quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

ORAÇÃO: MEDIA VITA IN MORTE SUMUS

MEDIA VITA IN MORTE SUMUS é um canto gregoriano tradicionalmente atribuído a Notker, o Gago (840-912), monge beneditino da Abadia de Saint Gall (Suiça). Este hino era entoado tanto em cerimônias litúrgicas como em ritos de preparação para guerras religiosas, particularmente considerando a condição efêmera da existência humana que busca, no auxílio divino, a paz de espírito diante a inevitabilidade da morte.


MEDIA VITA IN MORTE SUMUS

Media vita in morte sumus:
quem quærimus adiutorem,
nisi te Domine,
qui pro peccatis nostris iuste irasceris?

Sancte Deus,
Sancte fortis,
Sancte misericors Salvator,
amaræ morti ne tradas nos.

In te speraverunt patres nostri,
speraverunt et liberasti eos.

Sancte Deus,
Sancte fortis,
Sancte misericors Salvator,
amaræ morti ne tradas nos.

Ad te clamaverunt patres nostri,
clamaverunt, et non sunt confusi.

Sancte Deus,Sancte fortis,
Sancte misericors Salvator,
amaræ morti ne tradas nos.

Gloria Patri, et Filio, et Spiritui Sancto.

Sancte Deus,
Sancte fortis,
Sancte misericors Salvator,
amaræ morti ne tradas nos.


NO MEIO DA VIDA, NA MORTE ESTAMOS

No meio da vida, na morte estamos,
a quem recorrer a não ser a Vós, Senhor,
que vos irais com justiça pelos nossos pecados?

Deus Santo,
Deus Forte,
Santo e misericordioso Salvador
não nos imponha uma amrga morte.

Nossos pais puseram sua confiança em vós,
esperaram e vós os livrastes.

Deus Santo,
Deus Forte,
Santo e misericordioso Salvador
não nos imponha uma amarga morte.

A vós clamaram nossos pais
clamaram e não foram confundidos.

Deus Santo,
Deus Forte,
Santo e misericordioso Salvador
não nos imponha uma amarga morte.

Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.

Deus Santo,
Deus Forte,
Santo e misericordioso Salvador
não nos imponha uma amarga morte.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

TESOURO DE EXEMPLOS (301/305)


301. JUSTO REMORSO

O herege Berengário, mesmo depois de fazer penitência de seus pecados, à hora da morte experimentou grandes angústias, causadas pelos remorsos da consciência. E dizia ao sacerdote que o socorria e animava naquela hora tremenda: 'Não temo os meus pecados, mas os que cometeram as almas a quem dei escândalo'. E tudo isto, apesar de que, para reparar esses pecados de escândalo, dera muito bom exemplo e se dedicara em sua casa ao ensino do catecismo.

302. MAUS CONSELHEIROS

Os cortesãos do imperador Frederico III, tutor do rei Ladislau da Hungria, sugeriram-lhe o envenenamento do seu pupilo para se apoderar da coroa. Mas o nobre imperador replicou-lhes: 'É este o conselho que me dais, homens sem fé e sem honra? Fora daqui! Que meus olhos não vos tornem a ver'. E os cortesãos foram expulsos da côrte e desterrados em castigo de seu criminoso conselho.

303. O MELHOR CILÍCIO

Uma senhora piedosa - ou que o julgava ser - era muito inclinada à maledicência e encontrava defeitos em toda gente. Um dia pediu ao diretor espiritual licença para colocar o cilício. O sacerdote, homem de muita experiência, conhecia a fundo a sua penitente. Pôs os dedos sôbre os lábios e disse: 'Filha, para a senhora, o melhor cilício será deixar de prestar atenção a tudo o que se passa além dessa porta'.

304. FUNDAMENTO DO DEVER

O dogma é a base da moral. Quando Miguel Renaud, em 1871, foi eleito deputado, ao chegar a Versalhes, alugou um apartamento por 150 francos mensais. Pagou adiantado. O proprietário perguntou-lhe se queria que lhe passasse o recibo. O deputado respondeu:
➖ Para que passar recibo entre homens de bem? Deus nos vê.
➖ O senhor crê em Deus? - perguntou o dono da casa.
➖ Creio, naturalmente - respondeu Miguel.
➖ Pois eu não - replicou o outro.
➖ Nesse caso, passe-me logo o recibo - disse o deputado - porque quando não se tem fé, a moral carece de fundamento.

305. CARLOS MAGNO E OS MANDAMENTOS

Carlos Magno, um dos maiores soberanos, foi provado por Deus com a morte de quatro dos seus filhos. Restando-lhe somente o seu filho Luís, quis associá-lo ao império. Chegado o momento solene, quando todos os magnatas rodeavam o altar sobre o qual estava a coroa, Carlos Magno volveu-se para o filho e, cheio de emoção, disse: 'Filho querido de Deus e do povo; tu, a quem Deus conservou para meu consolo, vês que minha vida está declinando; que os meus anos passam e a morte se aproxima. Prometes-me temer a Deus, guardar os mandamentos e proteger a Igreja?' Luís prometeu chorando de comoção. Carlos Magno, pondo a coroa sobre a cabeça de seu filho, acrescentou: 'Recebe, pois, a coroa e jamais te esqueças de teu juramento!'

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos', do Pe. Francisco Alves, 1958; com adaptações)


terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

SOBRE A TIBIEZA E A MISÉRIA HUMANA


1. Miserável serás, onde quer que estejas e para onde quer que te voltes, se não te voltares para Deus. Por que te afliges, quando não te correm as coisas a teu gosto e vontade? Quem é que tem tudo à medida de seu desejo? Nem eu, nem tu, nem homem algum sobre a terra. Ninguém há no mundo sem nenhuma tribulação ou angústia, quer seja rei quer papa. Quem é que vive mais feliz? Aquele, de certo, que sabe sofrer alguma coisa por Deus.

2. Dizem muitos mesquinhos e tíbios: Olhai, que boa vida tem este homem: quão rico é, quão grande e poderoso, de que alta posição! Olha tu para os bens do céu, e verás que nada são os bens corporais, mas muito incertos e onerosos, pois nunca vive sem temor e cuidado quem os possui. Não consiste a felicidade do homem na abundância dos bens temporais; basta-lhe a mediania. O viver na terra é verdadeira miséria. Quanto mais espiritual quer ser o homem, mais amarga lhe será a vida presente, porque conhece melhor e mais claramente vê os defeitos da humana corrupção. Porque o comer, beber, velar, dormir, descansar, trabalhar e estar sujeito a todas as demais grandes misérias e aflições para o homem espiritual que deseja estar isento disto e livre de todo pecado.

3. Sim, muito oprimido se sente o homem interior com as necessidades corporais neste mundo. Por isto roga o profeta a Deus, devotamente, que o livre delas, dizendo: 'Livrai-me, Senhor, das minhas necessidades' (Sl 25,17)). Mas, ai daqueles que não conhecem a sua miséria, e, outra vez, ai daqueles que amam esta miserável e corruptível vida! Porque há alguns tão apegados a ela - posto que mal arranjem o necessário com o trabalho ou com a esmola - que, se pudessem viver aqui sempre, nada se lhes daria do reino de Deus.

4. Ó insensatos e duros de coração, que tão profundamente jazem apegados à terra, que não gostam senão das coisas carnais. Infelizes! Lá virá o tempo em que hão de sentir, muito a seu custo, como era vil e nulo aquilo que amaram. Os santos de Deus, e todos os fiéis amigos de Cristo, não tinham em conta o que agradava à carne nem o que neste mundo brilhava, mas toda a sua esperança e intenção se fixavam nos bens eternos. Todo o seu desejo se elevava para as coisas invisíveis e perenes, para que o amor do visível não os arrastasse a desejar as coisas inferiores. Não percas, irmão meu, a confiança de fazer progressos na vida espiritual; ainda tens tempo e ocasião.

5. Por que queres adiar tua resolução? Levanta-te, começa já e dize: Agora é tempo de agir, agora é tempo de pelejar, agora é tempo próprio para me emendar. Quando estás atribulado e aflito, é tempo de merecer. Importa que passes por fogo e água, antes que chegues ao refrigério. Se não te fizeres violência, não vencerás os vícios. Enquanto estamos neste frágil corpo, não podemos estar sem pecado, nem viver sem enfado e dor. Bem quiséramos descanso de toda miséria; mas como pelo pecado perdemos a inocência, perdemos também a verdadeira felicidade. Por isso devemos ter paciência, e confiar na divina misericórdia, até que passe a iniquidade, e a vida absorva esta mortalidade.

6. Como é grande a fragilidade humana, inclinada sempre ao mal! Hoje confessas os teus pecados, e amanhã cometes outra vez os mesmos que confessaste. Resolves agora te acautelar, e daqui a uma hora de portas como quem nada se propôs. Com muita razão nos devemos humilhar e não nos ter em grande conta, já que tão frágeis somos e tão inconstantes. Assim, facilmente se pode perder pela negligência o que tanto nos custou a adquirir com a divina graça.

7. Que será de nós no fim, se já tão cedo somos tíbios? Ai de nós, se assim procuramos repouso, como se já estivéssemos em paz e segurança, quando nem sinal aparece em nossa vida de verdadeira santidade. Bem necessário nos fora que nos intruíssemos de novo, como bons noviços, nos bons costumes; talvez que assim houvesse esperança de alguma emenda futura e maior progresso espiritual.

(Da Imitação de Cristo, de Thomas de Kempis)

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

PALAVRAS DA SALVAÇÃO

'Pecando, o padre perde a luz e cai nas trevas. Mais lhes valera, assegura São Pedro, não ter conhecido o caminho da justiça, do que voltar atrás depois de o haver conhecido. Ó, sem dúvida, mais valia para um padre que peca ser antes um camponês ignorante, que nunca tivesse estudado coisa alguma; porque depois de tantos conhecimentos adquiridos — pelos livros que leu, pelos oradores sagrados que ouviu, pelos diretores que teve — depois de tantas luzes recebidas de Deus, o desgraçado calca aos pés todas as graças, pecando, e merece que as luzes recebidas só sirvam para o tornar mais cego e impenitente. A maior ciência, diz São Crisóstomo, dá lugar a mais severo castigo; se o pastor cometer os mesmos pecados que as suas ovelhas, não receberá o mesmo castigo, mas uma pena muito mais dura. Um padre cometerá o mesmo pecado que os seculares; mas sofrerá um castigo muito maior, permanecerá mais profundamente cego que todos os outros; será punido conforme o anúncio do Profeta: Que vendo não o vejam, e ouvindo não compreendam!'

(São Jerônimo)

domingo, 18 de fevereiro de 2024

EVANGELHO DO DOMINGO

 

'Verdade e amor, são os caminhos do Senhor' (Sl 24)

Primeira Leitura (Gn 9,8-15) - Segunda Leitura (1Pd 3,18-22)  -  Evangelho (Mc 1,12-15)

 18/02/2024 - Primeiro Domingo da Quaresma

12. O RETIRO NO DESERTO


Jesus acabara de se submeter ao batismo nas águas do Jordão, evento que deflagara, então, pela manifestação expressa nas palavras do Pai e pela ação do Espírito Santo descido do céu na forma de uma pomba, o início do tempo de sua pregação pública, na investidura messiânica do Filho de Deus Vivo. E, diante desta missão portentosa, a primeira medida do Espírito Santo é conduzir Jesus ao deserto, para um tempo singular de devoção, oração e profundo recolhimento interior, na consumação da alma elevada à divina perfeição.

Neste Primeiro Domingo da Quaresma, o Evangelho nos invoca a começar também esse tempo de jejuns e penitência seguindo o exemplo de Jesus, com um retiro no deserto. O deserto para nós representa um lugar de provação, de tentação e de exílio; afastados do cotidiano do mundo, somos desafiados a viver um tempo singular de conscientização e de reflexão sobre a limitação dos valores mundanos e da preparação de almas perseverantes na superação destes limites e indo mais além, para águas mais profundas, na busca dos valores da graça santificante que nos forjam herdeiros dos Céus.

Ir ao deserto afastado do mundo não implica se esconder do mundo. Jesus 'ficou no deserto durante quarenta dias, e aí foi tentado por Satanás. Vivia entre animais selvagens, e os anjos o serviam' (Mc 1, 13). Quarenta dias é o tempo bíblico de referência para tempos de grande provação; as tentações de satanás no deserto repetem as tentações que nos são impostas pelo demônio durante toda a nossa vida, até no momento da morte; a vida entre animais selvagens caracteriza uma vida no exílio, longe do cotidiano do mundo.

Estar no deserto não significa um isolamento da alma. Deus está presente em nós em todos os momentos, com as graças necessárias para a plena superação de todas as provações, tentações e abatimentos da caminhada e, por isso, 'os anjos o serviam' (Mc 1, 13). Encerrado o tempo de vigília e de preparação no deserto e dado o sinal final da Providência Divina, pela prisão de João Batista, o Antigo Testamento torna-se passado de vez e tem início a pregação da Boa Nova para a salvação da humanidade, evocada com os próprios termos com que o Precursor anunciara os tempos da redenção (conforme Mt 3, 1-2): 'O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!' (Mc 1, 15).

sábado, 17 de fevereiro de 2024

O DOGMA DO PURGATÓRIO (LXXV)

Capítulo LXXV

Razões para Assistência às Santas Almas - A Nossa Falta de Reflexão e Zelo - Exortações de Santos sobre a Excelência dessa Obra de Caridade

Acabamos de passar em revista os meios e recursos que a Misericórdia Divina colocou em nossas mãos para o alívio de nossos irmãos no Purgatório. Esses meios são poderosos e os recursos são muitos; mas será que os utilizamos abundantemente? Tendo em nosso poder o auxílio às pobres almas, temos zelo suficiente para o fazer? Somos tão ricos em caridade como Deus é rico em misericórdia? Quantos cristãos, infelizmente, pouco ou nada fazem em intenção dos defuntos! E os que não se esquecem deles, os que têm suficiente caridade para os ajudar com os seus sufrágios, quantas vezes não lhes falta zelo e fervor! Comparai os cuidados que dispensamos aos doentes com a assistência que damos às almas penadas. Quando um pai ou uma mãe são acometidos de alguma doença, quando um filho ou uma pessoa que nos é querida é vítima de sofrimento, que cuidado, que solicitude e quanta devoção da nossa parte! Mas as almas santas, que não nos são menos queridas, definham sob o peso, não de uma doença dolorosa, mas de tormentos expiatórios mil vezes mais cruéis. Somos igualmente fervorosos, solícitos e disponíveis para as aliviar? 'Não' - diz São Francisco de Sales - 'não nos lembramos suficientemente dos nossos amigos queridos que partiram. A sua lembrança parece perecer com o som dos sinos fúnebres e esquecemos que a amizade que encontra um fim, mesmo na morte nunca foi uma amizade genuína'.

De onde vem esse triste e culposo esquecimento? A sua causa principal é a falta de reflexão. Quia nullus est qui recogitat corde - Porque não há quem considere no coração (Jr 12,2). Perdemos de vista os grandes motivos que nos impelem ao exercício dessa caridade para com os falecidos. É, portanto, para estimular o nosso zelo que vamos recordar esses motivos e colocá-los sob a luz mais forte possível.

Podemos dizer que todos esses motivos se resumem nas seguintes palavras do Espírito Santo: 'É um pensamento santo e salutar orar pelos mortos, para que sejam libertados de seus pecados, isto é, da punição temporal devida aos seus pecados (2Mc 12,46). Em primeiro lugar, é uma obra santa e excelente em si mesma, além de agradável e meritória aos olhos de Deus. Por conseguinte, é uma obra salutar, extremamente proveitosa para a nossa própria salvação, para o nosso bem-estar neste mundo e no outro.

'Uma das obras mais santas, um dos melhores exercícios de piedade que podemos praticar neste mundo' - nos diz Santo Agostinho - 'é oferecer sacrifícios, esmolas e orações pelos mortos' (Homilia 16). 'O alívio que obtemos para os defuntos' - diz São Jerônimo - 'obtém para nós uma misericórdia equivalente'. Considerada em si mesma, a oração pelos mortos é uma obra de Fé, de Caridade e, muitas vezes, até de Justiça.

Por primeiro, quem são de fato as pessoas a quem devemos tratar de assistir? Quem são essas almas santas, predestinadas, tão queridas de Deus e de Nosso Senhor Jesus Cristo, tão queridas da sua Mãe, que a Igreja recomenda incessantemente à nossa caridade? Almas que nos são também tão queridas, pois estiveram, talvez, intimamente unidas a nós nesta terra, e que nos suplicam com estas palavras comoventes: 'Tende piedade de mim, tende piedade de mim, ao menos vós, meus amigos' (Jó 19,21). Em segundo lugar, em que necessidades elas se encontram? Infelizmente, sendo muito grandes as suas necessidades, as almas que assim sofrem têm direito à nossa ajuda na proporção da sua total incapacidade de fazer algo por si próprias. Em terceiro lugar, que bem podemos proporcionar a estas almas? O bem maior, pois podemos ajudá-las a conquistar a posse da bem-aventurança eterna.

'Assistir as almas do Purgatório' - diz São Francisco de Sales - 'é praticar a mais excelente das obras de misericórdia, ou melhor, é praticar de maneira mais sublime todas as obras de misericórdia juntas: é visitar os doentes; é dar de beber aos que têm sede da visão de Deus; é alimentar os famintos, resgatar os prisioneiros, vestir os nus, proporcionar aos pobres exilados a hospitalidade da Jerusalém Celeste; é consolar os aflitos, é instruir os ignorantes - em suma, é praticar todas as obras de misericórdia numa única obra'. Esta doutrina concorda muito bem com a de São Tomás, que diz em sua Summa: 'Sufrágios para os mortos são mais agradáveis a Deus do que sufrágios para os vivos; porque os primeiros estão em necessidade mais urgente deles e porque não são capazes de ajudar a si mesmos, como o podem os vivos' (Suplemento, Q. 71, art. 5).

Nosso Senhor considera toda a obra de misericórdia exercida para com o nosso próximo como feita para Ele próprio. 'É a Mim que o fizestes' - Mi hi fecistis. Isto é especialmente verdade para a misericórdia praticada em intenção às pobres almas sofredoras. Foi revelado a Santa Brígida que aquele que, com os seus sufrágios, tira uma alma do Purgatório, tem o mesmo mérito como se tirasse o próprio Jesus Cristo do cativeiro.

Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

SOBRE A ALEGRIA CRISTÃ

'Vá, coma o seu pão com alegria e beba o seu vinho com o coração alegre, pois Deus se alegra com as suas obras' (Ecl 9,7)

Se quisermos explicar estas palavras no seu sentido mais óbvio e imediato, diremos com razão que a exortação do Eclesiastes nos parece esclarecer que, levando um modo de vida simples e aderindo aos ensinamentos de uma fé correta para com Deus, devemos comer o nosso pão com alegria e beber o nosso vinho com o coração alegre, evitando todo o mal nas nossas palavras e toda a iniquidade na nossa conduta, procurando, pelo contrário, fazer de tudo o que é certo o objeto dos nossos pensamentos, e procurando, na medida do possível, ajudar os outros, com misericórdia e liberalidade; isto é, entregar-nos aos cuidados e obras que agradam a Deus.

Mas a interpretação mística eleva-nos a considerações ainda mais elevadas e faz-nos pensar naquele pão celeste e místico, que desce do céu e dá vida ao mundo; e também nos ensina a beber com o coração alegre o vinho espiritual, aquele que brotou do lado daquela que é a videira verdadeira, no tempo da sua paixão salvadora. Como se diz no Evangelho da nossa salvação: Jesus tomou o pão, deu graças e disse aos seus discípulos e apóstolos: 'Tomai e comei, isto é o meu corpo, que será entregue por vós para remissão dos pecados'. E, da mesma forma, tomou o cálice e disse: 'Bebam dele todos vocês, este é o cálice do meu sangue, sangue da nova aliança, que será derramado por vocês e por todos os homens para o perdão dos pecados'. Na verdade, quem come este pão e bebe este vinho fica verdadeiramente pleno de alegria e pode exclamar: 'Tu puseste alegria nos nossos corações'.

(Do Comentário sobre Eclesiastes, de São Gregório de Agrigento)

O católico deve ter alegria e, para tanto, ter senso de humor. Porque o humor é a fonte da ironia saudável e do riso franco, frutos de um intelecto sadio, capaz de contemplar e compreender o ser na sua harmonia e no esplendor da sua beleza. São Thomas More captou bastante bem essa percepção na sua oração da alegria, repleta de bom humor.

ORAÇÃO DO BOM HUMOR

Dai-me, Senhor, uma boa digestão
e, claro, também algo para digerir.
Dai-me a saúde do corpo
e o bom humor necessário para mantê-la.

Dai-me, Senhor, uma alma santa
que guarde a memória de tudo que é bom, belo e puro,
para que, quando sobrevir o pecado, não tenha medo,
mas encontre uma maneira de consertar as coisas.

Dai-me uma alma que não conheça o tédio
nem murmurações, queixas ou lamentações, nem apenas gemer ou suspirar,
e faça com que tudo isso não preocupe e nem tenha importância
para aquela coisa embaraçosa que chamo de 'eu'.

Dai-me, Senhor, o senso de humor;
dai-me a graça de saber ouvir e dar risadas
para que eu possa trazer um pouco de alegria à minha vida
e possa compartilhar esta alegria com os que me rodeiam.
Amém.

(São Thomas More)

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

NON NISI TE, DOMINE

 


São Tomás de Aquino rezava diante do crucifixo na capela de São Nicolau de Nápoles, qunado o sacristão, Irmão Domingo de Caserta, ouviu o Crucificado falar ao Doutor Angélico: 'Tomé, o que você escreveu sobre mim é muito bom; que recompensa você quer pelo seu trabalho?' Ao que São Tomás respondeu: 'Senhor, não quero nada além de ti' - Non nisi te, Domine.

Neste diálogo sobrenatural, Jesus aprova por inteiro a filosofia aquinate. E, por outro lado, nos ensina de forma magistral como deve ser a nossa relação com Deus: recolhimento, oração, cumprimento integral em nossa vida da santa vontade de Deus. Deus nos basta. O nosso conhecimento de Deus é palha e neblina, mas o nosso amor a Deus constitui uma sobreelevação de nós mesmos como criaturas, sobre o abismo das limitações humanas, diante e em direção ao Criador.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

QUARTA DE CINZAS


Memento, homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris

'Lembra-te, homem, que és pó e ao pó retornarás!(Gn 3,19). A Quarta-Feira de Cinzas é o primeiro dia do tempo da Quaresma, quarenta dias antes da Páscoa. Neste dia por excelência refletimos sobre a nossa condição mortal nesta vida e a eternidade de nossas almas na vida futura. Num tempo em que se valoriza tanto a dimensão física, a beleza do corpo, a imposição das cinzas nos desvela a dura realidade do nosso corpo mortal: apenas pó que há de se consumir em cinzas.

Esse dia dá início, portanto,  a um tempo de profunda meditação sobre a nossa condição humana diante da grandeza e misericórdia de Deus. Tempo para fazer da nossa absurda fragilidade, sustentáculos da verdade e da fé; tempo para fazer de nossa pequenez e miséria, um templo de oração e um arcabouço de graças; tempo para transformar a argila pálida de nossos feitos e conquistas, em patamares seguros para a glória de Deus. Um tempo de oração, jejum e caridade. Um tempo de oração, desagravo, conversão, reparação. E um tempo de penitência, penitência, penitência...

A penitência é traduzida por atos de mortificação, seja na caridade silenciosa de um pequeno gesto, seja na determinação silenciosa de um pequeno 'não!' Pequenos gestos: uma visita a um amigo doente, uma palavra de conforto a quem padece ausências, um bom dia ainda nunca ofertado; ou um pequeno 'não': à abstinência de carne ou refrigerante ou ao fumo; abrir mão de ter sempre a última resposta ou para aquela hora a mais de sono; simplesmente dizer não a um livro, a uma música, a uma revista, a um programa de televisão. 

Propague o silêncio, sirva-se da modéstia; invista no anonimato, não se ensoberbeça, pratique a tolerância, estanque a frivolidade, consuma-se na obediência. Lembra-te que és pó e todas as tuas ações, aspirações e pensamentos vão reverberar em ti as glórias de Deus.

Abre-se hoje o Tempo da Quaresma: 'convertei-vos e crede no Evangelho'. Pois é no Evangelho (Mt 6, 1-6.16-18) que Jesus nos dá os instrumentos para a realização de uma autêntica renovação interior: oração, jejum e caridade. Com estas três práticas fundamentais, o tempo de penitência da quaresma é convertido em caminho de santificação ao encontro de Jesus Ressuscitado que vem, na Festa da Páscoa.

DIÁRIO DA QUARESMA - Primeiro Dia

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

QUARESMA 2024

A Quaresma é assumida pela Igreja como um tempo de preparação para a celebração da Páscoa, movido essencialmente pelo incentivo maior e mais intenso pelo povo cristão das práticas de oração constante e penitência, como jejuns e obras de caridade. A Quaresma tem início na Quarta-Feira de Cinzas (14 de fevereiro, neste ano de 2024) e se estende até as vésperas imediatas da Missa Vespertina In Coena Domini na Quinta-Feira Santa, ou seja, na Quarta Feira da Semana Santa (dia 27/03/2024). Por se tratar de um ano bissexto, excepcionalmente neste ano a Quaresma contempla 41 dias e não 40 dias como comumente.



Sugestão: Adotar este ciclo de leituras e devoções diárias durante esta Quaresma (clicar sobre o título abaixo)

Primeiro Dia - Quarta Feira de Cinzas
Quadragésimo Dia - Quarta Feira da Semana Santa 

Não incluir na sequência das datas das Leituras do Diário os dias 22/02, 29/02, 19/03 e 24/03/2024 (conforme postagem)

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

FRASES DE SENDARIUM (XXII)


'Deus juntou todas as águas e criou o mar;
Deus juntou todas as graças e criou Maria'

(São Luís Grignion de Montfort) 

Louvar Nossa Senhora é cantar a obra prima de Deus, usando as ferramentas limitadas do amor humano; que nós possamos amar Jesus com o amor do coração de Maria:
 

Mãe, dá-me o teu coração

 

Mãe, dá-me o teu coração

quero amar o teu Filho

quero amar meu Irmão

 

Quero / o coração mais singelo/

o mais simples, o mais belo /

que Deus já criou /

Quero / o coração mais bendito /

o mais puro e o mais bonito /

e o que mais amou /

 

Mãe, dá-me o teu coração

quero amar o teu Filho

quero amar meu Irmão

 

Quero / este coração materno /

que se doou eterno /

aos Filhos da Luz/

Quero / o coração mais fiel /

que ligou a Terra ao céu /

no amor a Jesus /

 

Mãe, dá-me o teu coração

quero amar o teu Filho

quero amar meu Irmão

domingo, 11 de fevereiro de 2024

EVANGELHO DO DOMINGO

'Sois, Senhor, para mim, alegria e refúgio' (Sl 31)

Primeira Leitura (Lv 13,1-2.44-46) - Segunda Leitura (1Cor 10,31-11,1)  -  Evangelho (Mc 1,40-45)

 11/02/2024 - Sexto Domingo do Tempo Comum 

11. 'EU QUERO, FICA CURADO!'


No tempo de Jesus, os leprosos eram tomados como homens ímpios e imundos; a terrível doença era a simples manifestação externa de pecados gravíssimos ocultos. A exclusão social os exilava em grupos fora das cidades; o temor e o desprezo dos homens acompanhavam as suas chagas visíveis e outras muito piores que não se revelavam fisicamente. As vestes imundas tentavam esconder a lepra do corpo, que devia ser proclamada, em altos brados, a todos os passantes: 'Impuro, impuro!' Um leproso, porém, ousou sobrepor a sua fé a todos os ditames e regulações extremas da lei vigente e vai ao encontro de Jesus e O interpela em súplica confiante: 'Se queres, tens o poder de curar-me' (Mc 1, 40).

Reconhecido de suas misérias e limitações, a fé daquele homem expressa-se em fluxos de humildade e resignação. Mas vai muito além disso; libertando-se das amarras de sua triste e perversa condição humana, manifesta publicamente a sua crença confiante na autoridade e na misericórdia de Jesus, não apenas para afastar os males, mas para fazer milagres para suprimi-los. Aquele homem crê profundamente que Jesus tem o poder divino de fazer a cura impensável e, nessa crença, modela uma das mais belas profissões de fé descritas nos Evangelhos: 'Se queres, tens o poder de curar-me' (Mc 1, 40).

Jesus, movido de compaixão, determinou prontamente: 'Eu quero: fica curado!' (Mc 1, 41). Jesus demonstra, assim, o poder extremado da graça em reação a uma oração fervorosa e confiante. Mas, a ação de Jesus vai além das primeiras aparências pois, ao tocar aquele homem, a lepra já havia desaparecido. Jesus não toca apenas um corpo livre das chagas e sequelas de uma doença repulsiva, mas a alma purificada de um homem livre da doença do pecado. As multidões que cercam Jesus buscam, em maior grau, os fatos que lhes sensibilizam os instintos. Mas a glória de Deus é manifestada ali muito além das coisas sensíveis.

É o pecado que inocula uma lepra na alma e a priva da graça santificante, das virtudes e dos bens espirituais e, assim, a exclui, não por um tempo da sociedade dos homens, mas da herança eterna das bem aventuranças de Deus. É a cura da alma que nos deve forjar a ousadia da fé ao irmos ao encontro de Jesus pelos caminhos da vida. Que, a exemplo do leproso, a nossa fé possa superar, então, a barreira dos instintos e suplicar a Deus, mais do que tudo, a cura espiritual, para que sejamos homens limpos e santos na peregrinação dos eleitos à pátria celeste.

GLÓRIAS DE MARIA - NOSSA SENHORA DE LOURDES

Em Lourdes, Nossa Senhora apareceu a Bernadette Soubirous, para confirmar o dogma de sua imaculada conceição e para ratificar os valores incomensuráveis da oração, da penitência e da verdadeira vida de devoção a Deus. Nas palavras da própria vidente, eis o relato da primeira de um total de 18 aparições:

'A primeira vez que fui à gruta, era quinta-feira, 11 de fevereiro [quinta-feira anterior à quarta-feira de cinzas]. Após o jantar, saí para recolher galhos secos [a lenha para aquecer a casa simples de sua família havia acabado, durante um período de tempo particularmente frio] com a minha irmã Toinette e uma vizinha chamada Jeanne Abadie. Após procurarmos lenha em outros lugares sem sucesso, nos deparamos com o canal do moinho. Perguntei, então a elas se queriam ver onde a água do canal se encontrava com o Gave [rio Gave]. Elas me responderam que sim. Seguimos o canal do moinho até que nos encontramos diante de uma gruta [gruta de Massabielle], não podendo mais prosseguir.

Jeanne e minha irmã tiraram rapidamente os seus tamancos e atravessaram o fluxo que não era intenso. Após atravessarem o canal, começaram a esfregar os pés, dizendo que a água estava gelada. Isso aumentou a minha preocupação [Bernadette sofria de asma e não podia se expor à friagem]. Chegou a pedir a Jeanne [maior e mais forte que ela] para levá-la nos ombros, no que não foi atendida: 'Se você não consegue vir, fique aí então!' Apanhando galhos secos ali perto, as duas se afastaram e eu as perdi de vista. Tentei ainda buscar uma passagem mais embaixo sem ter que tirar os sapatos, colocando pedras no canal, mas não consegui passar. 

(gruta à época das aparições; em primeiro plano, o canal que Bernadette não conseguiu atravessar)

Então, regressei diante da gruta e comecei a tirar os sapatos, para fazer a travessia como elas fizeram. Tinha acabado de tirar a primeira meia, quando ouvi um barulho como de uma ventania. Então girei a cabeça para um lado e para o outro e não vi nada, nem nenhum movimento das folhas das árvores. Continuei a tirar os sapatos e nisso ouvi, mais uma vez, o mesmo barulho. Olhando em direção à gruta, vi um arbusto - um único arbusto encravado nas aberturas da rocha - balançando fortemente. Quase no mesmo tempo, saiu do interior da gruta uma nuvem de cor dourada e, logo depois, uma senhora, jovem e muito bonita, como eu nunca tinha visto antes, veio e se colocou na entrada da abertura, suspensa sobre uma roseira [mais tarde, instada a descrever a aparição, Bernadette a descreveu assim: 'Ela tinha a aparência de uma jovem de dezesseis ou dezessete anos e estava vestida com uma túnica branca, um véu também branco, uma cinta azul e os pés desnudos e ornados com uma rosa dourada em cada pé, ambos encobertos pelas últimas dobras do seu manto. Ela segurava na mão direita  um rosário de contas brancas com uma corrente de ouro brilhando como as duas rosas em seus pés]. 


Sorrindo para mim, fez um sinal para que eu me aproximasse. Eu pensei estar sendo vítima de uma ilusão. Esfreguei os olhos; porém, ao olhar outra vez, ela continuava ali e, sorrindo, me deu a entender que eu não estava enganada. Tirei o meu terço do bolso e, caindo de joelhos, tentei rezá-lo. Queria fazer o sinal da cruz, mas não conseguia sequer levar a mão à testa. A senhora fez com a cabeça um sinal de aprovação e, tomando o seu próprio terço, começou a oração e, somente então, pude fazer o mesmo. Assim que fiz o sinal da cruz, desapareceu o grande medo que sentia e fiquei tranquila. Deixou-me rezar o terço sozinha, somente acompanhando as contas com os dedos, em silêncio; somente rezando oralmente o Gloria  comigo, ao final de cada dezena. Ao final da recitação do terço, a senhora voltou ao interior da gruta e a nuvem dourada desapareceu com ela.

Assim que a senhora desapareceu, Jeanne e a minha irmã regressaram, encontrando-me de joelhos no mesmo lugar onde tinham me deixado, fazendo troça da minha covardia. Mergulhei os pés no canal e a água estava bem aquecida e elas aparentemente não se importaram com isso. Perguntei às duas se não haviam visto algo na gruta: 'Não'. Me disseram, então: 'Por que nos pergunta isso?' 'Ó, por nada, por nada', respondi tentando mostrar indiferença. Pensava sem parar em tudo o que tinha acabado de ver. No retorno à casa, diante da grande insistência delas, contei-lhes tudo o que acontecera, pedindo que não dissessem nada a ninguém.


À noite, em casa, durante a oração familiar, fiquei tão perturbada que comecei a chorar. Minha mãe me perguntou qual era o problema. Minha irmã começou a responder por mim e eu fui obrigada a contar os acontecimentos daquele dia. 'São ilusões' - respondeu minha mãe - 'tire essas coisas da cabeça e não volte mais à Massabielle'. Fui dormir, mas eu não conseguia tirar da memória o rosto e o sorriso doce da senhora. Era impossível acreditar que eu podia estar enganada'.

sábado, 10 de fevereiro de 2024

A SANTIFICAÇÃO NOS TEMPOS DO CARNAVAL

Se a alma cristã compreendesse, na sua verdadeira agonia, o que o pecado produz nas coortes divinas, teria o zelo dos santos e um horror desmedido a praticar ainda que fosse a mais leve ofensa a Deus. No carnaval, o desprezo e as injúrias às coisas sagradas são levadas até às últimas consequências, aos últimos limites e a nudez, o prazer e o hedonismo mais escancarado são colocados nos altares da insensatez humana, como um tributo e idolatria aos instintos e às paixões humanas mais desregradas.

E, em meio a loucuras e deboches morais cada vez mais incrementados, prega-se como atributo da dignidade e da cidadania, os valores de tolerância e do discernimento para se lidar com o 'livre pensar' alheio. Pode-se prescindir ao máximo de tolerância com os princípios cristãos, mas há que se criar modelos de restrições e imposições severas a todos que não compartilham da mundanidade mais descabida, da miséria humana mais exacerbada, do aniquilamento das referências morais mais autênticas, da conspurcação da fé.

Não há carnaval católico, porque não há alegria cristã no pecado. Não há santo carnaval, porque você não vai encontrar Jesus sob serpentinas e paetês, porque Ele não percorreu a via dolorosa do Getsêmani ao Calvário há dois milênios para o encontrar nestes quatro dias de ócio e de folia. Aquelas gotas de sangue são o testemunho da tortura mental imposta pelos pecados dos homens de todos os tempos e como eles se espalham como enxames de abelhas nestes tempos do carnaval! 

É mister que sua alma cristã diga não à vertigem coletiva, ao desvario de tantos. E sua resposta não pode ficar limitada ao isolamento do burburinho ou ao descanso dos acomodados. Mais do que nunca, torna-se imperativa a santificação desse tempo de carnaval. Seja num retiro espiritual, seja no anonimato de sua pequena oração diante o Santíssimo, seja pela intercessão junto à Virgem Maria, rezemos em desagravo a tantos pecados cometidos nesta época, particularmente pela omissão e covardia daqueles que estão consagrados a Deus pelo batismo, pela confirmação, pela devoção sacramental, missionária ou religiosa. 

Rezemos pela santificação dos tempos de carnaval. Rezemos pelos homens e mulheres que padecem as falsas alegrias do pecado. Rezemos pelos insensatos que buscam nas ruas festivas e ensurdecedoras um calvário feito de purpurinas. E que esta torrente de graças, tangidas pelo desagravo, expiação e perdão de tantos pecados de agora, seja a fonte de redenção para muitos em outros carnavais.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

TESOURO DE EXEMPLOS (296/300)

 

296. INFLUÊNCIA DA MÃE RELIGIOSA

O famoso pianista Chopin teve uma mãe muito boa. Ele, porém, frequentando o mundo corrompido, perdeu a fé. Em sua derradeira enfermidade, visitou-o um grande amigo seu, o sacerdote polonês Jelowieski, que lhe falou de Deus. Nada conseguiu. E vendo que os dias iam passando sem nada conseguir, tomou o Crucifixo e, colocando-o nas mãos de Chopin, lhe disse: 'Tu te recusarás a crer o que tua mãe te ensinou quando eras criança?'

Chopin pôs-se a chorar e pediu os santos sacramentos, que recebeu com grande fervor. Agradecido a tão bom amigo, ao despedir-se dele antes de morrer, disse: 'Adeus, Jelowieski; fôste para mim o amigo mais fiel'. A lembrança da sua mãe salvou Chopin.

297. DESTINO DE UMA ALMA

Um comerciante que se enriquecera muito cometendo toda a sorte de fraudes, à hora da morte, chamou um tabelião e ordenou-lhe que, ao seu testamento, acrescentasse o seguinte: 'Quero que, depois de morto, o meu corpo seja devolvido à terra de onde saiu, e minha alma ao demônio ao qual pertence'. 

As pessoas presentes ficaram aterrorizadas, e esforçaram-se por dissuadi-lo; mas ele insistiu com energia, dizendo: 'Não me retrato. Quero que minha alma seja entregue ao demônio, junto com a da minha esposa e dos meus filhos. A minha,  porque me enriqueci à custa de furtos e fraudes; a de minha esposa, porque ela me induziu a tais pecados com seu luxo desmedido; as de meus filhos porque, levado pelo amor que lhes tenho, nunca me decidi a restituir o que não é meu'. Ditas essas palavras, expirou o infeliz sem poder reparar o mal que fizera.

298. INTERESSANTE ELOGIO FÚNEBRE

Em 1887 morreu na cidade de N. uma velhinha que passava dos cem anos. Fôra sempre muito admirada, porque em sua longa existência nunca a ouviram falar mal do próximo nem murmurar. E como ao morrer ainda conservava todos os dentes, fez-lhe o pároco êste elogio original: 'Esta boa mulher conservou todos os dentes porque nunca mordeu a ninguém!'

299. ACHADO FUNESTO

Um pedreiro encontrou uma caixinha numa das paredes da casa em que trabalhava. Abriu-a e encontrou-a cheia de jóias e moedas de ouro e prata. A ninguém deu parte o achado e levou a caixinha para casa. Três dias depois, indo a uma joalheria para vender as jóias encontradas, o joalheiro chamou imediatamente a polícia para que o prendessem: o joalheiro reconheceu as jóias que há um ano apenas vendera a um senhor que fôra assassinado e roubado. O pedreiro não pôde justificar a posse das jóias e foi condenado a muitos anos de prisão.

300. A CAPA DE SÃO MARTINHO

Monsenhor Guibert, arcebispo de Tours, numa de suas visitas pastorais, advertiu que as meninas, que se apresentavam para receber o sacramento da crisma, vestiam com muita imodéstia. Não as  teria admitido ao sacramento, se o vigário não lhe houvesse apresentado tôda a sorte de escusas. Contudo, o santo prelado não se absteve de dizer em voz alta, para que o ouvissem: 'Seria oportuno que São Martinho desse a estas meninas a metade de sua capa'.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos', do Pe. Francisco Alves, 1958; com adaptações)


quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

08 DE FEVEREIRO - SANTA JOSEFINA BAKHITA

  


A primeira santa africana nasceu numa aldeia próxima a Dardur, no Sudão, por volta de 1869 – ela mesma não sabia a data precisa. Raptada por traficantes de escravos aos nove anos de idade, foi trancada inicialmente em um quarto escuro e miserável, depois espancada barbaramente e vendida cinco vezes nos mercados do Sudão, padecendo todo tipo de humilhação e selvageria nas mãos dos seus senhores. Este martírio atroz desde tenra idade roubou-lhe o próprio nome; o nome Bakhita - 'afortunada' em árabe -  foi-lhe dado pelos próprios traficantes.

Mas o pior dos tormentos ainda estava por vir. Comprada por um general turco, foi submetida a sofrimentos inimagináveis a serviço da mãe e da esposa deste homem, que incluíram dezenas de tatuagens no seu corpo abertas por navalha e que lhe legaram 144 cicatrizes e um leve defeito ao caminhar. A descrição destes tormentos foi assim exposta nas palavras da santa:

'Uma mulher habilidosa nesta arte cruel [tatuagem] veio à casa principal... nossa patroa colocou-se atrás de nós, com o chicote nas mãos. A mulher trazia uma vasilha com farinha branca, uma vasilha com sal e uma navalha. Quando terminou de desenhar com a farinha, a mulher pegou da navalha e começou a fazer cortes seguindo o padrão desenhado. O sal foi aplicado em cada ferida... Meu rosto foi poupado, mas 6 desenhos foram feitos em meus seios, e mais 60 em minha barriga e braços. Pensei que fosse morrer, principalmente quando o sal era aplicado nas feridas... foi por milagre de Deus que não morri. Ele havia me destinado para coisas melhores'.

Em 1882, com o retorno do general à Turquia, Bakhita foi comprada pelo cônsul italiano Calixto Legnani que a tratou como serviçal e não como escrava, sem humilhações e castigos. Diante de uma revolução nacionalista no Sudão, o cônsul retornou à itália levando Bakhita consigo, que foi cedida então a amigos do cônsul, o casal Michieli, em cuja casa começou a morar na região do Veneto, tendo por encargo especial os cuidados da filha do casal, a pequena Mimina. Foi nesta família católica que Bakhita conheceu a revelação de Jesus Cristo, sua flagelação e sua morte de cruz. O caminho de Bakhita estava traçado: da conversão à santidade pela via da caridade e do perdão. 

Em 9 de janeiro de 1890, foi batizada e crismada com o nome de Josefina e recebeu a Sagrada Comunhão das mãos do Patriarca de Veneza. Pouco depois, solicitou seu ingresso no Instituto das Filhas da Caridade, fundado por Santa Madalena de Canossa. Em 8 de dezembro de 1896, em Verona, pronunciou os votos finais de religiosa da congregação. A partir de então, por mais de 50 anos, sua vida foi um ato constante de amor a Deus e à caridade para com todos. Além de operosa nos serviços simples como na sacristia e na portaria do convento, realizou várias viagens através da Itália para difundir a sua missão: a libertação dada a ela pelo encontro com Cristo deveria ser compartilhada com o maior número possível de pessoas; a redenção que experimentara não podia ser guardada como posse, mas levada como sinal de esperança para todos.


Em 8 de fevereiro de 1947, após muito sofrimento de doenças como bronquites e pneumonias, a Irmã Josefina faleceu no convento canossiano de Schio, com a idade de 78 anos. Na hora da sua morte, seu semblante pareceu iluminar-se e exclamou com alegria suas últimas palavras 'Como estou contente! Nossa Senhora, Nossa Senhora!' A Irmã Moretta - a Irmã Morena - como era carinhosamente conhecida entregava serenamente a sua alma ao Senhor, rodeada pela comunidade em pranto e em oração. Seu corpo foi enterrado originalmente na capela de uma família de Schio, para um sepultamento definitivo posterior no Templo da Sagrada Família. Quando isso foi finalmente preparado, verificou-se que o corpo de Bakhita estava incorrupto, sendo o mesmo sepultado então sob o altar da igreja do mesmo convento. Em 17 de maio de 1992 foi beatificada e, em 1º de outubro de 2000, foi elevada à honra dos altares e declarada santa pelo Papa João Paulo II.

 

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

O DOM DA SABEDORIA

O segundo favor que o divino Espírito destinou à alma que lhe é fiel na ação é o dom de sabedoria, ainda superior ao da inteligência. No entanto, está ligado a este último no sentido de que o objeto mostrado na inteligência é saboreado e possuído no dom de sabedoria. O salmista, convidando o homem a se aproximar de Deus, recomenda-lhe o sabor do soberano Bem: 'Provai e experimentai que o Senhor é cheio de doçura'. 

A santa Igreja, no próprio dia de Pentecostes, pede a Deus para nós o favor de provar o bem, recta sapere, porque a união da alma com Deus é antes uma experiência do gosto do que uma visão, a qual seria incompatível com nosso estado presente. A luz dada pelo dom da inteligência não é imediata, ela alegra vivamente a alma e dirige seu sentido para a verdade; mas tende a se completar pelo dom de sabedoria que é como se fosse seu fim. 

A inteligência é então iluminação e a sabedoria é união. Ora, a união com o soberano Bem se realiza pela vontade, quer dizer, pelo amor que reside na vontade. Notamos essa progressão nas hierarquias angélicas. O querubim refulge de inteligência, mas acima dele ainda está o serafim abrasado. O Amor é ardente no querubim, assim como a inteligência esclarece com sua luz viva o serafim; mas um é diferenciado do outro pela qualidade predominante e o mais elevado é aquele que atinge mais intimamente a divindade pelo amor, aquele que saboreia mais o soberano Bem.

(Excertos da obra 'Os Dons do Espírito Santo', de Dom P. Gueranger)

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

FRASES DE SENDARIUM (XXI)

 

'Um cristão fiel é como um cristal que reflete a luz da graça com a luz do bom exemplo' 

(Santo Antônio de Pádua)

Que, no dia de hoje, o meu firme propósito seja o de ser peregrino das coisas do Céu,  tornando meus pés ágeis instrumentos de caminhada, a seguir fielmente os Vossos passos e que, assim, eles possam me conduzir pelas sendas do Caminho, da Verdade e da Vida Eterna.