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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

DEVEIS RESPLANDECER COMO FILHOS DE DEUS!

'Fazei tudo sem murmurações nem discussões, para que sejais irrepreensíveis e puros, filhos de Deus sem mancha em meio a uma geração perversa e degenerada, na qual deveis resplandecer como astros, levando a Palavra da vida' (Fl 2,14–16).

Estas palavras devem ser compreendidas assim: o homem encontra-se como numa encruzilhada. Se procurar a salvação na luz que vem de Deus, ele a alcançará. Se escolher o mal, seguirá o diabo como castigo. Portanto, se o homem assumir sua condição humana e todas as suas obras sem murmurações, isto é, sem as deformações dos pecados e sem indecisões, com uma fé perfeita, amando o bem e odiando o mal, será certamente libertado no julgamento futuro e separado dos pecadores que se afastam do bem para abraçar o mal. 

Aqueles que agem amando o bem e procurando não ferir ninguém vivem como filhos de Deus, na simplicidade das boas obras, evitando murmurações e disputas vãs, rejeitando sentimentos negativos e mundanos. Insensíveis às armadilhas da sedução, despertam a estima daqueles que se alegram com sua coragem em meio a uma geração pervertida. Na perfeição de sua verdadeira fé, brilham como os astros cuja missão é iluminar o mundo, conforme determinou o Criador do universo. Com uma doutrina que se encarna na vida, converterão os homens a Deus. É dessa maneira que o Filho de Deus, sem pecado, deu a todos a sua Luz.

(Santa Hildegarda de Bingen)

BREVIÁRIO DIGITAL: A PEQUENA VIA (III)

 

Tive vários êxtases de amor, e um em particular durante o meu noviciado, quando permaneci, por uma semana inteira, muito afastada deste mundo. Parecia que um véu havia sido lançado sobre todas as coisas terrenas. Mas, naquela ocasião, eu não era consumida por um verdadeiro fogo. Podia suportar aqueles transportes de amor sem esperar que se rompessem os laços que me prendiam à terra; ao passo que, no dia de que agora falo, mais um minuto - mais um segundo - e minha alma teria sido libertada. Ai de mim! Encontrei-me novamente na terra e a aridez logo voltou ao meu coração.

(Santa Teresa do Menino Jesus)

sábado, 3 de outubro de 2026

BREVIÁRIO DIGITAL: A PEQUENA VIA (II)

 

Poucos dias depois de minha oblação ao Amor Misericordioso de Deus, eu estava no coro, começando a Via-Sacra, quando me senti subitamente ferida por um dardo de fogo tão ardente que pensei que fosse morrer. Não sei como explicar isso; não há comparação capaz de descrever a intensidade daquela chama. Parecia que uma força invisível me mergulhava inteiramente no fogo. Mas... Que fogo! Que doçura!

(Santa Teresa do Menino Jesus)

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

VERSUS: 'NÃO VOS PREOCUPEIS COM O AMANHÃ'

Quando alguém se encontra em dificuldade e já não sabe o que fazer, procura uma pessoa prudente a quem pedir conselho. Imaginemos que o mundo inteiro fosse um só homem: deseja escapar do mal, mas tarda em praticar o bem. À medida que suas aflições aumentam, a quem poderia recorrer com mais proveito do que a Cristo? Se não encontra conselheiro melhor, aproxime-se daquele que pode encontrar em toda parte; escute-o e acolha seu conselho.

Os males temporais que os homens tanto temem são passageiros: ou eles passam por nós, ou nós passamos por eles. Desaparecem enquanto vivemos ou ficam para trás quando morremos. Não pode ser grande, pela sua duração, uma tribulação que dura tão pouco. Tu, que te inquietas com o amanhã, já não te recordas do ontem? Quando chegar o dia seguinte, esse amanhã também será ontem. E, no entanto, os homens se consomem em ansiedade para escapar de sofrimentos que passam - ou, melhor, que voam. Quanto cuidado não deveriam dedicar, então, a escapar daquilo que permanece!

(Santo Agostinho)


Quando Cristo diz: 'não vos preocupeis com o amanhã' - não está proibindo o trabalho. Ele nos ensina a não ficar presos às coisas desta vida. Alguém pode nada fazer e, ainda assim, ocupar-se inteiramente em acumular para o futuro; outro pode trabalhar e permanecer livre da inquietação. Trabalhar e viver ansioso não são a mesma coisa.

Também quando disse a Marta que ela se preocupava com muitas coisas e que uma só era necessária, Cristo não condenou sua hospitalidade. Mostrou-lhe que há um momento próprio para cada cuidado: naquela hora, em que Ele estava ali para ensinar, escutar sua palavra merecia o primeiro lugar. Marta desejava recebê-lo e preparar-lhe uma boa mesa; poderia acolhê-lo também prestando atenção ao que Ele tinha a lhe dizer.

Aprendamos, pois, caríssimos, a pedir a Deus aquilo que convém pedir-lhe. Quanto às coisas desta vida, qualquer que seja seu desfecho, elas não podem causar-nos o dano que mais importa temer. A riqueza só pode oferecer seu conforto durante esta vida; a pobreza, por sua vez, não é um mal definitivo. Tanto os esplendores quanto as dores presentes passam depressa. Voltemos nosso cuidado, portanto, para as coisas que permanecem.

(São João Crisóstomo)

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

BREVIÁRIO DIGITAL: A PEQUENA VIA (I)

'
É tão doce chamar a Deus 'Pai nosso'!… Não consigo imaginar bem o que terei a mais no Céu do que tenho agora. É verdade que verei a Deus; mas, quanto a estar com Ele, já estou com Ele aqui na terra'.

(Santa Teresa do Menino Jesus)

sábado, 19 de setembro de 2026

AS VINHAS DE DEUS (XIII/Final)

 

86. Há uma certa erva que, quando mastigada, comunica tamanha doçura que aqueles que a conservam na boca não podem sentir fome nem sede. Assim também, aqueles a quem Deus concede o seu maná celestial de doçura e consolação interiores não podem desejar nem aceitar as consolações mundanas com verdadeiro gosto ou satisfação. É uma pequena antecipação da bem-aventurança eterna, que Deus concede àqueles que o procuram; é o confeito que Ele oferece aos seus filhos para atraí-los; é o cordial que lhes apresenta para fortalecer-lhes o coração; é também, algumas vezes, o penhor e a garantia das recompensas eternas.

87. Quando nossa vontade encontra Deus, repousa nEle, encontrando nEle uma soberana complacência; entretanto, não deixa de exercer o movimento do desejo: pois, assim como deseja amar, ama também desejar; possui o desejo do amor e o amor do desejo. O repouso do coração não consiste em permanecer imóvel, mas em não necessitar de coisa alguma. Não consiste em não ter movimento, mas em não estar sujeito à necessidade de se mover.

88. Nada faz a camomila parecer tão amarga quanto provar mel antes dela. Quando começarmos a saborear as coisas divinas, já não será possível que as coisas deste mundo despertem o nosso apetite.

89. O suco da romã, como todos sabemos, é muito agradável tanto aos enfermos quanto aos sadios e apresenta uma mistura tão íntima de amargor e doçura que é difícil dizer se agrada ao paladar por sua doce amargura ou por sua amarga doçura. Do mesmo modo, o amor é agridoce; e, enquanto permanecermos neste mundo, sua doçura nunca será perfeitamente doce, porque o próprio amor nunca é perfeito, nem jamais se encontra pura e perfeitamente saciado e satisfeito. Não obstante, mesmo aqui o amor é extremamente agradável: sua amargura torna mais delicada a suavidade de sua doçura, enquanto sua doçura torna mais vivo o encanto de sua amargura.

90. Virá a hora da consolação; e então, com indizível doçura de alma, abrireis o vosso íntimo diante da Bondade Divina, que transformará vossos rochedos em fontes de água, vossa serpente em vara, e todos os espinhos do vosso coração em rosas - e nas mais belas das rosas - que reconfortarão o vosso espírito com sua doçura.

91. Os mundanos e os homens terrenos, que vivem conforme os costumes da terra, tão logo concebem algum bom pensamento ou alguma ideia que lhes parece digna de estima, ou quando possuem alguma virtude, não descansam enquanto não a exibem e a tornam conhecida por todos aqueles que encontram. Nisso, correm o mesmo risco das árvores que fazem brotar suas folhas muito cedo na primavera, como as amendoeiras: se, por acaso, a geada as surpreende, elas perecem e não produzem fruto algum. As pessoas mundanas, que tão levianamente deixam suas flores desabrochar na primavera desta vida mortal, movidas por um espírito de orgulho e ambição, correm sempre o grande risco de serem surpreendidas pela geada, que lhes fará perder o fruto de suas ações.

92. Os justos, ao contrário, conservam todas as suas flores encerradas na bainha da santa humildade e, tanto quanto podem, não permitem que apareçam antes do tempo do grande calor: quando Deus, o divino Sol da justiça, vier aquecer seus corações na vida eterna, onde produzirão para sempre o doce fruto da felicidade e da imortalidade.

93. Somos semelhantes ao coral que, no lugar de sua origem - o oceano - é um arbusto verde-pálido, frágil e flexível; mas, uma vez retirado das profundezas do mar, como do ventre de sua mãe, torna-se quase uma pedra e passa do verde ao vermelho vivo. Assim, enquanto permanecemos mergulhados no mar deste mundo, lugar de nosso nascimento, estamos sujeitos a mudanças extremas e somos flexíveis para todos os lados: à direita, inclinamo-nos ao amor celestial pela inspiração; à esquerda, ao amor terreno pela tentação. Mas, uma vez retirados desta condição mortal, teremos transformado o verde-pálido de nossas esperanças temerosas no vermelho vivo da posse segura. Nunca mais seremos inconstantes, mas permaneceremos para sempre firmes no amor eterno.

94. Sucede com tudo o que poderíamos dizer a respeito da grandeza, da glória e da felicidade eternas, bem como da beleza e dos encantos de que o Céu está repleto. Com efeito, entre uma única folha ou um único fruto e a própria árvore, inteiramente coberta de folhas e carregada de frutos, existe uma proporção ainda maior do que entre a luz do Sol e o esplendor de que os bem-aventurados desfrutam na glória. Nem a beleza dos prados adornados de flores na primavera, nem o encanto dos campos cobertos de colheitas maduras podem comparar-se à beleza e ao encanto dos campos celestiais da felicidade eterna, que superam infinitamente tudo quanto deles se possa dizer ou conceber.

95. Ó queridas resoluções, sois a bela árvore da vida que meu Deus plantou com suas próprias mãos no centro do meu coração e que meu Salvador deseja regar com seu sangue, para fazê-la produzir frutos. Eu morreria mil vezes antes de permitir que algum vento vos arrancasse do meu coração. Não! Nem os prazeres, nem as riquezas, nem as tribulações jamais me afastarão desta resolução. Ah, Senhor! Vós a plantastes e, desde toda a eternidade, guardastes em vosso seio paterno esta bela árvore para o meu jardim. Ai! Quantas almas não receberam semelhante favor! Como poderei, então, humilhar-me suficientemente diante de vossa misericórdia?

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. VII, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

É PRECISO ATRAVESSAR A PONTE...

 

Eis como enfileirados passamos o rio Jordão para entrar na terra prometida, onde Deus nos chama uns após outros. Viva Jesus! Nada há de tão atrativo neste mundo que nos faça desejar que os nossos amigos e parentes permaneçam aqui por muito tempo. Fazei pouco caso deste mundo, porque ele só nos serve de ponto para passarmos para outro melhor. Este mundo só existe para que sirva de ponte, para que possam existir os habitantes do céu.

À medida que vemos este mundo e os bens que nele temos desfazerem-se ante nossos olhos, é preciso recorrermos com mais ardor a Nosso Senhor e confessar que não colocamos as nossas esperanças nem esperamos os nossos contentamentos senão dele e da eternidade que nos destinou. É preciso que seja proferida esta pequena frase de confiança: não há homem no mundo que tenha o coração mais terno e afetuoso para as amizades do que eu, e que tenha sentimento mais vivo nas separações; no entanto tenho em tão pouca conta esta vaidade da vida que passamos, que nunca me volto para Deus com mais sentimento de amor do que quando me fere, ou quando permite que eu seja ferido.

Elevemos os nossos pensamentos ao céu, e estaremos isentos dos acidentes da terra. Tendo buscado bem a Deus, somos arrebatados para Ele. Devemos crer que Deus dispôs isto para seu melhor bem. Permaneçamos em paz, esperando que Ele disponha de nós. Seríeis muito temerário, caro amigo, se pretendêsseis estar isento dos embates que a inconstância desta vida dá de quando em quando aos homens. Quero que choreis essa perda, porque isso é razoável; mas desejo que não choreis desordenadamente, e que nesta ocasião demonstreis que já aproveitastes tanto na virtude que tendes mais fundamento na eternidade do que na imagem deste mundo.

Contemplai esta morte que talvez não tenha dado tempo ao falecido para se despedir dos que amava; e, esperando que ele passe para a graça de Nosso Senhor, digamos a tempo o adeus, renunciando de coração ao mundo e a toda a vaidade; e coloquemos os nossos corações na bem-aventurada eternidade que nos espera. Ah! Caro amigo! O meu coração compadece-se do vosso, e conjuro-o que pertença completamente Àquele que o ressuscitará da morte para a vida e que nos preparou as suas eternas bênçãos. Seja sempre bendito o seu santo nome!

Sim, querido amigo, chorai o vosso falecido, porque Nosso Senhor chorou Lázaro, seu amigo; mas não sejam lágrimas de pesar, mas de uma simples compaixão cristã e de um coração que, como o de São José, chora de ternura e não de arrogância como Esaú. É nestas ocasiões que convém submeter-nos ao agrado do doce Jesus.

Mas dizei-me: e nós quando iremos para essa pátria que nos espera? Ah! Eis-nos à espera da nossa partida, e choramos os que já partiram! Bom presságio são para essa alma as muitas aflições que ela sofreu; porque, tendo sido coroada de espinhos, devemos crer que será coroada de rosas. Vá pois este irmão, possuir o seu eterno repouso no reino da misericórdia de Deus. Se as minhas preces lhe podem apressar este bem, prometo-as de todo o coração; e se pudesse ter na vossa amizade, pedir-vos-ia de todo o coração; pelo menos permiti-me que ocupe o que tenho, e que à medida que os vossos parentes temporais vos vão faltando, o afeto mais que paternal que vos consagro e tenho fielmente dedicado, se torne maior em ternura e ardor santo.

Tomai as faixas de Nosso Senhor ou o sudário no qual foi envolvido para o sepulcro e enxugai com ele as lágrimas. Eu na verdade também choro nessas ocasiões, e o meu coração, de pedra para as coisas celestes, derrama lágrimas nesses casos; mas seja Deus louvado, e faço com doçura e para vos falar como a um amigo querido, sempre com um sentimento de dileção amorosa para com a Providência de Deus; porque, depois que Nosso Senhor amou a morte e que a ela se entregou por nosso amor, não posso querer mal à morte, nem dos meus irmãos e nem de ninguém, contanto que se faça por amor da sagrada morte do meu Salvador. Viva, pois, e que Ele reine sempre em vossos corações. Amém!

(São Francisco de Sales)

ETYMOLOGIAE (V)

 

📌As Leis divinas e as Leis Humanas (De legibus divinis et humanis)

1. Todas as leis são divinas ou humanas. As leis divinas fundamentam-se na natureza; as leis humanas, nos costumes. Por essa razão, as leis humanas podem divergir entre si, pois leis diferentes convêm a povos diferentes. Fas é a lei divina; ius é a lei humana. Atravessar a propriedade de um estranho é permitido pela lei divina; não é permitido pela lei humana.

2. Como a jurisprudência, as leis e os costumes diferem entre si (Quid differunt inter se ius, leges, et mores). Ius é um termo geral, e a lei é um aspecto do ius. Chama-se ius porque é justo (iustus). Todo o ius consiste em leis e costumes.

3. A lei é uma norma escrita. O costume é um uso comprovado pelo tempo, ou uma lei não escrita; pois lei (lex, genitivo legis) recebe seu nome de 'ler' (legere), porque é escrita. O costume (mos) é um uso de longa data, derivado igualmente dos 'hábitos morais' (mores, plural de mos). O 'direito consuetudinário' (consuetudo) é um determinado sistema de justiça estabelecido pelos hábitos morais, que é tomado como lei quando falta uma lei; e não importa se ele existe por escrito ou pela razão, pois a razão também confere validade à lei.

4. Além disso, se a lei se fundamenta na razão, então será lei tudo aquilo que estiver de acordo com a razão - desde que esteja de acordo com a religião, seja conforme à boa ordem dos costumes e contribua para o bem-estar. O direito consuetudinário (consuetudo) recebe esse nome porque está em 'uso comum' (communis usus).

5. O direito é natural, civil ou das nações. O direito natural (ius naturale) é comum a todos os povos e, por existir em toda parte pelo instinto da natureza, não é estabelecido por nenhuma disposição legal. Assim são a união entre homem e mulher, a herança e a educação dos filhos, a posse comum de todas as coisas, uma única liberdade para todos e o direito de adquirir tudo aquilo que é obtido do céu, da terra e do mar.

6. Também pertencem ao direito natural a restituição daquilo que foi confiado a alguém e do dinheiro que foi depositado, bem como a repulsão da violência pela força. Ora, isso, ou qualquer coisa semelhante, jamais é injusto, mas é considerado natural e justo.

7. O direito civil (ius civile) é aquele que cada povo ou cidade, individualmente, estabeleceu como próprio para si, por razões humanas ou divinas.

8. O direito das nações diz respeito à ocupação de territórios, à construção, às fortificações, às guerras, aos cativeiros, às escravizações, ao direito de retorno, aos tratados de paz, às tréguas, ao compromisso de não molestar as embaixadas e à proibição de casamentos entre diferentes povos. E é chamado 'direito das gentes' (ius gentium) porque quase todas as nações (gentes) fazem uso dele.

(Excertos da obra 'The Etymologies of Isidore of Seville' (Barney et al. 2006), tratado etimológico de Santo Isidoro de Sevilha [560 - 636], sobre o conhecimento da Antiguidade Clássica inserido no contexto de uma visão cristã do mundo)

sábado, 12 de setembro de 2026

AS VINHAS DE DEUS (XII)

 

78. A erva aproxis é tão facilmente atraída pelo fogo que, mesmo quando se encontra a grande distância, atrai imediatamente para si a chama e rapidamente se consome, incendiando-se não apenas pelo calor, mas pela simples luz da chama que lhe é apresentada... Assim também, quando nossos corações se colocam na presença da bondade divina e atraem para dentro de si as perfeições divinas, pelo deleite que nelas encontram, podem dizer com verdade: 'A bondade de Deus é toda minha, porque me alegro em sua excelência; e eu sou todo dele, pois o seu beneplácito me possui'. 

79. Foi esse amor de compaixão que imprimiu os estigmas no amoroso e seráfico São Francisco e as ardentes chagas de nosso Salvador na amorosa e angélica Santa Catarina de Sena; pois a complacência amorosa aguçara as pontas da dolorosa compaixão, assim como o mel torna mais sensível e penetrante o amargor do absinto; ao passo que, inversamente, o doce perfume da rosa é enfraquecido e amortecido pelo alho plantado junto às roseiras. Pois, assim como a complacência amorosa que sentimos no amor de nosso Salvador nos faz experimentar uma compaixão mais profunda por seus sofrimentos, também, por outro lado, quando passamos da compaixão por suas dores à complacência em seu amor, a alegria se torna tanto mais ardente e mais elevada.

80. Os Magos do Oriente não conseguem contentar-se com a beleza da cidade de Jerusalém, nem com a magnificência da corte de Herodes, nem com o brilho da estrela; seus corações procuram a pequena gruta e o pequeno Menino de Belém. A Mãe do belo amor e seu santo esposo não conseguem repousar entre parentes e amigos; prosseguem ainda, 'procurando com aflição' o único objeto de sua complacência. O desejo de aumentar essa santa complacência afasta todo outro prazer, para que a alma possa gozar mais perfeitamente daquele para o qual a bondade divina a atrai.

81. A mirra produz seu primeiro líquido como que por transpiração; mas, para que entregue todos os seus sucos, é necessário ajudá-la mediante uma incisão. Do mesmo modo, o amor divino de São Francisco manifestou-se durante toda a sua vida como uma espécie de exalação que dele emanava, pois em todas as suas ações ele não respirava senão esse santo amor. Mas, para manifestar inteiramente a incomparável abundância desse amor, veio o Serafim celestial feri-lo. E, para que os homens soubessem que suas chagas eram feridas do amor celestial, elas não foram feitas com ferro, mas com raios de luz.

82. A bem-aventurada Madre Teresa diz admiravelmente que, quando a união da alma com Deus alcança tal perfeição que nos mantém unidos a Nosso Senhor, ela em nada difere do arrebatamento e da suspensão do espírito; mas, quando é breve, chama-se apenas união ou suspensão, ao passo que, se é prolongada, chama-se arrebatamento ou êxtase. De tal modo que, com efeito, a alma unida ao seu Deus tão firme e estreitamente que não pode facilmente ser separada dele já não está em si mesma, mas em Deus; assim como um corpo crucificado já não está em si mesmo, mas na cruz, e como a hera que se agarra ao muro já não está em si mesma, mas no muro.

83. Assim como os marinheiros que se fazem ao mar com vento favorável e bom tempo jamais se esquecem dos cabos, das âncoras e das demais coisas necessárias para o mau tempo e as tempestades, também o servo de Deus, embora desfrute do repouso e da doçura do santo amor, nunca deve estar sem o temor dos juízos divinos, a fim de poder servir-se dele em meio às tempestades e aos assaltos da tentação. Do mesmo modo, assim como a casca de uma maçã, embora tenha pouco valor em si mesma, serve, contudo, grandemente para conservar a fruta que recobre, assim também o temor servil, embora tenha tão pouco valor em si mesmo quando comparado ao amor, é, todavia, muito útil para preservar o amor em meio aos perigos desta vida mortal.

84. Com efeito, o santo amor é uma virtude, um dom, um fruto e uma bem-aventurança. Como virtude, torna-nos obedientes às inspirações interiores que Deus nos concede por meio de seus mandamentos e conselhos, em cuja execução praticamos todas as virtudes, das quais o amor é a virtude de todas as virtudes. Como dom, o amor torna-nos dóceis e receptivos às inspirações interiores, que são como os mandamentos e os conselhos secretos de Deus; e, ao colocá-los em prática, fazemos uso dos sete dons do Espírito Santo, dos quais o amor é o dom dos dons. Como fruto, ele nos proporciona um sabor e um prazer extraordinários na prática da vida devota, a qual requer os doze frutos do Espírito Santo; e, por essa razão, o amor é o fruto dos frutos. Como bem-aventurança, faz-nos receber como grande favor e singular honra as afrontas, calúnias, censuras e insultos que o mundo nos dirige; e faz-nos renunciar e rejeitar toda glória que não seja aquela que procede de nosso amado Salvador Crucificado.

85. O amor, portanto, é frequentemente representado pela romã, que, recebendo suas propriedades da árvore, pode ser chamada de virtude da árvore; parece também ser o seu dom, que ela oferece ao homem; e é o seu fruto, pois é comida para deleitar o paladar humano. E, finalmente, ela é, por assim dizer, a glória e a bem-aventurança da árvore, pois traz consigo uma coroa e um diadema.

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. VII, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

SORRISOS DE DEUS (III)

(Beato Marcel Callo, falecido em 1945)

(Beato Odoardo Focherini, falecido em 1944)

(Santa Maria Troncatti, falecida em 1969)

(Beato Giuseppe 'Pino' Puglisi, falecido em 1993)

(Beato Edward Poppe, falecido em 1924)

(Santa Dulce dos Pobres, falecida em 1992)

(Beato János Brenner, falecido em 1957)

(Beata Maria Felícia de Jesus Sacramentado, falecida em 1959)

sábado, 5 de setembro de 2026

AS VINHAS DE DEUS (XI)

 

71. Todos devem servir à caridade... É dela que devemos aprender a devida ordem no exercício dos conselhos; pois a uns ela prescreverá a castidade, e não a pobreza; a outros, a obediência, e não a castidade; a alguns, o jejum, mas não a esmola; a outros, a esmola, mas não o jejum; a alguns, a solidão, e não o cuidado das almas; e a outros, o convívio com o mundo, e não a solidão. Enfim, ela é a corrente sagrada pela qual se torna fecundo o jardim da Igreja; e, embora ela própria tenha uma única cor, sem cor determinada, as flores que produz têm, cada qual, a sua cor distinta. Torna os mártires mais rubros que a rosa, as virgens mais brancas que o lírio; a uns dá o delicado violeta da mortificação, a outros as flores de laranjeira do matrimônio, empregando de diversos modos os santos conselhos para a perfeição das almas que têm a felicidade de viver sob a sua direção.

72. Nazaré significa flor. Oh! quão bem esta cidade nos representa a vida religiosa! Pois o que é a vida religiosa senão uma casa, ou uma cidade, densamente coberta de flores, uma vez que todas as coisas que fazemos - quando vivemos segundo suas regras e estatutos - são outras tantas flores? Nossas mortificações, humilhações, orações - numa palavra, todos os exercícios que praticamos - que são eles senão atos de virtude, semelhantes a tantas belas flores que exalam um perfume suavíssimo diante da Divina Majestade? Podemos, portanto, dizer com razão que a vida religiosa é um jardim todo semeado de flores, muito agradável à vista e muito salutar para aqueles que desejam respirar a sua fragrância.

73. Assim como a oliveira, plantada junto à videira, comunica-lhe o seu sabor, também a caridade comunica a sua perfeição às outras virtudes com as quais entra em contato. Mas é igualmente verdade que, se a oliveira for enxertada na videira, não somente lhe comunica o sabor, mas também lhe transmite algo de sua própria seiva. Não vos contenteis, portanto, em possuir a caridade juntamente com o exercício das diversas virtudes; cuidai para que seja pela caridade e por meio dela que pratiqueis essas virtudes, de modo que elas possam, com toda a justiça, ser atribuídas à própria caridade.

74. Todas as flores amarelas e, sobretudo o girassol, não somente se alegram à vista do sol, mas seguem, com amorosa fidelidade, a atração de seus raios, contemplando o sol e voltando-se para ele desde o seu nascer até o seu ocaso. Assim também todas as virtudes recebem um novo esplendor e uma dignidade excelente pela presença do amor divino. Mas a fé, a esperança, o temor de Deus, a penitência, a piedade e todas as demais virtudes que, por sua própria natureza, tendem particularmente para Deus e para a sua honra, não somente recebem a impressão do amor divino, pela qual são elevadas a um alto valor, mas inclinam-se inteiramente para Ele, associando-se a Ele, seguindo-o e servindo-o em todas as ocasiões... Isso nos mostra que essas virtudes são muito preciosas e que, quando exercidas num coração que possui o amor de Deus, tornam-no mais fecundo e santo do que as outras virtudes que, por sua própria natureza, não possuem tão grande afinidade com o amor divino.

75. Nossas ações recebem o nome e a espécie das virtudes particulares das quais procedem; mas da santa caridade recebem o sabor de sua santidade, pois a caridade é a raiz e a fonte de toda santidade no homem. E assim como o tronco comunica o seu sabor ao fruto produzido pelo enxerto, de tal maneira que cada fruto conserva ainda a qualidade natural do enxerto do qual procede, assim também a caridade infunde a sua própria excelência e dignidade nos atos de todas as demais virtudes; mas deixa, contudo, a cada uma delas o valor e a bondade particulares que possui por sua própria natureza.

76. Não é de admirar que o santo amor, sendo o rei das virtudes, nada tenha, grande ou pequeno, que não seja amável; assim como o bálsamo, príncipe das árvores aromáticas, não possui casca nem folha que não seja perfumada. E que poderia o amor produzir que não fosse digno de amor e não tendesse para o amor?

77. Todas as obras virtuosas de uma alma que é amiga de Deus são consagradas a Deus. Pois, quando um coração se entrega, não entrega também tudo aquilo que lhe pertence? Quando alguém dá uma árvore, não dá juntamente suas folhas, suas flores e seus frutos? 'O justo florescerá como a palmeira; crescerá como o cedro do Líbano. Plantados na casa do Senhor, florescerão nos átrios da casa de nosso Deus' (Sl 91,13-14).

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. VII, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

SOBRE OS QUATRO TIPOS DE MONGES

São Bento descreve quatro tipos de monges e considera dois tipos dignos de consideração: os cenobitas, que vivem em um mosteiro sob a autoridade de um abade, e os eremitas. São Bento escreveu sua regra para os cenobitas [que ele chamou de fortissimum genus ou 'a espécie mais forte'], mas não excluiu a possibilidade de monges idosos e experientes, veteranos dos 'caminhos árduos e tortuosos pelos quais caminhamos rumo a Deus', retirarem-se para a solidão e se dedicarem ao combate espiritual individual.


É bem sabido que há quatro espécies de monges. A primeira é a dos cenobitas, isto é, daqueles que vivem em mosteiros, sob uma Regra e um Abade.

A segunda é a dos anacoretas ou eremitas, isto é, daqueles que, não já no primeiro fervor da vida religiosa, mas depois de longa provação no mosteiro, aprenderam, com o auxílio e a experiência de muitos, a combater contra o demônio; e que, saindo bem armados das fileiras de seus irmãos para o combate solitário do deserto, são capazes, sem o apoio de outros, de lutar, pela força de seu próprio braço e com o auxílio de Deus, contra os vícios da carne e os maus pensamentos.

Uma terceira e perniciosíssima espécie de monges é a dos sarabaítas, que não foram provados por regra alguma nem pela experiência de um mestre, como o ouro no cadinho; mas, sendo moles como o chumbo e ainda servindo ao mundo por suas obras, mentem a Deus por meio da tonsura. Estes, em grupos de dois ou três, ou mesmo sozinhos, sem pastor, encerrados não nos apriscos do Senhor, mas nos seus próprios, fazem para si mesmos uma lei segundo o prazer de seus próprios desejos: tudo aquilo que julgam conveniente ou escolhem fazer, chamam santo; e aquilo de que não gostam, consideram ilícito.

A quarta espécie de monges é a daqueles chamados giróvagos, que passam toda a vida vagueando por diversas províncias, hospedando-se em diferentes celas por três ou quatro dias de cada vez; sempre errantes, sem estabilidade, entregues aos próprios prazeres e às ciladas da gula, e em tudo piores que os sarabaítas. Da miserabilíssima vida destes é melhor nada dizer do que falar.

Excertos da obra Regra de São Bento (Regula Sancti Benedicti), escrita por Bento de Núrsia no século VI, Capítulo I - 'Das espécies de monges' (De generibus monachorum). 

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

ETYMOLOGIAE (IV)

 

📌Os Apóstolos (De apostolis)

1. Apóstolo (apostolus) significa 'aquele que é enviado', pois é isso que o próprio nome indica. Assim como em grego ἄγγελος significa 'mensageiro' (nuntius) em latim, assim também 'aquele que é enviado' é chamado, em grego, de 'apóstolo' (apostolus), pois Cristo os enviou para difundir o Evangelho por todo o mundo. Alguns deles penetraram até a Pérsia e a Índia, ensinando às nações e realizando grandes e incríveis milagres em nome de Cristo, a fim de que, por meio daqueles sinais e prodígios que confirmavam sua pregação, os homens acreditassem naquilo que os Apóstolos diziam e haviam visto. A maior parte deles recebe, dessas atividades, a explicação de seus nomes.

2. Pedro (Petrus) recebeu seu nome de 'pedra' (petra), isto é, de Cristo, sobre quem a Igreja está fundada. Com efeito, petra não recebe seu nome de Petrus, mas Petrus de petra, assim como 'Cristo' não é assim chamado a partir de 'cristão', mas 'cristão' a partir de 'Cristo'. Por isso o Senhor diz: 'Tu és Pedro, e sobre esta pedra (petra) edificarei a minha Igreja' (Mt 16,18), porque Pedro havia dito: 'Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo' (Mt 16,16). Então o Senhor lhe disse: 'Sobre esta pedra' que proclamaste 'edificarei a minha Igreja', pois 'a pedra era Cristo' (1Cor 10,4) e sobre esse fundamento o próprio Pedro também foi edificado.

3. Foi chamado Cefas porque foi constituído como cabeça (caput) dos apóstolos, pois κεφαλή em grego significa 'cabeça' e Cefas é o nome sírio de Pedro.

4. Simão 'Bar-Jonas', em nossa língua, significa 'filho da pomba', sendo um nome formado tanto do siríaco quanto do hebraico; pois Bar, na língua siríaca, significa 'filho' e 'Jonas', em hebraico, significa 'pomba'; assim, Bar-Jonas é composto de elementos das duas línguas.

5. Alguns entendem simplesmente que Simão, isto é, Pedro, é filho de João, por causa daquela pergunta (João 21,15): 'Simão, filho de João, tu me amas?' (Jo 21,15) e alguns consideram que o nome foi corrompido por um erro dos copistas, de modo que se escreveu Bar-Iona em lugar de Bar-Iohannes, isto é, 'filho de João', com a supressão de uma sílaba. 'Joana' significa 'graça do Senhor'.

6. Assim, Pedro possuía três nomes: Pedro, Cefas e Simão Bar-Jonas. Além disso, 'Simão', em hebraico, significa 'aquele que escuta'.

7. Saulo, na língua hebraica, significa 'tentação', porque, a princípio, ele esteve envolvido na provação da Igreja, pois era perseguidor; daí ter possuído esse nome enquanto perseguia os cristãos.

8. Posteriormente, mudado o nome, de Saulo fez-se Paulo, que é interpretado como 'o admirável' ou 'o escolhido'. Admirável, porque realizou muitos sinais, ou porque, do Oriente ao Ocidente, pregou o Evangelho de Cristo a todas as nações.

9. Escolhido, como diz o Espírito Santo nos Atos dos Apóstolos: 'Separai-me Barnabé e Paulo para a obra para a qual os escolhi' (At 13,2). Além disso, na língua latina, Paulo (Paulus cf. paulus, 'pequeno') recebe seu nome de 'pequeno', razão pela qual ele próprio diz: 'Pois eu sou o menor de todos os apóstolos' (1Cor 15,9). Assim, quando era Saulo, era orgulhoso e altivo; quando Paulo, humilde e pequeno.

10. Por isso dizemos: 'daqui a pouco (paulo) te verei', isto é, depois de um breve espaço de tempo. E, porque se fez pequeno, ele próprio diz (cf. 1 Coríntios 15,8): 'Pois eu sou o último [de todos] os apóstolos' (1Cor 15,8) e ainda: 'A mim, o menor de todos os santos' (Ef 3,8). Assim, tanto Cefas quanto Saulo foram chamados por um nome mudado, para que fossem verdadeiramente novos até mesmo em seus nomes, à semelhança de Abraão e Sara.

11. André, irmão de Pedro segundo a carne foi seu coerdeiro segundo a graça; de acordo com sua etimologia hebraica, 'André' significa 'o belo' ou 'aquele que responde'; além disso, na língua grega, é chamado 'o viril', a partir da palavra que significa 'homem' (cf. grego ἀνήρ, genitivo ἀνδρός, 'homem').

12. João, com certa presciência profética, recebeu merecidamente seu nome, pois este significa 'aquele em quem está a graça' ou 'graça do Senhor'. Com efeito, Jesus o amou mais plenamente que aos outros apóstolos.

13. Tiago, filho de Zebedeu, recebeu do seu pai o seu sobrenome; deixando o seu pai, seguiu com seu irmão João o verdadeiro Pai. Estes irmãos foram chamados Boanerges que significa 'Filhos do Trovão' (Mc 3,17), pela força e grandeza de sua fé. Este Tiago é o filho de Zebedeu, irmão de João que, segundo se sabe, foi morto por Herodes depois da Ascensão do Senhor.

14. Tiago de Alfeu recebe esse sobrenome para ser distinguido do outro Tiago, chamado filho de Zebedeu, pois este segundo é filho de Alfeu. Assim, ambos receberam seus sobrenomes de seus pais.

15. Este é Tiago Menor, que no Evangelho é chamado irmão do Senhor, porque Maria, esposa de Alfeu, era irmã da mãe do Senhor; e o evangelista João deu àquela Maria o sobrenome 'de Cleopas', a partir do nome de seu pai, atribuindo-lhe esse nome quer pela nobreza de sua família, quer por alguma outra razão. Além disso, 'Alfeu', na língua hebraica, significa 'o milésimo' ou, em latim, 'o instruído'.

16. Filipe significa 'boca das lâmpadas' [a luz recebida de Cristo] ou 'boca das mãos' [a pregação dessa luz]. Tomé significa 'o abismo' ou 'o gêmeo', razão pela qual, em grego, também é chamado Dídimo. Bartolomeu, 'filho daquele que sustenta as águas' ou 'filho daquele que me sustenta'. Este nome é siríaco, não hebraico.

17. 'Mateus', em hebraico, significa 'aquele que foi agraciado'. Este mesmo homem também foi chamado Levi, por causa da tribo da qual descendia. Além disso, em latim recebeu o nome de 'publicano' em razão de seu ofício, pois foi escolhido dentre os publicanos e chamado ao apostolado.

18. Simão, o Cananeu, para ser distinguido de Simão Pedro, recebe seu nome da cidade galileia de Caná, onde o Senhor transformou a água em vinho. É este que outro evangelista designa como 'o zelota' pois, com efeito, 'Caná' significa 'zelo'.

19. Judas de Tiago, que em outro lugar é chamado Lebeu, possui um nome simbólico derivado da palavra que significa 'coração', que, no diminutivo, podemos traduzir como 'pequeno coração'. Outro evangelista chama este Judas de Tadeu (Mt 10,3). A história eclesiástica relata que ele foi enviado a Edessa, ao rei dos Abgaros.

20. Judas Iscariotes recebeu seu nome ou da cidade em que nasceu, ou da tribo de Issacar, trazendo em seu próprio nome, como certo presságio do futuro, a indicação de sua condenação; pois 'Issacar' significa 'pagamento', significando assim o preço recebido pelo traidor, pelo qual vendeu o Senhor, conforme está escrito em relação ao seu pagamento, 'as trinta moedas de prata, o preço em que fui avaliado por eles (Mt 27,9).

21. Matias, que é considerado o único entre os apóstolos a não possuir sobrenome, significa 'aquele que foi agraciado' [mesma etimologia de Mateus], devendo-se entender: 'em lugar de Judas', pois foi eleito pelos apóstolos para ocupar o lugar de Judas, quando lançaram sortes para decidir entre dois homens.

22. Marcos significa 'elevado em seu mandato', especialmente por causa do Evangelho do Altíssimo que pregou.

23. Lucas significa 'aquele que se levanta' ou 'aquele que eleva' porque, depois dos outros, elevou a pregação do Evangelho.

24. Barnabé significa 'filho do profeta' ou 'filho da consolação'.

(Excertos da obra 'The Etymologies of Isidore of Seville' (Barney et al. 2006), tratado etimológico de Santo Isidoro de Sevilha [560 - 636], sobre o conhecimento da Antiguidade Clássica inserido no contexto de uma visão cristã do mundo)

terça-feira, 1 de setembro de 2026

VERSUS: RIQUEZA X POBREZA

Meus irmãos, quando digo que Deus não inclina os seus ouvidos para o rico, não deduzais que Deus não atende os que possuem ouro e prata, criados e patrimônios. Se eles nasceram nessas condições e ocupam esse lugar na sociedade, que se lembrem desta palavra do apóstolo Paulo: 'Recomendo aos ricos deste mundo que não sejam orgulhosos' (1Tim 6,17).

Aqueles que não são orgulhosos são pobres diante de Deus, que inclina os seus ouvidos para os pobres e os necessitados (Sl 85,1). Com efeito, eles sabem que a sua esperança não está no ouro nem na prata, nem nas coisas de que gozam durante algum tempo.

Basta que as riquezas não os levem à perdição e que, se elas nada podem para os salvar, ao menos não lhes sirvam de obstáculo. Quando um homem despreza tudo quanto alimenta o seu orgulho, é um pobre de Deus; e Deus inclina-se para ele, porque conhece os tormentos do seu coração.

Não há dúvida, irmãos, de que o pobre Lázaro, que permanecia, coberto de chagas, à porta do rico, foi levado pelos anjos ao seio de Abraão; é isto que lemos e nisto que acreditamos. Quanto ao rico, que se vestia de púrpura e de linho fino e festejava esplendidamente todos os dias, foi precipitado nos tormentos do inferno. Terá sido, realmente, o mérito da sua indigência que valeu ao pobre ter sido levado pelos anjos? E o rico terá sido entregue aos tormentos do inferno por causa da sua opulência? Não, mas ao pobre foi a humildade que o dignificou, e ao rico foi o orgulho que o condenou.

(Santo Agostinho, excertos da obra 'Discursos sobre os salmos')


As coisas que possuímos não são nossas. Deus deu-no-las para que as cultivemos e quer que as tornemos frutuosas e úteis. Prescindi sempre, portanto, de uma parte dos vossos meios e dai-a aos pobres de bom coração. É verdade que Deus vo-lo devolverá, não só no outro mundo, mas também já neste, porque não há coisa que mais nos faça prosperar do que a esmola; mas, enquanto esperais que Deus vo-lo torne, estareis já mais pobres daquilo que destes, e como é santo e rico o empobrecimento que advém de se ter dado esmola!

Amai os pobres e a pobreza, porque por este amor tornar-vos-eis verdadeiramente pobres, tal como está dito nas Escrituras: tornamo-nos naquilo que amamos (cf Os 9,10)... Portanto, se amais os pobres, sereis verdadeiramente participantes da sua pobreza, e pobres como eles. Assim, se amais os pobres, ide com frequência para o meio deles: tende prazer em os receber em vossas casas e em visitá-los; conversai voluntariamente com eles, ficai felizes por eles se aproximarem de vós na igreja, na rua ou em qualquer outro local. Sede pobres de língua para com eles, falando-lhes como amigo, mas sede ricos de mãos, largamente lhes dando dos vossos bens, pois vós os tendes em muito maior abundância.

Quereis fazer mais, ainda? Tornai-vos servos dos pobres; ide servi-los com as vossas próprias mãos e a expensas vossas. Maior triunfo há neste serviço do que o que há na realeza.

(São Francisco de Sales, excertos da obra 'Introdução à vida devota')

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

SORRISOS DE DEUS (II)

(Venerável Fulton Sheen, a ser beatificado em setembro/2026, falecido em 1979)

(Santa Teresa de Lisieux, falecida em 1897)

(Beata Sandra Sabattini, falecida em 1984)

(São João Bosco, falecido em 1888)

(Beata Alexandrina da costa, falecida em 1955)

(São Alberto Hurtado, falecido em 1952)

(Beata Chiara Badano, falecida em 1990)

(Santa Teresa de Calcutá, falecida em 1997)

sábado, 29 de agosto de 2026

AS VINHAS DE DEUS (X)

 

64. Um grande erro em que muitas pessoas, especialmente as mulheres, caem frequentemente é acreditar que o serviço que prestamos a Deus sem qualquer gosto ou ternura de coração é menos agradável à sua Divina Majestade; quando, pelo contrário, as nossas ações são como as rosas: embora sejam mais belas quando frescas, depois de secas exalam um perfume mais intenso e suave. Do mesmo modo, as nossas ações realizadas com ternura de coração são mais agradáveis a nós, que buscamos apenas a nossa própria satisfação; contudo, quando praticadas na aridez, possuem maior mérito e valor aos olhos de Deus.

65. O fogo contemplado por Moisés na montanha representava o santo amor. E, assim como aquelas chamas eram alimentadas entre os espinhos, também o exercício do amor sagrado se conserva mais perfeitamente em meio às tribulações do que na paz e no contentamento.

66. Vejo que todas as estações se encontram em vossa alma: ora sentis o inverno da esterilidade, das distrações, do desgosto e do cansaço; ora, os orvalhos do mês de maio, acompanhados do perfume das santas florzinhas; e, em outros momentos, o ardor do verão, no desejo de agradar ao nosso bom Deus. Resta apenas o outono, do qual, como dizeis, não vedes muitos frutos. Muitas vezes, porém, ao debulharmos o trigo e prensarmos as uvas, descobrimos que produziram mais do que prometiam a colheita e a vindima... Prossigamos sempre com um passo tranquilo e sereno; contanto que tenhamos uma vontade boa e determinada, não poderemos deixar de caminhar bem.

67. O manjericão, o alecrim, a manjerona, o hissopo, o cravo, a canela, o limão e o almíscar, reunidos e conservados inteiros, formam um perfume muito agradável pela mistura de seus diversos aromas; mas esse perfume não é tão excelente quanto a água deles destilada, na qual a suavidade de todos esses ingredientes se combina mais perfeitamente, formando uma essência primorosa, que deleita os sentidos de maneira muito mais intensa do que quando suas fragrâncias são aspiradas separadamente. Do mesmo modo, o amor pode ser cultivado nas uniões em que se misturam as afeições corporais e espirituais, mas nunca alcança tamanha perfeição como quando somente as almas e os corações, desprendidos de toda afeição sensível, se unem num amor puramente espiritual. Pois a fragrância das afeições assim unidas não é apenas mais suave e excelente, mas também mais viva, mais eficaz e mais sólida.

68. A caridade compreende os sete dons do Espírito Santo e assemelha-se a uma bela flor-de-lis, que possui seis pétalas mais brancas do que a neve e, no centro, graciosos estames dourados. O dom da sabedoria produz em nossos corações um amoroso gosto e deleite na bondade do Pai, nosso Criador; na misericórdia do Filho, nosso Redentor; e na suavidade do Espírito Santo, nosso Santificador.

69. Somos obrigados, para falar de Deus de algum modo, a empregar grande número de nomes, dizendo que Ele é bom, sábio, onipotente, verdadeiro, justo, santo, infinito, imortal e invisível! E, de fato, Deus é tudo isso conjuntamente, porque é mais do que tudo isso; isto é, Ele possui todas essas perfeições de maneira tão pura, tão excelente e tão sublime que, numa única e simples perfeição, encerra a virtude, a força e a excelência de todas as perfeições... Ó abismo das perfeições divinas, quão admirável sois por possuirdes em vós, numa única perfeição, a excelência de todas as perfeições - e isso de maneira tão sublime que ninguém, senão vós mesmo, pode compreendê-lo!

70. O sol contempla uma rosa, juntamente com milhares de milhões de outras flores, com a mesma atenção que lhe dedicaria se contemplasse somente aquela rosa. Assim também Deus, embora ame um número incontável de outras almas, não derrama sobre uma única alma menos amor do que derramaria se amasse somente a ela; pois a força do seu amor não diminui conforme a multidão dos raios que difunde, mas permanece sempre plena em sua própria imensidade.

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. VI/VII, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

SORRISOS DE DEUS (I)

(São Padre Pio, falecido em 1968)

(São Carlo Acutis, falecido em 2006)

(Serva de Deus Anne-Gabrielle Caron, falecida em 2010)

(Santa Gianna Beretta Molla, falecida em 1962)

(São Pier Giorgio Frassati, falecido em 1925)

(São Rafael Arnaiz Barón, falecido em 1938)

(Santa Bernadete Soubirous, falecida em 1879)

(São Josemaria Escrivá, falecido em 1975)