133. A METADE DE UM PÃO PARA 50 RELIGIOSAS
Santa Clara, abadessa do convento de São Damião, porfiava com São Francisco na observância da pobreza, de tal modo que, as vezes, não havia nada para a refeição. De uma feita, à hora do almoço, Irmã Cecília, a ecônoma, correu triste a mostrar a abadessa o único pão que havia em casa. Um pão para 50 religiosas!
➖ Minha filha - disse-lhe Santa Clara - divida o pão em duas partes: uma metade mande aos nossos bons Irmãos esmoleiros, os quais com certeza estão necessitados como nós; a outra metade, você a divida em cinquenta fatias, pois tantas são as Irmãs.
➖ Mas, Madre - replicou a ecônoma ➖ para dar de comer a 50 religiosas com a metade de um pão, seria mister que Deus renovasse para nós as maravilhas operadas outrora em favor da multidão faminta...
➖ E por que duvidar, minha filha? Vá - disse a santa com um sorriso angélico - e com espirito de fé faça tudo como lhe ordenei.
Depois, reunidas no refeitório todas as Irmãs, pôs-se a rezar junto com elas; e eis que, durante a oração, as fatias de pão cresciam maravilhosamente nas mãos de Irma Cecília que as distribuía. Todas as Irmãs ficaram abundantemente servidas e não cessavam de dar graças à santa abadessa e mais ainda ao bom Deus, que renovara diante dos seus olhos o prodígio da multiplicação dos pães.
134. SENTAR-SE AO LADO DE UM PADRE
Não faz muito tempo deu-se em Roma o seguinte caso. Um padre subiu a um bonde e foi sentar-se ao lado de certo individuo, que seria tudo menos um cavalheiro. Por que? Porque, levantando-se de mau humor, foi sentar-se ao lado de uma senhora, dizendo em voz alta - para ser ouvido de todos - que não queria viajar ao lado de um corvo.
A senhora mais que depressa levantou-se e foi assentar-se ao lado do sacerdote, dizendo: 'E eu não quero ficar perto de um asno!' Gargalhadas sonoras obrigaram o mal-educado a calar-se envergonhado e a descer na primeira parada.
135. NO TRIBUNAL DE DEUS
São Jerônimo, que foi sempre estudiosíssimo, quando jovem apaixonou-se demais pelos clássicos latinos, e lia com avidez as obras de Plauto, de Terêncio e especialmente de Cícero. Ele mesmo conta que, uma vez, estando gravemente enfermo e à beira da morte, foi arrebatado em espírito ao tribunal do Juiz Jesus Cristo.
Eu estava - dizia o santo - com o rosto por terra e, ferido pelo fulgor do rosto de Deus e não ousava erguer os olhos. O Juiz interrogou-me: 'Quem és tu?' E eu, com voz trêmula, respondi: 'Sou Jerônimo, sou cristão'. 'Cristão? Mentes; não és cristão, mas ciceroniano - Mentiris; Ciceronianus es, non Christianus'.
Em seguida uma mão invisível desferiu-me uma tempestade de açoites. Eu gritava: 'Misericórdia! Misericórdia!', fazendo mil promessas de não ler mais os clássicos profanos e de entregar-me ao estudo assíduo da Sagrada Escritura. Ó quão rigoroso não será o Juízo divino!
136. O MEMORARE DO 'TERROR'
Na terrível época que se chamou na França como 'o Terror', um certo dia o vigário de Firanges (diocese de Puy) estava batizando ocultamente uma criança. Naquela infeliz época, isso era um crime passível de morte. Repentinamente, 14 hussardos e 5 gendarmes, guiados por um fogoso revolucionário, cercaram a aldeia de Boisseyres e a casa onde estava o padre. Fugir era impossível. E onde esconder-se?
'Ó Maria, exclamou o padre, vós me salvareis, e eu recitarei o memorare (Lembrai-vos) todos os dias de minha vida, e o farei cantar todos os domingos na minha paróquia'. Assim dizendo, refugiou-se atrás de um armário. O primeiro soldado entrara no aposento justamente no momento em que ele cobria com um velho chapéu de palha as extremidades dos pés que ficaram por baixo do armário. Os soldados procuraram, revistaram, quebraram e estragaram tudo, mas não encontraram o padre. Um dos soldados chegou a enfiar a sua espada por três vezes atrás do armário; a espada passou sempre ao longo do corpo do pároco sem fazer-lhe nem a mínima ferida. Os carrascos partiram desapontados e o sacerdote se salvou.
O protegido de Maria foi fiel em cumprir o seu voto e os seus sucessores continuaram esta prática que consagrou aquela comovente recordação: depois do Magnificat, na igreja paroquial de Piranges, ecoava sempre o canto do Memorare.
(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)
