TESOURO DE EXEMPLOS


1. 'MENINA, LEVANTA-TE!' 

Jairo, o presidente de uma das sinagogas de Cafarnaum, está angustiadíssimo. Sua filhinha de doze anos acha-se gravemente enferma, e sua cura é desesperadora. Como última e extrema solução recorre a Jesus. Sabe que Ele acaba de regressar de Gerasa e vai ao seu encontro. 'Senhor' diz-lhe com voz angustiada, 'minha filha está morrendo. Vem, impõe a tua mão sobre ela para que sare e viva'. 

O Mestre, sempre misericordioso e amicíssimo das crianças, acede e imediatamente se põe a caminho; mas a multidão o rodeia e o aperta de tal forma, nas ruas estreitas da cidade, que o detém mais tempo do que Jairo o quisera e a enfermidade da menina o permitiria. Por isso, antes de chegarem a casa, encontram-se com alguns criados, que dão ao seu amo a fatal notícia da morte da pequena. Pobre pai! Cheio de esperanças recorrera ao Redentor; no caminho vira crescer seu otimismo com a cura milagrosa da hemorroíssa, mas agora todas as suas ilusões se desmoronam. 

E' tarde. Morrera a criança. Têm razão seus criados: para que incomodar e cansar mais o Mestre? Jesus, porém, consola-o, dizendo: 'Não temas, crê e tua filha será salva'. Chegam à casa coberta de luto. Ali estão a exercer o seu ofício mercenário as carpideiras e os flautistas funerários - importação pagã introduzida nos costumes judeus - e também os parentes e amigos rodeiam a família. 

'Por que chorais e estais alvoroçados?' - pergunta-lhes Jesus. 'A menina não está morta, mas dorme'. Os que o ouvem falar assim riem-se dele, pois viram o cadáver e têm a certeza de que está morta. Não sabem que, para o Senhor da vida, aquela morte é um breve sono, cujo despertar está próximo. Jesus ordena que aquela gente se retire e penetra na câmara mortuária, acompanhado só dos pais da defunta e de três dos seus discípulos. 

Sobre o leito, estendem-se rígidos e frios os membros pálidos do cadáver. Jesus se aproxima e toma, entre as suas, a mão pálida da menina, e ordena com autoridade: talitha, cumi! 'menina, levanta-te!' E com grande espanto de seus pais, a menina levanta-se e começa a andar. Ressuscitou? Sim; não só ressuscitou mas está, além disso, completamente curada; tanto assim que logo começa a alimentar-se. Operado o milagre, Jesus retira-se, ordenando silêncio, porque quer evitar aclamações e demonstrações de entusiasmo. Apesar disso, como seria natural, a notícia do prodígio espalhou-se por toda aquela região.


2. O FILHO DA VIÚVA 

Naim, aldeia situada na encosta setentrional do Pequeno Hermon, a trinta e oito quilômetros aproximadamente de Cafarnaum, foi teatro de um dos maiores milagres de Jesus. Caía a tarde. O sol estava a ponto de esconder-se atrás das montanhas, quando o Salvador, acompanhado de seus discípulos e de uma multidão que não podia separar-se dele, subia pelo estreito caminho que dava acesso ao lugar. 

Próximo à porta da aldeia, a multidão teve de ceder o passo a outro cortejo que dali saía em direção contrária. Era um enterro. Sobre um esquife, sem caixão, conduziam o cadáver de um jovem, envolto num lençol. Atrás vinha, com os parentes e amigos, a mãe muito triste e desolada. Era viúva e o defunto, quase menino ainda, era o seu único filho e seu futuro arrimo. 

O filho morrera. Que seria dela dali em diante? Informado do que se passava, Jesus, sempre misericordioso e compassivo, disse àquela viúva inconsolável: 'Não chores, filha'. E, aproximando-se do féretro, fez sinal para que parassem e deitassem o esquife no solo. Toda gente se apinhou ao redor do Salvador. Que iria acontecer? Os entusiastas do divino Taumaturgo estavam acostumados a vê-lo operar estupendos milagres; mas, com um morto, que era já levado à sepultura, o que poderia Ele fazer? 

Os olhos daquela gente, arregalados pela curiosidade, não perdiam os menores movimentos do Mestre. Jesus, olhando para o cadáver daquele rapaz, pálido e rígido pelo frio da morte, ordenou-lhe em tom imperativo: 'Moço, eu te digo, levanta-te!' Um calafrio da emoção eletrizou os circunstantes. Não havia dúvida, o morto ressuscitara. Todos podiam ver como o cadáver se movia e a sua cor lívida desaparecia; os olhos brilhavam, os lábios abriam-se; o defunto falava. Já não estava morto. Vive e vive sua vida plena. E Jesus, tomando-o pela mão, entrega-o à mãe que, derramando lágrimas de comoção e de alegria, prostra-se por terra para dar graças ao Senhor da vida e da morte.

3. A CURA DE UM CRIADO

Depois do sermão da Montanha, entrou Jesus em Cafarnaum. Achava-se ali um centurião que, embora gentio, simpatizava com os judeus a ponto de edificar-lhes, à sua custa, uma sinagoga. Certamente ouvira talar de Jesus, e é muito provável que o conhecesse de vista e até tivesse ouvido, mais de uma vez, suas pregações e presenciado algum milagre. 

Cai-lhe enfermo um servo 'a quem amava muito'. Sofre um ataque de paralisia e está quase à morte. O centurião, que o ama deveras, deseja a todo custo a sua cura e, ao inteirar-se de que Jesus está no povoado, pensa poder alcançar dele o que, por meios naturais, parece impossível. E' humilde e não se atreve a ir em pessoa ter com o Mestre. 

Como pretender um tal favor, sendo ele um gentio? Mas, como está bem relacionado, envia uma comissão de pessoas principais do lugar. Estas, apresentando-se diante o Salvador, transmitem a Ele o pedido do centurião. E, para mais pesarem o ânimo do benfeitor, elogiam o centurião e enumeram os benefícios recebidos. Jesus, todo atenção e bondade, acolheu amavelmente os representantes do militar, dizendo: 'Eu irei e o curarei'. E pôs-se imediatamente a caminho. 

Avisado de que o Salvador se dirigia a sua casa, e assustado com a grandeza do favor, o centurião enviou-lhe alguns amigos que lhe dissessem: 'Senhor, não te incomodes. Não sou digno de que entres em minha casa; dize, pois, uma só palavra e meu servo ficará curado'. E explicou mais claramente o seu pensamento, dizendo que, embora fosse um simples oficial subalterno, bastava dar uma ordem a seus inferiores que estes lhe obedeciam. Não poderia Jesus, sem o incômodo de ir à sua casa, ordenar que a enfermidade cessasse? Jesus mostrou-se admirado ao ouvir tais palavras e disse aos que o seguiam: 'Em verdade, em verdade vos digo que nem em Israel encontrei tamanha fé'. Em seguida, operou o milagre à distância e, naquele momento, o servo que estava em perigo de morte curou-se instantaneamente.

4. 'HOJE A SALVAÇÃO ENTROU NESTA CASA!'

Logo que em Jericó se espalhou a notícia da chegada do Salvador, todos os seus habitantes correram para a rua, ao encontro do homem extraordinário que tantos milagres realizara. Uma grande multidão o cerca e o acompanha por toda a parte, ao passo que outros tomam posição ao longo da rua para vê-lo quando passar por ali.

Zaqueu, homem riquíssimo e muito influente, é o chefe dos arrecadadores de impostos da cidade de Jericó, o centro comercial mais importante de Israel. Ouviu falar de Jesus, e simpatizou-se com Ele porque Jesus não desprezava os de sua profissão, que eram tão odiados pelo povo. Quer vê-lo, mas não consegue; a sua pequena estatura não lhe permite contemplá-lo por cima das cabeças da enorme multidão. 

Esforça-se por abrir passagem através da muralha humana estendida ao longo do trajeto, mas não consegue. Ocorre-lhe, então, uma ideia. No afã de ver o Messias, esquece-se de sua dignidade, calca aos pés o respeito humano e, correndo para a frente do cortejo, sobe ao tronco nodoso de um sicômoro, firmando-se nos galhos.

A multidão passa junto da árvore. Zaqueu está encantado com o que vê. No centro do cortejo caminha Jesus, humilde e magnífico, doce e grave ao mesmo tempo. Ao chegar em frente da árvore, ergue os meigos olhos, fixa-os naquela exígua figura e diz: 'Zaqueu, desce depressa porque é mister que hoje me hospede em tua casa'. Zaqueu estremeceu de emoção ao ouvir ser chamado pelo nome. O rabino extraordinário, a quem tanto desejara ver, quer se hospedar em sua casa.

Desce apressadamente da árvore e, satisfeito por completo pela distinção, leva Jesus à sua casa. A gente imbuída de espírito farisaico escandaliza-se vendo que o Messias vai hospedar-se na casa de um publicano. Este, tendo sentido o aguilhão da graça penetrar em seu coração, sabe corresponder a ela, dirigindo-se ao Salvador para dizer: 'Senhor, darei aos pobres a metade de tudo quanto tenho e, se em alguma coisa defraudei ao próximo, devolver-lhe-ei quatro vezes mais'. Jesus, acolhendo os bons propósitos do pecador arrependido, o aprova e o bendiz com as palavras: 'Hoje a salvação entrou nesta casa!'.

5. O MOÇO RICO

Um moço rico, dirigindo-se a Jesus, pergunta-lhe: 
- Bom Mestre, que hei de fazer para herdar a vida eterna?
- Se queres salvar-te, cumpre os mandamentos, isto é, não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho, honrarás teu pai e tua mãe e amarás ao próximo como a ti mesmo'.
- Todas essas coisas tenho observado desde pequeno; o que me falta ainda? 
- Para seres perfeito, vende tudo quanto tens, reparte-o pelos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois, vem a mim e segue-me. 
- Eu, Mestre?
- Sim; virás comigo; andarás de cidade em cidade, de uma aldeia a outra.
- Sim, Mestre, é belo !
- Teus vestidos terão, como os meus, o pó vermelho dos caminhos. Comerás, como os meus discípulos, o pão vindo da esmola... Por enquanto, vai , vende o que possuis e, pobre e humilde, vem comigo, e não penses mais no teu amanhã.
- Mas, Mestre, é tão difícil...
- Achas mesmo? Viestes rico e voltas pobre, eis tudo. . .
- Mestre, tenho palácios e mobílias finas; arcas cheias de pedras preciosas; possuo vinhas e rebanhos... Mestre, sou rico, mas quero salvar-me, quero o céu. Dize-me, Senhor, ainda uma vez, que deverei fazer?
- Vai, vende tudo; dá-o aos pobres e volta pobre; e segue-me!
- Mestre...
- Já vais?
- Mestre, adeus...
- Adeus, moço...
Com os ombros curvados, olhando para o chão,o moço rico retira-se vagarosamente. Está triste. O Mestre, também triste e pensativo, suspira:
- Como é difícil entrar um rico no reino de Deus! Infelizes os que se apegam às riquezas!
João, ouvindo isso, pergunta:
- Senhor, quem poderá salvar-se?
- O que para os homens é impossível, para Deus não é!
O moço rico vai caminhando lentamente. Parece carregar todo o peso do mundo. Na curva do caminho, pára e olha para trás, como quem se despede de uma felicidade perdida. Depois, estuga o passo e desaparece...

6. O CEGO À BEIRA DA ESTRADA

Jesus, acompanhado pelos seus discípulos, após longa caminhada, estava para entrar na cidade de Jericó. À beira da estrada, não muito longe das habitações, estava um cego sentado, pedindo esmola. Aquela estrada, uma das mais frequentadas pelos peregrinos, era certamente um ponto bem escolhido pelo cego para estender a mão aos transeuntes.

Naquela hora, porém, a esmola que ia receber não era apenas grande, era a maior que podia desejar em sua vida. Ouvindo o tropel de gente que passava, perguntou:
- Que movimento é esse? Quem é que está passando?
- 'E' Jesus de Nazaré'; disseram-lhe.

Jesus! Aquele nome não lhe era desconhecido; pelo contrário. Já ouvira talar de muitos milagres operados por Ele; sabia que Jesus, sempre caridoso e bom, restituíra a luz dos olhos a diversos outros cegos como ele. Quem sabe se não teria chegado, também para ele, a hora da graça, o momento da cura? Cheio de esperança, pôs-se a clamar:
- Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim! Era como se dissesses: 'Senhor, tu és o Messias prometido; tu és o Filho de Deus feito homem; tu podes curar-me, restituindo-me a vista.
Interiormente, este cego enxergava muito mais do que os pobres judeus obcecados. Manifestava uma fé viva, uma confiança firme, um grande desassombro.

Apesar de o repreenderem os que vinham à frente, mandando que ele se calasse, suspeitando que quisesse pedir alguma esmola a Jesus, nem por isso deixava de repetir:
- Jesus, Jesus, tem piedade de mim que sou um pobre cego!
Nosso senhor, chegando mais perto, ouvindo aquela voz lastimosa, pára no meio da estrada e diz aos que estão junto ao cego: 'Tomai-o pela mão; trazei-o aqui. Eu quero vê-lo de perto, quero falar-lhe'.

Conduziram o cego até Ele e Jesus, embora conhecesse perfeitamente qual era o pedido daquele  infeliz, para que o mesmo fizesse uma profissão de fé no poder de Deus, perguntou-lhe: 'Que queres que eu te faça? Que é que pedes?'
- Senhor, faze que eu veja, pois é tão triste ser cego! Não enxergo, não vejo nada deste mundo; Senhor, faze que eu veja!

E Jesus, diante da fé viva do cego, usa de seu poder e de sua bondade, dizendo simplesmente: 'Vê! A tua fé te salvou'. E, no mesmo instante, o homem abriu os olhos e admirado, comovido até às lágrimas, começou a ver. E, em vez de correr para casa, para contar aos seus a graça recebida, permaneceu ao lado de Jesus e o segue, agradecendo a Deus e bendizendo ao seu Benfeitor. E foi, então, que todos os que presenciaram o milagre também começaram a louvar e bendizer a Deus.

7. SEJAMOS RETRATOS DE DEUS

Não podemos viver profanando e manchando a imagem divina que trazemos em nossa alma. Nosso dever é trabalhar em todos os momentos de nossa vida e com todos os auxílios que recebemos de Deus, para conseguirmos que esse retrato divino seja cada dia mais semelhante ao modelo que temos diante dos olhos. O nosso modelo consumado é Jesus Cristo.

Quem é Jesus Cristo? E' o mistério da pobreza... Apresenta-se no mundo num estábulo. Repousa sobre duras palhas num mísero presépio. Chama a si os pobres: com eles se ajunta e quer que formem a côrte do novo reino que veio fundar neste mundo.

Quem é Jesus cristo? O mistério do trabalho... Encerra-se numa oficina e trabalha para comer o pão amassado com o suor do seu rosto. Anda de cidade em cidade, espalhando a doutrina da verdade e a semente da perfeição. Ele mesmo afirma que não tem uma pedra para repousara cabeça. 

Quem é Jesus Cristo? O mistério da verdade... Fala em toda parte. Fala das doutrinas mais elevadas. Trata dos problemas religiosos, os maiores que jamais foram tratados no mundo. Ouvem-no os seus inimigos, procurando surpreender nEle algum erro... Não o conseguem! Ele é o único homem em cujos lábios jamais apareceu a sombra fatídica do erro e do engano.

Quem é Jesus Cristo? O mistério do amor... Amou até à abnegação mais absoluta, amou até ao sacrifício,  amou os seus verdugos e seus inimigos, amou até fazer-se nosso alimento, amou-nos até a morte de cruz.

Quem é Jesus Cristo? O mistério da humilhação... Lavou os pés dos seus discípulos Subiu a uma cruz e ali, naquele madeiro, que era o patíbulo dos escravos, ali o contemplou a humanidade desnudo e abandonado por todos.

Quem é Jesus Cristo? O mistério da obediência... Obedeceu desde o berço até o túmulo. Não se desviou nem um ápice do caminho que lhe traçou o Pai celeste.

Quem é Jesus Cristo? E' o mistério do poder... Contra Ele se levantaram todos os partidos políticos de sua nação. Os que representavam a lei e a religião coligaram-se também contra Ele. Até os seus amigos mais íntimos na hora da dor o abandonaram. Estava só... Mas, afinal, triunfou sobre todos eles. Hoje, os que ontem o odiavam são pó e cinza levados pelo vento: Ele reina sobre os povos e sobre os corações.

Quem é Jesus Cristo? E' o mistério da glória... Triunfou sobre a morte. Subiu aos céus. Ali está sentado à direita de Deus Pai. Dali há de vir para julgar os vivos e os mortos. E a sua glória não terá fim.

Eis aí, em resumo, quem é Jesus Cristo. Todos os santos procuraram ser reflexos perfeitíssimos desse Deus que, como diz Santo Agostinho, para isso precisamente se fez homem, para que tivéssemos o modelo mais admirável de Deus. Trabalhemos e copiemos as divinas virtudes que nEle resplandecem.

8. O PAJEM SALVO PELA MISSA

Tinha Santa Isabel de Portugal um  pajem muito virtuoso e piedoso a quem encarregava de distribuir as suas esmolas.  Outro pajem, que ambicionava aquele cargo e por ser muito invejoso, acusou-o junto ao rei de um grande crime, de um pecado muito feio. Acreditou o rei nas mentiras do pajem perverso e resolveu matar o pajenzinho da santa rainha.

Ordenou a um homem, que tinha um forno de cal, que lançasse ao fogo o primeiro criado que chegasse para informar-se se haviam cumprido as ordens do rei. Em seguida mandou o pajenzinho que fosse levar tal recado ao dono do forno. O rapaz partiu imediatamente mas, ao passar diante de uma igreja e ouvindo tocar o sino para a missa, resolveu ouvi-la antes de ir adiante.

Enquanto a ouvia, o rei, impaciente de saber se o pajem da rainha tinha morrido, mandou o outro pajem caluniador que fosse perguntar ao homem do forno se este havia executado a ordem do rei. Correu tão depressa que, chegando primeiro ao forno e dando o recado, o homem imediatamente o lançou ao fogo. Estava ainda ardendo quando, pouco depois, chegou o pajenzinho da rainha, que assistira toda a missa e perguntou se haviam cumprido a ordem do rei.

Tendo recebido uma resposta afirmativa, correu ao palácio para comunicá-la ao rei. Este, ao ver o rapaz, ficou estupefato e adivinhou as secretas disposições da Providência Divina, que permitira o castigo do culpado e a salvação do inocente. Um menino chamado Renato, a quem o pai contou este caso, ficou tão impressionado que, não somente quis ouvir muitas missas, como ainda quis fazer-se padre para poder celebrar para outros o Santo Sacrifício.

9. O MENINO QUE FOI ENFORCADO TRÊS VEZES

Estamos na Palestina, pátria de Jesus, onde se pronunciou a primeira Missa e os Apóstolos fizeram sua primeira comunhão. O que é hoje a Palestina? Terra de desolação, de maometanos, cismáticos, judeus e poucos católicos.

Um menino cismático de oito anos começou a sentir-se atraído à religião católica, a seus cantos e festas, que lhes eram contados por seus companheiros. Um dia quis ir ver de perto. Com muito segredo, por temor dos pais, assistiu à missa numa capela. Ficou encantado. Depois da missa continuou ali com as crianças do catecismo. Terminada a cerimônia, o padre, que não o conhecia, aproximou-se dele para saudá-lo carinhosamente.

O coração estava ganho e o menino, às escondidas, continuou a ouvir a missa todos os domingos. Um dia, porém, o pai descobriu e perguntou-lhe:
- Você esteve com os malditos católicos?
- Sim, papai.
- Eu não lhe proibi isso?
- Sim, senhor.
- Jura-me que não voltará lá?
- Não posso, pois em meu coração já sou católico.
- Então você não jura?
- Não, senhor.
- Enforcá-lo-ei então...
- O senhor pode enforcar-me.

Passou o bárbaro uma corda a uma viga do teto e o laço ao pescoço do filho e puxou-o para cima. Quando os pezinhos do menino deixaram de mover-se, o pai o desceu, soltou o laço e, vendo que ainda estava vivo, disse:
- Agora você me promete não ir mais ter com aqueles malditos...
- Não, papai, não posso.
Por uma segunda e uma terceira vez repetiu o pai o cruel suplício, mas não conseguiu mudar o propósito do menino. Disfarçando, então, a sua cólera, tentou o bárbaro pai outros meios. Tomando em seus braços o corpo extenuado do pobrezinho, lhe disse:
- Mas, meu filho, você não me ama?
- Amo-o, papai.
- Como é, pois, que não quer me obedecer?
- E' que eu amo a minha alma mais do que amo ao meu pai.

O menino, pouco a pouco, recobrou as forças e logo se fez batizar, tornando-se católico. Seu pai e sua mãe morreram de tifo no ano seguinte e não muito depois teve o pequenino mártir a morte de um santo.

10. AS MISSAS PELO PAPAI

Relata o Pe. Mateo, apóstolo da devoção ao Sagrado Coração de Jesus que, estando na Inglaterra em tempo de muito frio, preparava para a primeira comunhão um grupo de crianças de seis a nove anos. 'Dizei a vossas mamães que estou pregando o reino do Sagrado Coração e que vós haveis de ser seus missionários'.

Depois que acabei de pregar, chegou-me uma menininha e me disse: 'Padre, meu pai nunca vem à igreja. Vou contar à mamãe o que o senhor nos disse e eu nunca perderei a missa'. Eu lhes havia pregado sobre o Coração de Jesus e pedido que me ajudassem a salvar almas ouvindo uma ou mais missas.

A menina, chegando a casa, disse a sua mãe que todos os dias iria ouvir a missa pelo seu papai.
- De manhã faz muito frio, filhinha.
Não faz mal, mamãe, preciso fazer algum sacrifício para salvar a alma do meu papai.
-  Bem, faça como quiser.

Três meses depois, encontrei-me com a mesma menina, que me disse:
Padre, desde então não perdi nem uma missa. Às vezes, fazia muito frio e eu tinha muito sono porque a missa é tão cedo.... mas o senhor sabe o que eu digo a Jesus quando o tenho no meu. coração? Digo-lhe que vou ouvir missa e comungar todas as manhãs por meu papai, para pagar o resgate por ele, para estar em seu lugar diante do Santíssimo, a fim de salvar a sua alma: 'Para isso estou aqui diante do altar, meu bom Jesus'.

Criança admirável! Não fiquei sabendo se Jesus lhe atendeu os pedidos; mas não há dúvida que o o fará a seu tempo. Não pode o bom Jesus permanecer surdo a tais pedidos. Referindo-se a uma criança, disse um poeta: 'Pedidos dos lábios teus podem muito! Os pequeninos sabem segredos divinos e conversam muito com Deus'!

11. UMA MISSA... UM CAVALHEIRO... UM RETRATO...

Saberão as almas quando se fazem rezar missas por elas? Mônica, uma jovem muito boa e piedosa, está convencida que sim. Era ela uma pobre criada, que ganhava o pão servindo nas casas dos ricos, simples, cheia de fé, contente com o tratamento e o pequeno salário que lhe davam, pois Deus a fizera abnegada e sabia que a Ele se ode servir com qualquer ofício.

Mas um dia adoeceu e não teve remédio senão internar-se no hospital dos pobres. Depois de seis semanas deram-lhe alta; perdera, porém, o emprego e não sabia onde refugiar-se, débil e sem recursos. Uma moeda de prata era toda a sua fortuna, mas o seu coração estava cheio de confiança em Deus. Tomando a sua moeda, manda celebrar uma santa missa pelas almas do purgatório, a fim de que elas lhe consigam uma boa colocação.

Ouviu a missa devotamente. E aquela mensagem chegou ao seu destino... Ao sair da igreja, encontrou-se com um senhor que, aproximando-se, a saudou e disse: 'Soube que a senhora procura um emprego; aqui está o endereço de uma casa você será recebida'. Deu-lhe, em seguida, o nome da rua e o número da casa e desapareceu. Mônica ficou perplexa, sem saber o que pensar e nem como explicar tudo aquilo.

Como podia saber aquele senhor que ela procurava um emprego, uma vez que não comunicara a ninguém o seu desamparo? Foi à rua e à casa indicadas. Disse o que desejava e, imediatamente, a dona da casa a contratou para o serviço doméstico. No dia seguinte, estando a fazer a limpeza, pôs-se a contemplar os retratos pendurados nas paredes. De repente, surpreendida, exclamou:
- Senhora, quem é aquele senhor que está ali retratado? É precisamente o senhor que, ao me ver sair da missa, me deu o endereço da senhora.
- Como? exclamou a senhora, esse é o meu filho que há pouco tempo tive a infelicidade de perder!
A notícia da missa chegara tão depressa ao purgatório que, ao sair Mônica da igreja, a resposta pessoal já a esperava à porta. O defunto alcançara de Deus a permissão para vir agradecer à sua benfeitora e pagar pela sua caridade.

12. BRAVOS CRUZADINHOS

Num certo domingo de abril, inúmeras crianças de Liverpool (Inglaterra) compareceram a uma reunião festiva no vasto Salão de São Jorge. Cada paróquia enviara as crianças da Cruzada Eucarística e eram tantas, que muitíssimas tiveram que ficar do lado de fora, na praça. Durante a prática perguntou-lhes o Arcebispo:
- Sois todos cavaleiros e pajens do Santíssimo Sacramento?
- Sim, senhor, gritaram todos
E quantos comungam a cada mês?
Muitas mãozinhas se levantaram timidamente.
- E quantos comungam a cada semana?
Todos gritaram levantando as mãos.
- E quantos comungam todos os dias ou várias vezes por semana?
Também desta vez se levantaram todas as mãos.

I. Um missionário do longínquo Oriente, vendo um jovenzinho muito recolhido e devoto diante do altar do Santíssimo, perguntou:
- José, que faz aí tanto tempo e que é que diz a Jesus?
Nada, padre, pois não sei ler nos livros. Somente exponho a minha alma ao Sol.

II. Aos seus mais pequenos Cruzadinhos perguntou um vigário: '
- Quantas vezes se deve comungar?
- Muitas vezes, padre.
- Bem; e quem sabe me dizer por quê?
Eu, padre, eu sei. Jesus tomou o pão para mostrar que o devemos comer todos os dias; porque, se tivesse tomado a sobremesa, diríamos que só se devia comungar nos dias de festa.

III. Numa rua de Munique, cidade da Baviera, uma menina de sete anos avisa a mamãe que vem se aproximando um sacerdote com o Santíssimo.
- Não é nada demais, responde a mãe - ele vai visitar um enfermo.
- Vamos ajoelhar-nos, mamãe, ele está chegando.
Que é que tens, tontinha? Anda!
- Mamãe, é o bom Deus, ajoelhe-se suplica a menina, que então se prostra de joelhos!
Onde é que esse anjinho aprendeu tamanho respeito ao Santíssimo, senão na Cruzada Eucarística?

13. CRUZADA E SACRIFÍCIO

A Cruzada Eucarística tem por fim fomentar não só a devoção ao Santíssimo, mas também o zelo e o espírito de sacrifício. Num congresso de cruzadinhos, apresentou-seu um menino camponês, bem vestido e todo garboso, à frente de um verdadeiro batalhão de Cruzadinhos.

➖ Olá! Como é isso: como você conseguiu arranjar no seu povoado um tal grupo de rapazes? perguntou o zelador.
O rapazinho, embaraçado e fazendo girar o gorrinho, não sabia como responder.
➖ Diga-me, como começaste isso?
➖ perguntei a eles se queriam ser Cruzados
➖ E o que responderam?
➖ Que não queriam.
➖ E o que fizeste, então?
➖ Comecei a comungar por intenção deles.
➖ E então quiseram?
➖ Não, senhor.
➖ E que fizeste depois?
➖ Na comunhão, o Menino Jesus me inspirou que fizesse alguns sacrifícios...
➖ E aí quiseram?
➖ Então, sim.

14. VISITANDO O SANTÍSSIMO

Um sacerdote, que estava a rezar o ofício divino a um canto da igreja sem que o pudessem ver, foi testemunha de uma graciosa visita ao Santíssimo. Aproximaram-se da grade do altar dois meninos: Lino, de seis anos, e seu irmãozinho, de três. O maiorzinho tomou pela cintura o pequeno, ergueu-o e conservou-o de pezinho sobre a grade. Com a mão livre, tomou a mãozinha de seu irmão para persigná-lo e, em seguida, rezou com ele esta breve e bela oração: 'Meu Jesus, eu te amo de todo o meu coração'.  E repetiu estas últimas palavras, pondo a mão sobre o peito para indicar o coração. Terminada a oração, Lino explicou ao irmãozinho:

 Olha, o bom Jesus está dentro daquela casinha. As imagens que vês em cima são os retratos de Jesus e de sua santa Mãe.
O pequenino olhava atentamente com os seus olhos grandes e negros para a estátua de Nossa Senhora do Sagrado Coração e, de repente perguntou:
 Lino, o menino Jesus quer bem a mim também?
➖ Sim, respondeu Lino; olha como nos mostra o seu coração com a mão esquerda e, com a mão direita, nos indica sua Mãe.
 Por que, hein?
O maiorzinho, um pouco perplexo, não sabia como responder.
 Por quê? insistiu o pequeno.
Então Lino, lentamente e ainda indeciso, atreveu-se a balbuciar:
➖ Talvez o Menino Jesus queira que peçamos a sua mamãe licença para ficarmos com Ele.

15. UM MENINO DISTRIBUI A COMUNHÃO

Na guerra de 1914, que durou quatro anos, os exércitos  italiano e alemão pelejavam perto da povoação de Torcegno, no vale de Brenta. À meia-noite, entraram os alemães para ocupar a igreja e a torre e levaram consigo prisioneiros os sacerdotes locais, sem dar-lhes o tempo de retirar o Santíssimo da igreja. De manhã, antes da aurora, o povo recebeu ordem de evacuar o povoado, pois ia dar-se ali a batalha. Eram os habitantes cristãos fervorosos que amavam muito as suas roças, suas casas e mais ainda sua igreja. Mas não havia remédio; era preciso fugir.

 Salvemos ao menos o Santíssimo, todos disseram; mas como fazer isso se os padres haviam sido levados?

Lembraram-se então de escolher o menino mais inocente e angélico para abrir o sacrário e dar a comunhão a todos os presentes, consumindo-se assim todas as hóstias. Ao sair o sol, todo o povo estava na igreja, as velas acesas no altar e o menino revestido de alvas vestes. Subindo os degraus do altar com grande reverência, o menino estendeu o corporal, abriu a portinha e, tomando o cibório dourado, enquanto todos rezavam o 'Eu pecador', desceu até à grade e distribuiu as hóstias até esvaziar o cibório. 

Purificou logo o vaso sagrado com todo o cuidado, juntou as mãos e desceu os degraus do altar como um anjo. Levando Jesus no coração, todo o povo se apressou a fugir para os montes. Corriam lágrimas dos olhos de muitos, é verdade, mas a alma estava confortada com o manjar divino. Ao pequeno 'diácono' enviou mais tarde o Santo Padre Bento XV sua bênção e suas felicitações.


16. MENINOS MÁRTIRES

O acontecimento que vamos narrar, passou-se na Rússia, nos piores tempos do comunismo que vem varrendo do seu território todas as religiões, mormente a católica. Numa vila, perto de Petrogrado, havia um asilo de órfãos com uma capela católica. Os vermelhos (comunistas) fecharam a casa alegando que não havia recursos para sustentá-la e expulsaram o capelão.

Aqueles maus soldados tiveram a sinistra ideia de converter a capela em salão de baile e, como a mesma estava fechada, resolveram arrombar a porta e profanar o que havia dentro. Tomaram essa resolução numa cantina, onde casualmente três meninos católicos ouviram a conversa. Compreenderam que se tratava de profanar a casa de Deus e logo tomaram a resolução de defendê-la do melhor modo que pudessem.

À noite, os três meninos e mais alguns colegas penetraram na igreja por uma janela e montaram guarda junto do altar. Os soldados, tendo arrombado a porta e penetrado a capela, ordenaram que os meninos saíssem imediatamente nenhum, porém, se moveu e nem se arredou do seu lugar. Os perversos comunistas atiraram, então, e mataram dois meninos. Quiseram, em seguida, arrastar os outros para fora, mas os meninos preferiram morrer a deixar de 'proteger com seus corpos a casa de Deus'. Os comunistas, ainda mais furiosos, dispararam de novo e o sangue daqueles inocentes escorreu pelos degraus do santo altar. A mãe de um  deles, tomando nos braços o filho agonizante, perguntou-lhe:

➖ Meu filho, o que fizeste?
➖ Defendemos a Jesus - respondeu  - e os maus não se atreveram a tocar nEle.

17. O PRIMEIRO MÁRTIR DA EUCARISTIA

Era nos primeiros tempos do cristianismo. Os cristãos eram perseguidos, lançados às feras e mortos. Quase todos procuravam antes receber a santa comunhão. Os sacerdotes tinham de esconder-se porque eram os mais procurados pelos inimigos. Um dia, depois de celebrar os divinos mistérios nas catacumbas, o padre, voltando-se para os fiéis reunidos, mostrou-lhes a Hóstia e disse:
➖Amanhã muitos dos nossos serão conduzidos às feras. Quem de vós, menos conhecido do que eu, poderá levar-lhes secretamente o Pão dos fortes?

A estas palavras, aproxima-se um menino de dez anos, chamado Tarcísio, que parecia ter roubado. aos anjos a pureza da alma e a formosura do rosto e, ajoelhando-se diante do altar, estendia os braços para o sacerdote sem pronunciar palavra, parecendo querer dizer:
➖ Eu mesmo levarei Jesus aos irmãos encarcerados. 
➖ És muito pequeno - disse o padre - como poderei confiar-te tamanho tesouro?
➖ Sim, padre; justamente por ser pequeno me aproximarei dos mártires sem que ninguém desconfie.

Falava com tanto ardor e candura que o padre lhe confiou os 'Mistérios de Jesus'. O pequeno, radiante de alegria, aperta ao peito o seu tesouro e diz:
➖ Antes que me façam em pedaços ninguém haverá de o arrebatar de mim.

Partiu pressuroso para o cárcere mas, ao atravessar a praça, eis que um grupo de rapazes o cerca e quer obrigá-lo a tomar parte em seus brinquedos.
➖ Não posso - dizia Tarcísio - não posso, estou com pressa.

Os outros, vendo que ele conservava as mãos sobre o peito, suspeitaram tratar-se dos mistérios dos cristãos. Gritando como possessos, lançaram por terra o pobrezinho, deram-lhe golpes, atiraram-lhe pedras, deixaram-no prostrado. O sangue corria dele, principalmente da boca, mas as mãos não se desprenderam do peito.

Nisto passou por ali um oficial cristão, por nome Quadrato que, saltando no meio dos rapazes, dá golpes à direita e à esquerda e dispersa a quadrilha malfeitora. Como uma mãe carinhosa, toma com todo o respeito o pequenino mártir da Eucaristia e leva-o em seus robustos braços até às catacumbas onde o sacerdote, ao ver o menino, não pôde conter as lágrimas. Tarcísio, o defensor de Jesus, expirou ali mesmo em seguida.

18. A HONRA DE AJUDAR À MISSA

Foi em 1888, ano jubilar do Santo Padre Leão XIII. Num dos altares da Basílica de São Pedro, encontravam-se dois sacerdotes: um era prelado romano e cônego da Basílica Vaticana; o outro era o bispo duma diocese italiana, vindo a Roma para assistir às festas jubilares. O prelado romano, que se dispunha para celebrar a missa, olhava inquieto ao redor, porque seu ajudante não aparecia. O bispo, que estava ajoelhado ali perto, aproximou-se com grande simplicidade e disse:

➖ Permita-me, Monsenhor, que seja eu o ajudante de sua missa?
➖ Não, Excelência, não o permitirei: não convém a um bispo se fazer de coroinha.
➖ Por que não? garanto-lhe que darei conta.
➖ Disso não duvido, Excelência; mas seria muita humilhação. Não, não o permitirei.
➖ Fique tranqüilo, meu amigo. Depressa ao altar e comece: Introibo...

Dito isto, o bispo ajoelhou-se e o prelado teve que ceder. Assistido por seu novo ajudante, o prelado romano prosseguia a sua Missa com uma emoção sempre crescente. Terminada a Missa, o celebrante se desfez em agradecimentos perante o bispo. Aquele pio e humilde ajudante, vinte anos mais velho que o prelado romano, era a glória da diocese de Mântua, Dom José Sarto, o futuro Papa Pio X, hoje canonizado por Pio XII. Para o Cruzadinho, amigo fervoroso de Jesus Eucarístico, não deve haver honra nem glória maior do que poder ajudar devotamente o sacerdote aos pés do altar.


19. JESUS NÃO FICARÁ SÓ

Robertinho é Cruzado do Santíssimo. Ouvira a Missa, rezara a sua ação de graças e queria voltar para casa, quando ouviu o pároco dizer ao sacristão:

➖ Este ano não haverá exposição do Santíssimo nas Quarenta Horas, durante o carnaval. 
➖ Mas por que, senhor vigário?
➖  Porque o Santíssimo ficará sozinho, como no ano passado.. .
➖ Só, o Santíssimo? - diz Robertinho pesaroso - não pode ser, não será!

De um salto,  põe-se à porta da igreja por onde está o pároco a sair.

➖ O que está acontecendo Robertinho?
➖ Ouvi que o senhor não pretende fazer a exposição do Santíssimo...
➖ Sim, pois temo que deixem Jesus exposto sozinho.
➖ Padre, faça a exposição; eles virão...
➖ Eles, quem?
➖ Os cruzadinhos.
➖ Todos?
➖ Sim, senhor vigário, todos; eu os trarei.
➖ Mas a exposição deve durar o dia inteiro...
➖ Sim, estaremos aqui durante todo o dia.

Em vista da firme resolução do menino, o pároco prometeu fazer a exposição. No dia seguinte, às sete da manhã, todos os Cruzados estavam prontos para a Missa e, depois fariam meia hora de guarda ao Santíssimo, revezando-se em turnos. Preparou-lhes o pároco uns lindos genuflexórios forrados de vermelho.

Revezaram-se os Cruzados até o meio dia, voltando alguns ao seu posto por até três vezes. Robertinho dissera: 'Trarei todos os Cruzados'; mas consigo dizia: 'Virão também as mães, os irmãos maiores e até os pais'. E assim foi realmente. Foi uma beleza!

E' que Robertinho percorrera as casas dos Cruzadinhos convidando-os com ardor para a guarda ao Santíssimo e pedindo-lhes que rezassem, fizessem sacrifícios e pedissem aos seus pais e irmãos que não faltassem. Eis o que pode fazer um Cruzadinho fervoroso.

20. QUE É QUE PEDES A JESUS?

Joei era uma menina que as Irmãs de Caridade encontraram abandonada pelos pais às margens do Rio Amarelo da Grande China. Estava a criancinha a morrer de fome de frio, quando as Irmãs a levaram para o hospital. Logo que a vestiram e a alimentaram, dando-lhe leite quente, começou a pequenina a  recuperar a vida e a saúde.

Foi batizada e logo brilhou a inteligência em seus olhinhos vivos e começou a conhecera Deus e a aprender as coisas do Céu. Andava já pelos oito anos e gostava de assistir à doutrina com as crianças que se preparavam para a primeira comunhão. Mas a sua memória não acompanhava o seu coração e, quando o missionário foi examiná-la, teve que dar-lhe a triste notícia de que não seria admitida à primeira comunhão enquanto não soubesse melhor a doutrina.

Julgava o padre que essa determinação a deixaria indiferente. Mas não foi assim. Daquele dia em diante, notou-se uma mudança extraordinária no comportamento da menina. Em lugar de brincar, como antes, com as crianças de sua idade, Joei começou a passar seus recreios na capela aos pés de Jesus! Um dia, estando Joei diante do Santíssimo, o padre acercou-se dela devagarinho e ouviu que ela repetia com frequência o nome de Jesus.

➖ Que é que estás fazendo aí?
➖ Estou visitando o Santíssimo Sacramento.
➖ Visitando o Santíssimo? Mas tu nem sabes quem é o Santíssimo...
➖  E' o meu Jesus, respondeu Joei.
➖ Bem; e o que pedes a Jesus?

Então, com as mãos postas e sem levantar a cabeça, com lágrimas nos olhos, a menina respondeu com indizível doçura:

➖ Peço a Jesus que me dê Jesus.

E a pequena  Joei teve então a licença para fazer a sua primeira comunhão.

21. QUERO SER PADRE!

Aquele que havia de ser o fundador da Congregação do Santíssimo Sacramento, Pe. Julião Eymard, parecia predestinado desde pequenino a ser um grande devoto da Eucaristia. Quando a sua mãe,l levando-o nos braços, ia à bênção do Santíssimo,  o menino não se cansava de olhar para Jesus na custódia.

Ele ia com a mãe em todas as visitas à igreja e não se cansava e nem pedia para sair antes dela. A sua irmã Mariana, que tinha dez anos mais e era como sua segunda mãe, costumava comungar com frequência. O irmãozinho, invejando-a, dizia:

➖ Oh! como você é teliz, podendo comungar tantas vezes; faça-o alguma vez por mim.
➖ E o que pedirei a Jesus por você?
➖ Peça-lhe que eu seja muito mansinho e puro e me dê a graça de ser padre.

As vezes, desaparecia durante horas inteiras. Procuravam-no então e iam encontrá-lo ajoelhado num banquinho perto do altar, rezando com as mãos juntas e os olhos pregados no sacrário. Antes mesmo do uso da razão, ansiava por confessar-se; mas não o admitiam. Quando tinha nove anos, quis aproveitar a festa do Natal para 'converter-se',  como dizia. Apresentou-se ao vigário e depois ao coadjutor mas, como estavam muito ocupados, não o atenderam.

Partiu, pois, com um companheiro, em jejum e, fazendo uma caminhada de oito quilômetros sobre a neve, foi a uma paróquia vizinha e lá conseguiu confessar-se. 'Como sou feliz' - dizia - 'como estou contente; agora estou puro'! Mas, que grandes pecados havia cometido? 'Ai! cometi muitos pecados em minha infância: roubei um boné numa loja e, depois, arrependido, voltei e deixei-o em cima do balcão...'

Para preparar-se para a primeira comunhão, começou a lazer penitências: colocava uma tábua em baixo do lençol, jejuava e, quando a fome apertava, corria a fazer uma visita ao Santíssimo para esquecê-la. Enfim, a 16 de março de 1823, chegou para ele o grande dia. Que se passou neste seu primeiro abraço com Jesus? Quando apertava Jesus ao coração, fez esta promessa e esse pedido: 'Quero ser padre!'

22. DAI-ME JESUS! E SEREI BOAZINHA...

Entre os meninos e meninas mais pequeninos, puros e bons, costuma Jesus Menino escolher seus pajens (cruzadinhos) para que o acompanhem aonde quer que vá. Uma dessas crianças foi Santa Gema Galgani, uma santa de nossos tempos que, durante toda a sua vida, recordava com prazer as primeiras práticas que tivera com Jesus Sacramentado, sendo ainda muito pequena.

'O rosto de minha mãe, depois de receber a comunhão' - dizia - 'ficava radiante de alegria e meu coração batia mais depressa, quando ela me chegava a seu peito, dizendo: Gema, aproxima-te de meu peito para dar um beijo em Jesus'.

Desde aquela idade, não cessava de pedir às suas professoras e aos capelães que lhe dessem o seu Jesus. Eles olhavam para ela e sorriam, pois, apesar de ter nove anos, era tão pequena que parecia ter apenas seis. Naquele tempo, o Papa não havia dado ainda o decreto da comunhão dos pequeninos e exigiam-se, para eles, as mesmas instruções e conhecimentos cabais: 'Tem paciência', diziam-lhe, 'até que tenhas a idade requerida'. 

Mas Gema pedia, pedia sem se cansar: 'Dai-me Jesus, dai-me... E vereis que serei boazinha, não pecarei mais e serei bem comportada. Dai-me Jesus, porque me parece que não poderei viver sem Ele!'. Estes belos sentimentos de um coração tão puro e amante moveram seus superiores a apressar o dia feliz e suspirado e satisfazer as ânsias dela de apertar Jesus ao peito. Gema tornou-se realmente, em sua vida pobre e humilde, uma grande santa que mereceu as honras do altar.

23. UM MÁRTIR DA CONFISSÃO E DA EUCARISTIA

Em 1927, dominavam no México os inimigos da Igreja Católica. Os ministros de Jesus cristo eram perseguidos, presos e fuzilados sem compaixão. Do número desses mártires, foi o ancião Pe. Mateus Correa. Estava em casa de um amigo, num dos bairros mais radicais, quando o foram chamar para atender um pobre índio que queria receber os últimos sacramentos. Apesar do perigo que corria, o padre quis cumprir com esse dever de caridade. 

Tomando consigo o Santíssimo, dirigiu-se com um amigo à casa do doente. Escolheram de propósito os caminhos menos frequentados mas, assim mesmo, os soldados de Calles os surpreenderam e, vendo que o padre levava consigo o Santíssimo, quiseram arrancá-lo dele à fôrça para o profanar. Mas o Pe. Correa foi mais esperto que os soldados consumindo imediatamente a sagrada partícula, dizendo a eles:

➖ Matai-me se quiserdes; mas a Jesus não profanareis.

Depois de maltratarem cruelmente o pobre padre, levaram-no à cidade de Valparaíso, onde o meteram em cárcere. Acusado de cumplicidade com os Cristeros, que combatiam nos arredores, detiveram-no ali até que o General Ortiz o levou consigo à cidade de Durango. Ali chegaram a 4 de fevereiro e, já no dia 6, o padre foi julgado pelo general em pessoa. Vários outros presos iam ser fuzilados. Dirigindo-se ao Pe. Correa, disse o general:

➖ Ouça primeiro a confissão desses bandidos, pois vão pagar logo os seus crimes.

Ouviu-lhes o padre a confissão e preparou-os para uma boa morte. Tendo terminado, o general lhe perguntou:

➖Agora me diga o que estes canalhas lhe contaram.

Erguendo-se o padre com nobre altivez, respondeu:

➖ Nunca, isso nunca!

➖ Não vai me dizer?

➖ Não, nunca!

➖ Então será fuzilado com os outros.

➖ Fuzile-me se quiser, mas o segredo da confissão não o violarei jamais.

O infame general mandou matá-lo e, assim, o grande mártir selou com o próprio sangue a sua fé e os seus sagrados ministérios.

24. A COMUNHÃO DÁ FORÇA

Estava a avozinha no terreiro, assentada à sombra de uma viçosa parreira, quando ouviu ser chamada:

➖ Vovozinha?

A avó levanta os olhos, um pouco surpreendida pois, até aquela hora, a netinha não lhe mostrara muita atenção; era atenta, mas não afetuosa.

➖ Que queres, filha?

➖ Vovó, eu queria saber porque você tem uma perna de pau. Você a perdeu em combate?

➖ Não, Lina; mas isso não é pergunta para a sua idade. Não foi uma bala de canhão, que me cortou a perna, nem mesmo um acidente.

➖ Então, o que foi?

➖ Simplesmente uma enfermidade, um tumor no joelho. Um dia o médico declarou que era preciso cortar a minha perna.

➖ Ah vovó, eu quisera antes morrer.

➖ Eu também.

➖ Por que, então, aceitou que a cortassem?

➖ Lina, não era possível; não vivia só para mim. Morrer quando se quiser, é luxo... e, algumas vezes, é covardia. Eu tinha de olhar para quatro filhinhos, que necessitavam muito de mim.

➖ Mas, para a cortar, fizeram você dormir?

➖ Não, eu não quis; tinha muito medo de não acordar e abandonar os meus filhos. E, afinal, se se tem de sofrer, é porque Deus o quer ou permite. 

➖ Cortaram a sua perna, assim, viva?

A boa velhinha, só em recordar o que se passara, estava pálida.

➖ Filhinha, antes da dolorosa operação, pedi o pão dos fortes, recebi a santa comunhão e pedi a Jesus Sacramentado paciência e coragem. O seu papai segurava a minha mão e até ele, pobrezinho, quase que desfaleceu.

➖ Vovozinha, então foi a comunhão que lhe deu forças. Oh! como Jesus é bom!

25. PÃO DOS FORTES

Na guerra da Criméia, um coronel francês recebe a ordem de apoderar-se de um fortim. Sem hesitar um instante, avança à frente de seu regimento, que ficou também eletrizado à vista de tamanha coragem. Calmo e impassível no meio das metralhadoras e baionetas, como se se encontrasse em uma parada militar, tomou de assalto a bateria inimiga, terrivelmente defendida pelos russos. Seu general, admirado por tão prodigiosa calma, exclama perante o Estado Maior:

➖ Coronel, que sangue frio! Onde aprendeste tamanha calma  em meio de tão grande perigo?
 Meu general - responde com toda a simplicidade o coronel - é porque eu comunguei esta manhã.

Honra ao coronel valoroso e cristão, e valoroso justamente porque cristão: e cristão não daqueles que se envergonham de sua fé ou se contentam com a comunhão de Páscoa, mas dos fervorosos que sabem alimentar-se do Pão dos Fortes com frequência e, particularmente, diante as circunstâncias mais difíceis da vida.

26. A FORÇA PARA O SACRIFÍCIO

Em 1901, teve início na França o fechamento de todos os conventos e a expulsão dos religiosos. Foi nesse período que se deu, em Reims, o seguinte caso contado pelo Cardeal Langenieux, arcebispo daquela cidade. Havia em Reims, entre outros, um hospital que abrigava somente os doentes atacados de doenças contagiosas, que não encontravam alhures nenhum enfermeiro que quisesse cuidar deles.

Em tais hospitais somente as Irmãs de Caridade costumavam tratar dos doentes e era essa a razão por que ainda não haviam expulsado as religiosas daquela casa. Um dia, porém, chegou ao hospital um grupo de conselheiros municipais informando à Superiora que precisavam visitar todas as salas e quartos do estabelecimento, porque tinham de enviar um relatório ao Governo. A Superiora conduziu atenciosamente aqueles senhores à primeira sala, em que se achavam doentes cujos rostos estavam devorados pelo cancro.

Os conselheiros fizeram uma visita apressada, deixando perceber, no entanto, em suas fisionomias, quanto lhes repugnava demorar-se ali. Passaram então à segunda sala; mas ai encontraram doentes atacados por doenças piores, sendo obrigados a puxar logo os seus lenços, pois não podiam suportar o mau cheiro. A passos rápidos percorreram as outras salas e, ao deixarem o hospital, aqueles homens estavam pálidos e visivelmente comovidos. Um deles, ao se despedir, perguntou à Irmã que os acompanhara:

➖ Quantos anos faz que a senhora trabalha aqui?

➖  Senhor, já são quarenta anos...

➖ Quarenta anos! - exclamou o outro cheio de pasmo - de onde hauris tanta coragem?

➖ Da santa comunhão que recebo diariamente -  respondeu a Superiora. E lhes digo mais, senhores, que no dia em que o Santíssimo Sacramento cessar de estar aqui, ninguém mais terá forças para ficar nesta casa.

27. O AMOR DOS PEQUENINOS

a) Primeira Comunhão

Perguntaram a uma piedosa jovenzinha:

➖ O que é a Primeira Comunhão?

➖ E' um dia de céu na terra.

Perguntaram-lhe então em seguida:

➖ E o que é o Céu?

➖ E' uma Primeira Comunhão que nunca terá fim - respondeu ela graciosamente.

E respondeu muito bem, porque a felicidade dos Anjos e Santos no Céu consiste em possuir a Deus eternamente. Ora, não é justamente a Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que possuímos pela Santa Comunhão?

b) Dentes de Leite

Escrevia em 1905 um missionário: uma órfãzinha do Orfanato de Trichinopoli, que poderia ter dois palmos de altura, veio um dia suplicar a ele que fosse admitida à Primeira Comunhão.

➖ Que idade tens? perguntei a ela.

➖ Ah ! isso eu não sei.

Recolhida de lugar desconhecido, não se sabia quantos anos teria; nem as Irmãs o puderam descobrir.

➖ Mostra-me os dentes - disse.

Com um sorriso gracioso, descobre a inocentinha duas filas de alvíssimos dentinhos.

➖ Oh! exclamei; os teus dentes de leite dizem-me que não tens nem sete anos. Portanto, este ano não poderás fazer a Primeira Comunhão.

Meu Deus! quem o acreditaria?  Tendo ouvido aquelas palavras, a menina, sem dizer nada a ninguém, corre ao quintal, toma uma pedra e, intrepidamente, faz saltar da boca todos os dentinhos. Depois, com a boca ensanguentada e com ar de triunfo, volta e diz-me:

➖ Dai-me Jesus! Eu o quero agora!

Chorando de comoção, tomei-a em meus  braços e segredei-lhe ao ouvido:

➖ Amanhã, minha filha, amanhã te darei Jesus!

28. A GRAVATA BRANCA

Jorge era um verdadeiro anjinho que a todos edificava por suas virtudes. Fez a primeira comunhão num colégio de Rouen e, entre outros, fez então o seguinte propósito: 'Levarei sempre comigo a gravata branca da minha primeira comunhão até o dia em que, por suma desventura, venha a perder a graça de que ela é símbolo'.

Jorge tornou-se adulto e crescia conservando sempre a sua gravata branca. Quando irrompeu a guerra franco-prussiana, alistou-se como voluntário entre os zuavos do general De Charette. Em janeiro de 1871, por ocasião da vitória na batalha de Mans, foi ferido mortalmente. O capelão aproximou-se dele imediatamente para recolher a sua confissão.

➖ Obrigado, senhor capelão, mas já me confessei há dois ou três dias e nada me pesa na consciência; estendei-me sobre um pouco de palha e trazei-me o Santo Viático, porque vou morrer.

O capelão voltou em seguida, trazendo o Santíssimo. 

➖ Antes de dar-me a comunhão, fazei-me um favor: abri a minha mochila e encontrareis ali uma gravata branca, manchada de sangue, que peço colocar-me ao pescoço.

O capelão assim o fez. Depois de ter recebido o Santo Viático, o jovem agradeceu ao capelão e disse: 

➖ Eis que morro; peço-vos o obséquio de levar à minha mãe esta gravata branca e dizer-lhe que, desde o dia da minha primeira comunhão, nunca perdi a graça santificante; sim, dizei-lhe que esta gravata não recebeu outra mancha a não ser a do meu sangue derramado pela minha pátria.

29. 'QUERO IR AONDE JESUS ESTÁ!'

Um pastor protestante, inclinado ao catolicismo, foi certo dia com sua filhinha em uma visita à capital da Inglaterra. A menina contava apenas cinco anos. O pai a levou a uma igreja católica e a atenção da pequena ficou por muito tempo na lâmpada do Santíssimo.

➖ Papai - disse - para que serve aquela lampadazinha?

➖ Filha, é para lembrar a presença de Jesus atrás daquela portinha dourada.

➖ Papai, eu quero ver Jesus!

➖ Filha, a porta está trancada e Ele está escondido debaixo de um véu; por isso, não o poderás ver...

➖ Ah ! papai, como eu queria ver Jesus!.

Saindo da igreja, entraram logo depois em um templo protestante, onde não havia nem imagens, nem lâmpada e nem sacrário.

➖ Papai, por que não há lâmpada aqui?

➖ Filhinha, é porque aqui Jesus não está presente.

Desde aquele dia, a menina só falava na Igreja Católica. Nunca mais quis entrar em um templo protestante, que para ela não tinha nenhum atrativo. Perguntaram-lhe um dia:

➖ Aonde queres ir, então?

➖ Quero ir aonde Jesus está.

O pastor ficou confundido e comovido. Compreendeu, com a sua filha, que só se pode estar bem onde Jesus está. Havia de fazer-se católico, havia de abjurar sua seita e renunciar a uma renda de cem mil libras, de que vivia a sua família, e ver-se pobre de um dia para o outro. Não obstante, pai e mãe se converteram ao catolicismo, repetindo com a filha: 'Queremos estar onde Jesus está'.

30. NUM TRIBUNAL REVOLUCIONÁRIO

Na revolução francesa de 1793, a igreja de São Pedro de Besançon foi entregue a um padre cismático. Os padres católicos, fieis à Igreja, eram presos e assassinados. Um destes padres, porém, chamado João, ficara ao lado dos seus paroquianos, disposto a sofrer tudo por Deus e pela Igreja. Andava disfarçado: botas largas, blusa de carroceiro, lenço grande ao pescoço e chicote em punho, lá ia pelas ruas visitando as casas de seus paroquianos. Levava pendurada ao cinturão uma caixinha em que se achava o necessário para administrar os sacramentos, bem como uma píxide de prata onde guardava o Santíssimo.

Passaram-se muitos meses sem que a polícia suspeitasse que, naquele carroceiro, se ocultava um sacerdote, que desempenhava ocultamente os seus ministérios. Afinal, um dia, foi descoberto e imediatamente conduzido ao tribunal revolucionário.

➖ Cidadão, quem és tu?
 ➖ Sou o Padre João, ministro de Jesus Cristo.
 A lei não te proíbe exercer teu ministério?
 Sim; mas Deus me ordena que o faça.
 Parece que tens nessa caixinha cartas de correspondência com o estrangeiro?
 Não; isso nunca o fiz.
➖ O que levas então nessa caixa?

Temendo alguma profanação, e julgando que aqueles homens não o compreenderiam, respondeu:

 São hóstias.
 Estão consagradas? perguntou o presidente do tribunal.
 Sim, estão.

Deu-se, então, um fato espantoso, nunca visto em tais tribunais. O presidente do mesmo que, sem dúvida, quando menino, recebera instrução religiosa e no catecismo aprendera o dogma da presença real, gritou com voz imperiosa:

➖ Cidadãos, as hóstias estão consagradas, todos de joelhos!

Em seguida, chamou os guardas e ordenou-lhes que acompanhassem o sacerdote até a igreja sob a direção do padre cismático para repor o Santíssimo. No dia seguinte, após um juízo sumário, o padre foi condenado a ser decapitado por ter violado as leis vigentes da revolução.

31. ESTOU VENDO OS CHINESES!

Justo de Bretennières foi martirizado na Coréia em 8 de março de 1866; mas desde 6 anos de idade se sentira chamado a ser um sacerdote missionário. Em 1844, estava Justo brincando com o seu irmãozinho Cristiano, de quatro anos, fazendo buracos no chão. De repente, Justo interrompe a conversa do irmãozinho:
 
➖ Cale-se! Cale-se! - E, pondo-se a olhar por um daqueles buracos, acrescentou:

➖ Estou vendo os chineses, estou vendo os chineses! Vamos fazer um buraco mais fundo e logo chegaremos até eles. Cavemos mais fundo.

Cristiano inclina-se, espia e jura que não vê coisa alguma. Justo, entretanto, insiste e diz que está vendo o rosto, os trajes, o rabicho do cabelo... Inclina-se outra vez e diz:

➖ Agora os estou ouvindo.

Cristiano corre, chama a mamãe e ela também não vê nem ouve nada. Então Justo muito convencido diz:

➖ Não os ouvis porque não é a vós que eles falam; mas eu os ouço. Sim, mamãe, do fundo do buraco, lá de longe, me chamam. E é preciso que eu os vá lá salvar.

E foi, na verdade, missionário famoso na China e na Coréia. Os inimigos da religião fizeram-no sofrer horrível martírio. No momento de morrer por Jesus Cristo, disse cheio de alegria:

➖ Vim à Coréia para salvar as almas. Com gosto morro por Deus e por elas.

32. GERALDO E A EUCARISTIA

Geraldo, quando muito pequeno ainda, tinha a felicidade de brincar com o Menino Jesus que, ao se despedir, dava-lhe um pãozinho muito alvo e saboroso. Desde essa tenra idade, portava-se na igreja com tamanho recolhimento que o tinham por um anjo.

Sua piedade verdadeiramente angélica comovia os corações de todos os que o viam e, certamente, mais ainda, o de Deus. Nosso Senhor recompensava a sua terna devoção, aparecendo-lhe, durante a santa missa, em forma visível. Seu coração parecia então todo inflamado e, quando, depois da comunhão do sacerdote, o Senhor desaparecia, Geraldo ficava triste e seus olhos enchiam-se de lágrimas.

Desde aquela época sentia um atrativo sobrenatural e irresistível pela igreja, pelo augusto santuário, onde Jesus sacramentado o enchia de delícias inefáveis. À tarde, onde quer que estivesse, ao ouvir o sino chamar para a visita ao Santíssimo, deixava os seus brinquedos e dizia aos companheiros:

➖ Vamos, vamos visitar a Jesus que quis fazer-se prisioneiro por nosso amor.

E era de ver com que fervor e a devoção o menino ficava ali ajoelhado, imóvel e abismado no seu Deus.

Tinha um desejo imenso de comungar, mas por não ter a idade requerida, não lhe permitiam. Deus, porém, quis satisfazer o desejo ardente de Geraldinho, que recebeu a comunhão, miraculosamente, das mãos de um anjo. 

Aos dez anos, fez a sua primeira comunhão solene com o ardor de um serafim; e, daí em diante, a Eucaristia foi o pão necessário de sua alma. Também, não tardou muito, o confessor lhe permitiu a comunhão diária.

33. UM NOVO JUDAS

Um menino, chamado Fúlvio, fazia os seus estudos num dos principais colégios de França. Enquanto a mãe o conservou sob suas vistas, foi o menino preservado dos graves perigos que ameaçam os pequenos; mas no colégio apegou-se Fúlvio a dois colegas maus e corrompidos com os quais vivia em estreita amizade.

Bem depressa, por causa deles, perdeu a inocência e, com ela, a paz do coração. Alguns livros imorais dados por esses companheiros acabaram por perdê-lo. Aos doze anos, foi admitido à primeira comunhão; infelizmente não a fez por devoção, mas apenas para obedecer à mãe, sem propósito de mudar de vida nem de abandonar as más companhias.

Confessou-se sacrilegamente, calando certos pecados vergonhosos e, assim, com o demônio no coração, com o pecado mortal na alma, teve a temeridade de receber a comunhão. Os pais, enganados pelas aparências, julgaram-no bem comportado e o mandaram-no de novo para o colégio. Fúlvio, porém, por sua indisciplina e preguiça nos estudos, teve um dia de ser severamente castigado pelo diretor e encerrado por algumas horas na sala de reclusão do colégio.

Chegada a hora de ser colocado em liberdade, vão ao quarto que servia de reclusão e, antes de abrir a porta, escutam do lado de fora.... Não ouvem nada... nenhum movimento... Bate-se à porta e ninguém responde. Abre-se, afinal, a porta, e o que é que se vê? Ai! que horror! O infeliz rapaz enforcara-se e estava morto!

Imaginem-se os gritos e gemidos no colégio. Sobre a mesa, foi encontrada uma carta na qual estavam expressos os sentimentos de uma alma ímpia, desesperada, sacrílega. Tal foi o fim do desditoso rapaz, vítima de maus companheiros, e que, tendo pecado como Judas, teve também a morte de Judas.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos', do Pe. Francisco Alves, 1958; com adaptações)