sexta-feira, 3 de julho de 2026

O MARTÍRIO DO PAPA SÃO SIXTO II

Era o ano de 258. O imperador Valeriano, cedendo à pressão dos clamores fanáticos levantados contra os cristãos - inflamados pelas desgraças que então afligiam o Império - renovara, no ano anterior, a perseguição à Igreja com severidade ainda maior do que a exercida por Décio.

Pela primeira vez, a santidade dos túmulos deixava de ser refúgio para os perseguidos seguidores de Jesus. O decreto imperial de 257 proibia aos cristãos frequentarem aquilo que os pagãos chamavam de seus 'cemitérios'. Mas o preceito apostólico de 'não abandonar as assembleias' (Hb 10,25) constituía uma lei superior ao édito do imperador; por isso, nas estreitas capelas subterrâneas das Catacumbas, os fiéis continuavam a assistir ao Santo Sacrifício da Missa.

Os agentes do imperador vigiavam cuidadosamente as entradas dos principais cemitérios. O grande cemitério de São Calisto era, naturalmente, o principal objeto de sua vigilância. Por essa razão, no dia 6 de agosto, o santo Pontífice Sisto II escolheu o cemitério de São Pretextato como o lugar onde celebraria os Sagrados Mistérios.

Era esse um local já santificado por mais de um século de recordações sagradas. Ali repousava o tribuno São Quirino, que sofrera o martírio pela fé no tempo do imperador Adriano. Ali a nobre Marmênia construíra uma câmara subterrânea abobadada, onde depositara os preciosos restos de São Januário, o primogênito dos sete filhos mártires de Santa Felicidade, cuja inscrição funerária, composta pelo Papa São Dâmaso, só veio a ser descoberta nos tempos mais recentes.

Ali também haviam sido sepultados Valeriano, esposo mártir de Santa Cecília, juntamente com seu irmão Tibúrcio e Máximo, companheiro de ambos no martírio. Pouco depois, seria igualmente sepultado numa das capelas dessa mesma catacumba o santo bispo Urbano, que justamente naquele lugar os instruíra na fé.

E agora uma procissão de futuros mártires avança pelo corredor excepcionalmente amplo desse antigo cemitério. O mais venerado santuário desse cemitério era o túmulo de São Januário; e é para lá, ao que tudo indica, que a procissão se dirige. Os diáconos Felicíssimo e Agapito preparam o altar, enquanto o arquidiácono Lourenço permanece junto do venerável Pontífice, pronto para servi-lo em tudo. Destacado por sua viril formosura e ardentemente amado por todos os pobres e aflitos entre os fiéis, o arquidiácono, de traços nobres e delicadamente esculpidos, parecia irradiar uma incomum auréola de santidade enquanto ajudava o Papa a revestir-se dos paramentos sagrados e a dar início ao Santo Sacrifício.

A Missa prossegue. Os fiéis já receberam das mãos de Sisto o Pão do Céu. Em seguida, o Pontífice, rodeado pelos seus diáconos, toma assento na cátedra de pedra junto ao altar e começa a dirigir a palavra aos presentes. De repente, ouve-se ao longe um grito de alarme. O estrépito das armas e o tropel de numerosos passos ecoam rapidamente pelo corredor subterrâneo. Aqueles que não conseguem fugir encontram coragem na serenidade imperturbável dos ministros sagrados, enquanto seus corações se fortalecem pelas palavras quase inspiradas do Pontífice.

Um traidor conduzira os sicários de Valeriano aos recessos da Catacumba; e ali eles prenderam os sete diáconos e puseram mãos sacrílegas sobre a pessoa sagrada do Vigário de Cristo. O santo Pontífice suplicou-lhes que lhe tirassem a vida, mas poupassem o seu rebanho: 'Se é a mim que procurais, deixai que estes se retirem em paz'. Quando chegaram à cidade, os guardas encarregados de São Lourenço prepararam-se para separá-lo dos demais. Então, pela primeira vez, um amargo clamor de dor brotou de seu coração. Parecia-lhe que a gloriosa coroa do martírio estava prestes a ser-lhe arrebatada e que somente ele, entre os diáconos de Roma, ficaria privado da honra de acompanhar seu amado Pontífice no supremo sacrifício. 

Exclamou então, dirigindo-se a São Sisto: 'Pai, para onde ides sem vosso filho? Para onde ides, ó sacerdote, sem vosso diácono? Nunca costumastes oferecer o Sacrifício sem que eu vos assistisse como ministro. Em que vos desagradei? Em que faltei ao meu dever? Ponde-me agora à prova e vede se escolhestes um ministro indigno de distribuir o Sangue do Senhor'.

São Sisto, profundamente comovido pelo apelo daquele nobre jovem, consolou-o com palavras que revelavam o quanto conhecia e estimava o caráter de seu dileto arquidiácono: 'Não te deixo, meu filho. Uma prova maior e uma vitória mais gloriosa estão reservadas para ti, que és forte e te encontras no vigor da juventude. Nós somos poupados às torturas por causa de nossa fraqueza e da nossa idade. Dentro de três dias, tu me seguirás' [São Lourenço foi queimado vivo sobre uma grelha]. 

Em seguida, confiou reservadamente ao arquidiácono a missão de distribuir entre os pobres todos os tesouros da Igreja, inclusive os cálices de ouro e os candelabros de prata que haviam despertado a cobiça do prefeito. Logo depois, Sisto foi conduzido perante os juízes e condenado à morte por haver desobedecido ao édito do imperador. E, para tornar ainda mais solene e intimidatória a proibição de frequentar as Catacumbas, determinou-se que Sisto e quatro de seus diáconos fossem executados precisamente na capela onde haviam sido presos.

Mais uma vez o cemitério de São Pretextato ressoou com o tropel de homens armados. Mais uma vez os fiéis acorreram timidamente à entrada da capela subterrânea, que permanecia exatamente como fora deixada quando o sermão de São Sisto havia sido tão brutalmente interrompido. Mas São Lourenço já não estava ao lado do Pontífice. Preparava-se para o seu próprio e glorioso martírio. O venerável Papa foi colocado à força em sua cátedra episcopal, e um soldado decepou-lhe a cabeça, de modo que a cadeira ficou tingida pelo seu sangue. Felicíssimo, Agapito e outros dois diáconos receberam, ao mesmo tempo, a coroa do martírio. Mais tarde, os fiéis lhes deram sepultura na capela de São Januário.

Os preciosos despojos de São Sisto foram, durante a escuridão da noite, transportados com profunda veneração para o vizinho cemitério de São Calisto, onde foram depositados no lugar de maior honra da cripta, junto aos muitos Papas mártires que ali já repousavam. O reboco que revestia a entrada dessa cripta papal conserva numerosas inscrições (graffiti) deixadas pelos peregrinos dos séculos III e IV. Entre todos os nomes ali invocados, nenhum aparece com tanta frequência quanto o de São Sisto II.

Eis um exemplo: Sancte Sixte in mente habeas in orationes Aureliu Repentinu - São Sisto, lembrai-vos em vossas orações de Aurélio Repentino. Esse simples pedido gravado na parede da catacumba testemunha a fé dos primeiros cristãos na intercessão dos santos e a profunda veneração de que gozava o Papa mártir poucas gerações após o seu sacrifício.

No reboco de um lóculo escavado no arco acima da pedra do altar, na capela de São Januário, provavelmente datado da época de São Dâmaso, ainda hoje se pode ler uma singela inscrição: 'Januário, Felicíssimo e Agapito, concedei refrigério* à alma de...' - seguindo-se o nome, hoje perdido, da pessoa ali sepultada.

(Excertos da obra Legends of the Blessed Sacrament, de Emily Mary Shapcote, 1877)

* O termo 'refrigério' traduz o antigo pedido cristão refrigerare animam, muito frequente nas inscrições funerárias das catacumbas.