sábado, 4 de julho de 2026

AS VINHAS DE DEUS (II)

 

8. Como é possível que uma alma racional, tendo uma vez provado as delícias do amor divino, possa algum dia voltar-se voluntariamente para beber as amargas águas do pecado mortal? As crianças que são alimentadas com leite, manteiga e mel detestam o amargor do absinto e da orpina, e choram lastimosamente se são forçadas a prová-los. Como, então, ó verdadeiro Deus, pode uma alma que uma vez experimentou a bondade e o amor de seu Criador abandonar-vos para seguir as vaidades do mundo?

9. A mandrágora é um encanto, que enfeitiça os olhos e suaviza a dor, a tristeza e todas as nossas paixões por meio do sono. Contudo, aquele que lhe aspira o odor por muito tempo torna-se mudo, e aquele que dela bebe profundamente morre sem remédio... Poderiam o fausto, as riquezas e os deleites dos mundanos ser melhor representados? São belos e atraentes; mas quem come desses frutos, isto é, quem os examina cuidadosamente, descobrirá que são destituídos de gosto e de prazer. Não obstante, encantam e acalmam pelo seu vão perfume; e o apreço que os filhos do mundo lhes atribuem perturba aqueles que deles desfrutam em demasia ou neles se entregam com excessiva frequência. Ora, é por uma mandrágora como esta, por vagas sombras de contentamento, que abandonamos o amor de nosso Esposo celeste. E como podemos dizer que o amamos acima de todas as coisas, quando preferimos essas miseráveis vaidades à sua graça divina?

10. Podemos dizer que uma fé morta é como uma árvore seca, sem seiva nem vitalidade, e que, por isso, quando chega a primavera e as outras árvores produzem folhas e flores, permanece desnuda e sem fruto, porque lhe falta a seiva vivificante que corre em toda árvore que vive, ainda que possa parecer morta... Assim acontece com uma fé morta, que nunca pode produzir os frutos e as flores das boas obras, as quais uma fé viva produz em todos os tempos e estações. É, portanto, pelas obras da caridade que sabemos se a fé está viva, morta ou agonizante; e, quando ela não produz boas obras, dizemos que é uma fé morta; quando essas obras são poucas e débeis, dizemos que está morrendo; ao passo que, se, pelo contrário, são frequentes e fervorosas, dizemos que é uma fé viva. Ó quão verdadeiramente bela é esta fé viva!

11. Deveis certamente esforçar-vos por corrigir as vossa pequenas faltas, porque o melhor momento para combatê-las é enquanto ainda são pequenas; pois, se esperardes que cresçam, será mais difícil vencê-las. É fácil desviar o curso de um rio junto à sua nascente, quando ele ainda é apenas um pequeno regato; mas, mais adiante, ele há de zombar dos vossos esforços. 

12. Como é possível que, tendo eu uma vontade tão grande de amar a Deus, tantas imperfeições apareçam e cresçam dentro de mim? Elas não procedem da minha própria vontade, nem são queridas por minha vontade; não, certamente que não! Nascem, parece-me, como o visco que cresce sobre a árvore, mas não faz parte da árvore.

13. O lírio não tem uma estação determinada, mas floresce mais cedo ou mais tarde, conforme a profundidade da terra em que é plantado. Pois, se for plantado apenas à profundidade de três dedos, floresce imediatamente; mas, se for plantado a seis ou nove dedos de profundidade, florescerá tanto mais tarde quanto maior for essa profundidade. Do mesmo modo, se uma alma que deseja amar a Deus estiver profundamente mergulhada nos negócios do mundo, levará muito tempo para florescer. Mas, se viver no mundo apenas na medida em que o seu estado de vida o exigir, então a vereis produzir belas flores e espalhar ao seu redor um suave perfume.

14. Como acontece que, na primavera, os cães perdem o faro e o rastro de um animal com mais facilidade do que em qualquer outra época do ano? Caçadores e filósofos dizem que isso se deve ao fato de que, nessa estação, as ervas e as flores estão em pleno florescimento, e a variedade de seus perfumes embota de tal modo os sentidos dos cães, que eles já não conseguem distinguir entre o perfume das flores e o cheiro da presa. Do mesmo modo, as almas que estão continuamente cheias de desejos, planos e projetos mundanos jamais suspiram pelo amor divino e celestial, nem conseguem seguir as pegadas amorosas do Amor Divino.

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 2, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

sexta-feira, 3 de julho de 2026

O MARTÍRIO DO PAPA SÃO SIXTO II

Era o ano de 258. O imperador Valeriano, cedendo à pressão dos clamores fanáticos levantados contra os cristãos - inflamados pelas desgraças que então afligiam o Império - renovara, no ano anterior, a perseguição à Igreja com severidade ainda maior do que a exercida por Décio.

Pela primeira vez, a santidade dos túmulos deixava de ser refúgio para os perseguidos seguidores de Jesus. O decreto imperial de 257 proibia aos cristãos frequentarem aquilo que os pagãos chamavam de seus 'cemitérios'. Mas o preceito apostólico de 'não abandonar as assembleias' (Hb 10,25) constituía uma lei superior ao édito do imperador; por isso, nas estreitas capelas subterrâneas das Catacumbas, os fiéis continuavam a assistir ao Santo Sacrifício da Missa.

Os agentes do imperador vigiavam cuidadosamente as entradas dos principais cemitérios. O grande cemitério de São Calisto era, naturalmente, o principal objeto de sua vigilância. Por essa razão, no dia 6 de agosto, o santo Pontífice Sisto II escolheu o cemitério de São Pretextato como o lugar onde celebraria os Sagrados Mistérios.

Era esse um local já santificado por mais de um século de recordações sagradas. Ali repousava o tribuno São Quirino, que sofrera o martírio pela fé no tempo do imperador Adriano. Ali a nobre Marmênia construíra uma câmara subterrânea abobadada, onde depositara os preciosos restos de São Januário, o primogênito dos sete filhos mártires de Santa Felicidade, cuja inscrição funerária, composta pelo Papa São Dâmaso, só veio a ser descoberta nos tempos mais recentes.

Ali também haviam sido sepultados Valeriano, esposo mártir de Santa Cecília, juntamente com seu irmão Tibúrcio e Máximo, companheiro de ambos no martírio. Pouco depois, seria igualmente sepultado numa das capelas dessa mesma catacumba o santo bispo Urbano, que justamente naquele lugar os instruíra na fé.

E agora uma procissão de futuros mártires avança pelo corredor excepcionalmente amplo desse antigo cemitério. O mais venerado santuário desse cemitério era o túmulo de São Januário; e é para lá, ao que tudo indica, que a procissão se dirige. Os diáconos Felicíssimo e Agapito preparam o altar, enquanto o arquidiácono Lourenço permanece junto do venerável Pontífice, pronto para servi-lo em tudo. Destacado por sua viril formosura e ardentemente amado por todos os pobres e aflitos entre os fiéis, o arquidiácono, de traços nobres e delicadamente esculpidos, parecia irradiar uma incomum auréola de santidade enquanto ajudava o Papa a revestir-se dos paramentos sagrados e a dar início ao Santo Sacrifício.

A Missa prossegue. Os fiéis já receberam das mãos de Sisto o Pão do Céu. Em seguida, o Pontífice, rodeado pelos seus diáconos, toma assento na cátedra de pedra junto ao altar e começa a dirigir a palavra aos presentes. De repente, ouve-se ao longe um grito de alarme. O estrépito das armas e o tropel de numerosos passos ecoam rapidamente pelo corredor subterrâneo. Aqueles que não conseguem fugir encontram coragem na serenidade imperturbável dos ministros sagrados, enquanto seus corações se fortalecem pelas palavras quase inspiradas do Pontífice.

Um traidor conduzira os sicários de Valeriano aos recessos da Catacumba; e ali eles prenderam os sete diáconos e puseram mãos sacrílegas sobre a pessoa sagrada do Vigário de Cristo. O santo Pontífice suplicou-lhes que lhe tirassem a vida, mas poupassem o seu rebanho: 'Se é a mim que procurais, deixai que estes se retirem em paz'. Quando chegaram à cidade, os guardas encarregados de São Lourenço prepararam-se para separá-lo dos demais. Então, pela primeira vez, um amargo clamor de dor brotou de seu coração. Parecia-lhe que a gloriosa coroa do martírio estava prestes a ser-lhe arrebatada e que somente ele, entre os diáconos de Roma, ficaria privado da honra de acompanhar seu amado Pontífice no supremo sacrifício. 

Exclamou então, dirigindo-se a São Sisto: 'Pai, para onde ides sem vosso filho? Para onde ides, ó sacerdote, sem vosso diácono? Nunca costumastes oferecer o Sacrifício sem que eu vos assistisse como ministro. Em que vos desagradei? Em que faltei ao meu dever? Ponde-me agora à prova e vede se escolhestes um ministro indigno de distribuir o Sangue do Senhor'.

São Sisto, profundamente comovido pelo apelo daquele nobre jovem, consolou-o com palavras que revelavam o quanto conhecia e estimava o caráter de seu dileto arquidiácono: 'Não te deixo, meu filho. Uma prova maior e uma vitória mais gloriosa estão reservadas para ti, que és forte e te encontras no vigor da juventude. Nós somos poupados às torturas por causa de nossa fraqueza e da nossa idade. Dentro de três dias, tu me seguirás' [São Lourenço foi queimado vivo sobre uma grelha]. 

Em seguida, confiou reservadamente ao arquidiácono a missão de distribuir entre os pobres todos os tesouros da Igreja, inclusive os cálices de ouro e os candelabros de prata que haviam despertado a cobiça do prefeito. Logo depois, Sisto foi conduzido perante os juízes e condenado à morte por haver desobedecido ao édito do imperador. E, para tornar ainda mais solene e intimidatória a proibição de frequentar as Catacumbas, determinou-se que Sisto e quatro de seus diáconos fossem executados precisamente na capela onde haviam sido presos.

Mais uma vez o cemitério de São Pretextato ressoou com o tropel de homens armados. Mais uma vez os fiéis acorreram timidamente à entrada da capela subterrânea, que permanecia exatamente como fora deixada quando o sermão de São Sisto havia sido tão brutalmente interrompido. Mas São Lourenço já não estava ao lado do Pontífice. Preparava-se para o seu próprio e glorioso martírio. O venerável Papa foi colocado à força em sua cátedra episcopal, e um soldado decepou-lhe a cabeça, de modo que a cadeira ficou tingida pelo seu sangue. Felicíssimo, Agapito e outros dois diáconos receberam, ao mesmo tempo, a coroa do martírio. Mais tarde, os fiéis lhes deram sepultura na capela de São Januário.

Os preciosos despojos de São Sisto foram, durante a escuridão da noite, transportados com profunda veneração para o vizinho cemitério de São Calisto, onde foram depositados no lugar de maior honra da cripta, junto aos muitos Papas mártires que ali já repousavam. O reboco que revestia a entrada dessa cripta papal conserva numerosas inscrições (graffiti) deixadas pelos peregrinos dos séculos III e IV. Entre todos os nomes ali invocados, nenhum aparece com tanta frequência quanto o de São Sisto II.

Eis um exemplo: Sancte Sixte in mente habeas in orationes Aureliu Repentinu - São Sisto, lembrai-vos em vossas orações de Aurélio Repentino. Esse simples pedido gravado na parede da catacumba testemunha a fé dos primeiros cristãos na intercessão dos santos e a profunda veneração de que gozava o Papa mártir poucas gerações após o seu sacrifício.

No reboco de um lóculo escavado no arco acima da pedra do altar, na capela de São Januário, provavelmente datado da época de São Dâmaso, ainda hoje se pode ler uma singela inscrição: 'Januário, Felicíssimo e Agapito, concedei refrigério* à alma de...' - seguindo-se o nome, hoje perdido, da pessoa ali sepultada.

(Excertos da obra Legends of the Blessed Sacrament, de Emily Mary Shapcote, 1877)

* O termo 'refrigério' traduz o antigo pedido cristão refrigerare animam, muito frequente nas inscrições funerárias das catacumbas. 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (128/132)

 

128. INCIDENTE NUMA PROCISSÃO

Em Stuttgart (Alemanha), por ocasião da procissão de Corpus Christi, deu-se, faz alguns anos, o seguinte incidente.

Num dos pontos de espera estavam agrupados numerosos espectadores, quase todos protestantes, o que não é de admirar naquela cidade. A ponta da procissão estava a chegar, quando um senhor, metendo-se pelo meio da multidão, foi colocar-se diante de uma senhora de modo que ela não podia ver nada. Zangada, ela exigiu que ele saísse de sua frente. Mas o importuno negou-se, dizendo: 'Sou católico, portanto, tenho o direito de colocar-me na frente para ver passar a procissão dos católicos'.

A dama, sem se desconcertar, replicou: 'Como? O senhor é católico? Então o seu lugar não é aqui. Nós, protestantes, assistimos à procissão, mas vós, católicos, deveis acompanhá-la'. E tanta razão tinha aquela senhora que, nem bem acabara de falar, e o intruso já havia desaparecido.

129. COM DEUS NÃO SE BRINCA

Fazia 120 anos que, em Messina (Itália), não se verificava nenhum terremoto. Os habitantes daquela cidade, não obstante as advertências de pessoas competentes, haviam construído prédios de vários andares, pois julgavam-se muito seguros. Mas eis o que aconteceu.

No Natal de 1908, um jornal socialista local atreveu-se a interpelar ironicamente o Menino Jesus, escrevendo: 'Jesusinho, envia-nos um tremor de terra, se tens força para tanto'. Essa blasfêmia apareceu no dia 26 de dezembro. No dia 28, verificou-se uma catástrofe, como a cidade jamais vira outra semelhante. Em poucos minutos, 60.000 pessoas, isto é, um terço da população, perderam a vida. Irrompeu, além disso, um pavoroso incêndio que destruiu ou danificou quase todas as casas. Assim Deus castigou aquela blasfêmia.

130. MÚSICA DO PARAÍSO

1. Lê-se na vida de Madre Maria de Jesus que ela, com permissão do seu Diretor, confeccionara uma quantidade de disciplinas, cilícios e cintos de penitência, dos quais se servia com tal discrição, que nunca ninguém o descobrira. Uma noite, porém, flagelou-se com tanta violência, que uma irmã ouviu o rumor de seu quarto vizinho, e logo compreendeu de que se tratava, pois também essa piedosa jovem conhecia praticamente a disciplina.

2. Das filhas de Carlos Emanuel I de Saboia, as princesas Maria e Catarina, conta-se que a miúdo se flagelavam com espantosas disciplinas. O que mais se deve admirar, entretanto, é que o rei, tendo notícia disso, não só não lhes proibiu, mas até o aprovou. Um dia, passando junto ao quarto das filhas e ouvindo os golpes da disciplina, disse aos que o acompanhavam: 'Estais ouvindo esta música? Esta é a melodia que mais agrada às minhas filhas. Música verdadeiramente do Paraíso, porque feita de suspiros e com batutas de flagelos, que forma notas de sangue e abre as portas do céu'.

131. DEIXE-ME TOCAR UM POUCO

Numa reunião de cavalheiros e damas figurava, entre outros, o senhor P. Ruf, vigário de Lustenau, notável por sua agudeza de espírito. Eis que, de repente, aparece na sala um velho pobre e cego, conduzido por um seu netinho e começa a tocar sua harpa e a cantar. Os ouvintes notaram que o instrumento estava desafinado e, além disso, a voz do velho era pouco agradável, razão por que estavam na iminência de enxotá-lo da sala. Nesse instante, o vigário Ruf, acercando-se do cego músico, disse-lhe com carinho:
➖ Bom velho, o senhor está bastante cansado, dê-me a sua harpa e deixe-me tocar um pouco.

O vigário sentou-se numa cadeira, afinou o instrumento e começou a cantar uma belíssima ária, acompanhando-a com a harpa. Os presentes, mormente os que nunca o tinham ouvido, estavam cheios de admiração e espanto. O talento do novo tocador ressaltava ainda mais após os sons desagradáveis que pouco antes tinham ouvido. Terminada a ária, choveram os aplausos e pediram ao vigário que cantasse mais uma ária.
➖ Com muito prazer - respondeu ele - mas o senhor, disse, dirigindo-se ao velho, vá recolhendo os donativos.

O cego, conduzido pelo neto, fez o giro pela sala com o chapéu na mão. As moedas de prata caíam abundantes no chapéu e o velho estava comovido e com água nos olhos.
➖ Olha, vovô, nem durante todo o mês  ajuntamos tanta esmola como hoje - dizia o netinho.
Ambos, avô e neto, não se cansavam de agradecer as ricas ofertas que receberam e beijavam afetuosamente a mão do bom vigário. Quanto aos circunstantes, não houve um que não elogiasse o talento do vigário Ruf e mais ainda o nobre uso que soube fazer dele.

132. UMA BOA AÇÃO FAZ MUITO BEM

Um dia, um estudante universitário encontrou num bosque perto de Viena uma pobre velha, que, curvada sob o peso de um feixe de lenha, ia caminhando com muita dificuldade.
➖ Boa velhinha - disse o estudante - deixe-me carregar um pouco o seu feixe de lenha.

E, tomando o feixe, levou-o até a casa da pobre velha, a qual, muito comovida com a bondade do moço, perguntou-lhe:
➖ E, agora, meu senhor, quanto lhe devo?
➖ Reze por mim um Pai-Nosso, boa velhinha - foi a resposta.
➖ Sim, sim, eu o farei - respondeu ela - e esse é o primeiro Pai-Nosso que vou rezar, depois de uns 20 anos! 
Não se espante, meu senhor, as minhas contínuas desventuras, os desprezos recebidos de tanta gente, haviam-me afastado de Deus, mas o senhor, com a sua caridade, tocou-me o coração e me fez começar de novo a rezar.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

quarta-feira, 1 de julho de 2026

GALERIA DE ARTE SACRA (XLVI)

Os vitrais e as rosáceas constituem um dos elementos mais característicos da arquitetura gótica medieval. As rosáceas são grandes janelas circulares preenchidas por delicados rendilhados de pedra com vitrais. Muito além de elementos de decoração, expressam a fé católica por meio da luz transmitida que assume a cor dos vidros coloridos. Nas palavras de São Bernardo de Claraval: 'Assim como um raio de luz branca entra numa janela de vidro e sai ileso, mas adquire a cor do vidro, o Filho de Deus, que entrou no ventre castíssimo da Virgem, saiu puro, mas assumiu a cor da Virgem, isto é, a natureza de um homem e a formosura da forma humana, e revestiu-se dela'. As rosáceas das grandes catedrais francesas expressam magistralmente a beleza desta comparação.  

(rosácea norte da Catedral de Chartres)

(rosácea norte da Catedral de Chartres)

(rosácea norte da Catedral de Notre-Dame)

(rosácea da Catedral de Estraburgo)

(rosácea ocidental da Catedral de Amiens)

(rosácea ocidental da Catedral de Laon)

(rosácea ocidental da Catedral de Reims)

terça-feira, 30 de junho de 2026

A SÓS COM DEUS (II)


Jesus me disse: Eu sou a Vida e quero dá-la a ti; e conduz-me à sua morada para que viva nEle mesmo e participe dessa vida divina, cada vez mais intensa, tornando-me por ela, de certo modo, participante da natureza divina. Não é soberba, ó meu Deus, nem presunção, nem temerário atrevimento deste pobre coração pensar assim, desejar e esperar viver da vossa própria vida ainda neste exílio. 

Seria soberba incompreensível, se tal pensamento tivesse brotado de mim; mas fostes Vós quem me ensinastes como Pai e quem me ordenastes. Quero, humilde e obediente, seguir-vos; quero, submisso e fiel, oferecer-me inteiramente à vossa santa vontade e, por ela, alcançar tão grande felicidade.

Certamente, este viver em Deus não é fácil, nem sequer possível às nossas pequenas forças. Grandes obstáculos tendem a nos dificultar e o principal obstáculo somos nós mesmos; somos nós que os erguemos.

Para que este belo ideal e desejo de viver em Deus se realize em mim, e para que eu possa receber em plenitude a vida de Deus, é necessário que antes faça desaparecer todos os obstáculos, destrua e arranque tudo quanto em mim é miséria moral, fraqueza e maldade; é preciso por fim ao meu amor-próprio, reconhecer a minha impotência e compreender que é somente Deus - exigindo, contudo, a minha cooperação - quem me comunica a sua vida e a sua santidade. Somente negando-me deste modo e permanecendo vigilante, cheio de esperança em Deus, preparar-me-ei para receber a beleza que Deus deseja comunicar-me.

Ó meu Deus, que quereis dar-me a vossa própria vida! Fazei que eu me prepare para recebê-la, que eu a peça e vos manifeste o meu desejo de a possuir. Fazei que eu a queira de verdade; que queira eficazmente; que queira com humildade e com uma vontade firme e resoluta. Mas, por muito que eu o queira, será possível que eu possa participar da vida de Deus? Essa Vida está acima das minhas forças; porém Deus é meu Pai e me diz por Jesus Cristo: 'Quero que sejas um comigo; quero comunicar-te a minha vida. Não ponhas obstáculos; deixa-te reduzir ao nada de ti mesmo para que Eu possa dar-te a verdadeira vida'.

[Excertos da obra 'Com Dios a Solas - Un Carmelita Descalzo', do Pe. Valentin de San Jose (1896 - 1989)]

segunda-feira, 29 de junho de 2026

29 DE JUNHO - FESTA DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO

  

'Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo' (Mt 16,16)

'Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé' (II Tm 4,7)

Excertos da Homilia do Papa João Paulo II, na Solenidade de São Pedro e São Paulo, em 29/06/2000

1.'E vós, quem dizeis que Eu sou?' (Mt 16, 15). Jesus dirige aos discípulos esta pergunta acerca da sua identidade, enquanto se encontra com eles na Alta Galileia. Muitas vezes acontecera que foram eles a interrogar Jesus; agora é Ele quem os interpela. A sua pergunta é específica e espera uma resposta. Simão Pedro toma a palavra em nome de todos: 'Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo' (Mt 16, 16). A resposta é extraordinariamente lúcida. Nela se reflete de modo perfeito a fé da Igreja. Nela nos refletimos também nós. De modo particular, reflete-se nas palavras de Pedro, o Bispo de Roma, por vontade divina o seu indigno sucessor.

2. 'Tu és o Cristo!'. À confissão de Pedro, Jesus replica: 'És feliz, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne nem o sangue quem to revelou, mas o Meu Pai que está nos céus' (Mt 16, 17).

És feliz, Pedro! Feliz, porque esta verdade, que é central na fé da Igreja, não podia emergir na tua consciência de homem, senão por obra de Deus. 'Ninguém', disse Jesus, 'conhece o Filho senão o Pai, como ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar' (Mt 11, 27). Reflitamos sobre esta página evangélica particularmente densa: o Verbo encarnado revelara o Pai aos seus discípulos; agora é o momento em que o próprio Pai lhes revela o seu Filho unigênito. Pedro acolhe a iluminação interior e proclama com coragem: 'Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo!'

Estas palavras nos lábios de Pedro provêm do profundo do mistério de Deus. Revelam a verdade íntima, a própria vida de Deus. E Pedro, sob a ação do Espírito divino, torna-se testemunha e confessor desta soberana verdade. A sua profissão de fé constitui assim a sólida base da fé da Igreja: 'Sobre ti edificarei a minha Igreja' (Mt 16, 18). Sobre a fé e a fidelidade de Pedro está edificada a Igreja de Cristo.

3. 'O Senhor assistiu-me e deu-me forças a fim de que a palavra fosse anunciada por mim e os gentios a ouvissem' (2 Tm 4, 17). São palavras de Paulo ao fiel discípulo Timóteo: escutamo-las na Segunda Leitura. Elas dão testemunho da obra nele realizada pelo Senhor, que o tinha escolhido como ministro do Evangelho, 'alcançando-o' na via de Damasco (Fl 3, 12). Envolvido numa luz fulgurante, o Senhor se lhe havia apresentado, dizendo:  'Saulo, Saulo, por que Me persegues?' (At 9,4), enquanto uma força misteriosa o lançava por terra.

'Quem és Tu, Senhor?', perguntara Saulo. 'Eu sou Jesus, a quem tu persegues!'. Foi esta a resposta de Cristo. Saulo perseguia os seguidores de Jesus e Jesus fez-lhe tomar consciência de que era Ele mesmo a ser perseguido neles. Ele, Jesus de Nazaré, o Crucificado, que os cristãos afirmavam ter ressuscitado. De Damasco, Paulo iniciará o seu itinerário apostólico, que o levará a defender o Evangelho em tantas partes do mundo então conhecido. O seu impulso missionário contribuirá assim para a realização do mandato de Cristo aos Apóstolos: 'Ide, pois, ensinai todas as nações...' (Mt 28, 19).

4. Caríssimos Irmãos no Episcopado vindos para receber o Pálio, a vossa presença põe em eloquente ressalto a dimensão universal da Igreja, que derivou do mandato do Senhor: 'Ide... ensinai a todas as nações' (Mt 28, 19). Todas as vezes que vestirdes estes pálios, recordai, irmãos caríssimos que, como pastores, somos chamados a salvaguardar a pureza do Evangelho e a unidade da Igreja de Cristo, fundada sobre a 'rocha' da fé de Pedro. A isto nos chama o Senhor; esta é a nossa irrenunciável missão de guias previdentes do rebanho que o Senhor nos confiou.

5. A plena unidade da Igreja! Sinto ressoar em mim a recomendação de Cristo. Deus nos conceda chegarmos quanto antes à plena unidade de todos os crentes em Cristo. Obtenhamos este dom dos Apóstolos Pedro e Paulo, que a Igreja de Roma recorda neste dia, no qual se faz memória do seu martírio e, por isso, do seu nascimento para a vida em Deus. Por causa do Evangelho, eles aceitaram sofrer e morrer e se tornaram partícipes da ressurreição do Senhor. A sua fé, confirmada pelo martírio, é a mesma fé de Maria, a Mãe dos crentes, dos Apóstolos,  dos Santos  e Santas de  todos  os séculos.

Hoje a Igreja proclama de novo a sua fé. É a nossa fé, a imutável fé da Igreja em Jesus, único Salvador do mundo; em Cristo, o Filho de Deus vivo, morto e ressuscitado por nós e para a humanidade inteira.

São Pedro e São Paulo, rogai por nós! 

domingo, 28 de junho de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

              

'De todos os temores me livrou o Senhor Deus' (Sl 33)

Primeira Leitura (At 12,1-11) - Segunda Leitura (2Tm 4,6-8.17-18) - Evangelho (Mt 16,13-19)

  28/06/2026 - SOLENIDADE DOS APÓSTOLOS SÃO PEDRO E SÃO PAULO

AS COLUNAS DA IGREJA

Neste domingo, a liturgia católica celebra a Solenidade dos Apóstolos São Pedro e São Paulo, primícias da fé, fundamentos da Igreja. De toda a fundamentação bíblica do primado de Pedro, é em Mt 16, 18-19 que aflora, mais cristalina do que nunca, a água viva que brota e transborda das Palavras Divinas as primícias do papado e da Igreja, nascidos juntos com São Pedro: 'Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la' (Mt 16, 18). Esta será a Igreja Militante, a Igreja Temporal, A Igreja da terra, obra temporária a caminho da Igreja Eterna do Céu. Mas ligada a Pedro e aos sucessores de Pedro, sumos pontífices herdeiros da glória, poder e realeza de Cristo.

(Cristo entrega as chaves a São Pedro - Basílica de Paray-le-Monial, França)

E Jesus vai declarar, em seguida e sem condicionantes, o poder universal e sobrenatural da Santa Igreja Católica Apostólica e Romana: 'Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado nos céus' (Mt 16, 19). Ligado ou desligado. Poder absoluto, domínio universal, primado da verdade, Cátedra de Pedro. Na terra árida de algum ermo qualquer da 'Cesareia de Felipe', erigiu-se naquele dia, pela Vontade Divina, nas sementeiras da humanidade pecadora, a Santa Igreja, a Videira Eterna.

Com São Paulo, a Igreja que nasce, nasce com um gigante do apostolado e se afirma como escola de salvação universal. Eis aí a síntese do espírito cristão levado à plenitude da graça: Paulo se fez 'outro Cristo' em Roma, na Grécia, entre os gentios do mundo. No apostolado cristão de São Paulo, está o apostolado cristão de todos os tempos; a síntese da cristandade nasceu, cresceu e se moldou nos acordes pautados em suas epístolas singulares proferidas aos Tessalonicenses, em Éfeso ou em Corinto. Síntese de fé, que será expressa pelas próprias palavras de São Paulo: 'Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé' (2Tm 4,7).

(São Paulo Apóstolo - Basílica de Alba, Itália)

São Pedro foi o patriarca dos bispos de Roma, São Paulo foi o patriarca do apostolado cristão. Homens de fé e coragem extremadas, foram as colunas da Igreja. São Pedro morreu na cruz, São Paulo morreu por decapitação pela espada. Mártires, percorreram ambos os mesmos passos da Paixão do Senhor. E se ergueram juntos na Glória de Deus pela Ressurreição de Cristo.