sábado, 2 de março de 2024

QUAL FOI O DIA MAIS IMPORTANTE DA SUA VIDA?

Uma vida tem muitas vidas juntas
feitas de dias que parecem repetir cada vez mais depressa
de acontecimentos bons e ruins
que podem mudar o rumo ou o porto de chegada
num minuto,
num segundo talvez.

Quando você fez (fizer) 40 anos, você completou (completará) 14610 dias de vida
e, para sermos rigorosos, talvez 9740 dias de plena consciência
porque os outros 4870* dias você estava provavelmente dormindo.
Ainda assim, é bastante tempo, são muitos dias...

No tempo de uma vida, no tempo de sua vida,
Qual foi o dia mais importante da sua vida?
O dia em que você nasceu e que você comemora em aniversários de um dia?
O dia do seu casamento?
Quem sabe o dia em que nasceu o seu primeiro (a) filho (a)?
O dia da sua formatura? O dia em que você renasceu após um acidente?
Todos certamente são dias felizes
e certamente também, devem ter muitos outros até aqui... 

Tantos dias felizes que você teria dificuldade de lembrar
porque foram apenas dias felizes
perdidos nas memórias perdidas da infância e da mocidade
Dias sem dor, sofrimento, doença, cansaço, aborrecimentos,
dias sem intempéries ou problemas,
dias cotidianos, serenos... belos dias esquecidos...
Dos dias amargos, você tem memória de elefante não é?
Rememorando o que não leva a nada
e carregando pedras que deveriam ter ficado no caminho... 

Todos estes dias, por mais especiais que tenham sido,
foram apenas dias da vida que se leva.
O dia mais importante da sua vida - considera bem isso -
foi o dia do seu batismo
porque, neste torpor de dias que nós chamamos vida,
Deus, neste dia, neste abençoado e santo dia,
fez de você cidadão do céu
e lhe concedeu a eternidade dos dias,
infinitamente mais felizes que os dias felizes
que você ainda hoje chama de seus. 

(Arcos de Pilares)

* considerando um tempo de sono médio de 8h/dia, passamos 1/3 das novas vidas dormindo...

sexta-feira, 1 de março de 2024

O DOGMA DO PURGATÓRIO (LXXVI)

Capítulo LXXVI

Razões para o Socorro às Santas Almas - A Controvérsia entre o Irmão Bento e o Irmão Bertrand

Quando exaltamos tanto os méritos da oração pelos falecidos, não concluímos de forma alguma que outras boas obras devam ser omitidas, pois todas as outras boas obras devem ser exercidas de acordo com o tempo, o lugar e as circunstâncias. A única intenção que tínhamos em vista era dar uma ideia correta da misericórdia para com os falecidos e inspirar nos outros o desejo de a praticarem. Além disso, as obras espirituais de misericórdia, que têm por objetivo a salvação das almas, são todas de igual excelência, e é apenas em certos aspectos que podemos colocar a assistência aos mortos acima do zelo pela conversão dos pecadores.

Nas Crônicas dos Frades Pregadores (cf Rossign., Merv. I), conta-se que surgiu uma controvérsia bastante intensa entre dois religiosos dessa Ordem, o Irmão Bento e o Irmão Bertrand, a propósito dos sufrágios pelos defuntos. O motivo foi o seguinte: O Irmão Bertrand celebrava frequentemente a Santa Missa pelos pecadores e rezava continuamente pela sua conversão, impondo a si mesmo as mais severas penitências; mas raramente era visto a rezar a missa de exéquias pelos defuntos. 

O Irmão Bento, que tinha grande devoção pelas almas do Purgatório, tendo notado esta conduta, perguntou-lhe porque agia assim. 'Por que' - respondeu ele - 'as almas do Purgatório estão seguras da sua salvação, enquanto os pecadores estão continuamente expostos ao perigo de cair no inferno. Que condição mais deplorável do que a de uma alma em estado de pecado mortal? Ela está em inimizade com Deus, presa nas correntes do demônio, suspensa sobre o abismo do inferno pelo frágil fio da vida, que pode romper-se a qualquer momento. O pecador caminha no caminho da perdição; se continuar a avançar, cairá no abismo eterno. Devemos, portanto, ir em seu auxílio e preservá-lo desta que é a maior das desgraças, trabalhando pela sua conversão. Aliás, não foi para salvar os pecadores que o Filho de Deus veio à terra e morreu numa cruz? São Dênis assegura-nos também que a mais divina de todas as coisas divinas é trabalhar com Deus para a salvação das almas. No que diz respeito às almas do Purgatório, elas estão seguras, a sua salvação eterna está assegurada. Sofrem, são vítimas de grandes tormentos, mas não têm nada a temer do inferno, e os seus sofrimentos terão um fim. As dívidas que contraíram diminuem todos os dias e em breve gozarão da luz eterna; enquanto os pecadores são continuamente ameaçados com a condenação, a mais terrível desgraça que pode acontecer a uma das criaturas de Deus'.

'Tudo o que disseste é verdade' - respondeu o Irmão Bento - 'mas há uma outra consideração a fazer. Os pecadores são escravos de Satanás, por sua própria vontade. Seu jugo é de sua própria escolha, eles poderiam quebrar suas correntes se quisessem; enquanto as pobres almas no Purgatório podem apenas suspirar e implorar a assistência dos vivos. A eles é impossível romper os grilhões que as prendem às chamas torturantes. Suponhamos que encontrásseis dois mendigos, um doente, aleijado e desamparado, absolutamente incapaz de ganhar o seu sustento; o outro, ao contrário, embora em grande aflição, jovem e vigoroso; qual dos dois mereceria a maior parte da vossa esmola?' 'Certamente o que não podia trabalhar' - respondeu o Irmão Bertrand.

'Pois bem, meu caro padre - continuou o Irmão Bento - 'é exatamente o que se passa com os pecadores e as almas santas. Elas não mais podem ajudar a si próprias. O tempo da oração, da confissão e das boas obras já passou para elas; só nós podemos aliviá-las. É verdade que mereceram estes sofrimentos como castigo pelos seus pecados, mas agora lamentam e detestam esses pecados. Eles estão na graça e amizade de Deus; enquanto os pecadores são agora os seus inimigos. É certo que devemos rezar pela sua conversão, mas sem prejuízo do que devemos às almas sofredoras, tão caras ao coração de Jesus. Tenhamos compaixão dos pecadores, mas não nos esqueçamos de que eles têm todos os meios de salvação à sua disposição; devem romper os laços do pecado e fugir do perigo de condenação que os ameaça. Não parece evidente que as almas sofredoras têm mais necessidade e merecem uma parte maior da nossa caridade?'

Apesar da força desses argumentos, o Irmão Bertrand persistiu em sua opinião inicial. Então, na noite seguinte, ele vivenciou a aparição de uma alma do Purgatório, que o fez experimentar, por um curto espaço de tempo, a dor que ela mesma suportava. Esse sofrimento era tão atroz que parecia impossível suportá-lo. Então, como diz Isaías, a tortura deu-lhe o entendimento: vexatio intellectum dabit (Is 28,19) e convenceu-se de que devia fazer mais pelas almas sofredoras. Na manhã seguinte, cheio de compaixão, subiu os degraus do altar, vestido de preto, e ofereceu o Santo Sacrifício pelas almas dos falecidos.

Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog.


quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

SOBRE A FÉ E A INCREDULIDADE

1. 'E imediatamente Jesus estendeu a mão e o apoiou, e disse-lhe: Homem de pouca fé, por que duvidaste?' (Mt 14, 31)

2. 'Em verdade vos digo que qualquer que disser a este monte: Sê removido e lançado ao mar, e não duvidar em seu coração, mas crer que acontecerá o que diz, isso lhe será concedido' (Mc 11, 23)

3. 'Mas peça com fé, sem duvidar; porque quem duvida é como a onda do mar, levada pelo vento e lançada de um lugar para outro' (Tg 1, 6)

4. 'Mas, aquele que come apesar de suas dúvidas, condena-se, por não se guiar pela convicção. Tudo o que não procede da convicção é pecado' (Rm 14, 23)

5. 'Ele não confia nem nos seus próprios servos; até mesmo nos seus anjos encontra defeito' (Jó 4, 18)

6. 'Eis que Deus não confia nos seus santos, nem os céus são puros aos seus olhos' (Jó 15, 15)

7. 'Assim diz o Senhor: Maldito o homem que confia no homem e faz da carne a sua força, e o seu coração se afasta do Senhor' (Jr 17,5)

8. 'É melhor refugiar-se no Senhor do que confiar no homem' (Sl 118,8)

9. 'Não confieis em príncipes, nem no filho do homem em quem não há salvação' (Sl 146,3)

10. 'Portanto, quem crê que está de pé , tenha cuidado para não cair' (1Cor 10,12)

11. 'Portanto, amados, sabendo disso de antemão, tenham cuidado, para que, levados pelo erro de homens licenciosos, vocês não caiam da sua firmeza' (2Pd 3,17)

12. 'Amados, não acrediteis em todo espírito, mas provai os espíritos para ver se eles vêm de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo' (1Jo 4,1) 

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

FRASES DE SENDARIUM (XXIII)


'A humildade é o primeiro degrau da escada da sabedoria'
(São Tomás de Aquino)

Eis a nossa identidade como filhos de Deus no mundo: a humildade como armadura, a caridade como bagagem, a fé como único tesouro...

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

SERMÕES DO CURA D'ARS (XVII)

 SOBRE O ARREPENDIMENTO

 'Ai de mim, que tanto pequei durante a minha vida'
(Confissões, de Santo Agostinho)

Assim falava Santo Agostinho, quando pensava na sua vida de outrora, que tinha passado incessantemente no vício abominável da impureza. Sempre que o pensamento lhe ocorria, seu coração era dilacerado e devorado pelo arrependimento. 'Ó meu Senhor' - exclamava ele - 'eu vivi sem vos amar; ó meu Senhor, quantos anos preciosos eu perdi! Dignai-vos, Senhor, imploro-vos, apagar da vossa memória as minhas faltas passadas!' Ó lágrimas preciosas, ó contrição salutar, que fizeram de um tão grande pecador um tão grande santo!

Quão depressa um coração verdadeiramente contrito recupera a amizade de Deus! Ah, quem dera a Deus que, cada vez que deixamos passar os nossos pecados diante dos olhos da nossa mente, pudéssemos dizer com o arrependido Santo Agostinho: 'Ai de mim! Pequei muito durante a minha vida; tende piedade de mim, Senhor!' Como mudaríamos rapidamente o nosso modo de vida! Sim, meus irmãos, confessemos todos nós, aqui presentes, com o mesmo fervoroso arrependimento e sinceridade, que somos grandes pecadores que merecem experimentar toda a ira de Deus. E louvemos a infinita misericórdia de Deus, que nos dá abundantemente dos seus tesouros para nos consolar na nossa miséria.

Se os nossos pecados foram tão grandes e a nossa vida tão dissoluta, temos a certeza do seu perdão, se seguirmos o exemplo do filho pródigo e nos lançarmos com o coração contrito aos pés do melhor dos pais. Deixem-me mostrar-vos, meus amigos cristãos, que o nosso arrependimento deve ter esta qualidade antes de poder obter o perdão dos nossos pecados: O pecador deve, em consequência do seu arrependimento, odiar sinceramente os seus pecados e detestá-los.

Para vos fazer compreender plenamente o que significa o arrependimento, ou seja, a dor que os nossos pecados devem causar à nossa consciência, eu teria de vos mostrar, por um lado, a aversão que o Senhor tem por eles e os tormentos que teve de sofrer para obter o perdão de Deus Pai e, por outro lado, as bênçãos que perdemos ao cometermos pecados e os males que trazemos sobre nós próprios no outro mundo; mas nenhum homem será capaz de compreender isto plenamente.

Onde vos conduzirei, meus irmãos, para vos mostrar esse arrependimento? Para a solidão do deserto, talvez, onde tantos santos passaram vinte, trinta, quarenta, cinquenta ou mesmo oitenta anos de suas vidas, lamentando faltas que não eram faltas aos olhos do mundo. Não, o vosso coração não se comoveria com estas coisas. Ou conduzir-vos-ei à entrada do inferno, para que possais ouvir os gritos e uivos tristes, e o ranger de dentes, causados pelo arrependimento dos seus pecados; mas, embora amarga e difícil de suportar, a sua dor e arrependimento são inúteis. Não, meus irmãos, não aprenderíeis aqui o verdadeiro arrependimento que deveríeis sentir pelos vossos pecados. Ó se eu pudesse levar-vos ao pé da cruz que ainda está avermelhada com o precioso Sangue de nosso Senhor, derramado para lavar os nossos pecados! Se eu pudesse levar-vos àquele jardim de dor, onde nosso Senhor derramou pelos nossos pecados, não lágrimas comuns, mas sangue, que fluiu de todos os poros do seu corpo! Se eu pudesse mostrar-vos Jesus carregando a cruz, cambaleando pelas ruas de Jerusalém, a cada passo tropeçando e sendo impelido aos pontapés. Ah se eu pudesse levar-vos ao Monte Calvário, onde Nosso Senhor morreu, por causa da nossa salvação.

Mas mesmo que eu pudesse fazer tudo isso, seria necessário que Deus vos desse a graça de inflamar no vosso coração o amor ardente de um São Bernardo, que se desfazia em lágrimas só de ver a cruz. Que belo e precioso arrependimento, como é feliz aquele que te guarda no seu coração! Mas a quem me dirijo: onde está aquele que o sente no seu coração? Ai de mim, não sei. Será ao pecador obstinado que abandonou o seu Deus e negligenciou a sua alma durante vinte ou trinta anos? Não, isso seria como tentar amolecer uma pedra deitando-lhe água em cima. Ou para aquele cristão que negligenciou missões, deixou de orar e desprezou as admoestações de seu conselheiro espiritual? Não, isso seria como tentar aquecer a água adicionando gelo sobre ela. Ou, talvez, para aquelas pessoas que se sentem satisfeitas se cumprirem seu dever pascal, e então, ano após ano, continuam no mesmo curso pecaminoso de vida? Não, essas são as vítimas que são engordadas para servirem de alimento às chamas eternas. Ou para os cristãos que comungam todos os meses e voltam a cair nos seus pecados todos os dias? Não, porque são como os cegos, que não sabem o que fazem, nem o que devem fazer.

A quem me hei de me dirigir então? Infelizmente não sei. Ó meu Senhor, onde é que o vou procurar, onde é que o vou encontrar? Sim, meu Senhor, eu sei de onde vem e quem o dá. Vem do céu, e Vós o concedeis, Senhor. Meu Senhor, nós Vos suplicamos, concedei-nos o arrependimento que esmaga e devora o nosso coração; este belo arrependimento que desarma a justiça de Deus e transforma uma eternidade de miséria em felicidade eterna. Ó bela virtude, como és necessária, e como é raro encontrá-la! E, no entanto, sem ela não há perdão, não há céu e, mais do que isso, sem ela tudo é em vão: penitência, caridade, esmola ou qualquer outra coisa que possamos fazer para ganhar a recompensa eterna.

Mas podemos perguntar: O que significa essa palavra 'arrependimento' e como podemos saber se o temos ou não? Meus irmãos, se me ouvirem, explicar-lhes-ei como podem saber se o têm ou não, e se não o têm, como podem obtê-lo. Se me perguntardes o que é o arrependimento, dir-vos-ei que é uma angústia da alma e um detestar do pecado passado, e uma firme resolução de nunca mais pecar. Sim, meus irmãos, esta é a mais importante de todas as condições que Deus impõe antes de perdoar os nossos pecados, e nunca pode ser dispensada. Uma doença que nos priva da fala, pode dispensar-nos da confissão; uma morte súbita pode dispensar-nos da necessidade de dar satisfação pelos nossos pecados durante a vida, mas com o arrependimento é diferente.

Sem ele, é impossível, absolutamente impossível, obter o perdão. Sim, meus irmãos, devo dizer com profundo pesar que a falta de arrependimento é a causa de um grande número de confissões e comunhões sacrílegas, e o que é ainda mais de lamentar é a circunstância de muitos não se aperceberem do triste estado em que se encontram, e viverem e morrerem nele. Ora, meus amigos, se tivermos a infelicidade de esconder um pecado na confissão, esse pecado está constantemente diante dos nossos olhos como um monstro que ameaça devorar-nos, e faz com que nos confessemos de novo em breve, para nos libertarmos dele. Mas é diferente com o arrependimento; confessamo-nos, mas o nosso coração não participa na acusação que fazemos contra nós próprios. Aproximamo-nos do Santo Sacramento com um coração tão frio, insensível e indiferente, como se estivéssemos a praticar um ato indiferente e sem consequências.

Assim vivemos de dia para dia, de ano para ano, até nos aproximarmos da morte, quando esperamos encontrar alguma coisa que nos tenha honrado, mas só descobrimos os sacrilégios que cometemos com as nossas confissões e comunhões. Ó meu Deus, quantos cristãos há que, na hora da morte, só descobrirão confissões inválidas! Mas não vou aprofundar mais este assunto, com receio de vos assustar e, no entanto, deveríeis ser levados à beira do desespero, para que parásseis imediatamente e melhorásseis a vossa condição agora mesmo, em vez de esperardes até ao momento em que reconhecereis a vossa condição, e em que será demasiado tarde para a melhorar. Mas continuemos com a nossa explicação, e logo sabereis, meus irmãos, se tivestes o arrependimento em todas as vossas confissões, que é tão absolutamente necessário para o perdão dos pecados.

Eu disse que o arrependimento é uma angústia de alma. É absolutamente necessário que um pecador chore pelos seus pecados, quer neste mundo, quer no outro. Neste mundo, podemos apagar os nossos pecados através do arrependimento, mas não no outro. Devemos estar muito gratos ao nosso querido Senhor pelo fato de a angústia da nossa alma ser suficiente para que Ele a deixe ser seguida de uma alegria eterna, em vez de nos fazer sofrer esse arrependimento eterno e essas terríveis torturas que seriam o nosso destino na outra vida, isto é, o inferno. Ó meu Deus, com quão pouco Te satisfazes!

Deixai-me dizer-vos que esta angústia de alma deve ter quatro qualidades; se faltar uma delas, não podemos obter o perdão dos nossos pecados. Não é necessário que se manifeste necessariamente em lágrimas; elas são boas e úteis, mas não são essenciais. É um fato que, quando São Paulo e o ladrão penitente se voltaram para Deus, não consta que tenham chorado, mas a sua angústia de alma era sincera. Não, meus amigos, não deveis confiar apenas nas lágrimas. Elas são muitas vezes enganadoras, e muitas pessoas choram no confessionário e voltam a cair no mesmo pecado na primeira oportunidade. A angústia de alma que Deus exige de nós é como aquela de que fala o profeta: 'Rasgai o vosso coração e não as vossas vestes. Um sacrifício a Deus é um espírito aflito; um coração contrito e humilde, ó Deus, não desprezarás'.

Por que Deus exige que o nosso coração sinta esta angústia? Porque é no coração que cometemos os nossos pecados. 'É no coração' - diz o Senhor - 'que têm origem todos os maus pensamentos, todos os desejos pecaminosos'. Portanto, se o nosso coração é culpado, o coração deve sofrer, ou Deus nunca nos perdoará. A segunda qualidade desta angústia que devemos sentir pelos nossos pecados é que ela deve ser sobrenatural; isto é, deve ser provocada pelo Espírito Santo e não por causas naturais. Preocupar-se com um pecado que cometemos, porque ele nos excluiria do paraíso e nos levaria ao inferno, é um motivo sobrenatural, do qual o Espírito Santo é o originador, e levará ao verdadeiro arrependimento. Mas preocupar-se com um pecado por causa da vergonha que será a consequência, ou da desgraça que ele nos causará, isso é meramente uma tristeza natural, que não merece perdão. É perfeitamente claro, então, que a angústia de alma causada por nossos pecados deve surgir de nosso amor a Deus e nosso medo de seu castigo.

Aquele que, em seu arrependimento, só pensa em Deus, sente um arrependimento perfeito. Mas aquele que só se arrepende dos seus pecados apenas por causa dos castigos temporais que eles lhe trarão, não tem um arrependimento correto e não tem justificação para esperar o perdão dos seus pecados. A terceira qualidade do arrependimento é que ele deve ser ilimitado, ou seja, a angústia que ele provoca deve ser maior do que qualquer outra tristeza, como, por exemplo, pela perda de nossos pais, ou de nossa saúde, ou em geral pela perda de qualquer coisa que nos é mais cara nesta vida. A razão pela qual a nossa dor deve ser tão grande é porque deve ser equivalente à perda que nos causará e à desgraça que nos trará após a nossa morte. Imaginai, pois, quão grande deve ser a nossa angústia por um pecado que nos priva de todas as glórias do céu, afasta de nós o nosso querido Senhor e nos lança no inferno, que é a maior de todas as desgraças.

Mas, perguntareis, como poderemos saber se possuímos este verdadeiro arrependimento? Nada é mais fácil. Se estiverdes verdadeiramente arrependidos, não agireis nem pensareis como dantes, mudareis completamente o vosso modo de vida; odiareis o que amastes e amareis o que desprezastes e evitastes. Por exemplo, se tiverdes de confessar que, no agir e no falar, éreis de temperamento apressado, sereis doravante notáveis pela vossa brandura de comportamento e pela vossa consideração para com todos. Não é preciso preocupar-se em saber se fez uma confissão perfeita, pois erros são facilmente cometidos, mas a consequência da sua confissão deve ser que as pessoas digam de você: 'Como ele mudou, não é o mesmo homem. Uma mudança maravilhosa se operou nele!' Ó meu Senhor, como são raras as confissões que provocam uma mudança tão grande! A quarta e última qualidade é que o arrependimento deve ser abrangente. Vemos na vida dos santos, no que diz respeito à abrangência do arrependimento, que não podemos receber o perdão de um pecado mortal, mesmo que nos tenhamos arrependido corretamente do mesmo, se não sentirmos o mesmo arrependimento por todos os nossos pecados mortais.

A história fornece-nos um exemplo que nos mostra como os santos consideravam absolutamente necessária esta angústia pelos nossos pecados, para obter o perdão. Um dos oficiais papais adoeceu. O Santo Padre, que tinha grande estima pela sua bravura e santidade de vida, enviou um dos seus cardeais para lhe manifestar a sua simpatia e dar-lhe a absolvição. 'Dizei ao Santo Padre' - disse o moribundo ao Cardeal - 'que lhe estou muito grato pela sua ternura, mas dizei-lhe também que lhe ficaria infinitamente mais grato se ele rezasse a Deus para me obter a graça de um verdadeiro arrependimento dos meus pecados. Pois, de que me serve qualquer coisa, se o meu coração não se partir de angústia ao pensar que ofendi um Deus tão bom. Fazei, Senhor, se for possível, com que o arrependimento dos meus pecados seja igual à ofensa que vos fiz!'

E essa disposição é obtida pela oração - oração sincera e fervorosa: 'Ó meu Deus, criai em mim um coração puro, e renovai-me o espírito de firmeza. De vossa face não me rejeiteis, e nem me priveis de vosso Santo Espírito' (Sl 50,12-13). A este arrependimento, deve-se juntar naturalmente o firme propósito de não voltar a cometer o pecado; e este é o coração contrito e humilde que Deus não despreza. Desse modo, Ele o receberá novamente como seu filho e lhe restituirá todos os privilégios de um filho de Deus e herdeiro do Reino Celestial.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

A TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR

A beleza e a glória de Cristo transfigurado expressam a vida plena prometida por Deus aos que o amam e também a beleza e a glória da natureza humana renovada. No Tabor, a transfiguração de Jesus manifesta a transformação gloriosa da natureza humana, outrora obscurecida em Adão, sob o esplendor da divina essência. 

domingo, 25 de fevereiro de 2024

EVANGELHO DO DOMINGO

  

'Andarei na presença de Deus, junto a Ele na terra dos vivos' (Sl 115)

Primeira Leitura (Gn 22,1-2.9a.10-13.15-18)  Segunda Leitura (Rm 8,31-34)  Evangelho (Mc 9,2-10)

 25/02/2024 - Segundo Domingo da Quaresma

13. A TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR


'Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, e os levou sozinhos a um lugar à parte, sobre uma alta montanha' (Mc 9,2). Uma alta montanha, o Monte Tabor. Como testemunhas da extraordinária manifestação da glória celeste e da vida eterna em Deus, Jesus conduz os três apóstolos escolhidos para o alto, numa clara assertiva de que é por meio do profundo recolhimento interior e da elevação da alma muito acima das coisas do mundo é que podemos viver efetivamente a experiência plena da contemplação de Deus.

'E transfigurou-se diante deles. Suas roupas ficaram brilhantes e tão brancas como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar' (Mc 9,2-3). No mistério da transubstanciação do Senhor, os apóstolos testemunharam antecipadamente alguma coisa dos mistérios de Deus. Algo profundamente diverso da natureza humana, pois nascido direto da glória de Deus. Algo muito limitado da Visão Beatífica, posto que deveria atender sentidos humanos: 'nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem jamais passou pelo pensamento do homem o que Deus preparou para aqueles que o amam' (1Cor 2,9). Ainda assim, algo tão extraordinário e consolador, que perturbou completamente aqueles homens e, ao mesmo tempo, os moldou definitivamente na certeza da vitória e da ressurreição de Cristo.

'Apareceram-lhe Elias e Moisés, e estavam conversando com Jesus' (Mc 9,4). A revelação da glória de Deus é atestada pela Lei e pelos Profetas, pelo Senhor da vida e da morte, pelos textos das Sagradas Escrituras. Naquele momento, se fecha a Lei e a morte (com Moisés) e se cumprem todas as profecias e se impõe a vida eterna em Deus (com Elias, que ainda vive). E, para não se ter dúvida alguma, Deus se pronuncia no Alto do Tabor em favor do Filho: 'Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz!' (Mc 9,7).

Do alto do Tabor, a ordem divina ecoa pelos tempos e pelas gerações humanas a todos nós, transfigurados na glória de Deus pelo batismo e herdeiros do Tabor eterno: 'Escutai o que ele diz!'. Como batizados, somos como os apóstolos descidos do monte e novamente envoltos pelas brumas e incredulidades do mundo. Pela transfiguração, entretanto, somos encorajados a vencer o mundo como Cristo, a superar a fragilidade dos nossos sentidos, a elevarmos nosso pensamento às coisas do Alto, a manifestar em nós a glória de Deus como primícias do Céu, sob o consolo da fortaleza e da perseverança: 'Se Deus é por nós, quem será contra nós?' (Rm 8,31b).

sábado, 24 de fevereiro de 2024

SOBRE O CONHECIMENTO E A LEI NATURAL

Passemos a outra matéria que demonstra, por sua vez, a providência divina. Qual é essa matéria? Que Deus, ao formar lá no princípio o homem, imprimiu no seu ser uma lei natural. Mas, que é a lei natural  Pôs-nos Deus interiormente a consciência e fez que tivéssemos por natureza o conhecimento do bem, e do mal, que é o seu contrário. Porque não necessitamos aprender que a fornicação é má e que a continência é boa, já que conhecemos isto desde o princípio. E para que vejas que sabemos isso desde o princípio, mais tarde, o Legislador, ao promulgar a lei, e dizer: 'Não matarás!' (Ex 20, 13), não acrescentou: porque o homicídio é mau, mas disse simplesmente: 'não matarás': proibiu, pois, somente o pecado, não ensinou.

Mas por que quem disse 'não matarás', não acrescentou 'porque o homicídio é mau'? Porque já antes a consciência nos ensinou isso e, por esta razão, o Legislador fala como com pessoas que sabem e entendem isso. Ao contrário, quando fala de utro mandamento, que não nos é conhecido pela consciência adulta, não se limita a proibir, mas acrescenta o motivo. Deste modo, ao estabelecer a lei do sábado, diz: 'No sétimo dia não trabalharás' (Ex 20, 10). E acrescenta o motivo do descanso. Qual é? Porque, diz, no sétimo dia Deus descansou de todos os trabalhos que tinha feito (Ibid). Então, diz-me, por que ao falar do sábado acrescentou a causa, enquanto que ao falar do assasínio não fez o mesmo?

Porque aquele mandamento não era dos primários, nem dos conhecidos exatamente pela consciência, mas para um tempo particular  e por isso depois foi abolido. Pelo contrário, os necessários e que se prolongam na nossa vida são: 'não matarás, não fornicarás, não roubarás'. E por isso aqui não acrescenta nenhum motivo, nem introduz um ensinamento, basta unicamente a proibição.

Não somente por isso, mas também por outro motivo procurarei demonstrar-vos como o homem é autodidata no conhecimento da virtude. Adão cometeu o primeiro pecado e escondeu-se imediatamente depois do pecado. Mas se não conhecia que tinha feito uma coisa má, por que se escondia? Não existiam ainda escrituras, nem lei e nem Moisés; como conheceu o pecado para o qual se escondia? E não só se escondeu, mas também acusado, esforçou-se por deitar a culpa a outro, dizendo: 'a mulher que me deste deu-me da árvore e comi (Gn 3, 12); esta, por sua vez, deita a culpa a outro, à serpente. 

Repara na sabedoria de Deus: com efeito, tendo dito Adão 'Ouvi a tua voz e tive medo, porque estava nu, e escondi-me' (Gn 3, 10), Deus não lhe deitou na cara imediatamente o que tinha acontecido, nem disse 'por que comeste da árvore?', mas 'quem te disse que estavas nu' (Gn 3, 11) senão por ter comido da árvore que lhe tinha sido indicado que não comesse? Não se calou nem o repreendeu claramente; não se calou para o convidar a confessar o pecado; não o repreendeu claramente para que não fosse todo seu (de Deus) e,assim, aquele ficasse privado do perdão que nos veio pela confissão. Por isso não lhe disse claramente a causa de onde procedia o conhe cimento, mas falou em forma de pergunta para dar àquele a oportunidade de confessar. 

Podes ver isto mesmo novamente em Caim e Abel. Primeiramente ofereciam a Deus as primícias dos seus trabalhos. Mostremos, não só pelo lado do pecado mas também pelo lado da virtude, que o homem estava capacitado para saber ambas as coisas. Que, portanto, o homem sabia que o pecado é mau, mostrou-o Adão; que também sabia que a virtude é boa, tornou-o claro Abel. Sem ter sido ensinado por ninguém, sem ter ouvido uma lei que lhe falasse das primícias, mas por si mesmo e instruído pela consciência, ofereceu aquele sacrifício. Por isso não falou dos seus descendentes, mas dos primeiros homens quando ainda não havia escrituras, nem lei e nem profetas e juizes, mas somente Adão e os seus filhos, para que vejas que o conhecimento das coisas boas e das contrárias estava fixado já de antes na natureza. 

Como, pois, aprendeu Abel que é bom oferecer sacrifícios, que é bom honrar a Deus e dar-lhe graças por todas as coisas? Então? Será que Caim não ofereceu sacrifícios? Sim, também ofereceu, mas não do mesmo modo. E, assim, põe-se novamente de manifesto o conhecimento da consciência porque, efetivamente, como invejava ao que tinha sido honrado e deliberava acerca do assassínio, escondia a decisão mentirosa. E que diz? 'Vamos! Saiamos ao campo' (Gn 4, 8). Uma coisa é a aparência e a simulação da caridade; mas outra distinta é a intenção e a decisão do fratricídio. Mas se pensava que não era mau o que tinha planejado, por que razão o escondia? Uma vez cometido o assassínio, interrogado novamente por Deus: 'Onde está o teu irmão Abel?', disse: 'Não sei! Sou eu, acaso, guarda do meu irmão?' (Gn 4, 9). Por que nega? Não está claro que se condena duramente a si mesmo? Do mesmo modo que o seu pai se tinha escondido, assim também o faz.

... Como se manifesta isto? Por aquelas coisas pelas que se castigou outros que pecaram, pelas que se promulgou leis, pelas que se instituiu tribunais. Paulo, manifestando isto, dizia dos que vivem no vício: 'os quais conhecendo a justiça de Deus, segundo a qual os que fazem tais coisas são dignos de morte, não só as fazem, mas aprovam inclusive aos que as fazem' (Rm 1, 32). E como souberam que é vontade de Deus que os que vivem na maldade sejam castigados com a morte? Como? Se, efetivamente, não crês que o homicídio é mau, ao apanhar um homicida, não o castigues com o teu voto; se não crês que cometer adultério é mau, quando te encontrares com um adúltero não o castigues. Mas se escreves leis contra os pecados de outros e determinas castigos, e és severo, que defesa podes ter naquelas coisas em que tu próprio pecas? Dizendo que desconheces o que se deve fazer? 

Pecaste tu e aquele. Porque castigas àquele e te consideras a ti próprio digno de perdão? Se não sabias que o adultério era mau, não deve ser castigado nenhum dos dois; se castigas o outro e pensas tu fugir do castigo como poderá parecer racional que os réus dos mesmos crimes não sofram o mesmo castigo? (...) Posto que, com efeito, dará a cada um conforme às suas obras, pôs por isto em nós a lei natural e, mais tarde, deu-nos a lei escrita, para impor penas aos pecadores e coroar os que atuam retamente. Atuemos, pois, nas nossas ações com grande cuidado e como pessoas que tem que apresentar-se ao juízo tremendo, sabendo que não gozamos de nenhuma indulgência, se depois da lei natural e escrita e de tanta doutrina e de contínuas advertências, ainda descuidamos da nossa salvação.

(Das Homilias das Estátuas, aos cristãos de Antioquia, de São João Crisóstomo)

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

TRABALHA E LUTA, COMO UM BOM SOLDADO DE CRISTO!

Labora sicut bonus miles Christi (II Tm 2,3) - Trabalha como um bom soldado de Cristo.Os combates pelo amor são longos e por vezes difíceis, e toda alma, por pouco generosa que seja, verifica em si mesma, em dados momentos, um movimento de depressão que se chama desânimo. Essa depressão nasce insensivelmente da acumulação de contratempos e reveses sucessivos. A alma sente-se abatida depois, de repente, de um acidente qualquer, de uma pequena indisposição, de uma fadiga corporal, de uma palavra de repreensão, de uma falta de atenção que sobrevém a nosso respeito e, então, a alma desanima.

Então tudo se torna pesado. A conversação espiritual é insípida, os livros que de ordinário a estimulavam perdem o sabor, os exercícios espirituais tornam-se um ônus intolerável. Nada a encoraja, tudo a aborrece e a desgosta. A vida espiritual parece uma ilusão; atingir-lhe o cimo, uma impossibilidade. E ela senta-se tristemente a meia encosta sem forças para as alturas. Eis, por certo, um sério obstáculo, que impede por vezes o caminho às almas mais resolutas. Importa procurar as causas do desânimo e os meios de frustrar-lhes a influência paralisante.

Antes de tudo, o que deve consolar-te, alma piedosa, é não seres tu a única, sujeita a essas depressões passageiras. As melhores almas sofrem por vezes desse mal. Jesus, em sua infinita sabedoria, permite de bom grado que as almas mais dispostas sintam algumas vezes sua impotência pessoal. 'Não é extraordinário' - como diz São Francisco de Sales - 'que a miséria se sinta por vezes miserável'. Não é de estranhar que a natureza se canse e não queira mais avançar. Não é de admirar que o  nosso corpo, como o asno de Balaão, recuse às vezes, os seus serviços e, insensível aos golpes, se deixe abater antes que nos conduzir.

A razão dessa canseira é quase sempre uma série de exercícios espirituais e trabalhos exteriores por demais longa. É preciso que tudo se faça com medida e não exigir do corpo e do espírito senão o que eles podem razoavelmente dar. É preciso, pois, repousar, confortar-se a tempo, e depois dizer com nova energia: 'Vamos! Ainda um pouco de tempo, o cimo já não está tão longe, Deus ajudará. Para frente!'

Os sentidos do homem são inclinados, desde tenra idade, para o sensível e fascinados pelos objetos exteriores. A razão não conhece a existência de Deus, senão por um trabalho de educação. Tudo que ele sabe do mundo sobrenatural sabe-o por ouvir dizer! E esse ser tão ínfimo, tão ignorante e tão inclinado para o mal, que somos nós, quer aspirar, por um esforço contínuo, a tornar-se amante apaixonado de uma beleza superior. Quer esgotar, para atingir esse ideal, todas as forças de sua alma e de seu corpo, e a cada inspiração, a cada apelo apenas perceptível, de uma graça invisível, quer elevar-se ainda mais alto.

Esse homem fraco, feito de sangue e de pó, propõe-se renunciar a todas as aspirações animais, modificar-se, contradizer-se, corrigir seu raciocínio e seu coração, não uma vez por acaso, mas sempre, e isso sob a influência de um agente misterioso que ele não vê e no qual crê e cujo socorro implora. Não, uma vida tão heróica só pode ser levada graças a uma luta incessante. Como é belo ver esse homem, exposto a todas as seduções, a todos os ataques do mundo e do inferno, a todas as conivências íntimas, voltar-se para Deus, impertubavelmente, apesar de suas fraquezas!

Também a santidade não exclui a luta, ela a supõe e a exige. A perfeição na terra não é o repouso nem o prazer. Não é um estado fixo. É uma ascensão para Deus, uma continuidade de esforços, uma tendência incessante para aproximar-se do ideal sobrenatural: ad ea vero quae priora sunt extendens meipsum (Fp 3,13). Toda santidade no mundo é relativa; pode e deve aumentar continuamente. Quanto mais a alma se une a Deus, e afunda-se na sua infinidade, tanto mais os espaços se estendem e os horizontes se ampliam. É o infinito a atravessar.

Afasta, pois, de teu espírito essa falsa ideia de que aqui na terra encontrarás repouso. Não estás no mundo para se deleitar de Deus, mas para amá-lo no trabalho, no sofrimento e na luta. E se há luta, haverá quedas algumas vezes; o soldado que combate valorosamente expõe-se a golpes e ferimentos, porém suas cicatrizes são para ele títulos de glória. Muitos há que não distinguem, na vida espiritual, a parte que lhes pertence e a que pertence a Deus.

(Excertos da obra 'O Divino Amigo', do Pe. Schrijvers)

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

ORAÇÃO: MEDIA VITA IN MORTE SUMUS

MEDIA VITA IN MORTE SUMUS é um canto gregoriano tradicionalmente atribuído a Notker, o Gago (840-912), monge beneditino da Abadia de Saint Gall (Suiça). Este hino era entoado tanto em cerimônias litúrgicas como em ritos de preparação para guerras religiosas, particularmente considerando a condição efêmera da existência humana que busca, no auxílio divino, a paz de espírito diante a inevitabilidade da morte.


MEDIA VITA IN MORTE SUMUS

Media vita in morte sumus:
quem quærimus adiutorem,
nisi te Domine,
qui pro peccatis nostris iuste irasceris?

Sancte Deus,
Sancte fortis,
Sancte misericors Salvator,
amaræ morti ne tradas nos.

In te speraverunt patres nostri,
speraverunt et liberasti eos.

Sancte Deus,
Sancte fortis,
Sancte misericors Salvator,
amaræ morti ne tradas nos.

Ad te clamaverunt patres nostri,
clamaverunt, et non sunt confusi.

Sancte Deus,Sancte fortis,
Sancte misericors Salvator,
amaræ morti ne tradas nos.

Gloria Patri, et Filio, et Spiritui Sancto.

Sancte Deus,
Sancte fortis,
Sancte misericors Salvator,
amaræ morti ne tradas nos.


NO MEIO DA VIDA, NA MORTE ESTAMOS

No meio da vida, na morte estamos,
a quem recorrer a não ser a Vós, Senhor,
que vos irais com justiça pelos nossos pecados?

Deus Santo,
Deus Forte,
Santo e misericordioso Salvador
não nos imponha uma amrga morte.

Nossos pais puseram sua confiança em vós,
esperaram e vós os livrastes.

Deus Santo,
Deus Forte,
Santo e misericordioso Salvador
não nos imponha uma amarga morte.

A vós clamaram nossos pais
clamaram e não foram confundidos.

Deus Santo,
Deus Forte,
Santo e misericordioso Salvador
não nos imponha uma amarga morte.

Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.

Deus Santo,
Deus Forte,
Santo e misericordioso Salvador
não nos imponha uma amarga morte.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

TESOURO DE EXEMPLOS (301/305)


301. JUSTO REMORSO

O herege Berengário, mesmo depois de fazer penitência de seus pecados, à hora da morte experimentou grandes angústias, causadas pelos remorsos da consciência. E dizia ao sacerdote que o socorria e animava naquela hora tremenda: 'Não temo os meus pecados, mas os que cometeram as almas a quem dei escândalo'. E tudo isto, apesar de que, para reparar esses pecados de escândalo, dera muito bom exemplo e se dedicara em sua casa ao ensino do catecismo.

302. MAUS CONSELHEIROS

Os cortesãos do imperador Frederico III, tutor do rei Ladislau da Hungria, sugeriram-lhe o envenenamento do seu pupilo para se apoderar da coroa. Mas o nobre imperador replicou-lhes: 'É este o conselho que me dais, homens sem fé e sem honra? Fora daqui! Que meus olhos não vos tornem a ver'. E os cortesãos foram expulsos da côrte e desterrados em castigo de seu criminoso conselho.

303. O MELHOR CILÍCIO

Uma senhora piedosa - ou que o julgava ser - era muito inclinada à maledicência e encontrava defeitos em toda gente. Um dia pediu ao diretor espiritual licença para colocar o cilício. O sacerdote, homem de muita experiência, conhecia a fundo a sua penitente. Pôs os dedos sôbre os lábios e disse: 'Filha, para a senhora, o melhor cilício será deixar de prestar atenção a tudo o que se passa além dessa porta'.

304. FUNDAMENTO DO DEVER

O dogma é a base da moral. Quando Miguel Renaud, em 1871, foi eleito deputado, ao chegar a Versalhes, alugou um apartamento por 150 francos mensais. Pagou adiantado. O proprietário perguntou-lhe se queria que lhe passasse o recibo. O deputado respondeu:
➖ Para que passar recibo entre homens de bem? Deus nos vê.
➖ O senhor crê em Deus? - perguntou o dono da casa.
➖ Creio, naturalmente - respondeu Miguel.
➖ Pois eu não - replicou o outro.
➖ Nesse caso, passe-me logo o recibo - disse o deputado - porque quando não se tem fé, a moral carece de fundamento.

305. CARLOS MAGNO E OS MANDAMENTOS

Carlos Magno, um dos maiores soberanos, foi provado por Deus com a morte de quatro dos seus filhos. Restando-lhe somente o seu filho Luís, quis associá-lo ao império. Chegado o momento solene, quando todos os magnatas rodeavam o altar sobre o qual estava a coroa, Carlos Magno volveu-se para o filho e, cheio de emoção, disse: 'Filho querido de Deus e do povo; tu, a quem Deus conservou para meu consolo, vês que minha vida está declinando; que os meus anos passam e a morte se aproxima. Prometes-me temer a Deus, guardar os mandamentos e proteger a Igreja?' Luís prometeu chorando de comoção. Carlos Magno, pondo a coroa sobre a cabeça de seu filho, acrescentou: 'Recebe, pois, a coroa e jamais te esqueças de teu juramento!'

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos', do Pe. Francisco Alves, 1958; com adaptações)


terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

SOBRE A TIBIEZA E A MISÉRIA HUMANA


1. Miserável serás, onde quer que estejas e para onde quer que te voltes, se não te voltares para Deus. Por que te afliges, quando não te correm as coisas a teu gosto e vontade? Quem é que tem tudo à medida de seu desejo? Nem eu, nem tu, nem homem algum sobre a terra. Ninguém há no mundo sem nenhuma tribulação ou angústia, quer seja rei quer papa. Quem é que vive mais feliz? Aquele, de certo, que sabe sofrer alguma coisa por Deus.

2. Dizem muitos mesquinhos e tíbios: Olhai, que boa vida tem este homem: quão rico é, quão grande e poderoso, de que alta posição! Olha tu para os bens do céu, e verás que nada são os bens corporais, mas muito incertos e onerosos, pois nunca vive sem temor e cuidado quem os possui. Não consiste a felicidade do homem na abundância dos bens temporais; basta-lhe a mediania. O viver na terra é verdadeira miséria. Quanto mais espiritual quer ser o homem, mais amarga lhe será a vida presente, porque conhece melhor e mais claramente vê os defeitos da humana corrupção. Porque o comer, beber, velar, dormir, descansar, trabalhar e estar sujeito a todas as demais grandes misérias e aflições para o homem espiritual que deseja estar isento disto e livre de todo pecado.

3. Sim, muito oprimido se sente o homem interior com as necessidades corporais neste mundo. Por isto roga o profeta a Deus, devotamente, que o livre delas, dizendo: 'Livrai-me, Senhor, das minhas necessidades' (Sl 25,17)). Mas, ai daqueles que não conhecem a sua miséria, e, outra vez, ai daqueles que amam esta miserável e corruptível vida! Porque há alguns tão apegados a ela - posto que mal arranjem o necessário com o trabalho ou com a esmola - que, se pudessem viver aqui sempre, nada se lhes daria do reino de Deus.

4. Ó insensatos e duros de coração, que tão profundamente jazem apegados à terra, que não gostam senão das coisas carnais. Infelizes! Lá virá o tempo em que hão de sentir, muito a seu custo, como era vil e nulo aquilo que amaram. Os santos de Deus, e todos os fiéis amigos de Cristo, não tinham em conta o que agradava à carne nem o que neste mundo brilhava, mas toda a sua esperança e intenção se fixavam nos bens eternos. Todo o seu desejo se elevava para as coisas invisíveis e perenes, para que o amor do visível não os arrastasse a desejar as coisas inferiores. Não percas, irmão meu, a confiança de fazer progressos na vida espiritual; ainda tens tempo e ocasião.

5. Por que queres adiar tua resolução? Levanta-te, começa já e dize: Agora é tempo de agir, agora é tempo de pelejar, agora é tempo próprio para me emendar. Quando estás atribulado e aflito, é tempo de merecer. Importa que passes por fogo e água, antes que chegues ao refrigério. Se não te fizeres violência, não vencerás os vícios. Enquanto estamos neste frágil corpo, não podemos estar sem pecado, nem viver sem enfado e dor. Bem quiséramos descanso de toda miséria; mas como pelo pecado perdemos a inocência, perdemos também a verdadeira felicidade. Por isso devemos ter paciência, e confiar na divina misericórdia, até que passe a iniquidade, e a vida absorva esta mortalidade.

6. Como é grande a fragilidade humana, inclinada sempre ao mal! Hoje confessas os teus pecados, e amanhã cometes outra vez os mesmos que confessaste. Resolves agora te acautelar, e daqui a uma hora de portas como quem nada se propôs. Com muita razão nos devemos humilhar e não nos ter em grande conta, já que tão frágeis somos e tão inconstantes. Assim, facilmente se pode perder pela negligência o que tanto nos custou a adquirir com a divina graça.

7. Que será de nós no fim, se já tão cedo somos tíbios? Ai de nós, se assim procuramos repouso, como se já estivéssemos em paz e segurança, quando nem sinal aparece em nossa vida de verdadeira santidade. Bem necessário nos fora que nos intruíssemos de novo, como bons noviços, nos bons costumes; talvez que assim houvesse esperança de alguma emenda futura e maior progresso espiritual.

(Da Imitação de Cristo, de Thomas de Kempis)

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

PALAVRAS DA SALVAÇÃO

'Pecando, o padre perde a luz e cai nas trevas. Mais lhes valera, assegura São Pedro, não ter conhecido o caminho da justiça, do que voltar atrás depois de o haver conhecido. Ó, sem dúvida, mais valia para um padre que peca ser antes um camponês ignorante, que nunca tivesse estudado coisa alguma; porque depois de tantos conhecimentos adquiridos — pelos livros que leu, pelos oradores sagrados que ouviu, pelos diretores que teve — depois de tantas luzes recebidas de Deus, o desgraçado calca aos pés todas as graças, pecando, e merece que as luzes recebidas só sirvam para o tornar mais cego e impenitente. A maior ciência, diz São Crisóstomo, dá lugar a mais severo castigo; se o pastor cometer os mesmos pecados que as suas ovelhas, não receberá o mesmo castigo, mas uma pena muito mais dura. Um padre cometerá o mesmo pecado que os seculares; mas sofrerá um castigo muito maior, permanecerá mais profundamente cego que todos os outros; será punido conforme o anúncio do Profeta: Que vendo não o vejam, e ouvindo não compreendam!'

(São Jerônimo)

domingo, 18 de fevereiro de 2024

EVANGELHO DO DOMINGO

 

'Verdade e amor, são os caminhos do Senhor' (Sl 24)

Primeira Leitura (Gn 9,8-15) - Segunda Leitura (1Pd 3,18-22)  -  Evangelho (Mc 1,12-15)

 18/02/2024 - Primeiro Domingo da Quaresma

12. O RETIRO NO DESERTO


Jesus acabara de se submeter ao batismo nas águas do Jordão, evento que deflagara, então, pela manifestação expressa nas palavras do Pai e pela ação do Espírito Santo descido do céu na forma de uma pomba, o início do tempo de sua pregação pública, na investidura messiânica do Filho de Deus Vivo. E, diante desta missão portentosa, a primeira medida do Espírito Santo é conduzir Jesus ao deserto, para um tempo singular de devoção, oração e profundo recolhimento interior, na consumação da alma elevada à divina perfeição.

Neste Primeiro Domingo da Quaresma, o Evangelho nos invoca a começar também esse tempo de jejuns e penitência seguindo o exemplo de Jesus, com um retiro no deserto. O deserto para nós representa um lugar de provação, de tentação e de exílio; afastados do cotidiano do mundo, somos desafiados a viver um tempo singular de conscientização e de reflexão sobre a limitação dos valores mundanos e da preparação de almas perseverantes na superação destes limites e indo mais além, para águas mais profundas, na busca dos valores da graça santificante que nos forjam herdeiros dos Céus.

Ir ao deserto afastado do mundo não implica se esconder do mundo. Jesus 'ficou no deserto durante quarenta dias, e aí foi tentado por Satanás. Vivia entre animais selvagens, e os anjos o serviam' (Mc 1, 13). Quarenta dias é o tempo bíblico de referência para tempos de grande provação; as tentações de satanás no deserto repetem as tentações que nos são impostas pelo demônio durante toda a nossa vida, até no momento da morte; a vida entre animais selvagens caracteriza uma vida no exílio, longe do cotidiano do mundo.

Estar no deserto não significa um isolamento da alma. Deus está presente em nós em todos os momentos, com as graças necessárias para a plena superação de todas as provações, tentações e abatimentos da caminhada e, por isso, 'os anjos o serviam' (Mc 1, 13). Encerrado o tempo de vigília e de preparação no deserto e dado o sinal final da Providência Divina, pela prisão de João Batista, o Antigo Testamento torna-se passado de vez e tem início a pregação da Boa Nova para a salvação da humanidade, evocada com os próprios termos com que o Precursor anunciara os tempos da redenção (conforme Mt 3, 1-2): 'O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!' (Mc 1, 15).

sábado, 17 de fevereiro de 2024

O DOGMA DO PURGATÓRIO (LXXV)

Capítulo LXXV

Razões para Assistência às Santas Almas - A Nossa Falta de Reflexão e Zelo - Exortações de Santos sobre a Excelência dessa Obra de Caridade

Acabamos de passar em revista os meios e recursos que a Misericórdia Divina colocou em nossas mãos para o alívio de nossos irmãos no Purgatório. Esses meios são poderosos e os recursos são muitos; mas será que os utilizamos abundantemente? Tendo em nosso poder o auxílio às pobres almas, temos zelo suficiente para o fazer? Somos tão ricos em caridade como Deus é rico em misericórdia? Quantos cristãos, infelizmente, pouco ou nada fazem em intenção dos defuntos! E os que não se esquecem deles, os que têm suficiente caridade para os ajudar com os seus sufrágios, quantas vezes não lhes falta zelo e fervor! Comparai os cuidados que dispensamos aos doentes com a assistência que damos às almas penadas. Quando um pai ou uma mãe são acometidos de alguma doença, quando um filho ou uma pessoa que nos é querida é vítima de sofrimento, que cuidado, que solicitude e quanta devoção da nossa parte! Mas as almas santas, que não nos são menos queridas, definham sob o peso, não de uma doença dolorosa, mas de tormentos expiatórios mil vezes mais cruéis. Somos igualmente fervorosos, solícitos e disponíveis para as aliviar? 'Não' - diz São Francisco de Sales - 'não nos lembramos suficientemente dos nossos amigos queridos que partiram. A sua lembrança parece perecer com o som dos sinos fúnebres e esquecemos que a amizade que encontra um fim, mesmo na morte nunca foi uma amizade genuína'.

De onde vem esse triste e culposo esquecimento? A sua causa principal é a falta de reflexão. Quia nullus est qui recogitat corde - Porque não há quem considere no coração (Jr 12,2). Perdemos de vista os grandes motivos que nos impelem ao exercício dessa caridade para com os falecidos. É, portanto, para estimular o nosso zelo que vamos recordar esses motivos e colocá-los sob a luz mais forte possível.

Podemos dizer que todos esses motivos se resumem nas seguintes palavras do Espírito Santo: 'É um pensamento santo e salutar orar pelos mortos, para que sejam libertados de seus pecados, isto é, da punição temporal devida aos seus pecados (2Mc 12,46). Em primeiro lugar, é uma obra santa e excelente em si mesma, além de agradável e meritória aos olhos de Deus. Por conseguinte, é uma obra salutar, extremamente proveitosa para a nossa própria salvação, para o nosso bem-estar neste mundo e no outro.

'Uma das obras mais santas, um dos melhores exercícios de piedade que podemos praticar neste mundo' - nos diz Santo Agostinho - 'é oferecer sacrifícios, esmolas e orações pelos mortos' (Homilia 16). 'O alívio que obtemos para os defuntos' - diz São Jerônimo - 'obtém para nós uma misericórdia equivalente'. Considerada em si mesma, a oração pelos mortos é uma obra de Fé, de Caridade e, muitas vezes, até de Justiça.

Por primeiro, quem são de fato as pessoas a quem devemos tratar de assistir? Quem são essas almas santas, predestinadas, tão queridas de Deus e de Nosso Senhor Jesus Cristo, tão queridas da sua Mãe, que a Igreja recomenda incessantemente à nossa caridade? Almas que nos são também tão queridas, pois estiveram, talvez, intimamente unidas a nós nesta terra, e que nos suplicam com estas palavras comoventes: 'Tende piedade de mim, tende piedade de mim, ao menos vós, meus amigos' (Jó 19,21). Em segundo lugar, em que necessidades elas se encontram? Infelizmente, sendo muito grandes as suas necessidades, as almas que assim sofrem têm direito à nossa ajuda na proporção da sua total incapacidade de fazer algo por si próprias. Em terceiro lugar, que bem podemos proporcionar a estas almas? O bem maior, pois podemos ajudá-las a conquistar a posse da bem-aventurança eterna.

'Assistir as almas do Purgatório' - diz São Francisco de Sales - 'é praticar a mais excelente das obras de misericórdia, ou melhor, é praticar de maneira mais sublime todas as obras de misericórdia juntas: é visitar os doentes; é dar de beber aos que têm sede da visão de Deus; é alimentar os famintos, resgatar os prisioneiros, vestir os nus, proporcionar aos pobres exilados a hospitalidade da Jerusalém Celeste; é consolar os aflitos, é instruir os ignorantes - em suma, é praticar todas as obras de misericórdia numa única obra'. Esta doutrina concorda muito bem com a de São Tomás, que diz em sua Summa: 'Sufrágios para os mortos são mais agradáveis a Deus do que sufrágios para os vivos; porque os primeiros estão em necessidade mais urgente deles e porque não são capazes de ajudar a si mesmos, como o podem os vivos' (Suplemento, Q. 71, art. 5).

Nosso Senhor considera toda a obra de misericórdia exercida para com o nosso próximo como feita para Ele próprio. 'É a Mim que o fizestes' - Mi hi fecistis. Isto é especialmente verdade para a misericórdia praticada em intenção às pobres almas sofredoras. Foi revelado a Santa Brígida que aquele que, com os seus sufrágios, tira uma alma do Purgatório, tem o mesmo mérito como se tirasse o próprio Jesus Cristo do cativeiro.

Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

SOBRE A ALEGRIA CRISTÃ

'Vá, coma o seu pão com alegria e beba o seu vinho com o coração alegre, pois Deus se alegra com as suas obras' (Ecl 9,7)

Se quisermos explicar estas palavras no seu sentido mais óbvio e imediato, diremos com razão que a exortação do Eclesiastes nos parece esclarecer que, levando um modo de vida simples e aderindo aos ensinamentos de uma fé correta para com Deus, devemos comer o nosso pão com alegria e beber o nosso vinho com o coração alegre, evitando todo o mal nas nossas palavras e toda a iniquidade na nossa conduta, procurando, pelo contrário, fazer de tudo o que é certo o objeto dos nossos pensamentos, e procurando, na medida do possível, ajudar os outros, com misericórdia e liberalidade; isto é, entregar-nos aos cuidados e obras que agradam a Deus.

Mas a interpretação mística eleva-nos a considerações ainda mais elevadas e faz-nos pensar naquele pão celeste e místico, que desce do céu e dá vida ao mundo; e também nos ensina a beber com o coração alegre o vinho espiritual, aquele que brotou do lado daquela que é a videira verdadeira, no tempo da sua paixão salvadora. Como se diz no Evangelho da nossa salvação: Jesus tomou o pão, deu graças e disse aos seus discípulos e apóstolos: 'Tomai e comei, isto é o meu corpo, que será entregue por vós para remissão dos pecados'. E, da mesma forma, tomou o cálice e disse: 'Bebam dele todos vocês, este é o cálice do meu sangue, sangue da nova aliança, que será derramado por vocês e por todos os homens para o perdão dos pecados'. Na verdade, quem come este pão e bebe este vinho fica verdadeiramente pleno de alegria e pode exclamar: 'Tu puseste alegria nos nossos corações'.

(Do Comentário sobre Eclesiastes, de São Gregório de Agrigento)

O católico deve ter alegria e, para tanto, ter senso de humor. Porque o humor é a fonte da ironia saudável e do riso franco, frutos de um intelecto sadio, capaz de contemplar e compreender o ser na sua harmonia e no esplendor da sua beleza. São Thomas More captou bastante bem essa percepção na sua oração da alegria, repleta de bom humor.

ORAÇÃO DO BOM HUMOR

Dai-me, Senhor, uma boa digestão
e, claro, também algo para digerir.
Dai-me a saúde do corpo
e o bom humor necessário para mantê-la.

Dai-me, Senhor, uma alma santa
que guarde a memória de tudo que é bom, belo e puro,
para que, quando sobrevir o pecado, não tenha medo,
mas encontre uma maneira de consertar as coisas.

Dai-me uma alma que não conheça o tédio
nem murmurações, queixas ou lamentações, nem apenas gemer ou suspirar,
e faça com que tudo isso não preocupe e nem tenha importância
para aquela coisa embaraçosa que chamo de 'eu'.

Dai-me, Senhor, o senso de humor;
dai-me a graça de saber ouvir e dar risadas
para que eu possa trazer um pouco de alegria à minha vida
e possa compartilhar esta alegria com os que me rodeiam.
Amém.

(São Thomas More)