quinta-feira, 6 de agosto de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXV)

 

PARTE III - O INFERNO

VII. Sobre o verme que não morre

Nosso Divino Salvador diz: 'Se a tua mão te escandaliza, corta-a; melhor é entrares na vida mutilado do que, tendo as duas mãos, ires para o inferno, para o fogo que nunca se apaga, onde o seu verme não morre e o fogo não se extingue. E, se o teu pé te escandaliza, corta-o; melhor é entrares coxo na vida do que, tendo os dois pés, seres lançado no inferno, no fogo inextinguível, onde o seu verme não morre e o fogo não se extingue. E, se o teu olho te escandaliza, arranca-o; melhor é entrares no Reino de Deus com um só olho do que, tendo dois olhos, seres lançado no inferno de fogo, onde o seu verme não morre e o fogo não se extingue' (Mc 9,42-47).

Por estas palavras, nosso bendito Redentor quis gravar profundamente em nossas almas a necessidade de evitar as ocasiões de pecado e de fazer até os mais dolorosos sacrifícios para fugir do pecado e, assim, escapar das penas eternas do inferno. Quis também imprimir vivamente em nossa mente que dois dos mais terríveis tormentos do inferno são o seu fogo inextinguível e o seu verme que nunca morre. Já vimos, em um capítulo anterior, em que consiste o terrível fogo do inferno. Resta-nos agora examinar em que consiste 'o verme que não morre'.

Todos os sentidos dos réprobos terão o seu castigo próprio; a razão, ou inteligência, é castigada pela pena da perda, como vimos no capítulo precedente, castigo este que ultrapassa incomparavelmente os sofrimentos dos sentidos. A memória dos condenados será atormentada pelo 'verme que não morre', isto é, por um remorso de consciência agudíssimo e incessante, que jamais lhes dará descanso.

O pecador condenado recordar-se-á de quantas graças e meios de salvação lhe foram concedidos durante a vida para salvar a sua alma; de como Deus lhe enviou tantas inspirações santas; de como recebeu tantas boas instruções; de como teve ao seu alcance a graça da oração para o ajudar a praticar as virtudes próprias do seu estado, vencer as tentações, guardar os Mandamentos de Deus e da sua Igreja; de como seus amigos piedosos o exortaram a levar uma vida santa, não apenas por suas palavras, mas sobretudo por seu bom exemplo; de como teve tantas oportunidades de instruir-se acerca de seus deveres, ouvindo a Palavra de Deus e lendo bons livros; e de fortalecer-se no cumprimento de suas obrigações pela recepção dos Sacramentos e pela prática da devoção à Santíssima Virgem.

Em suma, o pecador condenado recordar-se-á de quão pouco esforço lhe teria sido necessário para salvar a alma e evitar o inferno. Dirá a si mesmo: 'Tão pequeno esforço era necessário para a minha salvação! Mesmo depois dos meus numerosos pecados, uma boa confissão teria sido suficiente. Mas, por vergonha, por respeito humano, não a fiz. Como fui insensato! Quantas vezes minha consciência, minha família e meus amigos me exortaram a confessar-me! Tudo, porém, foi em vão. Outros cometeram pecados maiores do que os meus, mas deles se arrependeram, confessaram-se, mudaram de vida e agora desfrutam de uma felicidade inefável no Céu! Quanto a mim, estou perdido para sempre, e isso por minha própria culpa, pois tive à minha disposição uma abundância extraordinária de meios de salvação. Mas agora o arrependimento já não aproveita; é tarde demais!' Consideremos, porém, as expressões de pesar dos diversos pecadores condenados. Sua dor é vã, porque, à semelhança da de Judas, é o pesar do desespero. 

'Durante a vida' - dirão esses pecadores condenados a si mesmos - 'amei o conforto, o bem-estar e o luxo, as vestes finas, as joias preciosas e as mansões suntuosas. Para alcançar essas coisas, não hesitei em defraudar o meu próximo de todas as maneiras possíveis. Roubei meus patrões, prestei falsos juramentos, filiei-me a sociedades secretas, cheguei até a vender a minha própria virtude! Deixava de assistir à Santa Missa, comia carne nos dias proibidos, negligenciava os Sacramentos e fui ao ponto de renegar a minha fé. Contraí matrimônio diante de um magistrado civil ou de um ministro herege; contraí um matrimônio misto sem dispensa; obtive o divórcio e depois ousei violar as leis de Deus e da Igreja, casando-me novamente! Quis ser livre para fazer exatamente o que me agradava.

As leis de Deus e de Sua Igreja proibiam-me de frequentar ocasiões perigosas; mas desprezei essas leis porque queria divertir-me e satisfazer as minhas paixões, convivendo com pessoas e frequentando lugares que constituíam ocasião de pecado para mim. Assim, caí repetidas vezes em faltas, até mesmo nas mais vergonhosas.

Deus ordenava-me que fosse puro e casto, mas eu encontrava prazer em satisfazer as mais vis paixões de todas as maneiras possíveis, procurando toda ocasião favorável para isso. Quão criminosamente procedi ao negligenciar a educação religiosa de meus filhos, tornando-me assim causa da perdição de suas almas! Durante a vida, comprazia-me em ouvir e propagar maledicências, calúnias, conversas obscenas e até discursos ímpios. Gostava de ler romances imorais e de contemplar imagens e objetos indecentes. Enquanto vivi na terra, entreguei-me ao vício da embriaguez, abusando das bebidas fortes até degradar-me abaixo dos próprios animais e cometer inumeráveis crimes contra minha esposa, contra meus filhos e contra o meu próximo. Durante a vida, deleitava-me em blasfemar, praguejar, proferir terríveis juramentos e imprecações, em promover contendas, entregar-me ao jogo e praticar quase toda espécie de pecado.

E agora encontro-me encerrado na sombria prisão do inferno, em companhia de uma multidão incontável de malfeitores, assassinos e dos seres mais degradados que já existiram. Já não tenho um pai amoroso, um filho afetuoso, um amigo compassivo. Não! Todos os laços da amizade e da natureza foram para sempre rompidos, transformando-se para sempre em ódio diabólico. Todo espírito maligno, todo réprobo me insulta, me amaldiçoa, me atormenta e procura aumentar ainda mais os meus sofrimentos. Sou obrigado a suportar tudo isso porque, durante a vida, recusei-me a submeter-me à santa vontade de Deus. Eu poderia ter-me salvado com tanta facilidade, e agora estou perdido, perdido para sempre, e isso por minha própria culpa! Jamais verei a Deus; jamais gozarei das delícias do Céu; jamais serei libertado destes terríveis tormentos. Agora é tarde demais!'

Tudo isso, e muito mais, dirá aos condenados o verme da consciência, ferindo-os com censuras tão incessantes e impiedosas que quase os levará à loucura do desespero. Com efeito, os condenados urrarão e enfurecer-se-ão como possessos, lançando maldições contra si mesmos. Mas tudo será em vão; é tarde demais para o arrependimento. Esse terrível remorso nada fará para expiar os seus pecados; apenas aumentará a intensidade de seus sofrimentos.

Reflete sobre isso, ó pecador obstinado, que pecas com tanta audácia e, mesmo quando tua consciência te adverte, fechas os ouvidos às suas repreensões. Tem por certo que um dia a tua própria consciência será o teu carrasco e te atormentará com maior persistência do que os próprios demônios. Se desejas escapar dessa miséria sem fim, escuta agora a voz da tua consciência; segue os seus conselhos quando ela te manda evitar o mal e te exorta a praticar o bem.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

ἀληθινός

ἀληθής e ἀληθινός são palavras gregas comumente traduzidas com significado semelhante, no sentido de verdadeiro; real; genuíno; conforme a verdade ou fiel (em alguns contextos). A rigor, entretanto, há uma nuance de diferenciação fundamental entre ambas as palavras:

ἀληθής → significa verdadeiro em oposição ao falso; veraz, sincero, conforme os fatos.
ἀληθινός → significa verdadeiro no sentido de autêntico, perfeito, definitivo, em oposição ao que é apenas figurado ou aproximado.

Estas palavras aparecem diversas vezes no Novo Testamento, muitas vezes traduzidas do mesmo modo, mas são nos escritos de São João (Evangelho, Cartas, Apocalipse) que estas palavras se repetem várias vezes, e suas distinções são particularmente realçadas. Por exemplo:

Jo 3,33:
Aquele que recebe o seu testemunho confirma que Deus é verdadeiro [ὁ θεὸς ἀληθής ἐστιν] [verdadeiro, fiel]

Jo 5, 31:
Se eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro [ἡ μαρτυρία μου οὐκ ἔστιν ἀληθής] [verdadeiro, digno de aceitação]

Jo 17,3:
'Para que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro e aquele que enviaste, Jesus Cristo' [ἵνα γινώσκωσίν σε τὸν μόνον ἀληθινὸν Θεὸν, καὶ ὃν ἀπέστειλας Ἰησοῦν Χριστόν].

Por que João utiliza aqui o termo ἀληθινός (na verdade, sua flexão gramatical ἀληθινὸν)? Porque quer transmitir o sentido de que está falando do 'único Deus autêntico e verdadeiro, o único que é realmente Deus'.

Para João, ἀληθινός designa aquilo que é: autêntico; perfeito; definitivo; pleno da verdade e, no seu Evangelho, vai reproduzir sempre esse termo quando se refere sobre a verdadeira Luz (Jo 1,9); o verdadeiro Pão (Jo 6,32); a verdadeira Videira (Jo 15,1); o verdadeiro adorador (Jo 4,23); o verdadeiro Deus (Jo 17,3). É um vocabulário tipicamente joanino.

É imprescindível entender as nuances destas palavras gregas em contextos joaninos aparentemente similares. Quando Jesus fala em Jo 6,32: 'Em verdade, em verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu, mas o meu Pai é quem vos dá o verdadeiro pão [ὁ ἄρτος... ὁ ἀληθινός] do céu', está falando do pão único e autêntico pão que é Cristo (realidade definitiva) em contraste com o maná do deserto (mera figura do pão).

Mas, quando Jesus profere as palavras: 'Pois a minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue, verdadeiramente bebida' (Jo 6,55), João não usa nem ἀληθής e nem ἀληθινός, mas uma terceira forma da mesma família - ἀληθῶς - que é um advérbio, significando em verdade; de fato; verdadeiramente. Essa construção coloca a ênfase não na qualidade do alimento, mas na realidade da afirmação: a carne de Cristo é, de fato, alimento, e seu sangue é, de fato, bebida. A Presença Real na Eucaristia não é uma fantasia; é VERDADEIRAMENTE o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo que alimenta as nossas almas na Missa, para nos cobrir de bênçãos e graças e nos abrir desde agora as portas para a eterna felicidade no céu!

terça-feira, 4 de agosto de 2026

04 DE AGOSTO - SÃO JOÃO MARIA VIANNEY (CURA D'ARS)

    

A mais difícil, extraordinária e espantosa obra 
feita pelo Cura d’Ars foi a sua própria vida

Existem vidas extraordinárias entre os santos da Igreja. Mas poucas delas foram tão cingidas pela pequenez, pela humildade e pelo aniquilamento interior como a do pobre cura de Ars, São João Batista Maria Vianney (nascido em 08 de maio de 1786, em Dardilly, na França). Ordenado sacerdote em 1815, aquele que teria o dom extraordinário de ler consciências foi proibido inicialmente de atender confissões, 'porque não teria capacidade para guiar consciências'. Três anos depois, aceitou ser o vigário do minúsculo povoado de Ars, situado ao norte de Lyon, na época com pouco mais de 200 habitantes e nenhuma prática religiosa. Ali chegou em fevereiro de 1818, ali construiu uma santidade ímpar entre os padres da Igreja, ali se tornou um santuário de peregrinação de toda a Europa. Ali viveu incansavelmente a fadiga das confissões intermináveis (geralmente 17 horas diárias), da oração constante, da devoção incondicional à pequenez e à pobreza, até a sua morte, em 04 de agosto de 1859, aos 73 anos de idade. 

São João Batista Vianney foi canonizado em 1925 pelo Papa Pio XI e seu corpo incorrupto encontra-se depositado na igreja da paróquia de Ars. Foi proclamado Padroeiro dos Sacerdotes e no dia de sua morte, 4 de agosto, celebra-se o Dia do Padre

'Nós devemos nutrir um grande amor por todos os homens, pelos bons e pelos maus. Quem tem o amor não pode querer que alguém faça o mal, 
porque o amor perdoa tudo'

Corpo Incorrupto do Santo em Ars

Conta-se que, indo em direção a Ars, São João Batista Vianney perguntou a um menino a direção a seguir para se chegar ao povoado. Diante da orientação recebida, o santo respondeu a ele: 'já que você me ensinou o caminho para Ars, eu lhe ensinarei o caminho para o céu'. Que, no dia de hoje, os sacerdotes de Cristo reflitam sobre esta mensagem do Cura D'Ars e assumam incondicionalmente esse caminho de vida religiosa para a salvação de muitos homens.

FRASES DE SENDARIUM (LXXIX)

 

'Fazer a vontade de Deus é fazer o que Deus quer
 e querer o que Deus faz'

(Santo Afonso Maria de Ligório)

Senhor, não vos peço não ter tentações ou sofrimentos e nem que se cumpra as minhas humanas vontades, mas que o vosso propósito para mim se realize em plenitude em cada dia da minha vida. 

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

'POR QUE DEUS NOS CRIOU E O QUE ESPERA DE NÓS?'

1. Há dois modos de responder a essa pergunta, conforme a consideremos do ponto de vista de Deus ou do nosso. Considerando-a do ponto de vista de Deus, a resposta é: 'Deus nos fez para mostrar a sua bondade'. Posto que Ele é um Ser infinitamente perfeito, a principal razão pela qual faz alguma coisa deve ser uma razão infinitamente perfeita. Mas só há uma razão infinitamente perfeita para se fazer alguma coisa: é fazê-la por Deus. Por isso, seria indigno de Deus, contrário à sua infinita perfeição, que Ele fizesse alguma coisa por uma razão inferior a Si mesmo. 

2. A primeira razão, pois – a grande razão pela qual Deus fez o universo e nos fez a nós - foi a sua própria glória: para mostrar o seu poder e bondade infinitos. Seu infinito poder mostra-se pelo fato de existirmos. Sua infinita bondade, pelo fato de Ele nos querer fazer participar do seu amor e felicidade.

3. Do nosso ponto de vista à pergunta: 'Para que nos fez Deus?' dizemos que nos fez 'para participarmos da sua eterna felicidade no céu'. As duas respostas são como que as duas faces da mesma moeda, o anverso e o reverso: a bondade de Deus nos fez participar da sua felicidade e a nossa participação na sua felicidade mostra a bondade de Deus. 

4. Deus, que é infinitamente bom, não poria nos corações humanos esta ânsia de felicidade perfeita se não houvesse modo de satisfazê-la. Deus não tortura com a frustração as almas que criou. Mas, mesmo que as riquezas materiais ou espirituais desta vida pudessem satisfazer todos os desejos humanos, permaneceria a certeza de que um dia a morte nos tirará tudo – e a nossa felicidade seria incompleta. No céu, pelo contrário, não só seremos felizes com a máxima capacidade do nosso coração, mas teremos, além disso, a perfeição final da felicidade, por sabermos que nada no-la poderá arrebatar. 

5. Nunca se ressaltará bastante que a felicidade do céu consiste essencialmente na visão intelectual de Deus – na posse final e completa de Deus, a quem nesta terra desejamos e amamos debilmente e de longe. E se este há de ser o nosso destino - estarmos eternamente unidos a Deus pelo amor - disso se depreende que temos de começar a amá-lo aqui nesta vida. 

6. Deus não pode elevar à plenitude o que nem sequer existe. Se não há um princípio de amor de Deus em nosso coração, aqui, na terra, não pode haver a fruição do amor na eternidade. Para isso nos colocou Deus na Terra, para que, amando-o, estabeleçamos os alicerces necessários para a nossa felicidade no céu.

7. Só há uma maneira de provarmos o nosso amor a Deus: é fazer o que Ele quer que façamos, sendo o tipo de homem que Ele quer que sejamos. O amor a Deus não está nos sentimentos. Amar a Deus não significa que nosso coração deva dar saltos de cada vez que pensamos nEle. Algumas pessoas poderão sentir seu amor a Deus de modo emocional; mas não é isso o essencial. Porque o amor a Deus reside na vontade. Não é pelo que sentimos sobre Deus, mas pelo que estamos dispostos a fazer por Ele, que provamos o nosso amor a Deus.

(Excertos da obra 'A Fé Explicada', de Leo Trese)

domingo, 2 de agosto de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

                  

'Vós abris a vossa mão e saciais os vossos filhos' (Sl 144)

Primeira Leitura (Is 55,1-3) - Segunda Leitura (Rm 8,35.37-39) - Evangelho (Mt 14,13-21)

  02/08/2026 - DÉCIMO OITAVO DOMINGO DO TEMPO COMUM

CINCO PÃES E DOIS PEIXES



Depois da morte do Precursor João Batista, Jesus se dirige a um 'lugar deserto e afastado' (Mt 14, 13) para ficar a sós com os seus Apóstolos. Mas eis que uma grande multidão, uma esplêndida multidão, sai das cidades e vai a pé ao seu encontro. Tomado de amor e compaixão, Jesus abandona o seu intento de recolhimento e passa a atender toda aquela gente até 'ao entardecer' (Mt 14, 15). Famintos de Deus, a multidão agora está faminta de pão. E o Cordeiro de Deus há de saciá-los do pão da existência e prepará-los também para lhes dar alimento de vida eterna, na Santa Eucaristia.

Num primeiro momento, impõe-se a miserável condição humana, pouco afeita aos desafios e aos limites imponderáveis das graças divinas, expressa nas palavras de ansiedade e certa impaciência dos apóstolos: 'Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!' (Mt 14, 15). Neste cenário, pressupõe-se, na estrita percepção humana que, a partir daquele momento, cada um se virasse por conta própria; cada homem, mulher e criança daquela imensa multidão se preocupasse em arrumar o próprio alimento, nas imediações daquele lugar ou mais além.

Deus não nos abandona nunca; Deus não nos cria perspectivas de vida eterna pela insensibilidade de nossas necessidades humanas. Jesus vai dizer em outro momento que 'nem só de pão vive o homem'. Não só de pão, mas também de pão. E, para a incredulidade dos seus discípulos, ordena então: 'Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer! (Mt 14, 16). E, como em tudo o mais, Deus faz uso da graça como fruto da contrapartida humana; Jesus toma o que os homens têm ali a oferecer: cinco pães e dois peixes. Diante de oferta tão singela, vai realizar um dos seus mais portentosos milagres, que vai se configurar no prenúncio da partilha do seu Corpo e Sangue na Sagrada Eucaristia.

'Em seguida, partiu os pães e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às multidões' (Mt 14, 19). E os poucos pães e os poucos peixes se multiplicaram em muitos pães e em muitos peixes, que alimentaram com fartura a multidão, a ponto de serem recolhidos ainda doze cestos cheios (símbolo da partilha universal da graça divina) no final, pois Deus usa sempre da superabundância da graça para pagar o tributo da oferta sincera do homem. Este prodígio extraordinário é o prenúncio de outro milagre ainda maior que subsiste pelos tempos, a cada Santa Missa: na multiplicação das hóstias, o mesmo Deus é entregue aos homens na plenitude da graça, hoje, ontem e até a consumação dos séculos.