sábado, 10 de outubro de 2026

LENDAS DA BEM AVENTURADA VIRGEM MARIA (II)

 

Maria! Quantas encantadoras lendas estão ligadas ao doce nome de Maria! Eis uma que geralmente é considerada uma narrativa piedosa ou parábola.

Nos primeiros tempos do cristianismo, um piedoso eremita, grande aos olhos de Deus, mas pouco conhecido dos homens - embora São Bernardo tenha pronunciado duas vezes um panegírico em sua honra e composto o ofício para a sua festa - vivia às margens do rio Aube, numa floresta da região de Champagne. Os antigos gauleses haviam adorado ali uma de suas sombrias divindades, que os romanos substituíram por Saturno. Por isso, o lugar era chamado Saturniacum quando o eremita, de nome Victor de Plancy, chegou e construiu uma capela e uma pequena ermida.

Numerosos acontecimentos milagrosos se seguiram a essa obra. Entre os mais surpreendentes estavam as conversões: almas entregues à perdição eram resgatadas para o céu; e corações antes enregelados pelo egoísmo e corrompidos por práticas viciosas inflamavam-se de caridade e produziam tais flores de virtude que até o mundo se via obrigado a admirá-las. São fenômenos que deixam a mente perplexa, mas que a fé explica facilmente.

O santo sentia que as horas que passava sozinho em sua cela eram as mais doces de sua vida. A única criatura viva perto dele era um pardal manso, que alimentava e estimava, considerando-o um símbolo da solidão. Devotado com ternura à Santíssima Virgem, o santo eremita a invocava incessantemente; e as únicas palavras que pronunciava em voz alta eram: Ave Maria! Acostumado a ouvir essas palavras, e somente elas, o pardal aprendeu a repeti-las. Grande foi a alegria do eremita quando, pela primeira vez, a ave pousou em seu ombro e lhe exclamou ao ouvido: Ave Maria!

A princípio, imaginando que algum espírito santo tivesse vindo em missão divina, o eremita caiu de joelhos, reverente. Mas a ave continuou a chilrear Ave Maria! Ave Maria! e ele logo percebeu de onde vinham aquelas doces palavras. O pássaro, que surgira como uma distração inocente, tornou-se um amigo - quase um irmão - uma criatura de Deus que rezava. Victor redobrou os cuidados com ele e, desde então, sua solidão tornou-se agradavelmente mais leve.

A modesta ave, a quem as pessoas deram o nome de 'Pequeno Monge', parecia compartilhar a alegria de seu dono. Ao amanhecer, seu primeiro canto era Ave Maria! Quando Victor lhe lançava migalhas, o passarinho cantava uma ação de graças feita de ave-marias; e, quando o eremita se ajoelhava para suas devoções, pousava em seu ombro e sussurrava suavemente: Ave Maria! Victor cultivava um pequeno jardim. Se, por um instante, perdesse de vista o objeto constante de seus pensamentos, o fiel pardal, pousado numa árvore, logo o faria recordar com seu Ave Maria!


Os cristãos da região, que procuravam o santo eremita em suas aflições e dúvidas, estimavam muito o passarinho. Quando ele os saudava com sua pequena oração, não podiam deixar de considerá-la uma graça milagrosa concedida ao eremita por Nossa Senhora. Quando estava livre, o pardal fazia voos curtos pelos campos. Se Victor, em suas caminhadas meditativas, se afastava da cela mais do que de costume, a ave logo o fazia lembrar-se dela, chilreando uma Ave Maria!

Certo dia de primavera, enquanto Victor jazia enfermo em sua esteira, abriu a pequena porta da cela, e seu amiguinho saiu voando, como de costume. Poucos minutos depois, ele viu, alarmado, um gavião perseguir seu querido pardal. A ave de rapina abriu o bico e estendeu as garras para agarrá-lo e devorá-lo. Já quase sentindo as garras afiadas do inimigo, o pequeno pássaro gritou: Ave Maria! Diante daquele prodígio, o gavião, assustado e aterrorizado, interrompeu a perseguição. O manso pardal teve tempo de voltar à cela; caiu sobre o peito de Victor, chilreou debilmente uma última Ave Maria e morreu.

(Excertos da obra 'Légendes de la Sainte Vierge', por J. Collin de Plancy, 1853)

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

DEVEIS RESPLANDECER COMO FILHOS DE DEUS!

'Fazei tudo sem murmurações nem discussões, para que sejais irrepreensíveis e puros, filhos de Deus sem mancha em meio a uma geração perversa e degenerada, na qual deveis resplandecer como astros, levando a Palavra da vida' (Fl 2,14–16).

Estas palavras devem ser compreendidas assim: o homem encontra-se como numa encruzilhada. Se procurar a salvação na luz que vem de Deus, ele a alcançará. Se escolher o mal, seguirá o diabo como castigo. Portanto, se o homem assumir sua condição humana e todas as suas obras sem murmurações, isto é, sem as deformações dos pecados e sem indecisões, com uma fé perfeita, amando o bem e odiando o mal, será certamente libertado no julgamento futuro e separado dos pecadores que se afastam do bem para abraçar o mal. 

Aqueles que agem amando o bem e procurando não ferir ninguém vivem como filhos de Deus, na simplicidade das boas obras, evitando murmurações e disputas vãs, rejeitando sentimentos negativos e mundanos. Insensíveis às armadilhas da sedução, despertam a estima daqueles que se alegram com sua coragem em meio a uma geração pervertida. Na perfeição de sua verdadeira fé, brilham como os astros cuja missão é iluminar o mundo, conforme determinou o Criador do universo. Com uma doutrina que se encarna na vida, converterão os homens a Deus. É dessa maneira que o Filho de Deus, sem pecado, deu a todos a sua Luz.

(Santa Hildegarda de Bingen)

BREVIÁRIO DIGITAL: A PEQUENA VIA (III)

 

Tive vários êxtases de amor, e um em particular durante o meu noviciado, quando permaneci, por uma semana inteira, muito afastada deste mundo. Parecia que um véu havia sido lançado sobre todas as coisas terrenas. Mas, naquela ocasião, eu não era consumida por um verdadeiro fogo. Podia suportar aqueles transportes de amor sem esperar que se rompessem os laços que me prendiam à terra; ao passo que, no dia de que agora falo, mais um minuto - mais um segundo - e minha alma teria sido libertada. Ai de mim! Encontrei-me novamente na terra e a aridez logo voltou ao meu coração.

(Santa Teresa do Menino Jesus)

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

INVOCAÇÃO À SANTÍSSIMA TRINDADE PELAS ALMAS DO PURGATÓRIO


Ó Deus de toda bondade, Pai das misericórdias, que, pelas orações e jejuns do vosso povo fiel, vos dignastes enviar os vossos Anjos para romper os grilhões do vosso santo apóstolo Pedro e abrir as portas de sua prisão; ouvi também neste dia as orações e súplicas da vossa Igreja e enviai o vosso Anjo às almas pelas quais rezamos, para que, abertas as portas de sua prisão, sejam elas acolhidas na felicidade do seio da vossa misericórdia. Amém.

Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Ó Filho de Deus, Salvador das almas, que aliviastes os três jovens na fornalha ardente, derramai o vosso orvalho celeste sobre as almas que, do meio das chamas, clamam a Vós. Somente o vosso precioso Sangue pode apagar as chamas do purgatório; fazei que ele agora se derrame sobre essas almas sofredoras e tende piedade delas, Senhor. Amém. 

Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

Ó Espírito de amor, tende compaixão do cruel tormento que padecem essas almas, as quais, repletas da mais pura caridade e aspirando sem cessar ao seu Deus, clamam em sua aflição: 'Tenho sede! Tenho sede do meu Deus!' - e, contudo, não podem alcançar o objeto de seu amor, nem receber sequer uma gota daquela torrente de puras delícias. Ó Espírito Santo, concedei que, depois de terem sentido as mais intensas dores do amor, possam saborear suas delícias celestes numa bem-aventurada eternidade. Amém. 

Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

(The Golden Manual, 1850)

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

VIDA INTERIOR: SABER OUVIR A VOZ DO ESPÍRITO SANTO!

Como é possível que tantas pessoas, depois de terem vivido quarenta ou cinquenta anos em estado de graça e recebido frequentemente a Santa Comunhão, quase não manifestem os dons do Espírito Santo em sua conduta e em seus atos, se ofendam por uma ninharia, mostrem grande avidez por elogios e levem uma vida muito natural? Essa condição provém dos pecados veniais que cometem frequentemente sem se preocupar com eles; esses pecados e as inclinações que deles nascem atraem essas almas para as coisas da terra e mantêm os dons do Espírito Santo como que presos, semelhantes a asas que não podem se abrir. Falta recolhimento a essas almas; elas não estão atentas às inspirações do Espírito Santo, que passam despercebidas. Consequentemente, permanecem na obscuridade, não nas trevas do alto, próprias da vida íntima de Deus, mas na obscuridade inferior que procede da matéria, das paixões desordenadas, do pecado e do erro; essa é a explicação de sua inércia espiritual. A essas almas dirigem-se as palavras do salmista, que o Ofício Divino nos apresenta diariamente nas Matinas: 'Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações'.

Para sermos dóceis ao Espírito Santo, devemos primeiro ouvir a sua voz. Para isso, são necessários o recolhimento, o desapego do mundo e de nós mesmos, a guarda do coração e a mortificação da vontade própria e do juízo pessoal. Se o silêncio não reina em nossa alma, se a voz dos afetos excessivamente humanos a perturba, não podemos ouvir com segurança as inspirações do Mestre interior. Por essa razão, o Senhor submete nossos apetites sensíveis a duras provações e, de certo modo, os crucifica, para que finalmente se calem ou se tornem inteiramente submissos à nossa vontade animada pela caridade. Se habitualmente estamos preocupados conosco mesmos, certamente ouviremos a nós mesmos ou, talvez, uma voz mais pérfida e perigosa, que procura nos desviar. Por isso, Nosso Senhor nos convida a morrer para nós mesmos, como o grão de trigo lançado à terra.

Para ouvir as inspirações divinas, devemos, portanto, fazer silêncio em nós mesmos; mas, mesmo então, a voz do Espírito Santo permanece misteriosa. Como diz Cristo: 'O Espírito sopra onde quer; ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim é todo aquele que nasceu do Espírito'. Palavras misteriosas, que devem tornar-nos prudentes e reservados em nossos juízos sobre o próximo, atentos às inclinações que o Senhor coloca em nós e que constituem as sementes diversas de um futuro conhecido pela divina Providência. São inclinações à renúncia, à oração interior; são mais preciosas do que pensamos. Alguns intelectuais sentem, desde cedo, uma atração pela oração mental silenciosa, que talvez seja a única capaz de preservá-los do orgulho espiritual e da aridez do coração, tornando suas almas semelhantes às das crianças, como devem ser para entrar no Reino de Deus e, sobretudo, na intimidade desse Reino. Muitas vezes, uma vocação para determinada ordem religiosa pode ser reconhecida por essas primeiras inclinações.

A voz do Espírito Santo começa, portanto, por um impulso interior, uma iluminação obscura; e, se perseveramos na humildade e na conformidade com a vontade de Deus, esse impulso manifesta claramente à consciência sua origem divina, embora permaneça misterioso. Os primeiros clarões tornar-se-ão outras tantas luzes que, como as estrelas, iluminarão a noite de nossa peregrinação rumo à eternidade; a noite escura tornar-se-á, assim, luminosa, semelhante à aurora da vida celeste: 'E a noite será minha luz em minhas delícias'. Para chegarmos a ser dóceis ao Espírito Santo, precisamos, portanto, de silêncio interior, recolhimento habitual, atenção e fidelidade.

(Excertos da obra 'As Três Idades da Vida Interior', Pe. Reginald Garrigou-Lagrange)

terça-feira, 6 de outubro de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (156/160)

 

156. O VIÁTICO LEVADO DE AVIÃO

Era um bravo soldado francês e estava em terras da Argélia, na África, lutando contra os inimigos de sua pátria. Por seu valor, e talento chegara em pouco tempo a comandante. Cristão e piedoso fôra em sua infância, cristão e piedoso em sua juventude e, agora, nos campos de batalha e nas tendas de campanha, era ele muito mais piedoso e cristão.

Recebeu ordem de avançar e avançou até internar-se no deserto muito distante das cidades onde viviam os europeus. Estava na frente do exército dos árabes e tinha consigo apenas um regimento de soldados. Teve que dar batalha; nela o nosso comandante lutou como um leão. Fugiram vencidos e completamente derrotados os inimigos; ele, porém, recebeu uma bala no peito e caiu na areia candente do deserto sob um sol abrasador. Acorreu o médico, examinou a ferida e franziu a testa com visível mau humor.
➖ Doutor - disse-lhe o comandante - não me oculteis a verdade: Estou ferido de morte?
O médico replicou friamente:
➖ Pode ser.
➖ Está bem - disse o moribundo com a maior serenidade - vou perguntar-vos outra coisa: quantas horas julgais que posso viver?
➖ Três horas... quatro no máximo.
➖ Morrer, morrer... - exclamou o comandante - isso não me aterra. O que sinto é ter que morrer aqui no deserto sem um sacerdote que me absolva, sem o consolo da divina Eucaristia.

Ao ouvir estas palavras, um aviador, que estava ali perto, disse-lhe:
➖ Meu comandante, se quiserdes agora mesmo tomo o meu avião, que voa mais que os pássaros, e antes de três horas estarei aqui de volta com um padre.
➖ E onde ireis buscar esse sacerdote? Daqui ao primeiro lugar aonde podereis ir buscá-lo há mais de duzentos quilômetros.
➖ É verdade, meu comandante; por isso mesmo, não há tempo a perder. Senhor Doutor, conservai-lhe a vida três horas ao menos, que antes disso eu estarei aqui com um sacerdote.
Era um relâmpago aquele aviador. Subiu ao aparelho e, em poucos instantes, já havia desaparecido no horizonte. Entretanto, o comandante, moribundo, beijava com fervor o seu Crucifixo e dizia:
➖ Três horas de vida, Senhor, três horas até que venha um sacerdote... até que me deem o vosso sagrado Viático.

Deixemos o moribundo por um instante. Voemos com o aviador. Já chegou felizmente a Laghouat, onde está o hospital francês. Correu ao padre Capelão e lhe disse:
➖ Padre, quer subir comigo no avião? Temos que percorrer duzentos quilômetros. Lá está a morrer um comandante e não quer morrer sem um padre e sem a comunhão. Se o senhor puder ir, não podemos perder nem um minuto.
➖ Pois não... neste instante - respondeu o Capelão. E correu à capela, tomando consigo a hóstia santa e os santos óleos. Subiu ao avião e o aviador deu partida de pronto.

Antes das três horas convencionadas, estava o Capelão à cabeceira do comandante moribundo. Ouviu-lhe a confissão, deu-lhe a absolvição e apresentou-lhe a divina Eucaristia. Naquele momento solene, soldados e oficiais enchiam a tenda onde agonizava o valente comandante. O sacerdote elevou em suas mãos a hóstia santa e disse: 'Eis o Cordeiro de Deus, eis o que tira os pecados do mundo'. O sacerdote inclinou-se para depositar a branca hóstia nos lábios do herói. O comandante abriu pela última vez os olhos e exclamou do fundo da alma:
➖ Obrigado, meu Deus, obrigado...
Momentos depois, o Capelão, chorando como criança, dizia:
➖ Morreu um herói... morreu um santo.
Sim, quem morre amando a Jesus como este comandante, certamente morre como um santo.

157. A MISSA DE SÃO PEDRO DE ALCÂNTARA

Segundo Santa Teresa, que o conheceu pessoalmente e muitas vezes o consultou em casos difíceis, poucos santos tiveram vida tão interior e receberam graças tão insignes como São Pedro de Alcântara. O seu amor a Jesus e a sua devoção à sagrada Paixão do Salvador eram inefáveis: dificilmente se faz uma ideia da piedade com que celebrava o Santo Sacrifício e do recolhimento, da fé viva e do amor com que se aproximava do santo altar. Quando celebrava, os fiéis corriam à igreja desejosos de presenciar os favores divinos que o santo recebia.

Dizem os biógrafos que, dirigindo-se à sacristia, ele transportava-se ao Pretório e a lembrança da Paixão o penetrava de tal modo que os paramentos de que se revestia eram aos seus olhos como que vestes da Vítima divina. Absorto neste pensamento, dirigia-se ao altar com os mesmos sentimentos com que se teria dirigido ao Calvário; e ali, abrangendo com um olhar o mundo inteiro, oferecia o Santo Sacrifício em união com Jesus, e pedia a Deus que recebesse a Hóstia divina pela salvação de todos.

Desde as primeiras palavras, a sua devoção comovia os presentes. Quando lia o Evangelho e principalmente quando pronunciava o nome de Jesus, o ardor do seu coração era tão grande que de seu peito irrompiam suspiros e de seus olhos brotavam lágrimas. Ao Canon, o seu rosto inflamava-se; e quanto mais se aproximava a Elevação, tanto mais viva era a sua comoção. Era preciso contemplá-lo depois da consagração: o corpo imóvel, o rosto inflamado, os olhos atentos e expressivos como se ele estivesse vendo realmente o mistério adorável oculto sob as sagradas espécies. Com frequência perdia os sentidos e, não obstante a sua resistência, era arrebatado e elevado da terra. Voltando a si, continuava a rezar o Pai Nosso com muitos suspiros e lágrimas.

Após a Comunhão, os êxtases e a imobilidade recomeçavam. Ficava confundido com esses favores extraordinários, e, para evitar a admiração dos presentes, fugia o mais possível de celebrar em público. Ordinariamente despia depressa os paramentos e corria a fechar-se em sua cela, onde gozava em paz da visita do Hóspede divino. A sua ação de graças era longa e entrecortada de suspiros amorosos. Assim se explica o que dele afirmaram os que o conheceram de perto: que ele conseguiu mais conversões com a celebração da santa Missa do que todos os pregadores de sua província com seus sermões; e que muitíssimos dos que o viram celebrar procuravam-no depois para se confessarem e receberem os seus sábios conselhos.

158. A MISSA DE SÃO CARLOS

A devoção de São Carlos, arcebispo de Milão, pela Eucaristia, quem a poderá exprimir? Passava horas e noites inteiras em adoração aos pés do altar, como um puro espirito, e durante as Quarenta Horas dificilmente se afastava do Santuário.

As velas consumiam-se diante do Santíssimo Sacramento com menos ardor que a sua alma. O incenso elevava-se ao céu com um perfume menos puro que as preces de seu coração. E, quando celebrava o divino Sacrifício, os fiéis julgavam ver um anjo ao altar. Todas as manhãs, antes de celebrar, purificava a sua consciência, levando as suas menores faltas ao tribunal da penitência.

Uma de suas regras era: guardar absoluto silêncio desde a oração da noite até o fim da ação de graças após a missa. Antes de haver celebrado a santa missa não queria ocupar-se de nenhum negócio. Subir ao altar e distribuir a sagrada comunhão eram as suas delicias, tendo-se imposto muitas vezes grandes sacrifícios para o fazer. Depois de celebrar e fazer a sua ação de graças, o santo deixava a igreja em silêncio e voltava para casa todo absorto em Deus.

159. SÃO LUÍS BELTRÃO E A SANTA MISSA

São Luís Beltrão, parente de São Vicente Ferrer e, como este, famoso por suas pregações, estimava infinitamente o favor que Deus lhe fizera chamando-o ao sacerdócio. Considerava a Festa do Natal como a mais bela de todo o ano, porque nesse dia lhe era permitido celebrar três Missas.

Todos os dias se confessava, a fim de levar ao altar uma consciência mais pura. Jamais elevava a Hóstia ou o Cálice, sem pedir a Nosso Senhor a graça de derramar o seu sangue pela conversão e salvação dos pecadores: 'Senhor, concedei-me a graça de morrer por vós, como vós morrestes por mim'. Nada comovia tanto os fiéis como as lágrimas que viam correr dos seus olhos desde a Elevação até a Comunhão. Viram-no, várias vezes, enquanto tinha nas mãos a Hóstia santa, circundado de uma luz sobrenatural resplandecente como o sol; era como se uma luz do céu inundasse toda a igreja. A Hóstia divina era a alegria do seu coração e a glória da sua vida.

160. UM SANTO E UM COMERCIANTE

É interessante o que se passou certa ocasião com São João Bosco, grande amigo da mocidade e grande convertedor de pecadores. Apresentou-se a ele um comerciante para tratar de assuntos relativos ao seu comércio. Mas, como para aquele grande mestre o maior negócio da vida era o da salvação eterna da alma, conhecendo sem dúvida por divina revelação que aquele homem andava muito bem de assuntos financeiros, porém muito mal de temor de Deus e muito afastado do cumprimento de seus deveres de cristão, disse-lhe sem mais preâmbulos:
➖ Já sabe, amigo, que é preciso confessar-se?
➖ Dom Bosco - replicou o comerciante - deixemos esse assunto para outro dia.
➖ E contudo, este é o mais importante de todos. O amigo já sabe que é preciso confessar-se e fazer a páscoa.
➖ Ninguém o duvida, mas eu não vim para isso.
➖ Pois eu para isso estou aqui, por isso vou repetir: Já sabe, amigo, que é preciso que se confesse e faça a páscoa?

O comerciante ficou um pouco agastado e disse:
➖ Mas, Dom Bosco, o senhor me tem por um herege?
➖ Não, amigo - replicou o santo com o seu sorriso imperturbável - não o tenho por herege, mas digo-lhe unicamente que é preciso confessar-se e fazer a páscoa.
➖ Bem - exclamou enfadado o comerciante - e quem lhe disse que eu ainda não o fiz? Quem lhe disse que ainda não me confessei este ano?

Dom Bosco, com as mãos cruzadas sobre o peito, e fixando-o com um olhar que penetrava até o fundo da consciência, disse-lhe acentuando bondosamente cada palavra:
➖ Está bem; eu apenas lhe recordo que é preciso...
➖ Pois eu lhe digo - insistiu o comerciante - que eu agora não tenho vontade nem tempo.
➖ E eu repito - acrescentou o santo - que é preciso...
Não podendo o comerciante resistir mais à graça de Deus que, pelas palavras do grande educador, acabou por lhe comover o coração, respondeu:
➖ Padre, faz mais de quarenta anos que não me confesso.
E o santo com maior bondade, maior doçura e compassivo olhar, respondeu:
➖ Por isso, meu filho, eu lhe dizia: É preciso confessar e fazer a páscoa.
E, após uma boa confissão, o comerciante, que fôra tratar de assuntos comerciais, dali saiu mais rico e feliz do que nunca por haver comprado a graça de Deus e a paz da alma.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

FRASES DE SENDARIUM (LXXXIII)

 

'Cristo é a minha força, a oração é a minha fortaleza, a fé é o meu escudo' 

(Santa Rosa de Lima)

Ama, com extremado amor, o poder do silêncio, a riqueza extraordinária do escondimento, a glória imensa do anonimato. Como herdeiro dos céus, eis aí a tua identidade como filho de Deus no mundo: a humildade como armadura, a caridade como bagagem, a fé como único tesouro...