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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

A HERESIA DA SOLA SCRIPTURA

 

A chamada Sola Scriptura é a doutrina protestante segundo a qual a Sagrada Escritura constitui a única autoridade infalível e suprema em matéria de fé e moral. Por outro lado, a doutrina católica assume que Escritura, Tradição e Magistério constituem fontes indissociáveis na transmissão e interpretação da Revelação divina. Assim, a doutrina da Sola Scriptura rejeita a Sagrada Tradição e o Magistério da Igreja como autoridades infalíveis ao lado da Escritura.

A questão crucial é, portanto, um problema de origem comum: as Sagradas Escrituras e, neste sentido, vamos desconsiderar em princípio que existe uma diferença fundamental no número dos livros entre a Bíblia Católica (73 livros) e a Bíblia Protestante (66 livros, com a exclusão dos livros de Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, 1 Macabeus e 2 Macabeus, além de algumas partes de Ester e Daniel). Consideremos ainda que a Igreja Católica reconhece e atesta que a Escritura contém toda a revelação divina, bem como tudo que é necessário para a salvação eterna, de forma explícita ou implícita. Até aí, doutrina e heresia sempre caminharam juntas pois, por mais paradoxal que possa parecer, quase todas as grandes heresias que convulsionaram a Santa Igreja pelos séculos foram originadas na própria Escritura ou, melhor dizendo, a partir de interpretações equivocadas, descontextualizadas e manipuladas pelo livre exame dos textos bíblicos, como se a interpretação da Escritura fosse um complemento lógico e inerente à própria Escritura. 

Não é, nem de longe. Isso não significa que o fiel esteja proibido de ler e compreender a Bíblia. Significa que sua interpretação NÃO POSSUI UMA AUTORIDADE AUTÔNOMA E INFALÍVEL. A própria Escritura mostra a necessidade de mestres (Ef 4,11-14), da pregação apostólica (2Ts 2,15) e da autoridade da Igreja para resolver controvérsias (Mt 18,17-18). 

Com efeito, no texto bíblico do encontro de Filipe com o eunuco: 'Filipe correu, ouviu-o ler o profeta Isaías e perguntou: ‘Porventura entendes o que estás lendo?’ Ele respondeu: ‘Como é que posso, se não há alguém que mo explique?’ (At 8,30-31), fica claramente explícito que o eunuco possuía a Escritura e sabia lê-la, mas reconheceu que necessitava de um intérprete autorizado. Filipe, enviado pelo Espírito Santo e participante da missão apostólica, explicou-lhe que a passagem de Isaías se referia a Jesus Cristo. São Pedro reconhece expressamente que existem textos bíblicos difíceis, sujeitos a interpretações errôneas e equivocadas: 'Nelas há algumas passagens difíceis de entender, cujo sentido os ignorantes e vacilantes deturpam, como fazem também com as demais Escrituras, para a própria perdição (2Pd 3,16). Portanto, não se pode afirmar que o verdadeiro sentido seja sempre evidente ou inerentemente acessível a todo leitor. E, pior: estes erros de interpretação afetam também as demais Escrituras (não apenas passagens difíceis de entender) e que são a causa da própria perdição para os que deturpam os textos bíblicos pela livre interpretação.

No Evangelho, em resposta ao apóstolo fiel, Jesus vai oferecer a Pedro o primado da Igreja, como privilégio da glória, poder e realeza de Cristo: 'Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso, eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la' (Mt 16,17 - 18). E Jesus vai declarar em seguida o poder universal e sobrenatural da sua Igreja, criada ali, naquele momento da história, naquele lugar qualquer da chamada 'Cesareia de Felipe': 'Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado nos céus' (Mt 16,19). Ligado ou desligado. Poder absoluto, domínio universal, primado da verdade, Cátedra de Pedro.

O modelo bíblico, portanto, não pode ser nunca: Escritura → interpretação particular autossuficiente (heresia protestante), mas Escritura → fé apostólica → interpretação e decisão da Igreja assistida pelo Espírito Santo (doutrina católica). Se não fosse assim, Cristo não precisaria criar a sua Igreja, como depósito da fé ensinada nos Evangelhos. É neste contexto de unidade e univocidade da Revelação Divina que São Paulo não chama a Escritura isoladamente de 'coluna e sustentáculo da verdade', mas atribui essa função à Igreja, uma única Igreja, à Igreja do Deus vivo: 'A Igreja do Deus vivo, coluna e sustentáculo da verdade' (1Tm 3,15). Sim, a igreja do Deus vivo, a Igreja Católica, repositório da Verdade de Cristo, a única que POSSUI A AUTORIDADE AUTÔNOMA E INFALÍVEL para a interpretação da Escritura pelos selos da TRADIÇÃO e do MAGISTÉRIO

Implodidas estas duas vigas rígidas de sustentação, a Revelação Divina é exposta de forma ambígua e vacilante, a preço vil, por centenas de seitas que proclamam verdades lapidadas por eunucos da graça que não reconhecem a própria ignorância, uma vez consumidos por um orgulho desmedido. Sobre estes tolos, pairam as palavras duras e contundentes de Santo Agostinho: 'A alma abandona Aquele a quem deveria estar unida como seu fim e pretende tornar-se o próprio fim para si mesma' (A Cidade de Deus, XIV,13). 

domingo, 23 de agosto de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

                    

'Ó Senhor, vossa bondade é para sempre!
Completai em mim a obra começada!' (Sl 137)

Primeira Leitura (Is 22,19-23) - Segunda Leitura (Rm 11,33-36) - Evangelho (Mt 16,13-20)

  23/08/2026 - VIGÉSIMO PRIMEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM

'E VÓS, QUEM DIZEIS QUE EU SOU?'


Num dado dia, na 'região da Cesareia de Felipe', Jesus revelou a seus discípulos, num mesmo momento, a sua própria identidade divina e o primado da Igreja. Neste tesouro das grandes revelações divinas, o apóstolo Pedro será contemplado, neste dia, por privilégios extraordinários: seu ato humano de fé perfeita será convertido por Cristo na pedra angular da qual nascerá a Santa Igreja.

Nesta ocasião, as mensagens e as pregações públicas de Jesus estavam consolidadas; os milagres e os poderes sobrenaturais do Senhor eram de conhecimento generalizado no mundo hebraico; multidões acorriam para ver e ouvir o Mestre, dominados pela falsa expectativa de encontrar um personagem mítico e um Messias dominador do mundo. Então, Jesus retira-se para um lugar isolado, afastando-se do júbilo fácil do mundo e das multidões errantes, que O tomam por João Batista, por Elias, por um dos antigos profetas. E se aproxima intimamente daqueles que haverão de ser os primeiros apóstolos da Igreja nascente, compartilhando-lhes na pergunta do juízo de fé: 'E vós, quem dizeis que eu sou?' (Mt 16,15). A resposta de Pedro é um símbolo da confissão perfeita da sua fé: 'Tu és o Messias, o Filho do Deus Vivo' (Mt 16,16).

Sim, Jesus Cristo é o Filho de Deus Vivo: Deus feito homem na eternidade de Deus. A missão salvífica de Jesus há de passar não por um triunfo de epopeias mundanas, mas por um tributo de Paixão, Morte e Ressurreição; não pelo manejo da espada ou por eventos feitos de glórias humanas, mas pela humildade, perseverança e um legado de Cruz. A Cruz de Cristo é o caminho da nossa salvação e da vida eterna, ontem e sempre. Por isso, a mesma pergunta se impõe a todos os homens, de todos os tempos: quem é Jesus para nós, o Filho de Deus Vivo da confissão de Pedro ou um arauto de nossas próprias incertezas, refeito sob a ótica dos interesses humanos?

Em resposta ao apóstolo fiel, Jesus vai oferecer a Pedro as primícias do papado e o primado da Igreja, como privilégio da glória, poder e realeza de Cristo: 'Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso, eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la' (Mt 16,17 - 18). E Jesus vai declarar em seguida o poder universal e sobrenatural da Santa Igreja Católica Apostólica e Romana: 'Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado nos céus' (Mt 16,19). Ligado ou desligado. Poder absoluto, domínio universal, primado da verdade, Cátedra de Pedro. Na terra árida de algum ermo qualquer da 'Cesareia de Felipe', erigiu-se naquele dia, pela Vontade Divina, nas sementeiras da humanidade pecadora, a Santa Igreja, a Videira Eterna.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXVI)

  

PARTE III - O INFERNO

VIII. Sobre a eternidade

Nas páginas precedentes, apresentou-se ao leitor uma breve descrição dos tormentos do Inferno; agora, é a eternidade que deve ocupar a nossa atenção - assunto sobre o qual não é fácil escrever nem falar. Os tormentos do Inferno são todos tão horríveis e aterradores que bastam para fazer tremer até o homem mais corajoso. Mas o pensamento da eternidade é tão terrível que uma séria consideração a seu respeito é quase suficiente para fazer uma pessoa perder o juízo. Pois, neste mundo, por mais atribulado que um homem possa estar, ele possui uma fonte segura de consolação: sabe que, mais cedo ou mais tarde, a sua miséria terminará.

É próprio da natureza humana cansar-se de tudo depois de algum tempo, até mesmo das coisas que lhe são agradáveis e correspondem aos seus gostos. Se um homem fosse obrigado a permanecer o dia inteiro sentado à mesa, acabaria por sentir repugnância pelos alimentos colocados diante dele. Se alguém fosse forçado a dormir, dia e noite, durante uma semana inteira, no leito mais macio e confortável, como lhe pareceria longo aquele tempo! Se o mais ardoroso amante da dança fosse obrigado a continuar, dia e noite e sem descanso, essa sua diversão favorita, acabaria por adquirir por ela uma profunda aversão.

E, se assim acontece com as coisas conformes à nossa natureza e às nossas inclinações, o que sucederia com aquelas que nos são desagradáveis e repugnantes? Se uma pequena pedra entrasse no sapato de alguém e, como penitência, ele tivesse de conservá-la ali durante uma semana inteira, isso lhe pareceria quase intolerável. E, se uma leve dor ou incômodo se torna, após algum tempo, terrivelmente penoso, como se poderia suportar continuamente uma doença grave ou um verdadeiro sofrimento, sem murmuração nem impaciência?

Se fosse possível que um infeliz pecador fosse condenado a permanecer deitado numa fornalha, amarrado de pés e mãos, durante um ano inteiro, não o privaria a dor do uso da razão? Ninguém poderia ter o coração tão endurecido que não sentisse a mais profunda compaixão por uma pessoa assim atormentada. Contemplai agora o abismo do Inferno, e ali vereis milhares e milhares dessas infelizes criaturas no lago de fogo e de tormentos. Muitas delas já passaram vinte, cem, mil e até cinco mil anos nesse terrível estado de sofrimento.

Mas o que as espera? Não outros cinco mil anos, nem cem mil, nem mil vezes mil anos dessa terrível agonia: elas deverão suportá-la pelos séculos dos séculos. Diante delas está a eternidade, sem conforto nem consolação, sem graça nem misericórdia, sem mérito nem recompensa, sem a mais tênue esperança de libertação. É isso que torna tão incomensurável o tormento dos condenados; é isso que os leva ao furor e ao desespero.

Que imaginais ser realmente a eternidade? Qual será a sua duração? A eternidade é algo que não tem princípio nem fim. É um tempo sempre presente, que jamais passa. Assim, os tormentos dos condenados nunca terminarão, nunca passarão. Quando tiverem transcorrido mil anos, outros mil começarão, e assim por toda a eternidade. Nenhum dos condenados pode calcular há quanto tempo está no Inferno, porque ali não existe sucessão de dias e noites, nem divisão do tempo, mas uma noite contínua e eterna, desde o primeiro instante de sua entrada no Inferno e para sempre.

E, se quiserdes formar uma pálida ideia da eternidade, imaginai que todo o globo terrestre fosse composto de grãos de painço e que, a cada ano, viesse um pássaro e retirasse um desses pequeninos grãos. Que número infinito de anos teria de transcorrer antes que toda a Terra fosse consumida dessa maneira! Mais ainda: quantos milhares de anos não teriam de passar antes que uma única pequena colina fosse consumida! É impossível fazer qualquer estimativa desse número.

Talvez penseis que seria necessária toda a eternidade para destruir a Terra mediante um processo tão lento. Mas acreditai-me: ela poderia ser destruída muitas vezes antes que a eternidade chegasse ao fim. Pois a Terra, por fim, desapareceria, ainda que apenas um único grão fosse retirado de toda ela a cada século; mas a eternidade não pode terminar, porque nada se pode retirar dela. Quão terrível é esse pensamento! É verdadeiramente aterrador quando alguém procura compreendê-lo.

Os condenados se alegrariam e dariam graças a Deus se pudessem esperar que, depois de milhões e milhões de anos de tormentos, seriam finalmente libertados de sua miséria. Mas não há esperança alguma de que sejam finalmente libertados das penas do Inferno. Ninguém que reflita seriamente sobre isso pode deixar de se sentir tomado de assombro e horror. Ó Deus, quão terrível sois! Quão grande é a vossa severidade! Como podeis Vós, Pai das misericórdias, contemplar essas infelizes criaturas condenadas a tais suplícios pelos séculos dos séculos? Como podeis ouvir, sem vos comover, os seus gritos de desespero?

Tudo isso nos ensina quão grave deve ser todo pecado mortal, uma vez que Vós, Deus infinitamente misericordioso, podeis condenar o pecador à perdição eterna por um único pecado mortal. Ó cristão, suplico-vos, em nome de tudo o que é santo: não pequeis com tanta facilidade; não considereis o pecado mortal como coisa de pouca importância. Vede quão terrível é o castigo infligido aos infelizes pecadores. Talvez vos pareça quase inacreditável que Deus, cuja misericórdia é infinita, possa impor a uma de suas frágeis criaturas um castigo sem fim por um único pecado mortal.

Entretanto, assim é; e é igualmente verdade que um homem que tenha levado uma vida piedosa, se antes de morrer tiver a indizível desventura de cometer um pecado mortal e morrer sem arrependimento, será entregue à perdição eterna. O salmista não pôde deixar de manifestar a sua admiração diante disso; com efeito, parece considerá-lo quase impossível. Ouvi as suas palavras: 'Pensei nos dias antigos e tive presentes os anos eternos. E meditei de noite em meu coração; exercitei-me e perscrutei o meu espírito. Acaso Deus nos rejeitará para sempre? Ou nunca mais nos será favorável? Ou retirará para sempre a sua misericórdia, de geração em geração? Acaso Deus se esquecerá de usar de misericórdia? Ou, em sua ira, encerrará as suas misericórdias?' (Sl 76,6-10). Em outro salmo, ele responde a essas perguntas: 'O homem não poderá dar a Deus o seu resgate, nem o preço da redenção de sua alma; padecerá eternamente e ainda viverá até o fim; isto é, será atormentado para sempre e, contudo, continuará a viver (Sl 48,9-10).

A razão pela qual Deus, infinitamente misericordioso, pune o pecado mortal com um castigo eterno e nunca mais o perdoa é que o pecador, depois de condenado, não despertará em seu coração a contrição e o arrependimento, nem pedirá perdão a Deus. Pois, se alguém morre em pecado mortal, fica de tal maneira endurecido nele que jamais o abandonará por toda a eternidade. E, porque Deus o entregou à perdição, ele concebe contra Deus um ódio tão intenso que procuraria ofendê-lo de todas as maneiras que pudesse.

Em vez de se humilhar diante de Deus e implorar o seu perdão, preferiria suportar tormentos ainda maiores no Inferno. Portanto, porque o pecador não quer arrepender-se de seus pecados nem pedir perdão por eles, permanece eternamente em estado de pecado; e, como o seu pecado jamais é expiado nem objeto de arrependimento, também o castigo é eterno. Pois Deus não cessa de punir enquanto o pecador não se arrepende, não deplora o seu pecado e não pede perdão. Vê-se, portanto, que Deus não comete injustiça alguma contra o réprobo quando o submete a um castigo eterno, pois a justiça divina exige que, se o pecado permanece eternamente, também a pena correspondente a esse pecado seja eterna. 

Talvez se possa imaginar que os condenados se acostumem aos seus tormentos e que, por fim, se tornem insensíveis e quase indiferentes a eles. Isso está muito longe da verdade. Os condenados sentem os seus tormentos em toda a sua intensidade e sempre no mesmo grau. Cada um dos infelizes habitantes do Inferno sente agora os seus sofrimentos com a mesma intensidade com que os sentiu na primeira hora de sua condenação; e continuará a senti-los com igual violência depois de transcorridos milhares e milhares de anos.

Ora, porque os condenados sabem perfeitamente que jamais serão libertados do Inferno, mas deverão permanecer ali para sempre; porque sabem que os terríveis tormentos que suportam nunca terão fim; porque sabem que nenhuma criatura jamais se compadecerá deles, mas que todas reconhecerão a justiça de sua condenação - por tudo isso, começam a desesperar-se e a amaldiçoar a si mesmos e tudo quanto a mão de Deus criou.

O seu desespero apenas aumenta os seus sofrimentos. Podemos comprovar isso pelo exemplo de nossos semelhantes na Terra quando se entregam ao desespero. É impossível fazer alguma coisa por um homem desesperado: ninguém pode ajudá-lo ou consolá-lo; ninguém pode confortá-lo nem fazê-lo recobrar a razão. Ele se parece com um espectro; delira e se enfurece como o próprio demônio; declara que porá fim à própria vida, que se afogará ou se enforcará; destrói tudo o que encontra pelo caminho; amaldiçoa todos os homens e todas as coisas. É isso que os condenados fazem em seu desespero e, desse modo, atormentam a si mesmos ainda mais do que os demônios podem atormentá-los. Gritam e uivam, amaldiçoam e blasfemam, agitam-se e enfurecem-se; numa palavra, comportam-se como se fossem demônios encarnados.

Em sua fúria e malignidade, atacam-se uns aos outros com a mais feroz animosidade; mais ainda: em seu desesperado frenesi, procuram por todos os meios possíveis estrangular a si mesmos. Contudo, os seus esforços são inúteis. Tudo o que conseguem é aumentar os próprios tormentos e infligir a si mesmos novas dores. Quem dera que todo pecador obstinado gravasse isso profundamente em seu coração e tomasse cuidado para não se tornar, algum dia, presa desse desespero eterno!

'É coisa terrível cair nas mãos do Deus vivo' - diz São Paulo (Hb 10,31). Se agora temermos o Inferno, não teremos motivo para temê-lo nem padecê-lo na outra vida. Todos possuem razões suficientes para temê-lo. Os justos e os santos devem temer o Inferno, porque ainda podem cair nele. Enquanto permanecerem na Terra, estarão cercados não apenas por perigos exteriores, mas também por perigos interiores. Fora deles está o mundo, com os seus atrativos, escândalos, tentações e respeitos humanos.

Dentro deles habitam paixões violentas e uma vontade fraca. Um único pecado mortal é suficiente para causar a sua condenação ao abismo infernal. Quantos estão agora no Inferno que, durante algum tempo, se distinguiram por sua piedade e virtude, mas que gradualmente se tornaram negligentes no serviço de Deus e, por fim, caíram em pecado mortal e morreram sem se terem reconciliado com Deus! Até mesmo a grande Santa Teresa esteve em perigo de condenação, pois Deus lhe mostrou o lugar que lhe estava reservado no Inferno caso ela não abandonasse determinadas faltas.

Os maiores santos estremeceram e tremeram ao pensar no perigo em que se encontravam de cometer um pecado mortal e, por causa dele, serem condenados aos tormentos intermináveis do Inferno. São Pedro de Alcântara, que praticou tão grandes penitências, temia, mesmo em seus últimos momentos, o perigo de cair no Inferno. Santo Agostinho e São Bernardo enchiam-se de terror ao simples pensamento do Inferno e do perigo em que se encontravam de merecê-lo.

O católico negligente e tíbio deve, acima de todos, temer o Inferno, pois caminha continuamente à beira do abismo infernal. Ele dá pouca importância ao preceito de assistir à Santa Missa e à abstinência de carne prescrita pela Igreja; não tem escrúpulos em negligenciar a formação religiosa de seus filhos; convive com pessoas e frequenta lugares que constituem para ele ocasião de pecado; entrega-se a pensamentos impuros e comete pecados de impureza sem remorso; cede aos sentimentos de vingança contra o próximo; apropria-se dos bens alheios; excede-se na comida e na bebida; negligencia a oração e os sacramentos.

Agora é o momento de ele despertar de sua vida de pecado; agora é o momento de abandonar o pecado e mudar de vida, pois, se adiar essa mudança, em breve poderá ser tarde demais. Esta pode realmente ser a última advertência que Deus lhe concede. Se os condenados pudessem retornar à vida, a que penitências e austeridades não se submeteriam com ardor e alegria! O profeta Isaías pergunta: 'Qual de vós poderá habitar com o fogo devorador?' (Is 33,14).

Podeis suportar os terríveis tormentos do Inferno por toda a eternidade, vós que sois tão apegados ao conforto e tão sensíveis à menor dor? Qual de vós mereceu habitar no Inferno? Cada um de nós, imediatamente depois de cometer o primeiro pecado mortal, já merecia ser condenado àquele abismo de miséria e sofrimento! É graças à misericórdia divina que não fomos assim condenados. 'Se o Senhor não tivesse vindo em meu auxílio, por pouco minha alma teria habitado no Inferno' (Sl 93,17). Temos a certeza de haver merecido o Inferno, mas não temos igual certeza de haver sido perdoados. 'O homem não sabe se é digno de amor ou de ódio' (Eclo 9,1). Que terrível incerteza! Quanto ela deveria fazer-nos tremer!

Isaías pergunta novamente: 'Qual de vós habitará entre as chamas eternas?'  (Is 33,14). A resposta é: todos os pecadores que não abandonam o pecado, que não lamentam nem confessam os seus pecados e não corrigem a própria vida habitarão entre as chamas eternas! Façamos, caro leitor, todos os esforços; empreguemos todas as nossas forças; suportemos todos os sofrimentos e façamos todos os sacrifícios nesta vida, a fim de escaparmos ao horrível destino daqueles que, por sua própria culpa, caem vítimas da justiça divina! Nenhuma dor é grande demais, nenhum sacrifício é caro demais, quando se trata de evitar os tormentos eternos. Digamos, portanto, com Santo Agostinho: 'Senhor, queimai-nos aqui; cortai-nos e feri-nos nesta vida, contanto que nos poupeis na eternidade!'

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

domingo, 16 de agosto de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

                   

'À vossa direita se encontra a rainha,
com veste esplendente de ouro de Ofir' (Sl 44)

Primeira Leitura (Ap 11,19a;12,1.3-6a.10ab) - Segunda Leitura (1Cor 15,20-27a) - Evangelho (Lc 1,39-56)

  16/08/2026 - SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA

ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA

 'O Todo-Poderoso fez grandes coisas a meu favor'

As glórias de Maria podem ser resumidas na portentosa frase enunciada pelo anjo Gabriel: 'Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus' (Lc 1,30). Ao receber a boa-nova do anjo, Maria prostrou-se como serva e disse 'sim', e por meio desse sim, como nos ensina São Luís Grignion de Montfort, 'Deus Se fez homem, uma Virgem de tornou Mãe de Deus, as almas dos justos foram livradas do limbo, as ruínas do céu foram reparadas e os tronos vazios foram preenchidos, o pecado foi perdoado, a graça nos foi dada, os doentes foram curados, os mortos ressuscitados, os exilados chamados de volta, a Santíssima Trindade foi aplacada, e os homens obtiveram a vida eterna'.

Esta efusão de graças segue Maria na Visitação, pois ela é reflexo da presença e das graças do Espírito Santo que são levadas à sua prima Isabel e à criança em seu ventre. No instante da purificação de São João Batista, o Precursor, Santa Isabel foi arrebatada por inteira pelo Espírito Santo: 'Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo' (Lc 1,41). Por meio de uma extraordinária revelação interior, Santa Isabel confirma em Maria o repositório infinito das graças de Deus: 'Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu' (Lc 1,43).

E é ainda nesta plenitude de comunhão com o Espírito Santo, que Maria vai proclamar o seu Magnificat: 'Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador, porque olhou para sua pobre serva. Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo. Sua misericórdia se estende, de geração em geração, sobre os que o temem. Manifestou o poder do seu braço: desconcertou os corações dos soberbos. Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes. Saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos. Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e sua posteridade, para sempre' (Lc 1,46-55).

Mãe da humildade, mãe da obediência, mãe da fé, mãe do amor. Mãe de todas as graças e de todos os privilégios, Maria foi contemplada com o dogma de fé divina e católica da assunção, em corpo e alma, à Glória Celeste. Dentre as tantas glórias e honras a Maria, a Igreja celebra neste domingo a Serva do Senhor como Nossa Senhora da Assunção.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

SALMO 22


O Senhor é o pastor que me conduz; não me falta coisa alguma.
Pelos prados e campinas verdejantes, ele me leva a descansar. 
Para as águas repousantes me encaminha, e restaura as minhas forças. 

Ele me guia no caminho mais seguro, pela honra do seu nome. 
Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso, nenhum mal eu temerei; 
estais comigo com bastão e com cajado;
eles me dão a segurança.

Preparais à minha frente uma mesa, bem à vista do inimigo,
e com óleo vós ungis minha cabeça;
o meu cálice transborda.

Felicidade e todo bem hão de seguir-me por toda a minha vida;
e na casa do Senhor habitarei pelos tempos infinitos. 

(Salmo 22,1-6; tradução de acordo com o Lecionário da CNBB)

domingo, 9 de agosto de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

                   

'Mostrai-nos, ó Senhor, vossa bondade, e a vossa salvação nos concedei!' (Sl 84)

Primeira Leitura (1Rs 19,9a.11-13a) - Segunda Leitura (Rm 9,1-5) - Evangelho (Mt 14,22-33)

  09/08/2026 - DÉCIMO NONO DOMINGO DO TEMPO COMUM

'VEM!' (JESUS ANDANDO SOBRE AS ÁGUAS)


Jesus, antes de despedir a multidão às margens do mar de Tiberíades, ordena aos apóstolos que entrem na barca e façam sozinhos a travessia para a outra margem. Aquele que, momentos antes, fizera a multiplicação dos pães e dos peixes, não se comprazia com o ardor da turba admirada pelo extraordinário milagre, mas refém de um messianismo enganoso e deturpado. Esse mesmo brilho enganoso poderia ter perpassado nos olhos de alguns de seus discípulos. Jesus, ciente destes desvios e interpretações ruinosas, liberta-se dos homens e se isola em oração fervorosíssima em lugar isolado, muito provavelmente para pedir e suplicar ao Pai o pleno cumprimento de sua missão salvífica e redentora, muito além das comoções humanas.

Então, já noite alta, os apóstolos sentiram medo e aflição, sozinhos na barca que se agitava perigosamente nas águas revoltas pelos ventos impetuosos. E o medo se transformou em terror quando julgaram ver um fantasma andando sobre as águas, em direção à barca. Jesus se revelou, então, a eles: 'Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!' (Mt 14,27). Mas a incerteza e a desconfiança ainda imperavam naquela barca à mercê dos ventos, expressas pelo grito de Pedro: 'Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água' (Mt 14,28). Ao que Jesus respondeu: 'Vem!' (Mt 14,28).

'Vem!' Eis o chamado de Jesus a Pedro, aos seus discípulos, a cada um de nós. Ir ao encontro de Jesus, e em Jesus colocar toda a nossa confiança e certeza, é o caminho da plenitude da graça. Ir ao encontro de Jesus, quaisquer que sejam os obstáculos, as provações e as tempestades do mundo, mesmo que pareça que estamos despojados de tudo e de todos, ainda que se tenha de andar sobre as águas de um mar tenebroso. Basta-nos a fé. A fé que faltou, então, a Pedro, quando distanciou o seu olhar do Senhor e se fixou nas marolas do mundo, afundando-se no mar. Mas 'Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro, e lhe disse: “Homem fraco na fé, por que duvidaste?' (Mt 14,3). E subiram ambos ao barco. 

A frágil embarcação no meio do nada e em completa escuridão é agora o templo de Deus: 'Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!' (Mt 14,33). Jesus está junto aos seus discípulos, e lhes dá a sua paz. Paz que faz serenar os ventos e as águas, paz que afasta os temores e aflições, paz que inunda os corações da graça divina. Paz que nos foi legada também como desígnio de salvação; tesouro que se encontra quando, na inquietude dos conflitos e incertezas do mundo, somos passageiros da grande Barca (Santa Igreja) que ruma confiante ao encontro do Senhor que Vem.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXV)

 

PARTE III - O INFERNO

VII. Sobre o verme que não morre

Nosso Divino Salvador diz: 'Se a tua mão te escandaliza, corta-a; melhor é entrares na vida mutilado do que, tendo as duas mãos, ires para o inferno, para o fogo que nunca se apaga, onde o seu verme não morre e o fogo não se extingue. E, se o teu pé te escandaliza, corta-o; melhor é entrares coxo na vida do que, tendo os dois pés, seres lançado no inferno, no fogo inextinguível, onde o seu verme não morre e o fogo não se extingue. E, se o teu olho te escandaliza, arranca-o; melhor é entrares no Reino de Deus com um só olho do que, tendo dois olhos, seres lançado no inferno de fogo, onde o seu verme não morre e o fogo não se extingue' (Mc 9,42-47).

Por estas palavras, nosso bendito Redentor quis gravar profundamente em nossas almas a necessidade de evitar as ocasiões de pecado e de fazer até os mais dolorosos sacrifícios para fugir do pecado e, assim, escapar das penas eternas do inferno. Quis também imprimir vivamente em nossa mente que dois dos mais terríveis tormentos do inferno são o seu fogo inextinguível e o seu verme que nunca morre. Já vimos, em um capítulo anterior, em que consiste o terrível fogo do inferno. Resta-nos agora examinar em que consiste 'o verme que não morre'.

Todos os sentidos dos réprobos terão o seu castigo próprio; a razão, ou inteligência, é castigada pela pena da perda, como vimos no capítulo precedente, castigo este que ultrapassa incomparavelmente os sofrimentos dos sentidos. A memória dos condenados será atormentada pelo 'verme que não morre', isto é, por um remorso de consciência agudíssimo e incessante, que jamais lhes dará descanso.

O pecador condenado recordar-se-á de quantas graças e meios de salvação lhe foram concedidos durante a vida para salvar a sua alma; de como Deus lhe enviou tantas inspirações santas; de como recebeu tantas boas instruções; de como teve ao seu alcance a graça da oração para o ajudar a praticar as virtudes próprias do seu estado, vencer as tentações, guardar os Mandamentos de Deus e da sua Igreja; de como seus amigos piedosos o exortaram a levar uma vida santa, não apenas por suas palavras, mas sobretudo por seu bom exemplo; de como teve tantas oportunidades de instruir-se acerca de seus deveres, ouvindo a Palavra de Deus e lendo bons livros; e de fortalecer-se no cumprimento de suas obrigações pela recepção dos Sacramentos e pela prática da devoção à Santíssima Virgem.

Em suma, o pecador condenado recordar-se-á de quão pouco esforço lhe teria sido necessário para salvar a alma e evitar o inferno. Dirá a si mesmo: 'Tão pequeno esforço era necessário para a minha salvação! Mesmo depois dos meus numerosos pecados, uma boa confissão teria sido suficiente. Mas, por vergonha, por respeito humano, não a fiz. Como fui insensato! Quantas vezes minha consciência, minha família e meus amigos me exortaram a confessar-me! Tudo, porém, foi em vão. Outros cometeram pecados maiores do que os meus, mas deles se arrependeram, confessaram-se, mudaram de vida e agora desfrutam de uma felicidade inefável no Céu! Quanto a mim, estou perdido para sempre, e isso por minha própria culpa, pois tive à minha disposição uma abundância extraordinária de meios de salvação. Mas agora o arrependimento já não aproveita; é tarde demais!' Consideremos, porém, as expressões de pesar dos diversos pecadores condenados. Sua dor é vã, porque, à semelhança da de Judas, é o pesar do desespero. 

'Durante a vida' - dirão esses pecadores condenados a si mesmos - 'amei o conforto, o bem-estar e o luxo, as vestes finas, as joias preciosas e as mansões suntuosas. Para alcançar essas coisas, não hesitei em defraudar o meu próximo de todas as maneiras possíveis. Roubei meus patrões, prestei falsos juramentos, filiei-me a sociedades secretas, cheguei até a vender a minha própria virtude! Deixava de assistir à Santa Missa, comia carne nos dias proibidos, negligenciava os Sacramentos e fui ao ponto de renegar a minha fé. Contraí matrimônio diante de um magistrado civil ou de um ministro herege; contraí um matrimônio misto sem dispensa; obtive o divórcio e depois ousei violar as leis de Deus e da Igreja, casando-me novamente! Quis ser livre para fazer exatamente o que me agradava.

As leis de Deus e de Sua Igreja proibiam-me de frequentar ocasiões perigosas; mas desprezei essas leis porque queria divertir-me e satisfazer as minhas paixões, convivendo com pessoas e frequentando lugares que constituíam ocasião de pecado para mim. Assim, caí repetidas vezes em faltas, até mesmo nas mais vergonhosas.

Deus ordenava-me que fosse puro e casto, mas eu encontrava prazer em satisfazer as mais vis paixões de todas as maneiras possíveis, procurando toda ocasião favorável para isso. Quão criminosamente procedi ao negligenciar a educação religiosa de meus filhos, tornando-me assim causa da perdição de suas almas! Durante a vida, comprazia-me em ouvir e propagar maledicências, calúnias, conversas obscenas e até discursos ímpios. Gostava de ler romances imorais e de contemplar imagens e objetos indecentes. Enquanto vivi na terra, entreguei-me ao vício da embriaguez, abusando das bebidas fortes até degradar-me abaixo dos próprios animais e cometer inumeráveis crimes contra minha esposa, contra meus filhos e contra o meu próximo. Durante a vida, deleitava-me em blasfemar, praguejar, proferir terríveis juramentos e imprecações, em promover contendas, entregar-me ao jogo e praticar quase toda espécie de pecado.

E agora encontro-me encerrado na sombria prisão do inferno, em companhia de uma multidão incontável de malfeitores, assassinos e dos seres mais degradados que já existiram. Já não tenho um pai amoroso, um filho afetuoso, um amigo compassivo. Não! Todos os laços da amizade e da natureza foram para sempre rompidos, transformando-se para sempre em ódio diabólico. Todo espírito maligno, todo réprobo me insulta, me amaldiçoa, me atormenta e procura aumentar ainda mais os meus sofrimentos. Sou obrigado a suportar tudo isso porque, durante a vida, recusei-me a submeter-me à santa vontade de Deus. Eu poderia ter-me salvado com tanta facilidade, e agora estou perdido, perdido para sempre, e isso por minha própria culpa! Jamais verei a Deus; jamais gozarei das delícias do Céu; jamais serei libertado destes terríveis tormentos. Agora é tarde demais!'

Tudo isso, e muito mais, dirá aos condenados o verme da consciência, ferindo-os com censuras tão incessantes e impiedosas que quase os levará à loucura do desespero. Com efeito, os condenados urrarão e enfurecer-se-ão como possessos, lançando maldições contra si mesmos. Mas tudo será em vão; é tarde demais para o arrependimento. Esse terrível remorso nada fará para expiar os seus pecados; apenas aumentará a intensidade de seus sofrimentos.

Reflete sobre isso, ó pecador obstinado, que pecas com tanta audácia e, mesmo quando tua consciência te adverte, fechas os ouvidos às suas repreensões. Tem por certo que um dia a tua própria consciência será o teu carrasco e te atormentará com maior persistência do que os próprios demônios. Se desejas escapar dessa miséria sem fim, escuta agora a voz da tua consciência; segue os seus conselhos quando ela te manda evitar o mal e te exorta a praticar o bem.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

ἀληθινός

ἀληθής e ἀληθινός são palavras gregas comumente traduzidas com significado semelhante, no sentido de verdadeiro; real; genuíno; conforme a verdade ou fiel (em alguns contextos). A rigor, entretanto, há uma nuance de diferenciação fundamental entre ambas as palavras:

ἀληθής → significa verdadeiro em oposição ao falso; veraz, sincero, conforme os fatos.
ἀληθινός → significa verdadeiro no sentido de autêntico, perfeito, definitivo, em oposição ao que é apenas figurado ou aproximado.

Estas palavras aparecem diversas vezes no Novo Testamento, muitas vezes traduzidas do mesmo modo, mas são nos escritos de São João (Evangelho, Cartas, Apocalipse) que estas palavras se repetem várias vezes, e suas distinções são particularmente realçadas. Por exemplo:

Jo 3,33:
Aquele que recebe o seu testemunho confirma que Deus é verdadeiro [ὁ θεὸς ἀληθής ἐστιν] [verdadeiro, fiel]

Jo 5, 31:
Se eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro [ἡ μαρτυρία μου οὐκ ἔστιν ἀληθής] [verdadeiro, digno de aceitação]

Jo 17,3:
'Para que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro e aquele que enviaste, Jesus Cristo' [ἵνα γινώσκωσίν σε τὸν μόνον ἀληθινὸν Θεὸν, καὶ ὃν ἀπέστειλας Ἰησοῦν Χριστόν].

Por que João utiliza aqui o termo ἀληθινός (na verdade, sua flexão gramatical ἀληθινὸν)? Porque quer transmitir o sentido de que está falando do 'único Deus autêntico e verdadeiro, o único que é realmente Deus'.

Para João, ἀληθινός designa aquilo que é: autêntico; perfeito; definitivo; pleno da verdade e, no seu Evangelho, vai reproduzir sempre esse termo quando se refere sobre a verdadeira Luz (Jo 1,9); o verdadeiro Pão (Jo 6,32); a verdadeira Videira (Jo 15,1); o verdadeiro adorador (Jo 4,23); o verdadeiro Deus (Jo 17,3). É um vocabulário tipicamente joanino.

É imprescindível entender as nuances destas palavras gregas em contextos joaninos aparentemente similares. Quando Jesus fala em Jo 6,32: 'Em verdade, em verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu, mas o meu Pai é quem vos dá o verdadeiro pão [ὁ ἄρτος... ὁ ἀληθινός] do céu', está falando do pão único e autêntico pão que é Cristo (realidade definitiva) em contraste com o maná do deserto (mera figura do pão).

Mas, quando Jesus profere as palavras: 'Pois a minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue, verdadeiramente bebida' (Jo 6,55), João não usa nem ἀληθής e nem ἀληθινός, mas uma terceira forma da mesma família - ἀληθῶς - que é um advérbio, significando em verdade; de fato; verdadeiramente. Essa construção coloca a ênfase não na qualidade do alimento, mas na realidade da afirmação: a carne de Cristo é, de fato, alimento, e seu sangue é, de fato, bebida. A Presença Real na Eucaristia não é uma fantasia; é VERDADEIRAMENTE o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo que alimenta as nossas almas na Missa, para nos cobrir de bênçãos e graças e nos abrir desde agora as portas para a eterna felicidade no céu!

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

'POR QUE DEUS NOS CRIOU E O QUE ESPERA DE NÓS?'

1. Há dois modos de responder a essa pergunta, conforme a consideremos do ponto de vista de Deus ou do nosso. Considerando-a do ponto de vista de Deus, a resposta é: 'Deus nos fez para mostrar a sua bondade'. Posto que Ele é um Ser infinitamente perfeito, a principal razão pela qual faz alguma coisa deve ser uma razão infinitamente perfeita. Mas só há uma razão infinitamente perfeita para se fazer alguma coisa: é fazê-la por Deus. Por isso, seria indigno de Deus, contrário à sua infinita perfeição, que Ele fizesse alguma coisa por uma razão inferior a Si mesmo. 

2. A primeira razão, pois – a grande razão pela qual Deus fez o universo e nos fez a nós - foi a sua própria glória: para mostrar o seu poder e bondade infinitos. Seu infinito poder mostra-se pelo fato de existirmos. Sua infinita bondade, pelo fato de Ele nos querer fazer participar do seu amor e felicidade.

3. Do nosso ponto de vista à pergunta: 'Para que nos fez Deus?' dizemos que nos fez 'para participarmos da sua eterna felicidade no céu'. As duas respostas são como que as duas faces da mesma moeda, o anverso e o reverso: a bondade de Deus nos fez participar da sua felicidade e a nossa participação na sua felicidade mostra a bondade de Deus. 

4. Deus, que é infinitamente bom, não poria nos corações humanos esta ânsia de felicidade perfeita se não houvesse modo de satisfazê-la. Deus não tortura com a frustração as almas que criou. Mas, mesmo que as riquezas materiais ou espirituais desta vida pudessem satisfazer todos os desejos humanos, permaneceria a certeza de que um dia a morte nos tirará tudo – e a nossa felicidade seria incompleta. No céu, pelo contrário, não só seremos felizes com a máxima capacidade do nosso coração, mas teremos, além disso, a perfeição final da felicidade, por sabermos que nada no-la poderá arrebatar. 

5. Nunca se ressaltará bastante que a felicidade do céu consiste essencialmente na visão intelectual de Deus – na posse final e completa de Deus, a quem nesta terra desejamos e amamos debilmente e de longe. E se este há de ser o nosso destino - estarmos eternamente unidos a Deus pelo amor - disso se depreende que temos de começar a amá-lo aqui nesta vida. 

6. Deus não pode elevar à plenitude o que nem sequer existe. Se não há um princípio de amor de Deus em nosso coração, aqui, na terra, não pode haver a fruição do amor na eternidade. Para isso nos colocou Deus na Terra, para que, amando-o, estabeleçamos os alicerces necessários para a nossa felicidade no céu.

7. Só há uma maneira de provarmos o nosso amor a Deus: é fazer o que Ele quer que façamos, sendo o tipo de homem que Ele quer que sejamos. O amor a Deus não está nos sentimentos. Amar a Deus não significa que nosso coração deva dar saltos de cada vez que pensamos nEle. Algumas pessoas poderão sentir seu amor a Deus de modo emocional; mas não é isso o essencial. Porque o amor a Deus reside na vontade. Não é pelo que sentimos sobre Deus, mas pelo que estamos dispostos a fazer por Ele, que provamos o nosso amor a Deus.

(Excertos da obra 'A Fé Explicada', de Leo Trese)

domingo, 2 de agosto de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

                  

'Vós abris a vossa mão e saciais os vossos filhos' (Sl 144)

Primeira Leitura (Is 55,1-3) - Segunda Leitura (Rm 8,35.37-39) - Evangelho (Mt 14,13-21)

  02/08/2026 - DÉCIMO OITAVO DOMINGO DO TEMPO COMUM

CINCO PÃES E DOIS PEIXES



Depois da morte do Precursor João Batista, Jesus se dirige a um 'lugar deserto e afastado' (Mt 14, 13) para ficar a sós com os seus Apóstolos. Mas eis que uma grande multidão, uma esplêndida multidão, sai das cidades e vai a pé ao seu encontro. Tomado de amor e compaixão, Jesus abandona o seu intento de recolhimento e passa a atender toda aquela gente até 'ao entardecer' (Mt 14, 15). Famintos de Deus, a multidão agora está faminta de pão. E o Cordeiro de Deus há de saciá-los do pão da existência e prepará-los também para lhes dar alimento de vida eterna, na Santa Eucaristia.

Num primeiro momento, impõe-se a miserável condição humana, pouco afeita aos desafios e aos limites imponderáveis das graças divinas, expressa nas palavras de ansiedade e certa impaciência dos apóstolos: 'Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!' (Mt 14, 15). Neste cenário, pressupõe-se, na estrita percepção humana que, a partir daquele momento, cada um se virasse por conta própria; cada homem, mulher e criança daquela imensa multidão se preocupasse em arrumar o próprio alimento, nas imediações daquele lugar ou mais além.

Deus não nos abandona nunca; Deus não nos cria perspectivas de vida eterna pela insensibilidade de nossas necessidades humanas. Jesus vai dizer em outro momento que 'nem só de pão vive o homem'. Não só de pão, mas também de pão. E, para a incredulidade dos seus discípulos, ordena então: 'Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer! (Mt 14, 16). E, como em tudo o mais, Deus faz uso da graça como fruto da contrapartida humana; Jesus toma o que os homens têm ali a oferecer: cinco pães e dois peixes. Diante de oferta tão singela, vai realizar um dos seus mais portentosos milagres, que vai se configurar no prenúncio da partilha do seu Corpo e Sangue na Sagrada Eucaristia.

'Em seguida, partiu os pães e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às multidões' (Mt 14, 19). E os poucos pães e os poucos peixes se multiplicaram em muitos pães e em muitos peixes, que alimentaram com fartura a multidão, a ponto de serem recolhidos ainda doze cestos cheios (símbolo da partilha universal da graça divina) no final, pois Deus usa sempre da superabundância da graça para pagar o tributo da oferta sincera do homem. Este prodígio extraordinário é o prenúncio de outro milagre ainda maior que subsiste pelos tempos, a cada Santa Missa: na multiplicação das hóstias, o mesmo Deus é entregue aos homens na plenitude da graça, hoje, ontem e até a consumação dos séculos.

domingo, 26 de julho de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

                 

'Como eu amo, Senhor, a vossa lei, vossa palavra!' (Sl 118)

Primeira Leitura (1Rs 3,5.7-12) - Segunda Leitura (Rm 8,28-30) - Evangelho (Mt 13,44-52)

  26/07/2026 - DÉCIMO SÉTIMO DOMINGO DO TEMPO COMUM

O REINO DE DEUS (II)


No Evangelho deste Domingo, contemplamos ainda os ensinamentos de Jesus sobre o verdadeiro sentido do Reino de Deus, por meio de parábolas manifestadas à multidão reunida à sua volta, às margens do mar da Galileia. Nesta temática comum a todo o Capítulo 13 do Evangelho de São Mateus, Jesus já lhes havia dado a conhecer a natureza do Reino por meio das parábolas do campo semeado de trigo e de joio, da semente de mostarda e da porção de fermento. Na continuação de sua pregação, Jesus lhes fala do Reino dos Céus por meio de outras três parábolas.

'O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo' (Mt, 13,44). Eis a verdadeira riqueza deste mundo: buscar, no anonimato e no escondimento aos rumores e apelos mundanos, a vida da graça em plenitude, nas obras de uma vida simples, na alegria do autêntico exercício da fé cristã, nos pequenos atos de amor, no cotidiano de uma vida entregue e consagrada à Deus.

'O Reino dos Céus é também como um comprador que procura pérolas preciosas. Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola' (Mt 13,45 - 46). Eis o mesmo tesouro, que tem valor de eternidade, expresso agora como a pérola mais preciosa. Pérola única, especialíssima, pois a Verdade de Deus é única, definitiva, indivisível. Implica, pois, ao homem, buscá-la, empreendendo todos os esforços e persistência em encontrá-la. E, quando a encontra, passa a possuir a própria Verdade de Deus, a maior riqueza deste mundo.

'O Reino dos Céus é ainda como uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo. Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam' (Mt 13,47 - 48). A busca da pérola preciosa é possível a todos os homens, e lhes é dado igualmente o 'mapa do tesouro': o caminho de santificação pautado numa vida consagrada à Deus. Mas, como o trigo e o joio, peixes bons e imprestáveis serão ponderados pelos 'pescadores' no dia do Juízo, na definitiva separação dos justos e dos pecadores obstinados. Uns, para o Reino de Deus, que já subsiste nos corações do justos; os outros para a condenação eterna, na fornalha de fogo eterno, onde só 'haverá choro e ranger de dentes' (Mt 13,50).

sexta-feira, 24 de julho de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXIV)

PARTE III - O INFERNO

VI. Sobre a perda da Visão Beatífica de Deus

Já falamos de muitos e dos terríveis castigos infligidos aos condenados; contudo, estes constituem apenas uma parte muito pequena do conjunto. São incontáveis em número e tão grandes e espantosos que, como diz Santo Agostinho, todos os sofrimentos deste mundo são como nada quando comparados com o fogo eterno e os tormentos do Inferno.

Assim como o Apóstolo São Paulo diz: 'Nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, nem jamais entrou no coração do homem o que Deus preparou para aqueles que o amam', também se pode dizer: 'nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram os castigos que Deus preparou para aqueles sobre os quais recaem os seus justos juízos'. E, quando lemos os terríveis castigos com que Deus ameaça esmagar, ainda neste mundo, os transgressores da sua santa lei, não podemos estar certos de que Ele derramará toda a força da sua ira sobre aqueles pecadores audazes que desprezaram os seus avisos e, com malícia diabólica, perseveraram em sua iniquidade até o fim da vida?

Recordai-vos do que Deus disse ao povo de Israel: 'Um fogo se acendeu na minha ira e arderá até o mais profundo do Inferno; consumirá a terra com os seus frutos e queimará os fundamentos dos montes. Amontoarei males sobre os transgressores da minha lei e esgotarei contra eles as minhas flechas. Serão consumidos pela fome, e as aves os devorarão com mordedura amarguíssima; enviarei contra eles os dentes das feras, juntamente com o furor das serpentes. Por fora os devastará a espada e por dentro o terror, tanto o jovem como a virgem, a criança de peito e o homem já avançado em anos' (Dt 32,22-25).

A Sagrada Escritura contém muitas outras ameaças semelhantes e igualmente aterradoras. Não há dúvida de que, na outra vida, onde reinará a justiça e não a misericórdia, Deus castigará com mão inexorável os insolentes violadores dos seus santos mandamentos. Os castigos da eternidade serão sem número e sem medida. Os condenados estarão cercados por aflição e tristeza, por angústias e tormentos inumeráveis. São Bernardo afirma que as penas dos condenados são incontáveis; nenhuma língua mortal é capaz de enumerá-las.

Entretanto, dentre todos esses sofrimentos, aquele que causa a mais aguda angústia é a privação da visão de Deus. Jamais será concedido aos condenados contemplar a Face divina. Essa pena excederá incomparavelmente todos os demais tormentos de que falamos. É impossível ao homem mortal compreender quão grande pode ser essa aflição para os condenados.

Todavia, este é o ensinamento dos Santos Padres: todos sustentam que não há sofrimento que os réprobos lamentem tão amargamente quanto o de serem excluídos para sempre da visão de Deus. Enquanto vivemos neste mundo, pouco pensamos na visão de Deus e no que significaria sermos privados dela por toda a eternidade. Isso provém da obscuridade de nossa percepção, que nos impede de compreender a infinita beleza e bondade de Deus e a felicidade experimentada por aqueles que o contemplam face a face. Mas, depois da morte, quando estivermos livres dos entraves do corpo, nossos olhos se abrirão, e perceberemos, ao menos em certa medida, que Deus é o Bem supremo e infinito, e que a posse dele constitui a nossa mais alta felicidade.

Então, um desejo tão ardente de contemplar e possuir esse Bem supremo se apoderará de nossa alma, que ela será irresistivelmente atraída para Deus e ansiará, com todas as suas forças, contemplar a sua inefável beleza. E, se por causa de seus pecados lhe for negada essa visão beatífica, isso lhe causará a mais intensa angústia. Nenhuma dor, nenhum suplício conhecido neste mundo pode, de modo algum, ser comparado a ela.

São Boaventura dá testemunho disso quando afirma: 'A pena mais terrível dos condenados é serem excluídos para sempre da contemplação bem-aventurada e jubilosa da Santíssima Trindade'. Do mesmo modo, São João Crisóstomo diz: 'Conheço muitas pessoas que temem o Inferno apenas por causa de seus tormentos; mas eu afirmo que a perda da glória celeste é uma fonte de sofrimento mais amargo do que todos os tormentos do Inferno'. O próprio demônio foi constrangido a reconhecer essa verdade, conforme se lê nas Legendas do Bem-aventurado Jordão da Saxônia, outrora Mestre Geral da Ordem Dominicana. 

Quando Jordão perguntou a Satanás, por intermédio de um possesso, qual era o principal tormento do Inferno, este respondeu: 'Ser excluído da presença de Deus'. Jordão perguntou então: 'É Deus, pois, tão belo de contemplar?' Ao que o demônio respondeu: 'Sim, pois Ele é de uma beleza incomparável'. Jordão prosseguiu: 'Quão grande é essa beleza?' E o demônio replicou: 'Insensato! Como podes fazer-me semelhante pergunta? Não sabes que a sua beleza está acima de toda comparação?' Jordão insistiu: 'Não poderias apresentar-me alguma comparação que ao menos me desse uma pequena ideia da beleza divina?' Então Satanás respondeu: 'Imagina uma esfera de cristal mil vezes mais resplandecente que o sol, na qual se reunissem a formosura de todas as cores do arco-íris, o perfume de todas as flores, a doçura de todos os sabores mais deliciosos, o valor de todas as pedras preciosas, a bondade dos homens e o encanto de todos os Anjos. Por mais bela e preciosa que fosse essa esfera de cristal, comparada com a beleza divina, ela pareceria disforme e impura'. Então o santo religioso perguntou ainda: 'E dize-me: que darias para seres admitido à visão de Deus?' O demônio respondeu: 'Se houvesse uma coluna que se estendesse da terra ao Céu, coberta de pontas afiadas, pregos e ganchos, eu consentiria de bom grado em ser arrastado para cima e para baixo por essa coluna, desde agora até o Dia do Juízo, se ao menos me fosse permitido contemplar a Face divina por alguns breves instantes'.

Daí podemos compreender quão infinita é a beleza da Face de Deus, se até mesmo o espírito do mal se sujeitaria aos tormentos físicos que ele próprio descreveu, para gozar, ainda que por breves instantes, da contemplação daquele semblante cheio de graça e majestade. Não há, pois, dúvida de que nada causa aos demônios e aos condenados angústia tão profunda quanto serem privados da visão beatífica de Deus.

Suponhamos, portanto, que Deus enviasse um Anjo às portas do Inferno com esta mensagem aos infelizes habitantes daquele lugar de tormento: 'O Todo-Poderoso, em sua misericórdia, compadeceu-se de vós e está disposto a libertar-vos de uma das penas que sofreis. Qual delas desejais que vos seja retirada?' Que pensais que responderiam? Todos, como uma só voz, exclamariam: 'Ó bom Anjo, suplicai a Deus que, ao menos por sua infinita bondade, deixe de privar-nos da visão da sua Face!' Este seria o único favor que implorariam de Deus. Se lhes fosse possível contemplar a Face divina, ainda que permanecessem em meio às chamas do Inferno, a alegria dessa visão faria com que já não se importassem com o fogo devorador. Pois a visão de Deus é tão bela, tão bem-aventurada, tão cheia de êxtase e de delícias infinitas, que todas as alegrias e atrativos da terra não podem ser-lhe comparados nem de muito longe.

Na verdade, toda a felicidade celeste, por maior que fosse, converter-se-ia em amargura se lhe faltasse a visão de Deus; e os próprios redimidos prefeririam estar no Inferno, desde que ali pudessem gozar da visão beatífica, a permanecer no Céu privados dela. Assim como o privilégio de contemplar a Face divina constitui a felicidade principal dos bem-aventurados - aquela sem a qual nenhuma outra felicidade seria verdadeiramente felicidade - assim também constitui a principal miséria do Inferno: o fato de que as almas condenadas estejam para sempre excluídas dessa visão. Sobre isso diz São João Crisóstomo: 'Os tormentos de mil infernos nada são em comparação com a angústia de ser banido da bem-aventurança eterna e da visão de Deus'.

Para compreendermos, ao menos em parte, quão grande é essa pena de dano, devemos recordar que fomos criados por Deus para sermos felizes eternamente. Esse amor à felicidade, esse anseio por ela que cada um de nós sente no coração, jamais será destruído, nem mesmo no Inferno. Durante esta vida, os homens, impelidos por esse desejo e cegados pelas paixões, procuram a felicidade nas riquezas, nas honras e nos prazeres dos sentidos. Essas imagens ilusórias da felicidade nos enganam enquanto a alma permanece unida ao corpo. Mas, quando a alma se separa do corpo, todos esses prazeres falsos e passageiros desaparecem, e ela reconhece que somente Deus é a fonte de toda felicidade e que apenas na posse dEle se pode encontrá-la.

Já não iludida pelas falsas aparências, já não obscurecida pelas paixões, ela percebe claramente a inefável e arrebatadora beleza de Deus e suas perfeições infinitas. Contempla o seu poder infinito na criação do universo, a sua sabedoria infinita no governo de todas as coisas, o seu amor incomensurável por ela ao fazer-se homem, ao morrer por ela, ao dar-se a ela como alimento da sua alma no Santíssimo Sacramento e ao destiná-la a participar para sempre da sua própria felicidade no Céu. Esse conhecimento da grandeza, da bondade e da beleza de Deus permanecerá profundamente gravado nela por toda a eternidade. Ela compreenderá também a perfeita justiça dos castigos que Deus inflige eternamente no Inferno a todos aqueles que não guardaram os seus mandamentos.

Então a alma réproba, sedenta de felicidade e irresistivelmente atraída para Deus, único que pode torná-la feliz, esforça-se por lançar-se para Ele com todo o ímpeto de sua natureza, desejando contemplá-o, possuí-lo e unir-se a Ele. Mas sente-se repelida por uma força infinita e rejeitada por Deus por causa dos seus pecados. Ainda que nesse momento lhe fossem oferecidas todas as riquezas, todas as honras e todos os prazeres do mundo, ela os rejeitaria e até os amaldiçoaria, porque anseia unicamente por Deus e somente nele pode encontrar a felicidade.

A alma condenada, atormentada pelos mais horríveis sofrimentos, procura ao seu redor algum alívio, alguma palavra de consolação; mas nem sequer um olhar de compaixão encontra, pois está cercada de demônios cruéis e inimigos implacáveis. Não encontrando misericórdia onde está, levanta os olhos para o Céu e o contempla tão belo, tão encantador, tão admirável, tão repleto da verdadeira felicidade. Recorda-se de que foi criada e destinada a participar dessa bem-aventurança; e agora, em meio às dores mais atrozes, deseja aqueles gozos com um anseio ainda mais indizível. Faz esforços extraordinários para alcançar o Céu, mas não pode abandonar a sua morada de tormentos.

Ninguém no Céu parece notar a sua presença. Ela vê o trono que Deus, em sua bondade, lhe havia preparado, agora ocupado por outro! Já não há mais lugar para ela no Céu. Contempla ali alguns de seus parentes, companheiros e conhecidos, mas eles não lhe dão atenção. Vê todos os eleitos cheios de alegria e felicidade. Nem sequer se compadecem dela; antes, como canta o salmista: 'O justo se alegrará quando vier a vingança' (Sl 57,11).

Em vão a alma réproba invoca os Santos, a Santíssima Virgem e o próprio Salvador divino. Ela sente-se atraída para Deus por um impulso irresistível e compreende que somente Deus pode saciar a sua sede de felicidade e torná-la feliz. Anseia contemplá-lo e possuí-lo; repetidas vezes procura lançar-se para Ele, mas sente-se repelida por uma força invencível. Reconhece-se objeto da ira divina, do anátema de Deus. Tem plena consciência de que a sua situação é irremediável e de que jamais será admitida nas moradas dos bem-aventurados, nem sairá da habitação da miséria sem fim.

Então o desespero apoderar-se-á dela. Proferirá as mais terríveis imprecações contra Deus e contra os eleitos, contra o Céu, contra si mesma, contra os seus pais, seus companheiros e contra todas as criaturas. Todo o Inferno estremecerá com as suas horrendas blasfêmias, e ela se tornará, em meio aos seus acessos de furor, objeto de terror até mesmo para todos os demais condenados.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)