra quantia. A menina não a queria aceitar, repetindo que não fizera mais que cumprir o seu dever. O senhor, porém, respondeu que ela merecia aquele presente porque procedera não só com justiça mas com honradez.

154. O AMOR DÁ CORAGEM

Era uma jovem de uns dezesseis anos. Vivia num bairro pobre de uma cidade do norte da Espanha. Todos ali eram pescadores e passavam a vida à beira do mar. Sobre aquelas águas sem horizonte navegavam todos os dias procurando naqueles procelosos abismos o pão de cada dia. O pai de nossa jovem era pescador, e dos piores e mais brutos que se possam imaginar. Nunca o viram na igreja. Para ele só havia dois lugares prediletos: a taberna e o mar. Muito natural, portanto, que sua filha, apesar de seus dezesseis anos, não tivesse feito a primeira Comunhão.

Naqueles dias tinham chegado ali alguns padres missionários. Transformaram um barracão em igreja e, pela manhã e à noite, reuniam aqueles pobres pescadores para falar-lhes de Deus e da salvação eterna. Além disso, em horas diversas, reuniam os meninos e as meninas para explicar-lhes o catecismo. E isto era uma necessidade porque, entre aquelas pobres alminhas, muitas nunca tinham ouvido falar de confissão ou de comunhão. Nossa jovem de dezesseis anos era das mais assíduas e atentas. De manhã, quando o pai ia para o mar, ela corria à capela dos missionários para aprender a rezar e cantar e ouvir coisas tão belas que nunca ouvira em sua vida.

Chegou o dia da confissão. Passavam de sessenta as meninas que já haviam completado quinze anos e que no dia seguinte iam ter a felicidade de receber Jesus pela primeira vez. Estavam todas radiantes de alegria. Começava a anoitecer e o padre missionário levantou-se do confessionário. Terminara a sua tarefa. Naquele momento aproximou-se dele uma daquelas meninas e, apontando com o dedo uma jovem que estava no fundo da capela, disse:
➖ Padre, aquela menina tem mais de dezesseis anos e ainda não fez também a primeira comunhão. Nem sequer se confessou. Mas o senhor não a confesse porque, se o pai dela souber que se confessou, dá-lhe uma sova e a deixa moída.
➖ Ele é tão mau assim?
➖ Se é! É péssimo. É o pior homem do bairro e tem o apelido de 'Barrabás'.

O padre missionário dirigiu-se à jovenzinha, que já conhecemos, e entre os dois travou-se o seguinte diálogo:
➖ Quantos anos tens?
➖ Já completei dezesseis.
➖ Nunca te confessaste?
➖ Nunca.
➖ Sabes o catecismo?
➖ Antes, não; mas agora, sim; porque todos os dias tenho vindo pela manhã e à tarde e comprei um livrinho e já o sei de cor.

O padre fez-lhe algumas perguntas e viu que não havia menina que soubesse o catecismo tão bem como ela.
➖ E queres confessar-te?
➖ Sim, Padre.
➖ E comungar?
➖ Mais ainda.
➖ E teu pai consentirá?
➖ Meu pai não o saberá. Quando ele for de manhã para o mar, eu venho comungar e ele não ficará sabendo. E se souber...
➖ Então ele te bate...
➖ Paciência. Será só mais uma surra.

O missionário estava pasmado. A almas como aquelas não se pode negar o maior prêmio da vida: a Eucaristia. Sentou-se, pois, no confessionário e a menina aproximou-se da grade. Já estava o padre a dar-lhe a absolvição, quando se ouviram na capela uns passos pesados e compassados. Não havia dúvida: tinha que ser algum pescador que entrava com seus pesados sapatões. E era isso com efeito. Foi direto ao confessionário e, agarrando pelo braço a jovem que naquele instante se levantava, deu-lhe tremendas bofetadas e pontapés, empurrando-a para a rua e dizendo:
➖ Eu já suspeitava que tu andavas por aqui. De onde te vêm essas beatices? Eu te ensinarei a ter juízo. Fora daqui, filha má...

Era o pai. Não se enganaram os que disseram que ele era o homem mais bruto do bairro. O padre missionário não podia fazer nada com aquele pai monstro.
➖Meninas - disse àquelas que estavam ainda na igreja e contemplavam aterradas aquela cena brutal -  meninas, de joelhos! Vamos rezar três Ave-Marias por aquela filha mártir e por aquele pai verdugo.
E todos se ajoelharam e rezaram com fervor. 

Amanheceu o grande dia da comunhão daquelas boas meninas. Antes da hora já estavam ali com seus melhores vestidinhos. Os bancos estavam enfeitados com flores brancas. Ia começar a missa e o padre perguntou:
➖ Veio aquela menina a quem o pai ontem esbofeteou tão brutalmente?
➖ Não - disseram - não devemos esperar por ela. Terá cama por alguns dias, talvez com alguma costela quebrada.
Diziam isto, quando junto à pia de água benta apareceu a nossa jovem. Tinha a cabeça toda enfaixada, mas seus olhos brilhavam de alegria. Fez o sinal da Cruz e, satisfeita e resoluta, sentou-se no banco entre as outras jovens.
➖ Mas, minha filha - disse-lhe o velho missionário - o que foi que te aconteceu?
➖ Nada, padre - respondeu com a maior tranquilidade - apenas meu pai, por eu me ter confessado, me deu ontem tão tremendas pancadas, que estou com o rosto e a cabeça cobertas de feridas.
➖ E teu pai, onde está agora?
➖ Seguiu para o mar.
➖ Ele sabe que vieste comungar,?
➖ Não, senhor.
➖ E se ele vier a saber?
➖ Vai me dar outra sova.
➖ E que dizes sobre isso?
➖ Não faz mal, padre; para ter a felicidade de comungar, a gente bem pode aguentar duas sovas.
Com que prazer não terá Jesus entrado naquele coração. Aquela jovem, sim, amava a Jesus; aquela, sim, sabia fazer sacrifícios por amor de Jesus Cristo! Vós, meninos e meninas, admirai-lhe a grandeza de alma, a coragem e tal firmeza de caráter.

155. QUE SANTOS BEIJOS!

Margarida acabava de completar vinte anos. Não era mais uma menina. Entretanto, desde a sua primeira comunhão, amava a Jesus-Hóstia com um amor imenso, apaixonado. Sua maior alegria e felicidade consistia em lavar e engomar os objetos que serviam para o altar. Lavava as toalhas e, quando acabava de engomá-las, depositava nelas um beijo porque sabia que sobre elas seriam colocados pelos sacerdotes o cálice, o cibório, a custódia... Lavava e engomava os corporais e beijava-os não uma mas muitas vezes, porque - dizia - sobre eles repousará a branca hóstia, depois de consagrada.

Às vezes estava sozinha na igreja e não podia conter-se: corria ao altar do Santíssimo e, quando julgava que ninguém a via, subia a uma cadeira e beijava a portinha do sacrário, porque - dizia - ali atrás está escondido o meu amor. Aquela alma estava madura para o céu. Margarida morreu na flor dos anos. Tendo sido sacramentada, ia receber o sagrado viático; e foi então que fez o que sempre desejara fazer. Quando o sacerdote aproximou de seus lábios a hóstia divina, que seria a sua última comunhão, antes de tomá-la, imprimiu-lhe um beijo. E dizia depois, satisfeita, que nada mais lhe faltava para ser feliz. E partiu para o céu...

Todo ato de amor, toda jaculatória de amor, passará através da portinha do Sacrário e encherá de alegria o coração de Jesus tão esquecido pelos bons e tão desprezado pelos maus.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

terça-feira, 22 de setembro de 2026

PÁGINAS DIFÍCEIS DOS EVANGELHOS (II)

2. OS TRABALHADORES DA ÚLTIMA HORA

Um patrão sai de casa, em diferentes horários do dia, à procura de trabalhadores para a sua vinha [Mt 20,1-16a].

[1] O Reino dos Céus é como a história do patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha.
[2] Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha. 
[3] Às nove horas da manhã, o patrão saiu de novo, viu outros que estavam na praça, desocupados, 
[4] e lhes disse: 'Ide também vós para a minha vinha! E eu vos pagarei o que for justo'. 
[5] E eles foram. O patrão saiu de novo ao meio-dia e às três horas da tarde, e fez a mesma coisa. 
[6] Saindo outra vez pelas cinco horas da tarde, encontrou outros que estavam na praça, e lhes disse: 'Por que estais aí o dia inteiro desocupados?' 
[7] Eles responderam: 'Porque ninguém nos contratou'. O patrão lhes disse: 'Ide vós também para a minha vinha'. 
[8] Quando chegou a tarde, o patrão disse ao administrador: 'Chama os trabalhadores e paga-lhes uma diária a todos, começando pelos últimos até os primeiros!'
[9]  Vieram os que tinham sido contratados às cinco da tarde e cada um recebeu uma moeda de prata. [10] Em seguida vieram os que foram contratados primeiro, e pensavam que iam receber mais. Porém, cada um deles também recebeu uma moeda de prata. 
[11] Ao receberem o pagamento, começaram a resmungar contra o patrão: 
[12] 'Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro'. 
[13] Então o patrão disse a um deles: 'Amigo, eu não fui injusto contigo. Não combinamos uma moeda de prata? 
[14] Toma o que é teu e volta para casa! Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti. 
[15] Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?' 
[16a] Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos.


A dificuldade do texto é que ele apresenta uma aparente injustiça. O salário representa o dom do Reino de Deus, que não é compartilhado com os princípios da lógica humana. A moeda de prata [denário] como pagamento diário [2] representa primariamente a vida eterna e, sendo um dom de Deus, não pode ser fracionada, porque a misericórdia de Deus é infinita para os que o amam; todos os trabalhadores foram contemplados com o mesmo salário, porque todos responderam, prontamente ou ainda que mais tarde, ao mesmo chamado à vinha e tornaram-se, então, herdeiros comuns da mesma graça: a vida eterna em Deus [8].

A premissa fundamental desta passagem dos Evangelhos é que Deus não faz acepção de pessoas. O Reino não é concedido em virtude de origem étnica, posição social ou anterioridade histórica, mas a todos que respondem sim ao chamado comum aos filhos de Deus. Todos os que receberam a moeda de prata aceitaram o chamado e, ainda que por pouco tempo, mereceram usufruir integralmente as graças divinas. As diversas horas do dia [1,3,5,6] representam diferentes etapas da vida humana: infância, juventude, maturidade, idade avançada ou proximidade da morte. São Gregório Magno associa uma segunda escala de tempos, associada à história da salvação, além dos períodos da vida humana: madrugada (época de Adão a Noé), nove horas da manhã (de Noé a Abraão), meio dia (de Abraão a Moisés), três horas da tarde (de Moisés a Cristo) e cinco horas da tarde (o tempo a partir de Cristo e da convocação dos gentios). Na história da salvação, os trabalhadores da primeira hora podem representar o povo da Antiga Aliança e os últimos, os gentios introduzidos na Igreja. E estes, portanto, não recebem um Reino de Deus inferior aos primeiros por terem sido chamados mais tarde na história.

A proposição fundamental distingue duas ordens de princípios: (i) justiça: Deus dá aos primeiros trabalhadores chamados aquilo que lhes prometeu; (ii) misericórdia: Deus dá aos últimos trabalhadores chamados mais dos que eles teriam merecido, num sentido não de elogiar o atraso voluntário da conversão, mas impedir o desespero daquele que foi chamado tarde. E, neste contexto, sobrevém a terceira ordem de princípios:  (iii) graças divinas: a parábola não elimina o verdadeiro mérito das obras realizadas na graça, nem exclui diferentes graus de glória. Todos os trabalhadores possuem o mesmo bem essencial: Deus. Mas nem todos o recebem segundo a mesma capacidade de caridade e mérito.

A parábola não nega o mérito; combate a pretensão de transformar a graça em dívida para com Deus. Este ensinamento está presente pela murmuração dos trabalhadores que foram contratados primeiro [11], pelo fato de o patrão ter determinado ao administrador efetuar o pagamento começando pelos últimos trabalhadores [8]. Eles não ficaram satisfeitos por apenas receber o que era justo [13], mas postularam uma partilha distinta em relação aos últimos, convertendo uma reivindicação aparentemente justa em inveja espiritual [15]. Portanto, cuidado: ainda que tenhamos trabalhado bem uma vida inteira, não nos locupletemos de orgulho próprio para reivindicar um mérito que não é nosso e muito menos para menosprezar aqueles que a Providência Divina esperou para chamar depois.

Por outro lado, a parábola não nos autoriza adiar a conversão e isso constituiria uma leitura gravemente contrária à sua proposição. Ao chamado do patrão, os trabalhadores da última hora disseram: 'Ninguém nos contratou' [7] e não: 'fomos chamados mais cedo, mas preferimos ser chamados outra vez somente no final do dia'. Há uma diferença fundamental entre aquele que só conhece ou acolhe eficazmente o chamado de Deus no final da vida (como o bom ladrão dos Evangelhos) daquele que porventura presume da misericórdia divina e adia deliberadamente a sua conversão. A presunção é um pecado gravíssimo contra a esperança, porque ninguém pode saber se terá uma última hora, tempo para se converter ou disposição interior para fazê-lo ainda em tempo.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

MEMÓRIA DO SANTO DO DIA

SANTA EFIGÊNIA, ROGAI POR NÓS! 

ONDE ESTÁS, QUANDO NÃO ESTÁS CONTIGO?

 


1. Não podemos confiar muito em nós, porque frequentemente nos faltam a graça e o critério. Pouca luz temos em nós e esta facilmente a perdemos por negligência. De ordinário também não avaliamos quanta é a nossa cegueira interior. A miúdo procedemos mal e nos desculpamos, o que é pior. Às vezes nos move a paixão, e pensamos que é zelo. Repreendemos nos outros as faltas leves, e nos descuidamos das nossas maiores. Bem depressa sentimos e ponderamos o que dos outros sofremos, mas não se nos dá do que os outros sofrem de nós. Quem bem e retamente avaliasse suas obras não seria capaz de julgar os outros com rigor.

2. O homem interior antepõe o cuidado de si a todos os outros cuidados, e quem se ocupa de si com diligência facilmente deixa de falar dos outros. Nunca serás homem espiritual e devoto, se não calares dos outros, atendendo a ti próprio com especial cuidado. Se de ti só e de Deus cuidares, pouco te moverá o que se passa por fora. Onde estás, quando não estás contigo? E, depois de tudo percorrido, que ganhaste se esqueceste a ti mesmo? Se queres ter paz e verdadeiro sossego, é preciso que tudo mais dispenses, e a ti só tenhas diante dos olhos.

3. Portanto, grandes progressos farás se te conservares livre de todo cuidado temporal; muito te atrasará o apego a alguma coisa temporal. Nada te seja grande, nobre, aceito ou agradável, a não ser Deus mesmo ou o que for de Deus. Considera vã toda consolação que te vier das criaturas. A alma que ama a Deus despreza tudo que é abaixo de Deus. Só Deus eterno e imenso, que tudo enche, é o consolo da alma e a verdadeira alegria do coração.

(Da Imitação de Cristo, de Thomas de Kempis)

domingo, 20 de setembro de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

  

'O Senhor está perto da pessoa que o invoca!' (Sl 144)

Primeira Leitura (Is 55,6-9) - Segunda Leitura (Fl 1,20c-24.27a) - Evangelho (Mt 20,1-16a)

  20/09/2026 - VIGÉSIMO QUINTO DOMINGO DO TEMPO COMUM

 NAS VINHAS DO SENHOR


Estamos na fase final da pregação pública de Jesus; depois da longa preparação dos discípulos e das premissas do seu Evangelho, aproxima-se o momento do sacrifício do Cordeiro Imolado para a salvação do mundo. Resta ao Senhor pouco tempo para consolidar, entre os seus, os fundamentos da Igreja e das realidades do Reino dos Céus. E, numa parábola magnífica, Jesus nos ensina que Deus nos chama a todos à perfeição e concede o mesmo prêmio de salvação eterna, independentemente de quando os seus escolhidos encontraram definitivamente o caminho da graça.

'O Reino dos Céus é como a história do patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha. Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha' (Mt 20, 1-2). Desde o batismo, desde a primeira hora, desde 'a madrugada' dos tempos, somos chamados a partilhar e compartilhar a glória de Deus nas vinhas do Senhor, como fieis da Igreja, como discípulos do Cristo, como filhos de Deus. No mundo dos homens, desde o batismo nos tornamos herdeiros potenciais da graça, operários da messe a caminho do Céu.

Mas o mundo nos empurra e confunde a caminhada da graça; as aspirações humanas nos tolhem e retêm os propósitos de santificação. Ficamos à mercê dos tempos e dos contratempos. Deus não nos abandona nunca e, como o patrão persistente e incansável, volta pela manhã, pelo meio-dia, pela tarde, pelo final do dia, à espera do 'sim' filial, pela conversão definitiva, pelo retorno do filho pródigo. Na parábola dos operários da vinha, todos receberam igualmente o mesmo prêmio, o mesmo pagamento, mesmo os que foram chamados por último: 'cada um deles também recebeu uma moeda de prata' (Mt 20, 10). Porque a medida da justiça de Deus não é feita pelas medidas humanas: a misericórdia de Deus é infinita para os que o amam; todos os trabalhadores foram contemplados com o mesmo salário, porque todos responderam, prontamente ou mesmo mais tarde, ao chamado à vinha e tornaram-se, assim, herdeiros comuns da mesma graça: a vida eterna em Deus.

Ainda assim, nas sementeiras da graça, fomentaram-se os espinhos da discórdia e da inveja, por parte dos operários que se julgaram injustiçados com o pagamento equivalente: 'Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro’ (Mt 20, 12). Pelo olhar da inveja humana, a misericórdia infinita de Deus teria que ter dimensões paralelas e distintas; a inveja obscurece o valor da graça daquele que a recebeu mais cedo pela concessão da mesma graça concedida ao que chegou mais tarde a ela nos caminhos da vida e, tantas vezes por isso, 'os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos' (Mt 20, 16). Porque a inveja mata e aniquila as sementes da graça recebida e é a caridade comum entre todos que produz, em todos, os mesmos frutos de vida eterna, nas vinhas do Senhor.