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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXIX)

PARTE IV - O CÉU

III. Sobre as alegrias do Céu (continuação)

Quanto às alegrias espirituais dos remidos no Céu, são tão abundantes que, ao falar delas, não se sabe por onde começar nem onde terminar. Considerai as consolações espirituais concedidas neste mundo aos eminentes servos de Deus. Sabemos que a vida de alguns santos na terra se assemelhava mais à dos anjos do que à dos homens, tão frequentemente eram favorecidos com êxtases, visões, luzes interiores e consolações divinas de toda espécie. E, contudo, todos esses favores eram apenas como uma gota do oceano sem limites da doçura celestial. Que arrebatamento será, para as almas santas no Céu, beber diretamente da fonte e haurir livremente do manancial inesgotável de toda felicidade! Todas as faculdades da alma - o entendimento, a memória, a vontade, a imaginação, cada pensamento, cada desejo, todo o ser intelectual, elevado e aperfeiçoado pelo próprio Deus - serão plenamente satisfeitas e contribuirão para aumentar e intensificar as alegrias da alma.

Com o entendimento, os bem-aventurados contemplarão todas as coisas criadas à luz de Deus e penetrarão profundamente os segredos da natureza. Está escrito acerca do rei Salomão: 'Deus deu a Salomão sabedoria e entendimento em grandíssima medida, e uma amplidão de espírito como a areia que está na praia do mar. E a sabedoria de Salomão excedia a sabedoria de todos os orientais e dos egípcios, e ele era mais sábio do que todos os homens. Proferiu também três mil parábolas, e os seus cânticos foram mil e cinco. Tratou das árvores, desde o cedro que está no Líbano até ao hissopo que nasce nos muros; e discorreu sobre os animais, as aves, os répteis e os peixes. E vinham de todas as nações ouvir a sabedoria de Salomão, enviados por todos os reis da terra que tinham ouvido falar da sua sabedoria' (3Rs 4,29-34).

Nunca ouvimos falar de uma sabedoria igual a essa, nem podemos deixar de nos admirar com a vastidão e a perspicácia do entendimento desse grande rei. Contudo, comparada com a sabedoria do menor dos santos no Céu, ela não supera o conhecimento de uma criança de três anos diante da erudição e da sabedoria do mais douto dos homens. Pois todas as operações da natureza e todas as forças do universo estão manifestas e reveladas ao menor dos santos no Céu. Nada é oculto ou misterioso aos seus olhos. Ele conhece tudo o que a Santíssima Trindade realizou desde toda a eternidade; sabe de que maneira admirável os céus e a terra foram criados do nada e com que sabedoria tudo foi ordenado e sustentado, desde o princípio até ao fim dos tempos. 

Sabe como o Filho de Deus foi gerado pelo Pai antes de todos os séculos; sabe como o Espírito Santo procede eternamente do Pai e do Filho. Sabe como Cristo nasceu de uma mãe terrena sem violar a sua virgindade; conhece tudo o que Nosso Senhor fez e sofreu durante toda a sua vida, e como cada santo e servo de Deus viveu para Deus e trabalhou ao seu serviço. Tudo o que, nas Sagradas Escrituras, nos parece misterioso e incompreensível, assim como os mistérios da religião e da natureza, ele compreende sem um instante de reflexão. Ainda que tivesses sido na terra apenas um camponês simples e iletrado, ao entrares no Céu teus olhos se abririam, e verias claramente e compreenderias perfeitamente todas as coisas. Que alegria, que felicidade esse conhecimento e essa visão clara te proporcionarão! Que agradecimentos cheios de gratidão renderás a Deus por isso!

Em segundo lugar, no que diz respeito à memória, os bem-aventurados também encontrarão no Céu a plenitude da alegria, pois ela, assim como o entendimento, será iluminada por Deus; e todos os acontecimentos de sua vida passada estarão tão vivos e tão nítidos em sua lembrança como se os contemplassem inscritos em tábuas diante dos olhos. Então perceberão por que caminho admirável Deus os conduziu ao seu destino eterno, com que misericórdia lhes perdoou as transgressões, como os socorreu na hora da tentação e como fez com que todas as coisas concorressem para o seu bem.

Essa visão retrospectiva despertará no coração de cada um a mais santa gratidão para com Deus, e muitas vezes a expressarão assim: 'Ó meu Deus, a quem amo acima de todas as coisas, quão grandes são os dons e as graças que me concedestes! Quão generoso fostes para comigo! Quantas vezes me livrastes do perigo de cair em pecado! Com que misericórdia me preservastes da condenação eterna e de que modo admirável me guiastes pelo caminho da salvação! Como poderei louvar e exaltar suficientemente a vossa infinita bondade? Como poderei agradecer-vos e adorar-vos suficientemente pelos benefícios que tão abundantemente derramastes sobre mim?'

Em terceiro lugar, a vontade de cada um dos bem-aventurados será coroada de felicidade e abrasada de amor por Deus e pelos bem-aventurados em cuja companhia se encontra. Os prazeres mais nobres de que um homem pode desfrutar provêm de sua vontade. Um homem é feliz quando tudo lhe sucede conforme os seus desejos; quando adquire e possui tudo o que seu coração pode desejar; quando é estimado e elogiado por seus semelhantes; quando ama e é amado por aquele a quem dedica suas afeições. Tudo isso, e muito mais, constitui a porção dos bem-aventurados, mas no mais alto grau e na maior perfeição possível.

O amor de Deus por eles e o amor deles por Deus são tão profundos que ficam abrasados e consumidos pela caridade divina; sua vontade se assemelha a uma brasa viva, resplandecente de luz e calor, até ser absorvida pelo fogo de que faz parte. Assim acontece com os santos no Céu: impregnados de caridade divina, ardem e resplandecem na luz de Deus e refletem cada vez mais a sua imagem. São João diz: 'Sabemos que, quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque o veremos tal como Ele é' (1Jo 3,2). No amor de Deus e na união com Ele, encontram uma delícia tão inefável que, inebriados pela doçura da caridade divina, se perdem nele.

Não há maior felicidade na terra do que amar e ser amado; e, quanto mais terno, puro e ardente é esse amor, maiores são a alegria e a satisfação que nos proporciona. Ora, o amor do Céu, o amor dos remidos por Deus e uns pelos outros, é a mais terna, a mais pura e a mais ardente afeição, uma afeição infinita e sem limites; por isso, é fonte de imensa alegria e de felicidade indizível. Que o Deus de toda graça nos faça participantes desse amor, e então conheceremos por experiência aquilo de que as palavras não conseguem transmitir uma ideia. Ninguém terá o privilégio de participar desse amor se, aqui na terra, não viver no amor de Deus e não morrer na sua amizade. Esforcemo-nos, portanto, por fazer crescer em nós essa caridade divina, para que, na vida futura, sejamos admitidos ao pleno gozo do seu amor.

A visão beatífica da face divina é uma alegria acima de todas as alegrias, uma delícia que supera de longe todos os prazeres celestiais de que falamos. Sem ela, todas as outras alegrias perderiam o seu sabor e se transformariam em amargura. Certa vez, quando o demônio falava pela boca de uma pessoa possessa, disse: 'Se todos os céus fossem uma folha de pergaminho, se todo o oceano fosse tinta, se cada folha de relva fosse uma pena e cada homem da terra um escriba, isso não bastaria para descrever a intensa e incomensurável delícia que a visão de Deus proporciona aos bem-aventurados'. Em outra ocasião, disse que, se Deus se dignasse conceder-lhe o privilégio de contemplar a sua face divina por alguns instantes, suportaria de bom grado, se isso fosse possível, todos os tormentos do Inferno em sua própria pessoa até ao Dia do Juízo. Isso nos ensina que, se um homem passasse toda a sua vida praticando as mais severas penitências e, depois da morte, lhe fosse permitido contemplar a face de Deus por um único instante, já teria recebido uma ampla recompensa por todas as suas mortificações.

Considerai agora quão sublime deve ser a felicidade que os santos encontram na contemplação, na fruição e na posse do Deus supremo! Se contemplar a face divina por um breve instante é uma alegria que supera tudo o que uma vida de prazeres oferece ao homem mundano, que arrebatamento será contemplar para sempre, com olhos jamais obscurecidos, a sua infinita beleza! Que arrebatamento será possuir esse Bem supremo por toda a eternidade!

Deus é um ser em quem tudo o que há de mais admirável e desejável existe no mais alto grau. Nele se encontra tudo o que mais nos atrai e fascina: clemência, beleza, justiça, compaixão, sabedoria, majestade, todos os atributos doces e sublimes em sua mais plena perfeição. De Deus procede toda graça, tudo o que necessitamos para o nosso bem espiritual e temporal, toda a felicidade, a alegria, o repouso, a consolação, todos os benefícios e bênçãos de que suas criaturas desfrutam no Céu e na terra. E, quando os remidos passarem a contemplar esse Bem infinito e a possuir essa fonte de tudo o que merece ser amado, admirado e desejado, sua alegria será verdadeiramente plena. Que delícia indizível lhes proporcionará compreender o mistério da Encarnação e o mistério da Santíssima Eucaristia!

Que delícia indizível será para eles compreender como Deus pode ser invisível e, contudo, ver todas as coisas; como pode permanecer imóvel e, contudo, ser a fonte de todo movimento; como pode ser imutável e, contudo, ser o autor de toda mudança. Esses e muitos outros mistérios serão esclarecidos aos bem-aventurados na luz de Deus, e essa fonte de conhecimento não se esgotará por toda a eternidade. Quanto mais conhecerem a Deus, mais crescerá o seu desejo de conhecê-lo melhor, e esse conhecimento não terá limite nem imperfeição. Assim, terão sempre fome e, contudo, estarão perfeitamente saciados; esse rico tesouro estará sempre aberto para eles, e jamais esgotarão todas as riquezas que contém. Medita frequentemente sobre esse assunto, ó leitor, e desperta em tua alma um ardente desejo de desfrutar de Deus pelos séculos dos séculos.

Ó meu Deus e meu tudo! Vós que sois beleza infinita, doçura infinita, bondade infinita! De todo o coração suspiro por Vós. Assim como o cervo anseia pelas águas dos ribeiros, minha alma tem sede de Vós, o Deus poderoso e vivo; quando irei apresentar-me diante de vossa presença? Quando terei a ventura de vos contemplar e de desfrutar de Vós para sempre? Ouso esperar que essa alegria possa ser minha; humildemente espero e confio em vossa infinita bondade, pois não rejeitais ninguém que se aproxima de Vós com um coração contrito e cheio de amor. Quão rico, quão feliz, quão alegre serei quando possuir esse Bem supremo! Eu vos abraçarei com reverente amor e me perderei em Vós, quando enfim vos possuir.

Estou pronto e desejo, ó meu Deus, fazer tudo o que estiver ao meu alcance para tornar-me digno de ser admitido em vossa presença. Estou disposto a sofrer tudo o que minha frágil natureza me permitir suportar. Estou disposto a afastar-me do mundo e a renunciar a todas as coisas terrenas, na medida em que os deveres do meu estado o permitirem. Estou disposto a trabalhar, tanto quanto puder, em vosso serviço; e assim farei, na esperança de vos alcançar, ó Bem infinito e eterno, e de contemplar para sempre a vossa infinita beleza. Mais ainda: mesmo que soubesse que haveria de me perder, ainda assim vos amaria. Pois não vos amo porque espero alcançar por Vós a salvação eterna, mas porque sois a Beleza perfeita e a Bondade infinita, dignas de ser o único objeto de nossas afeições e aspirações.

Crendo e esperando assim, desejo viver e morrer, e tomo os anjos e os santos por testemunhas da verdade do que digo. E, para confirmá-lo, repito com o coração e com a voz:

'Meu Deus, eu vos amo, não porque assim espere alcançar o Céu;
nem porque aqueles que não vos amam devam arder eternamente.
não pela esperança de ganhar alguma coisa, nem buscando uma recompensa;
mas como Vós mesmo me amastes, ó Senhor que sempre amais'.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXVIII)

    

PARTE IV - O CÉU

II. Sobre as alegrias do Céu

Agora que meditamos sobre a Jerusalém celeste, a cidade de Deus, passaremos a considerar a felicidade de que gozam os santos que nela habitam, tanto no que diz respeito ao corpo quanto à alma. É verdade que, por enquanto, como regra geral, eles ainda não possuem seus corpos; mas, no Último Dia, todos os receberão novamente, e esses corpos serão então tão belos que nada neste mundo poderá comparar-se a eles. Isso se deverá principalmente ao fato de que cada membro será dotado de quatro qualidades ou atributos, a saber: beleza, impassibilidade, agilidade e sutileza. Em razão de sua beleza ou glória, o corpo de cada um dos eleitos resplandecerá como uma estrela; contudo, assim como uma estrela difere de outra em glória, também os santos brilharão com maior ou menor esplendor, conforme suas vidas na terra tenham sido mais ou menos santas.

Nesses corpos glorificados e radiantes, os bem-aventurados serão de uma beleza tão inexprimível que, se um homem mortal pudesse agora contemplar um desses seres resplandecentes, ficaria deslumbrado por seu fulgor e estaria prestes a morrer de alegria. Em suas revelações a Santa Brígida, a Santíssima Mãe de Deus disse certa vez: 'Os santos estão ao redor de meu Filho como incontáveis estrelas, cuja glória não pode ser comparada a nenhuma luz temporal. Acredita-me: se os santos pudessem ser vistos resplandecendo com a glória que agora possuem, nenhum olho humano poderia suportar sua luz; todos desviariam o olhar, deslumbrados e cegos'. Pensa que felicidade será para ti quando teu corpo resplandecer como o sol ao meio-dia. Tudo o que vive e se move alegra-se com a luz e o calor do sol: ele enche de alegria toda a face da natureza. Do mesmo modo, teu corpo será motivo de alegria e deleite para ti mesmo e para todos os que estiverem ao teu redor no Céu, por causa de sua beleza e de sua glória.

O segundo atributo é a impassibilidade, pois o corpo glorificado é incapaz de sofrer. Jamais estará doente ou enfermo; não envelhecerá nem perderá sua beleza. Nunca mais será afligido pela fome ou pela sede, pelo calor ou pelo frio, pelas correntes de ar ou pela umidade. Nunca mais poderá ser queimado pelo fogo, afogado na água, ferido pela espada ou esmagado sob algum peso; será imortal, imutável, eternamente dotado de perfeita saúde e de força que jamais desfalece. Se alguém na terra pudesse adquirir esse dom da impassibilidade, com que alegria daria tudo o que possui para obtê-lo!

O terceiro atributo é a agilidade. O corpo glorificado será capaz de percorrer as maiores distâncias com a velocidade do pensamento. Num só instante poderá descer do Céu à terra; num só instante poderá passar de uma extremidade dos Céus à outra, sem esforço, sem fadiga, sem dificuldade. Muitas vezes desejamos poder voar como os pássaros, avançar velozmente como as nuvens sobre as asas do vento, acompanhar o pensamento em seu rápido voo. Se fosse possível adquirir tal poder, todos abririam mão de todas as suas riquezas terrenas para possuí-lo, ainda que apenas por um único ano. Como é, então, que te esforças tão pouco para assegurar para ti a posse desse dom por toda a eternidade?

O quarto atributo do corpo glorificado é a sutileza, que consiste na faculdade de penetrar toda matéria, entrando e saindo por onde quer que deseje. Nenhuma parede é tão espessa, nenhum portão de ferro tão maciço, nenhuma montanha tão grande que possa constituir obstáculo para o corpo glorificado. Assim como os raios do sol atravessam o vidro, também os corpos dos redimidos, tal como se encontram no Céu, atravessam toda matéria, por mais densa e sólida que seja. Eles também podem tornar-se visíveis ou invisíveis à vontade. O que não darias para possuir semelhante faculdade?

Quão grande é a Vossa generosidade, Deus onipotente, para com os vossos eleitos! Vós lhes concedeis dons preciosos e sublimes, que nenhuma quantidade de riquezas deste mundo poderia comprar. Quem não passaria de bom grado a vida ao vosso serviço e não suportaria as aflições deste mundo, a fim de possuir por toda a eternidade esses dons inestimáveis? Pergunta a este pobre e frágil corpo se ele não desejaria ardentemente resplandecer como a luz, estar livre de todo sofrimento, mover-se com a velocidade do pensamento e ser tão livre de impedimentos quanto um espírito. Possuir semelhantes poderes seria, de fato, uma alegria e uma consolação inexprimíveis.

Não consentirias em que te fosse imposta uma dura penitência durante um ano inteiro, se ao fim dele esses atributos te fossem concedidos? Se assim é, não consideres um fardo levar aqui embaixo uma vida de penitência, na esperança de que esses belos dons sejam teus por toda a eternidade. Cuida para que, aqui na terra, ames a luz - a luz das boas obras; suporta com paciência toda dor e tribulação; sê pronto e zeloso no serviço de Deus; mortifica cada vez mais em ti todos os desejos sensuais, e certamente serás, na vida futura, o feliz possuidor desses quatro atributos do corpo glorificado.

Voltemos agora nossa atenção para o prazer e a satisfação que os bem-aventurados experimentarão por meio dos cinco sentidos; e, antes de tudo, consideremos que satisfação encontrarão por meio da visão. A faculdade da visão será tão perfeita que nada poderá ocultar-se aos seus olhos. Verão aquilo que está distante com a mesma nitidez com que veem o que está próximo; o menor objeto tão claramente quanto o maior; as trevas lhes serão tão claras quanto a luz. Sua visão será tão límpida que poderão contemplar o sol sem desviar os olhos, ainda que sua luz fosse cem vezes mais deslumbrante. Sua vista será tão penetrante que nenhum obstáculo poderá impedi-la. 

Pensa agora no deleite que aguarda o teu sentido da visão, quando teus olhos contemplarem pela primeira vez as glórias do Céu. Em primeiro lugar, contemplarão a própria cidade, com seus palácios e moradas, cujo esplendor e majestade são tão grandes que a contemplação dessas magníficas construções proporcionaria agradável ocupação por toda uma eternidade. Em segundo lugar, contemplarás com deleite as belas flores, as árvores, os jardins e todas as outras maravilhas que atrairão o olhar no Céu. Em terceiro lugar, será para ti um prazer inexprimível contemplar a ti mesmo e a todos os outros santos revestidos de beleza, glória, esplendor, graça e majestade, ultrapassando em muito tudo quanto se pode ver neste mundo.

Em quarto lugar, verás a incomparável beleza dos Anjos, pois acredita-se que esses espíritos celestes assumirão corpos de extraordinária formosura, formados do ar, a fim de se tornarem visíveis aos bem-aventurados. Essa opinião é sustentada por Santo Anselmo. E se a beleza de um Anjo excede incomensuravelmente toda a beleza humana, não te alegrarás em contemplar, por toda a eternidade, tantos milhares de seres angélicos, todos de beleza incomparável? Em quinto lugar, sobre nada repousarão teus olhos com tão intenso deleite quanto sobre a inexprimível beleza de Jesus e Maria, cujos corpos glorificados são tão irresistivelmente encantadores, atraentes, belos e majestosos que, se fosse permitido aos condenados contemplá-los, já não considerariam o Inferno insuportável.

Considera agora que fonte inesgotável de deleite será estar contínua e eternamente cercado por visões tão encantadoras e tão sublimes. Nossa inclinação natural leva-nos, aqui embaixo, a empreender longas viagens para contemplar alguma bela paisagem, a despender grandes somas para adquirir algum objeto belo e até mesmo a colocar em perigo nossas almas na busca ardente daquilo que é belo. Se o amor pela beleza está tão profundamente enraizado em nossa natureza, como é estranho que não ansiemos pela beleza do Céu! Por que não fechamos nossos olhos às atrações da terra, para que sejamos considerados dignos de abri-los diante dos esplendores do Céu? 

Da visão, passemos agora à audição. Seria imprudente tentar descrever o prazer que os ouvidos experimentarão ao escutar os cânticos dos Anjos e a suave música de suas harpas. Os nove coros dos Anjos cantarão os louvores de Deus, e os bem-aventurados unir-se-ão a eles não apenas de coração, mas também mesclarão suas vozes nessa doce harmonia. Assim, as faculdades tanto da alma quanto do corpo serão exercitadas, e os louvores de Deus se elevarão em melodiosos hinos e cânticos celestes.

Pois, se nós, mortais, somos impelidos pelo amor fervoroso e pela alegria do coração a elevar nossa voz em cânticos, quanto mais assim farão os santos Anjos e os bem-aventurados santos, todos abrasados pelo amor de Deus e repletos de uma alegria inexprimível! Seus hinos de louvor ressoarão incessantemente pelas moradas do Céu. Em espírito profético, o velho Tobias diz: 'As portas de Jerusalém serão construídas de safira e esmeralda, e todos os seus muros ao redor serão feitos de pedras preciosas; todas as suas ruas serão pavimentadas com pedras brancas e puras, e em suas ruas cantar-se-á: Aleluia' (Tb 13,21-22).

Essas palavras parecem indicar que os redimidos caminharão livremente uns com os outros pela Jerusalém celeste, unindo suas vozes em jubilosos aleluias. Em maravilhosa harmonia, os Anjos e os Santos louvarão e glorificarão o seu Deus. Que felicidade para eles, ó meu Deus! Que doçura, que alegria! Se os cânticos suaves nos alegram aqui e despertam sentimentos elevados em nosso coração, os cânticos dos Anjos e dos Santos certamente nos causarão arrebatamento e deleite quando tivermos a felicidade de ser admitidos em sua bem-aventurada companhia.

Meu Deus e meu tudo! Quão grande é a abundância dos favores que preparastes para aqueles que vos amam! Meu coração tem sede da torrente das alegrias celestes. Verdadeiramente bem-aventurados são aqueles que habitam em vossa casa, ó Senhor; eles vos louvarão pelos séculos dos séculos. Os santos exultarão e se alegrarão nessa glória, e os altos louvores de Deus estarão em seus lábios. Quem me dera que já agora me fosse concedido unir-me a esses cidadãos do Céu e, juntamente com eles, exaltar para sempre o vosso nome! Quando chegará a hora, aquela feliz hora em que me será concedido contemplar a majestade da vossa morada? Até que ela chegue, suportarei com paciência todos os sofrimentos e tribulações deste mundo e tornarei mais luminosa minha jornada por este vale de lágrimas cantando os vossos louvores; bendirei o Senhor em todo o tempo, o seu louvor estará sempre em minha boca. Engrandecei comigo o Senhor, ó Anjos e Santos; exaltemos para sempre o seu nome.

Do sentido da audição passemos agora ao olfato. Os deliciosos aromas do Paraíso ultrapassam tudo quanto o homem possa imaginar. Os mais belos lírios, rosas, violetas, cravos e outras flores raras e encantadoras crescem nos jardins do Paraíso celeste, e sua fragrância é tão deleitável que, se um homem possuísse apenas uma pétala de uma dessas flores, ficaria como que arrebatado pela suavidade de seu perfume. 'Israel [isto é, a multidão dos redimidos] florescerá como o lírio, e seu perfume será como o do Líbano' (Os 14,6).

A experiência tem mostrado abundantemente que os corpos dos santos, mesmo enquanto repousam em seus túmulos, já exalam suave fragrância; quão mais intensa será essa fragrância quando forem novamente chamados à vida e glorificados! Acima de todos, os corpos de Cristo e de sua Santíssima Mãe exalarão perfume tão suave que todo o Céu será por ele impregnado. Quão amáveis são os vossos tabernáculos, ó Senhor, onde seremos revigorados pelos aromas fragrantes que nos envolverão! Pois, se os suaves perfumes nos confortam e reanimam aqui embaixo, certamente os aromas do Paraíso darão força e refrigério aos bem-aventurados.

Até mesmo o sentido do paladar será satisfeito no Céu; não, é verdade, pelo consumo de alimentos comuns, mas de uma maneira que ainda não somos capazes de conceber. Os bem-aventurados saborearão um doce alimento que os saciará, como aprendemos pelas palavras do Salmista real: 'Eles se inebriarão com a abundância da vossa casa, e Vós os fareis beber da torrente de vossas delícias' (Sl 35,9). 

O sentido do tato terá igualmente o seu prazer particular. Quanto mais alguém se tiver mortificado aqui na terra, maior será o bem-estar de seu corpo na vida futura. Santo Anselmo diz: 'Na vida futura, os santos experimentarão uma sensação de conforto e bem-estar inexprimíveis. Essa agradável sensação penetrará todos os membros, produzindo um maravilhoso sentimento de paz e contentamento'. Com efeito, o que poderia faltar ao corpo glorificado no Céu? Ele gozará de saúde perpétua, repouso perpétuo e felicidade perpétua, de tal maneira que, na superabundância de alegria e satisfação, mal poderá compreender quão invejável é a sua condição.

Finalmente, os redimidos encontrarão imenso prazer em contemplar uns aos outros, em conversar entre si, no convívio afetuoso e na amizade recíproca. Pensa que bela visão será contemplar centenas de milhares de seres em todo o esplendor de seu estado glorificado. Se na terra consideramos agradável contemplar um belo rosto, podemos compreender, ainda que apenas em pequena medida, como será no Céu, onde o mais humilde de seus habitantes possuirá uma beleza que ultrapassa em muito os encantos pessoais de qualquer homem mortal.

Além disso, os redimidos estarão unidos entre si pelo vínculo da caridade mútua, pois amar-se-ão uns aos outros mais ternamente do que os mais afetuosos irmãos e irmãs. Ainda que jamais tenham se encontrado na terra, conhecer-se-ão melhor do que se tivessem sido criados juntos. Cada um conhecerá os acontecimentos da vida terrena do outro. Cada um poderá ver o coração do outro e saber quão grande é a afeição que este lhe dedica. Cada um se alegrará com a glória do outro como se fosse a sua própria; e o mais humilde no Reino dos Céus exultará com a glória do mais elevado tanto quanto este próprio poderá exultar. Isso foi explicado a Santo Agostinho por São João Batista em uma visão: 'Sabe” - disse-lhe ele - 'que, por causa da inexprimível caridade que os bem-aventurados têm uns pelos outros, cada qual não sente menor alegria pela exaltação do outro do que sentiria se ela fosse sua. Mais ainda: aquele que é maior deseja que o menor lhe seja igual e até mais honrado do que ele próprio; pois, no triunfo deste, ele também triunfaria. Da mesma maneira, aqueles que ocupam um lugar mais humilde alegram-se com a glória dos que ocupam os lugares mais elevados; não os invejam, longe disso. Não desejariam para si a elevada posição se os outros não a possuíssem; antes lhes dariam uma parte de sua própria glória, se isso fosse possível'.

Daí se pode compreender que os santos se alegram com o esplendor com que seus companheiros são coroados e nutrem por todos e por cada um deles uma afeição sincera e profunda. De modo especial, amam aquele que, por sua palavra ou por seu exemplo, os ajudou no caminho para o Céu; a esse não sabem como manifestar suficientemente sua gratidão. Cada um sentirá também particular afeição pelo santo que escolheu como seu padroeiro na terra e a quem honrou com especial devoção; e essa afeição será correspondida por aquele a quem foi dirigida. Aqueles que estiveram assim ligados uns aos outros encontrar-se-ão com maior frequência; conversarão sobre coisas santas e contarão mutuamente suas experiências na terra, narrando como, de maneira maravilhosa, a Providência de Deus os salvou da perdição eterna. Em suma, serão incontáveis os prazeres proporcionados aos redimidos por esse convívio, e eles farão tudo quanto estiver ao seu alcance para agradar uns aos outros e demonstrar mutuamente sua bondade.

Ó Deus de todas as misericórdias! Quem não desejaria entrar nessa terra de paz eterna, onde existem alegrias que ultrapassam tudo quanto o homem mortal pode conceber, alegrias tão numerosas e variadas, tão maravilhosas e tão doces! Às vezes, os prazeres deste mundo exercem tamanho fascínio sobre o homem que ele não consegue renunciar a eles, ainda que veja o Inferno aberto diante de si. E, no entanto, esses prazeres são menos que nada quando comparados às alegrias do Céu; na verdade, todas as alegrias que alguém possa imaginar ou desejar para si não podem igualar sequer a menor e mais humilde das alegrias que serão nossas por toda a eternidade! Ó meu Deus, quão inexprimível será a bem-aventurança do Céu! Que me seja concedida a felicidade de participar dessa ventura!

Movido por esse desejo, não vos darei descanso; todos os dias vos suplicarei que me leveis para junto de Vós. Desprenderei meu coração deste mundo; renunciarei inteiramente a todos os prazeres terrenos; todas as minhas aspirações, todos os meus afetos estarão voltados para os tesouros celestes, e todos os dias me conservarei pronto para abandonar este cenário terreno. Quanto mais cedo a morte vier buscar-me, tanto mais bem-vinda será, pois deixarei esta terra de exílio e entrarei em minha verdadeira pátria. Que Deus conceda que assim seja. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXVII)

   

PARTE IV - O CÉU

I. Sobre a natureza do Céu

Não devemos, como fazem alguns, imaginar o Céu como um reino puramente espiritual. Pois o Céu é um lugar determinado, onde não somente Deus está e onde agora se encontram os Anjos, mas onde também está Cristo em sua sagrada humanidade e Nossa Senhora com o seu corpo humano. Ali também habitarão todos os bem-aventurados com seus corpos glorificados, depois do Juízo Final. Se o Céu é um lugar determinado deve, por conseguinte, ser um reino visível, e não meramente espiritual; pois um lugar deve, por sua própria natureza, ser em certa medida conforme àqueles que nele habitam.

Além disso, sabemos que, depois do Juízo Final, os santos contemplarão o Céu com seus olhos corporais e, consequentemente, ele deve ser um reino visível. Ignoramos de que será constituída a estrutura material do Céu; sabemos apenas que será algo infinitamente superior e mais precioso do que a matéria de que são formadas as demais esferas, o sol, a lua e os outros corpos celestes. Pois, tendo Deus criado o Céu para si mesmo e para os seus eleitos, fê-lo tão belo e tão glorioso que os bem-aventurados jamais se cansarão de contemplar os seus esplendores por toda a eternidade.

Contudo, repito, não está ao alcance de quem escreve descrever, nem ao alcance de quem lê compreender, aquilo de que o Céu é realmente constituído. Talvez possamos aprender algo a esse respeito pelo que escreve Santa Teresa. Falando de si mesma, ela diz: 'A Santíssima Mãe de Deus deu-me uma joia e colocou em torno do meu pescoço uma magnífica corrente de ouro, à qual estava presa uma cruz de valor inestimável. Tanto o ouro como as pedras preciosas que me foram assim dados são tão diferentes daqueles que possuímos neste mundo que nenhuma comparação pode ser estabelecida entre eles. São belos para além de tudo quanto se possa conceber, e a matéria de que são compostos está além do nosso conhecimento. Pois aquilo que chamamos ouro e pedras preciosas, comparado a eles, parece escuro e sem brilho como carvão'.

Por essas palavras, podemos formar alguma ideia da beleza, da raridade e da preciosidade das pedras com que são construídas as muralhas do Céu. Delas também inferimos que a luz do Céu é tão deslumbrante que não apenas ofusca o sol e as estrelas, mas faz com que todo o brilho terreno pareça escuridão. Temos, além disso, todas as razões para crer que, na luz do Céu, todas as cores do arco-íris são vistas a cintilar, conferindo-lhe um encanto indescritível aos olhos dos bem-aventurados. Ademais, os corpos dos redimidos resplandecem de luz, e quanto mais santa tiver sido a sua vida na terra, mais brilhantemente resplandecerão no Céu.

Qual não deve ser a glória daquele firmamento celestial, cintilando com o fulgor de muitos milhares de estrelas! Nada é mais agradável aos olhos do que a luz; quão brilhante, quão bela deve ser a luz do Céu, se, comparados a ela, os luminosos raios do sol não passam de trevas! Quanto devem os redimidos deleitar-se na contemplação dessa claridade pura e deslumbrante! Ó meu Deus, concedei-me a graça de, enquanto estiver na terra, amar a luz e evitar as obras das trevas, para que eu possa alcançar a contemplação da luz eterna e perpétua!

Quanto à extensão do Céu, tudo o que sabemos é que ela é incomensurável, inconcebível e incompreensível. Um sábio teólogo, falando sobre esse assunto, diz: 'Se Deus transformasse cada grão de areia em um novo mundo, todas essas inúmeras esferas ainda não preencheriam a imensidão do Céu'. São Bernardo também afirma que temos fundamento para crer que a cada um dos salvos será destinado, na pátria celestial, um lugar e uma herança cujos limites não serão estreitos.

Quão incomensuravelmente vasto deve ser, então, o Céu! Bem pôde o profeta Baruc exclamar: 'Ó Israel, quão grande é a casa de Deus, e quão vasto é o lugar de sua possessão! É grande e não tem fim; é elevado e imenso' (Br 3,24-25). Podemos facilmente acreditar nisso, pois temos diante de nossos olhos os ilimitados domínios do espaço. Mas nada sabemos acerca da natureza dos infinitos domínios do Céu, embora possamos, até certo ponto, representá-los à nossa imaginação. Seria contrário ao bom senso pensar que essas vastas regiões celestiais sejam vazias e desertas, ou que o grande Artífice, para quem a criação de mundos é coisa tão pequena, as deixasse sem beleza e sem ornamento.

Se príncipes e senhores ocupam todos os espaços e não deixam recanto algum de seus palácios ou de seus jardins sem embelezamento e ornamento, haveremos de supor que o grande Rei do Céu permitiria que o seu palácio real, o seu paraíso celestial, carecesse de magnificência e beleza? O que haveria para deleitar os sentidos dos santos se o Céu fosse apenas um vasto espaço vazio? Que prazer, além da visão beatífica de Deus, haveria para eles, se permanecessem todos reunidos numa planície árida, como ovelhas encerradas num aprisco? Não temos, portanto, razão para crer que existem no Céu esplêndidas e espaçosas moradas, construídas de materiais incorruptíveis?

Mais ainda: um erudito comentador da Sagrada Escritura considera provável que, pela admirável habilidade e sabedoria do grande Criador, esses belos palácios e moradas tenham formas e dimensões variadas, sendo alguns mais baixos, outros mais elevados, e alguns mais ricamente adornados do que outros. Elevando-se acima de todos e superando-os em grandeza e magnificência, destaca-se o palácio do grande Rei, Jesus Cristo; e, logo depois, em esplendor e dignidade, vem a morada de Nossa Soberana Senhora, a Rainha do Céu. Seguem-se os doze palácios dos doze Apóstolos, tão ricos e belos que o próprio Céu se maravilha diante de sua magnificência. Além desses, existem inúmeras mansões e moradas que tornam a Jerusalém celeste indescritivelmente majestosa e encantadora. Essas esplêndidas habitações foram criadas quando o próprio Céu foi feito e destinadas a ser a morada dos redimidos.

A Igreja nos ensina, no Ofício dos Mártires, que cada um dos eleitos terá seu próprio lugar no reino dos Céus. Dabo sanctis meis locum nominatum in regno Patris mei, dicit Dominus - Darei aos meus santos um lugar determinado no reino de meu Pai, diz o Senhor. E o Salmista Real diz: 'Exultarão os santos na glória; alegrar-se-ão em seus leitos' (Sl 149,5). Temos também as palavras de Cristo: 'Fazei-vos amigos com as riquezas da iniquidade, para que, quando vierdes a faltar, eles vos recebam nas moradas eternas' (Lc 16,9) - isto é, empregai em obras de caridade e beneficência aquilo que possuís além do necessário, para que essas obras se tornem como amigos que vos obtenham a entrada nas moradas eternas e celestiais.

E ainda: 'Na casa de meu Pai há muitas moradas' (Jo 14,2). Daí se pode inferir que cada um dos redimidos possui sua própria morada no Céu. Pois, assim como um pai justo e prudente reparte seus bens entre os filhos, atribuindo a cada um a sua parte particular, assim também nosso Pai celestial distribui a cada um dos seus eleitos uma parte dos seus tesouros celestes, tanto visíveis como invisíveis, dando a cada qual mais ou menos, conforme aquilo que merece receber.

Quem poderá descrever a majestade e a glória dessas moradas celestes? Se os reis e príncipes deste mundo constroem para si palácios grandiosos e suntuosos, qual não deve ser o esplendor e a beleza da cidade celestial que o Rei dos reis edificou para si mesmo e para aqueles que o amam e são os seus amigos? Ouçamos o que São João diz acerca dessa cidade: 'Um Anjo mostrou-me a cidade santa, Jerusalém, que tinha a glória de Deus. Sua luz era semelhante a uma pedra preciosa, como pedra de jaspe, transparente como cristal. A própria cidade era de ouro puro, semelhante a vidro límpido, e os fundamentos da muralha da cidade estavam adornados com toda espécie de pedras preciosas' (Ap 21,11.18-19).

Falando das dimensões da cidade, escreve o mesmo Apóstolo: 'O Anjo que falava comigo tinha por medida uma cana de ouro, para medir a cidade, suas portas e sua muralha. A cidade era quadrangular, e seu comprimento era igual à largura; e ele mediu a cidade com a cana de ouro: doze mil estádios; seu comprimento, sua largura e sua altura eram iguais. E mediu a sua muralha: cento e quarenta e quatro côvados, medida de homem, que era também a medida usada pelo Anjo' (Jo 21,15-17). Um estádio equivale a duzentas e vinte jardas, e oito estádios perfazem uma milha. Deve-se observar que o Anjo não mediu a circunferência da cidade, mas apenas o comprimento de sua muralha, que era de doze mil estádios. Multiplicando-se esse número por quatro, obtêm-se quarenta e oito mil estádios para a circunferência da cidade, equivalentes a seis mil milhas. Para povoar uma cidade dessas dimensões seriam necessários muitos milhares de milhões de habitantes.

Pelas informações dadas por São João, que nos diz serem iguais o comprimento, a largura e a altura da cidade, podemos formar alguma ideia da imponente elevação dessa construção celestial. Essa cidade não constitui toda a Jerusalém celeste; é a morada especial do Deus Altíssimo, onde habita a sagrada humanidade de Cristo, juntamente com numerosas companhias de Anjos e dos Santos mais eminentes. Pois, além dessa augusta cidade, existem inúmeras outras nas planícies celestiais, nas quais os redimidos habitam em companhia dos Anjos. Quanto maior tiver sido o bem realizado por um santo na terra, mais grandiosa será a morada que lhe é destinada no Céu. Esses palácios e mansões são transparentes como cristal e construídos com pedras preciosas da mais alta qualidade. E podemos acrescentar, apoiados na autoridade de um erudito teólogo, que os bem-aventurados convivem uns com os outros e se reúnem para louvar e engrandecer a onipotência do Altíssimo, que lhes preparou moradas tão gloriosas, unindo suas vozes para exaltar a sua sabedoria e o seu amor.

Não sentes tu, ó minha alma, um intenso desejo de contemplar essa cidade celestial e, mais ainda, de nela habitar para sempre? Consideramos um prazer visitar uma bela cidade, célebre por sua arquitetura e por outros encantos; e muitos são os viajantes que percorrem o mundo inteiro para conhecer cidades estrangeiras e regalar os olhos com a sua beleza. Mas o que são essas cidades da terra comparadas às cidades celestiais? Se pudéssemos contemplá-las ainda que por poucos instantes, que maravilhas não veríamos! Certamente exclamaríamos, com as palavras do rei Davi: 'Quão amáveis são os vossos tabernáculos, ó Senhor dos Exércitos! Minha alma suspira e desfalece pelos átrios do Senhor. Meu coração e minha carne exultaram no Deus vivo. Bem-aventurados os que habitam em vossa casa, ó Senhor; eles vos louvarão pelos séculos dos séculos. Porque vale mais um só dia em vossos átrios do que milhares; preferi ser desprezado na casa de meu Deus a habitar nas tendas dos pecadores' (Sl 83,2-3.5.11).

Se nos é permitido aventurar-nos a falar do interior do reino celestial, podemos supor que o vasto e incomensurável espaço do Céu não contém somente essas cidades celestiais, mas muitas outras coisas, todas elas aumentando as delícias daquela terra bem-aventurada. Pois, assim como os reis e príncipes da terra possuem jardins e parques de recreio junto aos seus palácios, onde se deleitam durante o verão, assim também, afirmam muitos teólogos, existem paraísos celestiais que proporcionam ainda maior deleite aos bem-aventurados. Pois não somente as almas dos salvos, mas também seus corpos glorificados serão conduzidos pelos Anjos de Deus ao Céu depois do Dia do Juízo.

Santo Agostinho, Santo Anselmo e muitos outros santos não hesitam em sustentar que existem no Céu árvores verdadeiras, frutos verdadeiros e flores verdadeiras, indescritivelmente belos e agradáveis à vista, ao paladar, ao olfato e ao tato, diferentes de tudo quanto somos capazes de imaginar. Nas revelações dos santos, faz-se menção aos jardins do Céu e às flores que ali desabrocham; e sabemos que se narra na história de Santa Doroteia que ela enviou a Teófilo, pelas mãos de um Anjo, uma cesta de flores colhidas nos jardins do paraíso celestial, de beleza tão extraordinária que sua contemplação o levou a tornar-se cristão e a dar a vida pela fé em Cristo. Lemos também na vida de São Dídaco que, voltando a si depois de um êxtase em que caíra pouco antes de morrer, exclamou em alta voz: 'Ó, que flores há no Paraíso! Que flores há no Paraíso!' Episódios semelhantes são encontrados com frequência nas vidas dos santos.

Considera quão delicioso será para aqueles que tiverem a felicidade de se salvar passear pelos jardins celestiais e contemplar aquelas belas flores. Quão agradáveis serão aos olhos aquelas formosas flores, quão delicioso o perfume que exalam! Na verdade, se um homem viesse a possuir uma única dessas flores celestiais, ela produziria nele o mesmo efeito que produziu em Teófilo. Toda a beleza da terra perderia para ele o seu encanto, e ele aspiraria com toda a sua alma à beleza perfeita do Céu. Medita, portanto, frequentemente nas coisas do Céu; eleva teus olhos e teu coração ao luminoso firmamento acima de ti e desperta em teu coração, por este ou por outros meios, um ardente desejo de contemplar as moradas do Pai eterno e nelas habitar para sempre.

Ó Deus, que enriquecestes a Jerusalém Celeste com tamanha beleza para que nós, pobres filhos da terra, tivéssemos um desejo ainda maior de contemplá-la, eu vos suplico: inflamai meu coração de ardente amor e desejo pela morada celestial que preparastes para nós. Pois bem-aventurados são, ó Senhor, aqueles que habitam em vossa casa; eles gozarão para sempre da perfeita felicidade e louvarão eternamente o poder, a sabedoria e a bondade de nosso Deus. Quem me dera ser digno de pertencer àquela companhia sem pecado, contemplar aquela formosa cidade e tornar-me um de seus felizes habitantes! Concedei-me esta graça, ó Deus, eu vos suplico; não permitais que eu seja excluído do número dos vossos eleitos.

Ó bem-aventurados santos de Deus, vós que habitais nos átrios da Jerusalém Celeste, humildemente vos suplico que intercedais por mim, para que, em sua infinita clemência, o Deus de misericórdia me conceda viver de tal maneira que eu seja considerado digno de ser admitido em vossa bem-aventurada companhia! Ouvi as orações dos vossos Santos, ó Deus de infinita compaixão e, pelos méritos de Jesus Cristo, concedei-me uma parte daquela herança que Ele adquiriu para nós com o seu precioso Sangue. Que as coisas deste mundo percam todo o seu valor aos meus olhos, e fazei arder meu coração com o desejo de vos contemplar e de ver a cidade que edificastes, a Jerusalém Celeste. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

terça-feira, 18 de agosto de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXVI)

  

PARTE III - O INFERNO

VIII. Sobre a eternidade

Nas páginas precedentes, apresentou-se ao leitor uma breve descrição dos tormentos do Inferno; agora, é a eternidade que deve ocupar a nossa atenção - assunto sobre o qual não é fácil escrever nem falar. Os tormentos do Inferno são todos tão horríveis e aterradores que bastam para fazer tremer até o homem mais corajoso. Mas o pensamento da eternidade é tão terrível que uma séria consideração a seu respeito é quase suficiente para fazer uma pessoa perder o juízo. Pois, neste mundo, por mais atribulado que um homem possa estar, ele possui uma fonte segura de consolação: sabe que, mais cedo ou mais tarde, a sua miséria terminará.

É próprio da natureza humana cansar-se de tudo depois de algum tempo, até mesmo das coisas que lhe são agradáveis e correspondem aos seus gostos. Se um homem fosse obrigado a permanecer o dia inteiro sentado à mesa, acabaria por sentir repugnância pelos alimentos colocados diante dele. Se alguém fosse forçado a dormir, dia e noite, durante uma semana inteira, no leito mais macio e confortável, como lhe pareceria longo aquele tempo! Se o mais ardoroso amante da dança fosse obrigado a continuar, dia e noite e sem descanso, essa sua diversão favorita, acabaria por adquirir por ela uma profunda aversão.

E, se assim acontece com as coisas conformes à nossa natureza e às nossas inclinações, o que sucederia com aquelas que nos são desagradáveis e repugnantes? Se uma pequena pedra entrasse no sapato de alguém e, como penitência, ele tivesse de conservá-la ali durante uma semana inteira, isso lhe pareceria quase intolerável. E, se uma leve dor ou incômodo se torna, após algum tempo, terrivelmente penoso, como se poderia suportar continuamente uma doença grave ou um verdadeiro sofrimento, sem murmuração nem impaciência?

Se fosse possível que um infeliz pecador fosse condenado a permanecer deitado numa fornalha, amarrado de pés e mãos, durante um ano inteiro, não o privaria a dor do uso da razão? Ninguém poderia ter o coração tão endurecido que não sentisse a mais profunda compaixão por uma pessoa assim atormentada. Contemplai agora o abismo do Inferno, e ali vereis milhares e milhares dessas infelizes criaturas no lago de fogo e de tormentos. Muitas delas já passaram vinte, cem, mil e até cinco mil anos nesse terrível estado de sofrimento.

Mas o que as espera? Não outros cinco mil anos, nem cem mil, nem mil vezes mil anos dessa terrível agonia: elas deverão suportá-la pelos séculos dos séculos. Diante delas está a eternidade, sem conforto nem consolação, sem graça nem misericórdia, sem mérito nem recompensa, sem a mais tênue esperança de libertação. É isso que torna tão incomensurável o tormento dos condenados; é isso que os leva ao furor e ao desespero.

Que imaginais ser realmente a eternidade? Qual será a sua duração? A eternidade é algo que não tem princípio nem fim. É um tempo sempre presente, que jamais passa. Assim, os tormentos dos condenados nunca terminarão, nunca passarão. Quando tiverem transcorrido mil anos, outros mil começarão, e assim por toda a eternidade. Nenhum dos condenados pode calcular há quanto tempo está no Inferno, porque ali não existe sucessão de dias e noites, nem divisão do tempo, mas uma noite contínua e eterna, desde o primeiro instante de sua entrada no Inferno e para sempre.

E, se quiserdes formar uma pálida ideia da eternidade, imaginai que todo o globo terrestre fosse composto de grãos de painço e que, a cada ano, viesse um pássaro e retirasse um desses pequeninos grãos. Que número infinito de anos teria de transcorrer antes que toda a Terra fosse consumida dessa maneira! Mais ainda: quantos milhares de anos não teriam de passar antes que uma única pequena colina fosse consumida! É impossível fazer qualquer estimativa desse número.

Talvez penseis que seria necessária toda a eternidade para destruir a Terra mediante um processo tão lento. Mas acreditai-me: ela poderia ser destruída muitas vezes antes que a eternidade chegasse ao fim. Pois a Terra, por fim, desapareceria, ainda que apenas um único grão fosse retirado de toda ela a cada século; mas a eternidade não pode terminar, porque nada se pode retirar dela. Quão terrível é esse pensamento! É verdadeiramente aterrador quando alguém procura compreendê-lo.

Os condenados se alegrariam e dariam graças a Deus se pudessem esperar que, depois de milhões e milhões de anos de tormentos, seriam finalmente libertados de sua miséria. Mas não há esperança alguma de que sejam finalmente libertados das penas do Inferno. Ninguém que reflita seriamente sobre isso pode deixar de se sentir tomado de assombro e horror. Ó Deus, quão terrível sois! Quão grande é a vossa severidade! Como podeis Vós, Pai das misericórdias, contemplar essas infelizes criaturas condenadas a tais suplícios pelos séculos dos séculos? Como podeis ouvir, sem vos comover, os seus gritos de desespero?

Tudo isso nos ensina quão grave deve ser todo pecado mortal, uma vez que Vós, Deus infinitamente misericordioso, podeis condenar o pecador à perdição eterna por um único pecado mortal. Ó cristão, suplico-vos, em nome de tudo o que é santo: não pequeis com tanta facilidade; não considereis o pecado mortal como coisa de pouca importância. Vede quão terrível é o castigo infligido aos infelizes pecadores. Talvez vos pareça quase inacreditável que Deus, cuja misericórdia é infinita, possa impor a uma de suas frágeis criaturas um castigo sem fim por um único pecado mortal.

Entretanto, assim é; e é igualmente verdade que um homem que tenha levado uma vida piedosa, se antes de morrer tiver a indizível desventura de cometer um pecado mortal e morrer sem arrependimento, será entregue à perdição eterna. O salmista não pôde deixar de manifestar a sua admiração diante disso; com efeito, parece considerá-lo quase impossível. Ouvi as suas palavras: 'Pensei nos dias antigos e tive presentes os anos eternos. E meditei de noite em meu coração; exercitei-me e perscrutei o meu espírito. Acaso Deus nos rejeitará para sempre? Ou nunca mais nos será favorável? Ou retirará para sempre a sua misericórdia, de geração em geração? Acaso Deus se esquecerá de usar de misericórdia? Ou, em sua ira, encerrará as suas misericórdias?' (Sl 76,6-10). Em outro salmo, ele responde a essas perguntas: 'O homem não poderá dar a Deus o seu resgate, nem o preço da redenção de sua alma; padecerá eternamente e ainda viverá até o fim; isto é, será atormentado para sempre e, contudo, continuará a viver (Sl 48,9-10).

A razão pela qual Deus, infinitamente misericordioso, pune o pecado mortal com um castigo eterno e nunca mais o perdoa é que o pecador, depois de condenado, não despertará em seu coração a contrição e o arrependimento, nem pedirá perdão a Deus. Pois, se alguém morre em pecado mortal, fica de tal maneira endurecido nele que jamais o abandonará por toda a eternidade. E, porque Deus o entregou à perdição, ele concebe contra Deus um ódio tão intenso que procuraria ofendê-lo de todas as maneiras que pudesse.

Em vez de se humilhar diante de Deus e implorar o seu perdão, preferiria suportar tormentos ainda maiores no Inferno. Portanto, porque o pecador não quer arrepender-se de seus pecados nem pedir perdão por eles, permanece eternamente em estado de pecado; e, como o seu pecado jamais é expiado nem objeto de arrependimento, também o castigo é eterno. Pois Deus não cessa de punir enquanto o pecador não se arrepende, não deplora o seu pecado e não pede perdão. Vê-se, portanto, que Deus não comete injustiça alguma contra o réprobo quando o submete a um castigo eterno, pois a justiça divina exige que, se o pecado permanece eternamente, também a pena correspondente a esse pecado seja eterna. 

Talvez se possa imaginar que os condenados se acostumem aos seus tormentos e que, por fim, se tornem insensíveis e quase indiferentes a eles. Isso está muito longe da verdade. Os condenados sentem os seus tormentos em toda a sua intensidade e sempre no mesmo grau. Cada um dos infelizes habitantes do Inferno sente agora os seus sofrimentos com a mesma intensidade com que os sentiu na primeira hora de sua condenação; e continuará a senti-los com igual violência depois de transcorridos milhares e milhares de anos.

Ora, porque os condenados sabem perfeitamente que jamais serão libertados do Inferno, mas deverão permanecer ali para sempre; porque sabem que os terríveis tormentos que suportam nunca terão fim; porque sabem que nenhuma criatura jamais se compadecerá deles, mas que todas reconhecerão a justiça de sua condenação - por tudo isso, começam a desesperar-se e a amaldiçoar a si mesmos e tudo quanto a mão de Deus criou.

O seu desespero apenas aumenta os seus sofrimentos. Podemos comprovar isso pelo exemplo de nossos semelhantes na Terra quando se entregam ao desespero. É impossível fazer alguma coisa por um homem desesperado: ninguém pode ajudá-lo ou consolá-lo; ninguém pode confortá-lo nem fazê-lo recobrar a razão. Ele se parece com um espectro; delira e se enfurece como o próprio demônio; declara que porá fim à própria vida, que se afogará ou se enforcará; destrói tudo o que encontra pelo caminho; amaldiçoa todos os homens e todas as coisas. É isso que os condenados fazem em seu desespero e, desse modo, atormentam a si mesmos ainda mais do que os demônios podem atormentá-los. Gritam e uivam, amaldiçoam e blasfemam, agitam-se e enfurecem-se; numa palavra, comportam-se como se fossem demônios encarnados.

Em sua fúria e malignidade, atacam-se uns aos outros com a mais feroz animosidade; mais ainda: em seu desesperado frenesi, procuram por todos os meios possíveis estrangular a si mesmos. Contudo, os seus esforços são inúteis. Tudo o que conseguem é aumentar os próprios tormentos e infligir a si mesmos novas dores. Quem dera que todo pecador obstinado gravasse isso profundamente em seu coração e tomasse cuidado para não se tornar, algum dia, presa desse desespero eterno!

'É coisa terrível cair nas mãos do Deus vivo' - diz São Paulo (Hb 10,31). Se agora temermos o Inferno, não teremos motivo para temê-lo nem padecê-lo na outra vida. Todos possuem razões suficientes para temê-lo. Os justos e os santos devem temer o Inferno, porque ainda podem cair nele. Enquanto permanecerem na Terra, estarão cercados não apenas por perigos exteriores, mas também por perigos interiores. Fora deles está o mundo, com os seus atrativos, escândalos, tentações e respeitos humanos.

Dentro deles habitam paixões violentas e uma vontade fraca. Um único pecado mortal é suficiente para causar a sua condenação ao abismo infernal. Quantos estão agora no Inferno que, durante algum tempo, se distinguiram por sua piedade e virtude, mas que gradualmente se tornaram negligentes no serviço de Deus e, por fim, caíram em pecado mortal e morreram sem se terem reconciliado com Deus! Até mesmo a grande Santa Teresa esteve em perigo de condenação, pois Deus lhe mostrou o lugar que lhe estava reservado no Inferno caso ela não abandonasse determinadas faltas.

Os maiores santos estremeceram e tremeram ao pensar no perigo em que se encontravam de cometer um pecado mortal e, por causa dele, serem condenados aos tormentos intermináveis do Inferno. São Pedro de Alcântara, que praticou tão grandes penitências, temia, mesmo em seus últimos momentos, o perigo de cair no Inferno. Santo Agostinho e São Bernardo enchiam-se de terror ao simples pensamento do Inferno e do perigo em que se encontravam de merecê-lo.

O católico negligente e tíbio deve, acima de todos, temer o Inferno, pois caminha continuamente à beira do abismo infernal. Ele dá pouca importância ao preceito de assistir à Santa Missa e à abstinência de carne prescrita pela Igreja; não tem escrúpulos em negligenciar a formação religiosa de seus filhos; convive com pessoas e frequenta lugares que constituem para ele ocasião de pecado; entrega-se a pensamentos impuros e comete pecados de impureza sem remorso; cede aos sentimentos de vingança contra o próximo; apropria-se dos bens alheios; excede-se na comida e na bebida; negligencia a oração e os sacramentos.

Agora é o momento de ele despertar de sua vida de pecado; agora é o momento de abandonar o pecado e mudar de vida, pois, se adiar essa mudança, em breve poderá ser tarde demais. Esta pode realmente ser a última advertência que Deus lhe concede. Se os condenados pudessem retornar à vida, a que penitências e austeridades não se submeteriam com ardor e alegria! O profeta Isaías pergunta: 'Qual de vós poderá habitar com o fogo devorador?' (Is 33,14).

Podeis suportar os terríveis tormentos do Inferno por toda a eternidade, vós que sois tão apegados ao conforto e tão sensíveis à menor dor? Qual de vós mereceu habitar no Inferno? Cada um de nós, imediatamente depois de cometer o primeiro pecado mortal, já merecia ser condenado àquele abismo de miséria e sofrimento! É graças à misericórdia divina que não fomos assim condenados. 'Se o Senhor não tivesse vindo em meu auxílio, por pouco minha alma teria habitado no Inferno' (Sl 93,17). Temos a certeza de haver merecido o Inferno, mas não temos igual certeza de haver sido perdoados. 'O homem não sabe se é digno de amor ou de ódio' (Eclo 9,1). Que terrível incerteza! Quanto ela deveria fazer-nos tremer!

Isaías pergunta novamente: 'Qual de vós habitará entre as chamas eternas?'  (Is 33,14). A resposta é: todos os pecadores que não abandonam o pecado, que não lamentam nem confessam os seus pecados e não corrigem a própria vida habitarão entre as chamas eternas! Façamos, caro leitor, todos os esforços; empreguemos todas as nossas forças; suportemos todos os sofrimentos e façamos todos os sacrifícios nesta vida, a fim de escaparmos ao horrível destino daqueles que, por sua própria culpa, caem vítimas da justiça divina! Nenhuma dor é grande demais, nenhum sacrifício é caro demais, quando se trata de evitar os tormentos eternos. Digamos, portanto, com Santo Agostinho: 'Senhor, queimai-nos aqui; cortai-nos e feri-nos nesta vida, contanto que nos poupeis na eternidade!'

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXV)

 

PARTE III - O INFERNO

VII. Sobre o verme que não morre

Nosso Divino Salvador diz: 'Se a tua mão te escandaliza, corta-a; melhor é entrares na vida mutilado do que, tendo as duas mãos, ires para o inferno, para o fogo que nunca se apaga, onde o seu verme não morre e o fogo não se extingue. E, se o teu pé te escandaliza, corta-o; melhor é entrares coxo na vida do que, tendo os dois pés, seres lançado no inferno, no fogo inextinguível, onde o seu verme não morre e o fogo não se extingue. E, se o teu olho te escandaliza, arranca-o; melhor é entrares no Reino de Deus com um só olho do que, tendo dois olhos, seres lançado no inferno de fogo, onde o seu verme não morre e o fogo não se extingue' (Mc 9,42-47).

Por estas palavras, nosso bendito Redentor quis gravar profundamente em nossas almas a necessidade de evitar as ocasiões de pecado e de fazer até os mais dolorosos sacrifícios para fugir do pecado e, assim, escapar das penas eternas do inferno. Quis também imprimir vivamente em nossa mente que dois dos mais terríveis tormentos do inferno são o seu fogo inextinguível e o seu verme que nunca morre. Já vimos, em um capítulo anterior, em que consiste o terrível fogo do inferno. Resta-nos agora examinar em que consiste 'o verme que não morre'.

Todos os sentidos dos réprobos terão o seu castigo próprio; a razão, ou inteligência, é castigada pela pena da perda, como vimos no capítulo precedente, castigo este que ultrapassa incomparavelmente os sofrimentos dos sentidos. A memória dos condenados será atormentada pelo 'verme que não morre', isto é, por um remorso de consciência agudíssimo e incessante, que jamais lhes dará descanso.

O pecador condenado recordar-se-á de quantas graças e meios de salvação lhe foram concedidos durante a vida para salvar a sua alma; de como Deus lhe enviou tantas inspirações santas; de como recebeu tantas boas instruções; de como teve ao seu alcance a graça da oração para o ajudar a praticar as virtudes próprias do seu estado, vencer as tentações, guardar os Mandamentos de Deus e da sua Igreja; de como seus amigos piedosos o exortaram a levar uma vida santa, não apenas por suas palavras, mas sobretudo por seu bom exemplo; de como teve tantas oportunidades de instruir-se acerca de seus deveres, ouvindo a Palavra de Deus e lendo bons livros; e de fortalecer-se no cumprimento de suas obrigações pela recepção dos Sacramentos e pela prática da devoção à Santíssima Virgem.

Em suma, o pecador condenado recordar-se-á de quão pouco esforço lhe teria sido necessário para salvar a alma e evitar o inferno. Dirá a si mesmo: 'Tão pequeno esforço era necessário para a minha salvação! Mesmo depois dos meus numerosos pecados, uma boa confissão teria sido suficiente. Mas, por vergonha, por respeito humano, não a fiz. Como fui insensato! Quantas vezes minha consciência, minha família e meus amigos me exortaram a confessar-me! Tudo, porém, foi em vão. Outros cometeram pecados maiores do que os meus, mas deles se arrependeram, confessaram-se, mudaram de vida e agora desfrutam de uma felicidade inefável no Céu! Quanto a mim, estou perdido para sempre, e isso por minha própria culpa, pois tive à minha disposição uma abundância extraordinária de meios de salvação. Mas agora o arrependimento já não aproveita; é tarde demais!' Consideremos, porém, as expressões de pesar dos diversos pecadores condenados. Sua dor é vã, porque, à semelhança da de Judas, é o pesar do desespero. 

'Durante a vida' - dirão esses pecadores condenados a si mesmos - 'amei o conforto, o bem-estar e o luxo, as vestes finas, as joias preciosas e as mansões suntuosas. Para alcançar essas coisas, não hesitei em defraudar o meu próximo de todas as maneiras possíveis. Roubei meus patrões, prestei falsos juramentos, filiei-me a sociedades secretas, cheguei até a vender a minha própria virtude! Deixava de assistir à Santa Missa, comia carne nos dias proibidos, negligenciava os Sacramentos e fui ao ponto de renegar a minha fé. Contraí matrimônio diante de um magistrado civil ou de um ministro herege; contraí um matrimônio misto sem dispensa; obtive o divórcio e depois ousei violar as leis de Deus e da Igreja, casando-me novamente! Quis ser livre para fazer exatamente o que me agradava.

As leis de Deus e de Sua Igreja proibiam-me de frequentar ocasiões perigosas; mas desprezei essas leis porque queria divertir-me e satisfazer as minhas paixões, convivendo com pessoas e frequentando lugares que constituíam ocasião de pecado para mim. Assim, caí repetidas vezes em faltas, até mesmo nas mais vergonhosas.

Deus ordenava-me que fosse puro e casto, mas eu encontrava prazer em satisfazer as mais vis paixões de todas as maneiras possíveis, procurando toda ocasião favorável para isso. Quão criminosamente procedi ao negligenciar a educação religiosa de meus filhos, tornando-me assim causa da perdição de suas almas! Durante a vida, comprazia-me em ouvir e propagar maledicências, calúnias, conversas obscenas e até discursos ímpios. Gostava de ler romances imorais e de contemplar imagens e objetos indecentes. Enquanto vivi na terra, entreguei-me ao vício da embriaguez, abusando das bebidas fortes até degradar-me abaixo dos próprios animais e cometer inumeráveis crimes contra minha esposa, contra meus filhos e contra o meu próximo. Durante a vida, deleitava-me em blasfemar, praguejar, proferir terríveis juramentos e imprecações, em promover contendas, entregar-me ao jogo e praticar quase toda espécie de pecado.

E agora encontro-me encerrado na sombria prisão do inferno, em companhia de uma multidão incontável de malfeitores, assassinos e dos seres mais degradados que já existiram. Já não tenho um pai amoroso, um filho afetuoso, um amigo compassivo. Não! Todos os laços da amizade e da natureza foram para sempre rompidos, transformando-se para sempre em ódio diabólico. Todo espírito maligno, todo réprobo me insulta, me amaldiçoa, me atormenta e procura aumentar ainda mais os meus sofrimentos. Sou obrigado a suportar tudo isso porque, durante a vida, recusei-me a submeter-me à santa vontade de Deus. Eu poderia ter-me salvado com tanta facilidade, e agora estou perdido, perdido para sempre, e isso por minha própria culpa! Jamais verei a Deus; jamais gozarei das delícias do Céu; jamais serei libertado destes terríveis tormentos. Agora é tarde demais!'

Tudo isso, e muito mais, dirá aos condenados o verme da consciência, ferindo-os com censuras tão incessantes e impiedosas que quase os levará à loucura do desespero. Com efeito, os condenados urrarão e enfurecer-se-ão como possessos, lançando maldições contra si mesmos. Mas tudo será em vão; é tarde demais para o arrependimento. Esse terrível remorso nada fará para expiar os seus pecados; apenas aumentará a intensidade de seus sofrimentos.

Reflete sobre isso, ó pecador obstinado, que pecas com tanta audácia e, mesmo quando tua consciência te adverte, fechas os ouvidos às suas repreensões. Tem por certo que um dia a tua própria consciência será o teu carrasco e te atormentará com maior persistência do que os próprios demônios. Se desejas escapar dessa miséria sem fim, escuta agora a voz da tua consciência; segue os seus conselhos quando ela te manda evitar o mal e te exorta a praticar o bem.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

sexta-feira, 24 de julho de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXIV)

PARTE III - O INFERNO

VI. Sobre a perda da Visão Beatífica de Deus

Já falamos de muitos e dos terríveis castigos infligidos aos condenados; contudo, estes constituem apenas uma parte muito pequena do conjunto. São incontáveis em número e tão grandes e espantosos que, como diz Santo Agostinho, todos os sofrimentos deste mundo são como nada quando comparados com o fogo eterno e os tormentos do Inferno.

Assim como o Apóstolo São Paulo diz: 'Nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, nem jamais entrou no coração do homem o que Deus preparou para aqueles que o amam', também se pode dizer: 'nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram os castigos que Deus preparou para aqueles sobre os quais recaem os seus justos juízos'. E, quando lemos os terríveis castigos com que Deus ameaça esmagar, ainda neste mundo, os transgressores da sua santa lei, não podemos estar certos de que Ele derramará toda a força da sua ira sobre aqueles pecadores audazes que desprezaram os seus avisos e, com malícia diabólica, perseveraram em sua iniquidade até o fim da vida?

Recordai-vos do que Deus disse ao povo de Israel: 'Um fogo se acendeu na minha ira e arderá até o mais profundo do Inferno; consumirá a terra com os seus frutos e queimará os fundamentos dos montes. Amontoarei males sobre os transgressores da minha lei e esgotarei contra eles as minhas flechas. Serão consumidos pela fome, e as aves os devorarão com mordedura amarguíssima; enviarei contra eles os dentes das feras, juntamente com o furor das serpentes. Por fora os devastará a espada e por dentro o terror, tanto o jovem como a virgem, a criança de peito e o homem já avançado em anos' (Dt 32,22-25).

A Sagrada Escritura contém muitas outras ameaças semelhantes e igualmente aterradoras. Não há dúvida de que, na outra vida, onde reinará a justiça e não a misericórdia, Deus castigará com mão inexorável os insolentes violadores dos seus santos mandamentos. Os castigos da eternidade serão sem número e sem medida. Os condenados estarão cercados por aflição e tristeza, por angústias e tormentos inumeráveis. São Bernardo afirma que as penas dos condenados são incontáveis; nenhuma língua mortal é capaz de enumerá-las.

Entretanto, dentre todos esses sofrimentos, aquele que causa a mais aguda angústia é a privação da visão de Deus. Jamais será concedido aos condenados contemplar a Face divina. Essa pena excederá incomparavelmente todos os demais tormentos de que falamos. É impossível ao homem mortal compreender quão grande pode ser essa aflição para os condenados.

Todavia, este é o ensinamento dos Santos Padres: todos sustentam que não há sofrimento que os réprobos lamentem tão amargamente quanto o de serem excluídos para sempre da visão de Deus. Enquanto vivemos neste mundo, pouco pensamos na visão de Deus e no que significaria sermos privados dela por toda a eternidade. Isso provém da obscuridade de nossa percepção, que nos impede de compreender a infinita beleza e bondade de Deus e a felicidade experimentada por aqueles que o contemplam face a face. Mas, depois da morte, quando estivermos livres dos entraves do corpo, nossos olhos se abrirão, e perceberemos, ao menos em certa medida, que Deus é o Bem supremo e infinito, e que a posse dele constitui a nossa mais alta felicidade.

Então, um desejo tão ardente de contemplar e possuir esse Bem supremo se apoderará de nossa alma, que ela será irresistivelmente atraída para Deus e ansiará, com todas as suas forças, contemplar a sua inefável beleza. E, se por causa de seus pecados lhe for negada essa visão beatífica, isso lhe causará a mais intensa angústia. Nenhuma dor, nenhum suplício conhecido neste mundo pode, de modo algum, ser comparado a ela.

São Boaventura dá testemunho disso quando afirma: 'A pena mais terrível dos condenados é serem excluídos para sempre da contemplação bem-aventurada e jubilosa da Santíssima Trindade'. Do mesmo modo, São João Crisóstomo diz: 'Conheço muitas pessoas que temem o Inferno apenas por causa de seus tormentos; mas eu afirmo que a perda da glória celeste é uma fonte de sofrimento mais amargo do que todos os tormentos do Inferno'. O próprio demônio foi constrangido a reconhecer essa verdade, conforme se lê nas Legendas do Bem-aventurado Jordão da Saxônia, outrora Mestre Geral da Ordem Dominicana. 

Quando Jordão perguntou a Satanás, por intermédio de um possesso, qual era o principal tormento do Inferno, este respondeu: 'Ser excluído da presença de Deus'. Jordão perguntou então: 'É Deus, pois, tão belo de contemplar?' Ao que o demônio respondeu: 'Sim, pois Ele é de uma beleza incomparável'. Jordão prosseguiu: 'Quão grande é essa beleza?' E o demônio replicou: 'Insensato! Como podes fazer-me semelhante pergunta? Não sabes que a sua beleza está acima de toda comparação?' Jordão insistiu: 'Não poderias apresentar-me alguma comparação que ao menos me desse uma pequena ideia da beleza divina?' Então Satanás respondeu: 'Imagina uma esfera de cristal mil vezes mais resplandecente que o sol, na qual se reunissem a formosura de todas as cores do arco-íris, o perfume de todas as flores, a doçura de todos os sabores mais deliciosos, o valor de todas as pedras preciosas, a bondade dos homens e o encanto de todos os Anjos. Por mais bela e preciosa que fosse essa esfera de cristal, comparada com a beleza divina, ela pareceria disforme e impura'. Então o santo religioso perguntou ainda: 'E dize-me: que darias para seres admitido à visão de Deus?' O demônio respondeu: 'Se houvesse uma coluna que se estendesse da terra ao Céu, coberta de pontas afiadas, pregos e ganchos, eu consentiria de bom grado em ser arrastado para cima e para baixo por essa coluna, desde agora até o Dia do Juízo, se ao menos me fosse permitido contemplar a Face divina por alguns breves instantes'.

Daí podemos compreender quão infinita é a beleza da Face de Deus, se até mesmo o espírito do mal se sujeitaria aos tormentos físicos que ele próprio descreveu, para gozar, ainda que por breves instantes, da contemplação daquele semblante cheio de graça e majestade. Não há, pois, dúvida de que nada causa aos demônios e aos condenados angústia tão profunda quanto serem privados da visão beatífica de Deus.

Suponhamos, portanto, que Deus enviasse um Anjo às portas do Inferno com esta mensagem aos infelizes habitantes daquele lugar de tormento: 'O Todo-Poderoso, em sua misericórdia, compadeceu-se de vós e está disposto a libertar-vos de uma das penas que sofreis. Qual delas desejais que vos seja retirada?' Que pensais que responderiam? Todos, como uma só voz, exclamariam: 'Ó bom Anjo, suplicai a Deus que, ao menos por sua infinita bondade, deixe de privar-nos da visão da sua Face!' Este seria o único favor que implorariam de Deus. Se lhes fosse possível contemplar a Face divina, ainda que permanecessem em meio às chamas do Inferno, a alegria dessa visão faria com que já não se importassem com o fogo devorador. Pois a visão de Deus é tão bela, tão bem-aventurada, tão cheia de êxtase e de delícias infinitas, que todas as alegrias e atrativos da terra não podem ser-lhe comparados nem de muito longe.

Na verdade, toda a felicidade celeste, por maior que fosse, converter-se-ia em amargura se lhe faltasse a visão de Deus; e os próprios redimidos prefeririam estar no Inferno, desde que ali pudessem gozar da visão beatífica, a permanecer no Céu privados dela. Assim como o privilégio de contemplar a Face divina constitui a felicidade principal dos bem-aventurados - aquela sem a qual nenhuma outra felicidade seria verdadeiramente felicidade - assim também constitui a principal miséria do Inferno: o fato de que as almas condenadas estejam para sempre excluídas dessa visão. Sobre isso diz São João Crisóstomo: 'Os tormentos de mil infernos nada são em comparação com a angústia de ser banido da bem-aventurança eterna e da visão de Deus'.

Para compreendermos, ao menos em parte, quão grande é essa pena de dano, devemos recordar que fomos criados por Deus para sermos felizes eternamente. Esse amor à felicidade, esse anseio por ela que cada um de nós sente no coração, jamais será destruído, nem mesmo no Inferno. Durante esta vida, os homens, impelidos por esse desejo e cegados pelas paixões, procuram a felicidade nas riquezas, nas honras e nos prazeres dos sentidos. Essas imagens ilusórias da felicidade nos enganam enquanto a alma permanece unida ao corpo. Mas, quando a alma se separa do corpo, todos esses prazeres falsos e passageiros desaparecem, e ela reconhece que somente Deus é a fonte de toda felicidade e que apenas na posse dEle se pode encontrá-la.

Já não iludida pelas falsas aparências, já não obscurecida pelas paixões, ela percebe claramente a inefável e arrebatadora beleza de Deus e suas perfeições infinitas. Contempla o seu poder infinito na criação do universo, a sua sabedoria infinita no governo de todas as coisas, o seu amor incomensurável por ela ao fazer-se homem, ao morrer por ela, ao dar-se a ela como alimento da sua alma no Santíssimo Sacramento e ao destiná-la a participar para sempre da sua própria felicidade no Céu. Esse conhecimento da grandeza, da bondade e da beleza de Deus permanecerá profundamente gravado nela por toda a eternidade. Ela compreenderá também a perfeita justiça dos castigos que Deus inflige eternamente no Inferno a todos aqueles que não guardaram os seus mandamentos.

Então a alma réproba, sedenta de felicidade e irresistivelmente atraída para Deus, único que pode torná-la feliz, esforça-se por lançar-se para Ele com todo o ímpeto de sua natureza, desejando contemplá-o, possuí-lo e unir-se a Ele. Mas sente-se repelida por uma força infinita e rejeitada por Deus por causa dos seus pecados. Ainda que nesse momento lhe fossem oferecidas todas as riquezas, todas as honras e todos os prazeres do mundo, ela os rejeitaria e até os amaldiçoaria, porque anseia unicamente por Deus e somente nele pode encontrar a felicidade.

A alma condenada, atormentada pelos mais horríveis sofrimentos, procura ao seu redor algum alívio, alguma palavra de consolação; mas nem sequer um olhar de compaixão encontra, pois está cercada de demônios cruéis e inimigos implacáveis. Não encontrando misericórdia onde está, levanta os olhos para o Céu e o contempla tão belo, tão encantador, tão admirável, tão repleto da verdadeira felicidade. Recorda-se de que foi criada e destinada a participar dessa bem-aventurança; e agora, em meio às dores mais atrozes, deseja aqueles gozos com um anseio ainda mais indizível. Faz esforços extraordinários para alcançar o Céu, mas não pode abandonar a sua morada de tormentos.

Ninguém no Céu parece notar a sua presença. Ela vê o trono que Deus, em sua bondade, lhe havia preparado, agora ocupado por outro! Já não há mais lugar para ela no Céu. Contempla ali alguns de seus parentes, companheiros e conhecidos, mas eles não lhe dão atenção. Vê todos os eleitos cheios de alegria e felicidade. Nem sequer se compadecem dela; antes, como canta o salmista: 'O justo se alegrará quando vier a vingança' (Sl 57,11).

Em vão a alma réproba invoca os Santos, a Santíssima Virgem e o próprio Salvador divino. Ela sente-se atraída para Deus por um impulso irresistível e compreende que somente Deus pode saciar a sua sede de felicidade e torná-la feliz. Anseia contemplá-lo e possuí-lo; repetidas vezes procura lançar-se para Ele, mas sente-se repelida por uma força invencível. Reconhece-se objeto da ira divina, do anátema de Deus. Tem plena consciência de que a sua situação é irremediável e de que jamais será admitida nas moradas dos bem-aventurados, nem sairá da habitação da miséria sem fim.

Então o desespero apoderar-se-á dela. Proferirá as mais terríveis imprecações contra Deus e contra os eleitos, contra o Céu, contra si mesma, contra os seus pais, seus companheiros e contra todas as criaturas. Todo o Inferno estremecerá com as suas horrendas blasfêmias, e ela se tornará, em meio aos seus acessos de furor, objeto de terror até mesmo para todos os demais condenados.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)