Mostrando postagens com marcador Novíssimos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Novíssimos. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 18 de agosto de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXVI)

  

PARTE III - O INFERNO

VIII. Sobre a eternidade

Nas páginas precedentes, apresentou-se ao leitor uma breve descrição dos tormentos do Inferno; agora, é a eternidade que deve ocupar a nossa atenção - assunto sobre o qual não é fácil escrever nem falar. Os tormentos do Inferno são todos tão horríveis e aterradores que bastam para fazer tremer até o homem mais corajoso. Mas o pensamento da eternidade é tão terrível que uma séria consideração a seu respeito é quase suficiente para fazer uma pessoa perder o juízo. Pois, neste mundo, por mais atribulado que um homem possa estar, ele possui uma fonte segura de consolação: sabe que, mais cedo ou mais tarde, a sua miséria terminará.

É próprio da natureza humana cansar-se de tudo depois de algum tempo, até mesmo das coisas que lhe são agradáveis e correspondem aos seus gostos. Se um homem fosse obrigado a permanecer o dia inteiro sentado à mesa, acabaria por sentir repugnância pelos alimentos colocados diante dele. Se alguém fosse forçado a dormir, dia e noite, durante uma semana inteira, no leito mais macio e confortável, como lhe pareceria longo aquele tempo! Se o mais ardoroso amante da dança fosse obrigado a continuar, dia e noite e sem descanso, essa sua diversão favorita, acabaria por adquirir por ela uma profunda aversão.

E, se assim acontece com as coisas conformes à nossa natureza e às nossas inclinações, o que sucederia com aquelas que nos são desagradáveis e repugnantes? Se uma pequena pedra entrasse no sapato de alguém e, como penitência, ele tivesse de conservá-la ali durante uma semana inteira, isso lhe pareceria quase intolerável. E, se uma leve dor ou incômodo se torna, após algum tempo, terrivelmente penoso, como se poderia suportar continuamente uma doença grave ou um verdadeiro sofrimento, sem murmuração nem impaciência?

Se fosse possível que um infeliz pecador fosse condenado a permanecer deitado numa fornalha, amarrado de pés e mãos, durante um ano inteiro, não o privaria a dor do uso da razão? Ninguém poderia ter o coração tão endurecido que não sentisse a mais profunda compaixão por uma pessoa assim atormentada. Contemplai agora o abismo do Inferno, e ali vereis milhares e milhares dessas infelizes criaturas no lago de fogo e de tormentos. Muitas delas já passaram vinte, cem, mil e até cinco mil anos nesse terrível estado de sofrimento.

Mas o que as espera? Não outros cinco mil anos, nem cem mil, nem mil vezes mil anos dessa terrível agonia: elas deverão suportá-la pelos séculos dos séculos. Diante delas está a eternidade, sem conforto nem consolação, sem graça nem misericórdia, sem mérito nem recompensa, sem a mais tênue esperança de libertação. É isso que torna tão incomensurável o tormento dos condenados; é isso que os leva ao furor e ao desespero.

Que imaginais ser realmente a eternidade? Qual será a sua duração? A eternidade é algo que não tem princípio nem fim. É um tempo sempre presente, que jamais passa. Assim, os tormentos dos condenados nunca terminarão, nunca passarão. Quando tiverem transcorrido mil anos, outros mil começarão, e assim por toda a eternidade. Nenhum dos condenados pode calcular há quanto tempo está no Inferno, porque ali não existe sucessão de dias e noites, nem divisão do tempo, mas uma noite contínua e eterna, desde o primeiro instante de sua entrada no Inferno e para sempre.

E, se quiserdes formar uma pálida ideia da eternidade, imaginai que todo o globo terrestre fosse composto de grãos de painço e que, a cada ano, viesse um pássaro e retirasse um desses pequeninos grãos. Que número infinito de anos teria de transcorrer antes que toda a Terra fosse consumida dessa maneira! Mais ainda: quantos milhares de anos não teriam de passar antes que uma única pequena colina fosse consumida! É impossível fazer qualquer estimativa desse número.

Talvez penseis que seria necessária toda a eternidade para destruir a Terra mediante um processo tão lento. Mas acreditai-me: ela poderia ser destruída muitas vezes antes que a eternidade chegasse ao fim. Pois a Terra, por fim, desapareceria, ainda que apenas um único grão fosse retirado de toda ela a cada século; mas a eternidade não pode terminar, porque nada se pode retirar dela. Quão terrível é esse pensamento! É verdadeiramente aterrador quando alguém procura compreendê-lo.

Os condenados se alegrariam e dariam graças a Deus se pudessem esperar que, depois de milhões e milhões de anos de tormentos, seriam finalmente libertados de sua miséria. Mas não há esperança alguma de que sejam finalmente libertados das penas do Inferno. Ninguém que reflita seriamente sobre isso pode deixar de se sentir tomado de assombro e horror. Ó Deus, quão terrível sois! Quão grande é a vossa severidade! Como podeis Vós, Pai das misericórdias, contemplar essas infelizes criaturas condenadas a tais suplícios pelos séculos dos séculos? Como podeis ouvir, sem vos comover, os seus gritos de desespero?

Tudo isso nos ensina quão grave deve ser todo pecado mortal, uma vez que Vós, Deus infinitamente misericordioso, podeis condenar o pecador à perdição eterna por um único pecado mortal. Ó cristão, suplico-vos, em nome de tudo o que é santo: não pequeis com tanta facilidade; não considereis o pecado mortal como coisa de pouca importância. Vede quão terrível é o castigo infligido aos infelizes pecadores. Talvez vos pareça quase inacreditável que Deus, cuja misericórdia é infinita, possa impor a uma de suas frágeis criaturas um castigo sem fim por um único pecado mortal.

Entretanto, assim é; e é igualmente verdade que um homem que tenha levado uma vida piedosa, se antes de morrer tiver a indizível desventura de cometer um pecado mortal e morrer sem arrependimento, será entregue à perdição eterna. O salmista não pôde deixar de manifestar a sua admiração diante disso; com efeito, parece considerá-lo quase impossível. Ouvi as suas palavras: 'Pensei nos dias antigos e tive presentes os anos eternos. E meditei de noite em meu coração; exercitei-me e perscrutei o meu espírito. Acaso Deus nos rejeitará para sempre? Ou nunca mais nos será favorável? Ou retirará para sempre a sua misericórdia, de geração em geração? Acaso Deus se esquecerá de usar de misericórdia? Ou, em sua ira, encerrará as suas misericórdias?' (Sl 76,6-10). Em outro salmo, ele responde a essas perguntas: 'O homem não poderá dar a Deus o seu resgate, nem o preço da redenção de sua alma; padecerá eternamente e ainda viverá até o fim; isto é, será atormentado para sempre e, contudo, continuará a viver (Sl 48,9-10).

A razão pela qual Deus, infinitamente misericordioso, pune o pecado mortal com um castigo eterno e nunca mais o perdoa é que o pecador, depois de condenado, não despertará em seu coração a contrição e o arrependimento, nem pedirá perdão a Deus. Pois, se alguém morre em pecado mortal, fica de tal maneira endurecido nele que jamais o abandonará por toda a eternidade. E, porque Deus o entregou à perdição, ele concebe contra Deus um ódio tão intenso que procuraria ofendê-lo de todas as maneiras que pudesse.

Em vez de se humilhar diante de Deus e implorar o seu perdão, preferiria suportar tormentos ainda maiores no Inferno. Portanto, porque o pecador não quer arrepender-se de seus pecados nem pedir perdão por eles, permanece eternamente em estado de pecado; e, como o seu pecado jamais é expiado nem objeto de arrependimento, também o castigo é eterno. Pois Deus não cessa de punir enquanto o pecador não se arrepende, não deplora o seu pecado e não pede perdão. Vê-se, portanto, que Deus não comete injustiça alguma contra o réprobo quando o submete a um castigo eterno, pois a justiça divina exige que, se o pecado permanece eternamente, também a pena correspondente a esse pecado seja eterna. 

Talvez se possa imaginar que os condenados se acostumem aos seus tormentos e que, por fim, se tornem insensíveis e quase indiferentes a eles. Isso está muito longe da verdade. Os condenados sentem os seus tormentos em toda a sua intensidade e sempre no mesmo grau. Cada um dos infelizes habitantes do Inferno sente agora os seus sofrimentos com a mesma intensidade com que os sentiu na primeira hora de sua condenação; e continuará a senti-los com igual violência depois de transcorridos milhares e milhares de anos.

Ora, porque os condenados sabem perfeitamente que jamais serão libertados do Inferno, mas deverão permanecer ali para sempre; porque sabem que os terríveis tormentos que suportam nunca terão fim; porque sabem que nenhuma criatura jamais se compadecerá deles, mas que todas reconhecerão a justiça de sua condenação - por tudo isso, começam a desesperar-se e a amaldiçoar a si mesmos e tudo quanto a mão de Deus criou.

O seu desespero apenas aumenta os seus sofrimentos. Podemos comprovar isso pelo exemplo de nossos semelhantes na Terra quando se entregam ao desespero. É impossível fazer alguma coisa por um homem desesperado: ninguém pode ajudá-lo ou consolá-lo; ninguém pode confortá-lo nem fazê-lo recobrar a razão. Ele se parece com um espectro; delira e se enfurece como o próprio demônio; declara que porá fim à própria vida, que se afogará ou se enforcará; destrói tudo o que encontra pelo caminho; amaldiçoa todos os homens e todas as coisas. É isso que os condenados fazem em seu desespero e, desse modo, atormentam a si mesmos ainda mais do que os demônios podem atormentá-los. Gritam e uivam, amaldiçoam e blasfemam, agitam-se e enfurecem-se; numa palavra, comportam-se como se fossem demônios encarnados.

Em sua fúria e malignidade, atacam-se uns aos outros com a mais feroz animosidade; mais ainda: em seu desesperado frenesi, procuram por todos os meios possíveis estrangular a si mesmos. Contudo, os seus esforços são inúteis. Tudo o que conseguem é aumentar os próprios tormentos e infligir a si mesmos novas dores. Quem dera que todo pecador obstinado gravasse isso profundamente em seu coração e tomasse cuidado para não se tornar, algum dia, presa desse desespero eterno!

'É coisa terrível cair nas mãos do Deus vivo' - diz São Paulo (Hb 10,31). Se agora temermos o Inferno, não teremos motivo para temê-lo nem padecê-lo na outra vida. Todos possuem razões suficientes para temê-lo. Os justos e os santos devem temer o Inferno, porque ainda podem cair nele. Enquanto permanecerem na Terra, estarão cercados não apenas por perigos exteriores, mas também por perigos interiores. Fora deles está o mundo, com os seus atrativos, escândalos, tentações e respeitos humanos.

Dentro deles habitam paixões violentas e uma vontade fraca. Um único pecado mortal é suficiente para causar a sua condenação ao abismo infernal. Quantos estão agora no Inferno que, durante algum tempo, se distinguiram por sua piedade e virtude, mas que gradualmente se tornaram negligentes no serviço de Deus e, por fim, caíram em pecado mortal e morreram sem se terem reconciliado com Deus! Até mesmo a grande Santa Teresa esteve em perigo de condenação, pois Deus lhe mostrou o lugar que lhe estava reservado no Inferno caso ela não abandonasse determinadas faltas.

Os maiores santos estremeceram e tremeram ao pensar no perigo em que se encontravam de cometer um pecado mortal e, por causa dele, serem condenados aos tormentos intermináveis do Inferno. São Pedro de Alcântara, que praticou tão grandes penitências, temia, mesmo em seus últimos momentos, o perigo de cair no Inferno. Santo Agostinho e São Bernardo enchiam-se de terror ao simples pensamento do Inferno e do perigo em que se encontravam de merecê-lo.

O católico negligente e tíbio deve, acima de todos, temer o Inferno, pois caminha continuamente à beira do abismo infernal. Ele dá pouca importância ao preceito de assistir à Santa Missa e à abstinência de carne prescrita pela Igreja; não tem escrúpulos em negligenciar a formação religiosa de seus filhos; convive com pessoas e frequenta lugares que constituem para ele ocasião de pecado; entrega-se a pensamentos impuros e comete pecados de impureza sem remorso; cede aos sentimentos de vingança contra o próximo; apropria-se dos bens alheios; excede-se na comida e na bebida; negligencia a oração e os sacramentos.

Agora é o momento de ele despertar de sua vida de pecado; agora é o momento de abandonar o pecado e mudar de vida, pois, se adiar essa mudança, em breve poderá ser tarde demais. Esta pode realmente ser a última advertência que Deus lhe concede. Se os condenados pudessem retornar à vida, a que penitências e austeridades não se submeteriam com ardor e alegria! O profeta Isaías pergunta: 'Qual de vós poderá habitar com o fogo devorador?' (Is 33,14).

Podeis suportar os terríveis tormentos do Inferno por toda a eternidade, vós que sois tão apegados ao conforto e tão sensíveis à menor dor? Qual de vós mereceu habitar no Inferno? Cada um de nós, imediatamente depois de cometer o primeiro pecado mortal, já merecia ser condenado àquele abismo de miséria e sofrimento! É graças à misericórdia divina que não fomos assim condenados. 'Se o Senhor não tivesse vindo em meu auxílio, por pouco minha alma teria habitado no Inferno' (Sl 93,17). Temos a certeza de haver merecido o Inferno, mas não temos igual certeza de haver sido perdoados. 'O homem não sabe se é digno de amor ou de ódio' (Eclo 9,1). Que terrível incerteza! Quanto ela deveria fazer-nos tremer!

Isaías pergunta novamente: 'Qual de vós habitará entre as chamas eternas?'  (Is 33,14). A resposta é: todos os pecadores que não abandonam o pecado, que não lamentam nem confessam os seus pecados e não corrigem a própria vida habitarão entre as chamas eternas! Façamos, caro leitor, todos os esforços; empreguemos todas as nossas forças; suportemos todos os sofrimentos e façamos todos os sacrifícios nesta vida, a fim de escaparmos ao horrível destino daqueles que, por sua própria culpa, caem vítimas da justiça divina! Nenhuma dor é grande demais, nenhum sacrifício é caro demais, quando se trata de evitar os tormentos eternos. Digamos, portanto, com Santo Agostinho: 'Senhor, queimai-nos aqui; cortai-nos e feri-nos nesta vida, contanto que nos poupeis na eternidade!'

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXV)

 

PARTE III - O INFERNO

VII. Sobre o verme que não morre

Nosso Divino Salvador diz: 'Se a tua mão te escandaliza, corta-a; melhor é entrares na vida mutilado do que, tendo as duas mãos, ires para o inferno, para o fogo que nunca se apaga, onde o seu verme não morre e o fogo não se extingue. E, se o teu pé te escandaliza, corta-o; melhor é entrares coxo na vida do que, tendo os dois pés, seres lançado no inferno, no fogo inextinguível, onde o seu verme não morre e o fogo não se extingue. E, se o teu olho te escandaliza, arranca-o; melhor é entrares no Reino de Deus com um só olho do que, tendo dois olhos, seres lançado no inferno de fogo, onde o seu verme não morre e o fogo não se extingue' (Mc 9,42-47).

Por estas palavras, nosso bendito Redentor quis gravar profundamente em nossas almas a necessidade de evitar as ocasiões de pecado e de fazer até os mais dolorosos sacrifícios para fugir do pecado e, assim, escapar das penas eternas do inferno. Quis também imprimir vivamente em nossa mente que dois dos mais terríveis tormentos do inferno são o seu fogo inextinguível e o seu verme que nunca morre. Já vimos, em um capítulo anterior, em que consiste o terrível fogo do inferno. Resta-nos agora examinar em que consiste 'o verme que não morre'.

Todos os sentidos dos réprobos terão o seu castigo próprio; a razão, ou inteligência, é castigada pela pena da perda, como vimos no capítulo precedente, castigo este que ultrapassa incomparavelmente os sofrimentos dos sentidos. A memória dos condenados será atormentada pelo 'verme que não morre', isto é, por um remorso de consciência agudíssimo e incessante, que jamais lhes dará descanso.

O pecador condenado recordar-se-á de quantas graças e meios de salvação lhe foram concedidos durante a vida para salvar a sua alma; de como Deus lhe enviou tantas inspirações santas; de como recebeu tantas boas instruções; de como teve ao seu alcance a graça da oração para o ajudar a praticar as virtudes próprias do seu estado, vencer as tentações, guardar os Mandamentos de Deus e da sua Igreja; de como seus amigos piedosos o exortaram a levar uma vida santa, não apenas por suas palavras, mas sobretudo por seu bom exemplo; de como teve tantas oportunidades de instruir-se acerca de seus deveres, ouvindo a Palavra de Deus e lendo bons livros; e de fortalecer-se no cumprimento de suas obrigações pela recepção dos Sacramentos e pela prática da devoção à Santíssima Virgem.

Em suma, o pecador condenado recordar-se-á de quão pouco esforço lhe teria sido necessário para salvar a alma e evitar o inferno. Dirá a si mesmo: 'Tão pequeno esforço era necessário para a minha salvação! Mesmo depois dos meus numerosos pecados, uma boa confissão teria sido suficiente. Mas, por vergonha, por respeito humano, não a fiz. Como fui insensato! Quantas vezes minha consciência, minha família e meus amigos me exortaram a confessar-me! Tudo, porém, foi em vão. Outros cometeram pecados maiores do que os meus, mas deles se arrependeram, confessaram-se, mudaram de vida e agora desfrutam de uma felicidade inefável no Céu! Quanto a mim, estou perdido para sempre, e isso por minha própria culpa, pois tive à minha disposição uma abundância extraordinária de meios de salvação. Mas agora o arrependimento já não aproveita; é tarde demais!' Consideremos, porém, as expressões de pesar dos diversos pecadores condenados. Sua dor é vã, porque, à semelhança da de Judas, é o pesar do desespero. 

'Durante a vida' - dirão esses pecadores condenados a si mesmos - 'amei o conforto, o bem-estar e o luxo, as vestes finas, as joias preciosas e as mansões suntuosas. Para alcançar essas coisas, não hesitei em defraudar o meu próximo de todas as maneiras possíveis. Roubei meus patrões, prestei falsos juramentos, filiei-me a sociedades secretas, cheguei até a vender a minha própria virtude! Deixava de assistir à Santa Missa, comia carne nos dias proibidos, negligenciava os Sacramentos e fui ao ponto de renegar a minha fé. Contraí matrimônio diante de um magistrado civil ou de um ministro herege; contraí um matrimônio misto sem dispensa; obtive o divórcio e depois ousei violar as leis de Deus e da Igreja, casando-me novamente! Quis ser livre para fazer exatamente o que me agradava.

As leis de Deus e de Sua Igreja proibiam-me de frequentar ocasiões perigosas; mas desprezei essas leis porque queria divertir-me e satisfazer as minhas paixões, convivendo com pessoas e frequentando lugares que constituíam ocasião de pecado para mim. Assim, caí repetidas vezes em faltas, até mesmo nas mais vergonhosas.

Deus ordenava-me que fosse puro e casto, mas eu encontrava prazer em satisfazer as mais vis paixões de todas as maneiras possíveis, procurando toda ocasião favorável para isso. Quão criminosamente procedi ao negligenciar a educação religiosa de meus filhos, tornando-me assim causa da perdição de suas almas! Durante a vida, comprazia-me em ouvir e propagar maledicências, calúnias, conversas obscenas e até discursos ímpios. Gostava de ler romances imorais e de contemplar imagens e objetos indecentes. Enquanto vivi na terra, entreguei-me ao vício da embriaguez, abusando das bebidas fortes até degradar-me abaixo dos próprios animais e cometer inumeráveis crimes contra minha esposa, contra meus filhos e contra o meu próximo. Durante a vida, deleitava-me em blasfemar, praguejar, proferir terríveis juramentos e imprecações, em promover contendas, entregar-me ao jogo e praticar quase toda espécie de pecado.

E agora encontro-me encerrado na sombria prisão do inferno, em companhia de uma multidão incontável de malfeitores, assassinos e dos seres mais degradados que já existiram. Já não tenho um pai amoroso, um filho afetuoso, um amigo compassivo. Não! Todos os laços da amizade e da natureza foram para sempre rompidos, transformando-se para sempre em ódio diabólico. Todo espírito maligno, todo réprobo me insulta, me amaldiçoa, me atormenta e procura aumentar ainda mais os meus sofrimentos. Sou obrigado a suportar tudo isso porque, durante a vida, recusei-me a submeter-me à santa vontade de Deus. Eu poderia ter-me salvado com tanta facilidade, e agora estou perdido, perdido para sempre, e isso por minha própria culpa! Jamais verei a Deus; jamais gozarei das delícias do Céu; jamais serei libertado destes terríveis tormentos. Agora é tarde demais!'

Tudo isso, e muito mais, dirá aos condenados o verme da consciência, ferindo-os com censuras tão incessantes e impiedosas que quase os levará à loucura do desespero. Com efeito, os condenados urrarão e enfurecer-se-ão como possessos, lançando maldições contra si mesmos. Mas tudo será em vão; é tarde demais para o arrependimento. Esse terrível remorso nada fará para expiar os seus pecados; apenas aumentará a intensidade de seus sofrimentos.

Reflete sobre isso, ó pecador obstinado, que pecas com tanta audácia e, mesmo quando tua consciência te adverte, fechas os ouvidos às suas repreensões. Tem por certo que um dia a tua própria consciência será o teu carrasco e te atormentará com maior persistência do que os próprios demônios. Se desejas escapar dessa miséria sem fim, escuta agora a voz da tua consciência; segue os seus conselhos quando ela te manda evitar o mal e te exorta a praticar o bem.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

sexta-feira, 24 de julho de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXIV)

PARTE III - O INFERNO

VI. Sobre a perda da Visão Beatífica de Deus

Já falamos de muitos e dos terríveis castigos infligidos aos condenados; contudo, estes constituem apenas uma parte muito pequena do conjunto. São incontáveis em número e tão grandes e espantosos que, como diz Santo Agostinho, todos os sofrimentos deste mundo são como nada quando comparados com o fogo eterno e os tormentos do Inferno.

Assim como o Apóstolo São Paulo diz: 'Nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, nem jamais entrou no coração do homem o que Deus preparou para aqueles que o amam', também se pode dizer: 'nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram os castigos que Deus preparou para aqueles sobre os quais recaem os seus justos juízos'. E, quando lemos os terríveis castigos com que Deus ameaça esmagar, ainda neste mundo, os transgressores da sua santa lei, não podemos estar certos de que Ele derramará toda a força da sua ira sobre aqueles pecadores audazes que desprezaram os seus avisos e, com malícia diabólica, perseveraram em sua iniquidade até o fim da vida?

Recordai-vos do que Deus disse ao povo de Israel: 'Um fogo se acendeu na minha ira e arderá até o mais profundo do Inferno; consumirá a terra com os seus frutos e queimará os fundamentos dos montes. Amontoarei males sobre os transgressores da minha lei e esgotarei contra eles as minhas flechas. Serão consumidos pela fome, e as aves os devorarão com mordedura amarguíssima; enviarei contra eles os dentes das feras, juntamente com o furor das serpentes. Por fora os devastará a espada e por dentro o terror, tanto o jovem como a virgem, a criança de peito e o homem já avançado em anos' (Dt 32,22-25).

A Sagrada Escritura contém muitas outras ameaças semelhantes e igualmente aterradoras. Não há dúvida de que, na outra vida, onde reinará a justiça e não a misericórdia, Deus castigará com mão inexorável os insolentes violadores dos seus santos mandamentos. Os castigos da eternidade serão sem número e sem medida. Os condenados estarão cercados por aflição e tristeza, por angústias e tormentos inumeráveis. São Bernardo afirma que as penas dos condenados são incontáveis; nenhuma língua mortal é capaz de enumerá-las.

Entretanto, dentre todos esses sofrimentos, aquele que causa a mais aguda angústia é a privação da visão de Deus. Jamais será concedido aos condenados contemplar a Face divina. Essa pena excederá incomparavelmente todos os demais tormentos de que falamos. É impossível ao homem mortal compreender quão grande pode ser essa aflição para os condenados.

Todavia, este é o ensinamento dos Santos Padres: todos sustentam que não há sofrimento que os réprobos lamentem tão amargamente quanto o de serem excluídos para sempre da visão de Deus. Enquanto vivemos neste mundo, pouco pensamos na visão de Deus e no que significaria sermos privados dela por toda a eternidade. Isso provém da obscuridade de nossa percepção, que nos impede de compreender a infinita beleza e bondade de Deus e a felicidade experimentada por aqueles que o contemplam face a face. Mas, depois da morte, quando estivermos livres dos entraves do corpo, nossos olhos se abrirão, e perceberemos, ao menos em certa medida, que Deus é o Bem supremo e infinito, e que a posse dele constitui a nossa mais alta felicidade.

Então, um desejo tão ardente de contemplar e possuir esse Bem supremo se apoderará de nossa alma, que ela será irresistivelmente atraída para Deus e ansiará, com todas as suas forças, contemplar a sua inefável beleza. E, se por causa de seus pecados lhe for negada essa visão beatífica, isso lhe causará a mais intensa angústia. Nenhuma dor, nenhum suplício conhecido neste mundo pode, de modo algum, ser comparado a ela.

São Boaventura dá testemunho disso quando afirma: 'A pena mais terrível dos condenados é serem excluídos para sempre da contemplação bem-aventurada e jubilosa da Santíssima Trindade'. Do mesmo modo, São João Crisóstomo diz: 'Conheço muitas pessoas que temem o Inferno apenas por causa de seus tormentos; mas eu afirmo que a perda da glória celeste é uma fonte de sofrimento mais amargo do que todos os tormentos do Inferno'. O próprio demônio foi constrangido a reconhecer essa verdade, conforme se lê nas Legendas do Bem-aventurado Jordão da Saxônia, outrora Mestre Geral da Ordem Dominicana. 

Quando Jordão perguntou a Satanás, por intermédio de um possesso, qual era o principal tormento do Inferno, este respondeu: 'Ser excluído da presença de Deus'. Jordão perguntou então: 'É Deus, pois, tão belo de contemplar?' Ao que o demônio respondeu: 'Sim, pois Ele é de uma beleza incomparável'. Jordão prosseguiu: 'Quão grande é essa beleza?' E o demônio replicou: 'Insensato! Como podes fazer-me semelhante pergunta? Não sabes que a sua beleza está acima de toda comparação?' Jordão insistiu: 'Não poderias apresentar-me alguma comparação que ao menos me desse uma pequena ideia da beleza divina?' Então Satanás respondeu: 'Imagina uma esfera de cristal mil vezes mais resplandecente que o sol, na qual se reunissem a formosura de todas as cores do arco-íris, o perfume de todas as flores, a doçura de todos os sabores mais deliciosos, o valor de todas as pedras preciosas, a bondade dos homens e o encanto de todos os Anjos. Por mais bela e preciosa que fosse essa esfera de cristal, comparada com a beleza divina, ela pareceria disforme e impura'. Então o santo religioso perguntou ainda: 'E dize-me: que darias para seres admitido à visão de Deus?' O demônio respondeu: 'Se houvesse uma coluna que se estendesse da terra ao Céu, coberta de pontas afiadas, pregos e ganchos, eu consentiria de bom grado em ser arrastado para cima e para baixo por essa coluna, desde agora até o Dia do Juízo, se ao menos me fosse permitido contemplar a Face divina por alguns breves instantes'.

Daí podemos compreender quão infinita é a beleza da Face de Deus, se até mesmo o espírito do mal se sujeitaria aos tormentos físicos que ele próprio descreveu, para gozar, ainda que por breves instantes, da contemplação daquele semblante cheio de graça e majestade. Não há, pois, dúvida de que nada causa aos demônios e aos condenados angústia tão profunda quanto serem privados da visão beatífica de Deus.

Suponhamos, portanto, que Deus enviasse um Anjo às portas do Inferno com esta mensagem aos infelizes habitantes daquele lugar de tormento: 'O Todo-Poderoso, em sua misericórdia, compadeceu-se de vós e está disposto a libertar-vos de uma das penas que sofreis. Qual delas desejais que vos seja retirada?' Que pensais que responderiam? Todos, como uma só voz, exclamariam: 'Ó bom Anjo, suplicai a Deus que, ao menos por sua infinita bondade, deixe de privar-nos da visão da sua Face!' Este seria o único favor que implorariam de Deus. Se lhes fosse possível contemplar a Face divina, ainda que permanecessem em meio às chamas do Inferno, a alegria dessa visão faria com que já não se importassem com o fogo devorador. Pois a visão de Deus é tão bela, tão bem-aventurada, tão cheia de êxtase e de delícias infinitas, que todas as alegrias e atrativos da terra não podem ser-lhe comparados nem de muito longe.

Na verdade, toda a felicidade celeste, por maior que fosse, converter-se-ia em amargura se lhe faltasse a visão de Deus; e os próprios redimidos prefeririam estar no Inferno, desde que ali pudessem gozar da visão beatífica, a permanecer no Céu privados dela. Assim como o privilégio de contemplar a Face divina constitui a felicidade principal dos bem-aventurados - aquela sem a qual nenhuma outra felicidade seria verdadeiramente felicidade - assim também constitui a principal miséria do Inferno: o fato de que as almas condenadas estejam para sempre excluídas dessa visão. Sobre isso diz São João Crisóstomo: 'Os tormentos de mil infernos nada são em comparação com a angústia de ser banido da bem-aventurança eterna e da visão de Deus'.

Para compreendermos, ao menos em parte, quão grande é essa pena de dano, devemos recordar que fomos criados por Deus para sermos felizes eternamente. Esse amor à felicidade, esse anseio por ela que cada um de nós sente no coração, jamais será destruído, nem mesmo no Inferno. Durante esta vida, os homens, impelidos por esse desejo e cegados pelas paixões, procuram a felicidade nas riquezas, nas honras e nos prazeres dos sentidos. Essas imagens ilusórias da felicidade nos enganam enquanto a alma permanece unida ao corpo. Mas, quando a alma se separa do corpo, todos esses prazeres falsos e passageiros desaparecem, e ela reconhece que somente Deus é a fonte de toda felicidade e que apenas na posse dEle se pode encontrá-la.

Já não iludida pelas falsas aparências, já não obscurecida pelas paixões, ela percebe claramente a inefável e arrebatadora beleza de Deus e suas perfeições infinitas. Contempla o seu poder infinito na criação do universo, a sua sabedoria infinita no governo de todas as coisas, o seu amor incomensurável por ela ao fazer-se homem, ao morrer por ela, ao dar-se a ela como alimento da sua alma no Santíssimo Sacramento e ao destiná-la a participar para sempre da sua própria felicidade no Céu. Esse conhecimento da grandeza, da bondade e da beleza de Deus permanecerá profundamente gravado nela por toda a eternidade. Ela compreenderá também a perfeita justiça dos castigos que Deus inflige eternamente no Inferno a todos aqueles que não guardaram os seus mandamentos.

Então a alma réproba, sedenta de felicidade e irresistivelmente atraída para Deus, único que pode torná-la feliz, esforça-se por lançar-se para Ele com todo o ímpeto de sua natureza, desejando contemplá-o, possuí-lo e unir-se a Ele. Mas sente-se repelida por uma força infinita e rejeitada por Deus por causa dos seus pecados. Ainda que nesse momento lhe fossem oferecidas todas as riquezas, todas as honras e todos os prazeres do mundo, ela os rejeitaria e até os amaldiçoaria, porque anseia unicamente por Deus e somente nele pode encontrar a felicidade.

A alma condenada, atormentada pelos mais horríveis sofrimentos, procura ao seu redor algum alívio, alguma palavra de consolação; mas nem sequer um olhar de compaixão encontra, pois está cercada de demônios cruéis e inimigos implacáveis. Não encontrando misericórdia onde está, levanta os olhos para o Céu e o contempla tão belo, tão encantador, tão admirável, tão repleto da verdadeira felicidade. Recorda-se de que foi criada e destinada a participar dessa bem-aventurança; e agora, em meio às dores mais atrozes, deseja aqueles gozos com um anseio ainda mais indizível. Faz esforços extraordinários para alcançar o Céu, mas não pode abandonar a sua morada de tormentos.

Ninguém no Céu parece notar a sua presença. Ela vê o trono que Deus, em sua bondade, lhe havia preparado, agora ocupado por outro! Já não há mais lugar para ela no Céu. Contempla ali alguns de seus parentes, companheiros e conhecidos, mas eles não lhe dão atenção. Vê todos os eleitos cheios de alegria e felicidade. Nem sequer se compadecem dela; antes, como canta o salmista: 'O justo se alegrará quando vier a vingança' (Sl 57,11).

Em vão a alma réproba invoca os Santos, a Santíssima Virgem e o próprio Salvador divino. Ela sente-se atraída para Deus por um impulso irresistível e compreende que somente Deus pode saciar a sua sede de felicidade e torná-la feliz. Anseia contemplá-lo e possuí-lo; repetidas vezes procura lançar-se para Ele, mas sente-se repelida por uma força invencível. Reconhece-se objeto da ira divina, do anátema de Deus. Tem plena consciência de que a sua situação é irremediável e de que jamais será admitida nas moradas dos bem-aventurados, nem sairá da habitação da miséria sem fim.

Então o desespero apoderar-se-á dela. Proferirá as mais terríveis imprecações contra Deus e contra os eleitos, contra o Céu, contra si mesma, contra os seus pais, seus companheiros e contra todas as criaturas. Todo o Inferno estremecerá com as suas horrendas blasfêmias, e ela se tornará, em meio aos seus acessos de furor, objeto de terror até mesmo para todos os demais condenados.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quinta-feira, 9 de julho de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXIII)

PARTE III - O INFERNO

V. Sobre a companhia no Inferno

Há muitos pecadores audazes que, quando são castigados por seus crimes e ameaçados com o fogo do Inferno, costumam responder atrevidamente: 'Onde quer que eu vá, ao menos não me faltará companhia'. Como se a presença de outros lhes pudesse proporcionar algum consolo ou qualquer alívio em seus tormentos. Para que esses pecadores insolentes vejam quão errados estão ao falar assim, e quão pouco motivo têm para esperar algum conforto da companhia em que se encontrarão, este capítulo será dedicado a mostrar quão miserável será essa companhia e como ela agravará ainda mais a sua desgraça.

A sociedade dos condenados é composta de demônios e de almas perdidas. Ambos são inumeráveis. Quanto à companhia dos demônios, ela é tão detestável que pode ser considerada o pior castigo dos réprobos no Inferno. O lugar dos tormentos seria muito menos digno desse nome se nele não houvesse demônios. Por causa da multidão deles, reina ali tal confusão, tal aflição, tal miséria e tal tirania, que apenas pensar nisso já parte o coração.

Nós, mortais, não temos inimigo pior do que o demônio, que nos odeia com um ódio tão intenso que deseja, a cada instante, lançar-nos no abismo da perdição. E, quando finalmente consegue ter alguém sob seu poder, trata-o com maior barbárie do que jamais o mais cruel dos déspotas tratou o seu mais mortal inimigo. Todo o ódio e toda a inveja que, no momento de sua queda, concebeu contra Deus, e que não pode descarregar sobre Ele, descarrega-os sobre os condenados, atormentando-os com suplícios cujo simples pensamento faz gelar o sangue de qualquer homem. Ainda que não lhes causasse nenhum outro mal, o simples fato de habitar com eles por toda a eternidade seria uma desgraça tão terrível para esses infelizes pecadores, que o horror de sua condição lhes seria como uma morte contínua.

Entre todos os espíritos decaídos, nenhum é tão abominável quanto o chefe de todos eles, o soberbo Lúcifer, cuja crueldade, malícia e perversidade o tornam objeto de terror não somente para os condenados, mas também para os próprios demônios que lhe estão sujeitos. Esse Lúcifer é chamado, nas Sagradas Escrituras, por diversos nomes, todos indicando sua malignidade. Por causa de seu aspecto repugnante, é chamado dragão; por causa de sua ferocidade, leão; por causa de sua malícia, antiga serpente; por causa de seu espírito enganador, pai da mentira; por causa de seu orgulho, rei sobre todos os filhos da soberba; e, por causa de seu grande poder e força, príncipe deste mundo.

Escutai o que dizem os Padres da Igreja e alguns intérpretes das Sagradas Escrituras acerca do terrível aspecto apresentado por Satanás. Eles lhe aplicam a descrição do Leviatã encontrada no Livro de Jó: 'Quem poderá descobrir a superfície de sua veste? Ou quem penetrará no meio de sua boca? Quem abrirá as portas de seu rosto? Em redor de seus dentes reina o terror. Seu corpo é como um escudo fundido, fechado e unido por escamas que se comprimem umas contra as outras. Cada uma se liga à outra, de tal modo que nem mesmo o ar pode passar entre elas. Seus espirros fazem brilhar a luz, e seus olhos são como as pálpebras da aurora. De sua boca saem tochas, e faíscas de fogo se desprendem. De suas narinas sai fumaça, como de uma panela fervente sobre o fogo. Seu hálito acende carvões, e de sua boca sai uma chama. Em seu pescoço habita a força, e diante dele marcha a ruína. Seu coração é duro como pedra, firme como a bigorna do ferreiro. Quando ele se levanta, os anjos estremecem e, cheios de temor, recorrem a Deus em busca de proteção. Faz ferver o mar profundo como uma caldeira. Não há poder sobre a terra que se lhe possa comparar, pois foi criado para não temer ninguém. Contempla tudo quanto é elevado; é rei sobre todos os filhos da soberba' (Jó 41).

É opinião de São Cirilo, Santo Atanásio, São Gregório e de outros sábios intérpretes tanto da Igreja Grega quanto da Igreja Latina que, embora essa descrição se refira literalmente a um monstro marinho, ela foi também destinada, em seu sentido místico, a aplicar-se a Lúcifer. E, se alguém comparar o que é dito do Leviatã com os atributos que são atribuídos ao príncipe das trevas, será impossível negar a semelhança entre ambos. Além disso, sabe-se, como fato geral, que tanto as coisas más quanto as boas possuem, no mundo natural, suas figuras e representações: as primeiras servem para nossa advertência; as segundas, para nosso exemplo.

Além do príncipe das trevas, existem centenas de milhares de demônios inferiores que, embora menos perversos e menos abomináveis do que ele, são ainda assim tão maus e tão horríveis que dificilmente alguém poderia contemplá-los e continuar vivo. Santo Antão relata que um dos irmãos de sua Ordem soltou um grito lancinante ao ver um demônio que lhe apareceu. Os demais monges, acorrendo assustados, encontraram-no mais morto do que vivo. Depois de lhe darem algo que lhe restituísse as forças, perguntaram-lhe o que havia acontecido.

Então ele lhes contou que o demônio lhe aparecera e o aterrorizara de tal maneira que toda a vida parecia ter-lhe abandonado o corpo. Perguntaram-lhe ainda qual era a aparência daquele demônio. Ele respondeu: 'Isso realmente não posso dizer. Apenas posso afirmar que, se me fosse dada a escolha, preferiria ser lançado numa fornalha em brasa do que tornar a contemplar o rosto daquele demônio'. Lemos quase a mesma coisa na vida de Santa Catarina de Sena. Ela também declarou que preferiria atravessar um fogo ardente a fixar, por um único instante sequer, os olhos sobre o demônio.

Se a simples visão do espírito maligno é tão espantosa que os santos a consideram mais intolerável do que o sofrimento de serem expostos às chamas de um fogo ardente, que temor e que horror não experimentarão os condenados, obrigados a habitar para sempre no meio de inumeráveis espíritos infernais! Que terror sentirias se um cão raivoso saltasse de repente sobre ti, te derrubasse ao chão e começasse a dilacerar-te com os dentes! Não imagines que o demônio cairá sobre os condenados com menor fúria, nem que os tratará com maior misericórdia.

O relato que Jó faz de seus perseguidores descreve com grande exatidão o estado de uma alma perdida no Inferno: 'Meu inimigo reuniu contra mim todo o seu furor; ameaçando-me, rangeu os dentes contra mim; fitou-me com olhos terríveis. Abriram contra mim a sua boca; cobrindo-me de insultos, feriram-me na face; todos se juntaram contra mim. Agarrou-me pelo pescoço, despedaçou-me e fez de mim o alvo de seus golpes. Cercou-me de lanças; traspassou-me os rins sem piedade. Rasgou-me ferida sobre ferida; lançou-se sobre mim como um gigante' (Jó 16,10-15).

Essa passagem pode dar-nos alguma ideia do terrível caráter da companhia em cujo meio os condenados se encontrarão no Inferno. Os réprobos talvez procurem, contudo, consolar-se com este pensamento: 'Ao menos teremos conosco os nossos semelhantes no Inferno, e deles não haverá falta'. Guardai-vos de vos iludirdes com esse falso consolo. Toda alma condenada preferiria infinitamente estar sozinha no Inferno, se lhe fosse dada essa escolha. Pois, assim como no Inferno não existe a caridade divina, também não existe o amor ao próximo. Pelo contrário, todos os condenados estão tão cheios de amargura uns contra os outros que desejam mutuamente apenas o mal, escarnecem uns dos outros e se amaldiçoam da maneira mais cruel.

E, assim como nesta vida é extremamente penoso ser obrigado a conviver com um inimigo que nos faz toda sorte de males, assim também não é pequeno tormento permanecer continuamente entre milhares de pessoas, todas as quais se odeiam e se detestam do fundo do coração. Que julgais que sentiríeis se fôsseis cruelmente atormentados, maltratados e perseguidos pelos demônios, a ponto de não poderdes conter altos gritos de dor e aflição e, contudo, entre os milhares que vos cercassem, não encontrásseis sequer uma única pessoa que vos demonstrasse a menor compaixão? Pelo contrário, todos zombariam de vós, todos vos amaldiçoariam, porque cada um se alegraria com o vosso sofrimento.

Até mesmo vosso pai e vossa mãe, vossa esposa e vossos filhos, vossos irmãos e irmãs, vossos amigos e parentes seriam então vossos declarados inimigos e, em vez de vos manifestarem qualquer gratidão, procurariam apenas causar-vos maior dano. Mas, entre todos os vossos inimigos, os mais implacáveis serão aqueles a quem escandalizastes com vosso mau exemplo, aqueles que conduzistes ao pecado por vossos conselhos ou por vossa conduta, aqueles que vos devem a própria perdição. Eles vos odiarão e execrarão com tal amargura e vos atormentarão com tamanha animosidade que parecerão menos homens do que demônios encarnados.

A esse respeito, São Bernardino narra o seguinte exemplo: 'Havia um rico usurário que tinha dois filhos. Um deles entrou para uma Ordem religiosa, enquanto o outro permaneceu no mundo junto de seu pai. Pouco tempo depois o pai morreu e, em breve espaço de tempo, foi seguido ao túmulo por esse filho, a quem havia deixado toda a sua fortuna. O outro filho, que se tornara monge, estava profundamente preocupado com o destino de seus familiares e suplicava insistentemente a Deus Todo-Poderoso que lhe revelasse qual era a sorte deles na outra vida. Por fim, suas súplicas foram atendidas.

Certo dia foi transportado em espírito ao Inferno. Embora olhasse por toda parte, não conseguia encontrar nem seu pai nem seu irmão. Finalmente percebeu um abismo de fogo, cujas chamas se elevavam a enorme altura. Naquele poço ardente, viu justamente aqueles que procurava, acorrentados um ao outro por pesadas cadeias de ferro, enfurecidos e praguejando um contra o outro. O pai amaldiçoava o filho, lançando sobre ele toda a culpa de sua condenação, dizendo: 'Maldito sejas, filho perverso! Tu és o único responsável pela minha perdição. Foi por tua causa, para fazer de ti um homem rico, que pratiquei a usura. Se não fosse por ti, eu não estaria agora mergulhado nesta miséria'. Então o filho respondeu ao pai: 'Maldito sejas tu, pai ímpio! Tu és o único responsável pela minha perdição. Se não tivesses praticado a usura e me deixado em herança teus bens injustamente adquiridos, eu jamais teria possuído riquezas mal adquiridas e não teria vindo parar nesta miséria'. 

Assim acontecerá convosco, se de algum modo fordes responsáveis pela perda de uma alma. Vossa esposa e vossos filhos vos amaldiçoarão e vos lançarão em rosto as ocasiões de pecado que lhes proporcionastes. O rico Epulão sentiu isso tão vivamente que suplicou com insistência ao pai Abraão que enviasse Lázaro à casa de seu pai para dar testemunho a seus irmãos dos sofrimentos que ele suportava, a fim de que eles não viessem também para aquele lugar de tormentos. E não fez isso por amor a seus irmãos, como observa Santo Antão, mas porque sabia muito bem que, se eles viessem juntar-se a ele no Inferno, seus tormentos seriam ainda mais agravados.

Suponhamos, porém, que ainda subsistissem no Inferno os afetos naturais, sobretudo entre aqueles que sinceramente se haviam amado nesta vida e que não tivessem sido causa da condenação um do outro. Mesmo assim, a companhia de uma pessoa que vos fosse querida aumentaria, em vez de diminuir, a vossa dor, e isso na mesma proporção do amor que por ela tivésseis. Pois que angústia seria para vós ver o vosso mais querido amigo torturado e atormentado de todas as maneiras possíveis! Seria suficiente para partir-vos o coração de tristeza e compaixão.

E, além dessa dor interior e espiritual, os condenados aumentam imensamente os sofrimentos exteriores e corporais uns dos outros. Primeiramente, porque permanecem comprimidos uns contra os outros. Em segundo lugar, porque todos exalam um odor repugnante e insuportável. Em terceiro lugar, porque uivam de maneira tão lamentável e fazem ressoar o Inferno com seus gemidos e lamentos. É disso que fala Cristo quando diz: 'Ali haverá choro e ranger de dentes'. Ele repete essas palavras mais de uma vez, para lhes dar maior força e gravar em nossos espíritos a grandeza dos tormentos suportados pelos condenados.

Também os demônios unirão seus uivos aos gritos dos condenados e levantarão tal clamor que o próprio Inferno estremecerá. O tormento dos condenados será ainda mais agravado pelo aspecto horrendo de seus corpos e pelo horror que inspirarão uns aos outros. Pois Santo Anselmo diz: 'Assim como nenhum mau cheiro pode ser comparado ao mau cheiro dos condenados, assim também nada neste mundo pode dar uma ideia de sua aparência hedionda'. Assim, cada vez que uma alma condenada olhar para outra, estremecerá de repugnância, aversão e horror.

Ainda que não houvesse no Inferno outro tormento senão esse, bastaria ele para tornar seus habitantes sumamente miseráveis. Finalmente, o tormento do Inferno será grandemente aumentado pela vergonha eterna que constituirá a herança dos condenados. São Tomás de Aquino ensina que os pecados de cada um serão conhecidos por todos os demais tão claramente como se os contemplassem com seus próprios olhos corporais. Cada um pode imaginar que angústia isso deve causar. Pois que há, nesta terra, de mais doloroso do que ser exposto à vergonha pública? Para um homem que perdeu sua boa reputação, a vida já não merece ser vivida; torna-se apenas um peso.

Antigamente, em alguns países, era costume marcar os malfeitores, como os ladrões, com um ferro em brasa na fronte ou no ombro. Que ignomínia para qualquer pessoa que ainda conservasse um mínimo de amor-próprio! Sempre que alguém olhasse para ela, deveria corar de vergonha. O demônio marcará todos os réprobos com o selo da vergonha sobre a fronte ou naquela parte do corpo com a qual pecaram, para que todas as ações vergonhosas que praticaram durante a vida sejam conhecidas por todos. É essa vergonha eterna que Deus anuncia ao pecador pela boca do seu profeta: 'Farei cair sobre vós um opróbrio eterno e uma vergonha perpétua que jamais será esquecida' (Jr 23,40).

Façam os condenados o que fizerem, jamais conseguirão apagar esse sinal, nem ocultá-lo dos seus companheiros de suplício. Por isso, como diz Santo Efrém, essa vergonha e essa infâmia lhes serão mais insuportáveis do que o próprio fogo do Inferno, porque conservarão continuamente diante de sua memória os pecados com que se mancharam durante a vida. Dionísio, o Cartuxo, narra o caso de um dos religiosos de sua Ordem, na Inglaterra, que, depois de um êxtase que durou três dias, contou aos monges, a pedido insistente deles, o que havia visto. 

Disse ele: 'Meu guia conduziu-me por longo caminho até chegarmos a uma região de trevas e de horror, onde se encontrava uma multidão incontável de homens e mulheres, todos submetidos a terríveis tormentos. Eram aqueles que haviam pecado por meio do corpo. Eram atormentados por enormes monstros de fogo que se lançavam sobre eles e, apesar de toda a resistência que ofereciam, apertavam-nos e os abraçavam com suas garras até fazê-los soltar gritos lancinantes de dor. Entre os que assim eram atormentados vi um homem que eu conhecia muito bem e que, no mundo, gozara de grande estima e consideração. Ao ver-me, exclamou em voz lamentável: Ai de mim! Ai de mim! Desgraçado de mim por haver pecado como pequei durante minha vida! Pois agora o tormento que padeço aumenta de dia para dia. Mas, acima de tudo, o que mais agudamente sinto é a vergonha e a desonra a que meus pecados me expõem, porque todos os conhecem, todos me desprezam e todos zombam de mim por causa deles'.

Vê-se, portanto, que, por mais imensuráveis que sejam os tormentos do Inferno, aquilo que os condenados temem ainda mais do que os sofrimentos físicos é tornarem-se objeto de desprezo e de escárnio para seus companheiros por causa de seus pecados. Assim, sua miséria, longe de ser diminuída pela companhia dos outros, é extraordinariamente aumentada por ela. Portanto, não procureis consolar-vos com o pensamento dos companheiros que encontrareis no Inferno, porque sua convivência é apenas motivo de terror. E, para que jamais sejais lançado em tão miserável companhia, guardai-vos de associar-vos, neste mundo, com aqueles que possam conduzir-vos ao pecado e, talvez, arrastar-vos à perdição.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quinta-feira, 25 de junho de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXII)

            

PARTE III - O INFERNO

IV. Sobre os outros tormentos do Inferno

Muitos acreditam que alguns dos réprobos estarão condenados, entre muitas outras dores intoleráveis, a suportar um frio terrivelmente intenso. O venerável Beda relata a seguinte história sobre um homem chamado Trithelmus. Esse homem estava gravemente doente e, certa noite, foi dado como morto. Na manhã seguinte, porém, ele recuperou a consciência para o espanto de todos os que estavam com ele, e levantou-se do leito de doença, dizendo que Deus lhe havia concedido uma prorrogação dos seus dias, para que pudesse levar uma vida diferente daquela que havia levado até então.

Depois de dividir os seus bens entre seus filhos e doar uma parte deles aos pobres, ele adotou um modo de vida totalmente diferente. Encerrando-se em uma pequena tenda à beira de um rio, passava seus dias e noites chorando. No inverno, mergulhava até o pescoço nas águas geladas do rio e, em seguida, tremendo e entorpecido pelo frio, mergulhava em água quente - um procedimento que lhe causava tanta agonia que não conseguia conter seus gritos.

Quando questionado sobre o motivo de sua conduta estranha e como ele conseguia suportar as alternâncias repentinas entre calor extremo e frio extremo, ele respondeu: 'Já vi coisas piores do que isso'. 'O que você viu?' - perguntaram-lhe os outros. E ele respondeu: 'Vi como as almas infelizes em outro mundo são lançadas de um fogo furioso para o frio glacial e, do frio glacial, de volta às chamas ardentes. Quando percebo o que elas têm de suportar, considero meus sofrimentos insignificantes como nada'. Essa história, relatada por um homem tão sério e santo como o venerável Beda, mostra quão terríveis são, de fato, os tormentos do Inferno.

Cristo nos fala das trevas do Inferno com estas palavras solenes: 'Amarrai-lhe as mãos e os pés e lançai-o nas trevas exteriores: ali haverá choro e ranger de dentes' (Mt 22,13). Nosso Senhor fala das trevas do inferno como trevas exteriores, as mais apavorantes, as mais temíveis que possam existir. Um viajante que se perdeu na floresta e foi surpreendido pela noite sente um terror indescritível tomar conta dele. Ora, existe uma terra coberta pela sombra da morte, onde não reina a ordem, mas um horror eterno. Essa terra é o inferno. Uma escuridão opressiva pesa sobre os perdidos; prevalece uma escuridão indescritivelmente terrível.

Neste mundo, os doentes nada temem mais do que a noite, pois o tempo parece passar muito lentamente para eles, e sua dor parece duplamente penosa. Eles contam as horas, e cada uma parece tão longa quanto a noite. Como será para os habitantes do Inferno, onde a escuridão densa domina e a noite nunca dá lugar à luz do dia? Nessa escuridão horrível, os condenados jazem indefesos como cegos, ou como aqueles a quem os olhos foram cruelmente arrancados. Eles não veem nada, pois a fumaça acre arde em seus olhos, e os vapores venenosos do enxofre destroem sua visão. Sabemos quão densa é essa fumaça pelo relato de São João: 'A ele (Satanás) foi dada a chave do abismo (Inferno). E ele abriu o abismo; e a fumaça do abismo subiu como a fumaça de uma grande fornalha; e o sol e o ar foram escurecidos pela fumaça do abismo' (Ap 9,2). E ainda: 'Serão atormentados com fogo e enxofre, e a fumaça de seus tormentos subirá para todo o sempre; nem terão descanso dia nem noite' (Ap 14,11).

Essas são, de fato, ameaças terríveis, e essa profecia anuncia, nos termos mais claros, qual será o destino daqueles que são servos do pecado e do diabo. Eles serão atormentados com fogo e enxofre a tal ponto que a fumaça de seu tormento subirá para todo o sempre. Que palavras terríveis! Ó tortura inexprimível! Considera, ó pecador desorientado, quais seriam teus sentimentos se ficasses confinado por um único dia nessa masmorra escura e fétida. Tu sabes como a fumaça pungente é desagradável aos olhos e às narinas; na verdade, ninguém consegue permanecer nela por um quarto de hora sem ser asfixiado e ficar meio cego. Se isso acontece na Terra, como será no Inferno?

A existência dos condenados se assemelha mais à morte do que à vida; é uma morte em vida, uma tortura e miséria eternas e ilimitadas. E, visto que nos é dito que a fumaça de seu tormento sobe para sempre, segue-se necessariamente que a escuridão total deve prevalecer no Inferno. A respeito desse assunto, o venerável Beda relata as experiências do homem Trithelmus (de quem já se fez menção) enquanto ele jazia em transe e era considerado morto. Ao recuperar a consciência, entre outras coisas, ele narrou o seguinte: 'Fui conduzido por um ser vestido com roupas brilhantes por uma região que me era totalmente desconhecida, até chegarmos a uma área envolta em escuridão densa, que me fez estremecer de medo e horror. Não conseguia distinguir nada além da figura do meu guia. À medida que nos adentrávamos cada vez mais nessas trevas, percebi, no meio da escuridão, um abismo de imensa extensão, cheio de fumaça e de um brilho lúgubre, cuja visão fez meus cabelos se arrepiarem de terror. Desse abismo emanavam gemidos lastimáveis, que soavam como se vários homens e mulheres estivessem sendo submetidos a torturas cruéis e à morte.

Mas o pior foi que meu guia desapareceu, deixando-me sozinho naquele lugar terrível. Não consigo descrever a apreensão agonizante que tomou conta de mim; em vão olhei ao redor na esperança de encontrar socorro ou consolo. O terror que senti foi tão grande que pensei que fosse morrer. Quando olhei para baixo, para o abismo negro, tive medo de cair nele e me perder, de corpo e alma. Pois, junto com as chamas lúgubres que se erguiam do abismo, vinham faíscas ardentes que caíam de volta nele com um ruído ensurdecedor, além de nuvens de fumaça sulfurosa que pareciam prestes, a qualquer momento, a me arrastar com elas para as profundezas do golfo de fogo. Eram todas almas perdidas que eram impulsionadas para cima como faíscas de lenha em chamas pela força do fogo subterrâneo.

Só Deus sabe o que sofri; um suor frio banhou todo o meu corpo. Enquanto permanecia ali nessa agonia, sem saber para onde me virar, ouviram-se, bem acima da minha cabeça, gargalhadas, misturadas a choro amargo e uivos. À medida que aquele barulho se aproximava, vi vários demônios que traziam consigo cinco almas indefesas, as quais perseguiam e atormentavam. Os demônios estavam exultantes, zombando e rindo; as almas estavam em desespero, proferindo lamentos e gritos de angústia lancinante. Imagine quais foram meus sentimentos ao ouvir seus gritos e observar que os demônios malditos se aproximavam cada vez mais.

Quando chegaram bem perto de mim, fiquei tão dominado pelo terror que pensei que fosse desmaiar, e acredito que, se Deus não tivesse me fortalecido, eu teria morrido ali mesmo. Pois os demônios me lançavam olhares com seus olhos ardentes de maneira tão assustadora, e as pobres almas me imploravam por ajuda de forma tão comovente, que eu me sentia dividido entre o medo e a compaixão, e meu coração parecia prestes a se partir. Quando as almas foram levadas de mim, foram precipitadas nas profundezas do abismo pelos espíritos malignos com tanta violência que o céu e a terra pareciam tremer, e uma nuvem de faíscas voou para cima de tal forma que temi que elas me cobrissem. Por fim, para minha grande dor e pavor, vários espíritos malignos se aproximaram de mim, exalando raiva e fúria, e fazendo como se fossem me arrastar com eles para o abismo negro.

Então, em pânico absoluto, chorei, gritei e implorei por ajuda de algum lugar; pois, naquela densa escuridão, não via nada além de demônios zombeteiros, o abismo escancarado e as chamas crepitantes, e não sabia para onde me voltar em busca de salvação. Quando minha angústia estava no auge, meu guia reapareceu; ele me resgatou dos meus inimigos e me conduziu para fora daquele lugar escuro, imundo e horrível. Ele me disse, além disso, que eu deveria retornar ao meu corpo e que deveria dar a conhecer ao maior número possível de meus semelhantes a existência dessa terra de terrível escuridão'.

Além da obscuridade sinistra que prevalece no Inferno, causada pela fumaça sufocante que se eleva em nuvens densas do lago de enxofre, há aida a presença de demônios assustadores que aumentam a dor e o tormento dos condenados. Lemos na lenda de Santo Antônio, o Eremita, que os demônios frequentemente apareciam para ele sob várias formas, atormentando-o e aterrorizando-o de maneiras indescritíveis. Às vezes, assumiam a forma de feras, leões, ursos, dragões ou cães selvagens; outras vezes, apareciam em forma humana, como homens de aparência feroz, mulheres belas ou monstros de aspecto hediondo. Às vezes, eles o espancavam e maltratavam de forma tão bárbara que o deixavam meio morto; outras vezes, causavam-lhe tal terror com suas estranhas aparições espectrais que, se Deus e seu anjo da guarda não tivessem vindo em seu auxílio, ele teria expirado imediatamente.

Ora, se fizeram tudo isso a um homem de vida santa, sobre o qual não tinham nenhum poder legítimo, o que não farão no Inferno aos pecadores ímpios que estão completamente à sua mercê? Sem dúvida, esses espectros diabólicos, assumindo a forma de animais selvagens, se lançarão sobre os infelizes pecadores e os maltratarão vergonhosamente. Isso será um novo sofrimento para eles. Ninguém pode imaginar que novos terrores e tormentos a engenhosidade desses espíritos do Inferno inventará para atormentar os condenados e derramar sobre eles a sua malícia diabólica.

Se temes essa escuridão e todos os horrores que a acompanham, cuida para que temas as obras das trevas, sobre as quais Cristo diz: 'Todo aquele que pratica o mal odeia a luz e não vem para a luz, para que suas obras não sejam repreendidas' (Jo 3, 20). Mas se tu amas as trevas e buscas as trevas para que possas pecar com maior impunidade, não será um ato de injustiça da parte de Deus lançar-te nas trevas eternas e, ao morreres, dizer aos demônios: 'Porque durante toda a sua vida ele amou as trevas e as obras das trevas, amarrai-lhe as mãos e os pés e lançai-o nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes'.

Oxalá todos os pecadores obstinados pudessem ver isso e considerar os terríveis tormentos que aguardam os descuidados e indiferentes. Pois naquilo em que pecamos, também seremos punidos. E como em nossos dias há tantos cristãos mornos e negligentes que não têm o menor zelo pela religião ou pelos exercícios religiosos, os exortamos a terem cuidado para que não sejam um dia lançados no fogo do inferno por ordem daquele que se autodenomina Deus zeloso, e que é o único a ser temido, pois Ele pode 'destruir tanto o corpo quanto a alma no inferno'. Portanto, considerem, ó cristãos frios e descuidados, que destino os aguarda. Na verdade, se refletissem sobre esses tormentos terríveis, entrariam imediatamente em uma nova vida. Em vez de serem cristãos mornos, preguiçosos, negligentes e frios, tornariam-se rapidamente servos de Deus zelosos, ativos, escrupulosos e fervorosos.

Fora, então, com toda a tibieza, toda a indiferença na grande questão da nossa salvação. Quem quer que sejas, tu que lês isto, resolve cumprir teus deveres como cristão com toda a seriedade. Aproxima-te dos sacramentos com mais frequência do que tens feito até agora; assiste à missa com mais frequência do que até agora, sê mais assíduo e fervoroso na oração do que até agora. Pensa com mais frequência em Deus e nas coisas últimas. Assim, tu superarás a indiferença, a frieza que se apoderou de ti; farás de Deus teu amigo; a esperança da felicidade eterna surgirá dentro de ti e se tornará uma certeza abençoada. Que Deus conceda, por sua graça, que assim seja contigo e comigo!

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quinta-feira, 11 de junho de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXI)

            

PARTE III - O INFERNO

III. Sobre os odores repugnantes do Inferno

Para que nada falte às aflições do Inferno, com as quais as almas perdidas são atormentadas, Deus, em sua ira, decretou que essa prisão horrível fosse permeada por um fedor abominável, como castigo para aqueles que, quando na Terra, se deleitavam excessivamente com o uso de perfumes requintados.

A profecia de Isaías se cumprirá assim: 'Em vez de um aroma agradável, haverá um fedor' (Is 3,24). A matéria animal em decomposição emite um odor tão horrível que ninguém gosta de se aproximar dela. Mas se imaginarmos não uma única carcaça em decomposição, mas centenas de milhares amontoadas, o ar em um raio de quilômetros ficaria tão contaminado que causaria a morte de todos nas proximidades.

Mesmo esse fedor, porém, quando comparado ao fedor do Inferno, parece nada, ou melhor, um odor agradável. O húms que exala do Inferno provém principalmente do próprio lugar que é, por natureza, uma região das mais horríveis e imundas. Nenhuma lufada de ar puro jamais pode penetrar nas paredes hermeticamente fechadas daquela prisão. Além disso, todo o Inferno é um lago de enxofre e piche em chamas, e todos sabem quão repugnantes são os vapores que eles exalam. 

'Os incrédulos, os abomináveis, os assassinos, os fornicadores, os feiticeiros, os idólatras e todos os mentirosos terão sua parte na lagoa que arde com fogo e enxofre, que é a segunda morte' (Ap 21,8). O profeta da Nova Aliança fala aqui de um lago cheio de água estagnada, imunda e fétida, para a qual não há saída. Ele acrescenta que esse lago está cheio de enxofre ardente, do qual se eleva uma fumaça densa, como diz em outro lugar: 'A fumaça dos seus tormentos subirá para todo o sempre'.

Os próprios corpos dos réprobos são tão imundos e repugnantes que exalam um odor extremamente ofensivo, pior do que qualquer fedor neste mundo. Segundo São Boaventura, o corpo de um único réprobo contaminaria tanto o ar na terra a ponto de causar a morte de todos os seres vivos que se aproximassem dele. Se um único corpo exala um fedor tão horrível, que exalação será a que se eleva de muitos milhões desses seres miseráveis?

Conta-se que o tirano Maxêncio costumava, como castigo, mandar amarrar um homem vivo a um cadáver, rosto a rosto e membro a membro, até que a infeliz vítima desmaiasse, ou mesmo morresse pelo contato com o corpo morto e em decomposição. Essa é, de fato, uma tortura na qual ninguém consegue pensar sem estremecer. Quão pior será no Inferno, onde os corpos jazem próximos uns dos outros, sem qualquer esperança de serem separados. Por mais repugnante que seja esse fedor, ele se intensifica consideravelmente com a presença dos demônios que, naturalmente, são muito mais repulsivos ao olfato do que os corpos dos condenados.

Lemos na vida de São Martinho que o maligno lhe apareceu em certa ocasião, e o fedor que encheu a sala era tão insuportável que o santo disse para si mesmo: 'Se um único demônio tem um odor tão repugnante, como será o fedor no Inferno, onde há milhares de demônios todos juntos?' Quanto sofrimento esse fedor abominável deve causar aos condenados! Como deve agravar sua angústia e dor! 

Pois deve ser pestilento além de qualquer descrição, surgindo como surge de tantas fontes diferentes: o próprio Inferno, os corpos dos condenados, os demônios, os vermes e répteis, o fogo de piche e enxofre, todos e cada um deles mais fedorentos às narinas dos condenados. Julgai, pelo que foi dito, quão insuportáveis devem ser os odores combinados de todas essas coisas. Ai dos infelizes seres condenados a respirar tal atmosfera! Ai dos pobres pecadores que têm de habitar nela por eras sem fim! Eles devem sucumbir a ela, devem estar constantemente à beira da morte. Ó meu Deus, eu vos imploro pela vossa infinita clemência, poupai-me de um destino tão terrível!

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quinta-feira, 28 de maio de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XX)

           

PARTE III - O INFERNO

II. Sobre a fome e a sede padecidos no Inferno

Assim como os crimes pelos quais o pecador, nesta vida, provoca a ira de Deus são de vários tipos, também as dores do inferno, pelas quais esses crimes serão punidos, variam em sua natureza. Sabemos que os homens muitas vezes pecam por intemperança, entregando-se avidamente à comida e à bebida. Consequentemente, Deus designou uma pena severa para esse pecado no outro mundo. Cristo o prediz, de fato, com estas palavras: 'Ai de vós que estais saciados, pois tereis fome' (Lc 6,25).

Quando Nosso Senhor pronuncia a palavra 'Ai', Ele sempre pretende ameaçar ou predizer alguma grande calamidade. Consideremos por um momento o que isso realmente significa neste caso. É impossível para nós formarmos uma ideia verdadeira das dores da fome, porque nunca as sentimos. Se durante um dia inteiro alguém não tem nada para comer, o tempo parece muito longo e a pessoa deseja muito algum alimento. E se alguém fosse privado de qualquer alimento por dois ou três dias, que miséria seria! Mas se um homem não tivesse absolutamente nada para comer durante uma semana inteira e fosse deixado à mercê da fome, o que seria dele?

Em tempos de escassez e fome, fica-se horrorizado ao ver quais são os efeitos produzidos pela fome e que terrível flagelo é a escassez de alimentos. Pois, para acalmar as dores insuportáveis da fome, as pessoas devoram tudo o que conseguem encontrar: grama, folhas, animais imundos e repugnantes; sim, os homens chegaram até a se alimentar da carne de seus semelhantes, mães sacrificaram seus filhos, e sabe-se que alguns roeram sua própria carne. E quando os pobres infelizes famintos não têm mais nada, vagam como sombras de si mesmos, pálidos e emaciados como a própria morte.

Eles arrastam uma existência moribunda até que todas as suas forças se esgotem; finalmente, pela tortura da fome, perdem os sentidos; deliram, gritam e uivam, e morrem da mais miserável das mortes. Se tais são os efeitos da fome na Terra, como será a fome que se experimentará no Inferno?

Se a falta de comida por apenas alguns dias causa tal tortura, como será uma fome contínua e sem fim? Quem pode pensar sem horror na fome sofrida no Inferno! Ai daqueles que tiverem de suportá-la. O profeta Isaías testemunha a existência de uma fome real e efetiva no Inferno, nesta passagem da Sagrada Escritura: Deus assim fala pela boca do profeta: 'Porque eu chamei e vocês não responderam, falei e vocês não ouviram; eis que os meus servos comerão e vocês terão fome; eis que os meus servos beberão e vocês terão sede. Meus servos se alegrarão e vós ficareis confusos; meus servos louvarão com alegria no coração e vós chorareis de tristeza no coração, e uivareis de dor no espírito' (Is 65, 12-14). 

Quem pode dizer quão terrível será essa fome no Inferno? O salmista diz dos inimigos de Deus que sofrerão fome como cães (Sl 58,7). Os réprobos serão então constantemente atormentados pela fome mais voraz, por uma fome tão grande que excederá além da medida a fome suportada em tempos de fome, por uma fome que os atormentará para sempre.

O que vocês fizeram, ó infelizes pecadores! Vocês trouxeram sobre si mesmos esta dor eterna. Se tivessem feito penitência nesta vida, não teriam se tornado presas desta fome eterna. Mas vocês desejaram comer e se saciar em vida; consequentemente, agora devem suportar o que Cristo predisse que seria o seu destino: 'Ai de vocês que estão saciados, pois terão fome'.

Que tomem isto especialmente a sério aqueles que costumam negligenciar deliberadamente a observância dos jejuns prescritos e comer carne nos dias de abstinência. Pois quem come carne nos jejuns da Igreja sem necessidade e sem ter sido dispensado, comete um pecado grave. Fazer isso equivale a desafiar a Igreja e excluir-se voluntariamente de sua bênção. E aquele que persiste nesse pecado, e não se arrepende sinceramente dele, não pode esperar a felicidade eterna. O que poderia ser mais imprudente e insensato do que, por uma satisfação tão desprezível, expor-se ao perigo da perdição eterna! Ó pecador obstinado, para onde vais! Pensa na fome sem fim que será suportada no Inferno e tem piedade da tua própria alma!

Além da fome, os condenados sofrem a sede mais ardente, que está além do poder das palavras para descrever. Todos sabem quão terríveis são os sofrimentos causados pela sede: são simplesmente insuportáveis. Aqueles que são atormentados pela sede beberão das fontes mais impuras, e se nada puder ser obtido para saciar sua sede, o resultado será uma morte lenta e dolorosa. A sede sofrida pelas almas perdidas é infinitamente maior, mais intensa, mais dolorosa do que qualquer sede experimentada na terra, por maior que seja. Se um homem mortal pudesse senti-la mesmo que por um breve período, desmaiaria e morreria imediatamente.

Nunca há descanso ou trégua para os condenados; eles são levados de um tormento a outro incessantemente. Isso provoca sede. Mas o calor do fogo do Inferno, no qual ardem dia e noite, para todo o sempre, é a principal causa da sede intolerável que os consome. Eles estão imersos em chamas e nunca obtêm o alívio de um gole de água. Meu Deus, quão grande deve ser a sede deles! É insuportável, e ainda assim eles precisam suportá-la. Ouça o apelo lastimável de uma alma perdida implorando fervorosamente pela graça de uma única gota de água: 'Pai Abraão, tem misericórdia de mim e manda Lázaro molhar a ponta do dedo na água para refrescar a minha língua; pois estou atormentado nesta chama' (Lc 16,24). 

'Deus misericordiosíssimo, peço apenas água; anseio por apenas uma gota de água para dar alívio momentâneo à minha língua em chamas. Tu não recusarás um pedido tão moderado, Tu que és louvado por todas as tuas criaturas como a própria bondade'. Mas esta súplica é em vão. Deus faz ouvidos moucos à voz do seu apelo. Nem uma única gota de água é dada para mitigar os seus sofrimentos. É possível, ó meu Deus, que Tu possas ser tão severo? Pai de compaixão, por que não queres ouvir a oração deles? Tua justiça e Teu ódio ao pecado não te permitem ceder; eles te obrigam a punir o pecado eternamente e da maneira mais terrível.

Mas nos é dito que os condenados não apenas são atormentados por fome e sede excessivas, como também são alimentados com chamas e obrigados a beber do cálice da ira divina. 'Se alguém adorar a besta, também beberá do vinho da ira de Deus, que está misturado com vinho puro no cálice da sua ira, e será atormentado com fogo e enxofre. E a fumaça de seus tormentos subirá para todo o sempre' (Ap 14,10). No livro de Moisés também lemos: 'O vinho deles é o fel dos dragões e o veneno das víboras, que é incurável' (Dt 32,33).

Reflita, ó pecador, sobre esta agonia indescritível. Fogo e enxofre serão o alimento dos condenados e a sua bebida, o vinho da ira de Deus. O que pode exceder tal tortura? Meu Deus, quão rigoroso és! Quão severos são os teus castigos! Pensem, vós, pecadores, que agora bebeis em excesso, pensai qual é o vinho preparado para vós no futuro, pensai na terrível sede que vos consumirá por toda a eternidade. Se não suportais ter sede por um dia, como suportareis a sede ardente da qual nunca obtereis alívio? Refleti sobre isso em vosso coração e não vos entregueis mais à vossa intemperança. Abandonai esse vício, que infalivelmente vos arrastará para a perdição.

São Paulo fecha expressamente a porta do Céu para vocês, quando diz: 'Os bêbados não herdarão o reino de Deus' (1Cor 6,10). Aí está a sentença, pronunciada contra vocês de antemão. Se continuarem a seguir o caminho do mal, não poderão alegar ignorância quanto ao destino ao qual serão condenados.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)