quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

31 DE JANEIRO - SÃO JOÃO BOSCO

 

Filho de uma humilde família de camponeses, São João (Melchior) Bosco nasceu em Colle dos Becchi, localidade próxima a Castelnuovo de Asti em 16 de agosto de 1815. Órfão de pai aos dois anos, viveu de ofícios diversos na pobreza da infância e da juventude, até ser ordenado sacerdote em 5 de junho de 1841, com a missão apostólica de servir, educar e catequizar os jovens, o que fez com extremado zelo e santificação durante toda a sua vida.

Em 1846, fundou o Oratório de São Francisco de Sales em Turim, dando início à sua obra prodigiosa, arregimentando colaboradores e filhos, aos quais chamava de salesianos, em meio a um intenso e profícuo apostolado. Em 1859, fundou  a Congregação Salesiana e, em 1872, com a ajuda de Santa Maria Domingas Mazzarello, fundou o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora para a educação da juventude feminina. Em 1875, enviou a primeira turma de seus missionários para a América do Sul. No Brasil, as primeiras casas salesianas foram o Colégio Santa Rosa em Niterói e o Liceu Coração de Jesus em São Paulo. 

Faleceu a 31 de janeiro de 1888 em Turim, aos 72 anos, deixando como herança cristã a Congregação Religiosa Salesiana espalhada por diversos países da Europa e das Américas. O Papa Pio XI, que o conheceu e gozou da sua amizade, canonizou-o na Páscoa de 1934. Popularizado como 'Dom Bosco', foi aclamado pelo Papa João Paulo II como 'pai e mestre da juventude' e se tornaram lendários os seus sonhos proféticos (exemplo abaixo), que ele narrava em suas pregações aos jovens salesianos.

A BIGORNA E O MARTELO

Em 20 de agosto de 1862, depois de rezadas as orações da noite e de dar alguns avisos relacionados com a ordem da casa, Dom Bosco disse: 'Quero contar-lhes um sonho que tive faz algumas noites'.

Sonhei que estava em companhia de todos os jovens em Castelnuovo do Asti, na casa de meu irmão. Enquanto todos faziam recreio, dirigiu-se a mim um desconhecido e convidou-me a acompanhá-lo. Segui-o e ele me conduziu a um prado próximo ao pátio e ali indicou-me, entre a erva, uma enorme serpente de sete ou oito metros de comprimento e grossura extraordinária. Horrorizado ao contemplá-la, quis fugir.

— 'Não, não' — disse-me meu acompanhante — 'não fujas; vem comigo'.
 'Ah!' — exclamei — 'não sou tão néscio para me expor a um tal perigo'.
— 'Então' — continuou meu acompanhante —'aguarda aqui'.
E, em seguida, foi em busca de uma corda e com ela na mão voltou novamente junto a mim e disse-me:
— 'Tome esta corda por uma ponta e agarre-a bem; eu agarrarei o outro extremo e por-me-ei na parte oposta e, assim, a manteremos suspensa sobre a serpente'.
— 'E depois?'
— 'Depois a deixaremos cair sobre a espinha dorsal'.
— 'Ah! não; por caridade. Pois ai de nós se o fizermos! A serpente saltará enfurecida e nos despedaçará'.
— 'Não, não; confie em mim' — acrescentou o desconhecido —'eu sei o que faço'.
— 'De maneira nenhuma; não quero fazer uma experiência que pode-me custar a vida'.

E já me dispunha a fugir, quando o homem insistiu de novo, assegurando-me que não havia nada que temer; e tanto me disse que fiquei onde estava, disposto a fazer o que me dizia. Ele, entretanto, passou do outro lado do monstro, levantou a corda e com ela deu uma chicotada sobre o lombo do animal. A serpente deu um salto voltando a cabeça para trás para morder ao objeto que a tinha ferido, mas em lugar de cravar os dentes na corda, ficou enlaçada nela mediante um nó corrediço. Então o desconhecido gritou-me:

— 'Agarre bem a corda, agarre-a bem, que não se lhe escape'.

E correu a uma pereira que havia ali perto e atou a seu tronco o extremo que tinha na mão; correu depois para mim, agarrou a outra ponta e foi amarrá-la à grade de uma janela. Enquanto isso, a serpente agitava-se, movia-se em espirais e dava tais golpes com a cabeça e com sua calda no chão, que suas carnes rompiam-se saltando em pedaços a grande distancia. Assim continuou enquanto teve vida; e, uma vez morta, só ficou dela o esqueleto descascado e sem carne. Então, aquele mesmo homem desatou a corda da árvore e da janela, recolheu-a, formou com ela um novelo e disse-me:

— 'Presta atenção!'

Colocou a corda em uma caixa, fechou-a e depois de uns momentos a abriu. Os jovens tinham-se ajuntado ao ao meu redor. Olhamos o interior da caixa e ficamos maravilhados. A corda estava disposta de tal maneira, que formava as palavras: Ave Maria!

— 'Mas como é possível?' — disse — 'Você colocou a corda na caixa e agora ela aparece dessa maneira!'.

— 'Olhe' — disse ele — 'a serpente representa o demônio e a corda é a Ave Maria, ou melhor, o Santo Rosário, que é uma série de Ave Marias com a qual e com as quais se pode derrubar, vencer e destruir todos os demônios do inferno.

Enquanto falávamos sobre o significado da corda e da serpente, voltei-me para trás e vi alguns jovens que, agarrando os pedaços da carne da serpente, os comiam. Então gritei-lhes imediatamente:

— 'Mas o que é o que fazem? Estão loucos? Não sabem que essa carne é venenosa e que far-lhes-á muito dano?'

'Não, não' — respondiam-me os jovens — 'a carne está muito boa'.

Mas, depois de havê-la comido, caíam ao chão, inchavam-se e tornavam-se duros como uma pedra. Eu não podia ficar em paz porque, apesar daquele espetáculo, cada vez era maior o número de jovens que comiam aquelas carnes. Eu gritava a um e a outro; dava bofetadas a este, um murro naquele, tentando impedir que comessem; mas era inútil. Aqui caía um, enquanto que lá começava a comer outro. Então chamei os clérigos em meu auxílio e disse-lhes que se mesclassem entre os jovens e se organizassem de maneira que ninguém comesse aquela carne. Minha ordem não teve o efeito desejado, pois alguns dos clérigos começaram também a comer as carnes da serpente, caindo ao chão como os outros. Eu estava fora de mim quando vi a meu redor um grande número de moços estendidos pelo chão no mais miserável dos estados. Voltei-me, então, para desconhecido e disse-lhe:

— 'Mas o que quer dizer isto? Estes jovens sabem que esta carne ocasiona-lhes a morte e, contudo, a comem. Qual é a causa?'

Ele respondeu-me: ' Já sabes que animalis homo non percipit ea quae Dei sunt: Alguns homens não percebem as coisas que são de Deus'.

— 'Mas não há remédio para que estes jovens voltem em si?'

— 'Sim, há'.

— 'E qual seria?'

— 'Não há outro que não seja pela bigorna e pelo martelo'.

— 'Bigorna? Martelo? E como terei que empregá-los?'

— 'Terás que submeter os jovens à ação de ambos estes instrumentos'.

— 'Como? Acaso devo colocá-los sobre a bigorna e golpeá-los com o martelo?'

Então meu companheiro me esclareceu, dizendo:

— 'O martelo significa a Confissão e a bigorna, a Comunhão; é necessário fazer uso destes dois meios'.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

SOBRE A BUSCA DA SANTIDADE

A primeira razão que temos de aspirar à santidade, é 'a vontade de Deus': Haec est voluntas Dei sanctificatio vestra. Deus quer, não só que nos salvemos, mas também que sejamos santos. E qual o motivo desta vontade de Deus? 'É que Ele próprio é santo': Sancti estote, quoniam ego sanctus sum. Deus é a própria santidade; nós somos criaturas suas; Ele quer que a criatura reproduza a Sua imagem: mais ainda, quer que, 'na nossa qualidade de filhos, sejamos perfeitos, como Ele, nosso Pai celeste, é perfeito': Estote perfecti, sicut et Pater vester caelestis perfectus est. É o preceito de Jesus.

Deus encontra a sua glória na nossa santidade. Não esqueçamos nunca esta verdade: cada grau de santidade a que chegarmos, cada sacrifício que fizermos para a adquirir, cada virtude que com seu brilho ornar a nossa alma, será eternamente uma glória para Deus. Diariamente cantamos, e parece-me que cada dia com mais satisfação: Tu solus sanctus, Jesu Christe - 'Só Vós sois Santo, ó Jesus Cristo' e, por isso, sois a grande glória de Deus. Durante toda a eternidade Jesus Cristo dará uma glória infinita ao Pai, mostrando-lhe as suas cinco chagas, magnífica expressão de soberana fidelidade e perfeito amor com que 'sempre cumpriu o que o Pai reclamava dEle': Quae placita sunt ei facio semper.

O mesmo se dá com os santos. Estão 'diante do trono de Deus' e incessantemente lhe dão alegria. O zelo ardente dos Apóstolos, o testemunho dos Mártires purpurado de sangue, a profunda ciência dos Doutores, a radiante pureza das Virgens constituem outras tantas homenagens agradáveis a Deus. Nesta 'multidão que ninguém pede contar', cada santo brilha com particular fulgor; e Deus olhará com eterna complacência para os esforços, lutas e vitórias desse santo, que são quais outros tantos troféus aos pés de Deus, a honrar as suas infinitas perfeições e a reconhecer os seus direitos.

É, portanto, para nós ambição legítima trabalhar com todas as forças para adquirir esta glória. que Deus recebe da nossa santidade; devemos aspirar ardentemente por fazer parte dessa sociedade bem-aventurada, em que o próprio Deus pôs as suas complacências. É para nós motivo de não nos contentarmos com uma perfeição medíocre, mas de visarmos incessantemente a corresponder, o mais perfeitamente possível, ao desejo de Deus: Sancti estote, quia ego sanctus sum.

Outra razão é que, quanto mais elevada for a nossa santidade, mais exaltaremos o valor do sangue de Jesus. Diz São Paulo que 'Jesus Cristo se entregou inteiramente à morte, e morte da cruz, para santificar a Igreja e fazer dela uma sociedade resplandecente, sem mácula nem ruga, santa e imaculada'. Foi este o fim do seu sacrifício. Ora uma das causas mais vivas de aflição para o Coração de Jesus durante a agonia no Horto das Oliveiras, foi a perspectiva da inutilidade do seu sangue para tantas almas que haviam de rejeitar o dom divino: Quae utilitas in sanguine meo? 

Jesus Cristo compreendia que uma só gota daquele sangue seria suficiente para purificar o mundo e santificar multidões de almas: mas, para obedecer ao Pai consentiu, com indizível amor, em derramar até à última gota este sangue que continha a virtude infinita da Divindade. E, no entanto, temos de dizer: 'Que utilidade resultou do derramamento deste sangue'? A grande ambição que faz palpitar o Coração de Jesus é glorificar o Pai; por isso, o seu mais veemente desejo - quomodo coarctor - era dar a vida para atrair ao Pai inúmeras almas que produzissem muitos frutos de vida e de santidade: In hoc clarificatus est Pater meus, ut fructum plurimum afteratis.

Mas quantos há que compreendam o ardor do amor de Jesus? Quantos correspondem aos desejos do seu Coração? Tantas almas que não cumprem as leis divinas! Outras guardam os mandamentos; mas pouquíssimas são as que se entregam a Jesus e à ação do Seu Espírito com essa plenitude que leva à santidade. Felizes das almas que se abandonam sem reserva à vontade divina! Inteiramente unidas a Cristo, que é a vide, 'produzem abundantes frutos e glorificam o Pai celeste': proclamam sobretudo a virtude do sangue de Jesus.

Senão, vede. Qual é o cântico entoado pelos eleitos, que São João nos mostra no Apocalipse prostrados diante do Cordeiro? 'Fostes imolado e, pelo Vosso sangue, nos resgatastes para Deus, de toda a tribo, de toda a língua, de todo o povo, de toda a nação... A Vós glória e louvor'! Os santos confessam que são os troféus do sangue do Cordeiro, troféus tanto mais gloriosos quanto mais eminente é a sua santidade. Procuremos, pois, com todo o ardor das nossas almas, purificar-nos cada vez mais no sangue de Jesus, produzir esses frutos de vida e santidade que Jesus Cristo nos mereceu pela sua Paixão e Morte. Se formos santos, os nossos corações exultarão, durante toda a eternidade, com a alegria que daremos a Jesus Cristo, cantando os triunfos do seu divino sangue e a onipotência da sua graça.

(Excertos da obra 'Jesus Cristo nos seus Mistérios', de Dom Columba Marmion)

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

COMPÊNDIO DE SÃO JOSÉ (III)


11. Como podemos deduzir o dia-a-dia de José no seu ambiente cultural?

Todas as pessoas simples, como José, viviam dentro de um ambiente marginalizador e classista. Claro que quem mais sofria eram as mulheres, consideradas inferiores aos homens, sem nenhuma incidência no meio social. Restava-lhes cozinhar, lavar roupa, buscar água no poço ou na fonte e dedicar-se à limpeza. Não participavam das funções nas sinagogas e, quando iam ao Templo, ocupavam os lugares depois dos homens. Elas não tinham permissão para ler a Torá no Templo e nem o testemunho de uma mulher podia ser levado em consideração; inclusive em público, nenhum homem de boa reputação cumprimentava uma mulher.

Naturalmente José, homem justo, não podia ter como práxis de seu comportamento estas atitudes discriminadoras e sobretudo para Maria, com a qual viveu uma profunda vida de amor e de doação, compartilhando toda a sua vida, nutrindo por ela um profundo respeito, uma grande ternura e uma perfeita comunicação de seu afeto, amando-a com amor intenso.

12. Qual o significado do nome José?

Este nome deriva da língua hebraica Yosef, forma abreviada de Yehosef que significa: 'Javé acresce, aquele que acrescenta a Yavé'; em latim Ioseph (ou Iosephus).

13. Qual era a profissão de José?

José foi um trabalhador e sua característica de homem trabalhador refletiu-se inclusive no Filho de Deus, o qual era conhecido como fabri filius (Mt 13,55) [filho do carpinteiro]. Como era o costume de então, José seguramente recebeu esta profissão de seu pai; portanto, ainda adolescente, já era um artesão. Como realçam os evangelhos, José possuía uma pequena oficina em Nazaré, um lugarejo perdido nas montanhas, lugar de lavradores, de gente simples e pobre. Portanto, ele não fabricava móveis refinados ou objetos de consumo da aristocracia ou da gente rica de seu país.

14. Não seria melhor classificá-lo como artesão?

Certamente, aliás, o texto evangélico usa uma expressão genérica para designar a sua profissão, ou seja, o qualifica como artesão. Desta forma, ele não fabricava somente móveis, mas também portas, janelas e tudo aquilo que era de necessidade das moradias de Nazaré. Com a categoria de artesão, podemos concluir que José era um artífice que manuseava a madeira e o ferro. Por isso, ele executava o seu trabalho não apenas recluso na sua carpintaria, mas também para fora, consertando um arado, uma roda de carroça, ou fazendo o fundamento de uma casa, etc. Naturalmente, esta sua profissão facilitava muito o seu contato com o povo de Nazaré e de toda a região que também solicitava os seus trabalhos. Por isso, José era uma pessoa bem relacionada, conhecia bem os problemas, os desejos e os sofrimentos do seu povo.

15. Será por isso (ser José um artesão) que José é tido como o protetor dos trabalhadores?

Não simplesmente por isso, porque outros santos trabalharam também tanto quanto ou até mais que ele, mas sim porque o seu trabalho teve uma função especial: aquela de nutrir o Filho de Deus e de educá-lo, da mesma forma também para sustentar Maria, sua esposa. O trabalho de José tem ainda uma outra qualificação particular: com ele Jesus aprendeu uma profissão e sustentou-se por trinta anos. 'Aquele que, sendo Deus, tornou-se semelhante a nós em tudo, dedicava a maior parte de sua vida sobre a terra, no trabalho manual, junto a um banco de carpinteiro' (Encíclica Laborem Exercens, 6).

('100 Questões sobre a Teologia de São José', do Pe. José Antonio Bertolin, adaptado)

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

SUMA TEOLÓGICA EM FORMA DE CATECISMO (XXIV)

XVI

DOS PRECEITOS RELATIVOS À PRUDÊNCIA 

Existe no Decálogo algum preceito relativo à prudência? 
Não, Senhor; porque os preceitos do Decálogo, expressão do que a lei natural exige, têm por objeto os fins da vida humana, e a prudência versa sobre os meios de consegui-los; se bem que, em certo modo a ela se referem todos os mandamentos, como reguladora de todas as virtudes (LVI. 1)*. 

Logo, os preceitos relativos à prudência são posteriores e complementares dos do Decálogo? 
Sim, Senhor; e se encontram também na Sagrada Escritura, no Antigo Testamento, e de modo mais concreto no Novo (Ibid). 

Não há no Antigo Testamento preceitos severíssimos contra os vícios opostos à prudência? 
Sim, Senhor; contra a astúcia, o dolo e a fraude (LVI, 2). 

Por que proibiu Deus de modo tão especial estes pecados? 
Porque quase sempre se tocam com as matérias da Justiça, ponto de vista de todo o Decálogo (Ibid). 

XVII 

DA VIRTUDE DA JUSTIÇA — O DIREITO NATURAL, POSITIVO, PRIVADO, PÚBLICO, NACIONAL, INTERNACIONAL, CIVIL E ECLESIÁSTICO — JUSTIÇA LEGAL E PARTICULAR — VÍCIOS OPOSTOS 

A virtude da justiça segue em categoria e importância à da prudência? 
Dado o seu caráter particular, a prudência, sem a qual não pode existir nenhuma virtude moral, ocupa o primeiro lugar; depois dela, a Justiça (LVII, CXXI). 

Que entendeis por Justiça? 
A virtude que tem por objeto o direito, isto é, o justo (LVII, 1). 

Que entendeis quando afirmais que tem por objeto o direito ou o justo? 
Que está destinada a manter a paz e harmonia entre os homens, fazendo que cada um respeite as pessoas, atribuições, faculdades e bens legitimamente adquiridos e possuídos pelos outros (Ibid). 

A que normas devemos atender para averiguar quais são os direitos legítimos dos outros? 
Primeiramente, ao que dita a razão natural; em segundo lugar, aos convênios havidos entre os homens prudentes e, por último, às disposições da autoridade legitima (LVII, 2-4). 

Como se chama o direito fundado nos ditames da razão? 
Chama-se direito natural. 

E o fundado em convênios e em leis promulgadas pela autoridade competente? 
Direito positivo, o qual se divide em privado e público, e este, por sua vez, em nacional e internacional, baseado o primeiro em convênios privados e em leis da nação e o segundo, em pactos entre os diversos Estados (Ibid). 

Não falastes também de direito civil e eclesiástico? 
Sim, Senhor; e se distinguem em que o primeiro se apóia em atos emanados da autoridade civil e o outro nos da eclesiástica. 

Limita-se o direito, enquanto objeto da virtude da Justiça, a impor ordem nas relações dos particulares entre si, ou estende-se às dos particulares com o conjunto ou sociedade? 
Abrange as duas coisas (LVTII, 5-7). 

Que nome tem a virtude da Justiça no segundo caso? 
Chama-se Justiça legal (Ibid). 

E no primeiro? 
Justiça particular (Ibid). 

Poderíeis definir com precisão a virtude da justiça? 
Sim, Senhor; consiste na disposição consciente, duradoura e irrevogável da vontade, mediante a qual se dá a cada um tudo o que lhe pertence (LVTII, 1). 

Como se chama o vício oposto a esta virtude? 
Chama-se injustiça; e o mesmo se opõe tanto à justiça legal quando prejudica o bem comum, como à particular, cujo objeto é manter as relações dos cidadãos sobre a base da igualdade (LIX). 

Em que consiste propriamente este último pecado de injustiça? 
Em atentar livre e espontaneamente contra o direito de outrem, isto é, em negar o que outro natural e razoavelmente deve e pode querer (LIX, 3). 

XVIII 

DO JUÍZO COMO ATO DA JUSTIÇA PARTICULAR

Tem a Justiça algum ato de especial importância, considerada, sobretudo, como justiça particular?
Sim, Senhor; o ato do Juízo, que consiste em determinar com exatidão aquilo que a cada um se deve dar, principalmente se se trata de ofício para administrar justiça aos litigantes, cargo próprio dos juízes, ou em particular para discernir em consciência e por amor à Justiça, até onde se estendem os deveres e os direitos de cada um (LX). 

Em caso de dúvida, deve inclinar-se o Juízo para o lado da benevolência? 
Tratando-se do próximo, sim, Senhor; pois a Justiça exige que jamais se pronuncie sentença condenatória, quer seja exterior, ou simplesmente interior e de pensamento, enquanto permaneça de pé alguma dúvida (LX. 4). 

Apesar disto, podemos em determinadas ocasiões presumir e suspeitar da existência do mal sem provas suficientes? 
Sim, Senhor; quando devamos preveni-lo ou remediá-lo, pois a Justiça legal, a prudência e a caridade nos mandam ser cautelosos e supor, ao menos como possível, a maldade de certos homens, ainda que dela não tenhamos a certeza, mas apenas conjecturas (LX, 4, ad 3). 

Tendes que formular alguma reserva a esta doutrina? 
Sim, Senhor; porque ainda neste caso, temos obrigação de não emitir contra quem quer que seja, juízo formalmente desfavorável. 

Poderíeis explicar-me com um exemplo? 
Se eu visse um homem de catadura suspeita, não teria o direito de julgá-lo ladrão, nem mesmo consigná-lo como tal; porém se o visse rondar a minha casa ou as dos meus amigos, teria direito de tomar cuidado para que tanto dentro de minha casa como das deles, tudo estivesse a salvo de uma surpresa ou tentativa de roubo.

referências aos artigos da obra original

('A Suma Teológica de São Tomás de Aquino em Forma de Catecismo', de R.P. Tomás Pègues, tradução de um sacerdote secular)

domingo, 27 de janeiro de 2019

O UNGIDO DO PAI

Páginas do Evangelho - Terceiro Domingo do Tempo Comum


O Evangelho de São Lucas traduz, em larga escala, a personalidade ímpar do autor, de alguém que, embora possa não ter sido testemunha ocular dos acontecimentos narrados: 'como nos foram transmitidos por aqueles que, desde o princípio, foram testemunhas oculares e ministros da palavra' (Lc 1, 2), elaborou uma obra regida particularmente pelo rigor da informação e por uma ordenação lógica dos eventos associados à vida pública de Jesus: 'após fazer um estudo cuidadoso de tudo o que aconteceu desde o princípio, também eu decidi escrever de modo ordenado' (Lc 1, 3), o que a torna fruto do trabalho de um eminente escritor e historiador: 'Deste modo, poderás verificar a solidez dos ensinamentos que recebeste' (Lc 1, 4).

Desta forma, a par a semelhança e a mesma contextualização geral com os demais evangelhos sinóticos (São Mateus e São Marcos), o evangelho de São Lucas é pautado por uma visão própria, objetiva e cronológica da doutrina e dos ensinamentos públicos de Jesus (tempo presente da narrativa), inserida num contexto histórico do passado (Antigo Testamento) e do futuro (tempo da Igreja), incorporando, assim, um caráter muitíssimo pessoal e, portanto, original, à transcrição das mensagens evangélicas. 

Após um preâmbulo típico do rigor objetivo do historiador, São Lucas desvela o instrumento de evangelização adotado por Jesus - a pregação pública e sua estrita observância, neste sentido, aos preceitos da Lei - a leitura, aos sábados, da palavra sagrada nas sinagogas. No seu primeiro retorno à Nazaré, foi convidado a ler e a comentar uma passagem do Livro de Isaías: 'Abrindo o livro, Jesus achou a passagem em que está escrito: O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa-nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor' (Lc 1, 17 - 19).

Ao recolher o rolo de pergaminho e se sentar, ao final da leitura 'todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele' (Lc 1, 20), porque, de certa forma, compreendiam a grandiosidade deste momento, que se materializou, então, com a manifestação direta e sucinta de Jesus: 'Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir' (Lc 1, 21), anunciando aos homens ser Ele o Ungido pelo Espírito Santo para fazer novas todas as coisas, para abrir os tempos do Messias esperado por todo Israel e para testemunhar aos homens a presença viva do Reino de Deus sobre a terra. 

sábado, 26 de janeiro de 2019

O INFERNO É AQUI...

Rompe-se a veia. A barragem é imaginação tardia, que não veda, nem estanca. Jorra por impulso desmedido o sangue convertido em lama. Que sufoca, que esmaga, que aniquila paisagens e vidas em labirintos de horror. Rejeitos descartados servindo agora como mortalhas ensandecidas. Almas consumidas na lama; a mesma lama erigida como altar das fábulas humanas. O cotidiano desfeito como nervo exposto e pela veia aberta. Dor, imensa dor.


(fotos da ruptura da Barragem B1 da Mina Córrego do Feijão - Brumadinho/MG)

OREMUS! (26)

A sequência destes pensamentos e reflexões são publicados diariamente na Página OREMUS da Biblioteca Digital do blog.

26 DE JANEIRO

Sempiternus Pontifex aedificat vos [o Pontífice Eterno vos engrandeça]

Assim escreveu, aos seus fiéis, o grande bispo dos primeiros séculos, São Policarpo: que o Pontífice eterno, Cristo, edifique a vossa santidade, in fine et veritate, in mansuetudine, in patientia, in castitate [ao final e verdadeiramente, pela mansidão, pela paciência, pela castidade]. Que maravilhoso programa de vida sacerdotal!

In fide et veritate [pela  fé e pela verdade]. É com Nosso Senhor que devemos erguer o edifício da nossa santidade sobre as verdades da fé, sinceramente apegados ao Pai que está nos céus. In mansuetudine, in patientia [pela mansidão, pela paciência] essa norma do nosso apostolado. Ser, para todos, um reflexo da misericórdia de Nosso Senhor, com uma paciência alegre e perseverante, porque vivemos expectantes beatam spem [na expectativa de nossa esperança feliz (Tt 2, 13)], conforme diz o Apóstolo.

In castitate [pela castidade]: a sinceridade com Deus nos dará a inocência e a reta intenção em tudo, com um santo respeito a nós mesmos e às almas. Não será demais, se realizarmos, em nossa vida sacerdotal, esse programa de santidade que o grande bispo apresentava aos simples fiéis do seu tempo. Não podemos construir sobre outra base, a não ser essa: In fide et veritate [pela fé e pela verdade] — porque omne quod non est ex fide, peccatum est [tudo o que não procede da fé é pecado (Rm 14, 23)].

(Oremus — Pensamentos para a Meditação de Todos os Dias, do Pe. Isac Lorena, 1963, com complementos de trechos traduzidos do latim pelo autor do blog)

OS TRÊS MORTOS

No Evangelho (São Lucas 7, 11-17), encontramos três mortos ressuscitados pelo Senhor de forma visível, e milhares de forma invisível. A filha do chefe da sinagoga (Mc 5,22ss), o filho da viúva de Naim e Lázaro (Jo 11) são símbolos dos três tipos de pecadores ainda hoje ressuscitados pelo Senhor. A menina ainda se encontrava em casa de seu pai, o filho da viúva já não estava em casa da sua mãe, mas também ainda não estava no túmulo, e Lázaro já estava sepultado. 

Assim, há pessoas com o pecado dentro do coração mas que ainda não o cometeram. Tendo consentido no pecado, ele habita-lhes a alma como morto, mas não saiu ainda para fora. Ora, acontece amiúde aos homens esta experiência interior: depois de terem escutado a palavra de Deus, parece-lhes que o Senhor lhes diz: 'Levanta-te!' E, condenando o consentimento que dantes haviam dado ao mal, retomam fôlego para viver na salvação e na justiça. 

Outros, após aquele consentimento, partem para os atos, transportando assim o morto que traziam escondido no fundo do coração para o expor diante de todos. Deveremos desesperar deles? Não disse o Salvador ao jovem de Naim: 'Eu te ordeno: Levanta-te!'? Não o devolveu a sua mãe? O mesmo acontece a quem atuou desse modo: tocado e comovido pela Palavra da Verdade, ressuscita à voz de Cristo e volta à vida. É certo que deu mais um passo na via do pecado, mas não pereceu para sempre. 

Já aqueles que se embrenham nos maus hábitos, ao ponto de perderem a noção do próprio mal que cometem, procuram defender os seus maus atos e encolerizam-se quando alguém lhos censura. A esses, esmagados pelo peso do hábito de pecar, albergam as mortalhas e os túmulos e cada pedra colocada sobre o seu sepulcro mais não é do que a força tirânica desse mau uso que lhes oprime a alma e não lhes permite, nem levantar-se, nem respirar. 

Por isso, irmãos caríssimos, façamos de tal modo que quem vive viva, e quem está morto volte à vida e faça penitência. Os que vivem conservem a vida e os que estão mortos apressem-se a ressuscitar.

(Sermão 98, Santo Agostinho)

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

RETRATOS DE NOSSA SENHORA (I)


Ecce Mater Tua - Aí tens a tua Mãe


Entremos na casa da Virgem Maria Menina. De seus pais nada nos diz o Evangelho. A tradição conta-nos que se chamavam Joaquim e Ana e que eram já de idade avançada. A Igreja venera-os nos seus altares e a razão nos diz que tiveram de ser muito santos. Aquela Menina era a obra mais preciosa da Santíssima Trindade, e Deus tinha que a pôr em mãos muito seguras...Os pais de Maria tiveram de ser muito santos também.


Maria foi menina... Foi menina e teve em grau muito elevado a virtude característica das crianças, a inocência que se refletiu no seu rosto. Foi menina e crescia como as meninas... crescia e crescia como um sol que sobe até ao zênite sem encontrar nuvens no caminho. Crescia a Virgem menina e crescia ao lado de sua mãe, como devem crescer todas as meninas.


A Santíssima Virgem, como todas as suas companheiras, vivia no templo afastada do mundo, cultivando no retiro a flor delicadíssima da sua pureza. Vivia longe das diversões mundanas, longe do trato com os homens, cultivava também as virtudes que são defesa, floração e complemento da pureza: o pudor e a modéstia.

Quis Deus que presenciasse a morte de seus próprios pais, que estivesse a seu lado naqueles momentos tristes, e sentisse a emoção dos que vão e dos que ficam, porque todos os cristãos lhe haviam de pedir para estar também a seu lado na hora da morte, e com a experiência própria compreenderia melhor a necessidade da sua presença nesses momentos. Maria jovem foi órfã de pai e mãe.


A pincelada mais certa para o retrato de Maria jovem, deu-a o anjo ao sondar Maria: És a cheia de graça. Este é o seu traço característico; o que desenha a sua fisionomia interna e a diferencia de todas as pessoas. Este é o seu nome específico, que só a ela se pode aplicar, nome que é a expressão de uma excelsa realidade: a cheia de graça. Maria jovem tinha a alma cheia de graça, e por isso Deus estava com ela, vivia naquela alma: O Senhor é contigo.

(Textos: excertos da obra 'Retratos de Nossa Senhora, de Juan Rey, 1957, trad. M.V. Figueiredo)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

PALAVRAS AO HOMEM ETERNO

1. Onde quer que estejas, e para qualquer lado que te voltes, miserável serás, se não te convertes a Deus. Em tudo pondera o fim, e de que modo te apresentarás ante o rigoroso Juiz, a quem nada é oculto, que não se deixa aplacar com dúvidas, nem admite desculpas, mas que julgará segundo a justiça. Insensato e mísero pecador, que responderás a Deus que conhece os teus crimes, tu que tremes diante do vulto de um homem irado? Por­ que não te acautelas para o dia do juízo, quando ninguém poderá ser excusado ou defendido por nenhum outro? Agora o teu trabalho é frutuoso, as tuas lá­grimas são bem acolhidas, os teus gemidos são ouvidos, a tua dor é expiatória e meritória.

2. Aqui tem grande e salutar purgatório o ho­mem paciente que, recebendo injúrias, mais se dói da maldade de quem lhe ofende do que da própria ofensa; que de boa vontade ora pelos seus inimigos, perdoando do intimo do coração os agravos; que não tarda em pedir a outros perdão; que mais facilmente se deixa levar à misericórdia do que á ira; que faz violência a si mesmo, esforçando-se por submeter a carne ao espírito. Melhor é purgar agora os pecados e extirpar os vícios que deixá-los para serem extirpados na outra vida. Por certo nós mesmos nos enganamos pelo amor desordenado que temos à carne.

3. Que outra coisa devorará aquele fogo se­não os teus pecados? Quanto mais te poupas agora e segues os apetites da carne, tanto mais severamente serás depois atormentado, fazendo maior reserva de combustível para te queimar. No que mais tiveres pecado, nisso mais severa­mente serás castigado. Ali os preguiçosos serão incitados por agui­lhões ardentes, e os gulosos serão atormentados com sede e extrema fome. Ali os impudicos e voluptuosos serão submergidos em abrasado pez e fétido enxofre, e os invejosos uivarão como cães furiosos.

4. Não haverá nenhum vicio que não tenha ali o seu particular tormento. Os soberbos serão acabrunhados de toda a sorte de confusão, e os avarentos reduzidos à misérrima penúria. Uma hora de suplício ali será mais insuportável que cem anos da mais rigorosa peni­tência aqui. Ali não há sossego nem consolação alguma para os condenados, enquanto aqui às vezes cessam os trabalhos, e somos aliviados por amigos. Tem agora cuidado e dor dos teus pecados para que no dia do Juízo estejas seguro com os bem aventurados. Porque então estarão os justos com grande confiança diante dos que os angus­tiaram e perseguiram. Então se levantará, para julgar, Aquele que agora se sujeita humilde­mente ao juízo dos homens. Então terá muita confiança o pobre e humilde; não assim o soberbo que, de todos os lados, estremecerá de pavor.

5. Então se verá, como fora sábio neste mundo quem aprendeu a ser menosprezado e tido por louco, por amor de Jesus Cristo. Então dará prazer toda a tribulação, sofrida com paciência, e a iniquidade será reduzida ao silêncio. Os que foram dados à piedade, se encherão de alegria, e os irreligiosos de tristeza. A carne então mais se regozijará de ter sido mortificada, do que se fora sempre nutrida em delícias. Então resplandecerá a roupa vil, e a vestimenta preciosa ofuscar-se-á. Então será mais exaltada a simples obediência, do que toda a astúcia do século.

6. Então se alegrará a mais a pura e boa consciência do que a filosofia dos sábios. Então se estimará mais o desprezo das riquezas do que todos os tesouros dos ricos da terra. Então te consolarás mais de haver orado com devoção do que de haver comido com regalo. Então te aproveitarão mais as boas obras do que as mui­tas e lindas palavras. Mais agradará então a vida austera e a rigorosa penitência do que to­das as delícias terrenas. Aprende agora a sofrer um pouco para que possas livrar-te de coisas mais penosas. Experimenta primeiramente aqui o que poderás receber no outro mundo. Se agora tão pouco queres padecer, como poderás suportar tormentos eternos? Se agora o menor incôm­odo te torna tão impaciente, que fará então o inferno? Sem dúvida, não podes ter duas ven­turas: deleitar-te aqui no mundo, e depois rei­nar com Jesus no Céu.

7. Se até hoje sempre tivesses vivido em hon­ras e deleites, que te aproveitaria, se agora mesmo tivesses de morrer? Vaidade tudo, pois, que não for amar e servir somente a Deus. Decerto os que amam de coração a Deus, não temem a morte, nem o suplício, nem o juízo, nem o inferno, porque o perfeito amor tem segura recepção com Deus. Mas quem se deleita ainda em pecar, não admira que tema a morte e o juízo. Todavia, se não te desvias do mal pelo amor, convém ao menos que o faças pelo temor do in­ferno. Porém aquele que despreza o temor de Deus, não poderá perseverar no bem, antes ca­irá muito depressa nos laços do demônio.

8. Que pode te dar o mundo sem Jesus? Estar sem Jesus é terrível inferno; estar com Jesus é doce Paraíso. Estando Jesus contigo, nenhum inimigo te poderá ofender. Quem acha a Jesus, acha um grande tesouro, ou antes um bem su­perior a outro qualquer. Quem o perde, priva-se de muito mais do que de um mundo inteiro. Viver sem Jesus é reduzir-se à extrema pobreza; estar bem com Jesus é tornar-se sumamente rico. Preferível é, pois, ter todo o mundo por inimigo que ofender a Jesus.

9. Confessarei, pois, contra mim mesmo a minha iniquidade; confessar-Vos-ei, Senhor, a minha fraqueza. Vede, Senhor, a minha fragilidade e abatimento que melhor conheceis que eu mesmo. Compadecei-Vos de mim e tirai-me desta lama, para que nela eu não fique atolado e submergido. O' fortíssimo Deus de Israel, zelador das almas fieis, dignai-Vos olhar para os trabalhos e dores do vosso servo e de assisti-lo em tudo. Ro­bustecei-me da força celestial para que não me vença e domine esta carne miserável, ainda re­belde ao espírito, e contra a qual convém com­bater enquanto vivemos neste desgraçado mundo.

(lmit. 1. 22, 24; II. 8; III. 20)

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

FOTO DA SEMANA

'A terra estava sem forma e vazia; as trevas cobriam­ o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas' (Gn 1, 2)


segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

COMPÊNDIO DE SÃO JOSÉ (II)


06. Como era a situação geográfica na época em que José nasceu? 

Sabemos que o seu país de origem é a Palestina, onde hoje se situa o território de Israel, localizado na parte oriental do Mar Mediterrâneo, formado por uma faixa de terra de 240 por 150 quilômetros quadrados. Uma região de terras férteis, embora comporte também desertos desoladores e de regiões montanhosas com colinas, que vão de 500 a 900 metros, espalhadas por suas regiões denominadas de Galileia, Samaria e Judeia. Destacava-se no tempo de José, como de sorte ainda hoje, o Mar da Galileia, também denominado de Lago de Genesaré, com 2 km de comprimento por 11 km de largura e com uma profundidade de até 45 metros, um dos principais palcos da vida do povo de José, sobretudo pela pesca. Era de suma importância também o Rio Jordão que, percorrendo 350 km, despeja suas águas no Mar Morto, o qual possui uma extensão de 85 km por 16 km de largura, com profundidades de até 400 metros e com suas águas densas de sal que não permitem, portanto, nenhum tipo de vida. 

07. Como era a situação política no tempo de José? 

São José nasceu sob a dominação dos Romanos, pois seu povo passou a viver sob o jugo dos Romanos desde o ano 63 antes do nascimento de Jesus. Seu povo tem uma longa história marcada de lutas, conquistas, derrotas, deportações, exílios, monarquias e infidelidade a Deus, embora sempre com uma fé forte em Javé, embora muitas vezes contaminada por idolatrias. Quando José nasceu, seu país era palco de um certo progresso e de novidades por parte dos Romanos, os quais gostavam de construções imponentes e de artes. Entretanto seu povo era de certa maneira escravo dos dominadores, e pouco se podia progredir a não ser os privilegiados. Por ser os Romanos de uma índole eclética, seus comportamentos eram incompatíveis com as aspirações do povo de José, o que deu ocasião para muitas revoltas, guerrilhas e revoluções armadas organizadas por facções do próprio povo e em tudo isso estava o desejo enorme de livrar-se da dominação estrangeira. O país de José era governado por Herodes; este era um caudilho imposto pelo poder real de Roma no ano 46 aC. Cruel, mandou matar todos aqueles que se opunham à sua política mas, apesar de tudo, foi um administrador hábil e um político astuto. 

08. Como era a situação social que José vivenciou? 

Como povo dominado e explorado pelos Romanos, as pessoas eram pobres com exceção de alguns que constituíam a classe dos privilegiados. Agravava-se ainda mais a situação de precariedade se levarmos em conta que, além da dominação dos Romanos, havia muitas e altas taxas impostas pelo império romano que toda pessoa era obrigada a pagar. Soma-se a isso o solo pobre e pouco produtivo, agravado pelas condições climáticas hostis por causa da escassez de chuva e por uma agricultura rudimentar. Além de tudo isso, havia também a exploração por parte da classe dominante. 

09. Sendo José pertencente à classe pobre, como podemos deduzir seu estilo de vida? 

Como todo pobre, José morava em uma casa muito simples, construída com paredes de pedras calcárias, com tijolos de barro cozido ao sol. Dormia como era o costume, em esteiras apropriadas para esse fim e sua alimentação era constituída de pão e peixes provenientes do Lago de Genesaré, não distante de Nazaré. Não faltavam também variedades de frutas tais como: romãs, figos e tâmaras. A carne era muito rara na mesa do pobre, mas em compensação havia sempre o azeite, o leite e até o vinho. 

10. E quanto ao ambiente religioso? 

Toda a vida religiosa do povo hebreu, e também a política e a social, girava em torno do Templo de Jerusalém, imponente edifício que tinha sido construído pelo Rei Salomão dez séculos antes de Jesus nascer. Destruído por Nabucodonosor em 516 aC, fora reconstruído por Zorobabel. Porém, por volta do ano 20 antes do nascimento de Jesus, novamente fora destruído por Herodes para que, em seu lugar, fosse edificado um outro mais suntuoso e rico pela sua imponência. Este ficou pronto no ano 64 dC. O Templo era o lugar das orações e das ofertas dos sacrifícios e imolações de animais por parte dos hebreus. Pela sua importância e constante movimentação, devido ao fluxo de gente que o frequentava, este possuía cerca de 20 mil funcionários, desde o mais alto grau sacerdotal até o mais humilde empregado. Naturalmente para sustentar todo este funcionamento, cada hebreu pagava 10% de impostos do que produzia. 

Outro fator importante que constituía o contexto religioso da época era a divisão dos grupos ou classes, constituídos pelos saduceus, que eram as pessoas mais ricas e influentes. Estes geralmente eram os sacerdotes e os administradores do Templo; era o grupo dos privilegiados. Seguiam depois os fariseus, inimigos dos Romanos e distinguidos pela ostentação religiosa, com suas práticas de orações, purificações, normas de comportamento e pela observância estrita da lei. Havia ainda um grupo de revolucionários e guerrilheiros denominados de zelotas e também uma outra classe conhecida como essênios. Estes viviam em comunidades monacais às margens do Mar Morto, numa localidade hoje conhecida como Qumran, onde levavam uma vida ascética e rígida. Por fim, devido a uma divisão dos hebreus no século X aC, a região da Samaria era considerada pelos judeus como uma terra maldita e seus habitantes eram tidos como pagãos, heréticos e impuros, e por isso odiados, ainda mais porque adoravam a Deus no monte Garizim, onde haviam construído um templo.

('100 Questões sobre a Teologia de São José', do Pe. José Antonio Bertolin, adaptado)

domingo, 20 de janeiro de 2019

FAZEI TUDO O QUE ELE VOS DISSER

Páginas do Evangelho - Segundo Domingo do Tempo Comum


Neste segundo domingo do tempo comum, estamos com Jesus e Maria nas bodas de Caná. Não sabemos detalhes do evento, os nomes dos noivos ou do mestre de cerimônia, o tempo da celebração. Mas a presença de Jesus e de Maria naquela ocasião em Caná da Galileia são o testemunho vivo da santidade e das graças associadas àquela união matrimonial. Muitos teólogos manifestam inclusive que foi, neste enlace de santa vocação e harmonia, que Jesus elevou o casamento à condição de sacramento, imagem de suas núpcias eternas com a Santa Igreja.

E o vinho veio a faltar. Nossa Senhora tem a clara percepção da situação constrangedora e aflitiva dos noivos e de suas famílias, porque faltou o vinho. É a Mãe que roga, que intercede, que suplica ao Filho Amado: 'Eles não têm mais vinho' (Jo 2, 3). Medianeira e intercessora de nossas aflições e angústias, de Caná até os confins da terra, Nossa Senhora leva a Jesus as súplicas de todos os seus filhos e filhas de todos os tempos. É ela que nos abre as portas da manifestação da glória de Jesus para a definitiva aliança dos céus com a humanidade pecadora, mediante a sua súplica de Mãe face à angústia humana: 'Fazei tudo o que Ele vos disser' (Jo 2,5).

E eis que havia ali seis talhas de pedra, que foram 'enchidas até a boca' (Jo 2,7). E a água se fez vinho, nas mãos do Salvador. Da angústia, faz-se a alegria; da aflição, tem-se o júbilo; da ansiedade, nasce o alívio e a serenidade. Alegria, júbilo, alívio e serenidade que são os doces frutos da plena santificação. Este vinho nos traz a libertação do pecado e nos coloca nas sendas do céu, pois nos deleita com as graças da virtude, do santo juízo, da sabedoria de Deus. Mas nos cabe encher nossas talhas de água até a boca, prover os nossos corações do mais pleno amor humano, para que a santificação de nossas almas seja completa no coração de Deus.

'Este foi o o início dos sinais de Jesus' (Jo 2,11). Em Caná da Galileia e por Maria, mais que o primeiro milagre, a glória de Jesus foi manifesta à humanidade pecadora. O firme propósito pessoal em busca da virtude e da superação das nossas vicissitudes humanas é a água que será transformada no vinho pela graça e pela misericórdia de Deus em nossos corações aflitos e inquietos, enquanto não repousados na glória eterna. Enchei, portanto, as vossas talhas de água e fazei tudo o que Ele vos disser, com a intercessão de Maria. Eis aí a pequena e a grande via em direção ao Coração de Deus, que nos foi legada um dia em Caná da Galileia.

20 DE JANEIRO - SÃO SEBASTIÃO

São Sebastião foi um oficial romano, do alto escalão da Guarda Pretoriana do imperador Diocleciano (imperador de Roma entre 284 e 305 de nossa era e responsável pela décima e última grande perseguição do Império Romano contra o Cristianismo), que pagou com a vida sua devoção à fé cristã. Denunciado ao imperador por ser cristão e acusado de traição, foi condenado a morrer de forma especial: seu corpo foi amarrado a um tronco servindo de alvo a flechas disparadas por diferentes arqueiros africanos.

Primeiro Martírio: São Sebastião flechado

Abandonado pelos algozes que o julgavam morto, foi socorrido e curado e, de forma incisiva, reafirmou a sua convicção cristã numa reaparição ao próprio imperador. Sob o assombro de vê-lo ainda vivo, São Sebastião foi condenado uma vez mais sendo, nesta sua segunda flagelação, brutalmente açoitado e espancado até a morte. O seu corpo foi atirado num canal de esgotos, de onde foi depois retirado e levado até as catacumbas romanas. Suas relíquias estão preservadas na Basílica de São Sebastião, na Via Apia, em Roma. É venerado por toda a cristandade como modelo de vida cristã, mártir da Igreja e defensor da fé e como padroeiro de diversas cidades brasileiras, incluindo-se o Rio de Janeiro. Sua festa é comemorada a 20 de janeiro, data de sua morte no ano 304.

Segundo Martírio: São Sebastião espancado até a morte

sábado, 19 de janeiro de 2019

SOBRE A CONFISSÃO DOS PECADOS


'O pecado não é vergonhoso senão quando o fazemos, mas sendo convertido em confissão e penitência é honroso e saudável. A contrição e a confissão são tão formosas e de tal fragrância, que apagam a fealdade e desvanecem o mau cheiro do pecado'.
(São Francisco de Sales)

'Um pecado que pode conduzir à condenação eterna é o sacrilégio. Desgraçado daquele que caminha por este caminho! Comete sacrilégio quem voluntariamente esconde qualquer pecado mortal na confissão, quem se confessa sem a vontade de deixar o pecado ou de fugir das ocasiões próximas. Quase sempre que uma pessoa se confessa de modo sacrílego, vem a realizar também o sacrilégio do sacramento da Eucaristia, porque depois recebe a comunhão em pecado mortal'.
(Cardeal Giuseppe Siri)

'Os pecados, depois da reconciliação, são destruídos, deixam de existir. Acontece por vezes que o diabo, durante os exorcismos, diz a lista das faltas das pessoas presentes, mas não pode dizer os erros já confessados, porque deles já não há nenhum vestígio; Deus, na sua misericórdia, os cancelou'.

(Padre Gabriele Amorth, famoso exorcista do Vaticano)