quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

31 DE JANEIRO - SÃO JOÃO BOSCO

  


Filho de uma humilde família de camponeses, São João (Melchior) Bosco nasceu em Colle dos Becchi, localidade próxima a Castelnuovo de Asti em 16 de agosto de 1815. Órfão de pai aos dois anos, viveu de ofícios diversos na pobreza da infância e da juventude, até ser ordenado sacerdote em 5 de junho de 1841, com a missão apostólica de servir, educar e catequizar os jovens, o que fez com extremado zelo e santificação durante toda a sua vida.

Em 1846, fundou o Oratório de São Francisco de Sales em Turim, dando início à sua obra prodigiosa, arregimentando colaboradores e filhos, aos quais chamava de salesianos, em meio a um intenso e profícuo apostolado. Em 1859, fundou  a Congregação Salesiana e, em 1872, com a ajuda de Santa Maria Domingas Mazzarello, fundou o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora para a educação da juventude feminina. Em 1875, enviou a primeira turma de seus missionários para a América do Sul. No Brasil, as primeiras casas salesianas foram o Colégio Santa Rosa em Niterói e o Liceu Coração de Jesus em São Paulo. 

Faleceu a 31 de janeiro de 1888 em Turim, aos 72 anos, deixando como herança cristã a Congregação Religiosa Salesiana espalhada por diversos países da Europa e das Américas. O Papa Pio XI, que o conheceu e gozou da sua amizade, canonizou-o na Páscoa de 1934. Popularizado como 'Dom Bosco', foi aclamado pelo Papa João Paulo II como 'pai e mestre da juventude' e se tornaram lendários os seus sonhos proféticos (exemplo abaixo), que ele narrava em suas pregações aos jovens salesianos.

A BIGORNA E O MARTELO

Em 20 de agosto de 1862, depois de rezadas as orações da noite e de dar alguns avisos relacionados com a ordem da casa, Dom Bosco disse: 'Quero contar-lhes um sonho que tive faz algumas noites'.

Sonhei que estava em companhia de todos os jovens em Castelnuovo do Asti, na casa de meu irmão. Enquanto todos faziam recreio, dirigiu-se a mim um desconhecido e convidou-me a acompanhá-lo. Segui-o e ele me conduziu a um prado próximo ao pátio e ali indicou-me, entre a erva, uma enorme serpente de sete ou oito metros de comprimento e grossura extraordinária. Horrorizado ao contemplá-la, quis fugir.

— 'Não, não' — disse-me meu acompanhante — 'não fujas; vem comigo'.
 'Ah!' — exclamei — 'não sou tão néscio para me expor a um tal perigo'.
— 'Então' — continuou meu acompanhante —'aguarda aqui'.
E, em seguida, foi em busca de uma corda e com ela na mão voltou novamente junto a mim e disse-me:
— 'Tome esta corda por uma ponta e agarre-a bem; eu agarrarei o outro extremo e por-me-ei na parte oposta e, assim, a manteremos suspensa sobre a serpente'.
— 'E depois?'
— 'Depois a deixaremos cair sobre a espinha dorsal'.
— 'Ah! não; por caridade. Pois ai de nós se o fizermos! A serpente saltará enfurecida e nos despedaçará'.
— 'Não, não; confie em mim' — acrescentou o desconhecido —'eu sei o que faço'.
— 'De maneira nenhuma; não quero fazer uma experiência que pode-me custar a vida'.

E já me dispunha a fugir, quando o homem insistiu de novo, assegurando-me que não havia nada que temer; e tanto me disse que fiquei onde estava, disposto a fazer o que me dizia. Ele, entretanto, passou do outro lado do monstro, levantou a corda e com ela deu uma chicotada sobre o lombo do animal. A serpente deu um salto voltando a cabeça para trás para morder ao objeto que a tinha ferido, mas em lugar de cravar os dentes na corda, ficou enlaçada nela mediante um nó corrediço. Então o desconhecido gritou-me:

— 'Agarre bem a corda, agarre-a bem, que não se lhe escape'.

E correu a uma pereira que havia ali perto e atou a seu tronco o extremo que tinha na mão; correu depois para mim, agarrou a outra ponta e foi amarrá-la à grade de uma janela. Enquanto isso, a serpente agitava-se, movia-se em espirais e dava tais golpes com a cabeça e com sua calda no chão, que suas carnes rompiam-se saltando em pedaços a grande distancia. Assim continuou enquanto teve vida; e, uma vez morta, só ficou dela o esqueleto descascado e sem carne. Então, aquele mesmo homem desatou a corda da árvore e da janela, recolheu-a, formou com ela um novelo e disse-me:

— 'Presta atenção!'

Colocou a corda em uma caixa, fechou-a e depois de uns momentos a abriu. Os jovens tinham-se ajuntado ao ao meu redor. Olhamos o interior da caixa e ficamos maravilhados. A corda estava disposta de tal maneira, que formava as palavras: Ave Maria!

— 'Mas como é possível?' — disse — 'Você colocou a corda na caixa e agora ela aparece dessa maneira!'.

— 'Olhe' — disse ele — 'a serpente representa o demônio e a corda é a Ave Maria, ou melhor, o Santo Rosário, que é uma série de Ave Marias com a qual e com as quais se pode derrubar, vencer e destruir todos os demônios do inferno.

Enquanto falávamos sobre o significado da corda e da serpente, voltei-me para trás e vi alguns jovens que, agarrando os pedaços da carne da serpente, os comiam. Então gritei-lhes imediatamente:

— 'Mas o que é o que fazem? Estão loucos? Não sabem que essa carne é venenosa e que far-lhes-á muito dano?'

'Não, não' — respondiam-me os jovens — 'a carne está muito boa'.

Mas, depois de havê-la comido, caíam ao chão, inchavam-se e tornavam-se duros como uma pedra. Eu não podia ficar em paz porque, apesar daquele espetáculo, cada vez era maior o número de jovens que comiam aquelas carnes. Eu gritava a um e a outro; dava bofetadas a este, um murro naquele, tentando impedir que comessem; mas era inútil. Aqui caía um, enquanto que lá começava a comer outro. Então chamei os clérigos em meu auxílio e disse-lhes que se mesclassem entre os jovens e se organizassem de maneira que ninguém comesse aquela carne. Minha ordem não teve o efeito desejado, pois alguns dos clérigos começaram também a comer as carnes da serpente, caindo ao chão como os outros. Eu estava fora de mim quando vi a meu redor um grande número de moços estendidos pelo chão no mais miserável dos estados. Voltei-me, então, para desconhecido e disse-lhe:

— 'Mas o que quer dizer isto? Estes jovens sabem que esta carne ocasiona-lhes a morte e, contudo, a comem. Qual é a causa?'

Ele respondeu-me: ' Já sabes que animalis homo non percipit ea quae Dei sunt: Alguns homens não percebem as coisas que são de Deus'.

— 'Mas não há remédio para que estes jovens voltem em si?'

— 'Sim, há'.

— 'E qual seria?'

— 'Não há outro que não seja pela bigorna e pelo martelo'.

— 'Bigorna? Martelo? E como terei que empregá-los?'

— 'Terás que submeter os jovens à ação de ambos estes instrumentos'.

— 'Como? Acaso devo colocá-los sobre a bigorna e golpeá-los com o martelo?'

Então meu companheiro me esclareceu, dizendo:

— 'O martelo significa a Confissão e a bigorna, a Comunhão; é necessário fazer uso destes dois meios'.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

SOBRE OS GRAUS DE CERTEZA TEOLÓGICA


1. O mais elevado grau de assertividade é dado às verdades que são imediatamente reveladas. O assentimento de fé a elas reside na própria autoridade de Deus revelador (fides divina) e quando a Igreja garante, pela sua proclamação, que elas estão contidas na revelação, então essas verdades são também apoiadas pela autoridade do magistério infalível da Igreja (fides catholica). Quando são propostas por meio de uma definição solene do Papa ou de um Concílio Universal, então são verdades de fé definitiva (de fide definita).

2 - As verdades católicas ou doutrinas eclesiásticas sobre as quais o magistério infalível da Igreja se pronunciou definitivamente devem ser admitidas com um assentimento de fé que se apoia unicamente na autoridade da Igreja (de fide ecclesiastica). A certeza destas verdades é infalível como a dos próprios dogmas.

3. A verdade próxima da fé (fidei proxima) constitui uma doutrina quase universalmente considerada pelos teólogos como verdade revelada, mas que a Igreja ainda não declarou como tal de modo definitivo.

4. Uma sentença próxima da fé ou teologicamente certa (ad fidem pertinens vel theologice certa) é uma doutrina sobre a qual o magistério eclesiástico ainda não se pronunciou definitivamente, mas cuja verdade é garantida pela sua íntima conexão com a doutrina revelada (conclusões teológicas).

5. A doutrina comum é uma doutrina que, embora ainda esteja no campo da livre discussão, é geralmente defendida por todos os teólogos.

6. As opiniões teológicas de menor grau de certeza são as sentenças prováveis, mais prováveis, bem fundamentadas e a chamada sentença piedosa, porque tem em conta a crença piedosa dos fiéis (sententia probabilis, probabilior, bene fundata, pia). O grau mais baixo de certeza é possuído pela opinião tolerada, que se baseia apenas em fundamentos frágeis, mas que é tolerada pela Igreja.

No que diz respeito às declarações do magistério eclesiástico, é preciso ter em conta que nem todas as declarações do magistério em matéria de fé e de moral são infalíveis e, portanto, irrevogáveis. Só são infalíveis as declarações do Concílio Ecumênico que representa todo o episcopado e as declarações do Romano Pontífice quando fala ex cathedra

O magistério do Romano Pontífice na sua forma ordinária e habitual não é infalível. As decisões das congregações romanas (Congregação para a Doutrina da Fé, Comissão Bíblica) também não são infalíveis. No entanto, devem ser seguidas com assentimento interno (assensus religiosus), motivado pela obediência à autoridade do magistério eclesiástico. O chamado silêncio respeitoso não é suficiente como regra geral. Excecionalmente, a obrigação de dar assentimento interno pode cessar quando um avaliador competente, depois de ter examinado repetida e conscienciosamente todas as razões, estiver convencido de que a declaração é equivocada e pautada num erro.

(Texto originalmente publicado no blog CAOT)

domingo, 28 de janeiro de 2024

EVANGELHO DO DOMINGO

'Não fecheis o coração, ouvi hoje a voz de Deus!' (Sl 94)

Primeira Leitura (Dt 18,15-20) - Segunda Leitura (1Cor 7,32-35)  -  Evangelho (Mc 1,21-28)

 28/01/2024 - Quarto Domingo do Tempo Comum 

9. 'CALA-TE!'


Num certo dia de sábado, ainda no início do tempo de sua pregação pública, Jesus se dirige a uma sinagoga de Cafarnaum. E se põe a ensinar aos presentes, não conforme as prescrições vigentes e nem como um escriba qualquer, mas com a autoridade suprema de ser Ele próprio a Verdade falada e afirmada por todos os profetas. Aqueles homens privilegiados da história escutaram naquele sábado as primeiras palavras de uma nova doutrina, nascida do próprio coração de Deus.

Deus falava aos homens naquele sábado em Cafarnaum. E as palavras de Jesus ressoavam pela sinagoga e reverberavam, com ruídos estridentes, nos portais do inferno, transtornando os espíritos imundos. O mal, então, reage na sua cantilena miserável, pelos gritos de um possesso qualquer: 'Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus' (Mc 1, 24).

Jesus vai fazer o demônio se calar peremptoriamente: 'Cala-te e sai dele!' (Mc 1, 25). 'Cala-te!' Sim, pois não se deve dar ouvidos ao demônio em condição alguma, pois não se obtém proveito algum da sordidez do maligno; o mal apenas faz conluio com o mal e, mesmo a verdade - 'tu és o Santo de Deus' - torna-se repugnante e maliciosa nas entranhas do pai da mentira. Não existe confabulação ou argumentação possível com o mal, mas apenas a sua condenação explícita e imediata: 'Cala-te!' Jesus é imperativo ao expulsar o demônio do possesso e, assim, não lhe dar a menor chance de réplica.

Não há melhor didática que tal ensinamento diante dos inevitáveis confrontos e tentações humanas diante da avassaladora força do mal: não admitir concessão alguma à sua manifestação. Diante do mal, diante das tentações, diante das ciladas dos espíritos maus às condições humanas, este 'cala-te!' deve soar de pronto e definitivo: 'Cala-te!' Diante das lamentações frouxas, da tibieza, da preguiça, do orgulho: 'Cala-te!' Contra todas as ocasiões de pecado e de perda dos fundamentos da nossa fé: 'Cala-te!' Contra o mundo, se o mundo estiver contra a Verdade: 'Cala-te!' Seguindo os preceitos de Jesus, não nos basta apenas praticar o bem, mas também fazer calar e desaparecer de vez o mal que grita e se estertora entre as misérias do mundo.

sábado, 27 de janeiro de 2024

AS DORES DE MARIA

A beleza de Jesus é inexaurível. Como a Visão de Deus no céu, ela é sempre diversa, embora sempre a mesma; sempre apreciada como um contentamento antigo e familiar, embora sempre surpreendente e estimulante por ser, na verdade, perpetuamente nova. Ele é sempre belo, belo em todo lugar, tanto na desfiguração da Paixão, quanto no esplendor da Ressurreição, tanto nos horrores da Flagelação, quanto nos indizíveis encantos de Belém. Mas acima de todas as coisas, Nosso Senhor é belo em sua Mãe. Se o amamos, devemos amá-la. Devemos conhecê-la, para conhecê-lo. Da mesma forma que não há verdadeira devoção à sua Sagrada Humanidade, que não seja consciente de sua Divindade, também não há amor adequado ao Filho que o  separe de sua Mãe, e a coloque de lado, como um mero instrumento, a quem Deus escolheu como se escolhesse uma coisa inanimada, 'sem consideração por sua santidade e retidão moral'. Mas é nosso dever diário amar Jesus cada vez mais. 

Um ano acaba e outro começa; o antigo curso das festas se repete; as conhecidas divisões do ano cristão nos abarcam, deixam em nós a sua marca, e se sucedem. Sudecem-se os Natais, Semanas Santas, Pentecostes, e algo há em cada um deles que os fazem residir como datas em nossa mente! Passamos alguns deles sob certas circunstâncias, e outros, sob outras. Alguns, graças a Deus, se distinguem por excepcionais aberturas de coração em nossa vida interior, de tal forma a alterar ou intensificar nossa devoção e materialmente influenciar nossas secretas relações com Deus. As fundações de muitas construções, que não se levantaram sobre a terra senão depois de muito tempo, foram lançadas quase inconscientemente nesses períodos. Todavia, quaisquer que tenham sido as alterações que essas festas trouxeram, elas sempre nos encontraram ocupados com uma única e mesma tarefa: estávamos tentando amar Jesus cada vez mais. 

E por meio de todas essas mudanças, e em toda a perseverança de nossa tarefa única, a experiência infalível nos tem dito que nunca avançamos mais rapidamente no amor do Filho do que quando viajamos com sua Mãe, e que o que construímos mais solidamente em Jesus, foi construído com Maria. Não há tempo perdido em sua busca, se recorremos de imediato a Maria; pois Ele está sempre lá, sempre em casa. A obscuridade de seus mistérios torna-se luz quando os colocamos sob sua luz, que é sua luz também. Ela é o caminho mais curto a Ele. Ela tem a 'via grandiosa' a Ele. Ela é sua Ester, e rápidas e integrais são as resposta a petições que suas mãos apresentam.

Mas Maria é um mundo, que não podemos perceber totalmente de uma só vez. Devemos nos devotar a mistérios particulares. Devemos separar certas regiões desse mundo de graça, e nelas nos concentrar. Devemos explorá-las e mapeá-las com precisão, antes de passarmos a outras regiões, e então aprenderemos muito do que uma visão geral nos teria omitido, e provisionaremos nossas almas com riquezas espirituais, riquezas de conhecimento e amor, que nos levarão perpetuamente à comunhão com nosso amado Senhor. Enquanto a graça de Deus ainda insiste em nos manter vivos, e por seus próprios propósitos graciosos, nos detêm nessa gélida fadiga e nessa depressiva possibilidade do pecado, determinemo-nos pelo menos em nos ocupar apenas com Deus; pois há muito aprendemos que não há verdadeiramente outra ocupação que nos valha a pena. 

Ele tem ainda milhares de Edens, mesmo na lúgubre superfície dessa salgada estepe do mundo, onde devemos trabalhar ao som de cursos d’água, não sem colóquios com Ele nos períodos calmos do dia; podemos andar de Éden a Éden, na medida em que a força ou a fraqueza de nosso amor nos impele. No momento, tranquemo-nos no jardim das dores de Maria. É um dos Edens preferidos de Deus, e não podemos trabalhar lá senão sob a sombra de sua presença, não sem o amor a Jesus tomando maravilhosamente posse de nossas almas. Pois o amor de Jesus está no próprio ar invisível do lugar, no aroma do solo revolvido, na fragrância das flores, no farfalhar das folhas, nos cantos dos pássaros, no brilho do sol, na murmuração suave das águas que escorrem pelas pedras do lugar. Lá, por um tempo, por nosso amor a Jesus, nós nos recolheremos como num claustro, e deixemos o mundo – no qual não temos muita importância, e que é ainda menos importante para nós do que somos para ele – sem sentir nossa falta por um período.

A lei da Encarnação é a lei do sofrimento. Nosso Senhor foi o homem das dores e, pelo sofrimento, Ele redimiu o mundo. Sua Paixão não foi um mistério separado do resto de sua vida, mas apenas seu fim adequado e congruente. O Calvário não é diferente de Belém e Nazaré. Ele os excede em grau; mas não difere deles em gênero. Todos os trinta e três anos foram passados em consistente sofrimento, embora distinto em vários gêneros, e não de intensidade uniforme. Essa mesma lei do sofrimento, que pertence a Jesus, toca a todos que se lhe aproximam, e em proporção de sua santidade; envolve-os e os reclama inteiramente para si. Os Santos Inocentes foram, nos desígnios de Deus, contemporâneos de Nosso Senhor, e isto já é afinidade suficiente para lançá-los num mar de sofrimentos que levaram suas carnes a sangrarem nos braços de suas mães transtornadas, para em seguida desfrutarem eternamente de coroas e palmas: uma troca feliz e enorme fortuna, construída rapidamente e assim tão maravilhosamente assegurada! 

A mesma lei envolveu cada um dos apóstolos, sobre quem caíra a indescritível e bem-aventurada escolha do Verbo Encarnado. Foi a cruz para Pedro e seu irmão, a espada para Paulo, as pedras para Tiago, o esfolamento para Bartolomeu, e o óleo fervente e longos anos de fatigante demora para João. Mas, qualquer forma que tome exteriormente, internamente ela foi sempre sofrimento. Acompanhou-lhes em todas as terras. Pairou sobre eles em todas as vicissitudes. Andou com eles nas estradas de Roma, como se fossem seus anjos da guarda; cavalgou ao lado de suas desconfortáveis galés nas águas tempestuosas do Mediterrâneo. Eles eram apóstolos. Deviam ser como seu Senhor. Deviam entrar na nuvem, e a escuridão do eclipse devia recair sobre eles no alto de algum Calvário, de Roma à Báctria, da Espanha ao Hindustão. 

A mesma lei envolveu os mártires de todas as eras. Suas paixões foram sombras vivas da grande Paixão, e o sangue que derramaram mesclou seu fluxo com o Precioso Sangue de seu Redentor, o Rei dos Mártires. Da mesma forma, com os santos. Tenham sido eles bispos ou doutores, virgens ou senhoras, seculares ou religiosos, amor incomum e graças incomuns sempre lhes alcançavam na forma de uma provação incomum e de um sofrimento incomum. Eles também devem ser levados para o interior da nuvem, e daí emergirão com suas faces resplandecentes, porque terão visto, e visto de perto, a Face do Crucificado. É assim, em sua medida, com todos os eleitos. Eles devem pelo menos manter-se dentro das bordas da nuvem escura, ou ela deve sombreá-los em seu trânsito, talvez mais de uma vez, a fim de assegurar a salvação de suas almas, dando-lhes pelo menos uma semelhança adequada de seu Senhor. O que, então, pensar de sua Mãe, que esteve, de todos, o mais próximo d’Ele?

Não deve ser surpresa que ela sofra mais do que qualquer um, exceto Ele mesmo. A imensidade de suas dores não será nem uma aflição nem uma surpresa para nós, mas, ao contrário, a óbvia conclusão de tudo que sabemos do grandioso mistério da Encarnação. O montante de seus sofrimentos será o índice da magnificência do seu amor por ela. A profundidade de suas dores é, de todos, o melhor modo de se sondar o abismo de seu amor por Ele. Seu imenso mar de dores medirá a grandeza de sua santidade. A excelsitude de sua divina Maternidade elevará suas dores para próximo de sua graciosa Paixão. Sua impecabilidade parecerá quase circundá-la com a mesma lei de expiação vivificante. Sua união com Ele transformará sua Compaixão inseparável de Sua Paixão, mesmo que, por milhares de razões, esta seja tão manifestamente distinta daquela. 

A Mulher vestida de Sol será envolvida por muitas voltas da brilhante escuridão daquele mesmo terrível destino, que Ele concedeu, a princípio, designar e, então, aceitar como a grande lei de sua Encarnação. Devemos estar preparados a encontrar as dores de Maria além do alcance de nossa imaginação, acima da possibilidade de nossa descrição. Podemos apenas contemplá-las com instrumentos que a fé e o amor fornecem, e perceber a beleza e a estranheza de muitos fenômenos que podemos somente imperfeitamente compreender. Assim podemos, especialmente, aumentar nossa devoção à Paixão, cujas muitas e desconhecidas regiões nos são momentaneamente iluminadas pelo contato com suas dores, tal como na ocultação de Júpiter, o luminoso e manchado planeta, quando toca a porção escura da lua, ele dispersa momentaneamente uma linha de luz ao longo da borda invisível, como uma revelação, e então, ao desaparecer prova a realidade daquilo que não conseguimos ver.

Mas, antes de invocarmos a São João Evangelista para sustentar a nossa mão e descer conosco às profundezas daquele coração partido, que ele, o santo do Sagrado Coração, conhecia melhor que os todos, devemos ter uma visão geral das dores de Nossa Senhora, tal como nos familiarizamos com o esboço geral da geografia de um país antes de tentarmos dominar seus detalhes. Há sete pontos, dos quais é necessário que tenhamos informações, antes que possamos estudar os mistérios individuais de seu incomparável sofrimento. Devemos conhecer, tanto quanto está em nosso poder, a imensidade de suas dores, porque Deus as permitiu, quais foram suas origens, quais suas características, como ela pôde regozijar-se nelas, de que modo a Igreja as coloca diante de nós e qual deve ser o espírito de nossa devoção a elas. Estas são questões que precisam de respostas; e estas, ainda que imperfeitas, servirão como um tipo de introdução ao nosso assunto.

(Excertos da obra 'Aos Pés da Cruz - As Dores de Maria", do Pe. Frederick Faber)

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

VERSUS: VIDA ESPIRITUAL


Consolação Espiritual 

Chamo consolação, quando na alma se produz alguma moção interior, com a qual vem a alma a inflamar-se no amor de seu Criador e Senhor; e quando, consequentemente, nenhuma coisa criada sobre a face da terra pode amar em si mesma, a não ser no Criador de todas elas. E também, quando derrama lágrimas que a movem ao amor do seu Senhor, quer seja pela dor se seus pecados ou da Paixão de Cristo nosso Senhor, quer por outras coisas diretamente ordenadas ao seu serviço e louvor. Finalmente, chamo consolação todo o aumento de esperança, fé e caridade e toda a alegria interior que chama e atrai às coisas celestiais e à salvação de sua própria alma, aquietando-a e pacificando-a em seu Criador e Senhor.


Desolação Espiritual 

Chamo desolação a tudo que é contrário à terceira regra, como obscuridade da alma, perturbação, inclinação a coisas baixas e terrenas, inquietação proveniente de várias agitações e tentações que levam a falta de fé, de esperança e de amor; achando-se a alma toda preguiçosa, tíbia, triste, e como que separada de seu Criador e Senhor. Porque assim como a consolação é contrária à desolação, da mesma maneira os pensamentos que provêm da consolação são contrários aos pensamentos que provêm da desolação.

(Santo Inácio de Loyola)

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

TESOURO DE EXEMPLOS (291/295)


291. EU O SEREI, MAMÃE!

Uma boa mãe tinha quatro filhos, aos quais formava na piedade. Uma noite, depois de rezar com eles e lhes falar de Deus, disse-lhes com grande ternura: 'Quão feliz seria eu se um de vocês chegasse a ser santo!'
O menorzinho lançou-se nos braços da mãe, dizendo: 'Eu o serei, mamãe!' E cumpriu a palavra, tornando-se o papa São Pedro Celestino.

292. ACONTECIMENTO FUNESTO

Um jovem foi condenado a quinze anos de prisão. Ouvida a sentença, pediu lhe permitissem falar, e disse: 'Perdoo aos juízes pela sentença, que é justa; perdoo a quem me conduz ao cárcere, porque cumpre o seu dever; mas não posso perdoar ao meu pai, que ali está, porque se me tivesse dado bom exemplo, corrigido e castigado a tempo, eu não estaria aqui'. Ouvida esta acusação, o pai caiu morto ali mesmo.

293. QUEM É ESSE MORTAL?

A irmã do rei São Luís estava um dia a confeccionar uma bela vestimenta, quando o santo lhe disse:
➖ Minha irmã, logo me dareis como presente esse vestido, não é?
➖Meu irmão, eu o destino a um príncipe maior ainda que Vossa Majestade.
➖ E quem seria esse afortunado mortal?
➖ É um pobre de Jesus Cristo e, portanto, é o próprio Jesus Cristo a quem eu o prometi.

294. SERVIA-OS ELE MESMO

A caridade de São Luís, rei da França, era prodigiosa. Todas as quartas, sextas e sábados da Quaresma e do Advento dava de comer em seu palácio a treze pobres que ele mesmo servia.

Servia-lhes uma sopa e duas espécies de alimentos. Cortava e distribuía o pão. Colocava, além disso, dois pães a mais para cada um, para que levassem para casa. Se entre os pobres havia algum cego, colocava-os nas mãos deles e os guiava. Dava, também, a cada um deles, uma esmola em dinheiro, conforme as necessidades. Ainda mais, aos sábados fazia separar os três mais pobres deles e lhes lavava os pés.

295. OBEDIÊNCIA AO MARIDO

Santa Francisca Romana estava recitando o Ofício da Santísssima Virgem, quando seu marido a chamou. Deixou a oração e foi atendê-lo; depois continuou. Mas, enquanto rezava uma antífona, quatro vêzes o marido a chamou e, por quatro vezes, interrompeu a oração e foi atendê-lo, continuando depois de terminada a ocupação. Na quarta vez, viu com surpresa que a antífona estava escrita com letras de ouro e lhe foi revelado que Deus concedera aquela graça a ela para que soubesse quanto a Nossa Senhora agradava a sua obediência ao marido.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos', do Pe. Francisco Alves, 1958; com adaptações)

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

PALAVRAS ETERNAS (XVIII)


'Se dizemos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se reconhecemos os nossos pecados, (Deus aí está) fiel e justo para nos perdoar os pecados e para nos purificar de toda iniquidade' (I Jo 1,8)

DOUTORES DA IGREJA (XXXVII/Atual)

   37Santo Irineu de Lyon, Bispo e Mártir (†202)

Doutor da Unidade

(130 - 202)

Concessão do título: 2022 - Papa Francisco

Celebração: 28 de junho (Memória Obrigatória)
 
Obras e Escritos
  • Adversus haereses - Contra heresias
  • Exposição ou Prova do Ensinamento Apostólico
  • Homilias
  • Cartas

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

A SABEDORIA FALSA DO MUNDO

1. A sabedoria do mundo é terrestre - os bens da terra. E desta sabedoria fazem secreta profissão os sábios mundanos, quando apegam o coração ao que possuem e se empenham para tornar-se ricos. Quando intentam processos e demandas inúteis para obter dinheiro ou para conservá-los. Quando não pensam, não falam e não agem, senão para alcançar ou conservar qualquer ganho terreno; a confissão ou a oração o fazem superficialmente, como quem se desempenha de um ônus, em raros intervalos e somente para salvar as aparências.

2. A sabedoria do mundo é carnal - o amor ao prazer. E desta sabedoria fazem profissão os sábios mundanos, quando buscam apenas os prazeres dos sentidos. Quando gostam de boa mesa. Quando de si afastam tudo o que poderia mortificar ou incomodar o corpo, como os jejuns e as austeridades. Quando, ordinariamente, não pensam mais do que em comer, beber, divertir-se, rir, passar agradavelmente o tempo. Quando andam em busca de leitos confortáveis, jogos que divirtam, festas agradáveis, companhias mundanas. E depois que sem escrúpulos se deram a todos esses prazeres, vão atrás de um confessor 'o menos escrupuloso que encontrarem', a fim de obter assim, por pouco preço, a paz em sua vida sensual e útil, e a indulgência plenária de todos os pecados.

3. A sabedoria do mundo é diabólica - o amor da estima e das honras. E desta sabedoria fazem profissão os sábios mundanos, quando aspiram, muito embora secretamente, grandezas, honras, dignidades e cargos elevados. Quando se esforçam para serem vistos, estimados, louvados e aplaudidos pelos homens. Quando não colimam em seus estudos, trabalhos, lutas, senão a estima e louvor dos homens, a fim de que sejam tidos por honestos, sábios, grandes líderes, sábios jurisconsultos, pessoas de infinito mérito e grande consideração. Quando não podem suportar o desprezo e a repressão. Quando escondem o que têm de defeituoso e mostram o que possuem de belo.

É preciso, com Jesus Cristo, detestar e condenar estas falsas sabedorias, a fim de obter a verdadeira, que não busca seu interesse, que não é desta terra, nem se encontra no coração dos que vivem em seus domínios e que abomina tudo o que é grande e prestigioso aos olhos dos homens.

(São Luís Maria Grignion de Montfort)

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

O DOGMA DO PURGATÓRIO (LXXIII)

Capítulo LXXIII

Alívio às Santas Almas - Orações por Todos os Fieis Defuntos - Santo Andre Avellino e sua Percepção pelo Destino Eterno das Almas - Exortação de São Francisco de Sales

Vimos os recursos e os numerosos meios que a Misericórdia Divina colocou nas nossas mãos para aliviar as almas do Purgatório; mas que almas estão nessas chamas expiatórias e a que almas devemos dar a nossa ajuda? Por quais almas devemos rezar e oferecer os nossos sufrágios a Deus? A estas perguntas devemos responder que devemos rezar pelas almas de todos os fiéis defuntos - omnium fidelium defunctorum -  de acordo com a expressão própria da Igreja. Embora a piedade filial nos imponha deveres especiais em relação aos nossos pais e parentes, a caridade cristã nos manda rezar pelos fiéis defuntos em geral, porque todos eles são nossos irmãos em Jesus Cristo, todos são nossos próximos, a quem devemos amar como a nós mesmos.

Por estas palavras, fiéis defuntos, a Igreja entende todos os que estão efetivamente no Purgatório, isto é, aqueles que não estão no inferno, mas que ainda não são dignos de serem admitidos na glória do Paraíso. Mas quem são essas almas? Podemos conhecê-las? Deus reservou esse conhecimento para si mesmo e, a não ser que Ele queira nos mostrar, devemos permanecer em total ignorância sobre o estado das almas na outra vida. Desta forma, Deus raramente dá a conhecer que uma dada alma está no Purgatório ou na glória do Céu e, mais raramente ainda, revela a condenação de uma alma. Nesta incerteza, devemos rezar em geral como faz a Igreja, por todos os defuntos, sem prejuízo das almas que queremos ajudar em particular.

Podemos evidentemente limitar a nossa intenção àqueles que, de entre os mortos, ainda precisam da nossa ajuda, se Deus nos conceder o privilégio que concedeu, por exemplo, a Santo André Avellino, de conhecer a condição das almas na outra vida. Quando este santo religioso da Ordem dos Teatinos, segundo o seu piedoso costume, rezava com angélico fervor pelos defuntos, acontecia-lhe por vezes sentir dentro de si uma espécie de resistência, um sentimento de invencível repulsa; outras vezes, pelo contrário, era uma sensação de grande consolação e particular atração. Logo compreendeu o significado dessas diferentes impressões: a primeira significava que sua oração era inútil, pois a alma que desejava socorrer era indigna de misericórdia e estava condenada ao fogo eterno; a outra, no entanto, indicava que sua oração era eficaz para o alívio da alma no Purgatório. O mesmo acontecia quando desejava oferecer o Santo Sacrifício por um defunto. Sentia-se, ao sair da sacristia, como que retido por uma mão invisível e compreendia que aquela alma estava no inferno; mas, quando se encontrava inebriado de alegria, de luz e de devoção, tinha a certeza de estar contribuindo para a libertação de uma alma. Este santo caridoso rezava, pois, com o maior fervor pelos defuntos que sabia estarem a sofrer, e não cessava de aplicar os seus sufrágios enquanto as almas não lhe viessem agradecer, dando-lhe a certeza da sua libertação. 

Quanto a nós, que não temos estas luzes sobrenaturais, devemos rezar por todos os defuntos, mesmo pelos maiores pecadores e pelo cristão mais virtuoso. Santo Agostinho conhecia a grande virtude de sua mãe, Santa Mônica; no entanto, não contente em oferecer a Deus os seus próprios sufrágios por ela, pedia aos seus leitores que não deixassem de recomendar a sua alma à Misericórdia Divina. Quanto aos grandes pecadores, que morrem sem se reconciliarem exteriormente com Deus, não podemos excluí-los dos nossos sufrágios, porque não temos a certeza da sua impenitência interior. A fé nos ensina que todos os homens que morrem em estado de pecado mortal incorrem na condenação eterna; mas quem são aqueles que na realidade morrem nesse estado? Só Deus, que reserva para si o julgamento dos vivos e dos mortos, sabe disso. Quanto a nós, só podemos tirar uma conclusão conjectural das circunstâncias exteriores, e mesmo disso devemos abster-nos. Mas é preciso confessar que há tudo a temer para aqueles que morrem despreparados para a morte, e toda a esperança parece desaparecer para aqueles que se recusam a receber os sacramentos. 

Estes últimos deixam esta vida com sinais exteriores de condenação. No entanto, devemos deixar o julgamento para Deus, de acordo com as palavras, Dei judicium est - A Deus pertence o julgamento (Dt, 1,17). Há mais a esperar para aqueles que não são positivamente hostis à religião, que são benevolentes para com os pobres, que conservam alguma prática de piedade cristã ou que pelo menos aprovam e favorecem a piedade; há mais, digo ainda, a esperar para tais pessoas quando acontece que elas morrem subitamente, sem terem tido tempo de receber os últimos sacramentos da Igreja.

São Francisco de Sales não quer que desesperemos da conversão dos pecadores até ao seu último suspiro e, mesmo depois da sua morte, proíbe-nos de julgar mal aqueles que levaram uma vida má. Com exceção dos pecadores, cuja reprovação é claramente manifestada pelas Sagradas Escrituras, não podemos, diz ele, concluir que uma pessoa está condenada, mas devemos respeitar os desígnios de Deus. A sua principal razão é que, como a primeira graça é gratuita, assim também é a última, que é a perseverança final ou uma boa morte. É por isso que devemos ter esperança na salvação dos fieis defuntos, por mais triste que tenha sido a sua morte, porque as nossas conjecturas baseiam-se apenas em constatações exteriores que podem ser, portanto, completamente equivocadas.

Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog.

domingo, 21 de janeiro de 2024

EVANGELHO DO DOMINGO

   

'Mostrai-me, ó Senhor, vossos caminhos, vossa verdade me oriente e me conduza!' (Sl 24)

Primeira Leitura (Jn 3,1-5.10) - Segunda Leitura (1Cor 7,29-31)  -  Evangelho (Mc 1,14-20)

 21/01/2024 - Terceiro Domingo do Tempo Comum 

8. PESCADORES DE HOMENS


Com a prisão e morte de João Batista, tem fim a Era dos Profetas e começa a pregação pública de Jesus sobre o Reino de Deus. O reino de Deus é o reino dos Céus, e não um império firmado sobre as coisas deste mundo. Cristo, rei do universo, começa a sua grande jornada pelos reinos do mundo para ensinar que a pátria definitiva do homem é um reino espiritual, que se projeta para a eternidade a partir do coração humano.

E esta proclamação vai começar por Cafarnaum e nos territórios de Zabulon e Neftali, localizada na zona limítrofe da Síria e da Fenícia, e povoada, em sua larga maioria, por povos pagãos. Em face disso, esta região era a chamada 'Galileia dos Gentios', e seus habitantes, de diferentes raças e credos, eram, então, objeto de desprezo por parte dos judeus da Judeia. E é ali, entre os pagãos e os desprezados, que o Senhor vai dar início à sua pregação pública da Boa Nova do Evangelho do Reino de Deus: 'O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!' (Mc 1,15).

Nas margens do Mar da Galileia, Jesus vai escolher os seus primeiros discípulos, Simão e André e, logo depois, Tiago e João, filhos de Zebedeu, num chamamento imperativo e glorioso: 'Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens' (Mc 1, 17). Aqueles pescadores, acostumados à vida dura de lançar redes ao mar para buscar o seu sustento, seriam agora os primeiros a entrarem na barca da Santa Igreja de Cristo para se tornarem pescadores de homens, na gloriosa tarefa de conduzir as almas ao Reino dos Céus.

Eis a resposta pronta e definitiva dos primeiros apóstolos ao chamado de Jesus: 'E eles, deixando imediatamente as redes, seguiram a Jesus' (Mc 1, 18) e 'Eles deixaram seu pai Zebedeu na barca com os empregados, e partiram, seguindo Jesus' (Mc 1, 20). Seguir a Jesus implica a conversão, pressupõe o afastamento do mundo, pois Jesus nos fala do Reino dos Céus. No 'sim' ao chamado de Jesus, nós passamos a ser testemunhas e herdeiros deste reino 'que não é desse mundo', e nos abandonamos por completo na renúncia a tudo que é humano para amar, servir e viver, prontamente e cotidianamente, o Evangelho de Cristo.

sábado, 20 de janeiro de 2024

20 DE JANEIRO - SÃO SEBASTIÃO

São Sebastião foi um oficial romano, do alto escalão da Guarda Pretoriana do imperador Diocleciano (imperador de Roma entre 284 e 305 de nossa era e responsável pela décima e última grande perseguição do Império Romano contra o Cristianismo), que pagou com a vida sua devoção à fé cristã. Denunciado ao imperador por ser cristão e acusado de traição, foi condenado a morrer de forma especial: seu corpo foi amarrado a um tronco servindo de alvo a flechas disparadas por diferentes arqueiros africanos.

Primeiro Martírio: São Sebastião flechado

Abandonado pelos algozes que o julgavam morto, foi socorrido e curado e, de forma incisiva, reafirmou a sua convicção cristã numa reaparição ao próprio imperador. Sob o assombro de vê-lo ainda vivo, São Sebastião foi condenado uma vez mais sendo, nesta sua segunda flagelação, brutalmente açoitado e espancado até a morte. O seu corpo foi atirado num canal de esgotos, de onde foi depois retirado e levado até as catacumbas romanas. Suas relíquias estão preservadas na Basílica de São Sebastião, na Via Apia, em Roma. É venerado por toda a cristandade como modelo de vida cristã, mártir da Igreja e defensor da fé e padroeiro de diversas cidades brasileiras, incluindo-se o Rio de Janeiro. Sua festa é comemorada a 20 de janeiro, data de sua morte no ano 304.

Segundo Martírio: São Sebastião espancado até a morte

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

OITO CONSELHOS DO PADRE PIO PARA UM NOVO ANO


1. A palma da glória está reservada apenas para aqueles que lutam bravamente até o fim. Portanto, vamos começar nossa batalha sagrada neste ano. Deus nos ajudará e nos coroará com o triunfo eterno.

2. Estamos pela Graça Divina no amanhecer de um novo ano. Como só Deus sabe se chegaremos ao seu fim, devemos vivê-lo em reparação pelo passado e em preparação para o futuro. Boas obras andam de mãos dadas com boas intenções.

3. Digamos a nós mesmos, com plena convicção de dizer a verdade: 'Minha alma: comece hoje a praticar as boas obras que até agora não praticaste'. Deixemo-nos envolver pela presença de Deus. 'Deus me vê' - digamos muitas vezes a nós mesmos - 'e pelas minhas ações Ele me julgará'. Tenhamos certeza de que Ele sempre verá apenas bondade em nós.

4. Se tiver tempo, não espere o tempo. Não deixemos para amanhã o que podemos fazer hoje. Os túmulos estão cheios de boas intenções que nunca aconteceram. Além disso, que garantia temos de que estaremos vivos amanhã? Escutemos a voz da nossa consciência, como disse o profeta: 'Hoje, se ouvirdes a voz do Senhor, não façais ouvidos moucos'. Vamos sair e valorizar o momento fugaz que é o que temos. Não confiemos no tempo que vai de um momento para outro, porque este ainda não é nosso.

5. Quando perdemos tempo, desprezamos o dom de Deus - o presente - que Ele, na sua infinita bondade, entrega ao teu amor e à tua generosidade.

6. 'Comecemos hoje, meus irmãos, a fazer o bem, porque até agora não fizemos nada'. Estas palavras, que São Francisco, na sua humildade, aplicou a si mesmo, deverão ser nossas no início do novo ano. Temos vivido irrefletidamente, como se o Eterno Juiz não fosse um dia nos chamar e nos pedir contas de nossas obras e de como gastamos nosso tempo.

7. O amor não tolera atrasos, e os reis magos, logo à chegada, fizeram tudo o que estava ao seu alcance para dar a conhecer Aquele que havia conquistado os seus corações por meio de um influxo de graça. Encheu-os com aquela caridade que deve transbordar, porque não pode estar contida na pequena moldura do coração e, portanto, deve ser extravasada.

8. Em suas ações, não busque para si nem o maior nem o menor mérito, mas pura e simplesmente a maior honra e glória de Deus.

(Excertos da obra 'Buona Giornata' - Tenha um Bom dia, compilação de reflexões do Santo Padre Pio)

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

O SONO DO MENINO JESUS

I. O sono de Jesus Menino foi demasiadamente breve e doloroso. Servia-lhe de berço uma manjedoura, a palha de colchão e de travesseiro. Assim o sono de Jesus foi muitas vezes interrompido pela dureza daquela caminha excessivamente dura e molesta, e pelo rigor do frio que reinava na gruta. De vez em quando, porém, a natureza sucumbia à necessidade e o Menino querido adormecia. Mas o sono de Jesus foi muito diferente do das outras crianças. O sono destas é útil à conservação da vida; não, porém, quanto às operações da alma, porque esta, privada do uso dos sentidos, fica reduzida à inatividade. Não foi assim o sono de Jesus Cristo: Ego dormio et cor meum vigilat. O Corpo repousava; velava, porém, a Alma, que em Jesus era unida à Pessoa do Verbo, que não podia dormir nem ficar dominada pela inatividade dos sentidos.

Dormia, pois, o Santo Menino, mas enquanto dormia, pensava em todos os padecimentos que teria de sofrer por nosso amor, no correr de toda a sua vida e na hora da sua morte. Pensava nos trabalhos pelos quais havia de passar no Egito e em Nazaré, levando uma vida extremamente pobre e desprezada. Pensava particularmente nos açoites, nos espinhos, nas injúrias, na agonia e na morte desolada, que afinal devia padecer sobre a Cruz. Tudo isso Jesus oferecia ao Pai Eterno enquanto estava dormindo, a fim de obter para nós o perdão e a salvação. Assim nosso Salvador, durante o sono, estava merecendo por nós, reconciliava conosco o seu Pai e nos alcançava graças.

Roguemos agora a Jesus que, pelos merecimentos do seu sono santo, nos livre do sono mortal dos pecadores, que dormem miseravelmente na morte do pecado, esquecidos de Deus e do seu amor. Peçamos-lhe que nos dê, ao contrário, o sono feliz da sagrada Esposa, da qual dizia: 'Eu vos conjuro... que não perturbeis à minha amada o seu descanso, nem a façais despertar, até que ela mesma queira'. É este o sono que Deus dá às almas suas diletas e que, no dizer de São Basílio, não é senão o supremo olvido de todas as coisas - summa verum omnium oblivio. Então a alma abandona todas as coisas terrestres, para só pensar em Deus e nos interesses da glória divina.

II. Ó meu querido e Santo Menino, Vós estais dormindo, mas esse vosso sono como me abrasa em amor! Para nós o sono é figura da morte; mas em Vós é símbolo de vida eterna porque, enquanto repousais, estais merecendo para mim a eterna salvação. Estais dormindo, porém o vosso coração não dorme, senão pensa em padecer e morrer por mim. Durante o vosso sono rogais por mim e me impetrais de Deus o descanso eterno do Paraíso. Mas enquanto não me levardes, como espero, para repousar junto de Vós no Céu, quero que repouseis sempre em minha alma.

Houve um tempo, ó meu Deus, em que Vos expulsei da minha alma. Vós, porém, tanto batestes à porta do meu coração, ora por meio do temor, ora com graças especiais, ora com convites amorosos, que tenho a esperança de que já entrastes nele. Assim espero, porque sinto em mim uma grande confiança de que já me perdoastes. Sinto também uma grande aversão e arrependimento das ofensas que vos tenho feito; um arrependimento que me causa grande dor, mas uma dor pacífica, uma dor que me consola e me faz esperar que a vossa bondade já me perdoou. Graças Vos dou, ó meu Jesus, e peço-vos que não vos aparteis mais da minha alma. Sei que Vós não vos apartareis de mim enquanto eu não vos repelir. 

É esta exatamente a graça que vos peço e que, com vosso auxílio, espero pedir-vos sempre: não permitais que vos torne a repelir de meu coração. Fazei que eu me esqueça de todas as coisas, a fim de só pensar em Vós, que sempre pensastes em mim e na minha salvação. Fazei que vos ame sempre nesta vida, a fim de que a minha alma, expirando unida convosco e em vossos braços, possa repousar eternamente em Vós sem receio de jamais vos perder. Ó Maria, assisti-me na minha vida, assisti-me na hora da minha morte, para que Jesus sempre repouse em mim e eu repouse sempre em Jesus. 

(Excertos da obra 'Meditações para todos os dias do ano', de Santo Afonso Maria de Ligório)

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

PALAVRAS DA SALVAÇÃO


'Aqueles que amam a Deus, vivem sempre satisfeitos, porque todo o seu prazer é cumprir a divina vontade, mesmo nas coisas que lhe são desagradáveis tanto que as inquietações se mudam em deleites, pelo pensamento de que, aceitando-as voluntaria­mente, agradam ao seu amado Senhor. E com efeito, que maior felicidade pode o homem expe­rimentar, do que o cumprimento de seus desejos? Então, quando se deseja o que Deus quer, tem cada um tudo quanto deseja, pois que (exceto o pecado) tudo quanto suceder no mundo é pela vontade de Deus'.

(Santo Afonso Maria de Ligório)

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

O DOM DA INTELIGÊNCIA

O sexto dom do Espírito Santo faz a alma entrar em uma via superior a que ela se encontrava até aqui. Os cinco primeiros dons tendem todos para a ação. O Temor de Deus remete o homem ao seu lugar humilhando-o, a Piedade abre seu coração às afeições divinas, a Ciência ensina-o a discernir entre a via da salvação e a via da perdição, a Fortaleza o arma para o combate e o Conselho dirige o homem em seus pensamentos e em suas obras; agora, então, ele pode agir e seguir pela estrada, com a esperança de chegar ao termo. 

Mas a bondade do Espírito divino lhe reserva ainda outros favores, fazendo-lhe desfrutar desde este mundo, de um antegozo da felicidade que lhe reserva na outra vida. Este será o meio de fortalecer sua marcha, de animar sua coragem e de recompensar seus esforços. A via da contemplação lhe será, de agora em diante, aberta e o Espírito divino nela o introduzirá por meio da inteligência. Muitas pessoas, talvez, se inquietem com a palavra contemplação, persuadidas erradamente de que as condições para isso só poderão ser encontradas na rara condição de uma vida passada no recolhimento e longe do contato dos homens. É um grave e perigoso erro que, muitas vezes, freia o impulso das almas. 

A contemplação é o estado para o qual é chamado, em certa medida, toda alma que procura a Deus. Não consiste nos fenômenos pelos quais o Espírito Santo gosta de manifestar em algumas pessoas privilegiadas e que são destinados a provar a realidade da vida sobrenatural. Ela é, simplesmente, uma relação mais íntima que se estabelece entre Deus e a alma que lhe é fiel na ação; se esta alma não põe obstáculos, são-lhe reservados dois favores, entre os quais, o primeiro é o dom de inteligência, que consiste na iluminação do espírito esclarecido desde então por uma luz superior. Esta luz não retira a fé, mas clareia os olhos da alma, fortificando-os e dando-lhes uma visão mais extensa sobre as coisas divinas. Muitas nuvens provenientes da fraqueza e da grosseria da alma ainda não iniciada, se desvanecem. 

A beleza cheia de encantos dos mistérios, a qual era vagamente sentida, se revela; inefáveis harmonias que nem eram suspeitadas, aparecem. Não é a visão face a face, reservada para o dia eterno; mas já não é mais aquela fraca luminosidade que dirigia seus passos. Um conjunto de analogias e de concordâncias mostram-se sucessivamente aos olhos do espírito, trazendo uma certeza cheia de doçura. A alma se dilata com essas claridades que enriquecem a Fé, aumentam a Esperança e desdobram o Amor. Tudo parece novo; e quando a alma olha para trás, compara e vê claramente que a verdade, sempre a mesma, agora é alcançada por ela de maneira incomparavelmente mais completa. A leitura dos Evangelhos a impressiona mais; encontra um sabor nas palavras do Salvador desconhecido para ela até então. Compreende melhor o fim a que Ele se propôs instituindo os sacramentos. A santa Liturgia a emociona por suas fórmulas tão augustas e seus ritos tão profundos. A leitura da vida dos santos a atrai, nada a espanta nos seus sentimentos e nos seus atos; aprecia seus escritos mais do que quaisquer outros e sente um aumento de bem estar espiritual, tratando com esses amigos de Deus. 

Rodeada de deveres de toda natureza, a chama divina guia essa alma para satisfazer a cada um deles. As diversas virtudes que deve praticar conciliam-se em sua conduta; uma nunca é sacrificada pela outra, porque vê a harmonia que deve reinar entre elas. Está longe do escrúpulo como do relaxamento e sempre atenta para logo reparar os danos que pôde cometer. Algumas vezes, o próprio Espírito a instrui por uma palavra interior que, quando ouvida, ilumina sua situação com uma nova luz. De agora em diante, o mundo e seus vãos equívocos, são tomados por aquilo que são e a alma se purifica do resto de vínculos e complacências que ainda poderia conservar por eles. Aquilo que só tem grandeza e beleza segundo a natureza parece insignificante e miserável para esses olhos que o Espírito Santo abriu para as grandezas e belezas divinas e eternas. Só uma coisa redime a seus olhos esse mundo exterior que ilude o homem carnal: é que a criatura visível, que possui a marca da beleza de Deus, é susceptível de servir à glória de seu Autor. A alma aprende a fazer uso dela com ação de graças, tornando-a sobrenatural, glorificando Àquele que imprimiu as marcas de sua beleza nessa multidão de seres, que muitas vezes servem apenas para a perdição do homem, mas que são dadas para se tornarem degraus que o conduzem a Deus. 

O dom da inteligência derrama também na alma o conhecimento de sua própria via. Faz com que ela compreenda o quanto são sábios e misericordiosos os desígnios do alto que, muitas vezes, a quebra e a transporta para onde não contava ir. Vê que se ela fosse senhora de si mesma, para dispor de sua existência, teria perdido o seu fim e que Deus nele a fez chegar, escondendo primeiramente os desígnios de sua paternal sabedoria. Agora ela está feliz, pois goza da paz e seu coração não cabe de ações de graças para agradecer a Deus que a conduziu ao termo sem consultá-la. Se acontecer de ser chamada para dar conselhos, para exercer uma direção por dever ou por motivo de caridade, pode-se confiar nela; o dom de inteligência a esclarece para os outros como para ela própria. 

No entanto não se intromete, dando lições àqueles que não lhe pedem; mas se é interrogada, responde e suas respostas são luminosas como a chama que a ilumina. Este é o dom de inteligência, verdadeira luz da alma cristã e que se faz sentir nela em proporção à sua fidelidade aos outros dons. Este dom se conserva pela humildade, moderação dos desejos e recolhimento interior. Uma conduta dissipada detém o seu desenvolvimento e pode mesmo abafá-lo. Essa alma fiel pode se conservar recolhida mesmo em uma vida ocupada e cheia de deveres, e até no meio de distrações obrigadas às quais a alma se presta sem se prender. Que ela seja simples a seus próprios olhos e o que Deus esconde aos soberbos e revela aos pequenos lhe será manifestado e nela permanecerá. 

Não há dúvida de que tal dom seja um imenso socorro para a salvação e a santificação da alma. Devemos implorá-lo ao divino Espírito com todo ardor de nossos desejos, convencidos de que o atingiremos mais seguramente pelo impulso do nosso coração do que pelo esforço de nosso espírito. Na verdade é na inteligência que se derrama a luz divina, objeto desse dom; mas sua efusão provém, sobretudo, da vontade aquecida pelo fogo da caridade, segundo a palavra de Isaías: 'Crede, e tereis a inteligência'. Vamos nos dirigir ao Espírito Santo nos servindo das palavras de Davi, dizendo: 'Abri nossos olhos e contemplaremos as maravilhas dos vossos preceitos; dai-nos a inteligência e teremos a vida'. Instruídos pelo Apóstolo, manifestaremos nosso pedido de maneira ainda mais insistente, nos apropriando da oração que ele dirige ao Pai celeste em favor dos fiéis de Éfeso, quando implora 'o espírito da sabedoria e da revelação pelo qual se conhece a Deus, os olhos iluminados do coração que descobrem o objeto de nossa esperança e as riquezas da gloriosa herança que Deus preparou para seus santos'.

(Excertos da obra 'Os Dons do Espírito Santo', de Dom P. Gueranger)

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

FRASES DE SENDARIUM (XX)

 

'Vinde, ó pecadores, e refugiai-vos no Coração de Cristo, onde a espada da justiça não pode entrar!' 

(Santa Gema Galgani)


Do coração compassivo de Jesus jorram as torrentes da insondável misericórdia divina, que aniquilam todas as misérias humanas e plasmam no fogo e no cadinho os herdeiros do céu. Ó Sangue e Água emanados do oceano de graças do Coração de Jesus, tende misericórdia de nós e do mundo inteiro!

DOUTORES DA IGREJA (XXXVI)

  36São Gregório de Narek, Abade (†1003)

Místico Armênio

(951 - 1003)

Concessão do título: 2015 - Papa Francisco

Celebração: 27 de fevereiro (Memória Facultativa)
 
Obras e Escritos
  • Livro de Orações ou Livro de Lamentações
  • Comentário sobre o Cântico dos Cânticos
  • Homilias
  • Orações
  • Hinos

domingo, 14 de janeiro de 2024

EVANGELHO DO DOMINGO

  

'Eu disse: "Eis que venho, Senhor!" Com prazer faço a vossa vontade' 
(Sl 39)

Primeira Leitura (I Sm 3,3-10.19) - Segunda Leitura (1Cor 6,13-15.17-20)  -  Evangelho (Jo 1,35-42)

 14/01/2024 - Segundo Domingo do Tempo Comum 

7. APÓSTOLOS SOB A CÁTEDRA DE PEDRO


Estando naquele dia em presença de dois dos seus discípulos mais amados, João Batista vai manifestar, uma vez mais, o testemunho do Messias, aquele de quem dissera pouco antes: 'Eu não sou digno de desatar-lhe as correias das sandálias' (Jo 1, 27). A grandeza do Precursor é enfatizada por Jesus naquele que recebeu privilégios tão extraordinários para ser o profeta da revelação de tão grandes mistérios de Deus à toda a humanidade: Jesus Cristo é o Unigênito do Pai, o Filho de Deus Vivo, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. E, desta vez, dá testemunho direto dele, 'vendo Jesus passar' (Jo 1, 35): 'Eis o Cordeiro de Deus!' (Jo 1, 36).

Ao ouvir estas palavras, André e João, não vacilam um único instante e tomam a firme disposição de seguir Jesus. Seguir Jesus! Eis aí o amoroso convite de Jesus a todos os homens: assumir o jugo suave do Senhor em todos os nossos caminhos, ao longo de toda a nossa vida! Para seguir Jesus, temos que responder a pergunta dos dois discípulos que ecoa pelos tempos: 'Onde moras?' (Jo 1, 38). 'Onde moras, Jesus?' Seguir Jesus é ir onde Jesus está, para que Jesus possa morar em nós. Eis o mistério da graça que cada um deve percorrer nesta vida para a plena busca da Verdade e a contemplação definitiva do Reino de Deus.

Mas os dois discípulos fizeram ainda mais do que isso; o zelo e o fervor pelos novos ensinamentos do Messias fizeram deles os primeiros apóstolos. E a Verdade exaltada, vivida e compartilhada pela pregação humana das primícias do apostolado cristão vai chegar a ninguém menos que Simão Pedro, irmão de André, e que viria a ser a pedra angular da futura Igreja de Cristo. Pedro não vacilou também, não fez concessões e nem imposições, mas acreditou! E imediatamente foi ter com Jesus.

Jesus, que conhecia Pedro desde a eternidade e Pedro, que nascia para a eternidade, estavam juntos pela primeira vez: 'Tu és Simão, filho de João; tu serás chamado Cefas' (Jo 1, 42). Jesus estabelece neste primeiro momento, a vinculação direta entre a ação do apostolado e a pedra (Cefas) fundamental sobre a qual haveria de edificar a sua Igreja, mistério da graça muito além da possível percepção histórica daqueles homens. O apostolado é, pois, missão inerente a toda a cristandade e deve estar indissoluvelmente ligada à pedra fundamental da Igreja, como dizia Santo Ambrósio de Milão: 'Não podem ter a herança de Pedro os que não vivem sob a cátedra de Pedro'.