segunda-feira, 1 de junho de 2026

SOBRE AS ADVERSIDADES

É pela adversidade, cristãos ouvintes, que Deus coage os homens mais perversos a reentrarem nas suas boas graças; e que outra via mais eficaz para os levar a isso? A palavra de Deus, o uso dos sacramentos, as graças comuns podem manter na prática do bem os que se obrigam a eles, mas um homem sobrecarregado do peso dos negócios públicos e domésticos, uma mulher que vive nos prazeres, que é escrava da vaidade, um cristão, numa palavra, que envelheceu na sua impiedade e nas suas desordens, é mister, senhores, é mister que sofra ou que pereça.

Sei o quanto a palavra de Deus é eficaz, sei que ela é mais penetrante do que uma espada de dois gumes; mas todos os dias não vemos senão sobejamente que os homens lhe resistem e que ela não pode atingir até os corações empedernidos. Que não se há dito contra esse luxo espantoso que devora a substância assim dos pobres como dos ricos, contra esse jogo que consome impiedosamente um bem com que se poderia comprar o céu, esse jogo que nos arrebata um tempo que nos fora dado para ganharmos a eternidade? Que se não diz ainda hoje em dia contra esses desregramentos? Ai! Mas que é que produzem os nossos discursos no espírito dos jogadores de profissão, desses que gastam o mais possível em roupas? Uns esquecem-no um momento após, outros só se lembram deles para escarniçá-los; alguns até se ofendem com eles, e creem ter motivo para se queixar do pregador, porque ele disse da parte de Deus o que não podia calar sem trair a própria consciência e sem se tornar réu de perfídia.

Que cumpre então que faça o Senhor para fazer essas pessoas tornarem ao dever? Não há outro meio senão a indigência; há que reduzi-las à necessidade de trabalhar para fazer subsistir a família, e de revender, para viverem, aquilo que compraram para se enfeitar. Ide falar de oração e de retiro àquela mulher enamorada da própria beleza, tão vaidosa das atenções que se tem com ela no mundo; acreditais que ela seja capaz de apreciar os vossos conselhos ou sequer de ouvi-los? Para salvá-la, faz-se mister que uma moléstia a desfigure, ou que uma esmagadora confusão a faça banir para sempre das companhias.

Que tempo escolhereis para exortar aquele rico, aquele voluptuoso, a se converter? Não está ele disposto a ouvir a palavra de Deus, e muito menos ainda a vos chamar a casa para tomar junto a vós conselhos salutares. E quando o estivesse, como haveria um pensamento santo de encontrar lugar naquele espírito abarrotado dos seus negócios temporais? A própria graça, por insinuante que seja não acha abertura para lhe passar até o coração. Oh! Como há então, ó meu Deus, que desesperar daquela alma? A vossa sabedoria não tem então meio para retirá-la do precipício? O Senhor tem um meio, cristãos ouvintes, e este meio é o que ele se serve sempre para reconduzir os eleitos seus que a prosperidade lhe arrebatou; esse meio é a adversidade, é a perda daquele processo, a morte daquele marido, daquele filho único, uma paralisia, uma gota violenta, uma febre maligna, um langor incurável, uma afronta insigne. 

Qual será o efeito dessa desgraça? Disporá aqueles homens à compunção por uma dor mortal, dar-lhe-á desgosto dos prazeres com que estava encantado, levá-lo-á a fazer reflexões sobre os desregramentos da sua vida que lhe atraíram a cólera de Deus; sofrerá que a gente de bem se lhe achegue, quando menos para consolá-lo. E como procurará por toda parte remédios para o seu mal, far-lhe-ão conhecer a causa deste, prepará-lo-ão para receber os remédios convenientes à moléstia de sua alma. Enfim, ver-se-á ele felizmente forçado a mudar de vida, ou pela impotência de perseverar no pecado, ou pelo desejo de deter o braço do Onipotente que pesa sobre ele.

Tudo isto nos faz ver suficientemente que, de qualquer modo que vivamos, deveríamos sempre receber a adversidade com alegria. Se somos bons, a adversidade nos purifica e nos faz melhores; enche-nos de virtudes e de méritos; se somos maus, se somos viciosos, ela nos corrige, força-nos a nos tornarmos virtuosos. Se em algum de nós não tem ela este feliz efeito, se há alguém que ela não transforme ou que torne ainda pior, é esse coração endurecido que tem razão de se afligir; essa resistência inflexível é de todos os indícios de reprovação o mais certo e o mais visível. Um cristão que vive mal e que Deus não castiga, deve tremer; e, se lhe resta ainda algum sentimento, deverá fremir; mas um pecador que Deus castiga e que não verga aos seus golpes, pode-se ousadamente arrolá-lo entre os réprobos e desesperar da sua salvação.

(Excertos da obra 'Reflexões Cristãs', de São Cláudio de La Colombière) 

domingo, 31 de maio de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

          

'A Vós, louvor, honra e glória eternamente!' 

Primeira Leitura (Ex 34,4b-6.8-9) - Segunda Leitura (2Cor 13,11-13) - Evangelho (Jo 3,16-18)

  31/05/2026 - SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE

GLÓRIA AO PAI, AO FILHO E AO ESPÍRITO SANTO


O mistério da Santíssima Trindade é um mistério de conhecimento e de amor. Pois, desde toda a eternidade, o Pai, conhecendo-se a Si mesmo com conhecimento infinito de sua essência divina, por amor gera o Filho, Segunda Pessoa da Trindade Santa. E esse elo de amor infinito que une Pai e Filho num mistério insondável à natureza humana se manifesta pela ação do Espírito Santo, que é o amor de Deus por si mesmo. Trindade Una, Três Pessoas em um só Deus.

Mistério dado ao homem pelas revelações do próprio Jesus, posto que não seria capaz de percepção e compreensão apenas pela razão natural, uma vez inacessível à inteligência humana: 'Tudo o que o Pai possui é meu. Por isso, disse que o que ele (o Espírito Santo) receberá e vos anunciará, é meu' (Jo 16,15). Mistério revelado em sua extraordinária natureza em outras palavras de Cristo nos Evangelhos: 'Em verdade, em verdade vos digo: O Filho não pode de si mesmo fazer coisa alguma, mas somente o que vir fazer o Pai; porque tudo o que fizer o Pai, o faz igualmente o Filho. Porque o Pai ama o Filho, e mostra-lhe tudo o que ele faz (Jo 5,19-20) ou ainda 'Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; e ninguém conhece o Filho senão o Pai; nem alguém conhece o Pai senão o Filho' (Mt 11,27).

Nosso Senhor Jesus Cristo é o Verbo de Deus feito homem, sob duas naturezas: a natureza divina e a natureza humana: 'Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele' (Jo 3,16 - 17). Enquanto homem, Jesus teve as três potências da alma humana: inteligência, vontade e sensibilidade; enquanto Deus, Jesus foi consubstancial ao Pai, possuindo inteligência e vontade divinas.

'Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo'. Glórias sejam dadas à Santíssima Trindade: Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. Neste domingo da Santíssima Trindade, a Igreja exalta e ratifica aos cristãos o maior dos mistérios de Deus, proclamado e revelado aos homens: O Pai está todo inteiro no Filho, todo inteiro no Espírito Santo; o Filho está todo inteiro no Pai, todo inteiro no Espírito Santo; o Espírito Santo está todo inteiro no Pai, todo inteiro no Filho (Conselho de Florença, 1442).

sábado, 30 de maio de 2026

MAGNIFICA HUMANITAS E A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA


A primeira encíclica do Papa Leão XIV - Magnifica Humanitas - já está sendo descrita como a grande intervenção da Igreja Católica no debate sobre a inteligência artificial. Essa descrição é correta, dentro dos limites que estabelece. O Papa aborda o poder dos algoritmos, a automação, a substituição da mão de obra, a vigilância e a crescente concentração da influência tecnológica nas mãos de um pequeno número de atores corporativos e políticos. Mas o tema mais profundo da encíclica não é a inteligência artificial. É a pessoa humana e sua definição.

Essa é a questão subjacente a todo debate contemporâneo sobre IA, mesmo quando não expressa. Somos meramente máquinas biológicas altamente sofisticadas - conjuntos de impulsos, preferências e atividade neural à espera de replicação por sistemas mais avançados? Ou somos criaturas dotadas de capacidade moral, profundidade espiritual, criatividade, consciência e um destino transcendente que nenhum algoritmo pode imitar?

A resposta é importante porque toda tecnologia acaba se tornando uma expressão da civilização que a cria. Ferramentas nunca são meramente ferramentas. Elas carregam pressupostos embutidos sobre a natureza humana, a intenção humana e o propósito humano.

Leão compreende isso claramente. Ao longo de Magnifica Humanitas, ele adverte contra tanto o economismo quanto o cientificismo - a tendência de reduzir as pessoas a unidades de produtividade econômica ou a processos materiais inteiramente sujeitos à gestão técnica. A dignidade humana, ele insiste, não é conferida pela eficiência, pela utilidade de mercado ou pela superioridade computacional. Ela é intrínseca à própria pessoa. Isso coloca o papa em oposição direta não à tecnologia em si, mas à visão de mundo transumanista cada vez mais influente que molda grande parte do desenvolvimento tecnológico de elite e a cultura que o produz.

O transumanismo* parte de uma compreensão limitada do homem. Se a consciência é redutível ao processamento de informações, então as limitações humanas tornam-se problemas de engenharia à espera de solução. A mortalidade torna-se um defeito técnico. A dependência torna-se fraqueza. O próprio corpo torna-se hardware obsoleto à espera de atualização. Sob essa visão, o propósito da tecnologia não é mais servir à humanidade, mas transcendê-la.

Essa aspiração anima hoje uma quantidade surpreendente da retórica tecnológica contemporânea. Ouvem-se constantemente promessas de que a IA em breve superará os seres humanos não apenas no cálculo, mas também na criatividade, no discernimento, na inteligência emocional, na companhia e até mesmo no raciocínio moral. A implicação é inequívoca: a própria humanidade está se tornando um estágio intermediário ineficiente na evolução da inteligência. É difícil não perceber a ironia. Uma civilização cada vez mais incerta quanto ao significado da vida e da identidade humana propõe agora construir máquinas à sua própria imagem.

A encíclica de Leão representa um desafio direto a essa antropologia. O papa insiste que os seres humanos não podem ser compreendidos meramente através das categorias de eficiência, produtividade ou resultados mensuráveis, pois os seres humanos não são sistemas materiais autônomos. Eles possuem o que a tradição cristã clássica descreve como transcendência - uma abertura à verdade, à beleza, à bondade, ao amor, ao sacrifício e, em última instância, ao próprio Deus. Nessa perspectiva, o sentido de nossa humanidade se revela precisamente em nossa contingência e vulnerabilidade. A pessoa humana, nesse entendimento, não é superada pela máquina porque a pessoa humana não é redutível a cálculos.

Essa percepção não é anticientífica. Nem é nostálgica. Leão tem o cuidado de evitar a tentação troglodítica que muitas vezes acompanhou períodos de rápida mudança tecnológica. Ele não clama por um recuo em relação à inovação. Ele não romantiza um passado pré-tecnológico. De fato, um dos aspectos mais marcantes de Magnifica Humanitas é sua recusa em demonizar o próprio progresso.

O papa elogia explicitamente a iniciativa empreendedora como uma vocação digna. Ele reconhece que a inovação aliviou o sofrimento, ampliou as possibilidades humanas e tirou bilhões de pessoas de condições de pobreza e isolamento que seriam inimagináveis para as gerações anteriores. A preocupação da Igreja, ele deixa claro, não é com a tecnologia em si, mas com os pressupostos morais e antropológicos que orientam o seu desenvolvimento. Essa distinção é fundamental porque grande parte do debate público em torno da inteligência artificial permanece presa entre dois extremos igualmente inadequados.

De um lado estão os utópicos tecnológicos. Para eles, todo aumento no poder computacional representa progresso moral. Os problemas humanos tornam-se problemas de engenharia. A política torna-se gestão de sistemas. Atrito, ambiguidade, dependência e limitação são vistos menos como características permanentes da condição humana do que como erros a serem corrigidos por meio de tecnologia suficientemente avançada.

Do outro lado estão os novos reacionários - aqueles tentados a tratar a própria tecnologia moderna como um erro civilizacional. Seu instinto é o recuo: um anseio romantizado por uma era anterior, supostamente intocada pela alienação, pela burocracia e pela mediação tecnológica. Ambas as visões interpretam mal o problema porque ambas interpretam mal a pessoa humana. O desafio que a civilização moderna enfrenta não é se possuiremos tecnologias poderosas. Já as possuímos. A verdadeira questão é se nossas tecnologias permanecerão subordinadas a uma visão coerente do florescimento humano. Uma civilização livre e verdadeiramente virtuosa requer mais do que inovação. Ela requer um pluralismo enraizado em uma compreensão duradoura da dignidade humana.

A encíclica de Leão aponta precisamente para essa possibilidade. Sua defesa reiterada das instituições intermediárias - famílias, igrejas, escolas, associações voluntárias, comunidades locais e iniciativa empreendedora - reflete a compreensão de que a civilização não é construída exclusivamente por meio de regulamentação centralizada ou gestão burocrática ou tecnológica. Ela é construída por meio da cultura. E a cultura depende, em última instância, da antropologia. A questão decisiva da era da IA, portanto, não é simplesmente o que as máquinas são capazes de fazer. É para que servem os seres humanos. Qual é o seu telos?

Se o homem é meramente um organismo computacional avançado, então sistemas artificiais cada vez mais sofisticados tornar-se-ão naturalmente a medida da inteligência, da produtividade e da autoridade social. Nessas condições, a humanidade acabará por parecer sempre obsoleta segundo os seus próprios padrões. Mas se a pessoa humana possui uma dignidade irredutível fundamentada na transcendência - se ela está orientada não apenas para o consumo e a eficiência, mas para a verdade, a beleza, a virtude, a adoração e o amor - então nenhuma máquina, por mais poderosa que seja, pode substituí-la.

As máquinas podem nos superar em velocidade, memória, previsão e cálculo. Elas podem realizar inúmeras tarefas melhor do que nós. Mas não podem se arrepender. Não podem se sacrificar por outra pessoa. Não podem contemplar a beleza por si mesma. Não podem amar. Não podem buscar a Deus. Uma civilização que esqueça isso pode tornar-se tecnologicamente magnífica, mas espiritualmente exaurida. Uma civilização que se lembre disso ainda poderá construir tecnologias dignas do homem.

* movimento filosófico e científico que defende o uso da tecnologia e da ciência para aprimorar as capacidades físicas, intelectuais e psicológicas do ser humano

(Robert A. Sirico, em First Things, 29/05/2026, tradução do autor do blog)

sexta-feira, 29 de maio de 2026

COMO O SOL BAILOU EM FÁTIMA AO MEIO DIA!

(i) o sol tinha a forma de um disco luminoso, com a borda claramente delineada por uma faixa luminosa e podia ser visado diretamente por longo tempo, sem cegar ou ofuscar a visão das pessoas;

(ii) o sol pareceu dançar no firmamento, passando a girar aceleradamente sobre o seu eixo para, em seguida, interromper e recomeçar outras vezes esse movimento vertiginoso;

(iii) o sol começou a irradiar luzes diferentes e cambiantes, que foram disseminadas e refletidas sobre todo o ambiente da Cova da Iria (sobre as pessoas, a paisagem, os montes e as árvores);

(iv) ao final dos eventos, o sol pareceu precipitar-se sobre a terra num movimento apocalíptico que produziu nas pessoas um enorme temor e uma impressão geral de 'fim do mundo'; interrompendo esse processo de arremetida em ziguezague, o sol retornou então à sua posição natural e passou a ser visto na sua conformação original e ofuscante à visão direta;

(v) os mesmos fenômenos foram vistos por inúmeras outras pessoas, muitas delas a quilômetros de distância da Cova da Iria.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XX)

           

PARTE III - O INFERNO

II. Sobre a fome e a sede padecidos no Inferno

Assim como os crimes pelos quais o pecador, nesta vida, provoca a ira de Deus são de vários tipos, também as dores do inferno, pelas quais esses crimes serão punidos, variam em sua natureza. Sabemos que os homens muitas vezes pecam por intemperança, entregando-se avidamente à comida e à bebida. Consequentemente, Deus designou uma pena severa para esse pecado no outro mundo. Cristo o prediz, de fato, com estas palavras: 'Ai de vós que estais saciados, pois tereis fome' (Lc 6,25).

Quando Nosso Senhor pronuncia a palavra 'Ai', Ele sempre pretende ameaçar ou predizer alguma grande calamidade. Consideremos por um momento o que isso realmente significa neste caso. É impossível para nós formarmos uma ideia verdadeira das dores da fome, porque nunca as sentimos. Se durante um dia inteiro alguém não tem nada para comer, o tempo parece muito longo e a pessoa deseja muito algum alimento. E se alguém fosse privado de qualquer alimento por dois ou três dias, que miséria seria! Mas se um homem não tivesse absolutamente nada para comer durante uma semana inteira e fosse deixado à mercê da fome, o que seria dele?

Em tempos de escassez e fome, fica-se horrorizado ao ver quais são os efeitos produzidos pela fome e que terrível flagelo é a escassez de alimentos. Pois, para acalmar as dores insuportáveis da fome, as pessoas devoram tudo o que conseguem encontrar: grama, folhas, animais imundos e repugnantes; sim, os homens chegaram até a se alimentar da carne de seus semelhantes, mães sacrificaram seus filhos, e sabe-se que alguns roeram sua própria carne. E quando os pobres infelizes famintos não têm mais nada, vagam como sombras de si mesmos, pálidos e emaciados como a própria morte.

Eles arrastam uma existência moribunda até que todas as suas forças se esgotem; finalmente, pela tortura da fome, perdem os sentidos; deliram, gritam e uivam, e morrem da mais miserável das mortes. Se tais são os efeitos da fome na Terra, como será a fome que se experimentará no Inferno?

Se a falta de comida por apenas alguns dias causa tal tortura, como será uma fome contínua e sem fim? Quem pode pensar sem horror na fome sofrida no Inferno! Ai daqueles que tiverem de suportá-la. O profeta Isaías testemunha a existência de uma fome real e efetiva no Inferno, nesta passagem da Sagrada Escritura: Deus assim fala pela boca do profeta: 'Porque eu chamei e vocês não responderam, falei e vocês não ouviram; eis que os meus servos comerão e vocês terão fome; eis que os meus servos beberão e vocês terão sede. Meus servos se alegrarão e vós ficareis confusos; meus servos louvarão com alegria no coração e vós chorareis de tristeza no coração, e uivareis de dor no espírito' (Is 65, 12-14). 

Quem pode dizer quão terrível será essa fome no Inferno? O salmista diz dos inimigos de Deus que sofrerão fome como cães (Sl 58,7). Os réprobos serão então constantemente atormentados pela fome mais voraz, por uma fome tão grande que excederá além da medida a fome suportada em tempos de fome, por uma fome que os atormentará para sempre.

O que vocês fizeram, ó infelizes pecadores! Vocês trouxeram sobre si mesmos esta dor eterna. Se tivessem feito penitência nesta vida, não teriam se tornado presas desta fome eterna. Mas vocês desejaram comer e se saciar em vida; consequentemente, agora devem suportar o que Cristo predisse que seria o seu destino: 'Ai de vocês que estão saciados, pois terão fome'.

Que tomem isto especialmente a sério aqueles que costumam negligenciar deliberadamente a observância dos jejuns prescritos e comer carne nos dias de abstinência. Pois quem come carne nos jejuns da Igreja sem necessidade e sem ter sido dispensado, comete um pecado grave. Fazer isso equivale a desafiar a Igreja e excluir-se voluntariamente de sua bênção. E aquele que persiste nesse pecado, e não se arrepende sinceramente dele, não pode esperar a felicidade eterna. O que poderia ser mais imprudente e insensato do que, por uma satisfação tão desprezível, expor-se ao perigo da perdição eterna! Ó pecador obstinado, para onde vais! Pensa na fome sem fim que será suportada no Inferno e tem piedade da tua própria alma!

Além da fome, os condenados sofrem a sede mais ardente, que está além do poder das palavras para descrever. Todos sabem quão terríveis são os sofrimentos causados pela sede: são simplesmente insuportáveis. Aqueles que são atormentados pela sede beberão das fontes mais impuras, e se nada puder ser obtido para saciar sua sede, o resultado será uma morte lenta e dolorosa. A sede sofrida pelas almas perdidas é infinitamente maior, mais intensa, mais dolorosa do que qualquer sede experimentada na terra, por maior que seja. Se um homem mortal pudesse senti-la mesmo que por um breve período, desmaiaria e morreria imediatamente.

Nunca há descanso ou trégua para os condenados; eles são levados de um tormento a outro incessantemente. Isso provoca sede. Mas o calor do fogo do Inferno, no qual ardem dia e noite, para todo o sempre, é a principal causa da sede intolerável que os consome. Eles estão imersos em chamas e nunca obtêm o alívio de um gole de água. Meu Deus, quão grande deve ser a sede deles! É insuportável, e ainda assim eles precisam suportá-la. Ouça o apelo lastimável de uma alma perdida implorando fervorosamente pela graça de uma única gota de água: 'Pai Abraão, tem misericórdia de mim e manda Lázaro molhar a ponta do dedo na água para refrescar a minha língua; pois estou atormentado nesta chama' (Lc 16,24). 

'Deus misericordiosíssimo, peço apenas água; anseio por apenas uma gota de água para dar alívio momentâneo à minha língua em chamas. Tu não recusarás um pedido tão moderado, Tu que és louvado por todas as tuas criaturas como a própria bondade'. Mas esta súplica é em vão. Deus faz ouvidos moucos à voz do seu apelo. Nem uma única gota de água é dada para mitigar os seus sofrimentos. É possível, ó meu Deus, que Tu possas ser tão severo? Pai de compaixão, por que não queres ouvir a oração deles? Tua justiça e Teu ódio ao pecado não te permitem ceder; eles te obrigam a punir o pecado eternamente e da maneira mais terrível.

Mas nos é dito que os condenados não apenas são atormentados por fome e sede excessivas, como também são alimentados com chamas e obrigados a beber do cálice da ira divina. 'Se alguém adorar a besta, também beberá do vinho da ira de Deus, que está misturado com vinho puro no cálice da sua ira, e será atormentado com fogo e enxofre. E a fumaça de seus tormentos subirá para todo o sempre' (Ap 14,10). No livro de Moisés também lemos: 'O vinho deles é o fel dos dragões e o veneno das víboras, que é incurável' (Dt 32,33).

Reflita, ó pecador, sobre esta agonia indescritível. Fogo e enxofre serão o alimento dos condenados e a sua bebida, o vinho da ira de Deus. O que pode exceder tal tortura? Meu Deus, quão rigoroso és! Quão severos são os teus castigos! Pensem, vós, pecadores, que agora bebeis em excesso, pensai qual é o vinho preparado para vós no futuro, pensai na terrível sede que vos consumirá por toda a eternidade. Se não suportais ter sede por um dia, como suportareis a sede ardente da qual nunca obtereis alívio? Refleti sobre isso em vosso coração e não vos entregueis mais à vossa intemperança. Abandonai esse vício, que infalivelmente vos arrastará para a perdição.

São Paulo fecha expressamente a porta do Céu para vocês, quando diz: 'Os bêbados não herdarão o reino de Deus' (1Cor 6,10). Aí está a sentença, pronunciada contra vocês de antemão. Se continuarem a seguir o caminho do mal, não poderão alegar ignorância quanto ao destino ao qual serão condenados.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quarta-feira, 27 de maio de 2026

VERSUS: O MUNDO DOS BONS X O MUNDO DOS MAUS


Nosso Senhor foi um modelo incomparável de paciência: aguentou um 'demônio' entre os seus discípulos até à sua Paixão (Jo 6,70). Dizia Ele: 'Deixai um e outro crescer juntos, até à ceifa, para que não suceda que, ao apanhardes o joio, arranqueis o trigo ao mesmo tempo' (cf Mt 13,29). Tendo a rede como símbolo da Igreja, predisse que esta traria para a praia, quer dizer, até ao fim do mundo, toda a espécie de peixes, bons e maus. E deu a conhecer de muitas outras maneiras, tanto abertamente como através de parábolas, que haveria sempre essa mistura de bons e maus. E, no entanto, afirmou que é necessário vigiar pela disciplina na Igreja quando disse: 'Se o teu irmão pecar, vai ter com ele e repreende-o a sós. Se te der ouvidos, terás ganho o teu irmão' (Mt 18,15).


Mas hoje vemos pessoas que só tomam em consideração os preceitos rigorosos, que mandam reprimir os que causam perturbação, que ordenam que 'não se dêem aos cães as coisas santas', que se 'tratem como aos publicanos' aqueles que desprezam a Igreja, que se repudiem do seu corpo os membros escandalosos (Mt 7,6; 18,17; 5,30). O seu zelo intempestivo causa muita tribulação à Igreja, porque desejariam arrancar o joio antes do tempo e a sua cegueira faz deles próprios inimigos da unidade de Jesus Cristo.

Tomemos cuidado em não deixarmos entrar no nosso coração estes pensamentos presunçosos, em não procurarmos destacar-nos dos pecadores para não nos sujarmos com o seu contato, em não tentarmos formar como que um rebanho de discípulos puros e santos. Sob o pretexto de não convivermos com os maus, conseguiríamos apenas romper a unidade. Pelo contrário, recordemo-nos das parábolas da Escritura, dessas palavras inspiradas, desses exemplos tocantes, onde se nos demonstra que os maus estarão sempre misturados com os bons na Igreja, até ao fim do mundo e até ao dia do juízo, sem que a sua participação nos sacramentos seja prejudicial aos bons, desde que estes não participem dos pecados daqueles.

(Excertos da obra 'A fé e as obras', de Santo Agostinho)