TESOURO DE EXEMPLOS


1. 'MENINA, LEVANTA-TE!' 

Jairo, o presidente de uma das sinagogas de Cafarnaum, está angustiadíssimo. Sua filhinha de doze anos acha-se gravemente enferma, e sua cura é desesperadora. Como última e extrema solução recorre a Jesus. Sabe que Ele acaba de regressar de Gerasa e vai ao seu encontro. 'Senhor' diz-lhe com voz angustiada, 'minha filha está morrendo. Vem, impõe a tua mão sobre ela para que sare e viva'. 

O Mestre, sempre misericordioso e amicíssimo das crianças, acede e imediatamente se põe a caminho; mas a multidão o rodeia e o aperta de tal forma, nas ruas estreitas da cidade, que o detém mais tempo do que Jairo o quisera e a enfermidade da menina o permitiria. Por isso, antes de chegarem a casa, encontram-se com alguns criados, que dão ao seu amo a fatal notícia da morte da pequena. Pobre pai! Cheio de esperanças recorrera ao Redentor; no caminho vira crescer seu otimismo com a cura milagrosa da hemorroíssa, mas agora todas as suas ilusões se desmoronam. 

E' tarde. Morrera a criança. Têm razão seus criados: para que incomodar e cansar mais o Mestre? Jesus, porém, consola-o, dizendo: 'Não temas, crê e tua filha será salva'. Chegam à casa coberta de luto. Ali estão a exercer o seu ofício mercenário as carpideiras e os flautistas funerários - importação pagã introduzida nos costumes judeus - e também os parentes e amigos rodeiam a família. 

'Por que chorais e estais alvoroçados?' - pergunta-lhes Jesus. 'A menina não está morta, mas dorme'. Os que o ouvem falar assim riem-se dele, pois viram o cadáver e têm a certeza de que está morta. Não sabem que, para o Senhor da vida, aquela morte é um breve sono, cujo despertar está próximo. Jesus ordena que aquela gente se retire e penetra na câmara mortuária, acompanhado só dos pais da defunta e de três dos seus discípulos. 

Sobre o leito, estendem-se rígidos e frios os membros pálidos do cadáver. Jesus se aproxima e toma, entre as suas, a mão pálida da menina, e ordena com autoridade: talitha, cumi! 'menina, levanta-te!' E com grande espanto de seus pais, a menina levanta-se e começa a andar. Ressuscitou? Sim; não só ressuscitou mas está, além disso, completamente curada; tanto assim que logo começa a alimentar-se. Operado o milagre, Jesus retira-se, ordenando silêncio, porque quer evitar aclamações e demonstrações de entusiasmo. Apesar disso, como seria natural, a notícia do prodígio espalhou-se por toda aquela região.


2. O FILHO DA VIÚVA 

Naim, aldeia situada na encosta setentrional do Pequeno Hermon, a trinta e oito quilômetros aproximadamente de Cafarnaum, foi teatro de um dos maiores milagres de Jesus. Caía a tarde. O sol estava a ponto de esconder-se atrás das montanhas, quando o Salvador, acompanhado de seus discípulos e de uma multidão que não podia separar-se dele, subia pelo estreito caminho que dava acesso ao lugar. 

Próximo à porta da aldeia, a multidão teve de ceder o passo a outro cortejo que dali saía em direção contrária. Era um enterro. Sobre um esquife, sem caixão, conduziam o cadáver de um jovem, envolto num lençol. Atrás vinha, com os parentes e amigos, a mãe muito triste e desolada. Era viúva e o defunto, quase menino ainda, era o seu único filho e seu futuro arrimo. 

O filho morrera. Que seria dela dali em diante? Informado do que se passava, Jesus, sempre misericordioso e compassivo, disse àquela viúva inconsolável: 'Não chores, filha'. E, aproximando-se do féretro, fez sinal para que parassem e deitassem o esquife no solo. Toda gente se apinhou ao redor do Salvador. Que iria acontecer? Os entusiastas do divino Taumaturgo estavam acostumados a vê-lo operar estupendos milagres; mas, com um morto, que era já levado à sepultura, o que poderia Ele fazer? 

Os olhos daquela gente, arregalados pela curiosidade, não perdiam os menores movimentos do Mestre. Jesus, olhando para o cadáver daquele rapaz, pálido e rígido pelo frio da morte, ordenou-lhe em tom imperativo: 'Moço, eu te digo, levanta-te!' Um calafrio da emoção eletrizou os circunstantes. Não havia dúvida, o morto ressuscitara. Todos podiam ver como o cadáver se movia e a sua cor lívida desaparecia; os olhos brilhavam, os lábios abriam-se; o defunto falava. Já não estava morto. Vive e vive sua vida plena. E Jesus, tomando-o pela mão, entrega-o à mãe que, derramando lágrimas de comoção e de alegria, prostra-se por terra para dar graças ao Senhor da vida e da morte.

3. A CURA DE UM CRIADO

Depois do sermão da Montanha, entrou Jesus em Cafarnaum. Achava-se ali um centurião que, embora gentio, simpatizava com os judeus a ponto de edificar-lhes, à sua custa, uma sinagoga. Certamente ouvira talar de Jesus, e é muito provável que o conhecesse de vista e até tivesse ouvido, mais de uma vez, suas pregações e presenciado algum milagre. 

Cai-lhe enfermo um servo 'a quem amava muito'. Sofre um ataque de paralisia e está quase à morte. O centurião, que o ama deveras, deseja a todo custo a sua cura e, ao inteirar-se de que Jesus está no povoado, pensa poder alcançar dele o que, por meios naturais, parece impossível. E' humilde e não se atreve a ir em pessoa ter com o Mestre. 

Como pretender um tal favor, sendo ele um gentio? Mas, como está bem relacionado, envia uma comissão de pessoas principais do lugar. Estas, apresentando-se diante o Salvador, transmitem a Ele o pedido do centurião. E, para mais pesarem o ânimo do benfeitor, elogiam o centurião e enumeram os benefícios recebidos. Jesus, todo atenção e bondade, acolheu amavelmente os representantes do militar, dizendo: 'Eu irei e o curarei'. E pôs-se imediatamente a caminho. 

Avisado de que o Salvador se dirigia a sua casa, e assustado com a grandeza do favor, o centurião enviou-lhe alguns amigos que lhe dissessem: 'Senhor, não te incomodes. Não sou digno de que entres em minha casa; dize, pois, uma só palavra e meu servo ficará curado'. E explicou mais claramente o seu pensamento, dizendo que, embora fosse um simples oficial subalterno, bastava dar uma ordem a seus inferiores que estes lhe obedeciam. Não poderia Jesus, sem o incômodo de ir à sua casa, ordenar que a enfermidade cessasse? Jesus mostrou-se admirado ao ouvir tais palavras e disse aos que o seguiam: 'Em verdade, em verdade vos digo que nem em Israel encontrei tamanha fé'. Em seguida, operou o milagre à distância e, naquele momento, o servo que estava em perigo de morte curou-se instantaneamente.

4. 'HOJE A SALVAÇÃO ENTROU NESTA CASA!'

Logo que em Jericó se espalhou a notícia da chegada do Salvador, todos os seus habitantes correram para a rua, ao encontro do homem extraordinário que tantos milagres realizara. Uma grande multidão o cerca e o acompanha por toda a parte, ao passo que outros tomam posição ao longo da rua para vê-lo quando passar por ali.

Zaqueu, homem riquíssimo e muito influente, é o chefe dos arrecadadores de impostos da cidade de Jericó, o centro comercial mais importante de Israel. Ouviu falar de Jesus, e simpatizou-se com Ele porque Jesus não desprezava os de sua profissão, que eram tão odiados pelo povo. Quer vê-lo, mas não consegue; a sua pequena estatura não lhe permite contemplá-lo por cima das cabeças da enorme multidão. 

Esforça-se por abrir passagem através da muralha humana estendida ao longo do trajeto, mas não consegue. Ocorre-lhe, então, uma ideia. No afã de ver o Messias, esquece-se de sua dignidade, calca aos pés o respeito humano e, correndo para a frente do cortejo, sobe ao tronco nodoso de um sicômoro, firmando-se nos galhos.

A multidão passa junto da árvore. Zaqueu está encantado com o que vê. No centro do cortejo caminha Jesus, humilde e magnífico, doce e grave ao mesmo tempo. Ao chegar em frente da árvore, ergue os meigos olhos, fixa-os naquela exígua figura e diz: 'Zaqueu, desce depressa porque é mister que hoje me hospede em tua casa'. Zaqueu estremeceu de emoção ao ouvir ser chamado pelo nome. O rabino extraordinário, a quem tanto desejara ver, quer se hospedar em sua casa.

Desce apressadamente da árvore e, satisfeito por completo pela distinção, leva Jesus à sua casa. A gente imbuída de espírito farisaico escandaliza-se vendo que o Messias vai hospedar-se na casa de um publicano. Este, tendo sentido o aguilhão da graça penetrar em seu coração, sabe corresponder a ela, dirigindo-se ao Salvador para dizer: 'Senhor, darei aos pobres a metade de tudo quanto tenho e, se em alguma coisa defraudei ao próximo, devolver-lhe-ei quatro vezes mais'. Jesus, acolhendo os bons propósitos do pecador arrependido, o aprova e o bendiz com as palavras: 'Hoje a salvação entrou nesta casa!'.

5. O MOÇO RICO

Um moço rico, dirigindo-se a Jesus, pergunta-lhe: 
- Bom Mestre, que hei de fazer para herdar a vida eterna?
- Se queres salvar-te, cumpre os mandamentos, isto é, não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho, honrarás teu pai e tua mãe e amarás ao próximo como a ti mesmo'.
- Todas essas coisas tenho observado desde pequeno; o que me falta ainda? 
- Para seres perfeito, vende tudo quanto tens, reparte-o pelos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois, vem a mim e segue-me. 
- Eu, Mestre?
- Sim; virás comigo; andarás de cidade em cidade, de uma aldeia a outra.
- Sim, Mestre, é belo !
- Teus vestidos terão, como os meus, o pó vermelho dos caminhos. Comerás, como os meus discípulos, o pão vindo da esmola... Por enquanto, vai , vende o que possuis e, pobre e humilde, vem comigo, e não penses mais no teu amanhã.
- Mas, Mestre, é tão difícil...
- Achas mesmo? Viestes rico e voltas pobre, eis tudo. . .
- Mestre, tenho palácios e mobílias finas; arcas cheias de pedras preciosas; possuo vinhas e rebanhos... Mestre, sou rico, mas quero salvar-me, quero o céu. Dize-me, Senhor, ainda uma vez, que deverei fazer?
- Vai, vende tudo; dá-o aos pobres e volta pobre; e segue-me!
- Mestre...
- Já vais?
- Mestre, adeus...
- Adeus, moço...
Com os ombros curvados, olhando para o chão,o moço rico retira-se vagarosamente. Está triste. O Mestre, também triste e pensativo, suspira:
- Como é difícil entrar um rico no reino de Deus! Infelizes os que se apegam às riquezas!
João, ouvindo isso, pergunta:
- Senhor, quem poderá salvar-se?
- O que para os homens é impossível, para Deus não é!
O moço rico vai caminhando lentamente. Parece carregar todo o peso do mundo. Na curva do caminho, pára e olha para trás, como quem se despede de uma felicidade perdida. Depois, estuga o passo e desaparece...

6. O CEGO À BEIRA DA ESTRADA

Jesus, acompanhado pelos seus discípulos, após longa caminhada, estava para entrar na cidade de Jericó. À beira da estrada, não muito longe das habitações, estava um cego sentado, pedindo esmola. Aquela estrada, uma das mais frequentadas pelos peregrinos, era certamente um ponto bem escolhido pelo cego para estender a mão aos transeuntes.

Naquela hora, porém, a esmola que ia receber não era apenas grande, era a maior que podia desejar em sua vida. Ouvindo o tropel de gente que passava, perguntou:
- Que movimento é esse? Quem é que está passando?
- 'E' Jesus de Nazaré'; disseram-lhe.

Jesus! Aquele nome não lhe era desconhecido; pelo contrário. Já ouvira talar de muitos milagres operados por Ele; sabia que Jesus, sempre caridoso e bom, restituíra a luz dos olhos a diversos outros cegos como ele. Quem sabe se não teria chegado, também para ele, a hora da graça, o momento da cura? Cheio de esperança, pôs-se a clamar:
- Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim! Era como se dissesses: 'Senhor, tu és o Messias prometido; tu és o Filho de Deus feito homem; tu podes curar-me, restituindo-me a vista.
Interiormente, este cego enxergava muito mais do que os pobres judeus obcecados. Manifestava uma fé viva, uma confiança firme, um grande desassombro.

Apesar de o repreenderem os que vinham à frente, mandando que ele se calasse, suspeitando que quisesse pedir alguma esmola a Jesus, nem por isso deixava de repetir:
- Jesus, Jesus, tem piedade de mim que sou um pobre cego!
Nosso senhor, chegando mais perto, ouvindo aquela voz lastimosa, pára no meio da estrada e diz aos que estão junto ao cego: 'Tomai-o pela mão; trazei-o aqui. Eu quero vê-lo de perto, quero falar-lhe'.

Conduziram o cego até Ele e Jesus, embora conhecesse perfeitamente qual era o pedido daquele  infeliz, para que o mesmo fizesse uma profissão de fé no poder de Deus, perguntou-lhe: 'Que queres que eu te faça? Que é que pedes?'
- Senhor, faze que eu veja, pois é tão triste ser cego! Não enxergo, não vejo nada deste mundo; Senhor, faze que eu veja!

E Jesus, diante da fé viva do cego, usa de seu poder e de sua bondade, dizendo simplesmente: 'Vê! A tua fé te salvou'. E, no mesmo instante, o homem abriu os olhos e admirado, comovido até às lágrimas, começou a ver. E, em vez de correr para casa, para contar aos seus a graça recebida, permaneceu ao lado de Jesus e o segue, agradecendo a Deus e bendizendo ao seu Benfeitor. E foi, então, que todos os que presenciaram o milagre também começaram a louvar e bendizer a Deus.

7. SEJAMOS RETRATOS DE DEUS

Não podemos viver profanando e manchando a imagem divina que trazemos em nossa alma. Nosso dever é trabalhar em todos os momentos de nossa vida e com todos os auxílios que recebemos de Deus, para conseguirmos que esse retrato divino seja cada dia mais semelhante ao modelo que temos diante dos olhos. O nosso modelo consumado é Jesus Cristo.

Quem é Jesus Cristo? E' o mistério da pobreza... Apresenta-se no mundo num estábulo. Repousa sobre duras palhas num mísero presépio. Chama a si os pobres: com eles se ajunta e quer que formem a côrte do novo reino que veio fundar neste mundo.

Quem é Jesus cristo? O mistério do trabalho... Encerra-se numa oficina e trabalha para comer o pão amassado com o suor do seu rosto. Anda de cidade em cidade, espalhando a doutrina da verdade e a semente da perfeição. Ele mesmo afirma que não tem uma pedra para repousara cabeça. 

Quem é Jesus Cristo? O mistério da verdade... Fala em toda parte. Fala das doutrinas mais elevadas. Trata dos problemas religiosos, os maiores que jamais foram tratados no mundo. Ouvem-no os seus inimigos, procurando surpreender nEle algum erro... Não o conseguem! Ele é o único homem em cujos lábios jamais apareceu a sombra fatídica do erro e do engano.

Quem é Jesus Cristo? O mistério do amor... Amou até à abnegação mais absoluta, amou até ao sacrifício,  amou os seus verdugos e seus inimigos, amou até fazer-se nosso alimento, amou-nos até a morte de cruz.

Quem é Jesus Cristo? O mistério da humilhação... Lavou os pés dos seus discípulos Subiu a uma cruz e ali, naquele madeiro, que era o patíbulo dos escravos, ali o contemplou a humanidade desnudo e abandonado por todos.

Quem é Jesus Cristo? O mistério da obediência... Obedeceu desde o berço até o túmulo. Não se desviou nem um ápice do caminho que lhe traçou o Pai celeste.

Quem é Jesus Cristo? E' o mistério do poder... Contra Ele se levantaram todos os partidos políticos de sua nação. Os que representavam a lei e a religião coligaram-se também contra Ele. Até os seus amigos mais íntimos na hora da dor o abandonaram. Estava só... Mas, afinal, triunfou sobre todos eles. Hoje, os que ontem o odiavam são pó e cinza levados pelo vento: Ele reina sobre os povos e sobre os corações.

Quem é Jesus Cristo? E' o mistério da glória... Triunfou sobre a morte. Subiu aos céus. Ali está sentado à direita de Deus Pai. Dali há de vir para julgar os vivos e os mortos. E a sua glória não terá fim.

Eis aí, em resumo, quem é Jesus Cristo. Todos os santos procuraram ser reflexos perfeitíssimos desse Deus que, como diz Santo Agostinho, para isso precisamente se fez homem, para que tivéssemos o modelo mais admirável de Deus. Trabalhemos e copiemos as divinas virtudes que nEle resplandecem.

8. O PAJEM SALVO PELA MISSA

Tinha Santa Isabel de Portugal um  pajem muito virtuoso e piedoso a quem encarregava de distribuir as suas esmolas.  Outro pajem, que ambicionava aquele cargo e por ser muito invejoso, acusou-o junto ao rei de um grande crime, de um pecado muito feio. Acreditou o rei nas mentiras do pajem perverso e resolveu matar o pajenzinho da santa rainha.

Ordenou a um homem, que tinha um forno de cal, que lançasse ao fogo o primeiro criado que chegasse para informar-se se haviam cumprido as ordens do rei. Em seguida mandou o pajenzinho que fosse levar tal recado ao dono do forno. O rapaz partiu imediatamente mas, ao passar diante de uma igreja e ouvindo tocar o sino para a missa, resolveu ouvi-la antes de ir adiante.

Enquanto a ouvia, o rei, impaciente de saber se o pajem da rainha tinha morrido, mandou o outro pajem caluniador que fosse perguntar ao homem do forno se este havia executado a ordem do rei. Correu tão depressa que, chegando primeiro ao forno e dando o recado, o homem imediatamente o lançou ao fogo. Estava ainda ardendo quando, pouco depois, chegou o pajenzinho da rainha, que assistira toda a missa e perguntou se haviam cumprido a ordem do rei.

Tendo recebido uma resposta afirmativa, correu ao palácio para comunicá-la ao rei. Este, ao ver o rapaz, ficou estupefato e adivinhou as secretas disposições da Providência Divina, que permitira o castigo do culpado e a salvação do inocente. Um menino chamado Renato, a quem o pai contou este caso, ficou tão impressionado que, não somente quis ouvir muitas missas, como ainda quis fazer-se padre para poder celebrar para outros o Santo Sacrifício.

9. O MENINO QUE FOI ENFORCADO TRÊS VEZES

Estamos na Palestina, pátria de Jesus, onde se pronunciou a primeira Missa e os Apóstolos fizeram sua primeira comunhão. O que é hoje a Palestina? Terra de desolação, de maometanos, cismáticos, judeus e poucos católicos.

Um menino cismático de oito anos começou a sentir-se atraído à religião católica, a seus cantos e festas, que lhes eram contados por seus companheiros. Um dia quis ir ver de perto. Com muito segredo, por temor dos pais, assistiu à missa numa capela. Ficou encantado. Depois da missa continuou ali com as crianças do catecismo. Terminada a cerimônia, o padre, que não o conhecia, aproximou-se dele para saudá-lo carinhosamente.

O coração estava ganho e o menino, às escondidas, continuou a ouvir a missa todos os domingos. Um dia, porém, o pai descobriu e perguntou-lhe:
- Você esteve com os malditos católicos?
- Sim, papai.
- Eu não lhe proibi isso?
- Sim, senhor.
- Jura-me que não voltará lá?
- Não posso, pois em meu coração já sou católico.
- Então você não jura?
- Não, senhor.
- Enforcá-lo-ei então...
- O senhor pode enforcar-me.

Passou o bárbaro uma corda a uma viga do teto e o laço ao pescoço do filho e puxou-o para cima. Quando os pezinhos do menino deixaram de mover-se, o pai o desceu, soltou o laço e, vendo que ainda estava vivo, disse:
- Agora você me promete não ir mais ter com aqueles malditos...
- Não, papai, não posso.
Por uma segunda e uma terceira vez repetiu o pai o cruel suplício, mas não conseguiu mudar o propósito do menino. Disfarçando, então, a sua cólera, tentou o bárbaro pai outros meios. Tomando em seus braços o corpo extenuado do pobrezinho, lhe disse:
- Mas, meu filho, você não me ama?
- Amo-o, papai.
- Como é, pois, que não quer me obedecer?
- E' que eu amo a minha alma mais do que amo ao meu pai.

O menino, pouco a pouco, recobrou as forças e logo se fez batizar, tornando-se católico. Seu pai e sua mãe morreram de tifo no ano seguinte e não muito depois teve o pequenino mártir a morte de um santo.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos', do Pe. Francisco Alves, 1958; com adaptações)