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domingo, 12 de julho de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

               

'A semente caiu em terra boa e deu fruto' (Sl 64)

Primeira Leitura (Is 55,10-11) - Segunda Leitura (Rm 8,18-23) - Evangelho (Mt 13,1-23)

  12/07/2026 - DÉCIMO QUINTO DOMINGO DO TEMPO COMUM

A PARÁBOLA DO SEMEADOR


No Evangelho deste domingo, Jesus nos ensina a força e a eficácia da Palavra de Deus, lançada aos homens pelo semeador, imagem do apóstolo. Palavra que fecunda e irriga de graças a terra inteira, e que produz muitos frutos de salvação, pois assim diz o Senhor: 'Assim como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam mais, mas vêm irrigar e fecundar a terra, e fazê-la germinar e dar semente, para o plantio e para a alimentação, assim a palavra que sair de minha boca: não voltará para mim vazia; antes, realizará tudo que for de minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi, ao enviá-la' (Is 55,10 - 11).

Jesus se coloca em uma barca, às margens do mar da Galileia e fala à multidão, reunida na praia, por meio de uma parábola: 'Ouvi, portanto, a parábola do semeador' (Mt 13,8). A Palavra de Deus é um tesouro de bênçãos e graças, que somente se revela na luz do Cristo, na pureza de uma consciência devotada às coisas do Alto, no despojamento do eu e na entrega ao discernimento espiritual de ver, ouvir e entender as coisas de Deus com o coração (profecia de Isaías). Os mistérios do Reino dos Céus são revelados apenas aos pequeninos, aos puros de coração, aos Filhos da Luz.

Jesus é o Semeador; a Palavra de Deus feita Carne, Sangue e Revelação. As sementes da graça devem ser acolhidas, endossadas, vividas, transmitidas, compartilhadas. Almas de apóstolo, eis a síntese da nossa fé cristã, pois também somos semeadores da Palavra de Deus: 'A verdade sai de minha boca, minha palavra jamais será revogada: todo joelho deve dobrar-se diante de mim, toda língua deve jurar por mim' (Is 45,23).

A Palavra de Deus é semente lançada ao mundo para se tornar fruto de salvação. No coração enrijecido dos que renegam o Cristo, a semente é vã pois foi lançada em terra estéril, à beira do caminho. Há sementes que morrem sem germinar entre pedras ou entre espinhos, sem encontrar raízes ou luz, sufocadas pelas paixões do mundo, estancadas por qualquer revés, entregues à própria sorte de suas enormes fragilidades. As sementes que dão fruto são aquelas acolhidas na terra fértil do coração humilde e da alma temente a Deus, regadas e cuidadas com zelo e perseverança, firmadas em raízes profundas e alimentadas pela luz do Cristo. Sementes da graça que vão produzir frutos em abundância: 'Um dá cem, outro sessenta e outro trinta' (Mt 13,23).

sexta-feira, 10 de julho de 2026

SOBRE O REINO DE DEUS

1. Jesus lembrava-lhes continuamente que o reino de Deus estava próximo. Este reino de Deus na terra – que nós denominamos Igreja – seria a preparação do homem para o reino eterno do céu. A velha religião judaica, estabelecida por Deus para preparar a vinda de Cristo, ia terminar. A velha lei do temor ia ser substituída pela nova lei do amor.

2. A graça que recebemos não é um adorno superficial, mas a própria vida de Cristo que se estabelece em nós. É por meio desta transformação interior que o reino de Deus começa a reinar de maneira viva na alma do justo, preparando-o para a posse definitiva na eternidade.

3. Pela virtude da fé, aceitamos a autoridade de Cristo como Mestre e Senhor. Assim, submetendo a nossa inteligência às suas verdades, permitimos que o reino de Deus governe os nossos pensamentos e guie cada uma de nossas decisões no mundo.

4. A caridade é a lei fundamental que rege o reino de Deus. Sem o amor ativo a Deus e ao próximo, qualquer esforço externo de cumprimento dos mandamentos seria incompleto, pois o reino celestial é a consumação perfeita desse amor que começou na terra.

5. A vida humana pertence exclusivamente ao Criador. Cada homem foi chamado à existência com um propósito que ultrapassa a matéria física, devendo ordenar as suas ações corporais e espirituais em conformidade com as leis do reino de Deus.

6. Os paramentos e os ritos litúrgicos cumprem a função de elevar a mente do fiel acima das preocupações cotidianas. Eles nos recordam de que a Missa não é um evento puramente humano, mas a manifestação visível da realeza e do reino de Deus operando no altar.

7. Ao recebermos a Sagrada Comunhão com as devidas disposições de alma, Cristo estabelece e robustece o seu reino de Deus dentro de nós, capacitando-nos a espalhar a santidade e a verdade em meio à sociedade.

(Excertos da obra 'A Fé Explicada', de Leo Trese)

quinta-feira, 9 de julho de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXIII)

PARTE III - O INFERNO

IV. Sobre a companhia no Inferno

Há muitos pecadores audazes que, quando são castigados por seus crimes e ameaçados com o fogo do Inferno, costumam responder atrevidamente: 'Onde quer que eu vá, ao menos não me faltará companhia'. Como se a presença de outros lhes pudesse proporcionar algum consolo ou qualquer alívio em seus tormentos. Para que esses pecadores insolentes vejam quão errados estão ao falar assim, e quão pouco motivo têm para esperar algum conforto da companhia em que se encontrarão, este capítulo será dedicado a mostrar quão miserável será essa companhia e como ela agravará ainda mais a sua desgraça.

A sociedade dos condenados é composta de demônios e de almas perdidas. Ambos são inumeráveis. Quanto à companhia dos demônios, ela é tão detestável que pode ser considerada o pior castigo dos réprobos no Inferno. O lugar dos tormentos seria muito menos digno desse nome se nele não houvesse demônios. Por causa da multidão deles, reina ali tal confusão, tal aflição, tal miséria e tal tirania, que apenas pensar nisso já parte o coração.

Nós, mortais, não temos inimigo pior do que o demônio, que nos odeia com um ódio tão intenso que deseja, a cada instante, lançar-nos no abismo da perdição. E, quando finalmente consegue ter alguém sob seu poder, trata-o com maior barbárie do que jamais o mais cruel dos déspotas tratou o seu mais mortal inimigo. Todo o ódio e toda a inveja que, no momento de sua queda, concebeu contra Deus, e que não pode descarregar sobre Ele, descarrega-os sobre os condenados, atormentando-os com suplícios cujo simples pensamento faz gelar o sangue de qualquer homem. Ainda que não lhes causasse nenhum outro mal, o simples fato de habitar com eles por toda a eternidade seria uma desgraça tão terrível para esses infelizes pecadores, que o horror de sua condição lhes seria como uma morte contínua.

Entre todos os espíritos decaídos, nenhum é tão abominável quanto o chefe de todos eles, o soberbo Lúcifer, cuja crueldade, malícia e perversidade o tornam objeto de terror não somente para os condenados, mas também para os próprios demônios que lhe estão sujeitos. Esse Lúcifer é chamado, nas Sagradas Escrituras, por diversos nomes, todos indicando sua malignidade. Por causa de seu aspecto repugnante, é chamado dragão; por causa de sua ferocidade, leão; por causa de sua malícia, antiga serpente; por causa de seu espírito enganador, pai da mentira; por causa de seu orgulho, rei sobre todos os filhos da soberba; e, por causa de seu grande poder e força, príncipe deste mundo.

Escutai o que dizem os Padres da Igreja e alguns intérpretes das Sagradas Escrituras acerca do terrível aspecto apresentado por Satanás. Eles lhe aplicam a descrição do Leviatã encontrada no Livro de Jó: 'Quem poderá descobrir a superfície de sua veste? Ou quem penetrará no meio de sua boca? Quem abrirá as portas de seu rosto? Em redor de seus dentes reina o terror. Seu corpo é como um escudo fundido, fechado e unido por escamas que se comprimem umas contra as outras. Cada uma se liga à outra, de tal modo que nem mesmo o ar pode passar entre elas. Seus espirros fazem brilhar a luz, e seus olhos são como as pálpebras da aurora. De sua boca saem tochas, e faíscas de fogo se desprendem. De suas narinas sai fumaça, como de uma panela fervente sobre o fogo. Seu hálito acende carvões, e de sua boca sai uma chama. Em seu pescoço habita a força, e diante dele marcha a ruína. Seu coração é duro como pedra, firme como a bigorna do ferreiro. Quando ele se levanta, os anjos estremecem e, cheios de temor, recorrem a Deus em busca de proteção. Faz ferver o mar profundo como uma caldeira. Não há poder sobre a terra que se lhe possa comparar, pois foi criado para não temer ninguém. Contempla tudo quanto é elevado; é rei sobre todos os filhos da soberba' (Jó 41).

É opinião de São Cirilo, Santo Atanásio, São Gregório e de outros sábios intérpretes tanto da Igreja Grega quanto da Igreja Latina que, embora essa descrição se refira literalmente a um monstro marinho, ela foi também destinada, em seu sentido místico, a aplicar-se a Lúcifer. E, se alguém comparar o que é dito do Leviatã com os atributos que são atribuídos ao príncipe das trevas, será impossível negar a semelhança entre ambos. Além disso, sabe-se, como fato geral, que tanto as coisas más quanto as boas possuem, no mundo natural, suas figuras e representações: as primeiras servem para nossa advertência; as segundas, para nosso exemplo.

Além do príncipe das trevas, existem centenas de milhares de demônios inferiores que, embora menos perversos e menos abomináveis do que ele, são ainda assim tão maus e tão horríveis que dificilmente alguém poderia contemplá-los e continuar vivo. Santo Antão relata que um dos irmãos de sua Ordem soltou um grito lancinante ao ver um demônio que lhe apareceu. Os demais monges, acorrendo assustados, encontraram-no mais morto do que vivo. Depois de lhe darem algo que lhe restituísse as forças, perguntaram-lhe o que havia acontecido.

Então ele lhes contou que o demônio lhe aparecera e o aterrorizara de tal maneira que toda a vida parecia ter-lhe abandonado o corpo. Perguntaram-lhe ainda qual era a aparência daquele demônio. Ele respondeu: 'Isso realmente não posso dizer. Apenas posso afirmar que, se me fosse dada a escolha, preferiria ser lançado numa fornalha em brasa do que tornar a contemplar o rosto daquele demônio'. Lemos quase a mesma coisa na vida de Santa Catarina de Sena. Ela também declarou que preferiria atravessar um fogo ardente a fixar, por um único instante sequer, os olhos sobre o demônio.

Se a simples visão do espírito maligno é tão espantosa que os santos a consideram mais intolerável do que o sofrimento de serem expostos às chamas de um fogo ardente, que temor e que horror não experimentarão os condenados, obrigados a habitar para sempre no meio de inumeráveis espíritos infernais! Que terror sentirias se um cão raivoso saltasse de repente sobre ti, te derrubasse ao chão e começasse a dilacerar-te com os dentes! Não imagines que o demônio cairá sobre os condenados com menor fúria, nem que os tratará com maior misericórdia.

O relato que Jó faz de seus perseguidores descreve com grande exatidão o estado de uma alma perdida no Inferno: 'Meu inimigo reuniu contra mim todo o seu furor; ameaçando-me, rangeu os dentes contra mim; fitou-me com olhos terríveis. Abriram contra mim a sua boca; cobrindo-me de insultos, feriram-me na face; todos se juntaram contra mim. Agarrou-me pelo pescoço, despedaçou-me e fez de mim o alvo de seus golpes. Cercou-me de lanças; traspassou-me os rins sem piedade. Rasgou-me ferida sobre ferida; lançou-se sobre mim como um gigante' (Jó 16,10-15).

Essa passagem pode dar-nos alguma ideia do terrível caráter da companhia em cujo meio os condenados se encontrarão no Inferno. Os réprobos talvez procurem, contudo, consolar-se com este pensamento: 'Ao menos teremos conosco os nossos semelhantes no Inferno, e deles não haverá falta'. Guardai-vos de vos iludirdes com esse falso consolo. Toda alma condenada preferiria infinitamente estar sozinha no Inferno, se lhe fosse dada essa escolha. Pois, assim como no Inferno não existe a caridade divina, também não existe o amor ao próximo. Pelo contrário, todos os condenados estão tão cheios de amargura uns contra os outros que desejam mutuamente apenas o mal, escarnecem uns dos outros e se amaldiçoam da maneira mais cruel.

E, assim como nesta vida é extremamente penoso ser obrigado a conviver com um inimigo que nos faz toda sorte de males, assim também não é pequeno tormento permanecer continuamente entre milhares de pessoas, todas as quais se odeiam e se detestam do fundo do coração. Que julgais que sentiríeis se fôsseis cruelmente atormentados, maltratados e perseguidos pelos demônios, a ponto de não poderdes conter altos gritos de dor e aflição e, contudo, entre os milhares que vos cercassem, não encontrásseis sequer uma única pessoa que vos demonstrasse a menor compaixão? Pelo contrário, todos zombariam de vós, todos vos amaldiçoariam, porque cada um se alegraria com o vosso sofrimento.

Até mesmo vosso pai e vossa mãe, vossa esposa e vossos filhos, vossos irmãos e irmãs, vossos amigos e parentes seriam então vossos declarados inimigos e, em vez de vos manifestarem qualquer gratidão, procurariam apenas causar-vos maior dano. Mas, entre todos os vossos inimigos, os mais implacáveis serão aqueles a quem escandalizastes com vosso mau exemplo, aqueles que conduzistes ao pecado por vossos conselhos ou por vossa conduta, aqueles que vos devem a própria perdição. Eles vos odiarão e execrarão com tal amargura e vos atormentarão com tamanha animosidade que parecerão menos homens do que demônios encarnados.

A esse respeito, São Bernardino narra o seguinte exemplo: 'Havia um rico usurário que tinha dois filhos. Um deles entrou para uma Ordem religiosa, enquanto o outro permaneceu no mundo junto de seu pai. Pouco tempo depois o pai morreu e, em breve espaço de tempo, foi seguido ao túmulo por esse filho, a quem havia deixado toda a sua fortuna. O outro filho, que se tornara monge, estava profundamente preocupado com o destino de seus familiares e suplicava insistentemente a Deus Todo-Poderoso que lhe revelasse qual era a sorte deles na outra vida. Por fim, suas súplicas foram atendidas.

Certo dia foi transportado em espírito ao Inferno. Embora olhasse por toda parte, não conseguia encontrar nem seu pai nem seu irmão. Finalmente percebeu um abismo de fogo, cujas chamas se elevavam a enorme altura. Naquele poço ardente, viu justamente aqueles que procurava, acorrentados um ao outro por pesadas cadeias de ferro, enfurecidos e praguejando um contra o outro. O pai amaldiçoava o filho, lançando sobre ele toda a culpa de sua condenação, dizendo: 'Maldito sejas, filho perverso! Tu és o único responsável pela minha perdição. Foi por tua causa, para fazer de ti um homem rico, que pratiquei a usura. Se não fosse por ti, eu não estaria agora mergulhado nesta miséria'. Então o filho respondeu ao pai: 'Maldito sejas tu, pai ímpio! Tu és o único responsável pela minha perdição. Se não tivesses praticado a usura e me deixado em herança teus bens injustamente adquiridos, eu jamais teria possuído riquezas mal adquiridas e não teria vindo parar nesta miséria'. 

Assim acontecerá convosco, se de algum modo fordes responsáveis pela perda de uma alma. Vossa esposa e vossos filhos vos amaldiçoarão e vos lançarão em rosto as ocasiões de pecado que lhes proporcionastes. O rico Epulão sentiu isso tão vivamente que suplicou com insistência ao pai Abraão que enviasse Lázaro à casa de seu pai para dar testemunho a seus irmãos dos sofrimentos que ele suportava, a fim de que eles não viessem também para aquele lugar de tormentos. E não fez isso por amor a seus irmãos, como observa Santo Antão, mas porque sabia muito bem que, se eles viessem juntar-se a ele no Inferno, seus tormentos seriam ainda mais agravados.

Suponhamos, porém, que ainda subsistissem no Inferno os afetos naturais, sobretudo entre aqueles que sinceramente se haviam amado nesta vida e que não tivessem sido causa da condenação um do outro. Mesmo assim, a companhia de uma pessoa que vos fosse querida aumentaria, em vez de diminuir, a vossa dor, e isso na mesma proporção do amor que por ela tivésseis. Pois que angústia seria para vós ver o vosso mais querido amigo torturado e atormentado de todas as maneiras possíveis! Seria suficiente para partir-vos o coração de tristeza e compaixão.

E, além dessa dor interior e espiritual, os condenados aumentam imensamente os sofrimentos exteriores e corporais uns dos outros. Primeiramente, porque permanecem comprimidos uns contra os outros. Em segundo lugar, porque todos exalam um odor repugnante e insuportável. Em terceiro lugar, porque uivam de maneira tão lamentável e fazem ressoar o Inferno com seus gemidos e lamentos. É disso que fala Cristo quando diz: 'Ali haverá choro e ranger de dentes'. Ele repete essas palavras mais de uma vez, para lhes dar maior força e gravar em nossos espíritos a grandeza dos tormentos suportados pelos condenados.

Também os demônios unirão seus uivos aos gritos dos condenados e levantarão tal clamor que o próprio Inferno estremecerá. O tormento dos condenados será ainda mais agravado pelo aspecto horrendo de seus corpos e pelo horror que inspirarão uns aos outros. Pois Santo Anselmo diz: 'Assim como nenhum mau cheiro pode ser comparado ao mau cheiro dos condenados, assim também nada neste mundo pode dar uma ideia de sua aparência hedionda'. Assim, cada vez que uma alma condenada olhar para outra, estremecerá de repugnância, aversão e horror.

Ainda que não houvesse no Inferno outro tormento senão esse, bastaria ele para tornar seus habitantes sumamente miseráveis. Finalmente, o tormento do Inferno será grandemente aumentado pela vergonha eterna que constituirá a herança dos condenados. São Tomás de Aquino ensina que os pecados de cada um serão conhecidos por todos os demais tão claramente como se os contemplassem com seus próprios olhos corporais. Cada um pode imaginar que angústia isso deve causar. Pois que há, nesta terra, de mais doloroso do que ser exposto à vergonha pública? Para um homem que perdeu sua boa reputação, a vida já não merece ser vivida; torna-se apenas um peso.

Antigamente, em alguns países, era costume marcar os malfeitores, como os ladrões, com um ferro em brasa na fronte ou no ombro. Que ignomínia para qualquer pessoa que ainda conservasse um mínimo de amor-próprio! Sempre que alguém olhasse para ela, deveria corar de vergonha. O demônio marcará todos os réprobos com o selo da vergonha sobre a fronte ou naquela parte do corpo com a qual pecaram, para que todas as ações vergonhosas que praticaram durante a vida sejam conhecidas por todos. É essa vergonha eterna que Deus anuncia ao pecador pela boca do seu profeta: 'Farei cair sobre vós um opróbrio eterno e uma vergonha perpétua que jamais será esquecida' (Jr 23,40).

Façam os condenados o que fizerem, jamais conseguirão apagar esse sinal, nem ocultá-lo dos seus companheiros de suplício. Por isso, como diz Santo Efrém, essa vergonha e essa infâmia lhes serão mais insuportáveis do que o próprio fogo do Inferno, porque conservarão continuamente diante de sua memória os pecados com que se mancharam durante a vida. Dionísio, o Cartuxo, narra o caso de um dos religiosos de sua Ordem, na Inglaterra, que, depois de um êxtase que durou três dias, contou aos monges, a pedido insistente deles, o que havia visto. 

Disse ele: 'Meu guia conduziu-me por longo caminho até chegarmos a uma região de trevas e de horror, onde se encontrava uma multidão incontável de homens e mulheres, todos submetidos a terríveis tormentos. Eram aqueles que haviam pecado por meio do corpo. Eram atormentados por enormes monstros de fogo que se lançavam sobre eles e, apesar de toda a resistência que ofereciam, apertavam-nos e os abraçavam com suas garras até fazê-los soltar gritos lancinantes de dor. Entre os que assim eram atormentados vi um homem que eu conhecia muito bem e que, no mundo, gozara de grande estima e consideração. Ao ver-me, exclamou em voz lamentável: Ai de mim! Ai de mim! Desgraçado de mim por haver pecado como pequei durante minha vida! Pois agora o tormento que padeço aumenta de dia para dia. Mas, acima de tudo, o que mais agudamente sinto é a vergonha e a desonra a que meus pecados me expõem, porque todos os conhecem, todos me desprezam e todos zombam de mim por causa deles'.

Vê-se, portanto, que, por mais imensuráveis que sejam os tormentos do Inferno, aquilo que os condenados temem ainda mais do que os sofrimentos físicos é tornarem-se objeto de desprezo e de escárnio para seus companheiros por causa de seus pecados. Assim, sua miséria, longe de ser diminuída pela companhia dos outros, é extraordinariamente aumentada por ela. Portanto, não procureis consolar-vos com o pensamento dos companheiros que encontrareis no Inferno, porque sua convivência é apenas motivo de terror. E, para que jamais sejais lançado em tão miserável companhia, guardai-vos de associar-vos, neste mundo, com aqueles que possam conduzir-vos ao pecado e, talvez, arrastar-vos à perdição.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

domingo, 5 de julho de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

              

'Bendirei, eternamente, vosso nome, ó Senhor!' (Sl 144)

Primeira Leitura (Zc 9,9-10) - Segunda Leitura (Rm 8,9.11-13) - Evangelho (Mt 11,25-30)

  05/07/2026 - DÉCIMO QUARTO DOMINGO DO TEMPO COMUM

AOS MANSOS E HUMILDES DE CORAÇÃO


Deus prometeu as alegrias eternas aos que são mansos e humildes de coração: 'Aprendei de Mim que sou manso e humilde de coração' (Mt 11,29). Estes serão chamados realmente de Filhos de Deus: 'Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus' (Mt 5,9). Eis a virtude da excelência cristã, chamada Virtude do Cordeiro - a amada virtude de Jesus Cristo. Porque, como um cordeiro sem ira e sem queixa alguma, Ele suportou as dores de Sua Paixão e Crucificação, como exemplo a ser seguido. Bem aventurados os que se submetem pacificamente a todas as cruzes, infortúnios, perseguições e injúrias desta vida!

São estes os chamados 'pequeninos' por Jesus, diante os 'sábios' e 'entendidos' do mundo. O entendimento e a sabedoria, o estudo e a cultura geral, são valores essencialmente bons e agradáveis a Deus, desde que não se transformem em orgulho humano e em pilares da soberba científica. Entendimento e sabedoria são frutos da graça divina, dadas ao homem para a ascensão ao encontro da glória de Deus, e não como compartimentos ou domínios fechados da jactância humana. Deus fecha a estes o caminho das grandes revelações sobrenaturais.

Jesus chama a todos, para a conversão perfeita dos humildes de coração: 'Vinde a mim, todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso' (Mt 11,28). Chama todos a Ele, todos os que estão curvados pelas cruzes do mundo, pelos infortúnios da vida, pelo peso do pecado. As instabilidades e as misérias da vida quebrantam a nossa fé e fazem oscilar a nossa vocação cristã em meio às vertigens do mundo; a Cruz de Cristo é a luz que nos permite emergir da escuridão e das trevas do pecado.

Humildade e mansidão são os frutos da fé e da generosidade despojada daqueles que seguem a Jesus: 'Aprendei de Mim que sou manso e humilde de coração' (Mt 11,29). O caminho da santificação é talhado pela prática destas virtudes e, por meio delas, encontraremos o descanso, a paz e as alegrias eternas, como pequeninos acolhidos às graças do Senhor: 'o meu jugo é suave e o meu fardo é leve' (Mt 11,30).

domingo, 28 de junho de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

              

'De todos os temores me livrou o Senhor Deus' (Sl 33)

Primeira Leitura (At 12,1-11) - Segunda Leitura (2Tm 4,6-8.17-18) - Evangelho (Mt 16,13-19)

  28/06/2026 - SOLENIDADE DOS APÓSTOLOS SÃO PEDRO E SÃO PAULO

AS COLUNAS DA IGREJA

Neste domingo, a liturgia católica celebra a Solenidade dos Apóstolos São Pedro e São Paulo, primícias da fé, fundamentos da Igreja. De toda a fundamentação bíblica do primado de Pedro, é em Mt 16, 18-19 que aflora, mais cristalina do que nunca, a água viva que brota e transborda das Palavras Divinas as primícias do papado e da Igreja, nascidos juntos com São Pedro: 'Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la' (Mt 16, 18). Esta será a Igreja Militante, a Igreja Temporal, A Igreja da terra, obra temporária a caminho da Igreja Eterna do Céu. Mas ligada a Pedro e aos sucessores de Pedro, sumos pontífices herdeiros da glória, poder e realeza de Cristo.

(Cristo entrega as chaves a São Pedro - Basílica de Paray-le-Monial, França)

E Jesus vai declarar, em seguida e sem condicionantes, o poder universal e sobrenatural da Santa Igreja Católica Apostólica e Romana: 'Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado nos céus' (Mt 16, 19). Ligado ou desligado. Poder absoluto, domínio universal, primado da verdade, Cátedra de Pedro. Na terra árida de algum ermo qualquer da 'Cesareia de Felipe', erigiu-se naquele dia, pela Vontade Divina, nas sementeiras da humanidade pecadora, a Santa Igreja, a Videira Eterna.

Com São Paulo, a Igreja que nasce, nasce com um gigante do apostolado e se afirma como escola de salvação universal. Eis aí a síntese do espírito cristão levado à plenitude da graça: Paulo se fez 'outro Cristo' em Roma, na Grécia, entre os gentios do mundo. No apostolado cristão de São Paulo, está o apostolado cristão de todos os tempos; a síntese da cristandade nasceu, cresceu e se moldou nos acordes pautados em suas epístolas singulares proferidas aos Tessalonicenses, em Éfeso ou em Corinto. Síntese de fé, que será expressa pelas próprias palavras de São Paulo: 'Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé' (2Tm 4,7).

(São Paulo Apóstolo - Basílica de Alba, Itália)

São Pedro foi o patriarca dos bispos de Roma, São Paulo foi o patriarca do apostolado cristão. Homens de fé e coragem extremadas, foram as colunas da Igreja. São Pedro morreu na cruz, São Paulo morreu por decapitação pela espada. Mártires, percorreram ambos os mesmos passos da Paixão do Senhor. E se ergueram juntos na Glória de Deus pela Ressurreição de Cristo.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXII)

            

PARTE III - O INFERNO

III. Sobre os outros tormentos do Inferno

Muitos acreditam que alguns dos réprobos estarão condenados, entre muitas outras dores intoleráveis, a suportar um frio terrivelmente intenso. O venerável Beda relata a seguinte história sobre um homem chamado Trithelmus. Esse homem estava gravemente doente e, certa noite, foi dado como morto. Na manhã seguinte, porém, ele recuperou a consciência para o espanto de todos os que estavam com ele, e levantou-se do leito de doença, dizendo que Deus lhe havia concedido uma prorrogação dos seus dias, para que pudesse levar uma vida diferente daquela que havia levado até então.

Depois de dividir os seus bens entre seus filhos e doar uma parte deles aos pobres, ele adotou um modo de vida totalmente diferente. Encerrando-se em uma pequena tenda à beira de um rio, passava seus dias e noites chorando. No inverno, mergulhava até o pescoço nas águas geladas do rio e, em seguida, tremendo e entorpecido pelo frio, mergulhava em água quente - um procedimento que lhe causava tanta agonia que não conseguia conter seus gritos.

Quando questionado sobre o motivo de sua conduta estranha e como ele conseguia suportar as alternâncias repentinas entre calor extremo e frio extremo, ele respondeu: 'Já vi coisas piores do que isso'. 'O que você viu?' - perguntaram-lhe os outros. E ele respondeu: 'Vi como as almas infelizes em outro mundo são lançadas de um fogo furioso para o frio glacial e, do frio glacial, de volta às chamas ardentes. Quando percebo o que elas têm de suportar, considero meus sofrimentos insignificantes como nada'. Essa história, relatada por um homem tão sério e santo como o venerável Beda, mostra quão terríveis são, de fato, os tormentos do Inferno.

Cristo nos fala das trevas do Inferno com estas palavras solenes: 'Amarrai-lhe as mãos e os pés e lançai-o nas trevas exteriores: ali haverá choro e ranger de dentes' (Mt 22,13). Nosso Senhor fala das trevas do inferno como trevas exteriores, as mais apavorantes, as mais temíveis que possam existir. Um viajante que se perdeu na floresta e foi surpreendido pela noite sente um terror indescritível tomar conta dele. Ora, existe uma terra coberta pela sombra da morte, onde não reina a ordem, mas um horror eterno. Essa terra é o inferno. Uma escuridão opressiva pesa sobre os perdidos; prevalece uma escuridão indescritivelmente terrível.

Neste mundo, os doentes nada temem mais do que a noite, pois o tempo parece passar muito lentamente para eles, e sua dor parece duplamente penosa. Eles contam as horas, e cada uma parece tão longa quanto a noite. Como será para os habitantes do Inferno, onde a escuridão densa domina e a noite nunca dá lugar à luz do dia? Nessa escuridão horrível, os condenados jazem indefesos como cegos, ou como aqueles a quem os olhos foram cruelmente arrancados. Eles não veem nada, pois a fumaça acre arde em seus olhos, e os vapores venenosos do enxofre destroem sua visão. Sabemos quão densa é essa fumaça pelo relato de São João: 'A ele (Satanás) foi dada a chave do abismo (Inferno). E ele abriu o abismo; e a fumaça do abismo subiu como a fumaça de uma grande fornalha; e o sol e o ar foram escurecidos pela fumaça do abismo' (Ap 9,2). E ainda: 'Serão atormentados com fogo e enxofre, e a fumaça de seus tormentos subirá para todo o sempre; nem terão descanso dia nem noite' (Ap 14,11).

Essas são, de fato, ameaças terríveis, e essa profecia anuncia, nos termos mais claros, qual será o destino daqueles que são servos do pecado e do diabo. Eles serão atormentados com fogo e enxofre a tal ponto que a fumaça de seu tormento subirá para todo o sempre. Que palavras terríveis! Ó tortura inexprimível! Considera, ó pecador desorientado, quais seriam teus sentimentos se ficasses confinado por um único dia nessa masmorra escura e fétida. Tu sabes como a fumaça pungente é desagradável aos olhos e às narinas; na verdade, ninguém consegue permanecer nela por um quarto de hora sem ser asfixiado e ficar meio cego. Se isso acontece na Terra, como será no Inferno?

A existência dos condenados se assemelha mais à morte do que à vida; é uma morte em vida, uma tortura e miséria eternas e ilimitadas. E, visto que nos é dito que a fumaça de seu tormento sobe para sempre, segue-se necessariamente que a escuridão total deve prevalecer no Inferno. A respeito desse assunto, o venerável Beda relata as experiências do homem Trithelmus (de quem já se fez menção) enquanto ele jazia em transe e era considerado morto. Ao recuperar a consciência, entre outras coisas, ele narrou o seguinte: 'Fui conduzido por um ser vestido com roupas brilhantes por uma região que me era totalmente desconhecida, até chegarmos a uma área envolta em escuridão densa, que me fez estremecer de medo e horror. Não conseguia distinguir nada além da figura do meu guia. À medida que nos adentrávamos cada vez mais nessas trevas, percebi, no meio da escuridão, um abismo de imensa extensão, cheio de fumaça e de um brilho lúgubre, cuja visão fez meus cabelos se arrepiarem de terror. Desse abismo emanavam gemidos lastimáveis, que soavam como se vários homens e mulheres estivessem sendo submetidos a torturas cruéis e à morte.

Mas o pior foi que meu guia desapareceu, deixando-me sozinho naquele lugar terrível. Não consigo descrever a apreensão agonizante que tomou conta de mim; em vão olhei ao redor na esperança de encontrar socorro ou consolo. O terror que senti foi tão grande que pensei que fosse morrer. Quando olhei para baixo, para o abismo negro, tive medo de cair nele e me perder, de corpo e alma. Pois, junto com as chamas lúgubres que se erguiam do abismo, vinham faíscas ardentes que caíam de volta nele com um ruído ensurdecedor, além de nuvens de fumaça sulfurosa que pareciam prestes, a qualquer momento, a me arrastar com elas para as profundezas do golfo de fogo. Eram todas almas perdidas que eram impulsionadas para cima como faíscas de lenha em chamas pela força do fogo subterrâneo.

Só Deus sabe o que sofri; um suor frio banhou todo o meu corpo. Enquanto permanecia ali nessa agonia, sem saber para onde me virar, ouviram-se, bem acima da minha cabeça, gargalhadas, misturadas a choro amargo e uivos. À medida que aquele barulho se aproximava, vi vários demônios que traziam consigo cinco almas indefesas, as quais perseguiam e atormentavam. Os demônios estavam exultantes, zombando e rindo; as almas estavam em desespero, proferindo lamentos e gritos de angústia lancinante. Imagine quais foram meus sentimentos ao ouvir seus gritos e observar que os demônios malditos se aproximavam cada vez mais.

Quando chegaram bem perto de mim, fiquei tão dominado pelo terror que pensei que fosse desmaiar, e acredito que, se Deus não tivesse me fortalecido, eu teria morrido ali mesmo. Pois os demônios me lançavam olhares com seus olhos ardentes de maneira tão assustadora, e as pobres almas me imploravam por ajuda de forma tão comovente, que eu me sentia dividido entre o medo e a compaixão, e meu coração parecia prestes a se partir. Quando as almas foram levadas de mim, foram precipitadas nas profundezas do abismo pelos espíritos malignos com tanta violência que o céu e a terra pareciam tremer, e uma nuvem de faíscas voou para cima de tal forma que temi que elas me cobrissem. Por fim, para minha grande dor e pavor, vários espíritos malignos se aproximaram de mim, exalando raiva e fúria, e fazendo como se fossem me arrastar com eles para o abismo negro.

Então, em pânico absoluto, chorei, gritei e implorei por ajuda de algum lugar; pois, naquela densa escuridão, não via nada além de demônios zombeteiros, o abismo escancarado e as chamas crepitantes, e não sabia para onde me voltar em busca de salvação. Quando minha angústia estava no auge, meu guia reapareceu; ele me resgatou dos meus inimigos e me conduziu para fora daquele lugar escuro, imundo e horrível. Ele me disse, além disso, que eu deveria retornar ao meu corpo e que deveria dar a conhecer ao maior número possível de meus semelhantes a existência dessa terra de terrível escuridão'.

Além da obscuridade sinistra que prevalece no Inferno, causada pela fumaça sufocante que se eleva em nuvens densas do lago de enxofre, há aida a presença de demônios assustadores que aumentam a dor e o tormento dos condenados. Lemos na lenda de Santo Antônio, o Eremita, que os demônios frequentemente apareciam para ele sob várias formas, atormentando-o e aterrorizando-o de maneiras indescritíveis. Às vezes, assumiam a forma de feras, leões, ursos, dragões ou cães selvagens; outras vezes, apareciam em forma humana, como homens de aparência feroz, mulheres belas ou monstros de aspecto hediondo. Às vezes, eles o espancavam e maltratavam de forma tão bárbara que o deixavam meio morto; outras vezes, causavam-lhe tal terror com suas estranhas aparições espectrais que, se Deus e seu anjo da guarda não tivessem vindo em seu auxílio, ele teria expirado imediatamente.

Ora, se fizeram tudo isso a um homem de vida santa, sobre o qual não tinham nenhum poder legítimo, o que não farão no Inferno aos pecadores ímpios que estão completamente à sua mercê? Sem dúvida, esses espectros diabólicos, assumindo a forma de animais selvagens, se lançarão sobre os infelizes pecadores e os maltratarão vergonhosamente. Isso será um novo sofrimento para eles. Ninguém pode imaginar que novos terrores e tormentos a engenhosidade desses espíritos do Inferno inventará para atormentar os condenados e derramar sobre eles a sua malícia diabólica.

Se temes essa escuridão e todos os horrores que a acompanham, cuida para que temas as obras das trevas, sobre as quais Cristo diz: 'Todo aquele que pratica o mal odeia a luz e não vem para a luz, para que suas obras não sejam repreendidas' (Jo 3, 20). Mas se tu amas as trevas e buscas as trevas para que possas pecar com maior impunidade, não será um ato de injustiça da parte de Deus lançar-te nas trevas eternas e, ao morreres, dizer aos demônios: 'Porque durante toda a sua vida ele amou as trevas e as obras das trevas, amarrai-lhe as mãos e os pés e lançai-o nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes'.

Oxalá todos os pecadores obstinados pudessem ver isso e considerar os terríveis tormentos que aguardam os descuidados e indiferentes. Pois naquilo em que pecamos, também seremos punidos. E como em nossos dias há tantos cristãos mornos e negligentes que não têm o menor zelo pela religião ou pelos exercícios religiosos, os exortamos a terem cuidado para que não sejam um dia lançados no fogo do inferno por ordem daquele que se autodenomina Deus zeloso, e que é o único a ser temido, pois Ele pode 'destruir tanto o corpo quanto a alma no inferno'. Portanto, considerem, ó cristãos frios e descuidados, que destino os aguarda. Na verdade, se refletissem sobre esses tormentos terríveis, entrariam imediatamente em uma nova vida. Em vez de serem cristãos mornos, preguiçosos, negligentes e frios, tornariam-se rapidamente servos de Deus zelosos, ativos, escrupulosos e fervorosos.

Fora, então, com toda a tibieza, toda a indiferença na grande questão da nossa salvação. Quem quer que sejas, tu que lês isto, resolve cumprir teus deveres como cristão com toda a seriedade. Aproxima-te dos sacramentos com mais frequência do que tens feito até agora; assiste à missa com mais frequência do que até agora, sê mais assíduo e fervoroso na oração do que até agora. Pensa com mais frequência em Deus e nas coisas últimas. Assim, tu superarás a indiferença, a frieza que se apoderou de ti; farás de Deus teu amigo; a esperança da felicidade eterna surgirá dentro de ti e se tornará uma certeza abençoada. Que Deus conceda, por sua graça, que assim seja contigo e comigo!

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

domingo, 21 de junho de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

             

'Atendei-me, ó Senhor, pelo vosso imenso amor!' (Sl 68)

Primeira Leitura (Jr 20,10-13) - Segunda Leitura (Rm 5,12-15) - Evangelho (Mt 10,26-33)

  21/06/2026 - DÉCIMO SEGUNDO DOMINGO DO TEMPO COMUM

'NÃO TENHAIS MEDO!' 


O Evangelho deste domingo nos infunde o sopro da Verdade de Deus. Todas as nossas ações, gestos, pensamentos, palavras, silêncios, desejos, intenções, atos e omissões, praticados a cada segundo, durante toda a vida de cada um de nós, são conhecidos por Deus como escritos em manchetes nas estrelas: 'Até os cabelos de vossa cabeça estão contados' (Mt 10, 30). Nada, absolutamente nada, ficará envolto em penumbra ou esquecimento; todas as coisas serão refletidas no espelho da verdade divina, como oráculo universal: 'nada há de encoberto que não seja revelado, e nada há de escondido que não seja conhecido' (Mt 10,27).

A certeza final é que deveremos prestar contas de cada palavra, de cada gesto, de cada intenção. Tudo será pesado na balança do juízo particular. A resposta à graça concedida e o mal devido ao pecado; a caridade anônima ou o juízo temerário, a palavra de conforto ou o gesto de revolta. O valor de uma alma é infinito, pois se trata de um ato puro da criação do Pai, na escolha personalíssima de Deus como criatura destinada a partilhar a eternidade com Ele no Céu. Mas o legado desta graça é cumprir fielmente os desígnios de Deus para as almas de sua predileção.

O pensamento da eternidade transforma em palha e espuma os tesouros, grandezas e glórias do mundo. Deus nos escolheu não para sermos peregrinos nesta terra, mas como herdeiros do Céu. E,assim, em cada pensamento ou palavra, o fim último deve ser sempre a busca da vida eterna em Deus, conforme nos fala o Apóstolo: 'Com temor e tremor trabalhai por vossa salvação’ (Fl 2,12). E esta busca passa pelo horror ao pecado e a tudo que nos aniquila como Filhos de Deus: 'Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma! Pelo contrário, temei aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno!' (Mt 10,28).

'Não tenhais medo!' (Mt 10,31). O triunfo da alma é seguir o Cristo, Caminho, Verdade e Vida. Quem tem Deus no coração, ama a Verdade e a pratica em tudo e em todos. Quem ama a Verdade, faz a Vontade do Pai que está nos Céu; quem nega a Verdade, é réu de pecado eterno: 'todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante do meu Pai que está nos céus. Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus' (Mt 10,32 - 33). Iustus ex fide vivit — O justo vive pela fé.

domingo, 14 de junho de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

            

'Nós somos o povo e o rebanho do Senhor' (Sl 99)

Primeira Leitura (Ex 19,2-6a) - Segunda Leitura (Rm 5,6-11) - Evangelho (Mt 9,36-10,8)

  14/06/2026 - DÉCIMO PRIMEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM

O SENHOR DA MESSE


'Naquele tempo', tempo de graça inimaginável quando o Senhor estava neste mundo, Jesus se compadece das multidões, 'porque estavam cansadas e abatidas como ovelhas sem pastor' (Mt 9,36). E Jesus não via apenas uma multidão diante dele, mas como multidões de homens de todos os tempos, atribulados pelas vicissitudes e aparências deste mundo, nas águas revoltas do cotidiano de vidas atribuladas e insensíveis aos bens que não passam.

Eis uma missão a ser cumprida, missão extrema, desafio universal: é preciso levar a Boa Nova do Reino de Deus a todas as criaturas; é preciso anunciar o Evangelho de Cristo no mundo inteiro. E, diante da realidade, tão portentosa, o Senhor nos ensina a seguir sempre pelas vocações missionárias, sejam elas religiosas ou leigas: 'a Messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi pois ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!' (Mt 9,37 - 38). Que nossa oração sincera seja semente que faça brotar novos apóstolos e novos missionários no Coração do Senhor da Messe!

Jesus deu início a esta missão chamando os doze Apóstolos. E lhes deu recomendações expressas: 'Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios' (Mt 10,8). E ainda mais: 'De graça recebestes, de graça deveis dar!' (Mt 10,8). Ser missionário é se fazer apóstolo, é assumir a mesma missão que constitui as marcas de identidade de um cristão no mundo. De todos os cristãos: os primeiros doze apóstolos, os outros setenta e dois, os cristãos de todos os tempos, eu e você. Como cordeiros entre lobos, como emissários da paz entre promotores das guerras, os cristãos estão no mundo para torná-lo um mundo cristão.

O apostolado começa com o bom exemplo, expande-se com o amor ao próximo, multiplica-se pela caridade. É imperioso o serviço da vocação; os frutos pertencem aos ditames da Providência. O reino de Deus deve ser proclamado para todos, em todos os lugares, mas a Boa Nova será recebida com jubilosa gratidão num lugar ou indiferença profunda em outro; aqui vai gerar frutos de salvação, mais além será pedra de tropeço. Como operários da grande messe do Senhor, Deus nos quer valorosos combatentes da fé, pregadores perseverantes da Verdade Plena. E ainda que sejamos capazes de domar a natureza e realizar prodígios, a felicidade cristã não está nos eventos temporais aqui na terra, mas na Eterna Glória daqueles que souberam combater o bom combate: 'nós nos gloriamos em Deus, por Nosso Senhor Jesus Cristo' (Rm 5,11).

quinta-feira, 11 de junho de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXI)

            

PARTE III - O INFERNO

III. Sobre os odores repugnantes do Inferno

Para que nada falte às aflições do Inferno, com as quais as almas perdidas são atormentadas, Deus, em sua ira, decretou que essa prisão horrível fosse permeada por um fedor abominável, como castigo para aqueles que, quando na Terra, se deleitavam excessivamente com o uso de perfumes requintados.

A profecia de Isaías se cumprirá assim: 'Em vez de um aroma agradável, haverá um fedor' (Is 3,24). A matéria animal em decomposição emite um odor tão horrível que ninguém gosta de se aproximar dela. Mas se imaginarmos não uma única carcaça em decomposição, mas centenas de milhares amontoadas, o ar em um raio de quilômetros ficaria tão contaminado que causaria a morte de todos nas proximidades.

Mesmo esse fedor, porém, quando comparado ao fedor do Inferno, parece nada, ou melhor, um odor agradável. O húms que exala do Inferno provém principalmente do próprio lugar que é, por natureza, uma região das mais horríveis e imundas. Nenhuma lufada de ar puro jamais pode penetrar nas paredes hermeticamente fechadas daquela prisão. Além disso, todo o Inferno é um lago de enxofre e piche em chamas, e todos sabem quão repugnantes são os vapores que eles exalam. 

'Os incrédulos, os abomináveis, os assassinos, os fornicadores, os feiticeiros, os idólatras e todos os mentirosos terão sua parte na lagoa que arde com fogo e enxofre, que é a segunda morte' (Ap 21,8). O profeta da Nova Aliança fala aqui de um lago cheio de água estagnada, imunda e fétida, para a qual não há saída. Ele acrescenta que esse lago está cheio de enxofre ardente, do qual se eleva uma fumaça densa, como diz em outro lugar: 'A fumaça dos seus tormentos subirá para todo o sempre'.

Os próprios corpos dos réprobos são tão imundos e repugnantes que exalam um odor extremamente ofensivo, pior do que qualquer fedor neste mundo. Segundo São Boaventura, o corpo de um único réprobo contaminaria tanto o ar na terra a ponto de causar a morte de todos os seres vivos que se aproximassem dele. Se um único corpo exala um fedor tão horrível, que exalação será a que se eleva de muitos milhões desses seres miseráveis?

Conta-se que o tirano Maxêncio costumava, como castigo, mandar amarrar um homem vivo a um cadáver, rosto a rosto e membro a membro, até que a infeliz vítima desmaiasse, ou mesmo morresse pelo contato com o corpo morto e em decomposição. Essa é, de fato, uma tortura na qual ninguém consegue pensar sem estremecer. Quão pior será no Inferno, onde os corpos jazem próximos uns dos outros, sem qualquer esperança de serem separados. Por mais repugnante que seja esse fedor, ele se intensifica consideravelmente com a presença dos demônios que, naturalmente, são muito mais repulsivos ao olfato do que os corpos dos condenados.

Lemos na vida de São Martinho que o maligno lhe apareceu em certa ocasião, e o fedor que encheu a sala era tão insuportável que o santo disse para si mesmo: 'Se um único demônio tem um odor tão repugnante, como será o fedor no Inferno, onde há milhares de demônios todos juntos?' Quanto sofrimento esse fedor abominável deve causar aos condenados! Como deve agravar sua angústia e dor! 

Pois deve ser pestilento além de qualquer descrição, surgindo como surge de tantas fontes diferentes: o próprio Inferno, os corpos dos condenados, os demônios, os vermes e répteis, o fogo de piche e enxofre, todos e cada um deles mais fedorentos às narinas dos condenados. Julgai, pelo que foi dito, quão insuportáveis devem ser os odores combinados de todas essas coisas. Ai dos infelizes seres condenados a respirar tal atmosfera! Ai dos pobres pecadores que têm de habitar nela por eras sem fim! Eles devem sucumbir a ela, devem estar constantemente à beira da morte. Ó meu Deus, eu vos imploro pela vossa infinita clemência, poupai-me de um destino tão terrível!

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

domingo, 7 de junho de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

           

'A todo homem que procede retamente, eu mostrarei a salvação que vem de Deus' (Sl 49)

Primeira Leitura (Os 6,3-6) - Segunda Leitura (Rm 4,18-25) - Evangelho (Mt 9,9-13)

  07/06/2026 - DÉCIMO DOMINGO DO TEMPO COMUM

'MISERICÓRDIA E NÃO SACRIFÍCIO!'

'Naquele tempo... Jesus viu um homem chamado Mateus'... (Mt 9,9). Mateus, um homem comum, como eu e você. Jesus viu em Mateus, esse homem comum e pecador, o que vê em todos nós: homens comuns e pecadores que, no cotidiano de suas vidas, dedicam-se a tantas e muitas atividades e perdem tempo com tantas coisas, que se descuidam, que se esquecem, que se afastam da única coisa que realmente importa: a salvação eterna da alma!

Este pobre homem comum chamado Mateus - um coletor de impostos, praticante de uma das atividades mais desprezadas pelo povo judeu à época - vai experimentar, em toda a sua magnitude, as maravilhas da misericórdia de Deus: 'segue-me!' (Mt 9,9). Seguir a Jesus significava abandonar todos os bens para aquele que vivia de se apoderar dos bens alheios. E, sem titubear, o Mateus bendito dos Evangelhos largou tudo e seguiu Jesus. Esse Mateus tem nome - como poderia ter sido meu nome ou o seu - porque, ao se desvestir do mundo, teve como herança eterna o seu nome escrito no Livro da Vida.

E tal mudança de vida impõe a necessidade de uma grande celebração e a experiência de Mateus é então compartilhada com muitos outros irmãos de profissão e são muitos deles que agora estão em festa circundando Jesus à mesa. O apostolado que rende frutos de imediato, o serviço a Deus que começa no minuto seguinte ao chamamento da graça. E eis que, diante o mistério da graça, se manifesta o desvario da malevolência dos fariseus: 'Por que vosso mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?' (Mt 9,11). E Jesus vai lhes dar esta resposta: 'Quero misericórdia e não sacrifício... eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores' (Mt 9,12). Ou seja, para nos chamar a todos - homens comuns e pecadores de todos os tempos - todos nós que precisamos ser curados das feridas do pecado.

Mateus, de agora em diante, será São Mateus, o primeiro Evangelista. Movido pela fé e pela docilidade aos ditames da graça - pela mesma fé creditada como justiça que tornaram Abraão o pai de muitos povos conforme a promessa divina - o coletor de impostos vai abandonar tudo para seguir Jesus. Seguir Jesus implica dedicação plena, tomada de decisão resoluta, integridade de propósito e... obras! São estas coisas que permeiam o significado da proposição imperativa do Senhor aos homens de todos os tempos: 'Quero misericórdia e não sacrifício!' (Mt 9,12). Seguir Jesus, sim, mas não apenas com os lábios ou por meio do indiferentismo de uma crença qualquer, mas com a fé creditada como justiça e servida pela caridade para com todos os nossos irmãos, para propiciar a todos nós a graça da salvação e os frutos eternos das maravilhas da misericórdia de Deus!

sexta-feira, 5 de junho de 2026

SETE REFLEXÕES SOBRE A EUCARISTIA


1. 'Eu fui um grão de trigo semeado no ventre virginal da minha Santíssima Mãe (cf. Jo 12,24); saí dele tenro e fresco, como um trigo em broto; cresci sob ventos e sóis intensos de trabalhos, caminhos e perseguições; e quando tinha quase trinta anos, os maus lançaram a sua foice sobre mim, e fui cortado desta vida, moído e atormentado, e transformado em farinha para que dela se fizesse este pão sagrado, do qual e pelo qual digo: 'Quem me comer, viverá por mim' (Jo 6,58). E tendo custado tão caro entregar-me como alimento aos homens, e estando fechado e depositado em lugar tão pequeno para que melhor possam me comer, prestam tão pouca atenção aos meus trabalhos e ao meu grande amor e à grande necessidade que têm de mim, que alguns nem sequer querem vir à minha casa; e se outros vêm, contentam-se em reverenciar-me quando sou consagrado e elevado na missa; mas preparar suas consciências, lutar contra suas paixões para virem puros à minha mesa e me receberem e se alegrarem comigo, muito poucos há'.

2. 'Quereis que Deus seja todo vosso? Sejais então todo dele. Não ousais? Como sois duros, cegos que sois, que temeis vos trocar por Deus? Por que temeis entregar-vos a Ele e oferecer-vos à sua vontade? Se, pelo que vos dais, Ele se entrega por si mesmo e, ainda assim, não ousaríeis? Pois isso é comungar, e isto é o significado e o ato da comunhão'.


3. 'Que confusão para nós, que nos contentamos com uma missa assistida de passagem, apressadamente, sem amor, sem gratidão! Bem-aventurado aquele que, quando tiver Cristo em suas mãos, sentir-se como o velho Simeão'.

4. 'Ao esquecer a comunhão e a comunicação com Jesus Cristo, a fé esfria tanto que, se nada nos pressionasse, terminariamos por negar a fé... Receber o corpo de Jesus Cristo e nos unirmos agora a Ele, por meio da comunhão, é uma antecipação da união que haverá de existir entre nós e Ele nos céus'.

5. 'O sacerdote toma o pão nas mãos e pronuncia as palavras da consagração; assim que as pronuncia, já não há pão; quem entrou ali no lugar do pão? Jesus Cristo. Pois, quando vierem comungar, considerem que vocês são o pão que se converterá em Jesus Cristo, para que digam como o apóstolo São Paulo: Vivo eu, mas não eu, e sim Jesus Cristo em mim' (Gl 2,20).

6. 'Meu caro irmão, e se soubesses que graça tão grande te concedeu Jesus Cristo ao permanecer aqui para te sustentar! Guarda em teu peito o Santíssimo Sacramento, comunga com frequência, aproxima-te do santo altar de Jesus Cristo e roga-lhe com muita devoção: 'Senhor, estou nesta tribulação; Senhor, estou nesta fadiga; esta tentação me cansa; esta desonra me cerca; Senhor, estou morno, estou fraco, estou frio; Senhor, pois tu és o verdadeiro fogo, acende a minha alma com o teu amor; inflama, meu Senhor, as minhas entranhas na caridade'. Pede-lhe, que se com boa fé lhe pedires, Ele te concederá'.

7. 'E, acima de tudo, aproximemo-nos do fogo que acende e arde, que é Jesus Cristo, nosso Senhor, no Santíssimo Sacramento. Abramos a boca da alma, que é o desejo, e vamos sedentos à fonte de água viva; pois, sem dúvida, ao colocarmos o mel na boca, algo provaremos, e o fogo no íntimo nos aquecerá. E depois e antes de comungar, tenhamos algum preparativo; e os melhores são a fé certa de que vamos receber Jesus Cristo, nosso Senhor, e o pensamento e o amor de sua paixão, pois é em sua memória que o ato se realiza. Corramos, pois, atrás de Deus, que não nos deixará; Ele está pregado na cruz; ali o encontraremos com toda a certeza; coloquemo-lo em nosso coração e fechemos as portas para que Ele não nos deixe.'

(São João de Ávila)

quinta-feira, 4 de junho de 2026

CORPUS CHRISTI 2026

 

Corpus Christi, expressão latina que significa Corpo de Cristo, é uma festa litúrgica da Igreja sempre celebrada na quinta–feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade, que acontece no domingo seguinte ao de Pentecostes, 50 dias depois da Páscoa. 

O pão é pão e o vinho é vinho
como frutos do homem em oração;
é o que trazemos, é tudo o que temos,
como oferendas da nossa devoção. 

Não é mais pão, nem é mais vinho
quando espécies na consagração;
alma e divindade que se reconciliam
a cada missa, em cada comunhão.

Aparente pão, aparente vinho,
é mais que vinho, muito mais que pão;
o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo
 é o alimento da nossa salvação.

(Arcos de Pilares)

domingo, 31 de maio de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

          

'A Vós, louvor, honra e glória eternamente!' 

Primeira Leitura (Ex 34,4b-6.8-9) - Segunda Leitura (2Cor 13,11-13) - Evangelho (Jo 3,16-18)

  31/05/2026 - SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE

GLÓRIA AO PAI, AO FILHO E AO ESPÍRITO SANTO


O mistério da Santíssima Trindade é um mistério de conhecimento e de amor. Pois, desde toda a eternidade, o Pai, conhecendo-se a Si mesmo com conhecimento infinito de sua essência divina, por amor gera o Filho, Segunda Pessoa da Trindade Santa. E esse elo de amor infinito que une Pai e Filho num mistério insondável à natureza humana se manifesta pela ação do Espírito Santo, que é o amor de Deus por si mesmo. Trindade Una, Três Pessoas em um só Deus.

Mistério dado ao homem pelas revelações do próprio Jesus, posto que não seria capaz de percepção e compreensão apenas pela razão natural, uma vez inacessível à inteligência humana: 'Tudo o que o Pai possui é meu. Por isso, disse que o que ele (o Espírito Santo) receberá e vos anunciará, é meu' (Jo 16,15). Mistério revelado em sua extraordinária natureza em outras palavras de Cristo nos Evangelhos: 'Em verdade, em verdade vos digo: O Filho não pode de si mesmo fazer coisa alguma, mas somente o que vir fazer o Pai; porque tudo o que fizer o Pai, o faz igualmente o Filho. Porque o Pai ama o Filho, e mostra-lhe tudo o que ele faz (Jo 5,19-20) ou ainda 'Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; e ninguém conhece o Filho senão o Pai; nem alguém conhece o Pai senão o Filho' (Mt 11,27).

Nosso Senhor Jesus Cristo é o Verbo de Deus feito homem, sob duas naturezas: a natureza divina e a natureza humana: 'Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele' (Jo 3,16 - 17). Enquanto homem, Jesus teve as três potências da alma humana: inteligência, vontade e sensibilidade; enquanto Deus, Jesus foi consubstancial ao Pai, possuindo inteligência e vontade divinas.

'Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo'. Glórias sejam dadas à Santíssima Trindade: Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. Neste domingo da Santíssima Trindade, a Igreja exalta e ratifica aos cristãos o maior dos mistérios de Deus, proclamado e revelado aos homens: O Pai está todo inteiro no Filho, todo inteiro no Espírito Santo; o Filho está todo inteiro no Pai, todo inteiro no Espírito Santo; o Espírito Santo está todo inteiro no Pai, todo inteiro no Filho (Conselho de Florença, 1442).