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terça-feira, 6 de outubro de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (156/160)

 

156. O VIÁTICO LEVADO DE AVIÃO

Era um bravo soldado francês e estava em terras da Argélia, na África, lutando contra os inimigos de sua pátria. Por seu valor, e talento chegara em pouco tempo a comandante. Cristão e piedoso fôra em sua infância, cristão e piedoso em sua juventude e, agora, nos campos de batalha e nas tendas de campanha, era ele muito mais piedoso e cristão.

Recebeu ordem de avançar e avançou até internar-se no deserto muito distante das cidades onde viviam os europeus. Estava na frente do exército dos árabes e tinha consigo apenas um regimento de soldados. Teve que dar batalha; nela o nosso comandante lutou como um leão. Fugiram vencidos e completamente derrotados os inimigos; ele, porém, recebeu uma bala no peito e caiu na areia candente do deserto sob um sol abrasador. Acorreu o médico, examinou a ferida e franziu a testa com visível mau humor.
➖ Doutor - disse-lhe o comandante - não me oculteis a verdade: Estou ferido de morte?
O médico replicou friamente:
➖ Pode ser.
➖ Está bem - disse o moribundo com a maior serenidade - vou perguntar-vos outra coisa: quantas horas julgais que posso viver?
➖ Três horas... quatro no máximo.
➖ Morrer, morrer... - exclamou o comandante - isso não me aterra. O que sinto é ter que morrer aqui no deserto sem um sacerdote que me absolva, sem o consolo da divina Eucaristia.

Ao ouvir estas palavras, um aviador, que estava ali perto, disse-lhe:
➖ Meu comandante, se quiserdes agora mesmo tomo o meu avião, que voa mais que os pássaros, e antes de três horas estarei aqui de volta com um padre.
➖ E onde ireis buscar esse sacerdote? Daqui ao primeiro lugar aonde podereis ir buscá-lo há mais de duzentos quilômetros.
➖ É verdade, meu comandante; por isso mesmo, não há tempo a perder. Senhor Doutor, conservai-lhe a vida três horas ao menos, que antes disso eu estarei aqui com um sacerdote.
Era um relâmpago aquele aviador. Subiu ao aparelho e, em poucos instantes, já havia desaparecido no horizonte. Entretanto, o comandante, moribundo, beijava com fervor o seu Crucifixo e dizia:
➖ Três horas de vida, Senhor, três horas até que venha um sacerdote... até que me deem o vosso sagrado Viático.

Deixemos o moribundo por um instante. Voemos com o aviador. Já chegou felizmente a Laghouat, onde está o hospital francês. Correu ao padre Capelão e lhe disse:
➖ Padre, quer subir comigo no avião? Temos que percorrer duzentos quilômetros. Lá está a morrer um comandante e não quer morrer sem um padre e sem a comunhão. Se o senhor puder ir, não podemos perder nem um minuto.
➖ Pois não... neste instante - respondeu o Capelão. E correu à capela, tomando consigo a hóstia santa e os santos óleos. Subiu ao avião e o aviador deu partida de pronto.

Antes das três horas convencionadas, estava o Capelão à cabeceira do comandante moribundo. Ouviu-lhe a confissão, deu-lhe a absolvição e apresentou-lhe a divina Eucaristia. Naquele momento solene, soldados e oficiais enchiam a tenda onde agonizava o valente comandante. O sacerdote elevou em suas mãos a hóstia santa e disse: 'Eis o Cordeiro de Deus, eis o que tira os pecados do mundo'. O sacerdote inclinou-se para depositar a branca hóstia nos lábios do herói. O comandante abriu pela última vez os olhos e exclamou do fundo da alma:
➖ Obrigado, meu Deus, obrigado...
Momentos depois, o Capelão, chorando como criança, dizia:
➖ Morreu um herói... morreu um santo.
Sim, quem morre amando a Jesus como este comandante, certamente morre como um santo.

157. A MISSA DE SÃO PEDRO DE ALCÂNTARA

Segundo Santa Teresa, que o conheceu pessoalmente e muitas vezes o consultou em casos difíceis, poucos santos tiveram vida tão interior e receberam graças tão insignes como São Pedro de Alcântara. O seu amor a Jesus e a sua devoção à sagrada Paixão do Salvador eram inefáveis: dificilmente se faz uma ideia da piedade com que celebrava o Santo Sacrifício e do recolhimento, da fé viva e do amor com que se aproximava do santo altar. Quando celebrava, os fiéis corriam à igreja desejosos de presenciar os favores divinos que o santo recebia.

Dizem os biógrafos que, dirigindo-se à sacristia, ele transportava-se ao Pretório e a lembrança da Paixão o penetrava de tal modo que os paramentos de que se revestia eram aos seus olhos como que vestes da Vítima divina. Absorto neste pensamento, dirigia-se ao altar com os mesmos sentimentos com que se teria dirigido ao Calvário; e ali, abrangendo com um olhar o mundo inteiro, oferecia o Santo Sacrifício em união com Jesus, e pedia a Deus que recebesse a Hóstia divina pela salvação de todos.

Desde as primeiras palavras, a sua devoção comovia os presentes. Quando lia o Evangelho e principalmente quando pronunciava o nome de Jesus, o ardor do seu coração era tão grande que de seu peito irrompiam suspiros e de seus olhos brotavam lágrimas. Ao Canon, o seu rosto inflamava-se; e quanto mais se aproximava a Elevação, tanto mais viva era a sua comoção. Era preciso contemplá-lo depois da consagração: o corpo imóvel, o rosto inflamado, os olhos atentos e expressivos como se ele estivesse vendo realmente o mistério adorável oculto sob as sagradas espécies. Com frequência perdia os sentidos e, não obstante a sua resistência, era arrebatado e elevado da terra. Voltando a si, continuava a rezar o Pai Nosso com muitos suspiros e lágrimas.

Após a Comunhão, os êxtases e a imobilidade recomeçavam. Ficava confundido com esses favores extraordinários, e, para evitar a admiração dos presentes, fugia o mais possível de celebrar em público. Ordinariamente despia depressa os paramentos e corria a fechar-se em sua cela, onde gozava em paz da visita do Hóspede divino. A sua ação de graças era longa e entrecortada de suspiros amorosos. Assim se explica o que dele afirmaram os que o conheceram de perto: que ele conseguiu mais conversões com a celebração da santa Missa do que todos os pregadores de sua província com seus sermões; e que muitíssimos dos que o viram celebrar procuravam-no depois para se confessarem e receberem os seus sábios conselhos.

158. A MISSA DE SÃO CARLOS

A devoção de São Carlos, arcebispo de Milão, pela Eucaristia, quem a poderá exprimir? Passava horas e noites inteiras em adoração aos pés do altar, como um puro espirito, e durante as Quarenta Horas dificilmente se afastava do Santuário.

As velas consumiam-se diante do Santíssimo Sacramento com menos ardor que a sua alma. O incenso elevava-se ao céu com um perfume menos puro que as preces de seu coração. E, quando celebrava o divino Sacrifício, os fiéis julgavam ver um anjo ao altar. Todas as manhãs, antes de celebrar, purificava a sua consciência, levando as suas menores faltas ao tribunal da penitência.

Uma de suas regras era: guardar absoluto silêncio desde a oração da noite até o fim da ação de graças após a missa. Antes de haver celebrado a santa missa não queria ocupar-se de nenhum negócio. Subir ao altar e distribuir a sagrada comunhão eram as suas delicias, tendo-se imposto muitas vezes grandes sacrifícios para o fazer. Depois de celebrar e fazer a sua ação de graças, o santo deixava a igreja em silêncio e voltava para casa todo absorto em Deus.

159. SÃO LUÍS BELTRÃO E A SANTA MISSA

São Luís Beltrão, parente de São Vicente Ferrer e, como este, famoso por suas pregações, estimava infinitamente o favor que Deus lhe fizera chamando-o ao sacerdócio. Considerava a Festa do Natal como a mais bela de todo o ano, porque nesse dia lhe era permitido celebrar três Missas.

Todos os dias se confessava, a fim de levar ao altar uma consciência mais pura. Jamais elevava a Hóstia ou o Cálice, sem pedir a Nosso Senhor a graça de derramar o seu sangue pela conversão e salvação dos pecadores: 'Senhor, concedei-me a graça de morrer por vós, como vós morrestes por mim'. Nada comovia tanto os fiéis como as lágrimas que viam correr dos seus olhos desde a Elevação até a Comunhão. Viram-no, várias vezes, enquanto tinha nas mãos a Hóstia santa, circundado de uma luz sobrenatural resplandecente como o sol; era como se uma luz do céu inundasse toda a igreja. A Hóstia divina era a alegria do seu coração e a glória da sua vida.

160. UM SANTO E UM COMERCIANTE

É interessante o que se passou certa ocasião com São João Bosco, grande amigo da mocidade e grande convertedor de pecadores. Apresentou-se a ele um comerciante para tratar de assuntos relativos ao seu comércio. Mas, como para aquele grande mestre o maior negócio da vida era o da salvação eterna da alma, conhecendo sem dúvida por divina revelação que aquele homem andava muito bem de assuntos financeiros, porém muito mal de temor de Deus e muito afastado do cumprimento de seus deveres de cristão, disse-lhe sem mais preâmbulos:
➖ Já sabe, amigo, que é preciso confessar-se?
➖ Dom Bosco - replicou o comerciante - deixemos esse assunto para outro dia.
➖ E contudo, este é o mais importante de todos. O amigo já sabe que é preciso confessar-se e fazer a páscoa.
➖ Ninguém o duvida, mas eu não vim para isso.
➖ Pois eu para isso estou aqui, por isso vou repetir: Já sabe, amigo, que é preciso que se confesse e faça a páscoa?

O comerciante ficou um pouco agastado e disse:
➖ Mas, Dom Bosco, o senhor me tem por um herege?
➖ Não, amigo - replicou o santo com o seu sorriso imperturbável - não o tenho por herege, mas digo-lhe unicamente que é preciso confessar-se e fazer a páscoa.
➖ Bem - exclamou enfadado o comerciante - e quem lhe disse que eu ainda não o fiz? Quem lhe disse que ainda não me confessei este ano?

Dom Bosco, com as mãos cruzadas sobre o peito, e fixando-o com um olhar que penetrava até o fundo da consciência, disse-lhe acentuando bondosamente cada palavra:
➖ Está bem; eu apenas lhe recordo que é preciso...
➖ Pois eu lhe digo - insistiu o comerciante - que eu agora não tenho vontade nem tempo.
➖ E eu repito - acrescentou o santo - que é preciso...
Não podendo o comerciante resistir mais à graça de Deus que, pelas palavras do grande educador, acabou por lhe comover o coração, respondeu:
➖ Padre, faz mais de quarenta anos que não me confesso.
E o santo com maior bondade, maior doçura e compassivo olhar, respondeu:
➖ Por isso, meu filho, eu lhe dizia: É preciso confessar e fazer a páscoa.
E, após uma boa confissão, o comerciante, que fôra tratar de assuntos comerciais, dali saiu mais rico e feliz do que nunca por haver comprado a graça de Deus e a paz da alma.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (153/155)

 

153. POR QUE CHORAS?

Uma menina, mandada a fazer uma compra, perdeu o dinheiro e pôs-se a chorar. Um senhor, que por ali passava, perguntou-lhe:
➖ Menina, por que choras?
➖ Porque perdi o dinheiro com que devia fazer uma compra.
➖ Oh! E por que não tens mais cuidado?
➖ O senhor tem razão; mas o que mais me aflige é pensar no quanto custa ao meu pobre pai ganhar esse dinheiro.

Aquele senhor, compadecido, deu-lhe o dinheiro. Alguns instantes depois voltou a menina para devolver-lhe aquela importância, pois encontrara o dinheiro que havia perdido. O homem, admirado de tanta honradez, não aceitou a devolução e, como recompensa, deu-lhe mais outra quantia. A menina não a queria aceitar, repetindo que não fizera mais que cumprir o seu dever. O senhor, porém, respondeu que ela merecia aquele presente porque procedera não só com justiça mas com honradez.

154. O AMOR DÁ CORAGEM

Era uma jovem de uns dezesseis anos. Vivia num bairro pobre de uma cidade do norte da Espanha. Todos ali eram pescadores e passavam a vida à beira do mar. Sobre aquelas águas sem horizonte navegavam todos os dias procurando naqueles procelosos abismos o pão de cada dia. O pai de nossa jovem era pescador, e dos piores e mais brutos que se possam imaginar. Nunca o viram na igreja. Para ele só havia dois lugares prediletos: a taberna e o mar. Muito natural, portanto, que sua filha, apesar de seus dezesseis anos, não tivesse feito a primeira Comunhão.

Naqueles dias tinham chegado ali alguns padres missionários. Transformaram um barracão em igreja e, pela manhã e à noite, reuniam aqueles pobres pescadores para falar-lhes de Deus e da salvação eterna. Além disso, em horas diversas, reuniam os meninos e as meninas para explicar-lhes o catecismo. E isto era uma necessidade porque, entre aquelas pobres alminhas, muitas nunca tinham ouvido falar de confissão ou de comunhão. Nossa jovem de dezesseis anos era das mais assíduas e atentas. De manhã, quando o pai ia para o mar, ela corria à capela dos missionários para aprender a rezar e cantar e ouvir coisas tão belas que nunca ouvira em sua vida.

Chegou o dia da confissão. Passavam de sessenta as meninas que já haviam completado quinze anos e que no dia seguinte iam ter a felicidade de receber Jesus pela primeira vez. Estavam todas radiantes de alegria. Começava a anoitecer e o padre missionário levantou-se do confessionário. Terminara a sua tarefa. Naquele momento aproximou-se dele uma daquelas meninas e, apontando com o dedo uma jovem que estava no fundo da capela, disse:
➖ Padre, aquela menina tem mais de dezesseis anos e ainda não fez também a primeira comunhão. Nem sequer se confessou. Mas o senhor não a confesse porque, se o pai dela souber que se confessou, dá-lhe uma sova e a deixa moída.
➖ Ele é tão mau assim?
➖ Se é! É péssimo. É o pior homem do bairro e tem o apelido de 'Barrabás'.

O padre missionário dirigiu-se à jovenzinha, que já conhecemos, e entre os dois travou-se o seguinte diálogo:
➖ Quantos anos tens?
➖ Já completei dezesseis.
➖ Nunca te confessaste?
➖ Nunca.
➖ Sabes o catecismo?
➖ Antes, não; mas agora, sim; porque todos os dias tenho vindo pela manhã e à tarde e comprei um livrinho e já o sei de cor.

O padre fez-lhe algumas perguntas e viu que não havia menina que soubesse o catecismo tão bem como ela.
➖ E queres confessar-te?
➖ Sim, Padre.
➖ E comungar?
➖ Mais ainda.
➖ E teu pai consentirá?
➖ Meu pai não o saberá. Quando ele for de manhã para o mar, eu venho comungar e ele não ficará sabendo. E se souber...
➖ Então ele te bate...
➖ Paciência. Será só mais uma surra.

O missionário estava pasmado. A almas como aquelas não se pode negar o maior prêmio da vida: a Eucaristia. Sentou-se, pois, no confessionário e a menina aproximou-se da grade. Já estava o padre a dar-lhe a absolvição, quando se ouviram na capela uns passos pesados e compassados. Não havia dúvida: tinha que ser algum pescador que entrava com seus pesados sapatões. E era isso com efeito. Foi direto ao confessionário e, agarrando pelo braço a jovem que naquele instante se levantava, deu-lhe tremendas bofetadas e pontapés, empurrando-a para a rua e dizendo:
➖ Eu já suspeitava que tu andavas por aqui. De onde te vêm essas beatices? Eu te ensinarei a ter juízo. Fora daqui, filha má...

Era o pai. Não se enganaram os que disseram que ele era o homem mais bruto do bairro. O padre missionário não podia fazer nada com aquele pai monstro.
➖Meninas - disse àquelas que estavam ainda na igreja e contemplavam aterradas aquela cena brutal -  meninas, de joelhos! Vamos rezar três Ave-Marias por aquela filha mártir e por aquele pai verdugo.
E todos se ajoelharam e rezaram com fervor. 

Amanheceu o grande dia da comunhão daquelas boas meninas. Antes da hora já estavam ali com seus melhores vestidinhos. Os bancos estavam enfeitados com flores brancas. Ia começar a missa e o padre perguntou:
➖ Veio aquela menina a quem o pai ontem esbofeteou tão brutalmente?
➖ Não - disseram - não devemos esperar por ela. Terá cama por alguns dias, talvez com alguma costela quebrada.
Diziam isto, quando junto à pia de água benta apareceu a nossa jovem. Tinha a cabeça toda enfaixada, mas seus olhos brilhavam de alegria. Fez o sinal da Cruz e, satisfeita e resoluta, sentou-se no banco entre as outras jovens.
➖ Mas, minha filha - disse-lhe o velho missionário - o que foi que te aconteceu?
➖ Nada, padre - respondeu com a maior tranquilidade - apenas meu pai, por eu me ter confessado, me deu ontem tão tremendas pancadas, que estou com o rosto e a cabeça cobertas de feridas.
➖ E teu pai, onde está agora?
➖ Seguiu para o mar.
➖ Ele sabe que vieste comungar,?
➖ Não, senhor.
➖ E se ele vier a saber?
➖ Vai me dar outra sova.
➖ E que dizes sobre isso?
➖ Não faz mal, padre; para ter a felicidade de comungar, a gente bem pode aguentar duas sovas.
Com que prazer não terá Jesus entrado naquele coração. Aquela jovem, sim, amava a Jesus; aquela, sim, sabia fazer sacrifícios por amor de Jesus Cristo! Vós, meninos e meninas, admirai-lhe a grandeza de alma, a coragem e tal firmeza de caráter.

155. QUE SANTOS BEIJOS!

Margarida acabava de completar vinte anos. Não era mais uma menina. Entretanto, desde a sua primeira comunhão, amava a Jesus-Hóstia com um amor imenso, apaixonado. Sua maior alegria e felicidade consistia em lavar e engomar os objetos que serviam para o altar. Lavava as toalhas e, quando acabava de engomá-las, depositava nelas um beijo porque sabia que sobre elas seriam colocados pelos sacerdotes o cálice, o cibório, a custódia... Lavava e engomava os corporais e beijava-os não uma mas muitas vezes, porque - dizia - sobre eles repousará a branca hóstia, depois de consagrada.

Às vezes estava sozinha na igreja e não podia conter-se: corria ao altar do Santíssimo e, quando julgava que ninguém a via, subia a uma cadeira e beijava a portinha do sacrário, porque - dizia - ali atrás está escondido o meu amor. Aquela alma estava madura para o céu. Margarida morreu na flor dos anos. Tendo sido sacramentada, ia receber o sagrado viático; e foi então que fez o que sempre desejara fazer. Quando o sacerdote aproximou de seus lábios a hóstia divina, que seria a sua última comunhão, antes de tomá-la, imprimiu-lhe um beijo. E dizia depois, satisfeita, que nada mais lhe faltava para ser feliz. E partiu para o céu...

Todo ato de amor, toda jaculatória de amor, passará através da portinha do Sacrário e encherá de alegria o coração de Jesus tão esquecido pelos bons e tão desprezado pelos maus.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (149/152)

 

149. O MENINO SOLDADO

José Sanchez del Rio pertencia à Juventude Católica, seção de Aspirantes. Tinha 13 anos quando Calles, presidente do México, iniciou a sua terrível perseguição contra os católicos. O menino apresentou-se ao general Mendoza, comandante do Exército dos Libertadores, e lhe disse:
➖ Se eu não souber atirar com o fuzil, poderei prestar, outros serviços: cuidar dos cavalos, preparar munições, carregar água. Deixe-me ser soldado de Cristo-Rei!
Em vista de tamanha insistência, o general resolveu aceitar o pedido do menino. A mãe, porém, temia pela sorte de seu filhinho.
➖ Ora, mamãe - dizia ele para animá-la - não me deixe perder esta boa ocasião de ganhar o céu com tão pouca fadiga e tão depressa.

Qual seria o segredo de tamanho ardor? A santa comunhão cotidiana. Rezara muito junto da sepultura do protomártir da Juventude Católica Mexicana - o jovem Joaquim Silva - e, desta oração, o aspirante Sanchez saiu soldado de Cristo-Rei, na expectativa de um glorioso martírio. No acampamento era ele o benjamim, mas o seu desejo era entrar em combate. Pouco depois do seu alistamento, no mais aceso furor de uma batalha, o cavalo do general Mendoza caiu fulminado. Ato contínuo, o soldadinho apeou-se, e disse:
➖ General, tome o meu cavalo. Que importa que me matem? O senhor é aqui mais necessário do que eu.

E escondido atrás de uma pedra, continuou a atirar, até que, esgotadas as munições, foi aprisionado. Admirado ao ver um menino feito soldado, o general inimigo indagou:
➖ Que está fazendo, menino? Não sabe que vamos fuzilá-lo?
➖ Que importa? - replicou Sanchez. Só me prenderam porque estava sem munição.
➖ Ninguém pretende fazer-lhe mal algum; mas diga-nos o que sabe dos rebeldes.
➖ Eu, traidor de meus irmãos? Nunca! Pensam que sou um judeu como vocês? Prenderam-me como a um inimigo; então, devem fuzilar-me!
Tais respostas espantavam a todos. Conservaram-no, porém, como prisioneiro, na esperança de, por meios brandos ou violentos, arrancar-lhe algums informações.

A noite, fecharam-no na igreja da aldeia, transformada pelos soldados de Calles em galinheiro. Sanchez, que queria passar a noite rezando, em dado momento percebeu a presença de galos e galinhas na igreja. Ficou indignado com aquela profanação e, levantando-se, torceu o pescoço de todos aqueles animais.É fácil imaginar a irritação dos guardas, quando, pela manhã, deram com a inesperada matança. Investiram contra o menino, e bateram-no até vê-lo derramar sangue. Sanchez, corajoso, dizia:
➖ Deixem-me vivo para morrer fuzilado.

Naquele dia obteve licença de escrever a sua mãe. Na carta dizia: 'Mamãe querida. Fui feito prisioneiro e esta noite serei fuzilado. Chegou, finalmente, a hora tão desejada. Abraço a senhora e a todos os meus irmãos, e prometo-lhes um bom lugar no Céu'. E assinou: 'José Sanchez del Rio, que morre em defesa da Fé, por amor de Cristo-Rei e da Rainha Nossa Senhora de Guadalupe'.

Seriam 23 horas do dia 10 de fevereiro de 1928, quando o menino foi conduzido ao cemitério. Caminhava cantando o hino: 'Cristo vence, Cristo reina, Cristo impera'. Ao chegar ao cemitério, perguntou onde estava a sua cova e vendo-a, para lá se dirigiu, ajoelhou-se e beijou-a. Os soldados inimigos avançaram sobre ele e o transpassaram a punhaladas. O sangue jorrava de inúmeras feridas, mas Sanchez não tremia nem chorava.
➖ Continuem - repetia - continuem! Mais um pouquinho e estarei com Cristo-Rei!
Um dos soldados disparou-lhe um tiro na cabeça e ele caiu morto na cova. O sepulcro desse valoroso menino soldado de Cristo-Rei é, hoje, glorioso e muito visitado.

150. A INGRATIDÃO PARA COM DEUS

Conta o historiador César Cantu que certo rei da índia caiu em um rio. Um servo fiel correu, lançou-se à torrente e, agarrando o rei pelos cabelos, salvou-o da morte certa. Voltando a si, o rei quis saber quem e de que modo o salvara das águas. Levaram-lhe o servo fiel, e esperavam que o soberano lhe desse uma generosa recompensa. Mas não foi assim. O rei com ar severo perguntou-lhe: 'Como tiveste a ousadia de por as mãos em teu rei?' E imediatamente mandou que o trucidassem. 

Essa monstruosa ingratidão causou horror. O castigo, porém, não tardou. Estando o rei, certo dia, embriagado, entrou num barco e outra vez naufragou. Os barqueiros bem o poderiam salvar mas, recordando-se do servo trucidado, deixaram que o rei se afogasse. Fizeram mal, é certo; mas o mau rei teve o que merecia, porque fôra ingrato e cruel para com aquele que lhe demonstrara tanto amor, livrando-o da morte. Quantos não há por ai que, escapando da morte eterna por meio do Sacramento da Penitência, imitam aquele rei, mostrando-se cruéis e ingratos para com Jesus, o seu libertador!

151. O NOME DE JESUS

São Bernardino de Sena foi um grande apóstolo e propagador da devoção do Nome de Jesus. Conta-se que, no fim de todos os sermões, costumava expor um quadro no qual estava gravado o nome de Jesus, e com esse meio de propaganda conseguía efeitos maravilhosos. 

Uma vez, numa praça de Bolonha, pregou contra o jogo de baralho com tamanho sucesso, que o abuso desse jogo foi extirpado. Ora, um artífice, que fabricava as cartas e com essa arte ganhava o seu sustento, ficou reduzido à miséria, pois ninguém mais lhe comprava baralhos. Que fazer? Apresentou-se ao pregador São Bernardino e lhe disse: 'Padre, agora não terei mais com que viver; pensai vós em socorrer-me'. 

O santo não se embaraçou. 'Se não sabes pintar outra coisa - disse a ele - vai e pinta esta imagem, e verás que tudo vai bem'. E fazendo um círculo, desenhou nele o sol e no centro do sol o nome de Jesus. O artífice executou aquele trabalho com o máximo cuidado, e toda a gente corria a comprar cópias daquela imagem. De sorte que, assim, o fabricante daquele novo gênero de cartas, além de cooperar para a propaganda do Nome de Jesus, fez ainda uma boa fortuna.

152. CONTEMPLA-SE AO ESPELHO PELA ÚLTIMA VEZ

Na cidade de Florença vivia uma jovem, que er amuito vaidosa. Só pensava em pentear a sua formosa cabeleira, acariciar e aformosear a sua carne. Diante do espelho, diariamente passava longas horas contemplando-se e estudando o grave problema de encontrar um meio de fazer sobressair ainda mais a sua graça e formosura. Mas, por detrás do espelho, a enfermidade a espreitava. Meteu-lhe as garras e prostrou-a no leito de dores. A febre consumia todos os seus ossos e, dentro de poucos dias, de toda a sua beleza não restava mais que um rosto lívido e um punhado de ossos descarnados.

E, por detrás da enfermidade, apresentou-se, com sua terrível caveira e com seus ossos esqueléticos, a morte. Aquela jovem não contava mais de vinte anos e, no entanto, tinha de despedir-se da vida e de todas as coisas mundanas que tanto amava. Disseram-lhe com delicadas palavras que o seu estado era muito grave e que, por isso, devia preparar-se para comparecer diante de Deus. A vaidosa jovem lançou um grito de dor. Olhou para trás e viu que perdera tristemente a vida esquecendo-se de Deus. Olhou para a frente e compreendeu que estava a dois passos do Juiz dos céus e da terra, a quem teria de dar contas de todas as suas vaidades. Estava às portas do céu ou do inferno! A consciência dizia-lhe aos gritos que muito tinha que temer por sua salvação eterna...

A febre converteu-lhe a cabeça numa fornalha de fogo. Saltou da cama, abriu seus cofres e seus armários, tirou os vestidos mais preciosos e as jóias mais ricas e começou a vestir-se e a enfeitar-se como naquelas noites em que se preparava para ir aos bailes e teatros. Como louca, e sustentada pela mesma febre, penteou-se e arranjou-se com toda a elegância. Contemplou-se ao espelho e pôs-se a exclamar: 'Como sou formosa! como sou formosa! E queriam enterrar-me a mim, a mulher mais formosa do mundo! Não, não... quero viver, quero viver... Venham minhas jóias, minhas pérolas, meus vestidos, meus anéis, minhas pulseiras, meus colares...'

E fora de si, arrojava-se a todos os seus cofres, armários e baús, e tirava os seus tesouros e apertava-os contra o coração e beijava-os com loucura. Sim, estava louca! E louca continuou por alguns dias e louca morreu. E metida num caixão, vestida com uma pobre mortalha, foi levada à sepultura. Eis aí a verdade: a vaidade humana tem que deixar todos os seus tesouros nas garras frias e cruéis da morte!

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

terça-feira, 25 de agosto de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (146/148)

 

146. COMO MORRE O SOLDADO DE CRISTO

Gabino Alcázar alistou-se aos 80 anos no Exército dos libertadores e, com ele, três de seus filhos. 'Chegou a hora de morrermos mártires' - disse ele aos seus na hora da despedida - 'Tenho ainda pouco tempo de vida, e por que não hei de consagrá-lo a Cristo-Rei? Desejo que a vossa morte seja tal qual a minha. Vamos combater por Deus'.

Isto sucedeu-se a 3 de março de 1927. O velho soldado de Cristo receberia dentro em breve a sua coroa de glória. Tomou parte em três combates com uma tenacidade extraordinária. A 12 de março, numa renhida batalha, saltara da trincheira para avançar contra o inimigo, oculto atrás de uma rocha, e atirou até o último cartucho. Afinal, os soldados de Calles o cercaram, gritando-lhe:
➖ Entrega-te, velho!
➖ Os soldados de Cristo-Rei morrem, mas não se rendem - respondeu com altivez.
➖ Entrega-te ou te matamos.
➖ Cair, sim; ceder, nunca!

E para que os callistas não se apoderassem do seu fuzil, Gabino quebrou-o em dois pedaços e atirou-os contra o inimigo, dizendo-lhes:
➖ Tomai e entregai isso ao vosso Calles-Nero.
Seus olhos tinham um lampejo de alegria. No momento em que levantou a mão aberta para o céu e gritou: 'Viva Cristo-Rei!', uma descarga o prostra por terra.

A Escritura diz: 'As almas dos justos estão nas mãos de Deus; o tormento da morte não chega a tocá-los.
As almas dos justos descansam na paz; atormentados pelos homens, a sua esperança tomou vulto na eternidade'. Como essas palavras se adaptam ao velho soldado Gabino!

147. LEVAVA A COMUNHÃO AOS MÁRTIRES

O governo maçônico e ateu do México metia no cárcere, à espera da morte, sacerdotes e fiéis católicos. Para confortá-los na fé, meninas piedosas e inteligentes, disfarçadas mas com risco da própria vida, levavam-lhes frequentemente a Comunhão.

Rosina Gomez foi uma dessas meninas privilegiadas. Com apenas 12 anos, consagrara-se ao piedoso oficio de levar Jesus-Hóstia aos prisioneiros. Rosina, com permissão de sua mãe, ia todas as manhãs a uma das estações eucarísticas. Ali comungava e o sacerdote entregava-lhe as hóstias consagradas para levar aos encarcerados. A fim de evitar suspeitas, tirava-se o miolo do pão e, em seu lugar, colocavam-se as sagradas espécies envoltas em pano de linho. Deste modo Jesus chegava diariamente aos confessores da Fé, que aguardavam a morte gloriosa.

Durava já três meses esse trabalho; quando Rosina começou a ser observada e seguida pelos callistas. Um dia, cercaram-na e perguntaram-lhe:
➖ Aonde vais?
➖ Para minha casa e tenho pressa - respondeu Rosina.
➖ Que é que tens nas mãos?
➖ Nada para os senhores e tudo para mim.
➖ Joga fora o pão que tens oculto.
➖ Isso eu não faço.

Os policiais apontam-lhe os revólveres. A esse gesto ela responde calmamente:
➖ Não tenho medo de ninguém. Jesus me dará forças. Ajoelhou-se, em seguida, tomou as hóstias e ali mesmo comungou para evitar profanações. Um minuto depois, cai varada de balas daqueles tigres.

148. UM MÁRTIR DE 18 ANOS

Em Jalisco, no México, um bando de comunistas prendeu um rapaz de 18 anos, acusando-o de fomentar um motim. Queriam forçá-lo a gritar: 'Abaixo o Cristo'.
➖ Não posso, respondeu o jovem; sou católico.
➖ Agora não és mais que um revolucionário.
➖ Revolucionário? Nunca! nunca me bandeei para os revolucionários. Ninguém poderá prová-Io. Sou simplesmente católico, e não posso renegar a Cristo.

Declarações tão firmes e decididas tiveram consequências imediatas. O jovem foi primeiramente espancado e, depois, amarrado à traseira de um caminhão e arrastado pelas ruas da cidade entre risos satânicos. Coberto de sangue e de pó, chegou em frente da casa paterna. Os delinquentes pararam o caminhão e mandaram que o mártir gritasse: 'Viva Calles'. Redobrando as forças, o jovem gritou:
➖ Viva Cristo-Rei!

Uma senhora presente à cena correu a chamar a mãe da vítima: 'Que fosse depressa, porque pretendiam obrigar o filho dela a apostatar'. Imediatamente, a mãe, trêmula e pálida como a morte, correu para junto do mártir. Cena capaz de comover as próprias pedras. O filho, seu querido filho de 18 anos, cuja beleza e coragem eram o orgulho da mãe, banhava de sangue a rua. Ela atirou-se sobre aquele corpo, já nas últimas, e gritou-lhe:
➖ Meu filho, ainda que te matem, nunca renegues o teu Deus. Vale mais a Fé do que a vida. Viva Cristo-Rei!
O mártir, num supremo esforço, conseguiu balbuciar repetindo as palavras de sua mãe:
➖ Viva.... Cristo... nosso... Rei!
E morreu sob as vistas da mãe. Não sabemos o que mais admirar, se a fidelidade do filho ou a coragem da mãe.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (141/145)

 

141. ISTO É AMOR AO PRÓPRIO INSTITUTO!

Santo Inácio, quando se inteirava de que entre os seus religiosos havia algum espírito inquieto, que se permitia fazer críticas contra os Estatutos da Companhia, mandava-o embora inexoravelmente. Nenhuma razão o persuadia a transigir nesse ponto. 

No Colégio Romano ensinava então um célebre professor, homem de grande talento e possuidor de várias outras qualidades apreciáveis. Depois de certo tempo, veio à tona o espírito inquieto que o dominava e começou a pronunciar-se contra alguns regulamentos da Companhia, a externar e insinuar nos outros as suas idéias. Inácio repreendeu-o seriamente e, como os avisos não surtiram efeito, licenciou-o sem mais, embora fosse constrangido a por em seu lugar, como suplente, um jovem noviço flamengo, entrado na Ordem fazia pouco tempo.

142. A OBSERVÂNCIA ANTES DE MAIS NADA

P. Joli, Superior Geral da Congregação da Missão, quando se tratava da observância das Regras, era atentíssimo quanto a si e inflexível quanto aos outros, não se rendendo jamais nem a razões, nem a súplicas no permitir alguma quebra da Regra, por mínima que fosse. Quando um Superior lhe escreveu, pedindo certa licença, deu-lhe esta resposta: 'A nossa Regra é contrária a isso; e é preciso que estejamos fortemente apegados à Regra'. Eis a melhor de todas as razões.

Falando certo dia à sua comunidade, disse: 'Devemos ter em conta que nossa obrigação principal são as Regras e santos costumes da Congregação, deixando por isso, quando se trata de observá-la, todas as nossas devoções particulares: por exemplo, fazer mais conta de não falar sem licença com pessoas conhecidas, que encontramos eventualmente, do que fazer vinte disciplinas de nossa própria vontade'.

143. ARROJADO DO ALTO DA ESCADA

Na vida de São José Calasanz lemos uma passagem interessante e instrutiva. Ele foi chamado a salvar a juventude abandonada; o demônio, porém - afirma um autor - propõs a ele buscar a mais alta união com Deus mediante as delícias da vida contemplativa; apresentou-lhe, a seguir, as Índias e a Ásia, repletas de idólatras, a Europa infestada de hereges, o imenso número de pecadores para converter; mostrou-lhe ainda, por fim, quanto era árduo ocupar-se dos meninos incapazes de compreender as verdades da fé! 

Os seus companheiros, vítimas da mesma tentação, deram crédito ao demônio, retiraram-se e abandonaram o santo. O nosso santo, porém, não se deixou enganar; com isso o demônio ficou tão irritado que, um dia, o arrojou furiosamente do alto de uma escada, tomando a forma e o aspecto de sombras tenebrosas para amedrontá-lo.

144 - 145. DO PAGANISMO AO CLAUSTRO

1. Hiéria era pagã. Jovem e viúva de um senador romano, estava destinada a novas núpcias. Aconteceu, porém, que, durante a perseguição de Diocleciano contra os cristãos, veio a saber que em certo mosteiro vivia uma virgem chamada Febrônia, de vinte e cinco anos, belíssima, douta, eloquente, cujo rosto ninguém jamais via a não ser as suas coirmãs. Ora, Hiéria desejava vê-la; sentia uma como necessidade absoluta de satisfazer tão grande curiosidade.

Fingindo-se de monja, foi admitida à presença de Febrônia e pode vê-la e ouvir-lhe, chorando de comoção, suas santas palavras. Febrônia foi depois martirizada; e Hiéria, depositando sobre o féretro da virgem mártir todas as suas riquezas, ajoelhou-se aos pés da abadessa e, após fervorosas súplicas, obteve a graça de substituir a virgem.

2. Aglaé, nobre e rica romana, concubina de Bonifácio, que era o primeiro dos 73 intendentes de suas propriedades, ouvira dizer que quem honrava os santos mártires gozaria de especial proteção deles no tribunal de Deus.

Aglaé chamou, pois, a Bonifácio e deu-lhe a incumbência de ir ao Oriente à procura de relíquias.
➖ Senhora - disse Bonifácio - se um dia as minhas relíquias vos fossem enviadas sob a forma de mártir, vós as receberíeis?
Aglaé censurou-lhe esse modo de falar; mas Bonifácio morreu realmente mártir da fé, em Tarso. A nobre dama venerou aquelas relíquias, converteu-se, fez-se monja e de tal modo se purificou pela penitência que, mereceu ser sepultada na capela de São Bonifácio, que ela mesma mandara construir cerca de 50 estádios de Roma.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

quarta-feira, 29 de julho de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (137/140)

 

137A. A IMAGEM DO CORAÇÃO DE JESUS

Durante a primeira guerra mundial, uma senhora vira partir para os campos de batalha os seus três filhos, um após o outro. Quando partiu o último, que era oficial de marinha e destinado ao comando de um submarino, deu-lhe uma imagem do Sagrado Coração em celuloide, a fim de que fosse o seu escudo e proteção. Achava-se ele nas águas da Dalmácia e, devido a um movimento brusco para submergir, pois fora descoberto pelo inimigo, irrompeu no submarino um terrível incêndio.

É impossível descrever o pânico daquele trágico momento. Um dos marinheiros, asfixiado, caiu logo, gritando: Minha mãe! Foi dilacerante para o comandante e seus companheiros, que tentavam dominar o fogo com trapos, roupas e ferros. O comandante, lembrando-se da imagem do Coração de Jesus, teve uma ideia: tomou-a, beijou-a e passou-a a todos os marinheiros que faziam corrente... Eles a beijaram devotamente, e invocaram o misericordioso Coração...

Após grandes fadigas, conseguiram dominar o incêndio e puderam subir à superfície porque o periscópio não assinalava mais nenhum navio inimigo. Abraçaram-se, chorando de comoção. E o comandante, quando voltou para casa, após a guerra, quis que aquela imagem crestada pelo fogo fosse exposta na sala, onde em presença da noiva, da mãe e de outras pessoas se fez a consagração da família ao Sagrado Coração de Jesus.

137B. O SAGRADO CORAÇÃO E O MAÇON

Um incrédulo acabara de perder a sua esposa. De seus três filhos, somente a filha primogênita era batizada. Estando esta gravemente enferma, pediu que lhe chamassem um sacerdote. Para agradar-lhe, o pai, que era maçon, mandou vir o ministro de Deus. O sacerdote prometeu à doentinha que viria com frequência visitar-lhe o pai e pedir que este permitisse entronizar naquele lar o Sagrado Coração de Jesus.

O maçon recebeu as visitas do padre, mas recusou-se a tratar de qualquer assunto religioso. Veio a guerra. O padre foi mobilizado. Antes de partir recomendou a um colega que visitasse em seu lugar aquele senhor. Do campo de batalha escreveu ao seu substituto que, numa das visitas, deixasse na casa do incrédulo uma estampa do Sagrado Coração e um folheto sobre a entronização. O conselho foi seguido.

Alguns dias mais tarde o padre voltou aquela casa e qual não foi a sua surpresa, quando o Senhor N. lhe disse:
➖ O senhor não quer me ceder uma brochura que esqueceu aqui a última vez? Eu a li. Por que não me falou há mais tempo do seu conteúdo? Quero fazer a entronização aqui em casa.
➖ Mas é difícil, pois o senhor sabe que há impedimento... e seus filhos não são batizados!
➖ O impedimento não existe mais, pois pedi demissão da maçonaria e devolvi as insígnias maçônicas. Amanhã meus filhos receberão o batismo e, à tarde, o Sagrado Corado será entronizado no meu lar.

138. NO MÉXICO MÁRTIR

Era a primeira sexta-feira de abril de 1927. Os prisioneiros foram deixados toda a manhã sem alimento algum, e depois interrogados. Do advogado González Flores exigiam que revelasse onde estava oculto o Arcebispo, mas não conseguiram arrancar-lhe uma palavra.

Às 14 horas, foi suspenso ao alto pelos dedos polegares. Estando nessa tormentosa posição, foi flagelado, e rasgados os membros com facas que lhe enterravam na barriga das pernas... mas não revelou nada, antes encorajava seus companheiros a sofrerem por Jesus Cristo. O capitão deu-lhe um golpe com a coronha do fuzil, quebrando-lhe o queixo e fazendo saltar os dentes. O mártir suportou com paciência esse novo tormento. Foram chamados outros soldados, que, com inúmeras punhaladas o mataram.

Antes de expirar, fazendo um último esforço, o mártir exclamou: 'Ouçam ainda uma vez as Américas: Eu morro, mas Deus não morre! Viva Cristo-Rei!' No primeiro aniversário do martírio de seu pai, o filho primogênito de González Flores, de 5 anos apenas, obteve licença de fazer a primeira comunhão. Quando lhe perguntavam: 'Onde está o papai?' Respondia: 'Está no céu... e os homens o mataram porque ele queria muito bem a Jesus'...

139. O PRANTO DE JESUS

Jesus chorou três vezes, durante a sua vida. A primeira vez chorou junto à sepultura de Lázaro (Jo 11,35) e aquelas lágrimas eram silenciosas e denotavam amizade. A segunda vez chorou sobre Jerusalém, a cidade deicida: e eram lágrimas de verdadeiro e sentido patriotismo, lágrimas provocadas pela grande dor que Jesus experimentava ao pensar no extermínio daquela cidade santa (Lc 19,41). A terceira vez chorou Jesus, no Calvário, ao considerar a triste sorte da humanidade pecadora (Hb 5,7). E tu, minha alma, não choras nem os teus nem os pecados alheios?!

140. PULCHRI SUNT GRESSUS TUI!

Maria Vela estava um dia em doce contemplação aos pés de seu Divino Esposo, quando ouviu o sinal da campainha, que a chamava. Não hesitou nem um instante; interrompeu sua oração, foi aonde a chamavam e, terminado o trabalho, voltou para os pés de seu santo Esposo, o qual, satisfeito de vê-la tão pronta em executar a vontade de Deus e observar exatamente a Regra, pôs-se a louvar-lhe aqueles passos, repetindo: Pulchri sunt gressus tui (Ct 7,1): Que belos são os teus passos!

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

quarta-feira, 15 de julho de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (133/136)

 

133. A METADE DE UM PÃO PARA 50 RELIGIOSAS

Santa Clara, abadessa do convento de São Damião, porfiava com São Francisco na observância da pobreza, de tal modo que, as vezes, não havia nada para a refeição. De uma feita, à hora do almoço, Irmã Cecília, a ecônoma, correu triste a mostrar a abadessa o único pão que havia em casa. Um pão para 50 religiosas!

➖ Minha filha - disse-lhe Santa Clara - divida o pão em duas partes: uma metade mande aos nossos bons Irmãos esmoleiros, os quais com certeza estão necessitados como nós; a outra metade, você a divida em cinquenta fatias, pois tantas são as Irmãs.
➖ Mas, Madre - replicou a ecônoma ➖ para dar de comer a 50 religiosas com a metade de um pão, seria mister que Deus renovasse para nós as maravilhas operadas outrora em favor da multidão faminta...
➖ E por que duvidar, minha filha? Vá - disse a santa com um sorriso angélico - e com espirito de fé faça tudo como lhe ordenei.

Depois, reunidas no refeitório todas as Irmãs, pôs-se a rezar junto com elas; e eis que, durante a oração, as fatias de pão cresciam maravilhosamente nas mãos de Irma Cecília que as distribuía. Todas as Irmãs ficaram abundantemente servidas e não cessavam de dar graças à santa abadessa e mais ainda ao bom Deus, que renovara diante dos seus olhos o prodígio da multiplicação dos pães.

134. SENTAR-SE AO LADO DE UM PADRE

Não faz muito tempo deu-se em Roma o seguinte caso. Um padre subiu a um bonde e foi sentar-se ao lado de certo individuo, que seria tudo menos um cavalheiro. Por que? Porque, levantando-se de mau humor, foi sentar-se ao lado de uma senhora, dizendo em voz alta - para ser ouvido de todos - que não queria viajar ao lado de um corvo.

A senhora mais que depressa levantou-se e foi assentar-se ao lado do sacerdote, dizendo: 'E eu não quero ficar perto de um asno!' Gargalhadas sonoras obrigaram o mal-educado a calar-se envergonhado e a descer na primeira parada.

135. NO TRIBUNAL DE DEUS

São Jerônimo, que foi sempre estudiosíssimo, quando jovem apaixonou-se demais pelos clássicos latinos, e lia com avidez as obras de Plauto, de Terêncio e especialmente de Cícero. Ele mesmo conta que, uma vez, estando gravemente enfermo e à beira da morte, foi arrebatado em espírito ao tribunal do Juiz Jesus Cristo.

Eu estava - dizia o santo - com o rosto por terra e, ferido pelo fulgor do rosto de Deus e não ousava erguer os olhos. O Juiz interrogou-me: 'Quem és tu?' E eu, com voz trêmula, respondi: 'Sou Jerônimo, sou cristão'. 'Cristão? Mentes; não és cristão, mas ciceroniano - Mentiris; Ciceronianus es, non Christianus'.

Em seguida uma mão invisível desferiu-me uma tempestade de açoites. Eu gritava: 'Misericórdia! Misericórdia!', fazendo mil promessas de não ler mais os clássicos profanos e de entregar-me ao estudo assíduo da Sagrada Escritura. Ó quão rigoroso não será o Juízo divino!

136. O MEMORARE DO 'TERROR'

Na terrível época que se chamou na França como 'o Terror', um certo dia o vigário de Firanges (diocese de Puy) estava batizando ocultamente uma criança. Naquela infeliz época, isso era um crime passível de morte. Repentinamente, 14 hussardos e 5 gendarmes, guiados por um fogoso revolucionário, cercaram a aldeia  de Boisseyres e a casa onde estava o padre. Fugir era impossível. E onde esconder-se?

'Ó Maria, exclamou o padre, vós me salvareis, e eu recitarei o memorare (Lembrai-vos) todos os dias de minha vida, e o farei cantar todos os domingos na minha paróquia'. Assim dizendo, refugiou-se atrás de um armário. O primeiro soldado entrara no aposento justamente no momento em que ele cobria com um velho chapéu de palha as extremidades dos pés que ficaram por baixo do armário. Os soldados procuraram, revistaram, quebraram e estragaram tudo, mas não encontraram o padre. Um dos soldados chegou a enfiar a sua espada por três vezes atrás do armário; a espada passou sempre ao longo do corpo do pároco sem fazer-lhe nem a mínima ferida. Os carrascos partiram desapontados e o sacerdote se salvou.

O protegido de Maria foi fiel em cumprir o seu voto e os seus sucessores continuaram esta prática que consagrou aquela comovente recordação: depois do Magnificat, na igreja paroquial de Piranges, ecoava sempre o canto do Memorare.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

quinta-feira, 2 de julho de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (128/132)

 

128. INCIDENTE NUMA PROCISSÃO

Em Stuttgart (Alemanha), por ocasião da procissão de Corpus Christi, deu-se, faz alguns anos, o seguinte incidente.

Num dos pontos de espera estavam agrupados numerosos espectadores, quase todos protestantes, o que não é de admirar naquela cidade. A ponta da procissão estava a chegar, quando um senhor, metendo-se pelo meio da multidão, foi colocar-se diante de uma senhora de modo que ela não podia ver nada. Zangada, ela exigiu que ele saísse de sua frente. Mas o importuno negou-se, dizendo: 'Sou católico, portanto, tenho o direito de colocar-me na frente para ver passar a procissão dos católicos'.

A dama, sem se desconcertar, replicou: 'Como? O senhor é católico? Então o seu lugar não é aqui. Nós, protestantes, assistimos à procissão, mas vós, católicos, deveis acompanhá-la'. E tanta razão tinha aquela senhora que, nem bem acabara de falar, e o intruso já havia desaparecido.

129. COM DEUS NÃO SE BRINCA

Fazia 120 anos que, em Messina (Itália), não se verificava nenhum terremoto. Os habitantes daquela cidade, não obstante as advertências de pessoas competentes, haviam construído prédios de vários andares, pois julgavam-se muito seguros. Mas eis o que aconteceu.

No Natal de 1908, um jornal socialista local atreveu-se a interpelar ironicamente o Menino Jesus, escrevendo: 'Jesusinho, envia-nos um tremor de terra, se tens força para tanto'. Essa blasfêmia apareceu no dia 26 de dezembro. No dia 28, verificou-se uma catástrofe, como a cidade jamais vira outra semelhante. Em poucos minutos, 60.000 pessoas, isto é, um terço da população, perderam a vida. Irrompeu, além disso, um pavoroso incêndio que destruiu ou danificou quase todas as casas. Assim Deus castigou aquela blasfêmia.

130. MÚSICA DO PARAÍSO

1. Lê-se na vida de Madre Maria de Jesus que ela, com permissão do seu Diretor, confeccionara uma quantidade de disciplinas, cilícios e cintos de penitência, dos quais se servia com tal discrição, que nunca ninguém o descobrira. Uma noite, porém, flagelou-se com tanta violência, que uma irmã ouviu o rumor de seu quarto vizinho, e logo compreendeu de que se tratava, pois também essa piedosa jovem conhecia praticamente a disciplina.

2. Das filhas de Carlos Emanuel I de Saboia, as princesas Maria e Catarina, conta-se que a miúdo se flagelavam com espantosas disciplinas. O que mais se deve admirar, entretanto, é que o rei, tendo notícia disso, não só não lhes proibiu, mas até o aprovou. Um dia, passando junto ao quarto das filhas e ouvindo os golpes da disciplina, disse aos que o acompanhavam: 'Estais ouvindo esta música? Esta é a melodia que mais agrada às minhas filhas. Música verdadeiramente do Paraíso, porque feita de suspiros e com batutas de flagelos, que forma notas de sangue e abre as portas do céu'.

131. DEIXE-ME TOCAR UM POUCO

Numa reunião de cavalheiros e damas figurava, entre outros, o senhor P. Ruf, vigário de Lustenau, notável por sua agudeza de espírito. Eis que, de repente, aparece na sala um velho pobre e cego, conduzido por um seu netinho e começa a tocar sua harpa e a cantar. Os ouvintes notaram que o instrumento estava desafinado e, além disso, a voz do velho era pouco agradável, razão por que estavam na iminência de enxotá-lo da sala. Nesse instante, o vigário Ruf, acercando-se do cego músico, disse-lhe com carinho:
➖ Bom velho, o senhor está bastante cansado, dê-me a sua harpa e deixe-me tocar um pouco.

O vigário sentou-se numa cadeira, afinou o instrumento e começou a cantar uma belíssima ária, acompanhando-a com a harpa. Os presentes, mormente os que nunca o tinham ouvido, estavam cheios de admiração e espanto. O talento do novo tocador ressaltava ainda mais após os sons desagradáveis que pouco antes tinham ouvido. Terminada a ária, choveram os aplausos e pediram ao vigário que cantasse mais uma ária.
➖ Com muito prazer - respondeu ele - mas o senhor, disse, dirigindo-se ao velho, vá recolhendo os donativos.

O cego, conduzido pelo neto, fez o giro pela sala com o chapéu na mão. As moedas de prata caíam abundantes no chapéu e o velho estava comovido e com água nos olhos.
➖ Olha, vovô, nem durante todo o mês  ajuntamos tanta esmola como hoje - dizia o netinho.
Ambos, avô e neto, não se cansavam de agradecer as ricas ofertas que receberam e beijavam afetuosamente a mão do bom vigário. Quanto aos circunstantes, não houve um que não elogiasse o talento do vigário Ruf e mais ainda o nobre uso que soube fazer dele.

132. UMA BOA AÇÃO FAZ MUITO BEM

Um dia, um estudante universitário encontrou num bosque perto de Viena uma pobre velha, que, curvada sob o peso de um feixe de lenha, ia caminhando com muita dificuldade.
➖ Boa velhinha - disse o estudante - deixe-me carregar um pouco o seu feixe de lenha.

E, tomando o feixe, levou-o até a casa da pobre velha, a qual, muito comovida com a bondade do moço, perguntou-lhe:
➖ E, agora, meu senhor, quanto lhe devo?
➖ Reze por mim um Pai-Nosso, boa velhinha - foi a resposta.
➖ Sim, sim, eu o farei - respondeu ela - e esse é o primeiro Pai-Nosso que vou rezar, depois de uns 20 anos! 
Não se espante, meu senhor, as minhas contínuas desventuras, os desprezos recebidos de tanta gente, haviam-me afastado de Deus, mas o senhor, com a sua caridade, tocou-me o coração e me fez começar de novo a rezar.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)