terça-feira, 6 de outubro de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (156/160)

 

156. O VIÁTICO LEVADO DE AVIÃO

Era um bravo soldado francês e estava em terras da Argélia, na África, lutando contra os inimigos de sua pátria. Por seu valor, e talento chegara em pouco tempo a comandante. Cristão e piedoso fôra em sua infância, cristão e piedoso em sua juventude e, agora, nos campos de batalha e nas tendas de campanha, era ele muito mais piedoso e cristão.

Recebeu ordem de avançar e avançou até internar-se no deserto muito distante das cidades onde viviam os europeus. Estava na frente do exército dos árabes e tinha consigo apenas um regimento de soldados. Teve que dar batalha; nela o nosso comandante lutou como um leão. Fugiram vencidos e completamente derrotados os inimigos; ele, porém, recebeu uma bala no peito e caiu na areia candente do deserto sob um sol abrasador. Acorreu o médico, examinou a ferida e franziu a testa com visível mau humor.
➖ Doutor - disse-lhe o comandante - não me oculteis a verdade: Estou ferido de morte?
O médico replicou friamente:
➖ Pode ser.
➖ Está bem - disse o moribundo com a maior serenidade - vou perguntar-vos outra coisa: quantas horas julgais que posso viver?
➖ Três horas... quatro no máximo.
➖ Morrer, morrer... - exclamou o comandante - isso não me aterra. O que sinto é ter que morrer aqui no deserto sem um sacerdote que me absolva, sem o consolo da divina Eucaristia.

Ao ouvir estas palavras, um aviador, que estava ali perto, disse-lhe:
➖ Meu comandante, se quiserdes agora mesmo tomo o meu avião, que voa mais que os pássaros, e antes de três horas estarei aqui de volta com um padre.
➖ E onde ireis buscar esse sacerdote? Daqui ao primeiro lugar aonde podereis ir buscá-lo há mais de duzentos quilômetros.
➖ É verdade, meu comandante; por isso mesmo, não há tempo a perder. Senhor Doutor, conservai-lhe a vida três horas ao menos, que antes disso eu estarei aqui com um sacerdote.
Era um relâmpago aquele aviador. Subiu ao aparelho e, em poucos instantes, já havia desaparecido no horizonte. Entretanto, o comandante, moribundo, beijava com fervor o seu Crucifixo e dizia:
➖ Três horas de vida, Senhor, três horas até que venha um sacerdote... até que me deem o vosso sagrado Viático.

Deixemos o moribundo por um instante. Voemos com o aviador. Já chegou felizmente a Laghouat, onde está o hospital francês. Correu ao padre Capelão e lhe disse:
➖ Padre, quer subir comigo no avião? Temos que percorrer duzentos quilômetros. Lá está a morrer um comandante e não quer morrer sem um padre e sem a comunhão. Se o senhor puder ir, não podemos perder nem um minuto.
➖ Pois não... neste instante - respondeu o Capelão. E correu à capela, tomando consigo a hóstia santa e os santos óleos. Subiu ao avião e o aviador deu partida de pronto.

Antes das três horas convencionadas, estava o Capelão à cabeceira do comandante moribundo. Ouviu-lhe a confissão, deu-lhe a absolvição e apresentou-lhe a divina Eucaristia. Naquele momento solene, soldados e oficiais enchiam a tenda onde agonizava o valente comandante. O sacerdote elevou em suas mãos a hóstia santa e disse: 'Eis o Cordeiro de Deus, eis o que tira os pecados do mundo'. O sacerdote inclinou-se para depositar a branca hóstia nos lábios do herói. O comandante abriu pela última vez os olhos e exclamou do fundo da alma:
➖ Obrigado, meu Deus, obrigado...
Momentos depois, o Capelão, chorando como criança, dizia:
➖ Morreu um herói... morreu um santo.
Sim, quem morre amando a Jesus como este comandante, certamente morre como um santo.

157. A MISSA DE SÃO PEDRO DE ALCÂNTARA

Segundo Santa Teresa, que o conheceu pessoalmente e muitas vezes o consultou em casos difíceis, poucos santos tiveram vida tão interior e receberam graças tão insignes como São Pedro de Alcântara. O seu amor a Jesus e a sua devoção à sagrada Paixão do Salvador eram inefáveis: dificilmente se faz uma ideia da piedade com que celebrava o Santo Sacrifício e do recolhimento, da fé viva e do amor com que se aproximava do santo altar. Quando celebrava, os fiéis corriam à igreja desejosos de presenciar os favores divinos que o santo recebia.

Dizem os biógrafos que, dirigindo-se à sacristia, ele transportava-se ao Pretório e a lembrança da Paixão o penetrava de tal modo que os paramentos de que se revestia eram aos seus olhos como que vestes da Vítima divina. Absorto neste pensamento, dirigia-se ao altar com os mesmos sentimentos com que se teria dirigido ao Calvário; e ali, abrangendo com um olhar o mundo inteiro, oferecia o Santo Sacrifício em união com Jesus, e pedia a Deus que recebesse a Hóstia divina pela salvação de todos.

Desde as primeiras palavras, a sua devoção comovia os presentes. Quando lia o Evangelho e principalmente quando pronunciava o nome de Jesus, o ardor do seu coração era tão grande que de seu peito irrompiam suspiros e de seus olhos brotavam lágrimas. Ao Canon, o seu rosto inflamava-se; e quanto mais se aproximava a Elevação, tanto mais viva era a sua comoção. Era preciso contemplá-lo depois da consagração: o corpo imóvel, o rosto inflamado, os olhos atentos e expressivos como se ele estivesse vendo realmente o mistério adorável oculto sob as sagradas espécies. Com frequência perdia os sentidos e, não obstante a sua resistência, era arrebatado e elevado da terra. Voltando a si, continuava a rezar o Pai Nosso com muitos suspiros e lágrimas.

Após a Comunhão, os êxtases e a imobilidade recomeçavam. Ficava confundido com esses favores extraordinários, e, para evitar a admiração dos presentes, fugia o mais possível de celebrar em público. Ordinariamente despia depressa os paramentos e corria a fechar-se em sua cela, onde gozava em paz da visita do Hóspede divino. A sua ação de graças era longa e entrecortada de suspiros amorosos. Assim se explica o que dele afirmaram os que o conheceram de perto: que ele conseguiu mais conversões com a celebração da santa Missa do que todos os pregadores de sua província com seus sermões; e que muitíssimos dos que o viram celebrar procuravam-no depois para se confessarem e receberem os seus sábios conselhos.

158. A MISSA DE SÃO CARLOS

A devoção de São Carlos, arcebispo de Milão, pela Eucaristia, quem a poderá exprimir? Passava horas e noites inteiras em adoração aos pés do altar, como um puro espirito, e durante as Quarenta Horas dificilmente se afastava do Santuário.

As velas consumiam-se diante do Santíssimo Sacramento com menos ardor que a sua alma. O incenso elevava-se ao céu com um perfume menos puro que as preces de seu coração. E, quando celebrava o divino Sacrifício, os fiéis julgavam ver um anjo ao altar. Todas as manhãs, antes de celebrar, purificava a sua consciência, levando as suas menores faltas ao tribunal da penitência.

Uma de suas regras era: guardar absoluto silêncio desde a oração da noite até o fim da ação de graças após a missa. Antes de haver celebrado a santa missa não queria ocupar-se de nenhum negócio. Subir ao altar e distribuir a sagrada comunhão eram as suas delicias, tendo-se imposto muitas vezes grandes sacrifícios para o fazer. Depois de celebrar e fazer a sua ação de graças, o santo deixava a igreja em silêncio e voltava para casa todo absorto em Deus.

159. SÃO LUÍS BELTRÃO E A SANTA MISSA

São Luís Beltrão, parente de São Vicente Ferrer e, como este, famoso por suas pregações, estimava infinitamente o favor que Deus lhe fizera chamando-o ao sacerdócio. Considerava a Festa do Natal como a mais bela de todo o ano, porque nesse dia lhe era permitido celebrar três Missas.

Todos os dias se confessava, a fim de levar ao altar uma consciência mais pura. Jamais elevava a Hóstia ou o Cálice, sem pedir a Nosso Senhor a graça de derramar o seu sangue pela conversão e salvação dos pecadores: 'Senhor, concedei-me a graça de morrer por vós, como vós morrestes por mim'. Nada comovia tanto os fiéis como as lágrimas que viam correr dos seus olhos desde a Elevação até a Comunhão. Viram-no, várias vezes, enquanto tinha nas mãos a Hóstia santa, circundado de uma luz sobrenatural resplandecente como o sol; era como se uma luz do céu inundasse toda a igreja. A Hóstia divina era a alegria do seu coração e a glória da sua vida.

160. UM SANTO E UM COMERCIANTE

É interessante o que se passou certa ocasião com São João Bosco, grande amigo da mocidade e grande convertedor de pecadores. Apresentou-se a ele um comerciante para tratar de assuntos relativos ao seu comércio. Mas, como para aquele grande mestre o maior negócio da vida era o da salvação eterna da alma, conhecendo sem dúvida por divina revelação que aquele homem andava muito bem de assuntos financeiros, porém muito mal de temor de Deus e muito afastado do cumprimento de seus deveres de cristão, disse-lhe sem mais preâmbulos:
➖ Já sabe, amigo, que é preciso confessar-se?
➖ Dom Bosco - replicou o comerciante - deixemos esse assunto para outro dia.
➖ E contudo, este é o mais importante de todos. O amigo já sabe que é preciso confessar-se e fazer a páscoa.
➖ Ninguém o duvida, mas eu não vim para isso.
➖ Pois eu para isso estou aqui, por isso vou repetir: Já sabe, amigo, que é preciso que se confesse e faça a páscoa?

O comerciante ficou um pouco agastado e disse:
➖ Mas, Dom Bosco, o senhor me tem por um herege?
➖ Não, amigo - replicou o santo com o seu sorriso imperturbável - não o tenho por herege, mas digo-lhe unicamente que é preciso confessar-se e fazer a páscoa.
➖ Bem - exclamou enfadado o comerciante - e quem lhe disse que eu ainda não o fiz? Quem lhe disse que ainda não me confessei este ano?

Dom Bosco, com as mãos cruzadas sobre o peito, e fixando-o com um olhar que penetrava até o fundo da consciência, disse-lhe acentuando bondosamente cada palavra:
➖ Está bem; eu apenas lhe recordo que é preciso...
➖ Pois eu lhe digo - insistiu o comerciante - que eu agora não tenho vontade nem tempo.
➖ E eu repito - acrescentou o santo - que é preciso...
Não podendo o comerciante resistir mais à graça de Deus que, pelas palavras do grande educador, acabou por lhe comover o coração, respondeu:
➖ Padre, faz mais de quarenta anos que não me confesso.
E o santo com maior bondade, maior doçura e compassivo olhar, respondeu:
➖ Por isso, meu filho, eu lhe dizia: É preciso confessar e fazer a páscoa.
E, após uma boa confissão, o comerciante, que fôra tratar de assuntos comerciais, dali saiu mais rico e feliz do que nunca por haver comprado a graça de Deus e a paz da alma.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

FRASES DE SENDARIUM (LXXXIII)

 

'Cristo é a minha força, a oração é a minha fortaleza, a fé é o meu escudo' 

(Santa Rosa de Lima)

Ama, com extremado amor, o poder do silêncio, a riqueza extraordinária do escondimento, a glória imensa do anonimato. Como herdeiro dos céus, eis aí a tua identidade como filho de Deus no mundo: a humildade como armadura, a caridade como bagagem, a fé como único tesouro...

domingo, 4 de outubro de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

    

'A vinha do Senhor é a casa de Israel' (Sl 79)

Primeira Leitura (Is 5,1-7) - Segunda Leitura (Fl 4,6-9) - Evangelho (Mt 21,33-43)

  04/10/2026 - VIGÉSIMO SÉTIMO DOMINGO DO TEMPO COMUM

 A PARÁBOLA DOS VINHATEIROS HOMICIDAS


O Evangelho deste domingo apresenta mais um evento relativo aos enfrentamentos públicos de Jesus com os mestres da lei e os anciãos do Templo, na terça-feira santa, logo após o júbilo messiânico vivido pelo povo de Jerusalém naquele Domingo de Ramos. Nenhum outro apóstolo detalhou, com maior precisão e rigor, estes últimos acontecimentos que antecederam a Paixão e Morte de Nosso Senhor, do que São Mateus.

Àqueles homens duros de coração, letrados nos textos das Sagradas Escrituras e sabedores por excelência que 'a vinha do Senhor é a casa de Israel' (refrão do salmo 79), Jesus vai proclamar a perda e a devastação desta vinha, que será abandonada pelo seu dono e deixada à mercê das sarças e dos espinhos que a tornarão 'inculta e selvagem' (Is 5,6). E que, mais além, será restaurada e tornada cultura de raro louvor porque 'o Reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá frutos' (Mt 21,43). Trata-se de um testemunho explícito de que o juízo de Deus extrapola apenas o plano individual, mas alcança a dimensão de povos e nações e, portanto, de toda a humanidade por gerações.

A vinha do Senhor foi preparada, cercada, cuidada com zelo; depois, arrendada a vinhateiros para que dela cuidassem com o mesmo esmero e dela produzissem muitos frutos bons. Mas eis que estes maus zeladores corromperam a obra de Deus e produziram na vinha apenas frutos de injustiça e de iniquidade. Sabedores dos suas omissões e desvarios, e ensandecidos pela cobiça e pelo orgulho, fazem morrer não apenas os enviados do Senhor (os grandes profetas), mas o próprio filho do Senhor da vinha. Diante de passagens tão explícitas àqueles tempos e àqueles personagens, estes não parecem perceber que resumem a própria condenação nas suas próprias palavras: (o senhor da vinha) 'mandará matar de modo violento esses perversos e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entregarão os frutos no tempo certo' (Mt 21,41).

Nesta parábola Jesus nos interpela, a cada um de nós, a zelar pela vinha que somos, com zelo extremado de salvação eterna, fugindo das ciladas das vaidades e do orgulho humano dos vinhateiros homicidas. Não podemos matar em nós o puro amor cristão, não podemos matar os dons recebidos e as virtudes do coração, não podemos matar a graça santificadora do batismo, não podemos matar em nós a herança do Reino de Deus; mas devemos nos ocupar 'com tudo o que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, honroso, tudo o que é virtude ou de qualquer modo mereça louvor' (Fl 4,8) porque, nas vinhas do Senhor, somente florescem as videiras que produzem frutos de vida eterna.

sábado, 3 de outubro de 2026

LENDAS DA BEM AVENTURADA VIRGEM MARIA (I)


Em tempos antigos, vivia em um vilarejo em Hainaut, entre Valenciennes e Maubeuge ('onde' - diz a antiga crônica - 'Deus era servido com lealdade, e sua santa Mãe dignamente honrada'), uma moça simples do campo, cuja juventude e graça, candura e gentileza, atraíam a estima geral dos moradores do vilarejo. Ela cresceu pouco versada em assuntos mundanos, mas caminhando confiantemente diante de Deus em inocência e verdade, sem sonhar com o mal.

Sem o dom da memória, e ainda menos com o do conhecimento, a jovem do vilarejo conhecia apenas uma oração, que era - JESUS e MARIA! E mesmo quando seus lábios cessavam de se mover, o eco desses doces nomes flutuava em seu coração.*

* 'Esta curta oração, Jesus e Maria! é fácil de lembrar; ela preenche docemente a mente e é extremamente poderosa na hora da necessidade'  (Tomás de Kempis).

Acompanhai-me agora na lenda popular. O diabo - a quem nossos pais, por mais ignorantes que julguemos que tenham sido, percebiam estar agindo em vários momentos e em diferentes circunstâncias nas quais nós, com nosso orgulho intelectual, não permitimos que ele tenha qualquer papel, deixando de reconhecer o demônio que anda continuamente rugindo ao redor, procurando a quem devorar - o diabo, então, não podia contemplar, sem fúria, a constante e simples piedade desta pobre jovem, tão confiante, tão ingênua, tão simples e tão bela. Ele, portanto, buscou a sua ruína.

Ele atraiu muitos jovens apaixonados para cortejá-la. Com sua curta e simples, mas poderosa oração, ela os repelia sem sequer suspeitar de suas intenções. 'Esses camponeses são sujeitos enfadonhos e estúpidos' - disse o diabo, que, como muitos outros, julgava os talentos daqueles que empregava pelo sucesso de seus próprios planos.


Ele então despertou as paixões dos galanteadores na corte do Conde Guilherme VI. O mais nobre deles, tendo ouvido falar dos encantos da jovem aldeã, veio para a vizinhança ricamente vestido e ofereceu-lhe a homenagem dos seus elogios. A poderosa oraçãozinha triunfou sobre os cortesãos assim como havia feito sobre os rústicos camponeses. O coração humilde a sussurrava com uma firme esperança. Como lhe havia sido ensinado, ela acreditava piamente que Jesus era o seu Deus e Maria, a sua padroeira.

'Bem, isto é espantoso!' - disse o diabo: 'não me resta outra alternativa senão ir eu mesmo e ver o que posso fazer'. Ele sabia que a inocência é defendida pela proteção divina e que Deus guarda os corações simples. Ele estava enfurecido. Assumiu, então, a forma humana, diz a tradição, e apresentou-se diante da jovem. Ele possuía a aparência mais sedutora e os modos mais cativantes; e a conversa dele era tão animada que a jovem ficou encantada com ele; e ficou tão dominada pela confusão que ele lhe causava que se esqueceu de sua santa oração.

O demônio alegrou-se secretamente e redobrou os seus esforços até que, acreditando ter assegurado a sua presa, perguntou despretensiosamente à simples garota: 'Qual é o seu nome, bela jovem?' Por que o diabo fez essa pergunta? E o que teria motivado tal indagação? 'Maria!' - respondeu ela. Ao som deste nome, que é canal de graça e fonte de força, o demônio sobressaltou-se e desapareceu. Surpresa e alarmada com o sumiço repentino dele, a pobre jovem percebeu o perigo que havia corrido. Mas ela havia sido salva e nunca mais a sua curta e doce oração - JESUS e MARIA! - saiu da sua mente.

(Excertos da obra 'Légendes de la Sainte Vierge', por J. Collin de Plancy, 1853)

BREVIÁRIO DIGITAL: A PEQUENA VIA (II)

 

Poucos dias depois de minha oblação ao Amor Misericordioso de Deus, eu estava no coro, começando a Via-Sacra, quando me senti subitamente ferida por um dardo de fogo tão ardente que pensei que fosse morrer. Não sei como explicar isso; não há comparação capaz de descrever a intensidade daquela chama. Parecia que uma força invisível me mergulhava inteiramente no fogo. Mas... Que fogo! Que doçura!

(Santa Teresa do Menino Jesus)

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXIX)

PARTE IV - O CÉU

III. Sobre as alegrias do Céu (continuação)

Quanto às alegrias espirituais dos remidos no Céu, são tão abundantes que, ao falar delas, não se sabe por onde começar nem onde terminar. Considerai as consolações espirituais concedidas neste mundo aos eminentes servos de Deus. Sabemos que a vida de alguns santos na terra se assemelhava mais à dos anjos do que à dos homens, tão frequentemente eram favorecidos com êxtases, visões, luzes interiores e consolações divinas de toda espécie. E, contudo, todos esses favores eram apenas como uma gota do oceano sem limites da doçura celestial. Que arrebatamento será, para as almas santas no Céu, beber diretamente da fonte e haurir livremente do manancial inesgotável de toda felicidade! Todas as faculdades da alma - o entendimento, a memória, a vontade, a imaginação, cada pensamento, cada desejo, todo o ser intelectual, elevado e aperfeiçoado pelo próprio Deus - serão plenamente satisfeitas e contribuirão para aumentar e intensificar as alegrias da alma.

Com o entendimento, os bem-aventurados contemplarão todas as coisas criadas à luz de Deus e penetrarão profundamente os segredos da natureza. Está escrito acerca do rei Salomão: 'Deus deu a Salomão sabedoria e entendimento em grandíssima medida, e uma amplidão de espírito como a areia que está na praia do mar. E a sabedoria de Salomão excedia a sabedoria de todos os orientais e dos egípcios, e ele era mais sábio do que todos os homens. Proferiu também três mil parábolas, e os seus cânticos foram mil e cinco. Tratou das árvores, desde o cedro que está no Líbano até ao hissopo que nasce nos muros; e discorreu sobre os animais, as aves, os répteis e os peixes. E vinham de todas as nações ouvir a sabedoria de Salomão, enviados por todos os reis da terra que tinham ouvido falar da sua sabedoria' (3Rs 4,29-34).

Nunca ouvimos falar de uma sabedoria igual a essa, nem podemos deixar de nos admirar com a vastidão e a perspicácia do entendimento desse grande rei. Contudo, comparada com a sabedoria do menor dos santos no Céu, ela não supera o conhecimento de uma criança de três anos diante da erudição e da sabedoria do mais douto dos homens. Pois todas as operações da natureza e todas as forças do universo estão manifestas e reveladas ao menor dos santos no Céu. Nada é oculto ou misterioso aos seus olhos. Ele conhece tudo o que a Santíssima Trindade realizou desde toda a eternidade; sabe de que maneira admirável os céus e a terra foram criados do nada e com que sabedoria tudo foi ordenado e sustentado, desde o princípio até ao fim dos tempos. 

Sabe como o Filho de Deus foi gerado pelo Pai antes de todos os séculos; sabe como o Espírito Santo procede eternamente do Pai e do Filho. Sabe como Cristo nasceu de uma mãe terrena sem violar a sua virgindade; conhece tudo o que Nosso Senhor fez e sofreu durante toda a sua vida, e como cada santo e servo de Deus viveu para Deus e trabalhou ao seu serviço. Tudo o que, nas Sagradas Escrituras, nos parece misterioso e incompreensível, assim como os mistérios da religião e da natureza, ele compreende sem um instante de reflexão. Ainda que tivesses sido na terra apenas um camponês simples e iletrado, ao entrares no Céu teus olhos se abririam, e verias claramente e compreenderias perfeitamente todas as coisas. Que alegria, que felicidade esse conhecimento e essa visão clara te proporcionarão! Que agradecimentos cheios de gratidão renderás a Deus por isso!

Em segundo lugar, no que diz respeito à memória, os bem-aventurados também encontrarão no Céu a plenitude da alegria, pois ela, assim como o entendimento, será iluminada por Deus; e todos os acontecimentos de sua vida passada estarão tão vivos e tão nítidos em sua lembrança como se os contemplassem inscritos em tábuas diante dos olhos. Então perceberão por que caminho admirável Deus os conduziu ao seu destino eterno, com que misericórdia lhes perdoou as transgressões, como os socorreu na hora da tentação e como fez com que todas as coisas concorressem para o seu bem.

Essa visão retrospectiva despertará no coração de cada um a mais santa gratidão para com Deus, e muitas vezes a expressarão assim: 'Ó meu Deus, a quem amo acima de todas as coisas, quão grandes são os dons e as graças que me concedestes! Quão generoso fostes para comigo! Quantas vezes me livrastes do perigo de cair em pecado! Com que misericórdia me preservastes da condenação eterna e de que modo admirável me guiastes pelo caminho da salvação! Como poderei louvar e exaltar suficientemente a vossa infinita bondade? Como poderei agradecer-vos e adorar-vos suficientemente pelos benefícios que tão abundantemente derramastes sobre mim?'

Em terceiro lugar, a vontade de cada um dos bem-aventurados será coroada de felicidade e abrasada de amor por Deus e pelos bem-aventurados em cuja companhia se encontra. Os prazeres mais nobres de que um homem pode desfrutar provêm de sua vontade. Um homem é feliz quando tudo lhe sucede conforme os seus desejos; quando adquire e possui tudo o que seu coração pode desejar; quando é estimado e elogiado por seus semelhantes; quando ama e é amado por aquele a quem dedica suas afeições. Tudo isso, e muito mais, constitui a porção dos bem-aventurados, mas no mais alto grau e na maior perfeição possível.

O amor de Deus por eles e o amor deles por Deus são tão profundos que ficam abrasados e consumidos pela caridade divina; sua vontade se assemelha a uma brasa viva, resplandecente de luz e calor, até ser absorvida pelo fogo de que faz parte. Assim acontece com os santos no Céu: impregnados de caridade divina, ardem e resplandecem na luz de Deus e refletem cada vez mais a sua imagem. São João diz: 'Sabemos que, quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque o veremos tal como Ele é' (1Jo 3,2). No amor de Deus e na união com Ele, encontram uma delícia tão inefável que, inebriados pela doçura da caridade divina, se perdem nele.

Não há maior felicidade na terra do que amar e ser amado; e, quanto mais terno, puro e ardente é esse amor, maiores são a alegria e a satisfação que nos proporciona. Ora, o amor do Céu, o amor dos remidos por Deus e uns pelos outros, é a mais terna, a mais pura e a mais ardente afeição, uma afeição infinita e sem limites; por isso, é fonte de imensa alegria e de felicidade indizível. Que o Deus de toda graça nos faça participantes desse amor, e então conheceremos por experiência aquilo de que as palavras não conseguem transmitir uma ideia. Ninguém terá o privilégio de participar desse amor se, aqui na terra, não viver no amor de Deus e não morrer na sua amizade. Esforcemo-nos, portanto, por fazer crescer em nós essa caridade divina, para que, na vida futura, sejamos admitidos ao pleno gozo do seu amor.

A visão beatífica da face divina é uma alegria acima de todas as alegrias, uma delícia que supera de longe todos os prazeres celestiais de que falamos. Sem ela, todas as outras alegrias perderiam o seu sabor e se transformariam em amargura. Certa vez, quando o demônio falava pela boca de uma pessoa possessa, disse: 'Se todos os céus fossem uma folha de pergaminho, se todo o oceano fosse tinta, se cada folha de relva fosse uma pena e cada homem da terra um escriba, isso não bastaria para descrever a intensa e incomensurável delícia que a visão de Deus proporciona aos bem-aventurados'. Em outra ocasião, disse que, se Deus se dignasse conceder-lhe o privilégio de contemplar a sua face divina por alguns instantes, suportaria de bom grado, se isso fosse possível, todos os tormentos do Inferno em sua própria pessoa até ao Dia do Juízo. Isso nos ensina que, se um homem passasse toda a sua vida praticando as mais severas penitências e, depois da morte, lhe fosse permitido contemplar a face de Deus por um único instante, já teria recebido uma ampla recompensa por todas as suas mortificações.

Considerai agora quão sublime deve ser a felicidade que os santos encontram na contemplação, na fruição e na posse do Deus supremo! Se contemplar a face divina por um breve instante é uma alegria que supera tudo o que uma vida de prazeres oferece ao homem mundano, que arrebatamento será contemplar para sempre, com olhos jamais obscurecidos, a sua infinita beleza! Que arrebatamento será possuir esse Bem supremo por toda a eternidade!

Deus é um ser em quem tudo o que há de mais admirável e desejável existe no mais alto grau. Nele se encontra tudo o que mais nos atrai e fascina: clemência, beleza, justiça, compaixão, sabedoria, majestade, todos os atributos doces e sublimes em sua mais plena perfeição. De Deus procede toda graça, tudo o que necessitamos para o nosso bem espiritual e temporal, toda a felicidade, a alegria, o repouso, a consolação, todos os benefícios e bênçãos de que suas criaturas desfrutam no Céu e na terra. E, quando os remidos passarem a contemplar esse Bem infinito e a possuir essa fonte de tudo o que merece ser amado, admirado e desejado, sua alegria será verdadeiramente plena. Que delícia indizível lhes proporcionará compreender o mistério da Encarnação e o mistério da Santíssima Eucaristia!

Que delícia indizível será para eles compreender como Deus pode ser invisível e, contudo, ver todas as coisas; como pode permanecer imóvel e, contudo, ser a fonte de todo movimento; como pode ser imutável e, contudo, ser o autor de toda mudança. Esses e muitos outros mistérios serão esclarecidos aos bem-aventurados na luz de Deus, e essa fonte de conhecimento não se esgotará por toda a eternidade. Quanto mais conhecerem a Deus, mais crescerá o seu desejo de conhecê-lo melhor, e esse conhecimento não terá limite nem imperfeição. Assim, terão sempre fome e, contudo, estarão perfeitamente saciados; esse rico tesouro estará sempre aberto para eles, e jamais esgotarão todas as riquezas que contém. Medita frequentemente sobre esse assunto, ó leitor, e desperta em tua alma um ardente desejo de desfrutar de Deus pelos séculos dos séculos.

Ó meu Deus e meu tudo! Vós que sois beleza infinita, doçura infinita, bondade infinita! De todo o coração suspiro por Vós. Assim como o cervo anseia pelas águas dos ribeiros, minha alma tem sede de Vós, o Deus poderoso e vivo; quando irei apresentar-me diante de vossa presença? Quando terei a ventura de vos contemplar e de desfrutar de Vós para sempre? Ouso esperar que essa alegria possa ser minha; humildemente espero e confio em vossa infinita bondade, pois não rejeitais ninguém que se aproxima de Vós com um coração contrito e cheio de amor. Quão rico, quão feliz, quão alegre serei quando possuir esse Bem supremo! Eu vos abraçarei com reverente amor e me perderei em Vós, quando enfim vos possuir.

Estou pronto e desejo, ó meu Deus, fazer tudo o que estiver ao meu alcance para tornar-me digno de ser admitido em vossa presença. Estou disposto a sofrer tudo o que minha frágil natureza me permitir suportar. Estou disposto a afastar-me do mundo e a renunciar a todas as coisas terrenas, na medida em que os deveres do meu estado o permitirem. Estou disposto a trabalhar, tanto quanto puder, em vosso serviço; e assim farei, na esperança de vos alcançar, ó Bem infinito e eterno, e de contemplar para sempre a vossa infinita beleza. Mais ainda: mesmo que soubesse que haveria de me perder, ainda assim vos amaria. Pois não vos amo porque espero alcançar por Vós a salvação eterna, mas porque sois a Beleza perfeita e a Bondade infinita, dignas de ser o único objeto de nossas afeições e aspirações.

Crendo e esperando assim, desejo viver e morrer, e tomo os anjos e os santos por testemunhas da verdade do que digo. E, para confirmá-lo, repito com o coração e com a voz:

'Meu Deus, eu vos amo, não porque assim espere alcançar o Céu;
nem porque aqueles que não vos amam devam arder eternamente.
não pela esperança de ganhar alguma coisa, nem buscando uma recompensa;
mas como Vós mesmo me amastes, ó Senhor que sempre amais'.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

01 DE OUTUBRO - SANTA TERESA DE LISIEUX

  


Chamada de ‘maior santa dos tempos modernos’ e recentemente elevada à glória de doutora da Igreja Católica, Teresa de Lisieux transformou-se num dos personagens mais venerados no mundo católico como ‘Santa Teresinha do Menino Jesus’. Feitos extraordinários para uma simples carmelita, que viveu no mais absoluto ostracismo e morreu com apenas 24 anos de idade. Marie Françoise Thérèse Martin nasceu em Alençon, em 02/01/1873, e faleceu em Lisieux, em 30/09/1897. Foi canonizada em 17 de maio de 1925 pelo Papa Pio XI, que posteriormente a declarou ‘Patrona Universal das Missões Católicas’ em 1927. O Papa João Paulo II tornou-a Doutora da Igreja no dia 19 de outubro de 1997.

Por desígnios divinos, Santa Teresinha foi a preceptora de um particular caminho de santificação: a chamada ‘pequena via’, a via de confiança absoluta à vontade de Deus. Na plena aceitação dos desígnios divinos sobre as almas de cada um de nós, no abandono de nossas vidas nos braços de Jesus Cristo, na entrega total de nossas ações e pensamentos à proteção da Santíssima Virgem: eis aí a pequena via, o caminho da infância espiritual, a gloriosa trilha de santificação para os homens comuns, o espantoso atalho ao Céu, proposto e vivido intensamente pela santa carmelita. Eis a sua pequena via maravilhosa de santificação: basta aceitar a nossa própria pequenez, a imensa fragilidade humana que nos domina, as enormes limitações de viver em plenitude os desígnios de Deus sobre as nossas almas; fazer de tantas imperfeições e fragilidades, não meros obstáculos, mas as próprias pedras do caminho, rejuntadas e consolidadas firmemente num imenso amor e numa confiança sem limites na bondade e misericórdia de Deus.

Além de cartas e poesias (e outros documentos registrados por suas irmãs do Carmelo), o legado de Santa Teresinha está por inteiro em sua famosa obra ‘História de uma alma’ (publicado originalmente em 1898), que registra, além de seus manuscritos autobiográficos e de suas proposições espirituais, as premissas e os fundamentos do seu caminho da infância espiritual.

Nesta pequena via, a santificação começa e termina pelo propósito de fazer, de cada dia, mais um passo na peregrinação ao Céu, transformando cada ação diária, cada ato da nossa vida mundana, por mais simples e despojado que seja, em obra de perfeição cristã, compartilhado e vivido para a plena glória do Pai (‘sede perfeitos como vosso Pai do Céu é perfeito’). Nesta pequena via, a santificação é caminho simples e fácil para todos os homens e mulheres dos nossos tempos, e precisa apenas da resolução tão claramente expressa na curta vida da carmelita de Lisieux: ‘nunca distanciar a minha alma do olhar de Jesus’.