A VIDA OCULTA EM DEUS (Robert de Langeac)

 PARTE I - O ESFORÇO DA ALMA

A VIDA INTERIOR

Nossa Senhora do Monte Carmelo é a Padroeira da vida interior, a Virgem que nos separa da multidão e nos leva docemente aos cumes onde o ar é mais puro e o céu é mais claro: Deus está mais próximo e neles... perpassa a vida de intimidade com Deus. Segundo São Gregório Magno, a vida contemplativa e a vida eterna não são duas coisas diferentes, mas uma só realidade; uma é a aurora, a outra, o meio-dia. A vida contemplativa é o princípio da vida eterna, o seu deleite antecipado. Que a Rainha dos Céus nos conceda, pois, a graça de compreender o estreito vínculo que une essas duas vidas para vivermos aqui na terra como se já estivéssemos no Céu.

Uma alma interior é uma alma que encontrou Deus no fundo do seu coração e que vive sempre com Ele. 

Deus está no fundo da alma, mas escondido. A vida interior é como um transbordamento de Deus na alma. 

Há que se mantermos atentos no âmago de nossa alma, no ponto preciso em que possamos vigiar todos os seus movimentos, seja para detê-los, seja para orientá-los, de acordo com as diversas ocasiões. Vivamos ou de Deus ou para Deus, todavia não se trabalha inteiramente para Deus, senão quando já não se faz absolutamente nada para si mesmo. Deste modo, acontece o que Deus quer, quando quer e como quer, por se estar sempre unido com Aquele de quem ninguém é nada além de um instrumento privilegiado. 

Duas coisas são necessárias para alcançar a perfeição e a íntima união com Deus: tempo e paz.  

O que dá valor aos atos reflexivos do homem é a sua união a Deus pela caridade. Quanto mais profunda for esta intimidade, maior a eternidade dos seus frutos. 

Uma alma cujo olhar interior, carinhoso e humilde, está sempre fixo em Deus, obtém dEle tudo quanto quer.

Entre uma alma, recolhida e despojada de tudo, e Deus, não há nada. A união se faz por si mesma e é imediata. 

O tempo passa rápido e Deus é sempre amado muito pouco e muito tarde. 

Quão delicado sois Vós, ó meu Deus, em Vossos afetos! Tomais em conta o que é legitimamente pessoal em nós e tratais a alma que amais como se não houvesse nada no mundo além dela e Vós. 

Crer é comungar na ciência de Deus: Ele vê; e nós cremos na sua Palavra de testemunho. Pela fé, Deus fala; pela esperança, Deus nos ajuda e, pela caridade, Deus nos dá a nós e nos cumula de graças. 

Elevai-vos a Deus constantemente, deixando a terra por terra. Buscais viver pouco com os outros e ainda menos consigo mesmo, mas o máximo possível senão em Deus, ou pelo menos perto dEle.

Quando, no fundo da alma, ouvirdes duas vozes contraditórias, é conveniente que escuteis com mais cuidado a que vos fala mais baixo. De qualquer forma, essa é a que vos pede mais sacrifícios. E o sofrimento bem entendido tem tanto valor! E nos afasta de tudo para nos aproximarmos de Deus.

A DESORDEM E A LUTA


Por uma desordem, consequência do pecado original, cada faculdade, diz São Tomás de Aquino, busca seu bem próprio sem ocupar-se do bem comum, ainda que o conjunto possa perecer. Acontece então como quando se torna preciso domar uma manada de feras; o que não se consegue senão com o chicote e sem perdê-las de vista. E se algumas carecem de domínio sobre si mesmas, sobretudo no princípio, eis então uma jaula de feras. Não as menosprezeis sob o pretexto de dominá-las a chicotadas porque não conseguirás. Descartai tais armadilhas e elevai-vos até Deus. Como poderíeis fazer isso? É um segredo, porém o Espírito Santo vos ensinará. 

Além disso, o inimigo espreita ao redor das almas. E aquelas que se lhe escapam e se esforçam em servir a Deus lhe são particularmente odiosas. Para perturbá-las, tenta de tudo. Quer impedir que deem frutos. E para isso ataca as flores assim que brotam. Pois cada flor que cai antes do tempo é um fruto perdido para a colheita. E cada bom pensamento apagado pelo medo, cada bom desejo sufocado pelo temor, são outras tantas flores estéreis. O demônio sabe disso. E por isso excita na alma esses mil pequenos surtos incômodos e pensamentos de tola vaidade, de suscetibilidade invejosa, de impaciência enraivecida, de avidez caprichosa que molestam, inquietam, paralisam, intimidam e que acabam por dividir simultaneamente a atenção do espírito e a aplicação da vontade. Deus, por outro lado, jamais está na perturbação e na inquietude. Por estes sinais reconheceis que estes pensamentos não são dEle. O demônio é bastante sutil em perturbar as vidas de alma interior!

DESAPEGO DA IMAGINAÇÃO


Um ponto sobre o qual temos de insistir é a educação da imaginação. A imaginação é o porto onde convergem as faculdades superiores e inferiores. Assumir o controle dela é, portanto, de demasiada importância. Porém, isso não se consegue facilmente... é preciso paciência e dar tempo ao tempo. Não temos sobre a imaginação um poder despótico, mas político. Nós a ganhamos pela destreza. Apresentemos a ela boas e santas imagens; deixemo-la livre, se for necessário, vigiando-a. Pouco a pouco, quando as demais faculdades forem ganhas por Deus, esta ficará ao lado delas. 

A regra geral é o age quod agis [faça o que está fazendo, ou seja, concentre-se na tarefa em curso] dos antigos. Acabar com as discussões inúteis sobre o que acabamos de fazer, com as preocupações sobre o que temos que fazer mais tarde. O que temos de vigiar, regular e dominar é que a imagem que estará ao final da ação seja a mesma que estava no início. Nos ater unicamente à imagem do que fazemos, sem acrescentar nada além do que necessário. Que durante este tempo o âmago da alma esteja unido suavemente a Deus. Insistimos muito neste ponto.

Multiplicar as imagens é aumentar o desassossego, dividir as forças da atenção. Durante a ação, não tenhamos na imaginação mais que uma imagem do que fazemos. Na meditação, por outro lado, em lugar de combater as distrações, é mais importante que nos volvemos inteiramente a Deus, indo direto ao encontro com Ele por um movimento vigoroso da alma. 

Ocupai vosso espírito, porém em paz e com paciência. Não dê a ele para moer mais que o bom trigo. E que trabalhe lentamente. As leituras inúteis só servem para fazer a imaginação girar no vazio. Entretanto, os moinhos não foram feitos para girar, mas para moer. A conclusão é fácil de deduzir... 

Para ver melhor os 'harmônicos' entre uma ideia principal e suas ideias correlatas, reduza o som daquela. E diga a si mesmo: 'eu aumento, eu exagero'.

Não deis ouvido ao rumor que se forma em vossa alma, isso é, no mínimo, perder tempo. A terra vai continuar girando. Procurai viver à maneira das almas desapegadas, unindo-se a Deus no mais íntimo da vossa alma. Não espereis o dia de amanhã para concluir vossos trabalhos e obras: fazei-o agora mesmo. 

Vigiai com rigor vossas origens e vossos pontos de partida, tais como se fiscalizam os alicerces de uma fundação. Pois sem isso, e pela lógica, podeis construir todo um edifício sobre a areia, sem ponto de apoio, solto no ar. E sabeis o que iria suceder... a menos que as conclusões a que chegueis vos advirtam por si mesmas que haveis errado o caminho...

No repouso, desfazei impiedosamente de todos os devaneios imaginativos assim que vislumbrá-los. Dai a Deus a fidelidade de ocupar-vos apenas dEle e recebereis, então, a graça para fazer o que for necessário e resolver os problemas pendentes. 

Existem períodos nos quais é muito difícil fazer parar a 'roda do moinho'; é preciso saber suportar estas importunações da imaginação. Não reclameis então a Deus, mas volvei suavemente até Ele as faculdades superiores. É o mais seguro e, inclusive, mais fácil. Velar sobre a saúde e a moderação em tudo ajuda muito. Pois, na frágil natureza humana, tudo está relacionado. 

É muito importante evitar tudo o que nos agita, inquieta e perturba. Em quem descansará o Espírito senão sobre os humildes e os pacíficos? Temos muita necessidade do Espírito Santo! Tenhais em conta que a imaginação deve ser sempre temida e vigiada ainda que não esteja sempre necessariamente errada.

MORTIFICAÇÃO DO CORAÇÃO


Dai o vosso coração a Jesus cada vez mais. Não espereis fazer isso para quando fordes perfeito. Não; dai-o a Ele agora. Não busqueis voluntariamente nenhuma consolação. Deus, que nos conhece e que se desvela por nós, há de nos dar o que precisamos in tempore oportuno [no momento oportuno].

O Bom Deus não quer que procureis e que conheceis ser amado. Ele vos concederá isso sim, afinal, mas somente quando não mais o desejais. Enquanto isso, Ele quer que busqueis somente a Ele, sempre, em todos os lugares e em tudo, particularmente na humilhação.

Não procureis anelos sensíveis, que não são sólidos. Somos constituídos por uma parte espiritual e uma parte sensível, mas o que acontece na segunda é de uma ordem bem inferior e, em termos práticos, nem deveria contar. Como Deus é espírito, só o que é espiritual deve importar. Se o que disserdes a Ele não lhe parecer nada, pouco importa. Persevere, pois o que importa realmente é Ele estar contente.

É preciso temer as emoções sensíveis no caminho da vida espiritual porque elas inibem mudanças. Acredita-se numa dada virtude e, assim, apega-se a ela simplesmente por isso ser agradável. Não as peçais e nem as desejais para que nunca vos apegueis a elas. O amor sensível provém do conhecimento sensível. Se pudésseis compreender a diferença entre o amor natural, mesmo a Jesus, e o amor sobrenatural, o verdadeiro amor da caridade! Suponha que uma alma que, sem ter recebido a graça, tenha  amado Nosso Senhor na terra apenas por isso ser bom e belo... Isso assume uma ordem diferente. O caráter sensível deve ser mortificado e eliminado, para dar lugar ao espiritual. Veja o exemplo de São João da Cruz: ele não apenas quis renunciar ao que era sensível, mas também às próprias alegrias dos anelos espirituais. Na terra, não há proporção entre o nosso conhecimento e o nosso amor. É por isso que se pode amar mais do que se conhece. Basta-nos saber que Deus é infinitamente bom e que se ama Deus quando se faz a sua Vontade. O conhecimento sensível é secundário, mas podemos imaginar Nosso Senhor desta ou daquela maneira e isso depende da nossa imaginação. Quanto ao conhecimento intelectual, São João da Cruz diz, e é verdade, que nós não temos nada além do que uma ideia difusa de Deus; mas enquanto Deus não nos dá luzes infusas, temos que nos ater a essa ideia geral, mesmo sabendo que é bastante grosseira porque, afinal, não somos espíritos puros.

RENÚNCIA À PRÓPRIA VONTADE



Provamos a Deus que o amamos quando fazemos a sua vontade de manhã à noite, quando a fazemos bem, quando a fazemos com todo o coração, não apenas em termos gerais, mas também nos menores detalhes.

A verdadeira amizade consiste na união de duas naturezas e de duas pessoas em uma única vontade. Caminhe com o seu olhar fixo no alto. Obedeça de forma simples e inteligente. De outra forma, quando não houver pecado, é melhor fazer a vontade dos outros do que a sua. O que custa mais não é a mortificação, é a obediência, essa submissão da nossa vontade à vontade de outro. Com que luz diferente veríamos a obediência, se víssemos na vontade do outro a própria vontade de Deus!

Às vezes, diante de um pequeno sacrifício que temos que fazer, não queremos ver a vontade de Deus, porque, se a víssemos, seríamos forçados a segui-la. Então, desviamos os olhos para evitar considerar o elo que une inerentemente esse pequeno sacrifício à perfeição.

Temos que nos recriminar todas as noites por nossa resistência à vontade de Deus por falta de generosidade, por falta de amor e, ainda assim, um sacrifício frustrado é eternamente frustrado... e talvez isso tenha sido o começo de uma cadeia de graças que foi abortada porque não soubemos construir o primeiro elo. A fidelidade nas pequenas coisas para com um Deus tão grande seria para nós o começo dos maiores favores. Santa Teresa do Menino Jesus dizia que não se lembrava de ter negado nada a Deus desde os três anos de idade.

Suspeite muito dos raciocínios aos quais se sente muito apegado. Eles não são o fruto normal da sua inteligência, mas da sua vontade. Você nem sempre vê as coisas como elas realmente são, pois existem imponderáveis minúsculos que nos escapam à observação. E compensamos comumente essa deficiência com um ato de vontade: sic volo, sic jubeo, sic pro ratione; voluntas [quero assim, assim postulo: que a vontade seja minha razão (Juvenal, em Sátiras 6, 223)]. Isto é algo que deve ser corrigido.

Não deixe o Bom Deus fazer o que você pode fazer, lembre-se que é sempre dEle a parte maior do fruto de suas ações. 

Não deves agir fora das prescrições do Bom Deus. Toda vez que se permanece nos estritos domínios dos planos traçados pela Providência, sempre se faz um pouco de bem. Toda vez que se busca mudar estes preceitos, ainda que em algum pormenor ou pelos melhores pretextos, tudo se perturba e o bem não se faz.

A HUMILDADE


verdadeira paz só se encontra na humildade. Despreze-se com sinceridade diante de Deus e faça isso cada vez mais. Pelo menos tente fazer isso e verá os resultados. Se você for capaz de amar (por um ato de vontade) a humilhação e a contradição, terá dado um grande passo em direção a Deus. Aceite com franqueza e sem discussões internas ou externas as pequenas humilhações diárias. Faça isso: custa apenas dar o primeiro passo. Assim, o hábito pode fincar raízes e, então, que alegria e que paz!

Amar ser humilhado e ser considerado ninguém é uma graça. Peça isso sempre, mas com tranquilidade.

Na prática, reconhecer que não se está com a razão é perder pouco e ganhar muito.

Aceite humildemente não agradar a todos; querer o contrário seria querer o impossível.

Cuide da sua necessidade de criticar e contradizer os outros para melhor se afirmar diante de si mesmo. Procura definir os seus sentimentos com simplicidade, precisão, clareza e brevidade; depois mantenha-se sereno e reze.

Esforce-se sempre ainda que pareça que os seus esforços sejam inúteis. Deus quer o seu esforço pessoal para poder recompensá-lo. Permita que o seu fracasso, aparente ou real, o humilhe. Você precisa da humilhação como um freio. Quanto mais doloroso for, mais necessário é para você. Nada nos resguarda mais do que a humilhação e nada nos humilha mais como os nossos defeitos.

Ame as suas imperfeições. Elas o humilham e fornecem a matéria-prima para os seus esforços. Mas corrija-as também. Lembre-se do provérbio: 'quem ama bem, castiga bem'. E não traduza 'bem' por 'muito'. Dê a essa palavra todo o seu senso de restrição, prudência e firmeza, mas não rigidez excessiva. Considere os seus defeitos como uma mina inesgotável de mérito e humilhação e, nesse sentido, seria de se lamentar não ter defeitos. 

Se alguém nos julgasse como nós nos conhecemos, isso nos faria sofrer muito. Mais ainda, se nos fizesse saber o que pensa de nós. Nada nos machucaria mais, por miseráveis que julgássemos ser, do que um simples olhar de alguém que nos visse sob a nossa própria medida e, portanto, com desprezo. 

É como se sentir um ferro em brasas, como uma queimadura ardente, porque o egoísmo nos consome. Existem almas que não conseguem superar as consequências de uma falta cometida e do desprezo que a mesma produz. Quão habilidosos somos nós em responder às críticas e quantas precauções tomamos para evitar a menor humilhação! Mas nada é tão contrário à paz como isso. Existe paz quando você não pode tolerar a menor falta de consideração? Deus nunca haverá de conceder as suas graças a uma alma que se prostra preocupada diante de meras opiniões humanas que, na grande maioria das vezes, mostram-se equivocadas: busca-se então um bem que Deus não proverá. É a Deus quem devemos agradar, para que Ele nos olhe benignamente a cada dia; e não aos homens, buscando obter uma boa impressão a nosso respeito às custas de nossos dons naturais e mesmo de graças sobrenaturais. A vaidade espiritual é a pior de todas as vaidades e isso é prova concreta que estas graças não procedem de Deus ou de que Ele não as concederá mais. Porque é impossível entrar assim no seu Reino.

Trata-se, portanto, de praticar a humildade na medida em que ela realmente existe na alma, para praticá-la, desenvolvê-la, criar raízes e progredir. O que temos que encontrar, então, é a fórmula simples e única que traduz o ato e a origem da humilhação. Se, por exemplo, ao quebrar um copo sobre a mesa, em vez de dizer: 'Como sou desajeitado, sempre fazendo isso!' ou 'o copo escorregou das minhas mãos...' ou variantes assim, diga apenas: 'eu quebrei o copo'. Pronto; num sentido direto, simples e objetivo, sem buscar minimizar ou escamotear o constrangimento do ato. E, outras vezes, é melhor não dizer nada, deixando o silêncio traduzir as verdadeiras disposições de sua alma.

Não tente fazer florescer sentimentos de humildade dentro de você, mas 'exercite-se' nesta disposição, a menos que se entenda por 'sentimentos' coisas como gostos não sensíveis, disposições da alma ou atitudes espirituais.

Ó como estaríamos dispostos a receber as graças de Deus se tivéssemos um julgamento correto e exato sobre nós mesmos e sobre as nossas verdadeiras qualidades, reconhecendo-as sem exagero e vendo nelas tão somente uma concessão divina; e, mais ainda, um julgamento assim sobre os nossos muitos e verdadeiros defeitos e misérias, sem os exagerar também, mas vendo-os à luz de Deus! Nesse sentido, o orgulho seria impossível. Os santos viviam nessa luz e, por isso, pequenas faltas que nos parecem triviais mostravam-se enormes para eles, por causa da medida precisa que tinham da santidade de Deus e do profundo horror divino às nossas menores imperfeições. E, uma vez iluminados de maneira extraordinária, a humildade legou a eles contemplar de tal modo a própria miséria que, por  se depreciarem tanto diante dela e com julgamentos tão severos sobre si mesmos, tais considerações podem nos parecer surpreendentes.

A MANSIDÃO


A mansidão é uma das virtudes morais mais importantes para a vida contemplativa. Para nos dedicarmos à contemplação, precisamos da paz interior e exterior. A mansidão acalma a agitação de nossa alma e nos permite preservar a mais valiosa paz interior e exterior; facilita a oração, o diálogo em família e a conversa íntima com Deus; graças a isso, podemos ouvir a voz de Deus e segui-la. Existe em nós um poder de reação e irritação que nos permite lutar contra os obstáculos e combater o mal presente. É bom e lícito em si; sem ele, não seríamos capazes de agir, nossa alma tenderia a ser como uma roupa gasta e inerte e não seríamos capazes de reagir sensivelmente contra mal nenhum, nem mesmo contra o pecado.

Mas esse apetite, que por si só não é ruim, torna-se facilmente desordenado e repreensível quando se fica com raiva de coisas que não importam ou por razões que não são boas. Então, nasce na alma um desejo de vingança. Quando somos contrariados e feridos, sofremos e, porque sofremos, mantemos em nossos corações o desejo secreto de revidar no momento oportuno.

Portanto, é aconselhável ter muito cuidado porque essa é a pior coisa que existe na raiva, não só por ser contrária à caridade para com o próximo, a quem devemos querer bem, mas também muitas vezes contra a justiça. O terreno é escorregadio; pois esse desejo de vingança totalmente consentido, exceto no caso de matéria leve, poderia tornar-se um pecado mortal. Numa alma piedosa, o desejo surdo de vingança não é totalmente consentido, mas é perturbador por princípio e, como uma corrente profunda e semi-consciente, pode inspirar toda a nossa atividade sem que percebamos disso.

Daí aquelas estocadas, as provocações, aquelas palavras pretensamente amáveis ​​que têm suas gotas de amargura no final e com que habilidade o momento propício é capturado para machucar, morder ou espetar! Mas isso não é bom, pois é essencialmente contrário à virtude da mansidão e intimidade com Deus. Nunca uma alma que mantém esse sentimento - e nem estou falando de um grande desejo de vingança, mas daquele desejo que está oculto e que nem mesmo alguém deseja confessar a si mesmo - nunca esta alma poderá alcançar a paz. Este é um mal-estar espiritual muito doloroso que impede a completa tranquilidade e serenidade necessárias para contemplar a Deus.

A segunda e mais comum forma de imperfeição oposta  à virtude da mansidão é a impaciência, o mau humor. Quando nosso julgamento é contrariado, sentimos irritação, descontentamento, birra. Parece que se tira algo de nós, da nossa alma: uma preferência, um gosto por alguma coisa secundária que nos agradava, uma vontade que assumimos como nossa ... e sentimos a necessidade de demonstrar o nosso descontentamento por uma manifestação externa e, daí, o encolher dos ombros, a resposta inflamada e altiva, o olhar furtivo.

É aí que a virtude da mansidão deve intervir para paralisar o apetite irascível, com força reativa a outra força, para impedir de extravasar o que sentimos. Temos que ficar calados. Nenhuma palavra. Nem mesmo uma daquelas frases que parecem tão oportunas, tão justas. Não tente se  explicar. Mantenha-se calado! Se for possível, fale em um tom absolutamente moderado, totalmente amigável. Mas se não for possível, mantenha-se calado para deter, reprimir e sufocar a erupção vulcânica que está prestes a acontecer.

Para nos entregarmos a Deus na vida contemplativa, precisamos nos possuir primeiro. Uma alma que não sabe ter autocontrole não pode alcançar a paz. Existem mais ou menos dificuldades neste caminho, dependendo do temperamento de cada um, mas os movimentos desordenados devem ser dominados por esforços longos e pacientes. Caso contrário, a pessoa está sempre ocupada em ficar aborrecida ou aborrecer os outros. Está sempre refém de ficar ruminando na mente as coisas ditas, o que vai dizer ou o que poderia ter dito, e a pobre alma não arreda pé daí. É um novelo que não se desata, assim que parece terminar, recomeça. É impossível entregar-se a Deus durante esse tempo. Todo o período de oração será tomado por essa discussão interior com quem e com o que nos machucou. E é pena muito grande perder a própria oração! No final, diremos a nós mesmos: 'O que eu estava pensando? Fui infeliz, sofri e não rezei porque não consegui controlar essa paixão, essa corrente subterrânea que levou tudo consigo'.

AMOR À CRUZ


'Não era necessário Cristo sofrer e padecer para entrar na glória?' (Lc 24,26)

Se pudéssemos entender de maneira prática o valor do sofrimento, não considerado em si mesmo, mas aceito por amor e em união com Nosso Senhor, poderíamos compreender quase todo o mistério do cristianismo. O sofrimento é necessário para nós, pobres criaturas, profundamente aviltados pelo pecado original, ao qual acrescentamos ainda mais desordem com os nossos pecados.

Ele tem o maravilhoso segredo de nos purificar, restaurando nossas faculdades à pureza original por meio de um processo doloroso. A nossa vida é como uma obra longa e mal acabada, que precisa ser desfeita e reformada por completo; como uma massa de argila que apresenta diferentes tipos de formas, com vestígios emaranhados de todas elas, e que precisam ser apagados um após o outro. Esta é uma reformulação que deve ser realizada pelo fogo da penitência, do arrependimento, do doloroso detestatio peccati, da dolorosa detestação ao pecado cometido.

Ao mesmo tempo, o sofrimento nos fortalece quando é feito com amor. Este trabalho não pode ser realizado sem uma reação poderosa de nossa vontade. Todas as nossas faculdades se agitam contra o aguilhão, mas não podemos fugir disso e é esta ação que torna a nossa vontade forte, ágil, dócil e humilde nas mãos da vontade divina, ordenando tudo e restaurando parte do vigor do dom da integridade perdida pelo primeiro homem, conjuntamente com a Graça.

É preciso fazer um esforço para se permanecer na bigorna enquanto martelam os golpes; não se desviar da cruz: Christo confixus sum cruci. É necessário nos manter por longo tempo como vítimas, desde que Deus assim o queira. Pois Deus não é como os cirurgiões terrestres que dessensibilizam os seus doentes. Ele, pelo contrário, não nos coloca para adormecer mas, muitas vezes, leva a inserção desse sofrimento às profundezas do coração até às suas últimas fibras mais agudas e mais dolorosas.

Deus não nos faz entorpecer. Não age dessa forma. Jesus não estava letárgico na cruz. E ainda que por um ato livre de sua vontade humana, em perfeita harmonia com a vontade divina, Ele não quis que as alegrias da visão beatífica afetassem as suas faculdades sensíveis. Nesse sentido, sua alma continha dois mundos quase fechados. Toda a sua alma sofreu e toda ela estava feliz. Jesus sofreu com toda a sua alma; Ele era, portanto, o homem das dores, e, no entanto, nunca perdeu a visão beatífica. Que mistério e que realidade neste ato de se regozijar ao mesmo tempo em meio aos próprios sofrimentos e humilhações! 

E assim acontece com todas as almas que Jesus chama à sua intimidade, começando pela sua Mãe Santíssima, Nossa Senhora das Dores. Que alma desfrutou mais da intimidade de Deus do que nossa Mãe mais terna? E qual a alma que mais sofreu? Quanto ela sofreu, ela que era tão pura! E todos os santos... Essa graça da alegria é desfrutada apenas por aqueles que bebem o cálice por inteiro. Se apenas os lábios são colocados nele, não há nada além de amargura. Mas se você tiver a coragem de ir até o fim - ou morrer pelo caminho como dizia Santa Teresa - você terá a intimidade de Deus e a alma extasiada de alegria.

Sem dúvida, achamos às vezes que compreendemos bem o sofrimento mas, quando confrontados com uma dor amarga, que nos repugna e da qual gostaríamos de fugir a qualquer custo, precisamos de todo o nosso espírito de fé para nos manter de pé, sem reclamar por qualquer palavra, como Jesus, com Jesus e por Jesus. Acredita que se ama sem sofrer?... Na verdade, poderíamos suportar razoavelmente muitos sofrimentos, mas não o fazemos por covardia, porque a nossa natureza tem uma extraordinária engenhosidade para encontrar razões para enganar a si mesma e evitá-los a todo custo.

A PACIÊNCIA


Como a paciência é uma grande virtude dos educadores e como somos, em grande parte, nossos próprios educadores, devemos manter nossa alma em paz o máximo possível. Agitação, problemas e inquietação não produzem nada de bom. Temos que evitá-los. A paz interior é o primeiro dos bens. Sem ela, todos os outros tornam-se quase inúteis. Da pacem Domine, Pace vobis [Senhor, dai-nos a paz. A paz esteja convosco].

Sem dúvida, a paciência é uma virtude que não encontramos em nossas origens. O que fazer então? Pedir por ela a Deus. Ele a nos dará, talvez gota a gota, mas nos dará. É o bastante. Quando a provação é prolongada, a cruz pesa muito sobre nós. Gostaríamos que fosse tirada de nós. No final, porém, se Deus nos ouvisse, não resta dúvida de que lamentaríamos mais tarde. A máxima de São Francisco de Sales: 'não pedir nada, não negar nada' retornaria à nossa memória. O que precisamos fazer é orar para obter pelo menos a graça da paciência: é viver dia a dia, momento a momento, sem acrescentar ao sofrimento do momento os sofrimentos do passado e os sofrimentos do futuro. A nossa pobre alma não pode suportar tanto de uma vez só. Tenhamos pena dela.

Se a sua paz estiver um pouco perturbada, faça o que puder para restaurá-la, mas gentilmente, não à força. Comece assim. Não fale e não aja, exceto em caso de emergência, enquanto tudo não estiver em perfeita ordem com você. Esse foi o método de São Vicente de Paulo. Você vai se sentir muito bem.

A FÉ


Agradar a Deus é tudo o que importa para nós. Mesmo se tivéssemos todas as riquezas do mundo, mesmo se fôssemos admirados por todos, se não agradássemos a Deus, todas essas honras e admirações seriam inúteis. Mas se Ele está feliz conosco, se ele gosta de vir nos visitar e descansar em nossos corações, se ele está satisfeito conosco ... oh, então, tudo é ganho, e as coisas deste mundo, por sua vez, não valem nada.

Nossa maior sabedoria deve ser, portanto, tentar agradar a Deus em tudo, sempre e em todos os lugares, mais e mais, de maneira que Ele possa ser cativado pelo encanto de nossa alma. Como fazer isso? São Paulo nos diz, ou pelo menos, nos indica um dos meios indispensáveis: 'sem a fé, é impossível agradar a Deus'. Quando queremos empreender a conquista de Deus, temos que começar pela fé.

A fé é a firme adesão de nossas mentes à palavra de Deus. Pela fé, submetemos nossa mente, nosso coração e nossa vontade. Proclamamos que Deus é a própria verdade, palavra verdadeira e infalível, pelo que assim o agradamos e, pela fé, O honramos. Um mestre se alegra quando os seus discípulos acreditam nele, mesmo quando não entendem o que lhes é dito. Um pai está feliz quando seus filhos confiam nele. E que enriquecimento isso representa para a nossa inteligência, que comunhão é essa da verdadeira ciência de Deus! Ele vê, nós acreditamos!

Se uma alma verdadeiramente iluminada pela fé repousa em tudo nos braços do Pai e vê a Vontade de Deus em cada um dos pequenos deveres do momento presente, como pode não agradar a Deus? Durante todo o tempo, ela se põe à procura de descobri-lo nas mil ninharias, nos mil detalhes que compõem a sua vida. É de se supor que essa alma alcance diretamente a Deus, escondido sob as espécies dos pequenos deveres cotidianos. Seu olhar não se detém no plano das criaturas, mas ascende às Mãos que tudo sustentam e que tudo governam suave e firmemente; para essa alma, o mundo é apenas uma espécie de transparência, que reflete em cada momento a vontade de Deus. Como essa alma pode não agradar a Deus?

Vamos dar outro exemplo. A fé nos diz que toda alma em estado de graça possui a Santíssima Trindade no fundo de seu coração. Bem, aqui temos, portanto, uma alma que vive na fé. Se ela orar, irá diretamente ao santuário interior onde Deus se esconde e se entrega, à Santíssima Trindade que nela faz morada. Ela vai adorar, louvar, amar, ouvir o seu Deus, e falará com Ele; tentará, ainda, à sua medida, ter comunhão nesta vida divina, dizer a Palavra junto com o Pai, exalar o Espírito de Amor que procede do Pai e do Filho, e retornar ao Pai e ao Filho com o mesmo Espírito divino. Ela esquecerá a si mesma, esquecerá o mundo e, libertada das criaturas, terá prazer nesta comunhão, gostará de viver nela e não a deixará, exceto com dor, às vezes sem ter experimentado nada mas, na maioria das vezes iluminada, reanimada, fortalecida. Ela soube como agradar a Deus.

Que força incomparável é a nossa vontade de saber que o menor dos nossos sofrimentos e que a menor das nossas orações não poderá ser perdida! Veja a diferença entre uma alma de fé tíbia e uma que acredita no valor do silêncio, no poder da lembrança, na possibilidade de união íntima com Deus, em um grande escondimento, sem pretensões e sem orgulho. No primeiro caso, como que se rasteja; no segundo, a nossa alma voa e torna-se cada vez mais agradável a Deus, porque o que mais lhe agrada não é que apenas escutemos seus mandamentos, mas que os cumpramos. Se queremos agradar a Deus, sejamos almas de fé, de fé simples, que nos aviva completamente. Vamos julgar os acontecimentos à luz da fé, tanto quanto no caso das provações e alegrias. Toda fraqueza na vida espiritual vem da falta do espírito de fé. Quando você se sente desanimado, quando se fica menos recolhido ou menos mortificado e, assim, menos generoso no serviço de Deus, é porque o espírito de fé enfraqueceu. Urge redescobri-lo desde os fundamentos.

Vamos aperfeiçoar o nosso espírito de fé. Em vez de nos deixarmos levar pela pura razão e, às vezes, pela sensibilidade, retifiquemos pela fé as impressões de nossos sentidos. Quando aquela luz, que atinge com seus raios as últimas fibras do nosso coração, nos levar a uma plena transformação, teremos então em nós o triunfo da fé. E a fé inspirada pela caridade nos molda à imagem e à semelhança de Jesus, a ponto de fazer Deus julgar que Ele, ao nos ver, vê o seu Filho.

A ESPERANÇA QUE GERA O ABANDONO


Como não se ter uma esperança invencível no fundo de nossos corações? Todo o poder de Deus é colocado a nosso serviço para conquistar a Si mesmo. Quanto menos direitos eu tenho, mais espero. Não mereço nada, por isso espero tudo. Porque você, meu Deus, é bom. Nossa verdadeira felicidade está oculta no que Deus nos dá para fazer ou sofrer no momento presente; procurá-lo em outro lugar é condenar-se a nunca encontrá-lo.

O que Deus quer de nós é um abandono filial e confiante. Afaste do seu espírito toda preocupação com o presente e com o futuro e, portanto, tudo que pode impedi-lo de ocupar-se de Deus hoje, agora. Não tome as coisas pelo seu lado mais trágico; basta que você as considere com seriedade. Normalmente elas não são tão pretas ou brancas quanto parecem. Tenha medida de tudo. Considere que a Providência guia tudo in suaviter et fortiter [com suavidade e firmeza], confiando às vezes na primeira palavra e, às vezes, na segunda. Faça como ela; não temos modelo melhor.

Quanto a você, considere as coisas apenas como são, sem voltar atrás. Deixe o passado para o passado e  assuma de pronto os deveres presentes. Repita continuamente a frase de São Paulo: 'Tudo concorre para o bem dos que amam a Deus' [Rm 8,28]. Portanto, ame a Deus, ou pelo menos tenha um desejo sincero de amá-lo; é o bastante. Mantenha a paz interior. 

Não podemos fazer nada mais do que depender de Deus. A nossa felicidade e a nossa grandeza consistem em ter tudo dele. Costumo expressar a minha alegria por não ter qualquer direito sobre Ele, porque, se o tivesse, não ficaria muito a dever à sua misericórdia. Adoro pensar que Ele não me deve nada. Se eu tivesse algum direito, não poderia ser tão ousado, nem poderia ficar tranquilo.

Nosso Senhor há de nos dar o seu amor, mas talvez não da maneira como se imagina. É muito mais simples. Não espere nada sensível... Ele vai nos transformar aos poucos. Não se preocupe com os provações futuras e atente-se ao dia de hoje. Encontre a sua felicidade no que você tem que fazer ou suportar hoje. Verdadeiramente ela vai estar nisso, mesmo que você não a experimente.

Não se preocupe com a medida dos sofrimentos que você terá de suportar. Eles não passarão de sofrimento. Assuma os sacrifícios que se impõem hoje, os de amanhã, amanhã e assim por diante. 

Não busque a perfeição de um vez só. Deus não age assim. Ele quer de nós um esforço lento, paciente e progressivo. Esses esforços darão frutos como prova de amor a Nosso Senhor. Eles vão ser colhidos aos poucos, gradativamente. Não desanime com a imensidão do trabalho. Você não trabalha bem quando se está agitado sob o pretexto de que há muito o que se fazer.

O AMOR


Invoque Santa Teresa do Menino Jesus para pedir um amor simples, confiante, generoso e que sorri para Deus. Eis o que foi a sua graça particular! Que espírito de sacrifício e que amor sem consolo sensível o seu! Ore para que ela lhe ensine a amar a Deus com confiança e com total abandono à doce Vontade do Pai.

São Francisco de Sales diz que, para aprender a amar a Deus, não há nada a fazer a não ser amar. E enquanto se espera para amá-lo de verdade, deve-se fazer 'como se já o amasse'. Eu vos amo, meu Deus, mas não é o bastante. Vosso amor é ciumento e deseja todo o meu coração. Para que ele fosse todo vosso, seria necessário que todos os seus movimentos, todos os seus impulsos, mesmo os mais iniciais, não tivessem outro começo ou outro fim que não em Vós. Meu poder de amar, não só como espírito, mas também como ser sensível, deve ser orientado exclusivamente para Vós. Em suma, seria necessário que o encanto de sua infinita beleza exercesse o controle absoluto sobre o meu coração. Quando chegará, ó meu Deus, o momento em que todo o meu ser ficará plenamente submetido ao influxo do Vosso amor?

O amor da alma interior é um amor fiel. O seu coração pertence exclusivamente a Deus e para sempre. Deus pode se esconder, pode parecer até que a despreza, até mesmo que a rejeita, mas não deixa nunca de amá-la. Porque Ele ainda é Deus e o Deus dela. Ele é sempre digno de toda afeição e de todo amor. E isso é o suficiente para Ele. Talvez a alma sinta o aguilhão de uma inquietação misteriosa que lhe penetra nas profundezas: 'Meu Deus me ama?' Mas ela não se detém na resposta pois, quaisquer que sejam as disposições de Deus para com ela, a alma ela sabe que deve amá-lo, amá-lo sempre, amá-lo mais e a cada dia mais. E isso é o bastante. Ama-se ainda, e mais do que nunca. O que melhor pode expressar a fidelidade da alma que ama, ó meu Deus, senão a perfeita serenidade com que ela se atém ao lugar onde Vós a colocastes e ao estado interior que a ela foi imposto? Vós a quereis assim. Ela sabe disso e que não precisa de mais nada além disso. E, assim, há de permanecer pelo tempo que for da Vossa Vontade. 

Como uma pomba, ela não se move e apenas espera. E, nesta espera solitária, ela canta uma doce canção, uma canção que é sempre a mesma. Algumas palavras, algumas notas; isso é tudo. Mas como agrada ao Vosso Coração essa canção de amor que não acaba nunca! Seja qual for a estação do ano, seja qual for o tempo lá fora ou dentro do peito, nada é capaz de silenciar essa canção da alma que Vos ama: 'Eu Vos amo, ó meu Deus... Deus do meu Coração! Meu Deus e meu Tudo ...'.

VIVER EM CRISTO


Permaneça em Mim pela memória e pelo olhar de sua alma. Viva em mim. Alimente-se de mim. Procure me conhecer, não somente de fora, mas por dentro. Leia até o fundo do meu coração. Não se canse dessa tarefa. Que ela seja seu único negócio, a ocupação total de sua vida. Persista nela como a fonte de toda luz, de toda energia, de toda alegria. Una-se fortemente a Mim por amor. Você ficará assim firme e forte com a minha firmeza e com a minha força. Nada poderá perturbar ou agitar você, exceto superficialmente e, acima de tudo, nada poderá nos separar, exceto o pecado. E quando isso o ameaçar, aproxime-se de Mim com um amor mais generoso e ardente. E, longe de prejudicá-lo, essa provação terá apenas fortalecido a nossa união. E eu estarei com você.

- Como estarás comigo, Jesus?

- Estarei com você como um amigo na casa do seu amigo, como um hóspede na casa do seu hóspede. Eu assumi o controle do seu coração. Expulsei dele todas as afeições rivais. É meu; é para mim que não pára de bater. Sou eu quem o move. Eu sou o motor que o arrasta, a força que o move, a luz que o dirige e que indica o caminho que deve seguir. Eu o transformei espiritualmente em meu próprio Coração. Ame o que Eu amo; rejeite o que eu rejeito, queira o que Eu quero. Sinta-se com o meu próprio Coração, e seja assim um pouco mais e um pouco melhor a cada dia. Estarei, então, dentro de você, na parte mais íntima do seu eu. Num certo sentido muito verdadeiro, sou ainda mais você do que você mesmo por causa daquele amor que o transformou em Mim. O meu apóstolo dizia: 'Vivo jam non ego...' [não sou eu que vivo...]. É exatamente isso, ou ainda: 'Qui adhaeret Domino, unus spiritus est ...' [quem se une ao Senhor, torna-se com Ele um só espírito]: um único espírito; portanto, um só coração e, se você quiser, para sempre.

SOB O OLHAR DE DEUS

 


Vosso olhar, meu Deus, não é apenas agradável: é benéfico. Ele não nos acha bons apenas, ele nos torna bons. Olhar com amor e criar e enriquecer as vossas criaturas é sempre a mesma coisa para Vós, meu Deus. Que o vosso olhar se digne a voltar-se para a minha alma e nela pousar suavemente... Nada me agrada mais do que saber que estou sob a atenção dos vossos olhos. Parece-me assim que devo ter sempre o mais profundo respeito e a mais humilde modéstia. Quanta luz não encontro no vosso olhar! Ele ilumina o meu caminho, me ensina o verdadeiro valor das coisas e me faz ver se elas podem ser meios ou obstáculos para mim. E, por outro lado, me permite levar essa luz a outras pessoas. Sem ela, eu não seria mais do que escuridão. Ó, bendito olhar do meu Deus, queria vos ter fixado em mim para todo o sempre!

Vosso olhar, ó meu Deus, não é um olhar externo para a minha alma; é interior, no mais íntimo de mim. A alma tem a impressão de ser devassada pelo vosso olhar de dentro para fora. Isso é a verdade. Esse olhar sois Vós, ó meu Deus, que faz morada em minha alma e que a ilumina ao mesmo tempo em Vós, nela mesma e em todas as coisas. A alma está consciente dessa luz interior que se assemelha a um cristal muito puro que, exposto diretamente ao sol, torna-se cintilante pelos raios luminosos, e sabe disso. Mas essa é ainda uma comparação muito tênue porque a alma é espírito e Deus é espírito. E nada pode dar sequer uma ideia aproximada do que acontece na dimensão da luz, quando Deus invade uma alma e a toma para si. Ele, que é a verdade absoluta! Bem aventurada é a alma sem defeito e sem mancha que os raios divinos podem iluminar em plenitude! E como é suave ver a Deus em si mesmo assim! Já é um prenúncio do Céu...

À SOMBRA DA EUCARISTIA

A alma interior, abençoada por ser amada profundamente por Jesus Cristo quer, por sua vez, ser testemunha da afeição que dedica a Ele. Sabe que Ele habita no Tabernáculo. E, impulsionada pelo amor, ela se põe em oração diante dEle todas as noites para O louvar, mortificar e adorar, no silêncio do coração.

A alma interior recolhe-se em si, fecha a porta do santuário e fica completamente só em presença de Deus. A alma está verdadeiramente face a face com o seu Deus que permanece, antes de tudo, como uma presença divina nos corações. Parece à alma, e é verdade, que ela não precisa fazer mais nada senão uma coisa: amar. E assim ama por horas sem se cansar. Se pudesse, ficaria ali para sempre, para amar para sempre.

Enquanto a alma interior dialoga com Jesus, ao pé do Tabernáculo, a lembrança de suas ações do dia lhe vem à mente. Ela se pergunta se procedeu bem em tudo. Certifica-se das faltas que lhe escaparam no momento da ação. Reconhece que não disse bem aquela palavra, não executou bem determinada ação, não aceitou com alegria aquele sofrimento ou aquela contradição. E reconhece então que carece de graça aos olhos de seu Amado Salvador. 

Ela se dá conta de suas imperfeições: tem algumas manchas nas mãos e no rosto. E isso lhe causa dor,  principalmente por Ele, que merecia ser mais amado e melhor servido. Lágrimas de arrependimento sobem do coração aos seus olhos. Compreende que, para reparar isso, é preciso amar muito mais. E, sob o aguilhão da dor, seu amor por Jesus é vivificado, torna-se mais forte e mais ardente do que nunca; sua chama é purificadora. E assim como o fogo faz desaparecer os menores vestígios de ferrugem, o ardor da caridade apaga também as menores imperfeições. A alma interior não ignora que isso ocorre e, assim, se alegra profundamente. E ela fica imersa então em uma paz perfeita.

O que pode ser mais suave para a alma interior do que a sombra de Jesus-Hóstia? É ali que a alma deve reclinar-se; é ali que Ele a espera em silêncio. Sim, há uma sombra espiritual na Custódia, tal como também está no Tabernáculo. Mas nem todo mundo a vê e nem todos se  recolhem sob o influxo dela. Mas quem nela se deleita, sabe os frutos que se colhem. No silêncio e na paz, alimenta-se a alma de um pão substancial, que é o próprio Cristo Jesus. E, pouco a pouco, a própria alma se transfigura por este alimento divino no próprio Jesus.

Sua aparência permanece a mesma ou quase a mesma, mas o que há de mais íntimo e profundo nela torna-se algo muito diferente. É Ele quem agora pensa, fala e trabalha por ela; é Ele quem vive por ela. Poderia haver algo mais suave para a alma do que se ver assim transformada no seu próprio Salvador, à sombra da Hóstia?

MARIA, NOSSA MÃE

 

Maria é verdadeiramente a nossa mãe. Ela nos dá vida, e a protege e defende. O seu papel materno consiste principalmente em gerar Jesus dentro de nós. Ela não pode dar a quem não está preparado e, por isso, ela mesma faz essa preparação. Esta doação externa do Menino Jesus, tantas vezes feita em favor dos santos, é apenas um símbolo desta realeza de Maria. Se não, de que serviria esse gesto, por mais terno que fosse, se fosse tão somente exterior?

Considera a Santíssima Virgem como nossa Mãe, como Mãe de cada um de nós em particular. Fale com ela como uma pessoa viva. Nesse grau de intimidade, pode haver nuances infinitas, como as que encontramos nos santos; podemos nos dirigir e pertencer a ela pelos seus vários títulos.

Maria é a sua mãe. Faça todas as suas ações sob a intercessão de sua graça, em sua amável companhia e sob sua doce influência. Pense nela sempre e renuncie às suas maneiras de ver e fazer as coisas para fazer as dela. Tente isso. Persevere. Peça a ela para lhe conceder Jesus e gerar o Bom Jesus em sua alma.

É uma excelente prática de amor nos oferecer a Deus pelos sentimentos íntimos de Nosso Senhor e da Santíssima Virgem, sem maiores detalhes, pois não os conhecemos. Em momentos de fadiga, simplesmente repouse nos braços de nossa Mãe Celestial. Viva sob o olhar do Divino Mestre e de sua Mãe Santíssima. Tenha confiança nesse amor de Mãe: manifeste frequentemente a ela essa devoção.

Nosso coração, para ser forte, precisa permanecer manso. Seja suave e forte: força e doçura, ternura e firmeza não podem ser dosadas matematicamente. Isso é uma arte e tanto que a Santíssima Virgem possuiu plenamente. Ela sabia que o amor se prova pelo sacrifício e pelas obras, e que a melhor prova de amor que podemos dar a Deus e às almas é a nossa própria imolação.

Podemos ganhar tudo pela nossa devoção a Maria: modelo de perfeição e de boa Mãe! Ela não se sentia apegada a nada neste mundo. Ela foi totalmente transformada em Jesus e por Jesus, que lhe comunicou suas virtudes e a sua vida. E esta vida era uma vida totalmente escondida em Deus. Ela não via nada exceto Ele, ela não queria nada exceto Ele. Sua alma respirava por Ele a cada momento. Em síntese, ela era um só ser em Deus. Qui adhaeret Domino, inus spiritus est [Aquele que está unido a Deus, forma um mesmo espírito com Ele (1 Cor 6,17)]. Deus habitou em Maria. Maria viveu em Deus. Tudo isso era verdade. Mas tudo isso estava escondido.

ENCONTRAR JESUS NOS SEUS AMIGOS

Existem santos na terra, mesmo em nossos dias, e vós, ó Jesus, vivei neles! Eles têm olhos como os vossos olhos; a aparência deles é a vossa; o coração deles é como o vosso coração. É bom conhecer alguém que seja como vós no nosso caminho. Ficamos felizes só por vê-lo e, mais ainda, quando estamos junto dele e, muito mais, em sua intimidade! Ele fala pouco e ouve com paciência. Mas, sobretudo, ama.

Compreendemos, sentimos que é assim. Em sua companhia, percebemos a necessidade do silêncio, do recolhimento, da oração. Não está recolhido para si, mas para Vós. Fica ali, e quase não percebemos, pois ele se esquece de si mesmo. Não só nos faz pensar em Vós, mas a nos aproximarmos de Vós e em Vós sermos um.  Essa é a sua graça; parece que uma virtude misteriosa irradia do seu coração para apoderar-se do nosso e, assim, arrastar-nos até o Vosso Divino Coração. Começamos a entender realmente o que seja Vos amar e como é doce Vos amar pela comunhão com os santos. 

O que nos encanta também olhar para os que Vos amam é a pureza e a simplicidade desse amor: claro, límpido, brilhante. Um amor que não provém da carne, que é ignorada. Ignorada não apenas porque não é olhada, mas porque nem é vista. Ao percebermos isso, se realmente tendemos à perfeição, nos regozijamos porque esse olhar nos faz muito bem. Pois parece nos comunicar algo de sua pureza. Sentimo-nos elevados, enobrecidos, livres e espiritualizados. De repente, horizontes desconhecidos se descortinam diante de nós. O amor de Deus pode transformar tudo! Quem poderá nos dar esse amor? Quem nos poderá legar essa liberdade verdadeira? Com que fervor a esperamos pela concessão da Vossa bondade, ó meu Deus!

O ESPÍRITO DE ORAÇÃO


A oração é, segundo a definição de Santa Teresa, uma conversa de amizade íntima em que a alma dialoga sozinha com Deus e não se cansa de expressar seu amor por Aquele por quem sabe ser amada. Estar a sós com nosso Deus para dizer a Ele que o amamos: isso é a oração. Daí se tem o claro entendimento da inteligência de que nada vale sem o espírito de oração, aquela inclinação constante de cada alma, coração, inteligência e vontade para o diálogo com Deus.

Deus é pouco conhecido. E é ainda menos amado. É nesta conversa íntima que o coração adquire uma afeição cada vez mais sólida e profunda por Ele, uma afeição que cresce sem cessar. Toda a nossa ocupação deve ser essa: a de estarmos a sós na presença de Deus. Tudo nos deve falar sobre Ele: o grão de areia em que se pisa, a corrente de um riacho, a flor exposta ao nosso olhar, o canto de um pássaro, a estrela que brilha no céu à noite, um sofrimento, uma alegria, uma ordem. Tudo nos deve fazer pensar nEle, levar-nos até Ele, vê-lo em todos os lugares. Porque é dEle todas as coisas e tudo Ele tem suas mãos, envolvendo e em tudo penetrando, criando e continuando a criação. E, mais do que tudo, pela graça Ele habita no mais íntimo do nosso coração.

Ele não se contenta em nos tornar os seus filhos, mas quer viver em intimidade conosco. Ele está dentro de todos nós para que nossos corações possam amá-lo como se ama alguém que está verdadeiramente presente. E todo o nosso desejo deve ser o de penetrar nas profundezas de Deus por meio da nossa inteligência, de conhecê-lo não só pelas suas obras, mas em si mesmo, na medida do que isso seja possível, permitindo-nos, assim, no recolhimento e no silêncio, que Ele nos abra os olhos e nos fale ao coração. Deixando que nos ensine... deixando que Ele nos diga: 'Eu sou o tesouro, a misericórdia e a sabedoria. Eu sou o bem, a verdade, a vida, a beleza, a bondade e o amor. Eu sou este tudo e, ao mesmo tempo, sou a Trindade em sua intimidade mais perfeita e mais profunda, sem distinção alguma, a não ser pela relação de origem [ou seja, o Pai gera; o Filho é gerado; o Espírito Santo é quem procede; de forma que ao Pai atribui-se a criação, ao Filho atribui-se a redenção e ao Espírito Santo atribui-se a santificação].

Deixa, então, o seu coração se expandir em amor. O amor divino é uma coisa misteriosa. Não podemos dá-lo a nós mesmos, mas Deus se derrama na alma silenciosa, na alma de oração. Sem dúvida, esse amor nem sempre é consciente e sentido, mas como é real! E quer tudo dirigir e a tudo envolver; está sempre presente como uma fonte de calor, como uma língua de fogo. É aquele fogo interior de que fala São João da Cruz que, submerso na alma, a queima e a incendeia.

Devemos empreender a busca de Deus, chamá-lo, correr para Ele e dizer-lhe sem cessar, de manhã à noite: 'Onde estais, ó meu Deus? Entregai-vos a mim pois vos quero, vos chamo, vos procuro e porque preciso de Vós. Vós não sereis mais feliz por causa de mim mas eu só poderei ser feliz por meio de Vós. O meu coração foi feito para Vós e viverá inquieto enquanto não repousar em Vós. Ele sofre quando percebe que não o ama, que não o possui inteiramente'. Esse é o espírito de oração: uma troca contínua de conhecimento e de amor, face a face, num diálogo de corações.

Pode existir vida mais bela do que esta? Isso implica o alheamento do mundo e a imposição do silêncio; quem se distrai com ruídos externos não consegue ouvir a voz interior; é impossível. O silêncio provê a liberdade da alma para se abrir com Deus, falar com Ele e contemplá-lo; porque é necessário, deve ser praticado e não apenas em termos do silêncio exterior, mas também pelo silêncio interior. Silencie a sua imaginação, do que se ocupa e do que se preocupa, do que se deve fazer; desligue-se de tudo isso. Liberte o seu coração das mil ninharias inúteis que o possam oprimir.

Sacrifica tudo e então serás livre. No fundo, se não amais a vós mesmos, amareis mais e, necessariamente, amareis a Deus. O amor há de vos elevar e vos unir a Deus. Tereis uma uma vida de oração, ou seja, uma vida de intimidade com Deus, sempre mais amado e sempre melhor amado. Não busqueis outra coisa. Que a vossa vida seja uma vida de recolhimento, imitando a Santíssima Virgem. O que ela fez, durante toda vida, senão dialogar com a Santíssima Trindade? Ele viveu apenas para o seu Jesus, ela pensou apenas em seu Jesus, seu Deus e seu Filho. Era também a verdadeira Esposa do Louvor. Viveu pela oração e, pode-se dizer,  que morreu em oração. Uma alma de oração se aparta, se recolhe, se desprende, se mortifica e a tudo renuncia: tudo para encontrar a Deus; por outro lado, essa alma se dá a Deus. Então, um foco de luz ilumina, uma fonte de energia se expande, uma fagulha de amor incendeia. Não se precisa buscar ou se inquietar como isso haverá de acontecer.

Pelo simples fato de possuirdes uma alma de oração, sereis contados no número daquelas almas verdadeiramente mortificadas e apostólicas, que espraiam pelo mundo inteiro um pouco mais do conhecimento de Deus, e um pouco mais de caridade.

A CARIDADE PARA COM O PRÓXIMO


Sem a bondade que a caridade nos dá, não pode haver consolo. Se vamos visitar alguém que não sofre, essa pessoa não entenderá as nossas aflições, nossas confidências serão maçantes e sentiremos que os nossos sofrimentos não foram compartilhados. Se visitarmos, porém, alguém que está sofrendo, essa pessoa nos ouvirá pela sua própria experiência; somente as almas verdadeiramente caridosas podem compreender e, assim, compartilhar as dores dos outros. Não buscam coisas que consolam mas, como diz São Paulo, fazem-se tudo por todos.

Apesar da nossa boa vontade, temos a tendência de nos fazer sofrer mutuamente, nos confrontando e nos magoando ainda que sem querer, mas de uma forma muito efetiva: in multis offendimus omnes [em muitas coisas penamos todos]. Devemos ser fortes para nos imolar pela salvação dos nossos irmãos, para carregar a nossa cruz e a cruz dos outros. Temos que ser fortes para sempre amar com todo o nosso coração os nossos irmãos e o nosso Deus. Se nos empenharmos em adquirir, por múltiplos atos de caridade, uma maior pureza e uma maior simpatia e aquela generosidade, que não se paga com palavras e nem se alimenta de ilusões mas de imolações e sacrifícios, nossos corações serão cada vez mais semelhantes ao coração da Bem-aventurada Virgem Maria.

Nós valemos, sobretudo e acima de tudo, pelo coração. 'Ao entardecer da vida, seremos examinados no amor' [São João da Cruz]. Deus nos perguntará como usamos o nosso poder para amar. Seremos medidos não pela inteligência, mas pelo amor. Se, ao longo de nossa existência, procuramos tornar o nosso coração acolhedor, preenchendo-o de mansidão e compreensão, o nosso poder de amar tornar-se-á cada vez mais forte, vigoroso e capaz de suportar as cruzes mais pesadas.

Anseie agradar a todos o tempo todo. Faça valer todas as suas pequenas obras. Reflita sempre antes de falar e aja de forma a evitar o que se chama de projeção do seu ego sobre o ego alheio, o que distorce os pontos de vista. Minimiza as fragilidades do outro, reais ou aparentes, e realce as suas qualidades. Desta forma, você vai ver tudo sob a verdade, tal como Deus vê: 'Senhor, fazei-me ver como Vós para que eu ame como Vós amais'.

Coloque nos olhos o olhar da caridade. Não se importe se, às vezes, ocorrer um pequeno erro objetivo; o dano nunca irá muito longe. Imponha sempre atentar para as boas intenções dos outros. Se errar nisso, é melhor errar assim. Toda comparação, quando sacrifica uma das partes, tende a ser odiosa. Não faça tais comparações. Coloque-se sempre numa posição inferior, sem se preocupar em medir a posição e o valor do outro.

Não discuta sabendo que nada de bom poderá resultar disso. Entenda-se com os outros sob a ótica da generosidade e do sobrenatural. As pequenas concessões podem fazer um grande bem, principalmente quando se trata de almas que tendem a um grande ideal sem ver a todas da mesma maneira. Dilatentur spatia caritatis (a caridade expande os corações) e os liberta. Busque colocar a coerência no seu pensamento e, depois, em sua vida. Quanto a se colocar na mente de X ou Y... isso não é da sua conta, só Deus pode atuar assim. Deixe isso para Ele e conserve a paz.

Os juízos da caridade são, muitas vezes, os mais próximos da verdade. O melhor seria não julgar de forma alguma, nem mesmo interiormente, ou julgar com verdadeira indulgência. Tente ver a verdade nas declarações dos outros antes de fazer qualquer reserva! Faça tão somente as críticas e observações que sejam necessárias e oportunas. E mesmo assim, certifique-se de que, com elas, tem-se a esperança de colher algum fruto, pelo menos no futuro e, caso contrário, abstenha-se de fazê-lo.

Deixe em todos a impressão de que você possui um elevado conceito sobre a pessoa. Recolha-se diante o outro, mas sem parecer assim. Coloque o outro à frente; dê espaço para o outro falar, interesse realmente pelo que diz. Nosso zelo deve ser ardente, mas iluminado. Se acharmos que ele se torna por demais emocionado, devemos moderá-lo, porque tenderá a ser cego. Esse é o conselho da razão e da experiência. Não se atenha a causas secundárias, nos atos ou nas intenções dos outros, mas atente a tudo sob o olhar de Deus, que lhe pede humildade, paciência e caridade.

Devemos sempre distinguir o objetivo do subjetivo, o exterior do interior, pois somos tentados a querer e a ver cada coisa sob o nosso ponto de vista, quando só Deus conhece a verdade que existe em tudo. O julgamento pertence somente a Deus. É isso que temos que repetir continuamente para nós mesmos a fim de compreender, ou pelo menos suportar, o que, às vezes, nos parece tão contraditório na vida cotidiana.

A alma interior nunca faz pouco caso de nada e nem de ninguém. Ela não se prende aos defeitos dos homens ou às minúcias das coisas ou, se os veem, não os expõem com uma risada irônica e perversa. Sem dúvida sorri às vezes, mas sempre com um sorriso cheio de mansidão, benevolência e graça. Normalmente se expressa com palavras calmas e ponderadas. Sentimos que está resguardada pelo olhar e pela intimidade com Deus. Assim ela atua efetivamente em todas as suas ações e conversas, em todos os seus pensamentos, em toda a sua vida. É muito importante nos libertar do que nos afasta do outro, para corrigir o nosso modo de ser. Que ressonância tem as nossa palavras e as nossas ações na alma dos outros? Essa é a grande questão que devemos responder. 

SILÊNCIO E SOLIDÃO DO CORAÇÃO


Enquanto existir alguém ou alguma coisa entre a alma e Deus, a união perfeita não será possível. E somente ela nos pode dar a verdadeira paz. Temos que fazer de nós um vazio. A alma verdadeiramente apaixonada por Deus sente prazer em viver nas alturas de si mesma, em profunda solidão. Não há melancolia ou tristeza nisso, mas a convicção muito clara de que, para encontrar Deus, para falar com Ele e para amá-lo, torna-se necessário, ao mesmo tempo, isolar-se e elevar-se. 

Deus só mora nas alturas ou, melhor dizendo, nas profundezas da alma. É para lá que você deve ir para encontrá-Lo. De resto, não há maneira mais segura de agradar a Deus e obter as suas graças do que se colocar nesse isolamento silencioso nas alturas.

A menos de orientação contrária e segura que venha de Deus, afaste, portanto, todas as criaturas dos seus pensamentos quando você dialoga com Jesus. Deus deseja comumente uma alma 'solitária'. Assim, depois de ter rogado pelas almas que lhe são confiadas e pedir por elas junto a Nosso Senhor, recolha-se apenas à oração. Confie ao Senhor o perdão de suas dívidas e vá em frente. É necessário que a memória de alguém não se torne um obstáculo à imposição da graça em sua alma. Peça a Jesus para participar da afeição que Ele tem por você, de tal modo que a sua afeição provenha unicamente dessa fonte e tudo terá bom termo. E remova de si tudo o que você sente que não provém de lá.

Alegra-me encontrar uma alma que, embora sofrendo com o isolamento, o aceita. Nada me pode ser mais convincente porque ainda não conheci ninguém que avance na vida interior sem passar por essa prova. É dolorosa, mas necessária. Recorde-se das palavras de Santa Teresa que disse que, para receber tais favores, Deus precisa apenas de uma alma pura e inflamada do desejo de recebê-los. Parece, então, que se tem um coração submerso em lágrimas, em profundo sofrimento, mas... a recompensa está por vir.

Uma alma que não se isola não progride. Não pode subir. Quando vejo uma alma que não sabe se recolher, digo a mim mesmo: 'Não irá em frente, pois é como um camelo carregado, mito rica de si mesma'. A alma, porém, quando se vê abandonada e ferida por todas as criaturas, é como um cervo sitiado por todos os lados e que, diante de todas as saídas bloqueadas, precipita-se em direção ao lago próximo. Diante de um sofrimento, corra para Deus.

Quando Deus quer falar a uma alma, Ele a isola de tudo e a imerge em uma profunda solidão; então, ilumina a sua inteligência com algo que ela desconhece por completo. É desse algo misterioso que todo o conhecimento explícito emergirá no devido tempo, como uma tradução para a linguagem humana das realidades divinas. Tradução que não é arbitrária, pois é controlada de dentro por algo que, sendo intangível em si mesmo, é, no entanto, muito real. Ainda assim, o melhor está ainda por vir.

 PARTE II - A AÇÃO DE DEUS

O DESEJO DE PERFEIÇÃO

O desejo de perfeição deve ser constante porque, não sendo assim, os nossos esforços não se somariam. Em nossa vida haveria lacunas, hiatos e coisas talvez piores. Quando um homem está construindo uma casa e é obrigado a interromper a obra por falta de materiais ou de recursos, engana-se em pensar que basta ter de novo materiais ou recursos para retomar a construção interrompida no mesmo ponto. Não é assim, pois durante este tempo de paralisação da obra, os agentes físicos estarão intervindo, e a chuva, o vento, a neve, o gelo, o calor e o frio terão exercido sua influência negativa sobre a casa. A construção será toda afetada, eventualmente irá ruir e até mesmo as suas próprias ruínas poderão vir a desaparecer.

Isso também é o que acontece na vida espiritual, quando uma alma deixa que o desejo de perfeição seja refreado em seu coração: ela pensa que deve ser capaz de recuperar o seu impulso inicial; mas não, não é isso que ocorre, a alma se queda em um abismo porque os obstáculos entre Deus e a alma vão se acumulando. Na busca da perfeição, 'quem não avança, retrocede'. É verdade que uma alma, apesar dessas interrupções, pode recuperar o seu fervor original e reparar os seus períodos de imprudência, pois Deus é misericordioso. Mas essa é uma missão de misericórdia e, na vida espiritual, é preciso ter sabedoria e prudência. Reparai no exemplo das virgens sábias e nas virgens imprudentes: estas últimas também amavam, mas o amor delas não era constante o suficiente.

A alma que deseja realmente encontrar a Jesus, iluminada pela ação do Espírito Santo, entende que é muito importante não perder tempo em buscas vãs. Os menores atrasos constituem para ela uma angústia ou um martírio porque nunca é cedo demais para encontrar a Deus.

O DESEJO DA UNIÃO PLENA COM DEUS

Podemos pedir uma união profunda com Deus, mas com uma condição: que seja oculta. Devemos aspirar a isso. Na união com Deus, existem vários graus e vários estágios a percorrer. Mas impõe-se subir sempre. Podemos crescer constantemente nessa intimidade. Os teólogos, mesmo os mais severos, dizem que uma alma, que já recebeu alguns valores místicos, pode aspirar à sua continuação.

O que pode ser mais perfeito do que essa união, uma vez que a perfeição consiste em se retomar o seu princípio para nela encontrar a sua realização? O que poderia ser mais profundo se tudo acontece no íntimo da própria alma, naquele santuário interior onde Deus habita? O que poderia ser mais puro, visto que essa união supõe harmonia, o afastamento de tudo o que difere dAquele que é a própria santidade e uma vez que se realiza entre dois espíritos? O que poderia ser mais precioso se, por meio dela, Deus se doa à alma com todos os seus tesouros? Onde encontrar, então, mais luz, mais calor, mais energia, mais paz e mais alegria? Mihi autem adherere Deo bonum est - mas para mim o bem é estar unido a Deus (Sl 72, 28).

Sem dúvida, não convém impor-se a Deus; o que só é inútil e prejudicial. Ele convida 'de fato' a quem lhe agrada. Mas espera que nós o busquemos, que peçamos e chamemos por Ele, que preparemos a nossa alma com um amor delicado e generoso, perseverante e despojado; Ele tem o direito de o fazer. Então, esse é o nosso dever Veni Domine Jesu - Venha, Senhor Jesus: velar docemente com Ele e, com Ele, desejar sempre a paz. 

O CONVITE PROVÉM DO INTERIOR DA PRÓPRIA ALMA 

Mas como realmente colocar-me em Vossa Presença? Onde estais? Qual é o caminho que me leva até Vós? E ouço a Vossa resposta: 'Estou dentro de ti! Se queres me encontrar, vem até onde eu habito e, então, dar-me-ei por inteiro a ti!' Sim, 'estás dentro de mim, na parte mais íntima da minha alma!' Se eu pudesse entender essas poucas palavras! Se eu soubesse me despojar de tudo, deixar tudo, para então caminhar até Vós, aproximar-me de Vós, para alcançar pelo menos a  porta do Vosso Santuário, ó Santíssima Trindade! 

É DEUS QUEM ESCOLHE E ATRAI A ALMA


Sois Vós, ó Deus, que escolheis livremente as almas em quem quereis fazer morada permanente, que quereis separar de tudo; purificar, enriquecer, elevar-se, receber-Vos e viver em Vós, para que Vos contemplem de certo modo como Vós mesmos vos contemplais, para que Vos amem como Vós vos amais, para que vivam - sem desconfiança, mas realmente - a Vossa Trindade Santa: 'Não me escolhestes, mas eu vos escolhi ...'.

Sim, só Vós, ó meu Deus, sois quem começa, realiza e termina esta bela obra. É certo que Vós pedis o consentimento e a colaboração da alma para isso acontecer. Mas sois Vós quem mostrais primeiro à alma possuir no fundo de si mesma aquela pérola preciosa, aquele tesouro escondido do Evangelho, ainda desconhecido por ela da sua verdadeira riqueza.

Ela não buscava a verdadeira bem-aventurança onde realmente estava, pois vivia principalmente pelo exterior e no exterior. Não vivia pelo interior e no interior porque não sabia. 'Se conhecesses o dom de Deus!..' Mas, aos poucos, instruístes e a iluminastes para alcançar o entendimento pleno. Seus olhos, atordoados e extasiados, se abrem. Horizontes infinitos e totalmente novos passam a ser refletidos sob uma luz doce e agradável. 

E embora essa mesma luz, na maioria das vezes, não seja projetada em outras realidades distintas da fé, capta melhor essas realidades para serem vistas e vividas. Vós, ó meu Deus, já não sois para a alma um ser distante, vislumbrado confusamente e pensado abstratamente, mas o Deus vivo e presente, a Verdade, a Beleza, a Bondade perfeita e concreta, a Realidade plena. A alma então entende, de uma maneira sensível, que Vós sois tudo e que não há nada para ela fora de Vós e a única e verdadeira riqueza é Vos possuir por completo. Então passa a Vos desejar com fervor ardente e irresistível que, ao mesmo tempo, a assombra e a enleva.

PRESENÇAS E AUSÊNCIAS DE DEUS


A vida espiritual, exceto em sua última fase, desenvolve-se assim: nós a perdemos, procuramos de novo e a reencontramos: 'Vós estais aí, meu Deus; fico feliz em saber que Vós estais presente'. Sim, Deus trabalha assim. Ele vem e depois se afasta de nós para ser procurado novamente. Ah, quando você vai compreender que se deve ir até Ele apenas pelo que Ele é e não pela alegria que a sua presença pode nos proporcionar?

Devemos receber as graças de Deus sem muito entusiasmo natural, para não nos sentirmos abatidos quando a graça sensível diminuir. Fiquemos sempre tranquilos porque Deus não age exceto na serenidade. Quando Jesus se esconde, devemos buscá-lo de todo o coração. Não podemos viver sem Ele e, no entanto, nem sempre podemos estar com Ele. Devemos, pois, procurá-lo e procurá-lo sem tréguas.

Nós vamos encontrar Jesus naquela alma escurecida que iluminamos, naquela alma entristecida que consolamos, naquela alma abatida que encorajamos ou ainda naquela alma abençoada de Deus que admiramos e invejamos. Também o encontraremos no Tabernáculo, onde se esconde e onde se doa; nós o encontraremos em nós mesmos, bem no fundo de nosso coração. Ali Ele está de forma misteriosa, que não sendo uma presença eucarística é, no entanto, muito real. No fundo, a maneira de encontrar Jesus, em todos os lugares, é levá-lo sempre conosco, quer o sintamos ou não.

Não se canse de buscar a Deus. Diga a Ele para frequentemente se esconder bem no seu íntimo para que você possa perceber, sem o som das palavras, que Ele está ali e ali Ele está por você. Permita que ilumine, fortifique e console a sua alma. Peça a Ele para guiar a sua vida do íntimo em que se encontra, oculto e revelado ao mesmo tempo. Seu sofrimento vem do que você não vê. Faça com frequência esta oração dos cegos: 'Senhor, faça que eu veja!'. E assim, por meios que desconhecemos, uma intervenção sobre os seus defeitos, uma leitura ou uma palavra de Deus irá iluminá-lo e dar-lhe a luz que você procura.

O que transparece como obstáculo é o medo. Por humildade ou por timidez, temos medo de Deus. Nada vemos nEle senão a infinita grandeza, a onipotência e a majestade, e tendemos a esquecer a bondade, a misericórdia, a infinita condescendência daquele Deus que se fez homem por amor a nós. Ele disse: 'Venham todos a mim' (Mt 11,28) e tememos ir até Ele. Ele como que nos revela: 'Eis aqui o Coração que tanto amou os homens', e tememos ser amados por Ele. Modicae fidei! [homens de pouca fé!].

 NECESSIDADE DAS PURIFICAÇÕES PASSIVAS


Para amar a Deus e para amar as almas de maneira adequada, precisamos de um coração puro e desinteressado. Pureza dos sentidos e pureza de espírito e de intenção: essas são as duas condições e também os dois frutos da verdadeira afeição.

O amor que Deus infunde em nossas almas é totalmente espiritual; é uma participação do seu Espírito. Uma vez que Deus nos fez compostos de corpo e alma, de matéria e espírito, toda afeição sobrenatural deve normalmente afetar nossa sensibilidade. Não é só a alma que ama, é todo o homem. E se o pecado original não viesse perturbar a ordem estabelecida entre as nossas faculdades, não teríamos que nos preocupar em regular nossa sensibilidade de acordo com a lei da razão e da fé. Esse ordenamento ocorreria por si mesmo e muito bem.

Mas, uma vez que a ordem foi perturbada, a primeira tarefa que se impõe é restaurá-la. Visto que nossos sentidos buscam satisfação independentemente da razão e, muitas vezes contra ela, eles devem ser disciplinados primeiro por esforço paciente e perseverante. Eles são servos, não senhores. Eles têm que informar e executar, e não lhes cabe comandar e muito menos perturbar. Todas as vezes que eles tendem a se afastar do caminho certo, temos que trazê-los de volta, de bom grado ou à força. E a melhor maneira de domesticá-los é privando-os: no início, eles murmuram, grunhem e até buscam se revoltar. Mas se a vontade permanece firme, termina a insubordinação. Aos poucos, eles tendem a se calar e a obedecer. Em troca, de vez em quando, a vontade permite que chegue até eles, na medida do possível, um pouco daquela felicidade com que o amor divino a inebria e isso é, para os sentidos, uma prova antecipada das alegrias mais puras que o Céu lhes reserva após a ressurreição.

Mas a graça continua a sua obra, atuando de fora para dentro, dos sentidos para a memória e, sobretudo, para a imaginação. A luta torna-se mais difícil e também mais demorada. O inimigo que temos de derrotar é um inimigo de incrível agilidade e mobilidade. No momento em que julgamos que o temos finalmente dominado, ele foge do controle. E, no entanto, é da maior importância submetê-lo ao regime do amor. Em particular, cabe à imaginação dispor os materiais necessários com os quais o nosso espírito possa realizar todas as suas obras. Por sua vez, o espírito os utilizará para dar relevo, cor e vida aos seus pensamentos, aos seus desejos, às suas vontades. As ordenações do espírito passam pela imaginação e cabe a ela colocar em movimento todas as faculdades de sua execução.

Nunca é demais dizer o quanto é importante para a alma que deseja servir a Deus, tanto interna como externamente, disciplinar este poder precioso mas terrível, submetendo-o a mortificações. É necessário, portanto, que a imaginação também aprenda - sobretudo ela - não a preceder mas a seguir, não a mandar mas a obedecer, a não buscar o que lhe agrada, mas a se contentar com o que lhe é dado. Se a Vossa graça, ó meu Deus, visando purificá-la mais profundamente, a faz mergulhar longos dias em amargura, sofrimento e trevas, ela deve aceitar esta provação como um justo castigo por seus desvios, como um redirecionamento necessário para os seus caminhos oblíquos e tortuosos, e como uma preparação essencial para o papel que doravante terá de desempenhar sob as ordens do vosso amor. Esta educação divina durará o tempo que for necessário para que os fins que Deus busca sejam assegurados. Mas, por outro lado, quanto enleio para a alma interior quando, uma vez concluída esta tarefa, se vê libertada finalmente da inoportuna - para não dizer louca - sujeição à imaginação, e torna-se então rainha em sua própria casa, e ali reina obedecida, respeitada, amada!

Mesmo quando a sensibilidade estiver bem submetida às ordens do amor de Deus, não estará proferida a última palavra de sua obra purificadora. O trabalho mais necessário ainda não foi feito ou, pelo menos, ainda não terminou. Pois a desordem entrou no homem e se estabeleceu nele por meio das faculdades superiores e será, portanto, necessário que a graça se eleve novamente àquelas alturas, para penetrar nas profundezas humanas, para reparar o que o pecado destruiu e para restabelecer em harmonia o que era divisão e confronto. Em vez de se tornar a medida das coisas, a inteligência terá que se adaptar a elas. Ela deverá ingressar na escola das realidades divinas e aprender com as mentes mais dóceis e penetrantes que as estudaram ao longo dos séculos, num esforço profundo de vê-las como Deus que as criou as vê, isto é, de dentro! Deve sobretudo submeter-se à Vossa própria escola, ó meu Deus, Vós que sois a Verdade eterna.

O que pressupõe conhecer sobretudo é Vos conhecer. Mas ninguém Vos conhece como Vós mesmo e, assim, só Vós podeis dizer realmente quem sois. É claro que as as criaturas falam muito sobre Vós mas como vão revelar o que, no fundo, ignoram, ou seja, a Vossa vida íntima? Também é verdade que, por Vossa bondade, dignastes enviar-nos os Vossos profetas e o Vosso próprio Filho amado para que Vos explicasse. Mas era absolutamente necessário que Ele e todos os profetas usassem palavras humanas para cumprir tal missão sagrada, pois falavam então como homens se dirigindo a outros homens. Como explicitar o Ser Infinito que sois por algumas palavras da pobre linguagem humana! Vós as extrapolam em muito e, assim, o que elas nos falam de Vós, longe de suprir os nossos anelos, apenas os excitam e os avivam cada vez mais.

O ideal seria, então, que pudéssemos entrar na Vossa escola e nos tornássemos Vossos discípulos diretos, uma vez que quereis ser o nosso Mestre. Mas, para tal, impõe-se uma rigorosa purificação de nossas faculdades superiores, até o mais íntimo de nossa alma. Porque sois, meu Deus, puro espírito e espírito de santidade. E para ser admitido na Vossa escola, para Vos ouvir, para Vos compreender, para gostar de Vós, temos também de ser criaturas puramente espirituais. Entretanto, uma vez que a nossa alma esteve mergulhada por tanto tempo na matéria, revestiu-se de todas as suas formas. E, assim, já não sabe mais compreender e gostar, senão de acordo com aquilo que está na ordem das coisas sujeitas aos sentidos. E de tanto viver sob o sensível, esqueceu-se de sua própria vida que é a vida espiritual. É necessário, então, que a infusão do Vosso amor possa purificá-la e então restaurá-lo por dentro. Obra difícil e de transformação dolorosa, mas preciosa e necessária.

DEUS CRIA O VAZIO NA ALMA


Vós, ó meu Deus, separais progressivamente a alma de tudo o que não vem de Vós. Em torno dela e em si mesma, cria-se o vazio e nada além de Vós passa a dizer alguma coisa para ela. Os seus próprios exercícios de piedade são desprovidos de qualquer encanto. Eles por si só não a satisfazem mais. Ao perceber isso, a alma se inquieta mas continua a realizá-los, embora com pouca satisfação e pouco sucesso, e não os abandona por crer que, assim, ela pode pensar e se aproximar de Vós. 

Pensar em Vós e se aproximar de Vós passa a ase uma experiência dolorosa e deliciosa para a alma. No íntimo, Vós exerceis sobre ela uma atração misteriosa da qual ela só se encontra vagamente consciente e que não permite que se dedique mais às suas orações como antes. Isso porque agora o Vosso amor a envolve suavemente e a dispõe num recolhimento totalmente novo para ela. Quão feliz ela se sente, apesar de sua inquietação! Assim ela gostaria de permanecer sempre sob esse misterioso encantamento, cuja origem e cuja natureza mal acabou de compreender. 

Se pudesse, certamente diria: Domine bonum est nos hic esse (Mt 17,40) - 'Senhor, é bom estarmos aqui'. E assim, quando o encanto se desfaz, seu maior desejo é desfrutá-lo novamente. Vós, porém, geralmente não concedeis de imediato tal desejo. Entretanto, se a alma souber salvaguardar-se nesse recolhimento interior, Vós não tardareis a visitá-la outra vez. Então volvereis mais frequentemente e cada vez permanecereis mais tempo. Ah se pudésseis ficar o tempo todo...

Mas por que não? Não é esse o Vosso desejo, ó meu Deus, e o fim que perseguis constantemente, apesar das inquietações e das resistências mais ou menos conscientes da alma? Você sois a felicidade plena e quereis que toda criatura seja capaz de comungar o mais cedo possível das Vossas bem-aventuranças! Esperar pelo fim da vida é esperar por demais o Vosso amor. E é por isso que o Vosso amor invade aos poucos a alma fiel. Começa por apreender a sua vontade, o poder de amar e, depois, todas as demais  faculdades, para uni-las numa coisa só ou pelo menos para não permitir que a perturbem. E se for necessário para os seus desígnios, busca imobilizar os próprios sentidos para que a alma, por causa do que bem espiritual maior que possui, possa doar-se em todo o seu amor.

Vós restituireis a harmonia mais tarde, quando tiverdes feito a conquista total e quando a alma e Vós se tornarem dois seres, unidos em um único espírito e em um único amor. Esta será a hora da união perfeita e permanente. Vós vivereis no íntimo da alma e a alma viverá em Vós com a sua própria vida. E depois disso não haverá mais nada que não seja o Céu.

DEUS ABRASA A ALMA


O amor de Deus é uma chama ardente. Antes de transformar a alma, Deus a desfaz, queima, consome. Tudo o que é contrário a Ele deve desaparecer. Este período da vida interior é particularmente doloroso. É um momento de purificação: a alma é lançada no cadinho; todas as suas escórias sobem do fundo à superfície e então a alma vê toda a sua fealdade e se ressente do sabor cruel de tanta amargura. Às vezes, fica com a impressão de que essas manchas são inerentes a si mesma e que nunca poderá se ver livre delas. Mas, no fundo, a alma é bela porque é pura, e a percepção desse mal a horroriza.

Para quem simplesmente visse o efeito dessas duras tribulações, pareceria ver apenas a alma calcinada por este fogo misterioso, tenebroso, sem forma e sem beleza, que a desfigura e deforma. Todos os pensamentos que pouco a pouco tomaram conta de sua mente e moldaram sua imagem, todos os afetos que se infiltraram em seu coração e o tornaram semelhante ao seu ser, todas as lembranças que permearam sua memória até então, desaparecem por completo. Durante a provação, tudo foi ceifado, arrancado e queimado. 

A alma não é mais a mesma e, nesse sentido, torna-se irreconhecível. Ficou deformada por uma fealdade que resulta da privação de uma falsa beleza. Mas, na verdade, foi embelezada pela verdadeira beleza, por privar então da própria Beleza de Deus. Apenas o que é substituído foi destruído. E a alma interior, despojada de tudo o que formava a sua aparente riqueza, começou a se revestir da própria Beleza de Deus.

Para unir, o amor de Deus deve, antes de tudo, separar. E aqui não se trata mais de simplesmente afrouxar os laços que uniam a alma ao seu corpo, mas de penetrar no próprio íntimo da alma para libertar o que há de mais perfeito nela: 'o espírito', para que a união com Deus, que é Espírito, possa ser plenamente realizada. Segue-se então uma angústia dolorosa, deliciosa e inexprimível. É uma nova vida que se insinua nas profundezas da alma e que muda tudo nela. A alma não é mais reconhecida e se torna uma outra alma, embora ainda seja a mesma. A impressão da morte é tão vívida que clama por socorro, sabendo, entretanto, que não vai ser ouvida. Precisaria do céu para isso; só que ainda não chegou a sua hora.

DEUS FAZ A ALMA RECAIR À MISÉRIA ORIGINAL

 

Às vezes, ó meu Deus, depois de ter elevado a Vós a alma interior e feito com que se deleite das alegrias da Vossa intimidade, com leveza e mansidão, a faz abandonar de novo, e repentinamente, no poço da sua miséria natural. Então a escuridão a envolve, o frio toma conta dela e a paralisa, e ondas de amargura sobem aos seus lábios. E assim parece que toda a sua felicidade nada mais era do que um sonho. Ela se sente mais 'pecadora' do que nunca. Tudo nela parece sombrio e maculado. Nada é puro aos seus olhos, nem o que é, nem o que faz. Torna-se então um oceano de tristeza.

Quem sabe se nunca mais conhecerá a alegria dos dias felizes? Eles estão tão distantes e, em vez disso, o mal está aí, tão real, tão universal, tão tenaz e tão profundo! É verdade que ainda possui uma leve esperança no mais íntimo da alma, mas esta é tão tênue que ela mesma dificilmente ousa acreditar nela.

ACEITAR A PROVAÇÃO EM PAZ


O sofrimento que provém de suas tentações será útil a partir do momento em que você rejeitar, por um um ato de vontade própria, tudo o que manifestar em você contra Deus. Caridade e egoísmo lutam um contra o outro. E a sua alma é o seu campo de batalha consciente. É daí que vem a dor, que é um efeito, e não uma causa. É o resgate necessário para a purificação. Mas tenha ciência então que a união, pelo menos das duas vontades, acabou e que isso incorre em uma ruptura. E que essa união é tudo para você.

Aceita aquele estado que Deus deseja para você, entre o céu e a terra. Renuncie cada vez mais às alegrias deste mundo e aguarde em paz, com confiança e com alegria pelas tão consoladoras visitas de Jesus. Porque virá o Calvário. Essa é a rigorosa lei do progresso espiritual; esse é o caminho da verdadeira união.

Portanto, permaneça nele, custe o que custar; nunca o abandone, por nenhum pretexto. Espera, espera e ame: 'Porventura não era necessário que Cristo sofresse essas coisas e assim entrasse na sua glória?' (Lc 24, 26). O discípulo não pode ser maior que o Mestre. Pode acontecer que você se sinta muito distante de Deus e, na verdade, esteja realmente mais próximo dEle.

Não, você não está fora do seu caminho. Ao contrário: você caminha por ele, embora não o veja. Você tem consciência apenas da escuridão e da amargura. Mas Deus faz seu dever de casa e é a luz dEle que lhe cega. É a sua doçura que lhe faz sentir essa impressão de cinzas e fel. Deus está dentro de você e lhe fortalece. Acredite nisso com simplicidade e humildade. Para onde tudo isso está lhe conduzindo? Para Deus. Seja paciente. Esconda a sua provação.

Se puder, sorria exteriormente e esteja convencido de que ninguém pode intervir nisso. Deus está trabalhando, e você tem que deixar que Ele realize o seu trabalho. Mesmo porque ninguém o deterá. Você pode apenas apressar a ação dele, amando-o e dizendo: Adveniat regnum tuum; fiat voluntas tua - 'Venha a nós o Vosso reino e seja feita a Vossa vontade'.

Creia, uma vez mais, que este é um processo de amor. Que tende a lhe humilhar, purificar no sentido espiritual e universal da palavra, fortalecer e lhe temperar. Você sofrerá tanto mais quanto maior for a tarefa a realizar e quanto mais completa essa for realizada; mas tudo isso será para a sua verdadeira felicidade. Você ficará feliz quando já não for mais você mesmo e quando tudo for mudado em você por obra dEle. É preciso orar, santificar e esperar.

Não é adequado analisar e reanalisar suas próprias provações. Vale mil vezes mais aceitar de uma vez, orar e se entregar direta e imediatamente a Deus. Temos que nos voltar francamente para Deus e nos entregar totalmente a Ele, apesar da relutância humana. Reze sempre, medite bem no fundo do seu coração; contemple-se no seu íntimo. Mas o que o irá iluminar de verdade e acima de tudo será a sua oração confiante.

CONTEMPLAÇÃO FELIZ OU CONTEMPLAÇÃO DOLOROSA

Pode haver uma contemplação feliz ou uma contemplação dolorosa e, às vezes, essa segunda pode ocultar parcialmente os fenômenos místicos. Mas parece que, mesmo na contemplação dolorosa, há consciência da união, pelo menos no íntimo maior da alma, porque sem isso os santos não poderiam suportar o peso do sofrimento que Deus lhes impõe.

Parece não haver santo canonizado em que não se tenha reconhecido esta ação mística de Deus. Pode-se desejar a ação direta dos dons do Espírito Santo, no sentido de que obrigam a alma ao exercício máximo da caridade. Muitos autores alertam acertadamente contra a sensibilidade às consolações espirituais, mas consolações superiores não devem ser incluídas nesta desconfiança geral, desde que não se apegue demasiado nelas.

É possível viver habitualmente na presença de Deus sem que os dons do Espírito Santo se movam conscientemente como tal e sem que seja necessário que tenhamos luzes especiais e estejamos conscientes delas. Mas o inverso também pode ser verdadeiro. Eu diria então que é possível ser contemplativo sem ser muito virtuoso e que é possível ser virtuoso mesmo sem ser contemplativo. Depende de tantas coisas... Das faculdades alcançadas pela ação de Deus, das reações do temperamento, do caráter, da vontade...

PALAVRAS DE DEUS À ALMA

Parece-me, ó meu Deus, que mais de uma vez agradou ao Vosso amor falar à minha alma. E geralmente isso acontece nos momentos em que eu menos pensava em Vós. E então, no fundo do meu coração, ouvia espiritualmente que uma voz doce e forte, precisa e penetrante, me dizia uma palavra; sim, às vezes, apenas uma palavra. E a minha alma, surpresa, inquieta e feliz ao mesmo tempo, sentia-se transformada, por ser ou por cumprir o que aquela palavra lhe dizia: 'Ame; escute; cale-se; siga-me; recolha-se ao mais íntimo de sua alma; confie em Mim que sou Vosso Pai; ofereça-se a Mim e Eu estarei com você; refugie-se em Mim; me leve por inteiro a todas as almas'.

Ó palavra de Deus, como sois doce para o coração amoroso! Como sois forte também! Realizais tudo o que podeis significar. E tudo santificais!

ÊXTASE E ORAÇÃO

 

Enquanto não concederes essa graça à alma, não importa o quão íntima ela possa estar, ela vai perceber que não está plenamente integrada contigo. Parece existir assim um certo mal estar espiritual, uma espécie de insegurança. Ela não gostaria de ser perturbada em sua doce ocupação. Mas isso poderia acontecer e ela teme isso. E o seu medo é bem fundamentado. Todos os laços que a prendem longe de ti ainda não foram quebrados. Ela ainda mantém uma certa comunicação com o mundo sensível que nada lhe pode dar e que, pelo contrário, poderia chamá-la para si, arruinando tudo. Sem dúvida esse medo é débil, surdo e quase imperceptível, mas existe e faz sofrer a alma, é um estorvo. Na verdade, a alma não pode elevar-se livremente para te alcançar, ainda que se sinta movida por um desejo muito forte de fazê-lo.

Mas no momento em que te dignas desligar-se por completo, ainda que apenas por um instante, que alegria não teria a alma de se encontrar a sós contigo, quase face a face, e poder contar-te sem palavras tudo o que vivencia no íntimo do coração há tanto tempo! E agir como se não soubesses nada; falar de tudo e se abrir totalmente contigo. Pai, vê como tudo é Vosso, como tudo é feito para Vós! Não existem mais criaturas que possam obstruir o Vosso olhar ou ferir o Vosso coração. Não há mais nenhum obstáculo entre nós. Eu Vos falo e Vós me ouvis. Eu Vos olho e Vós me contemplais com ternura. Ninguém nos ouve, ninguém nos vê; ninguém sabe que estou aqui em Vossa presença. Os anjos podem ver e os santos podem ver, mas até eles não poderão saber dessa nossa intimidade mais do que quereis lhes revelar. Além disso, o olhar deles não é indiscreto; pelo contrário, estão felizes vendo o que veem. E, se necessário, eles vão enlevar a minha alma ainda mais para Vos louvar, abençoar e amar.

Ó meu Deus, uma vez que a oração nada mais é do que a explicação de um desejo, não é possível explicar bem a Vós o nosso desejo de Vos amar, e só é possível orar com perfeição em êxtase. Sim, meu Deus, que nossos corações sejam incensados pelo Vosso amor! Que, para Vos amar livremente e sem obstáculos, permiti que a nossa alma possa deixar o nosso corpo e se refugiar em Vós como fonte de amor. Que o meu eu morra então totalmente aí para que eu não possa mais viver a não ser em Vós e para Vós! Por tão grande amor, as palavras são pequenas demais para Vos delimitar e assim Vós as reprimis, são débeis demais para Vos conceber e é por isso que Vós as aniquilais! Mas, ainda assim, refletem a Vossa glória, uma vez que proclamam, na sua impotência, a Vossa grandeza e o Vosso poder.

Ó amor de Deus, vinde e completeis em mim a Vossa obra: abrasai-me, envolvei-me, consumi-me, arrebatai-me! Eu Vos ofereço todo o meu ser, o mais íntimo de mim, para todo o sempre, e com um infinito amém!

GRAÇAS MÍSTICAS E ATIVIDADE EXTERIOR


Antes mesmo de conceber as graças mais elevadas da oração, Deus começa absorvendo todas as atividades exteriores da alma. Ocorre um processo inverso. Deus nos faz distrair das criaturas e das nossas ocupações assim como, infelizmente, nossas ocupações e as criaturas habitualmente nos distraem de Deus. Quando o nosso modo de vida não permite esse estado de absorção, Deus busca alguma compensação e age, assim, pelo menos durante a oração. Exemplo é o caso de Santa Catarina de Ricci: nem a santa e nem as suas superioras perceberam o que estava passando com ela, pois tratava-se de uma união completa.

Em seguida, a alma padece de um estado de desconforto. A ação de Deus interfere na ação da alma sem a suprimir inteiramente. E, finalmente, Deus, o senhor absoluto da alma, devolve a ela a posse completa e perfeita das suas faculdades, sem fazê-la excluída da união divina. Produzem-se então obras extraordinárias e desproporcionais às forças humanas, como as fundações criadas por  Santa Teresa ou pela Venerável Maria da Encarnação.

A alma totalmente entregue a Deus e ao serviço dos outros vive, ao mesmo tempo e sem esforço, em dois mundos diferentes. Quando nos casos de união total ocorre o êxtase, não se tem mais o uso dos sentidos. Mas que não se confunda levitação ou a rigidez dos membros com êxtase, uma vez que esses fenômenos não são necessários. Pode ocorrer um alheamento quase completo dos sentidos sem que os outros percebam. Pode-se acreditar até mesmo num certo entorpecimento, porque a vida física está diluída e os sentidos encontram-se fragilizados e contidos, de modo que até os mais próximos podem não aperceber de nada.

Este estado pode durar pouco tempo ou, com a recuperação alternada das faculdades, pode durar muito tempo. Mas o ato de união não pode durar indefinidamente na terra; a união é atual e constitui um estado que supõe um ato infundido do amor de Deus. Podemos compará-lo a um riacho subterrâneo ou ao calor de brasas muito vivas sob cinzas. De vez em quando, feixes de chamas emanam desta fornalha mas, se as chamas fossem mantidas continuamente, a própria vida não poderia resistir a elas. São João da Cruz assim o diz expressamente. Porém, a fornalha é fogo vivo e sua irradiação pode ser imensa.

OS 'TEMPOS MENORES' DA UNIÃO E AS NOVAS BUSCAS DE DEUS


A intimidade consciente da alma com Deus não se mantém constantemente no seu grau mais elevado. Com efeito, embora em certos momentos esteja muito viva, geralmente tende a ser bastante latente, oclusa, semiconsciente. Em uma palavra, ainda não é perfeita. Nestes longos momentos que poderiam ser chamados de 'tempos menores' da vida interior, a união ainda continua existindo. Deus ainda é o bem da alma e a alma ainda é o bem de Deus. Deus não duvida da alma, assim como a alma não duvida de Deus. Em ambos os lados existe ainda a fidelidade mais sensível.

E, no entanto, às vezes Deus parece se afastar. Se alguém perguntar ao interior da alma: 'Onde está o teu Deus? Ele não te abandonou?', ela responderia com toda a sinceridade do seu coração: 'É verdade que já não sinto mais tanto a sua presença comigo, mas ele não me abandonou. Na verdade, sei onde está e o que faz: pastoreia entre lírios'. Pois Jesus tem outras ovelhas que ama e que cuida. E eles constituem o seu rebanho.

Mas Deus continua a se ocultar e as horas vão passando. A esperança persiste viva em nossos corações. Uma vez que Deus se esconde, não há que se procurá-lo? E se Ele continua se escondendo, como é seu direito, não devemos buscá-lo sempre e continuamente como nosso dever? A alma interior deve então, mais do que tudo, proclamar muito alto e sinceramente, apesar disso lhe custar tanto, o direito de seu Deus dedicar-se a ela quando e como quiser.

Há bem pouco bastaria à alma recolher-se, e mirar-se no íntimo de si mesma, para aí encontrar o seu Deus e deleitar-se da paz e da alegria da sua presença e da sua posse. Mas eis que agora, não importa o quanto faça para retomar aquela intimidade interior que é como a fonte do repouso para estar com 'Aquele a quem o seu coração ama', ela não o possui e não o encontra, porque Deus assim o quer. Momentos dolorosos da vida interior, em que parece que as graças de outrora nada mais foram do que um raio que se desfez na noite e que nunca mais voltará a brilhar! Se a força divina não a sustentasse sem que ela soubesse e se a paz, uma paz profunda, não desse a certeza de que está tudo bem mesmo assim, a alma interior tenderia a abandonar a sua busca e prostraria desanimada. Mas não é isso que devemos fazer: devemos perseverar sempre!

A alma interior não pode resignar-se à ausência de Deus. Ela o procurou onde o encontraria, onde Ele se dignava a dar-se a ela, isto é, no íntimo de si mesma, mas foi em vão. O que fazer então? Ficar na inação estéril não é possível. O amor que não age não é verdadeiro. Se o Amado não vem à alma, a alma deve ir a Ele. Levantar-me-ei e andarei pela cidade, procurando o Amado da minha alma. Mas onde pode estar? Qual direção tomar para encontrá-lo? Ele não pode estar senão nesta cidade que é a sua, a cidade de Deus: 'Se percorrêssemos toda a cidade, se visitássemos todas as praças e todas as ruas da cidade, uma a uma, por acaso não o encontraríamos?'

E é assim que começa aquela busca incessante. A alma interior busca encontrar Aquele a quem ama no Céu, mais do que em qualquer outro lugar, pois é lá que Ele mora. E lá descortina tudo e lá percorre por todos os caminhos. Ela implora aos anjos e aos santos, e especialmente à Bem-aventurada Virgem Maria, que os façam encontrar o seu Deus. E todos a ouvem com gentileza e se solidarizam com ela. Eles a encorajam a perseverar. Mas, aparentemente, todos seguem uma ordem comum para se calarem. O silêncio deles é como um véu que envolve e recobre o Santo dos Santos. A alma compreende, então, que, apesar de seu forte desejo e insistência, esse véu não será desvelado. Vós sois um Deus oculto, ó meu Deus! Só Vós podeis iluminar as trevas e revelar-se à alma que o ama. Quando o fareis?

A alma então se volta para as almas do Purgatório. Talvez elas possam lhe dizer onde está o seu Deus e como fazer para encontrá-lo. Mas, infelizmente, também não tem melhor sorte com elas. 'O mal que padeces' - respondem estas almas - 'é o mesmo que sofremos. Não nos preocuparíamos com o fogo que nos atormenta se possuíssemos Aquele que também amamos. O que aumenta a nossa dor, tal como aumenta a sua, é que não sabemos quando esse Deus, tão justo e tão bom mesmo em seus rigores, se dignará a se mostrar finalmente a nós. Parece-nos que esse 'mal de amor' nunca vai ter fim. Pobre alma, que busca se acolher em quem lhe é ainda mais infeliz! Se o nosso Deus dignar-se a lhe devolver a alegria da sua doce presença, lembre-se de nós e suplique a Ele que venha nos encontrar também o mais rápido possível'. 

É preciso, portanto, voltar à terra e bater à porta daquelas almas que sabemos estar mais perto de Deus. Normalmente elas também se escondem. Mais que tudo, elas escondem cuidadosamente o segredo de suas vidas, mas percebemos quem são. Meio que adivinhamos quem são. E, discretamente, com receio de que nos afastem, as interrogamos: 'Como descobrir onde Deus se esconde? Como atrair sobre nós a presença de um Deus tão bom? Como podemos manter a sua presença em nós? Como trazê-lo à nossa volta se está longe? Certamente há uma  forma de acessá-lo e conquistá-lo. Quem poderia e gostaria de me ensinar isso? Queria tanto aprender e pagaria tudo para saber como! Quem se sensibilizaria por mim? Quem iluminaria o meu caminho, quem compartilharia esse segredo, quem me daria todas as respostas? Quem me permitiria, enfim, buscar e finalmente encontrar o meu Deus?' Todas essas perguntas permaneceriam sem resposta. Pois mesmo as almas mais santas seriam impotentes enquanto Deus não quiser fazer este encontro. E a alma desolada continuaria assim repetindo o grito doloroso do seu coração: 'Procurei por Deus e não o encontrei'.

Deus quer que a alma interior se submeta humildemente, como uma criança, àqueles que o representam legitimamente nesta terra. Ele permanece esperando por este último ato para recompensar todos os atos da alma de uma só vez. Por outro lado, a Deus agrada intervir quando toda a esperança parece perdida e, assim, manifestar a sua onipotência. Quer que tenhamos bem em conta que Ele é livre para dar quando e como quiser. A alma não ignora isso. E assim deixa ao seu Deus o cuidado e a hora de manifestar a sua recompensa. Enquanto isso, continua a sua caminhada e a sua busca incessante, até que o seu desejo seja enfim concedido. E, de repente, a alma encontra-se face a face diante de Deus. E, tal como outrora Maria Madalena, ouve também ser chamada pelo nome e, então, não é capaz de exclamar nada mais do que uma única frase: 'Meu Deus!'

Que alegria então, meu Deus, quando uma alma que Vos buscou por tanto tempo e com tanta dor, finalmente Vos encontrasse! Se fosse dada a pensar racionalmente, nem seria capaz de acreditar em tal coisa! Mas nem tem tempo para isso. A presença de Deus a imobiliza e, de certa forma, também o seu próprio pensamento. Deus aí está. O olhar da alma está posto em Deus, somente em Deus, fixado em Deus e por Deus cativado. Ó como é bom e suave contemplar-Vos, ó meu Deus, 'beleza sempre antiga e sempre eterna'! E, Vos contemplar, ainda que de forma imperfeita e velada no desterro dessa vida, já não é Vos possuir? É isso que experimenta a alma bem aventurada quando Deus se digna a aparecer a ela: parece que, verdadeiramente, contemplar-Vos já é possuir-Vos! E isso não é uma ilusão do seu coração.

O DESEJO TORTURANTE DE DEUS


No início da vida interior, o desejo da alma por Deus ainda é tênue. É um desejo um tanto débil, quase imperceptível. A alma se sente com um desconforto misterioso e suave que não consegue especificar. Ela se sente afetada no seu íntimo e se questiona, pois não compreende claramente. O amor de Deus está trabalhando em seu coração, mas como um fogo que arde sob as cinzas. De vez em quando, uma faísca irrompe e um impulso eleva a alma até Deus. Então tudo se acalma. As sombras envolvem mais uma vez as nervuras da alma, mas sem interromper o fogo que continua latente, devagar, mas ardente. O desejo de Deus aumenta e, aos poucos, vai invadindo toda a alma. E não tarda em se manifestar novamente.

Enquanto isso, esse desejo de Deus não fica inativo. Se pudéssemos penetrar nesta alma, veríamos que este desejo é quem inspira, dirige e vivifica tudo nela. A alma se volta para Deus sem descanso. Ela sempre procura por isso, com uma fome dolorosa, com uma sede excruciante. Como se isso fosse uma doença misteriosa que se alastra sem controle e sem cura, em todos os momentos e que não permite repouso nem de dia e nem de noite. Mesmo quando a alma parece distraída de sua dor por ocupações externas, ela a sente latente no mais íntimo de si mesma.

A ferida é profunda, a ferida está sempre exposta. Como sofremos quando te amamos, ó meu Deus! Mas também quão felizes somos nessa dor! E, por fim, chega um momento em que esse sofrimento torna-se intolerável e acaba explodindo. A alma geme, chora, grita de dor. Transparece, então, que, ao abrir assim o coração, uma lufada de ar fresco viria de fora para abrandar o fogo do seu amor. Mas todos esses esforços apenas aumentam e agravam o seu pesar. 

Ela, enfim, compreende claramente que somente Aquele que causou a ferida também poderá ser capaz de curá-la, pois a alma está faminta e somente Ele é o seu alimento. Ela está sedenta e somente Ele é a sua bebida refrescante. Ela é pobre e somente Ele é a sua riqueza. Ela está triste e somente Ele é o seu conforto e alegria. Ela está morrendo e somente Ele é o seu amor e a sua vida: 'Quando verei a face de Deus?' [Sl 42,3]. 'Eu morro porque não morro' [Santa Teresa de Ávila].

SOFRIMENTOS PURIFICADORES, REDENTORES E APOSTÓLICOS


Na minha opinião, o que torna os nossos sofrimentos do Purgatório tão longos e aterrorizantes são as faltas conscientes, as infidelidades voluntárias cometidas direta ou indiretamente, as resistências, tudo enfim que distorce a conformidade entre a nossa vontade corrompida e a vontade de Deus. Nas almas que conseguem atingir um grau suficientemente elevado de união mística, o despojamento de tudo o que foi criado pode ser feito na terra com uma impressão de sacrifício muito dolorosa por duas razões. 

Em primeiro lugar, por mais purificada e santa que uma alma possa nos parecer, ela ainda pode ter, aos olhos de Deus e aos seus próprios olhos, vínculos humanos que a retêm e aos quais deve renunciar a todo o custo. Os sábios modernos nos dizem que, em cada centímetro cúbico de água, existem de sete a oito bilhões de micro-organismos que, entretanto, são invisíveis para nós. A mesma coisa acontece espiritualmente, porque não vemos aqueles átomos que, aos olhos da santidade de Deus, parecem montanhas, e realmente o são: 'Pouco importa que um pássaro esteja preso por um fio delgado ou por um fio grosso, porque, apesar de delgado, enquanto não se desfizer dele, estará tão preso para voar como preso por um fio grosso' [São João da Cruz], tradução para a linguagem e para o sofrimento humano do horror que tem Deus pelo menor pecado.

Num segundo caso, a alma pode estar realmente purificada. E mesmo que sofra, não se sente separada de Deus. A profunda alegria que a domina não pode perder-se. Essa alegria coexiste com a dor mais intensa. É como quando Jesus conservava a visão beatífica no Getsêmani e na Cruz. As provações, sofrimentos e tentações de todos os tipos que sobrevêm já não são mais purificadoras, mas redentoras. Vistas assim, têm a aparência de provas e tentações para iniciantes, mas são apostólicas, pois são almas que se oferecem pelas outras almas e que sofrem exatamente o que a alma pecadora ou iniciante tenderia a sofrer naquele estado. É este o caso de São Vicente de Paulo que padeceu por dois anos, segundo creio, uma terrível tentação contra a fé. Ou ainda a última provação de Santa Teresa do Menino Jesus, que resultou em um novo florescimento de fé no mundo, sendo que ela certamente já estava purificada. Ou a da Venerável Maria da Encarnação, quando se ofereceu por seu filho e por outra alma. Este brilho apostólico é verdadeiro, mas não é infalivelmente atendido para uma dada pessoa em particular.

Segundo São João da Cruz, a alma elevada ao matrimônio espiritual atingiu o estado da perfeição, embora ainda possa aumentar a caridade como homem que alcançou o seu pleno desenvolvimento. Pode ainda merecer e produzir frutos cada vez mais saborosos e abundantes, porém, a sua purificação está consumada, e o arcabouço interno das graças, das virtudes e dos dons terminou.

ALEGRIA NO SOFRIMENTO QUE CONDUZ A DEUS


Ó meu Deus, eu não posso proclamar-Vos excelso, liberal e glorioso apenas no momento em que Vós dignais a me visitar e a me fazer saborear a alegria de Vossa doce presença, mas também, e acima de tudo, quando quereis me abandonar e deixar-me sozinho em meio a escuridão, numa noite fria e sem fim. Seja o que façais comigo, sereis sempre excelso, liberal e glorioso. No cerne de todo sofrimento que provém de Vós, nele escondeis uma graça e uma alegria. Se eu for corajoso, se for capaz de compreender, de aceitar e amar, então a dor há de me arrancar de mim mesmo, me fazer atravessar o vazio, me elevar acima de tudo e me levar até Vós, para me exilar em Vossos braços e em Vosso coração. Sim, ó meu Deus, assim como existe um êxtase de alegria, existe também um êxtase de dor: 'Minha alma engrandece ao Senhor'.

O que importa o caminho que me conduz a Vós, ó meu Deus, desde que eu chegue até Vós? Não é ele o mais curto e seguro do sofrimento? Existe algum lugar do mundo que possa estar mais perto do Céu do que o Calvário? E, se para entrar na Vossa glória, Vós precisastes sofrer tanto, ó meu Jesus, como podemos esperar alcançá-la de outra forma? Mas, mais uma vez, o que isso realmente importa? Aproximar-me de Vós, ó meu Deus, juntar-me a Vós, ser levado à Vossa presença: tudo está aí e aí está tudo. Um único momento da vida divina nos faz esquecer tudo, esse é o cêntuplo que prometestes ao meu Deus e que já nos dais neste mundo. Deixai-me expressar a Vós a minha alegria, a minha felicidade, o meu deleite e graça em me sentir convosco e Vos ter em mim. Vós não me deveis nada. Melhor dizendo, deveis a mim sofrimentos. E, assim, dais a mim tudo o que eu preciso, e que eu compreendo, conclamo e usufruo em plenitude.

'LEVANTA-TE, MINHA AMADA...'


'Levanta-te, minha amada; vem, formosa minha. Eis que o inverno passou: cessaram e desapareceram as chuvas. Apareceram as flores na nossa terra, voltou o tempo das canções. Em nossas terras já se ouve a voz da rola' 
(Cântico dos Cânticos 2, 10-12)

O inverno é a estação das trevas e do frio. As noites são longas, os dias são desbotados. Não há folhas, nem flores, nem frutos. Os pássaros ficam em silêncio. Tudo está letárgico, tudo parece morto. Assim também a alma interior padece o seu inverno. Ela conheceu as trevas do espírito, a letargia do coração, aquelas horas em que tudo estava frio, quando tudo nela parecia estar morto. Não havia mais luz, nem calor, nem vida. Deus se escondia. A alma estava sozinha em um deserto sem caminhos, açoitada por todos os ventos, sacudida por todas as tempestades. Era a hora dos misteriosos abandonos, da agonia e do calvário. Mas era preciso ser assim para desfrutar da glória.

Eis que o inverno acabou para sempre! E sois Vós, ó meu Deus, que se digneis anunciá-lo à alma! Vossa palavra não pode enganar, pois sois a própria Verdade. Por outro lado, a alma tem ciência bastante para saber o que isso significa. Podem sobrevir ainda alguns retornos de escuridão e de frio porque a terra não é o céu, mas esses momentos de provação serão poucos e não permanecerão. O inverno acabou. Graças a Vós, ó meu Deus! Que as almas tenham que passar por esta dura jornada é uma necessidade que se impõe à Vossa sabedoria, ainda que possa machucar o Vosso coração. Ficais algo impaciente para superar de vez esse inverno rigoroso. Assim que possível, assim o fazeis. E, uma vez feito, podeis anunciar com alegria à Vossa alma que os tempos de provação já passaram e que os belos dias não mais tardarão.

Entre o inverno e a primavera, permeia a estação chuvosa. Faz menos frio; está menos escuro. Os dias se alongam e, de vez em quando, brilham alguns raios de sol. Mas, geralmente, cai uma chuva embaçada, monótona e persistente. Quase não se pode sair. O horizonte está nublado, baixo, quase ao alcance da mão. No contexto espiritual, a alma interior conhece também uma estação muito semelhante. Em seu espírito há menos escuridão; em seu coração, menos frio. De vez em quando, parece que as coisas vão mudar para melhor. Mas, na maioria das vezes, um véu cinza a envolve. Não se vê muitas coisas à frente. O que haverá por trás dessa cortina sem desenhos e sem cores? Pode-se inferir, mas sem certezas. A espera é longa, monótona, um pouco cansativa para a imaginação. O coração permanece fiel e até ainda mais. Mas a alma demora a se livrar dessa espécie de prisão. Não tardeis, ó meu Jesus!

E Jesus vem. E então anuncia à alma que a estação chuvosa já 'passou', que passou definitivamente. E apresenta imediatamente a prova: 'as flores já brotaram da terra'. A alma, com efeito, não é mais aquela terra endurecida pelo frio ou encharcada pelas chuvas; mais parece o campo na primavera. Está coberta de flores. A campânula, valorosa e cheia de esperança, vê a violeta humilde, tímida e perfumada brotar ao seu lado. Impera o pensamento contemplativo, e o gracioso cravo pende a sua flor, um tanto pesada, em direção ao sol, como uma imagem da alma, cheia de vida interior e pronta a vicejar. Floresce então o puríssimo lírio e, por fim, a rosa primaveril da caridade. As flores das virtudes são exibidas na alma em todos os sentidos, formando em torno dela uma coroa de ornamento incomparável. Eis um dos grandes encantos deste mundo: a  primavera de uma alma interior é algo deslumbrante.

Nesse momento da vida espiritual, os olhos da alma se abrem para o mundo. Vê a terra incensada de almas em flor. O que ela agora é, as outras também o são. O que da obra divina se capta em si mesmo, contempla-se com alegria em outras almas. Ela está maravilhada, extasiada por um espetáculo tão belo. Tudo o mais desaparece aos seus olhos e ela não vê senão isso. Então, à medida que as virtudes se desenvolvem nela, seus olhos se abrem ainda mais e seu olhar se torna mais penetrante. Observa muito melhor a variedade de formas, a riqueza das nuances e a harmonia das cores. Desenvolveu-se nela como que um toque misterioso. Basta uma pequena coisa para adivinhar onde está a obra de Deus nesta ou naquela alma. Também lhe parece que está dotada de um novo sentido para captar os aromas espirituais, que são tão variados quanto as virtudes e como as almas. Para ela, enfim, existem flores do céu na terra. 

Quando a alma sentia frio - quando a chuva nublada e triste da provação a envolvia, ela não sabia senão gemer dolorosamente ou ficar em silêncio; mas agora tudo mudou. Deus, o seu verdadeiro sol, a ilumina, a aquece, a encanta. Não é hora de expressar bem alto a sua felicidade, e de cantar? Sim, de fato, 'chegou a hora do cântico'. E agora a alma interior canta. A canção de amor da eternidade começa aqui nesta terra. Esta é uma melodia misteriosa. O grau de harmonia de sua vontade com a vontade de Deus é sua tônica. Quanto mais perfeita a união, mais a entonação aumenta. Bem aventurada a alma cuja ação tende cada vez mais à plena realização da vontade divina! A sua voz eleva-se às alturas do céu e esta última nota é a que agrada aos ouvidos de Deus. Com ela a melodia termina nesta vida, mas para recomeçar além e para sempre.

Para incentivar a alma interior a segui-lo de vez, o Divino Esposo faz notar que já se pode ouvir o arrulhar da rolinha. Ela não teria deixado o seu refúgio de inverno se a primavera não houvesse chegado. A alma e a pequena ave obedecem à mesma lei. O canto da rolinha tem algo doce, gentil, constante, agradavelmente monótono. Dir-se-ia ser a própria voz de uma afeição autoconfiante que, para ser querida, basta repetir-se sem pulsos extremados, quase num murmúrio, mas sem interrupções. E, no mais íntimo da alma interior, existe também uma voz que canta assim, que...

Canta docemente, quase murmurando, uma melodia muito singela,
que se contenta com algumas poucas notas em intervalos justos:
'Ó Amor que eu amo! Meu Deus, meu Tesouro, meu Tudo, meu Amor que amo!'

(Excertos da obra 'A Vida Oculta em Deus' - Partes I e II, de Robert de Langeac; tradução do autor do blog)