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terça-feira, 25 de agosto de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (146/148)

 

146. COMO MORRE O SOLDADO DE CRISTO

Gabino Alcázar alistou-se aos 80 anos no Exército dos libertadores e, com ele, três de seus filhos. 'Chegou a hora de morrermos mártires' - disse ele aos seus na hora da despedida - 'Tenho ainda pouco tempo de vida, e por que não hei de consagrá-lo a Cristo-Rei? Desejo que a vossa morte seja tal qual a minha. Vamos combater por Deus'.

Isto sucedeu-se a 3 de março de 1927. O velho soldado de Cristo receberia dentro em breve a sua coroa de glória. Tomou parte em três combates com uma tenacidade extraordinária. A 12 de março, numa renhida batalha, saltara da trincheira para avançar contra o inimigo, oculto atrás de uma rocha, e atirou até o último cartucho. Afinal, os soldados de Calles o cercaram, gritando-lhe:
➖ Entrega-te, velho!
➖ Os soldados de Cristo-Rei morrem, mas não se rendem - respondeu com altivez.
➖ Entrega-te ou te matamos.
➖ Cair, sim; ceder, nunca!

E para que os callistas não se apoderassem do seu fuzil, Gabino quebrou-o em dois pedaços e atirou-os contra o inimigo, dizendo-lhes:
➖ Tomai e entregai isso ao vosso Calles-Nero.
Seus olhos tinham um lampejo de alegria. No momento em que levantou a mão aberta para o céu e gritou: 'Viva Cristo-Rei!', uma descarga o prostra por terra.

A Escritura diz: 'As almas dos justos estão nas mãos de Deus; o tormento da morte não chega a tocá-los.
As almas dos justos descansam na paz; atormentados pelos homens, a sua esperança tomou vulto na eternidade'. Como essas palavras se adaptam ao velho soldado Gabino!

147. LEVAVA A COMUNHÃO AOS MÁRTIRES

O governo maçônico e ateu do México metia no cárcere, à espera da morte, sacerdotes e fiéis católicos. Para confortá-los na fé, meninas piedosas e inteligentes, disfarçadas mas com risco da própria vida, levavam-lhes frequentemente a Comunhão.

Rosina Gomez foi uma dessas meninas privilegiadas. Com apenas 12 anos, consagrara-se ao piedoso oficio de levar Jesus-Hóstia aos prisioneiros. Rosina, com permissão de sua mãe, ia todas as manhãs a uma das estações eucarísticas. Ali comungava e o sacerdote entregava-lhe as hóstias consagradas para levar aos encarcerados. A fim de evitar suspeitas, tirava-se o miolo do pão e, em seu lugar, colocavam-se as sagradas espécies envoltas em pano de linho. Deste modo Jesus chegava diariamente aos confessores da Fé, que aguardavam a morte gloriosa.

Durava já três meses esse trabalho; quando Rosina começou a ser observada e seguida pelos callistas. Um dia, cercaram-na e perguntaram-lhe:
➖ Aonde vais?
➖ Para minha casa e tenho pressa - respondeu Rosina.
➖ Que é que tens nas mãos?
➖ Nada para os senhores e tudo para mim.
➖ Joga fora o pão que tens oculto.
➖ Isso eu não faço.

Os policiais apontam-lhe os revólveres. A esse gesto ela responde calmamente:
➖ Não tenho medo de ninguém. Jesus me dará forças. Ajoelhou-se, em seguida, tomou as hóstias e ali mesmo comungou para evitar profanações. Um minuto depois, cai varada de balas daqueles tigres.

148. UM MÁRTIR DE 18 ANOS

Em Jalisco, no México, um bando de comunistas prendeu um rapaz de 18 anos, acusando-o de fomentar um motim. Queriam forçá-lo a gritar: 'Abaixo o Cristo'.
➖ Não posso, respondeu o jovem; sou católico.
➖ Agora não és mais que um revolucionário.
➖ Revolucionário? Nunca! nunca me bandeei para os revolucionários. Ninguém poderá prová-Io. Sou simplesmente católico, e não posso renegar a Cristo.

Declarações tão firmes e decididas tiveram consequências imediatas. O jovem foi primeiramente espancado e, depois, amarrado à traseira de um caminhão e arrastado pelas ruas da cidade entre risos satânicos. Coberto de sangue e de pó, chegou em frente da casa paterna. Os delinquentes pararam o caminhão e mandaram que o mártir gritasse: 'Viva Calles'. Redobrando as forças, o jovem gritou:
➖ Viva Cristo-Rei!

Uma senhora presente à cena correu a chamar a mãe da vítima: 'Que fosse depressa, porque pretendiam obrigar o filho dela a apostatar'. Imediatamente, a mãe, trêmula e pálida como a morte, correu para junto do mártir. Cena capaz de comover as próprias pedras. O filho, seu querido filho de 18 anos, cuja beleza e coragem eram o orgulho da mãe, banhava de sangue a rua. Ela atirou-se sobre aquele corpo, já nas últimas, e gritou-lhe:
➖ Meu filho, ainda que te matem, nunca renegues o teu Deus. Vale mais a Fé do que a vida. Viva Cristo-Rei!
O mártir, num supremo esforço, conseguiu balbuciar repetindo as palavras de sua mãe:
➖ Viva.... Cristo... nosso... Rei!
E morreu sob as vistas da mãe. Não sabemos o que mais admirar, se a fidelidade do filho ou a coragem da mãe.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (141/145)

 

141. ISTO É AMOR AO PRÓPRIO INSTITUTO!

Santo Inácio, quando se inteirava de que entre os seus religiosos havia algum espírito inquieto, que se permitia fazer críticas contra os Estatutos da Companhia, mandava-o embora inexoravelmente. Nenhuma razão o persuadia a transigir nesse ponto. 

No Colégio Romano ensinava então um célebre professor, homem de grande talento e possuidor de várias outras qualidades apreciáveis. Depois de certo tempo, veio à tona o espírito inquieto que o dominava e começou a pronunciar-se contra alguns regulamentos da Companhia, a externar e insinuar nos outros as suas idéias. Inácio repreendeu-o seriamente e, como os avisos não surtiram efeito, licenciou-o sem mais, embora fosse constrangido a por em seu lugar, como suplente, um jovem noviço flamengo, entrado na Ordem fazia pouco tempo.

142. A OBSERVÂNCIA ANTES DE MAIS NADA

P. Joli, Superior Geral da Congregação da Missão, quando se tratava da observância das Regras, era atentíssimo quanto a si e inflexível quanto aos outros, não se rendendo jamais nem a razões, nem a súplicas no permitir alguma quebra da Regra, por mínima que fosse. Quando um Superior lhe escreveu, pedindo certa licença, deu-lhe esta resposta: 'A nossa Regra é contrária a isso; e é preciso que estejamos fortemente apegados à Regra'. Eis a melhor de todas as razões.

Falando certo dia à sua comunidade, disse: 'Devemos ter em conta que nossa obrigação principal são as Regras e santos costumes da Congregação, deixando por isso, quando se trata de observá-la, todas as nossas devoções particulares: por exemplo, fazer mais conta de não falar sem licença com pessoas conhecidas, que encontramos eventualmente, do que fazer vinte disciplinas de nossa própria vontade'.

143. ARROJADO DO ALTO DA ESCADA

Na vida de São José Calasanz lemos uma passagem interessante e instrutiva. Ele foi chamado a salvar a juventude abandonada; o demônio, porém - afirma um autor - propõs a ele buscar a mais alta união com Deus mediante as delícias da vida contemplativa; apresentou-lhe, a seguir, as Índias e a Ásia, repletas de idólatras, a Europa infestada de hereges, o imenso número de pecadores para converter; mostrou-lhe ainda, por fim, quanto era árduo ocupar-se dos meninos incapazes de compreender as verdades da fé! 

Os seus companheiros, vítimas da mesma tentação, deram crédito ao demônio, retiraram-se e abandonaram o santo. O nosso santo, porém, não se deixou enganar; com isso o demônio ficou tão irritado que, um dia, o arrojou furiosamente do alto de uma escada, tomando a forma e o aspecto de sombras tenebrosas para amedrontá-lo.

144 - 145. DO PAGANISMO AO CLAUSTRO

1. Hiéria era pagã. Jovem e viúva de um senador romano, estava destinada a novas núpcias. Aconteceu, porém, que, durante a perseguição de Diocleciano contra os cristãos, veio a saber que em certo mosteiro vivia uma virgem chamada Febrônia, de vinte e cinco anos, belíssima, douta, eloquente, cujo rosto ninguém jamais via a não ser as suas coirmãs. Ora, Hiéria desejava vê-la; sentia uma como necessidade absoluta de satisfazer tão grande curiosidade.

Fingindo-se de monja, foi admitida à presença de Febrônia e pode vê-la e ouvir-lhe, chorando de comoção, suas santas palavras. Febrônia foi depois martirizada; e Hiéria, depositando sobre o féretro da virgem mártir todas as suas riquezas, ajoelhou-se aos pés da abadessa e, após fervorosas súplicas, obteve a graça de substituir a virgem.

2. Aglaé, nobre e rica romana, concubina de Bonifácio, que era o primeiro dos 73 intendentes de suas propriedades, ouvira dizer que quem honrava os santos mártires gozaria de especial proteção deles no tribunal de Deus.

Aglaé chamou, pois, a Bonifácio e deu-lhe a incumbência de ir ao Oriente à procura de relíquias.
➖ Senhora - disse Bonifácio - se um dia as minhas relíquias vos fossem enviadas sob a forma de mártir, vós as receberíeis?
Aglaé censurou-lhe esse modo de falar; mas Bonifácio morreu realmente mártir da fé, em Tarso. A nobre dama venerou aquelas relíquias, converteu-se, fez-se monja e de tal modo se purificou pela penitência que, mereceu ser sepultada na capela de São Bonifácio, que ela mesma mandara construir cerca de 50 estádios de Roma.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

quarta-feira, 29 de julho de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (137/140)

 

137A. A IMAGEM DO CORAÇÃO DE JESUS

Durante a primeira guerra mundial, uma senhora vira partir para os campos de batalha os seus três filhos, um após o outro. Quando partiu o último, que era oficial de marinha e destinado ao comando de um submarino, deu-lhe uma imagem do Sagrado Coração em celuloide, a fim de que fosse o seu escudo e proteção. Achava-se ele nas águas da Dalmácia e, devido a um movimento brusco para submergir, pois fora descoberto pelo inimigo, irrompeu no submarino um terrível incêndio.

É impossível descrever o pânico daquele trágico momento. Um dos marinheiros, asfixiado, caiu logo, gritando: Minha mãe! Foi dilacerante para o comandante e seus companheiros, que tentavam dominar o fogo com trapos, roupas e ferros. O comandante, lembrando-se da imagem do Coração de Jesus, teve uma ideia: tomou-a, beijou-a e passou-a a todos os marinheiros que faziam corrente... Eles a beijaram devotamente, e invocaram o misericordioso Coração...

Após grandes fadigas, conseguiram dominar o incêndio e puderam subir à superfície porque o periscópio não assinalava mais nenhum navio inimigo. Abraçaram-se, chorando de comoção. E o comandante, quando voltou para casa, após a guerra, quis que aquela imagem crestada pelo fogo fosse exposta na sala, onde em presença da noiva, da mãe e de outras pessoas se fez a consagração da família ao Sagrado Coração de Jesus.

137B. O SAGRADO CORAÇÃO E O MAÇON

Um incrédulo acabara de perder a sua esposa. De seus três filhos, somente a filha primogênita era batizada. Estando esta gravemente enferma, pediu que lhe chamassem um sacerdote. Para agradar-lhe, o pai, que era maçon, mandou vir o ministro de Deus. O sacerdote prometeu à doentinha que viria com frequência visitar-lhe o pai e pedir que este permitisse entronizar naquele lar o Sagrado Coração de Jesus.

O maçon recebeu as visitas do padre, mas recusou-se a tratar de qualquer assunto religioso. Veio a guerra. O padre foi mobilizado. Antes de partir recomendou a um colega que visitasse em seu lugar aquele senhor. Do campo de batalha escreveu ao seu substituto que, numa das visitas, deixasse na casa do incrédulo uma estampa do Sagrado Coração e um folheto sobre a entronização. O conselho foi seguido.

Alguns dias mais tarde o padre voltou aquela casa e qual não foi a sua surpresa, quando o Senhor N. lhe disse:
➖ O senhor não quer me ceder uma brochura que esqueceu aqui a última vez? Eu a li. Por que não me falou há mais tempo do seu conteúdo? Quero fazer a entronização aqui em casa.
➖ Mas é difícil, pois o senhor sabe que há impedimento... e seus filhos não são batizados!
➖ O impedimento não existe mais, pois pedi demissão da maçonaria e devolvi as insígnias maçônicas. Amanhã meus filhos receberão o batismo e, à tarde, o Sagrado Corado será entronizado no meu lar.

138. NO MÉXICO MÁRTIR

Era a primeira sexta-feira de abril de 1927. Os prisioneiros foram deixados toda a manhã sem alimento algum, e depois interrogados. Do advogado González Flores exigiam que revelasse onde estava oculto o Arcebispo, mas não conseguiram arrancar-lhe uma palavra.

Às 14 horas, foi suspenso ao alto pelos dedos polegares. Estando nessa tormentosa posição, foi flagelado, e rasgados os membros com facas que lhe enterravam na barriga das pernas... mas não revelou nada, antes encorajava seus companheiros a sofrerem por Jesus Cristo. O capitão deu-lhe um golpe com a coronha do fuzil, quebrando-lhe o queixo e fazendo saltar os dentes. O mártir suportou com paciência esse novo tormento. Foram chamados outros soldados, que, com inúmeras punhaladas o mataram.

Antes de expirar, fazendo um último esforço, o mártir exclamou: 'Ouçam ainda uma vez as Américas: Eu morro, mas Deus não morre! Viva Cristo-Rei!' No primeiro aniversário do martírio de seu pai, o filho primogênito de González Flores, de 5 anos apenas, obteve licença de fazer a primeira comunhão. Quando lhe perguntavam: 'Onde está o papai?' Respondia: 'Está no céu... e os homens o mataram porque ele queria muito bem a Jesus'...

139. O PRANTO DE JESUS

Jesus chorou três vezes, durante a sua vida. A primeira vez chorou junto à sepultura de Lázaro (Jo 11,35) e aquelas lágrimas eram silenciosas e denotavam amizade. A segunda vez chorou sobre Jerusalém, a cidade deicida: e eram lágrimas de verdadeiro e sentido patriotismo, lágrimas provocadas pela grande dor que Jesus experimentava ao pensar no extermínio daquela cidade santa (Lc 19,41). A terceira vez chorou Jesus, no Calvário, ao considerar a triste sorte da humanidade pecadora (Hb 5,7). E tu, minha alma, não choras nem os teus nem os pecados alheios?!

140. PULCHRI SUNT GRESSUS TUI!

Maria Vela estava um dia em doce contemplação aos pés de seu Divino Esposo, quando ouviu o sinal da campainha, que a chamava. Não hesitou nem um instante; interrompeu sua oração, foi aonde a chamavam e, terminado o trabalho, voltou para os pés de seu santo Esposo, o qual, satisfeito de vê-la tão pronta em executar a vontade de Deus e observar exatamente a Regra, pôs-se a louvar-lhe aqueles passos, repetindo: Pulchri sunt gressus tui (Ct 7,1): Que belos são os teus passos!

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

quarta-feira, 15 de julho de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (133/136)

 

133. A METADE DE UM PÃO PARA 50 RELIGIOSAS

Santa Clara, abadessa do convento de São Damião, porfiava com São Francisco na observância da pobreza, de tal modo que, as vezes, não havia nada para a refeição. De uma feita, à hora do almoço, Irmã Cecília, a ecônoma, correu triste a mostrar a abadessa o único pão que havia em casa. Um pão para 50 religiosas!

➖ Minha filha - disse-lhe Santa Clara - divida o pão em duas partes: uma metade mande aos nossos bons Irmãos esmoleiros, os quais com certeza estão necessitados como nós; a outra metade, você a divida em cinquenta fatias, pois tantas são as Irmãs.
➖ Mas, Madre - replicou a ecônoma ➖ para dar de comer a 50 religiosas com a metade de um pão, seria mister que Deus renovasse para nós as maravilhas operadas outrora em favor da multidão faminta...
➖ E por que duvidar, minha filha? Vá - disse a santa com um sorriso angélico - e com espirito de fé faça tudo como lhe ordenei.

Depois, reunidas no refeitório todas as Irmãs, pôs-se a rezar junto com elas; e eis que, durante a oração, as fatias de pão cresciam maravilhosamente nas mãos de Irma Cecília que as distribuía. Todas as Irmãs ficaram abundantemente servidas e não cessavam de dar graças à santa abadessa e mais ainda ao bom Deus, que renovara diante dos seus olhos o prodígio da multiplicação dos pães.

134. SENTAR-SE AO LADO DE UM PADRE

Não faz muito tempo deu-se em Roma o seguinte caso. Um padre subiu a um bonde e foi sentar-se ao lado de certo individuo, que seria tudo menos um cavalheiro. Por que? Porque, levantando-se de mau humor, foi sentar-se ao lado de uma senhora, dizendo em voz alta - para ser ouvido de todos - que não queria viajar ao lado de um corvo.

A senhora mais que depressa levantou-se e foi assentar-se ao lado do sacerdote, dizendo: 'E eu não quero ficar perto de um asno!' Gargalhadas sonoras obrigaram o mal-educado a calar-se envergonhado e a descer na primeira parada.

135. NO TRIBUNAL DE DEUS

São Jerônimo, que foi sempre estudiosíssimo, quando jovem apaixonou-se demais pelos clássicos latinos, e lia com avidez as obras de Plauto, de Terêncio e especialmente de Cícero. Ele mesmo conta que, uma vez, estando gravemente enfermo e à beira da morte, foi arrebatado em espírito ao tribunal do Juiz Jesus Cristo.

Eu estava - dizia o santo - com o rosto por terra e, ferido pelo fulgor do rosto de Deus e não ousava erguer os olhos. O Juiz interrogou-me: 'Quem és tu?' E eu, com voz trêmula, respondi: 'Sou Jerônimo, sou cristão'. 'Cristão? Mentes; não és cristão, mas ciceroniano - Mentiris; Ciceronianus es, non Christianus'.

Em seguida uma mão invisível desferiu-me uma tempestade de açoites. Eu gritava: 'Misericórdia! Misericórdia!', fazendo mil promessas de não ler mais os clássicos profanos e de entregar-me ao estudo assíduo da Sagrada Escritura. Ó quão rigoroso não será o Juízo divino!

136. O MEMORARE DO 'TERROR'

Na terrível época que se chamou na França como 'o Terror', um certo dia o vigário de Firanges (diocese de Puy) estava batizando ocultamente uma criança. Naquela infeliz época, isso era um crime passível de morte. Repentinamente, 14 hussardos e 5 gendarmes, guiados por um fogoso revolucionário, cercaram a aldeia  de Boisseyres e a casa onde estava o padre. Fugir era impossível. E onde esconder-se?

'Ó Maria, exclamou o padre, vós me salvareis, e eu recitarei o memorare (Lembrai-vos) todos os dias de minha vida, e o farei cantar todos os domingos na minha paróquia'. Assim dizendo, refugiou-se atrás de um armário. O primeiro soldado entrara no aposento justamente no momento em que ele cobria com um velho chapéu de palha as extremidades dos pés que ficaram por baixo do armário. Os soldados procuraram, revistaram, quebraram e estragaram tudo, mas não encontraram o padre. Um dos soldados chegou a enfiar a sua espada por três vezes atrás do armário; a espada passou sempre ao longo do corpo do pároco sem fazer-lhe nem a mínima ferida. Os carrascos partiram desapontados e o sacerdote se salvou.

O protegido de Maria foi fiel em cumprir o seu voto e os seus sucessores continuaram esta prática que consagrou aquela comovente recordação: depois do Magnificat, na igreja paroquial de Piranges, ecoava sempre o canto do Memorare.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

quinta-feira, 2 de julho de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (128/132)

 

128. INCIDENTE NUMA PROCISSÃO

Em Stuttgart (Alemanha), por ocasião da procissão de Corpus Christi, deu-se, faz alguns anos, o seguinte incidente.

Num dos pontos de espera estavam agrupados numerosos espectadores, quase todos protestantes, o que não é de admirar naquela cidade. A ponta da procissão estava a chegar, quando um senhor, metendo-se pelo meio da multidão, foi colocar-se diante de uma senhora de modo que ela não podia ver nada. Zangada, ela exigiu que ele saísse de sua frente. Mas o importuno negou-se, dizendo: 'Sou católico, portanto, tenho o direito de colocar-me na frente para ver passar a procissão dos católicos'.

A dama, sem se desconcertar, replicou: 'Como? O senhor é católico? Então o seu lugar não é aqui. Nós, protestantes, assistimos à procissão, mas vós, católicos, deveis acompanhá-la'. E tanta razão tinha aquela senhora que, nem bem acabara de falar, e o intruso já havia desaparecido.

129. COM DEUS NÃO SE BRINCA

Fazia 120 anos que, em Messina (Itália), não se verificava nenhum terremoto. Os habitantes daquela cidade, não obstante as advertências de pessoas competentes, haviam construído prédios de vários andares, pois julgavam-se muito seguros. Mas eis o que aconteceu.

No Natal de 1908, um jornal socialista local atreveu-se a interpelar ironicamente o Menino Jesus, escrevendo: 'Jesusinho, envia-nos um tremor de terra, se tens força para tanto'. Essa blasfêmia apareceu no dia 26 de dezembro. No dia 28, verificou-se uma catástrofe, como a cidade jamais vira outra semelhante. Em poucos minutos, 60.000 pessoas, isto é, um terço da população, perderam a vida. Irrompeu, além disso, um pavoroso incêndio que destruiu ou danificou quase todas as casas. Assim Deus castigou aquela blasfêmia.

130. MÚSICA DO PARAÍSO

1. Lê-se na vida de Madre Maria de Jesus que ela, com permissão do seu Diretor, confeccionara uma quantidade de disciplinas, cilícios e cintos de penitência, dos quais se servia com tal discrição, que nunca ninguém o descobrira. Uma noite, porém, flagelou-se com tanta violência, que uma irmã ouviu o rumor de seu quarto vizinho, e logo compreendeu de que se tratava, pois também essa piedosa jovem conhecia praticamente a disciplina.

2. Das filhas de Carlos Emanuel I de Saboia, as princesas Maria e Catarina, conta-se que a miúdo se flagelavam com espantosas disciplinas. O que mais se deve admirar, entretanto, é que o rei, tendo notícia disso, não só não lhes proibiu, mas até o aprovou. Um dia, passando junto ao quarto das filhas e ouvindo os golpes da disciplina, disse aos que o acompanhavam: 'Estais ouvindo esta música? Esta é a melodia que mais agrada às minhas filhas. Música verdadeiramente do Paraíso, porque feita de suspiros e com batutas de flagelos, que forma notas de sangue e abre as portas do céu'.

131. DEIXE-ME TOCAR UM POUCO

Numa reunião de cavalheiros e damas figurava, entre outros, o senhor P. Ruf, vigário de Lustenau, notável por sua agudeza de espírito. Eis que, de repente, aparece na sala um velho pobre e cego, conduzido por um seu netinho e começa a tocar sua harpa e a cantar. Os ouvintes notaram que o instrumento estava desafinado e, além disso, a voz do velho era pouco agradável, razão por que estavam na iminência de enxotá-lo da sala. Nesse instante, o vigário Ruf, acercando-se do cego músico, disse-lhe com carinho:
➖ Bom velho, o senhor está bastante cansado, dê-me a sua harpa e deixe-me tocar um pouco.

O vigário sentou-se numa cadeira, afinou o instrumento e começou a cantar uma belíssima ária, acompanhando-a com a harpa. Os presentes, mormente os que nunca o tinham ouvido, estavam cheios de admiração e espanto. O talento do novo tocador ressaltava ainda mais após os sons desagradáveis que pouco antes tinham ouvido. Terminada a ária, choveram os aplausos e pediram ao vigário que cantasse mais uma ária.
➖ Com muito prazer - respondeu ele - mas o senhor, disse, dirigindo-se ao velho, vá recolhendo os donativos.

O cego, conduzido pelo neto, fez o giro pela sala com o chapéu na mão. As moedas de prata caíam abundantes no chapéu e o velho estava comovido e com água nos olhos.
➖ Olha, vovô, nem durante todo o mês  ajuntamos tanta esmola como hoje - dizia o netinho.
Ambos, avô e neto, não se cansavam de agradecer as ricas ofertas que receberam e beijavam afetuosamente a mão do bom vigário. Quanto aos circunstantes, não houve um que não elogiasse o talento do vigário Ruf e mais ainda o nobre uso que soube fazer dele.

132. UMA BOA AÇÃO FAZ MUITO BEM

Um dia, um estudante universitário encontrou num bosque perto de Viena uma pobre velha, que, curvada sob o peso de um feixe de lenha, ia caminhando com muita dificuldade.
➖ Boa velhinha - disse o estudante - deixe-me carregar um pouco o seu feixe de lenha.

E, tomando o feixe, levou-o até a casa da pobre velha, a qual, muito comovida com a bondade do moço, perguntou-lhe:
➖ E, agora, meu senhor, quanto lhe devo?
➖ Reze por mim um Pai-Nosso, boa velhinha - foi a resposta.
➖ Sim, sim, eu o farei - respondeu ela - e esse é o primeiro Pai-Nosso que vou rezar, depois de uns 20 anos! 
Não se espante, meu senhor, as minhas contínuas desventuras, os desprezos recebidos de tanta gente, haviam-me afastado de Deus, mas o senhor, com a sua caridade, tocou-me o coração e me fez começar de novo a rezar.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

quinta-feira, 18 de junho de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (124/127)

 

124. ESTES RÉUS SOIS VÓS!

Em Paris, onde se deu o caso, estava sentado no banco dos réus um jovem de dezessete anos apenas. Ele agredira e matara traiçoeiramente uma pobre velha para roubar-lhe cinco francos, mísera economia que ela guardava.
Emílio Gaudot - disse-lhe o presidente do Tribunal - se tivesses sabido que Rose Mercié tinha somente cinco francos, tu a terias matado?
➖ E por que não? - respondeu o acusado com cínica indiferença. A mim que me importa uma velha carcaça de mais ou de menos no mundo?
Ouvindo essa resposta tao revoltante, o Presidente exclamou:
➖ E quem foi que te ensinou tamanha malvadeza?
➖ Sei eu lá quem foi? - respondeu ainda mais cinicamente o jovem.

Mas o que não soube dizer o acusado, disse-o magnificamente o seu advogado. Saint-Appert, o defensor, dirigindo-se aos circunstantes, diz:
➖ O meu oficio, senhores, é muito fácil: o acusado é réu plenamente confesso, não há nenhuma defesa a fazer. Mas, se não posso defender diretamente o meu cliente, sinto-me, todavia, no dever de acusar outros que são mais réus do que ele. Esses réus, senhores, sois vós, que aqui representais a sociedade que se vê obrigada a punir as culpas, que a sua incúria e a sua corrupção não soube prevenir. Vejo diante de mim e saúdo reverentemente a imagem do Crucifixo. Ele está aqui no vosso pretório, onde condenais os réus; mas por que essa imagem não está também nas escolas, onde se ensinam e educam os meninos? Por que punis sob os olhos de Deus, se vos esforçais por expungir dos livros escolares até o nome desse mesmo Deus? Se a Gaudot tivesse sido mostrado o Crucifixo, quando se assentava nos bancos da escola, ele não se assentaria agora no banco dos réus e da infâmia. Quem disse jamais na escola a esse jovem que existe um Deus, que há uma justiça futura? Quem jamais lhe falou da alma, do respeito ao próximo, do temor de Deus? Quem lhe ensinou o mandamento do Decálogo: Não matarás? Em que livros oficializados se encontram estas verdades? Abandonado as suas paixões, este jovem viveu como uma fera no deserto, e agora esta sociedade quer matá-lo como a um tigre, quando o podia ter amansado como um cordeiro. Sim, sois vós, senhores, que eu acuso... vós que espalhais entre o povo a incredulidade e a pornografia, e ainda vos maravilhais de que o povo vos responda com crimes e com a decadência moral. Condenai o meu cliente, que para isso tendes direito; mas eu vos acuso, porque tal é o meu dever.

Este advogado disse grandes verdades. Todos os que têm estudado a fundo o espantoso fenômeno da delinquência da juventude hodierna estão de acordo em afirmar que as suas causas principais são a ignorância religiosa e o pestífero ambiente em que vivem. Precisamos, pois, de livros escolares que ensinem a fé e a moral cristãs, e não as fábulas e historietas de mau gosto, em que a juventude nada tem a aprender.

125. TAMBÉM ELE FAZIA PENITÊNCIAS

O professor Dr. Contardo Ferrini, às vezes, passava da conta ao fazer as suas penitências, usando cilícios e cadeias com pontas de ferro. Depois, ajoelhando-se humildemente aos pés de seu confessor, perguntava:
➖ Meu Padre, posso castigar, o meu corpo até ao sangue?
➖ Somos depositários e não donos de nosso corpo - respondia-lhe o ministro de Deus. É preciso usar de prudência, professor, por causa das graves obrigações de seu ministério.
Desde jovem estudante já usava Ferrini um pequeno cilício que, por motivo de saúde, um confessor lhe proibiu.

126. TENHO MEDO DAS CONTAS...

No século passado vivia na Westfália um velho e pio sacerdote. Cada dia, ao por do sol, dirigia-se ao cemitério onde recitava um terço, pelas almas do purgatório. Quando, certa vez, um amigo lhe perguntou por que fazia aquela visita todos os dias a tarde, o velho pároco deu esta bela resposta: 

'Faz muitos anos que sou vigário desta freguesia e quem sabe se por, negligência minha (ou porque não dei bastante exemplo, ou porque não fiz quanto devia fazer), causei dano aos que agora talvez estejam penando no purgatório, enquanto seus corpos repousam debaixo desta terra fria. Tenho medo das contas, que hei de dar a Deus depois de minha morte. Esta é a razão por que, todos os dias a esta hora, venho rezar aqui, a fim de expiar, por este ato de caridade para com as almas, as faltas que posso ter cometido'.
Exemplo comovente e digno de imitação.

127. MISSA PELO ESPOSO FALECIDO

Santa Matilde, esposa do imperador Henrique e mãe de Otão Magno, quando recebeu a noticia da morte de seu marido, acontecida numa expedição guerreira, a primeira coisa que fez foi ajoelhar-se aos pés do Crucifixo e rezar por ele.

Chegado o cadáver, a santa imperatriz levou os três filhos à câmara ardente, mandou que eles se ajoelhassem bem perto dos despojos do pai, e disse-lhes: 'Meu filhos, lembrai-vos de que, se tendes direito de subir ao trono do vosso pai, um dia descereis também ao túmulo como ele'.

E mandou chamar imediatamente um sacerdote que, naquele mesmo dia, celebrou pela alma do imperador. Grande foi a satisfação da imperatriz, entre as lágrimas pela perda de seu marido, por se ter encontrado um padre ainda em condições de rezar a santa missa de corpo presente.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

sábado, 6 de junho de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (116/123)

 

116. UM DUELO E UMA CONVERSÃO

O professor Parrini, homem de grande talento, era infelizmente maçon, havia muitos anos. Comprometera-se por escrito a não receber o sacerdote mesmo em caso de grave enfermidade; e no seu testamento ordenara que se lhe fizessem funerais civis exclusivamente.

Ora, sucedeu que Parrini, durante um duelo, recebeu vários ferimentos. Quando percebeu a gravidade de seu estado, imediatamente mandou chamar o pároco, pois queria reconciliar-se com Deus. Em presença das testemunhas renunciou à maçonaria e retratou seus escritos contra a religião e a Igreja.

Recebeu, depois, os sacramentos com uma piedade que edificou a todos. Tendo osculado afetuosamente o Crucifixo, declarou que reconhecia a Jesus Cristo como seu único consolador e sua única esperança, e expirou. A explicação desta inesperada conversão é a seguinte: Parrini nunca passava um dia sem rezar, ao menos o De profundis pelas almas do Purgatório.

117. GOUNOD E A SANTA MISSA

O célebre compositor Gounod, que fora educado num seminário, nunca deixou de ser católico praticante. Quando, em seus últimos anos de vida, veraneava na chácara de seu amigo Charbrier, caminhava diariamente dois quilômetros a pé para ouvir a missa, na igreja mais próxima.

Um dia, enquanto esperava, sentado num banco, que começasse o Santo Sacrifício, notou que faltava coroinha. Levantou-se, pediu licença ao padre para substituir o coroinha e ajudou a missa com muita edificação de todos os presentes.

118 - 123. O MENINO JESUS NA HÓSTIA

1. Certo pároco de Moneada (Espanha) andava atormentado por escrúpulos. Temia que a sua ordenação sacerdotal tivesse sido inválida e que, por isso, as suas palavras na consagração fossem ineficazes. Nosso Senhor quis restituir-lhe a paz da alma por meio de um milagre. Uma menina de cinco anos, ao assistir às missas desse pároco, da consagração até a comunhão, via na Hóstia um belíssimo menino. Ciente disso, o sacerdote colocou sobre o corporal três hóstias, mas consagrou somente duas; à hora da comunhão consumiu uma e deixou a outra ao lado da hóstia não consagrada. Chamou em seguida a menina que lhe apontou exatamente a hóstia consagrada, dizendo-lhe que naquela via o Menino e na outra não.

2. São Lourenço Justiniano era devotíssimo da Santíssima Eucaristia e a sua fé profunda na presença real de Jesus na hóstia consagrada manifestava-se especialmente enquanto celebrava o santo sacrifício, na devoção angélica e nas copiosas lágrimas que derramava, edificando grandemente a todos que o viam ao altar. Não raro quis Deus recompensar-lhe a fé e devoção com fatos prodigiosos. Uma vez, por exemplo, na noite de Natal, quando celebrava a santa missa, pode contemplar na Hóstia santa um belíssimo Menino.

3. Em 1924, estavam um dia os deputados da República da Colômbia reunidos na Câmara, quando ouviram o som de uma campainha que anunciava a passagem de uma procissão em que se levava o Sagrado Viático a um enfermo. Fez-se no recinto da Câmara profundo silêncio e os deputados puseram-se em pé e permaneceram em respeitosa atitude até que a procissão acabou de passar.

4. Os protestantes, separando-se da Igreja Católica, perderam o sacerdócio e a Eucaristia instituída por Jesus Cristo. Certo dia, um visitante, entrando na esplêndida catedral protestante da Basileia (Suíça), descobriu respeitosamente a cabeça. O guia, estranhando esse gesto, disse: 'O senhor não precisa descobrir-se, porque aqui não está ninguém'. Tinha razão; nos templos protestantes Jesus não está.

5. A beata Joana Maria Bonomi, contando somente cinco anos de idade, ao assistir à missa de um neo-presbítero viu, no momento da consagração, como dois anjos erguiam a Hóstia resplandecente de luz.

6. Um missionário encontrou-se, certa manhã, bem cedinho, com uma menina que voltava da igreja. Depois de dizer-lhe: 'Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo' e ela responder: 'Para sempre seja louvado', perguntou-lhe:
➖ Minha filha, você vai à missa todos os dias?
➖ Sim, senhor Padre, todos os dias, tanto no verão como no inverno.
➖ Mas, minha filha, você mora longe da igreja; não acha que é muito sacrifício fazer cada dia essa jornada tão fatigante?
Ao que ela respondeu com grande candura:
➖ Senhor Padre, é por amor de Jesus que eu faço isso, porque Ele bem o merece.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

quarta-feira, 20 de maio de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (111/115)

111. A PAZ DE CONSCIÊNCIA

A beata Angela de Foligno, em sua mocidade, caíra em faltas graves, das quais não se confessara bem por vergonha. Fez até comunhões sacrílegas. Mas, como os remorsos não a deixavam em paz nem de dia nem de noite, recorreu a São Francisco de Assis para que a fizesse encontrar um confessor ao qual pudesse abrir todo o seu coração.

À noite, apareceu-lhe o santo, sob a figura de um velho venerando, e disse-lhe:
➖ Minha irmã, há mais tempo haveria lhe ter concedido essa graça, mas não a pediste. Amanhã bem cedo encontrarás o confessor que procuras.

De fato, o santo a fez encontrar um ótimo confessor, ao qual pode abrir francamente o seu coração, embora com grande pejo e muita humilhação. A oração fervorosa obteve-lhe a graça de uma santa confissão, a doce paz da consciência, muitas consolações na vida e o gozo eterno no céu.

112. O PECADOR PRECISA VOLTAR A DEUS

Um taverneiro, havia anos, andava com a consciência sobrecarregada por vários pecados. Tocado pela graça divina, pensou em sair desse triste estado, recorrendo ao Pe. Hofreuter, sacerdote experiente na arte de reconduzir a Deus os pecadores. Não quis perder tempo. Selou o cavalo, montou e partiu.

Estando já à porta da casa paroquial, sentiu-se tomado de vergonha e faltou-lhe coragem para bater. Mas, eis que, por disposição de Deus, naquele momento apareceu o padre, que em tom afetuoso disse ao taverneiro: 'O senhor vem para confessar-se, não é mesmo? Entre, que estou aqui para atendê-lo'. Depois de ter feito uma boa confissão, o taverneiro montou a cavalo e, com o coração aliviado, dirigiu-se ao animal: 'Agora, a galope, meu cavalinho, pois que levas cem quilos a menos'.

Seis anos depois, acabando de receber os últimos sacramentos em seu leito de dores, dirigiu-se ao novo vigário, dizendo: 'Peço-lhe ainda um favor. Depois da minha morte, mande dizer ao Pe. Hofreuter que, depois daquela confissão que fiz com ele, nunca mais cometi pecado mortal ou venial voluntário'.
Cem quilos de menos sobre a consciência! Sim; após uma confissão bem feita, que alívio!

113 - 115. OS SACERDOTES DO ALTÍSSIMO

1. Achando-se de passagem em Quito (Equador), um humilde frade foi visitar o célebre Presidente Garcia Moreno, grande estadista e fervoroso católico. Estando ainda à entrada do palácio, logo que viu o Presidente descobriu-se e conservou o chapéu na mão.
➖ Cubra-se, Padre - disse García Moreno.
➖ Um pobre frade - respondeu o outro - não pode cobrir-se em presença do senhor Presidente.
➖ Padre - replicou Garcia Moreno, pondo-lhe o chapéu na cabeça - que é um Presidente do Equador em comparação a um sacerdote do Altíssimo?

2. A mãe do célebre Cardeal Vaughan era uma convertida do protestantismo. Durante 20 anos, sem interrupção, consagrava uma hora por dia a visitar o Santíssimo Sacramento. Que é que pedia ela a Jesus nessas visitas? Sabendo muito bem que a vocação ao sacerdócio é um dom especial de Deus, e querendo para seus filhos tamanha graça, oferecia a Jesus suas visitas e os desejos ardentes de seu coração maternal. Jesus na Eucaristia ouviu as suas preces.

Dos oito filhos homens, que recebera de Deus, seis se tornaram padres e um deles chegou a ser cardeal com grande aplauso e veneração de todos os católicos ingleses.

3. São Clemente Maria, apóstolo e patrono de Viena, de família humilde e órfão de pai, sentia imensos desejos de ser padre. Precisando ganhar o sustento para sua mãe e irmãos, aos dezesseis anos empregou-se numa panificação. Quando saía pelas ruas com a cesta de pão nos braços e o filhinho de seu patrão no ombro, ouvia dizer: 'Olhem o São Cristovão!'
➖ Oxalá eu o fosse mesmo e tivesse a felicidade de tomar o Salvador em minhas mãos!

Trabalhava e estudava, porque havia de ser padre. Indo a Roma com um amigo, bem cedinho entraram numa igreja. Ali perguntou Clemente a um menino:
➖Que Padres são esses?
➖ São Redentoristas e o senhor será um deles.
E assim foi. Em 1785, Clemente celebrou a sua primeira santa Missa, e foi sempre um padre segundo o coração de Deus. Faleceu em Viena em 1820 e foi canonizado pelo Papa São Pio X.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

terça-feira, 5 de maio de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (105/108)

 

105. CASTIGADO POR TER MENTIDO

O profeta Eliseu, que curou milagrosamente da lepra a Naamã, não quis receber do general nenhum presente.
Mas Giezi, criado do profeta, impelido pelo amor do dinheiro, foi atrás de Naamã, que regressava ao seu país, e disse-lhe que Eliseu, seu amo, mandava pedir-lhe um talento de prata e algumas roupas para dois hóspedes que acabavam de chegar. Ora, o profeta não mandara pedir coisa alguma. Por isso, em castigo dessa mentira, Giezi ficou coberto da mesma lepra de que Naamã ficara limpo.

106. FIRME COMO UMA COLUNA

Vivia em Siracusa, no terceiro século do cristianismo, uma rica e graciosa jovem chamada Luzia. Os dons da natureza de que estava adornada eram nada em comparação com os belos dotes de sua alma. Pura como um anjo, humilde, modesta, mansa, caridosa, cativava a todos que dela se aproximavam.

O cristianismo atravessava, naquela época, dias difíceis, e professar a fé em Jesus Cristo era considerado um crime digno de morte. Reconhecida como cristã, Luzia foi conduzida à presença do governador Pascásio, tristemente célebre por sua ferocidade contra os cristãos. O tirano, após várias perguntas, vendo que a donzela lhe respondia sempre com imperturbável coragem, disse-lhe com ar de mofa:
➖ Quando fores espancada, então te calarás.
Luzia replicou:
➖ Aos verdadeiros discípulos de Jesus Cristo não faltarão palavras, quando estiverem diante dos juízes, porque Ele disse que, em tais ocasiões, o Espírito Santo, que receberam, falará por eles.
➖ Então, o Espirito Santo está em ti?
➖ Sim; todos os que levam vida casta e pura são templos do Espírito Santo.
➖ Pois bem; eu te farei cometer um pecado feio para que o Espírito Santo saia de ti.
➖ Isso não está em teu poder. Se eu não consinto, a tua violência brutal só me pode proporcionar uma dupla coroa.

Pascásio, cheio de ira, ordenou aos algozes que a arrastassem a um lugar de pecado. Mas, naquele instante, manifestou-se claramente a virtude do Espírito Santo que estava na casta donzela. Os esbirros não conseguiram removê-la, pois uma força invisível tornou-a imóvel como uma coluna. O tirano teve de mandar matá-la ali mesmo.

107. RICOS COLARES E BRILHANTES COROAS

Conta Rufino que um dos antigos Padres do deserto viu, certa vez, estando em êxtase, uma multidão incontável de santos na glória do Paraíso. Todos eram de uma beleza incomparável; mas havia uma legião de bem-aventurados que brilhavam mais que os outros e tinham ao pescoço ricos colares e na cabeça brilhantes coroas. Indagou qual fosse a causa daquela diferença e foi-lhe respondido que aqueles bem-aventurados tão distintos dos outros eram os que, seguindo os conselhos evangélicos de perfeição, tinham renunciado ao mundo por amor de Jesus Cristo. Foi-lhe explicado, além disso, que a coroa de ouro, que os adornava, era a recompensa da perfeita obediência.

108 - 110. AI DE QUEM É INFIEL A VOCAÇÃO!

A hagiografia religiosa oferece-nos exemplos salutares e impressionantes sobre este assunto.

1. Vivia na pequena Casa da Divina Providência nos tempos de São José Cottolengo, uma religiosa, que, recobrada a saúde após uma enfermidade, resolveu voltar para sua família. Manifestou esse propósito ao Pe. Cottolengo, o qual ficou muito aflito e empregou toda a sua paternal bondade e eloquência para demover a infeliz de tal propósito. Mas nem as insinuações mais suaves, nem os conselhos mais persuasivos e argumentos mais convincentes, e nem mesmo as ameaças de castigos divinos conseguiram fazê-la voltar atrás. 

A infeliz fazia-se de surda a tudo e terminou por dizer que partiria de qualquer forma. Então o santo, com semblante sério e ameaçador, disse-lhe com pesar e amargura: 'Se queres absolutamente ir embora, eu não te posso segurar, mas lembra-te do que te digo: não passarão três meses e tu serás traspassada a fio de espada'.

Foi uma profecia. Três meses depois, o cadáver da infeliz foi encontrado todo retalhado e horrivelmente deformado bem perto da sua casa. Fôra vítima de sua leviandade, do ciúme de alguns militares e da falta de correspondência à graça da vocação religiosa.

2. Um jovem entrara no Instituto fundado por São Camilo de Lellis. Depois de alguns anos, cedendo à tentação do demônio, obstinara-se no propósito de abandonar o convento e voltar á vida civil. São Camilo, tendo empregado tudo para segurá-lo na vocação e vendo baldados todos os seus esforços, predisse-lhe que teria um fim tristíssimo e morreria nas mãos da justiça. Nove anos mais tarde, aquele perjuro foi decapitado no meio da praça, em Nápoles.

3. Na vida de Santo Afonso Rodriguez, jesuíta, lê-se que este grande servo de Deus se entregou às mais rudes penitências e fervorosas orações para obter do céu que um noviço, seu confrade, vencesse umas fortíssimas tentações que experimentava contra a vocação.

Nosso Senhor revelara ao santo que, se o noviço deixasse a vida religiosa, os demônios o lançariam no abismo da perdição eterna; e não somente a ele, mas também aos pais dele que empregavam toda sorte de estratagema para o fazer retornar à família.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

sábado, 25 de abril de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (101/104)

 

101. ASSUNTO PARA MEDITAR

O padre Pedro Fabro, varão insigne da Companhia de Jesus, tinha granjeado fama de grande diretor de almas. Um dia procurou-o um cavalheiro e pediu-lhe algum assunto para meditar. O padre respondeu:
➖ Meu filho, basta que faças o seguinte: cada dia pensa por alguns instantes - Cristo em tanta pobreza e eu vivendo em tamanha opulência! Cristo sofrendo fome e sede, e eu gozando de tantos banquetes! Cristo desnudo e eu ricamente vestido! Cristo padecendo horríveis dores e eu no meio de tantas delícias!
➖ Nada mais, padre?
➖ Nada mais que isso.

O cavalheiro retirou-se um pouco desiludido. Entretanto, poucos dias depois, convidado a um jantar, no meio dos manjares suculentos, dos vinhos seletos e da música, no auge, enfim, da alegria, vem-lhe de repente o pensamento: Cristo com fome e sede e eu aqui a fartar-me e a embriagar-me como bruto... Saltaram-lhe as lágrimas dos olhos, levantou-se em silêncio e retirou-se para um convento a fazer penitência. 

Eu aqui... e Cristo na Cruz! Se estiveres lendo um mau livro quando, sobre o céu claro de tua alma, amontoam-se nuvens negras de paixões e imaginações perigosas, pensa: Cristo na Cruz, e eu! Quando estiveres mergulhado em teus negócios ou em conversas mundanas - sanguessugas chupadoras do sangue ou da honra do próximo, pensa: Eu a pecar... e Cristo na Cruz! Se tens coração, se ainda te resta um pingo de fé, basta essa meditação para mudares de vida.

102. LÁGRIMAS DE MÃE

Houve, em tempos idos, um condezinho muito bom, que fôra educado por uma mãe santa. Inculcara-lhe ela uma grande e terna devoção à Virgem Santíssima, cujo escapulário trazia sempre consigo, ensinando-o a chamar Nossa Senhora de mãe. Estes dois amores, à mãe do céu e à da terra, cresceram no coração do condezinho como duas âncoras de salvação que haviam de salvar o mesmo navio.

O jovem foi enviado a uma corte estrangeira. Ali perverteu-se, enfraqueceu-se a sua fé, tornou-se muito mau. Não abandonou, porém, o piedoso costume de ajoelhar-se todas as noites diante da Santíssima Virgem, para rezar as três Ave-Marias, repetindo com fervor: 'Não me abandoneis, minha Mãe! Minha Mãe, não me abandoneis'.

Um dia, tomando parte numa caçada com um amigo infame que o pervertera, foram surpreendidos por uma tempestade e tiveram que pousar numa estalagem. O conde, após a sua oração cotidiana à Santíssima Virgem, adormeceu logo. Pouco depois, começou a sonhar que se achava perante o tribunal de Deus. Uma alma acabava de ser condenada, e ele viu que era a sua que estava sendo conduzida pela própria consciência para ser julgada. Viu também sua mãe de joelhos pedindo misericórdia para ele.

Lúcifer lançou na balança os pecados do jovem conde. A balança caiu até o abismo; os anjos cobriram o rosto com suas grandes asas e Lúcifer deu um grito de triunfo. A alma estava perdida! Foi então que apareceu Maria, a qual, prostrando-se aos pés do Senhor em posição suplicante ao lado da condessa, colocou no outro prato da balança as Ave-Marias do conde e mais as lágrimas da condessa. Nada adiantou. Então a Virgem volveu os olhos para o juiz e duas lágrimas suas caíram no prato da balança, onde estavam as lágrimas da condessa-mãe. A balança cedeu imediatamente. As lágrimas das duas mães salvaram aquele pobre filho!

Um trovão horrível despertou o jovem conde. A dois passos dele, viu então, no outro leito, o cadáver de seu amigo carbonizado.

103. NOBRE E ALTIVA RESPOSTA

Numa perseguição religiosa na China, foi preso e conduzido à presença do mandarim um moço cristão, chamado Paulo Moi. O magistrado, fortemente impressionado com a fisionomia gentil e graciosa do jovenzinho, empregou todos os esforços para faze-lo apostatar da fé.

Vendo que tudo era inútil, ofereceu-lhe como prêmio uma barra de prata para renunciar à fé cristã.
➖ Obrigado, mandarim - disse Paulo, mas uma só barra não basta.
➖ Bem; eu te darei então uma barra de ouro.
➖ Ainda não basta.
➖ Quanto desejas, então, miserável?
➖ Grande mandarim, se desejais que eu renuncie à minha fé, deveis dar-me o que vale a minha alma e, para isso, todo o teu ouro é pouco.
Alguns dias depois, Paulo foi decapitado. Preferiu perder a sua vida a perder a sua alma.

104. CORAGEM CRISTÃ

Santa Blandina, mártir de Liao (177), era uma menina cristã de constituição física muito delicada. No humilde emprego de criada, praticava as mais belas virtudes, copiando em sua vida o divino modelo Jesus Cristo.

Numa perseguição, foi presa com sua patroa e submetida aos mais cruéis tormentos. Conduzida ao tribunal, confessou a sua fé alegremente e com redobrado vigor, repetindo muitas vezes estas palavras:
➖ Eu sou cristã; entre nós cristãos não se cometem os delitos de que nos acusais.

Depois que foi flagelada sem piedade e obrigada a sentar-se num banco de ferro em brasa, meteram-na numa rede e deixaram-na à mercê de um touro furioso que com os chifres a atirou repetidas vezes ao ar. Finalmente, a heroica menina foi degolada.
Os próprios pagãos confessavam jamais ter visto uma criatura tão frágil sofrer com tamanha coragem e resistência.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)