terça-feira, 30 de junho de 2026

A SÓS COM DEUS (II)


Jesus me disse: Eu sou a Vida e quero dá-la a ti; e conduz-me à sua morada para que viva nEle mesmo e participe dessa vida divina, cada vez mais intensa, tornando-me por ela, de certo modo, participante da natureza divina. Não é soberba, ó meu Deus, nem presunção, nem temerário atrevimento deste pobre coração pensar assim, desejar e esperar viver da vossa própria vida ainda neste exílio. 

Seria soberba incompreensível, se tal pensamento tivesse brotado de mim; mas fostes Vós quem me ensinastes como Pai e quem me ordenastes. Quero, humilde e obediente, seguir-vos; quero, submisso e fiel, oferecer-me inteiramente à vossa santa vontade e, por ela, alcançar tão grande felicidade.

Certamente, este viver em Deus não é fácil, nem sequer possível às nossas pequenas forças. Grandes obstáculos tendem a nos dificultar e o principal obstáculo somos nós mesmos; somos nós que os erguemos.

Para que este belo ideal e desejo de viver em Deus se realize em mim, e para que eu possa receber em plenitude a vida de Deus, é necessário que antes faça desaparecer todos os obstáculos, destrua e arranque tudo quanto em mim é miséria moral, fraqueza e maldade; é preciso por fim ao meu amor-próprio, reconhecer a minha impotência e compreender que é somente Deus - exigindo, contudo, a minha cooperação - quem me comunica a sua vida e a sua santidade. Somente negando-me deste modo e permanecendo vigilante, cheio de esperança em Deus, preparar-me-ei para receber a beleza que Deus deseja comunicar-me.

Ó meu Deus, que quereis dar-me a vossa própria vida! Fazei que eu me prepare para recebê-la, que eu a peça e vos manifeste o meu desejo de a possuir. Fazei que eu a queira de verdade; que queira eficazmente; que queira com humildade e com uma vontade firme e resoluta. Mas, por muito que eu o queira, será possível que eu possa participar da vida de Deus? Essa Vida está acima das minhas forças; porém Deus é meu Pai e me diz por Jesus Cristo: 'Quero que sejas um comigo; quero comunicar-te a minha vida. Não ponhas obstáculos; deixa-te reduzir ao nada de ti mesmo para que Eu possa dar-te a verdadeira vida'.

[Excertos da obra 'Com Dios a Solas - Un Carmelita Descalzo', do Pe. Valentin de San Jose (1896 - 1989)]

segunda-feira, 29 de junho de 2026

29 DE JUNHO - FESTA DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO

  

'Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo' (Mt 16,16)

'Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé' (II Tm 4,7)

Excertos da Homilia do Papa João Paulo II, na Solenidade de São Pedro e São Paulo, em 29/06/2000

1.'E vós, quem dizeis que Eu sou?' (Mt 16, 15). Jesus dirige aos discípulos esta pergunta acerca da sua identidade, enquanto se encontra com eles na Alta Galileia. Muitas vezes acontecera que foram eles a interrogar Jesus; agora é Ele quem os interpela. A sua pergunta é específica e espera uma resposta. Simão Pedro toma a palavra em nome de todos: 'Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo' (Mt 16, 16). A resposta é extraordinariamente lúcida. Nela se reflete de modo perfeito a fé da Igreja. Nela nos refletimos também nós. De modo particular, reflete-se nas palavras de Pedro, o Bispo de Roma, por vontade divina o seu indigno sucessor.

2. 'Tu és o Cristo!'. À confissão de Pedro, Jesus replica: 'És feliz, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne nem o sangue quem to revelou, mas o Meu Pai que está nos céus' (Mt 16, 17).

És feliz, Pedro! Feliz, porque esta verdade, que é central na fé da Igreja, não podia emergir na tua consciência de homem, senão por obra de Deus. 'Ninguém', disse Jesus, 'conhece o Filho senão o Pai, como ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar' (Mt 11, 27). Reflitamos sobre esta página evangélica particularmente densa: o Verbo encarnado revelara o Pai aos seus discípulos; agora é o momento em que o próprio Pai lhes revela o seu Filho unigênito. Pedro acolhe a iluminação interior e proclama com coragem: 'Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo!'

Estas palavras nos lábios de Pedro provêm do profundo do mistério de Deus. Revelam a verdade íntima, a própria vida de Deus. E Pedro, sob a ação do Espírito divino, torna-se testemunha e confessor desta soberana verdade. A sua profissão de fé constitui assim a sólida base da fé da Igreja: 'Sobre ti edificarei a minha Igreja' (Mt 16, 18). Sobre a fé e a fidelidade de Pedro está edificada a Igreja de Cristo.

3. 'O Senhor assistiu-me e deu-me forças a fim de que a palavra fosse anunciada por mim e os gentios a ouvissem' (2 Tm 4, 17). São palavras de Paulo ao fiel discípulo Timóteo: escutamo-las na Segunda Leitura. Elas dão testemunho da obra nele realizada pelo Senhor, que o tinha escolhido como ministro do Evangelho, 'alcançando-o' na via de Damasco (Fl 3, 12). Envolvido numa luz fulgurante, o Senhor se lhe havia apresentado, dizendo:  'Saulo, Saulo, por que Me persegues?' (At 9,4), enquanto uma força misteriosa o lançava por terra.

'Quem és Tu, Senhor?', perguntara Saulo. 'Eu sou Jesus, a quem tu persegues!'. Foi esta a resposta de Cristo. Saulo perseguia os seguidores de Jesus e Jesus fez-lhe tomar consciência de que era Ele mesmo a ser perseguido neles. Ele, Jesus de Nazaré, o Crucificado, que os cristãos afirmavam ter ressuscitado. De Damasco, Paulo iniciará o seu itinerário apostólico, que o levará a defender o Evangelho em tantas partes do mundo então conhecido. O seu impulso missionário contribuirá assim para a realização do mandato de Cristo aos Apóstolos: 'Ide, pois, ensinai todas as nações...' (Mt 28, 19).

4. Caríssimos Irmãos no Episcopado vindos para receber o Pálio, a vossa presença põe em eloquente ressalto a dimensão universal da Igreja, que derivou do mandato do Senhor: 'Ide... ensinai a todas as nações' (Mt 28, 19). Todas as vezes que vestirdes estes pálios, recordai, irmãos caríssimos que, como pastores, somos chamados a salvaguardar a pureza do Evangelho e a unidade da Igreja de Cristo, fundada sobre a 'rocha' da fé de Pedro. A isto nos chama o Senhor; esta é a nossa irrenunciável missão de guias previdentes do rebanho que o Senhor nos confiou.

5. A plena unidade da Igreja! Sinto ressoar em mim a recomendação de Cristo. Deus nos conceda chegarmos quanto antes à plena unidade de todos os crentes em Cristo. Obtenhamos este dom dos Apóstolos Pedro e Paulo, que a Igreja de Roma recorda neste dia, no qual se faz memória do seu martírio e, por isso, do seu nascimento para a vida em Deus. Por causa do Evangelho, eles aceitaram sofrer e morrer e se tornaram partícipes da ressurreição do Senhor. A sua fé, confirmada pelo martírio, é a mesma fé de Maria, a Mãe dos crentes, dos Apóstolos,  dos Santos  e Santas de  todos  os séculos.

Hoje a Igreja proclama de novo a sua fé. É a nossa fé, a imutável fé da Igreja em Jesus, único Salvador do mundo; em Cristo, o Filho de Deus vivo, morto e ressuscitado por nós e para a humanidade inteira.

São Pedro e São Paulo, rogai por nós! 

domingo, 28 de junho de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

              

'De todos os temores me livrou o Senhor Deus' (Sl 33)

Primeira Leitura (At 12,1-11) - Segunda Leitura (2Tm 4,6-8.17-18) - Evangelho (Mt 16,13-19)

  28/06/2026 - SOLENIDADE DOS APÓSTOLOS SÃO PEDRO E SÃO PAULO

AS COLUNAS DA IGREJA

Neste domingo, a liturgia católica celebra a Solenidade dos Apóstolos São Pedro e São Paulo, primícias da fé, fundamentos da Igreja. De toda a fundamentação bíblica do primado de Pedro, é em Mt 16, 18-19 que aflora, mais cristalina do que nunca, a água viva que brota e transborda das Palavras Divinas as primícias do papado e da Igreja, nascidos juntos com São Pedro: 'Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la' (Mt 16, 18). Esta será a Igreja Militante, a Igreja Temporal, A Igreja da terra, obra temporária a caminho da Igreja Eterna do Céu. Mas ligada a Pedro e aos sucessores de Pedro, sumos pontífices herdeiros da glória, poder e realeza de Cristo.

(Cristo entrega as chaves a São Pedro - Basílica de Paray-le-Monial, França)

E Jesus vai declarar, em seguida e sem condicionantes, o poder universal e sobrenatural da Santa Igreja Católica Apostólica e Romana: 'Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado nos céus' (Mt 16, 19). Ligado ou desligado. Poder absoluto, domínio universal, primado da verdade, Cátedra de Pedro. Na terra árida de algum ermo qualquer da 'Cesareia de Felipe', erigiu-se naquele dia, pela Vontade Divina, nas sementeiras da humanidade pecadora, a Santa Igreja, a Videira Eterna.

Com São Paulo, a Igreja que nasce, nasce com um gigante do apostolado e se afirma como escola de salvação universal. Eis aí a síntese do espírito cristão levado à plenitude da graça: Paulo se fez 'outro Cristo' em Roma, na Grécia, entre os gentios do mundo. No apostolado cristão de São Paulo, está o apostolado cristão de todos os tempos; a síntese da cristandade nasceu, cresceu e se moldou nos acordes pautados em suas epístolas singulares proferidas aos Tessalonicenses, em Éfeso ou em Corinto. Síntese de fé, que será expressa pelas próprias palavras de São Paulo: 'Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé' (2Tm 4,7).

(São Paulo Apóstolo - Basílica de Alba, Itália)

São Pedro foi o patriarca dos bispos de Roma, São Paulo foi o patriarca do apostolado cristão. Homens de fé e coragem extremadas, foram as colunas da Igreja. São Pedro morreu na cruz, São Paulo morreu por decapitação pela espada. Mártires, percorreram ambos os mesmos passos da Paixão do Senhor. E se ergueram juntos na Glória de Deus pela Ressurreição de Cristo.

sábado, 27 de junho de 2026

AS VINHAS DE DEUS (I)

 

1. Estou prestes a dizer a todos os que me ouvem que suas almas são a vinha de Deus, na qual a fé é a cisterna, a esperança é a torre, a santa caridade é o lagar, e a lei de Deus é a cerca que as separa dos infiéis... Tua vontade é a tua vinha; as inspirações divinas derramadas por Deus em tua alma são a cisterna; a santa castidade é a torre que, como a de Davi, deve ser feita de marfim; a obediência, pela qual todas as tuas ações se tornam meritórias, é o lagar. Que Deus preserve esta vinha que Ele plantou com as suas próprias mãos. Que Ele encha a cisterna com as abundantes águas da graça divina. Que proteja sua torre; que seu lagar, sob a pressão de sua mão, transborde do vinho bom; que conserve sempre fechada e espessa a bela cerca com que rodeou a sua vinha; e que seus santos anjos sejam os vinhateiros imortais.

2. Deus permita que floresças, ó bela planta, filha do céu; Deus permita que teus frutos cheguem à maturidade; e que Ele os preserve, dia e noite, em sua plena maturação, dos ventos cruéis que lançam ao chão os frutos da terra, onde os animais selvagens e famintos os devoram.

3. O anseio pela santidade deve ser semelhante às laranjeiras da costa marítima de Gênova, que permanecem cobertas de frutos, flores e folhas durante quase todo o ano. Pois o teu desejo deve amadurecer diariamente em frutos, em cada oportunidade de praticar o bem que se apresentar, sem jamais deixar de aspirar a novas ocasiões de progresso espiritual. Essas aspirações são as flores da árvore; suas folhas são o frequente reconhecimento de tua própria fraqueza, o qual preserva tanto as tuas boas obras quanto os teus bons desejos.

4. Nossos corações são árvores; os afetos e as paixões são seus ramos; e as obras e ações são seus frutos. O coração é bom quando possui bons afetos, e os afetos são bons quando produzem ações boas e santas. Se a doçura, a ternura e as consolações nos tornam mais humildes, pacientes, mansos, caridosos e compassivos para com o próximo; mais fervorosos na mortificação de nossas concupiscências e más inclinações; mais constantes em nossos exercícios religiosos; mais dóceis nas mãos de nossos superiores; mais simples em nosso modo de vida, então, sem dúvida, elas vêm de Deus. Mas se essa doçura é apenas para nós mesmos, tornando-nos curiosos, ásperos, excessivamente melindrosos, impacientes, obstinados, orgulhosos, presunçosos e duros de coração para com o próximo; se nos leva a acreditar que já somos santos e, por isso, não precisamos mais de direção nem de correção, então, certamente, essas consolações são falsas e perniciosas. Uma árvore boa produz bons frutos.

5. No princípio, Deus ordenou às plantas que produzissem frutos, cada uma segundo a sua espécie; da mesma forma, ordena a todos os cristãos, que são as plantas vivas da sua Igreja, que produzam os frutos da devoção, cada qual de acordo com sua condição e vocação.

6. Olhai as abelhas sobre o tomilho: elas encontram ali um suco amargo, mas, ao sugá-lo, transformam-no em mel. Assim também as almas verdadeiramente devotas transformam as amarguras, tribulações e mortificações da vida em doçura espiritual, porque o amor de Deus converte aquilo que naturalmente seria penoso em ocasião de alegria e crescimento interior.

7. O açúcar adoça os frutos ainda verdes e corrige tudo o que há de áspero ou nocivo nos frutos maduros. Ora, a devoção é o verdadeiro açúcar espiritual: ela retira das mortificações a sua amargura e das consolações todo o perigo. Ela anima os pobres e modera os ricos; suaviza a miséria dos oprimidos e a insolência dos favorecidos; alivia a tristeza dos que vivem na solidão e as discórdias dos que vivem em sociedade... Se a caridade é o leite, a devoção é sua nata; se a caridade é uma planta, a devoção é sua flor; se é uma pedra preciosa, a devoção é seu brilho; se é um bálsamo precioso, a devoção é seu perfume - um perfume de suavidade que consola os homens e faz os anjos estremecerem de alegria.

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 1coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

sexta-feira, 26 de junho de 2026

26 DE JUNHO - SÃO JOSEMARIA ESCRIVÁ

    


São Josemaria Escrivá de Balaguer nasceu em 09 de janeiro de 1902 em Barbastro, Espanha. Em 02 de outubro de 1928, durante um retiro espiritual em Madrid, concebeu e fundou o OPUS DEI, atualmente prelazia pessoal da Igreja Católica. A missão específica do Opus Dei é promover, entre homens e mulheres de todo o âmbito da sociedade, um compromisso pessoal de seguir a Cristo, de amor a Deus e ao próximo e de procura da santidade na vida cotidiana. Faleceu em Roma em 26 de junho de 1975. Foi beatificado em 17 de maio de 1992 e canonizado, pelo Papa João Paulo II na Praça de São Pedro, em 06 de outubro de 2002. Sua obra mais conhecida é Caminho, escrita como orientações espirituais em diferentes parágrafos. Outras obras do autor são Forja, Sulco e É Cristo que Passa.

A CRUZ NÃO É UM CONSOLO FÁCIL

'A doutrina cristã sobre a dor não é um programa de fáceis consolações. Começa logo por ser uma doutrina de aceitação do sofrimento, inseparável de toda a vida humana. Não vos posso esconder - e com alegria pois sempre preguei e procurei viver a verdade de que, onde está a Cruz, está Cristo, o Amor - que a dor apareceu muitas vezes na minha vida; e mais de uma vez tive vontade de chorar. Noutras ocasiões, senti crescer em mim o desgosto pela injustiça e pelo mal. E soube o que era a mágoa de ver que nada podia fazer, que, apesar dos meus desejos e dos meus esforços, não conseguia melhorar aquelas situações iníquas.

Quando vos falo de dor, não vos falo apenas de teorias. Nem me limito a recolher uma experiência de outros, quando vos confirmo que, se sentis, diante da realidade do sofrimento, que a vossa alma vacila algumas vezes, o remédio que tendes é olhar para Cristo. A cena do Calvário proclama a todos que as aflições hão-de ser santificadas, se vivermos unidos à Cruz.

Porque as nossas tribulações, cristãmente vividas, convertem-se em reparação, em desagravo e em participação no destino e na vida de Jesus, que voluntariamente experimentou, por amor aos homens, toda a espécie de dores, todo o gênero de tormentos. Nasceu, viveu e morreu pobre; foi atacado, insultado, difamado, caluniado e condenado injustamente; conheceu a traição e o abandono dos discípulos; experimentou a solidão e as amarguras do suplício e da morte. Ainda agora, Cristo continua a sofrer nos seus membros, na Humanidade inteira que povoa a Terra e da qual Ele é Cabeça, Primogênito e Redentor'.
(É Cristo que Passa)

FRASES DE SENDARIUM (LXXVI)

 

'Não quero compreender para crer, mas crer para compreender, pois, sem a fé, não somos nada'

(Santo Anselmo)

A fé é a nossa vela de chama tíbia e fraca, que nos conforta e revigora na segurança e no aconchego da caminhada humana. Sabemos o que nos espera no dia da Plena Visão; durante a espera, a fé não nos deixa órfãos da luz.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXII)

            

PARTE III - O INFERNO

III. Sobre os outros tormentos do Inferno

Muitos acreditam que alguns dos réprobos estarão condenados, entre muitas outras dores intoleráveis, a suportar um frio terrivelmente intenso. O venerável Beda relata a seguinte história sobre um homem chamado Trithelmus. Esse homem estava gravemente doente e, certa noite, foi dado como morto. Na manhã seguinte, porém, ele recuperou a consciência para o espanto de todos os que estavam com ele, e levantou-se do leito de doença, dizendo que Deus lhe havia concedido uma prorrogação dos seus dias, para que pudesse levar uma vida diferente daquela que havia levado até então.

Depois de dividir os seus bens entre seus filhos e doar uma parte deles aos pobres, ele adotou um modo de vida totalmente diferente. Encerrando-se em uma pequena tenda à beira de um rio, passava seus dias e noites chorando. No inverno, mergulhava até o pescoço nas águas geladas do rio e, em seguida, tremendo e entorpecido pelo frio, mergulhava em água quente - um procedimento que lhe causava tanta agonia que não conseguia conter seus gritos.

Quando questionado sobre o motivo de sua conduta estranha e como ele conseguia suportar as alternâncias repentinas entre calor extremo e frio extremo, ele respondeu: 'Já vi coisas piores do que isso'. 'O que você viu?' - perguntaram-lhe os outros. E ele respondeu: 'Vi como as almas infelizes em outro mundo são lançadas de um fogo furioso para o frio glacial e, do frio glacial, de volta às chamas ardentes. Quando percebo o que elas têm de suportar, considero meus sofrimentos insignificantes como nada'. Essa história, relatada por um homem tão sério e santo como o venerável Beda, mostra quão terríveis são, de fato, os tormentos do Inferno.

Cristo nos fala das trevas do Inferno com estas palavras solenes: 'Amarrai-lhe as mãos e os pés e lançai-o nas trevas exteriores: ali haverá choro e ranger de dentes' (Mt 22,13). Nosso Senhor fala das trevas do inferno como trevas exteriores, as mais apavorantes, as mais temíveis que possam existir. Um viajante que se perdeu na floresta e foi surpreendido pela noite sente um terror indescritível tomar conta dele. Ora, existe uma terra coberta pela sombra da morte, onde não reina a ordem, mas um horror eterno. Essa terra é o inferno. Uma escuridão opressiva pesa sobre os perdidos; prevalece uma escuridão indescritivelmente terrível.

Neste mundo, os doentes nada temem mais do que a noite, pois o tempo parece passar muito lentamente para eles, e sua dor parece duplamente penosa. Eles contam as horas, e cada uma parece tão longa quanto a noite. Como será para os habitantes do Inferno, onde a escuridão densa domina e a noite nunca dá lugar à luz do dia? Nessa escuridão horrível, os condenados jazem indefesos como cegos, ou como aqueles a quem os olhos foram cruelmente arrancados. Eles não veem nada, pois a fumaça acre arde em seus olhos, e os vapores venenosos do enxofre destroem sua visão. Sabemos quão densa é essa fumaça pelo relato de São João: 'A ele (Satanás) foi dada a chave do abismo (Inferno). E ele abriu o abismo; e a fumaça do abismo subiu como a fumaça de uma grande fornalha; e o sol e o ar foram escurecidos pela fumaça do abismo' (Ap 9,2). E ainda: 'Serão atormentados com fogo e enxofre, e a fumaça de seus tormentos subirá para todo o sempre; nem terão descanso dia nem noite' (Ap 14,11).

Essas são, de fato, ameaças terríveis, e essa profecia anuncia, nos termos mais claros, qual será o destino daqueles que são servos do pecado e do diabo. Eles serão atormentados com fogo e enxofre a tal ponto que a fumaça de seu tormento subirá para todo o sempre. Que palavras terríveis! Ó tortura inexprimível! Considera, ó pecador desorientado, quais seriam teus sentimentos se ficasses confinado por um único dia nessa masmorra escura e fétida. Tu sabes como a fumaça pungente é desagradável aos olhos e às narinas; na verdade, ninguém consegue permanecer nela por um quarto de hora sem ser asfixiado e ficar meio cego. Se isso acontece na Terra, como será no Inferno?

A existência dos condenados se assemelha mais à morte do que à vida; é uma morte em vida, uma tortura e miséria eternas e ilimitadas. E, visto que nos é dito que a fumaça de seu tormento sobe para sempre, segue-se necessariamente que a escuridão total deve prevalecer no Inferno. A respeito desse assunto, o venerável Beda relata as experiências do homem Trithelmus (de quem já se fez menção) enquanto ele jazia em transe e era considerado morto. Ao recuperar a consciência, entre outras coisas, ele narrou o seguinte: 'Fui conduzido por um ser vestido com roupas brilhantes por uma região que me era totalmente desconhecida, até chegarmos a uma área envolta em escuridão densa, que me fez estremecer de medo e horror. Não conseguia distinguir nada além da figura do meu guia. À medida que nos adentrávamos cada vez mais nessas trevas, percebi, no meio da escuridão, um abismo de imensa extensão, cheio de fumaça e de um brilho lúgubre, cuja visão fez meus cabelos se arrepiarem de terror. Desse abismo emanavam gemidos lastimáveis, que soavam como se vários homens e mulheres estivessem sendo submetidos a torturas cruéis e à morte.

Mas o pior foi que meu guia desapareceu, deixando-me sozinho naquele lugar terrível. Não consigo descrever a apreensão agonizante que tomou conta de mim; em vão olhei ao redor na esperança de encontrar socorro ou consolo. O terror que senti foi tão grande que pensei que fosse morrer. Quando olhei para baixo, para o abismo negro, tive medo de cair nele e me perder, de corpo e alma. Pois, junto com as chamas lúgubres que se erguiam do abismo, vinham faíscas ardentes que caíam de volta nele com um ruído ensurdecedor, além de nuvens de fumaça sulfurosa que pareciam prestes, a qualquer momento, a me arrastar com elas para as profundezas do golfo de fogo. Eram todas almas perdidas que eram impulsionadas para cima como faíscas de lenha em chamas pela força do fogo subterrâneo.

Só Deus sabe o que sofri; um suor frio banhou todo o meu corpo. Enquanto permanecia ali nessa agonia, sem saber para onde me virar, ouviram-se, bem acima da minha cabeça, gargalhadas, misturadas a choro amargo e uivos. À medida que aquele barulho se aproximava, vi vários demônios que traziam consigo cinco almas indefesas, as quais perseguiam e atormentavam. Os demônios estavam exultantes, zombando e rindo; as almas estavam em desespero, proferindo lamentos e gritos de angústia lancinante. Imagine quais foram meus sentimentos ao ouvir seus gritos e observar que os demônios malditos se aproximavam cada vez mais.

Quando chegaram bem perto de mim, fiquei tão dominado pelo terror que pensei que fosse desmaiar, e acredito que, se Deus não tivesse me fortalecido, eu teria morrido ali mesmo. Pois os demônios me lançavam olhares com seus olhos ardentes de maneira tão assustadora, e as pobres almas me imploravam por ajuda de forma tão comovente, que eu me sentia dividido entre o medo e a compaixão, e meu coração parecia prestes a se partir. Quando as almas foram levadas de mim, foram precipitadas nas profundezas do abismo pelos espíritos malignos com tanta violência que o céu e a terra pareciam tremer, e uma nuvem de faíscas voou para cima de tal forma que temi que elas me cobrissem. Por fim, para minha grande dor e pavor, vários espíritos malignos se aproximaram de mim, exalando raiva e fúria, e fazendo como se fossem me arrastar com eles para o abismo negro.

Então, em pânico absoluto, chorei, gritei e implorei por ajuda de algum lugar; pois, naquela densa escuridão, não via nada além de demônios zombeteiros, o abismo escancarado e as chamas crepitantes, e não sabia para onde me voltar em busca de salvação. Quando minha angústia estava no auge, meu guia reapareceu; ele me resgatou dos meus inimigos e me conduziu para fora daquele lugar escuro, imundo e horrível. Ele me disse, além disso, que eu deveria retornar ao meu corpo e que deveria dar a conhecer ao maior número possível de meus semelhantes a existência dessa terra de terrível escuridão'.

Além da obscuridade sinistra que prevalece no Inferno, causada pela fumaça sufocante que se eleva em nuvens densas do lago de enxofre, há aida a presença de demônios assustadores que aumentam a dor e o tormento dos condenados. Lemos na lenda de Santo Antônio, o Eremita, que os demônios frequentemente apareciam para ele sob várias formas, atormentando-o e aterrorizando-o de maneiras indescritíveis. Às vezes, assumiam a forma de feras, leões, ursos, dragões ou cães selvagens; outras vezes, apareciam em forma humana, como homens de aparência feroz, mulheres belas ou monstros de aspecto hediondo. Às vezes, eles o espancavam e maltratavam de forma tão bárbara que o deixavam meio morto; outras vezes, causavam-lhe tal terror com suas estranhas aparições espectrais que, se Deus e seu anjo da guarda não tivessem vindo em seu auxílio, ele teria expirado imediatamente.

Ora, se fizeram tudo isso a um homem de vida santa, sobre o qual não tinham nenhum poder legítimo, o que não farão no Inferno aos pecadores ímpios que estão completamente à sua mercê? Sem dúvida, esses espectros diabólicos, assumindo a forma de animais selvagens, se lançarão sobre os infelizes pecadores e os maltratarão vergonhosamente. Isso será um novo sofrimento para eles. Ninguém pode imaginar que novos terrores e tormentos a engenhosidade desses espíritos do Inferno inventará para atormentar os condenados e derramar sobre eles a sua malícia diabólica.

Se temes essa escuridão e todos os horrores que a acompanham, cuida para que temas as obras das trevas, sobre as quais Cristo diz: 'Todo aquele que pratica o mal odeia a luz e não vem para a luz, para que suas obras não sejam repreendidas' (Jo 3, 20). Mas se tu amas as trevas e buscas as trevas para que possas pecar com maior impunidade, não será um ato de injustiça da parte de Deus lançar-te nas trevas eternas e, ao morreres, dizer aos demônios: 'Porque durante toda a sua vida ele amou as trevas e as obras das trevas, amarrai-lhe as mãos e os pés e lançai-o nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes'.

Oxalá todos os pecadores obstinados pudessem ver isso e considerar os terríveis tormentos que aguardam os descuidados e indiferentes. Pois naquilo em que pecamos, também seremos punidos. E como em nossos dias há tantos cristãos mornos e negligentes que não têm o menor zelo pela religião ou pelos exercícios religiosos, os exortamos a terem cuidado para que não sejam um dia lançados no fogo do inferno por ordem daquele que se autodenomina Deus zeloso, e que é o único a ser temido, pois Ele pode 'destruir tanto o corpo quanto a alma no inferno'. Portanto, considerem, ó cristãos frios e descuidados, que destino os aguarda. Na verdade, se refletissem sobre esses tormentos terríveis, entrariam imediatamente em uma nova vida. Em vez de serem cristãos mornos, preguiçosos, negligentes e frios, tornariam-se rapidamente servos de Deus zelosos, ativos, escrupulosos e fervorosos.

Fora, então, com toda a tibieza, toda a indiferença na grande questão da nossa salvação. Quem quer que sejas, tu que lês isto, resolve cumprir teus deveres como cristão com toda a seriedade. Aproxima-te dos sacramentos com mais frequência do que tens feito até agora; assiste à missa com mais frequência do que até agora, sê mais assíduo e fervoroso na oração do que até agora. Pensa com mais frequência em Deus e nas coisas últimas. Assim, tu superarás a indiferença, a frieza que se apoderou de ti; farás de Deus teu amigo; a esperança da felicidade eterna surgirá dentro de ti e se tornará uma certeza abençoada. Que Deus conceda, por sua graça, que assim seja contigo e comigo!

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quarta-feira, 24 de junho de 2026

NATIVIDADE DE SÃO JOÃO BATISTA

   

Além de Jesus e de Maria, apenas o nascimento de João Batista (24 de junho) é comemorado pela Santa Igreja Católica, glória ímpar para aquele que foi aclamado, pelo próprio Cristo, como 'o maior dentre os nascidos de mulher' (Mt 11,11)

'Houve um homem mandado por Deus. Seu nome era João… Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz' (Jo 1,6-8)

'Eis que eu envio o meu mensageiro à tua frente. Ele preparará o teu caminho diante de ti' (Mt 11,7).

'Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança lhe estremeceu no ventre, e Isabel ficou repleta do Espírito Santo' (Lc 1,41)

'Eu sou a voz que clama no deserto: aplainai o caminho do Senhor' (Is 40,3)

'Eu vos batizo com água, mas vem Aquele que é mais forte do que eu, do qual não sou digno de desatar a correia das sandálias; Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo' (Lc 3, 16). 

terça-feira, 23 de junho de 2026

ORAÇÃO: JAM LUCIS ORTO SIDERE

Hino litúrgico do século VI, comumente atribuído a Santo Ambrósio (340 - 397) ou, mais provavelmente, à tradição ambrosiana. Trata-se de uma oração de súplica matinal clamando por proteção e as bênçãos e graças de Deus sobre as ações e atividades que serão praticadas no novo dia que se inicia. Atualmente, integra a Liturgia das Horas, sendo cantado nas Laudes das quintas-feiras.

Iam lucis orto sidere,
Deum precemur supplices,
Ut in diurnis actibus
Nos servet a nocentibus.

Linguam refrenans temperet,
Ne litis horror insonet;
Visum fovendo contegat,
Ne vanitates hauriat.

Sint pura cordis intima,
Absistat et vecordia;
Carnis terat superbiam
Potus cibique parcitas.

Ut cum dies abscesserit,
Noctemque sors reduxerit,
Mundi per abstinentiam
Ipsi canamus gloriam.

Deo Patri sit gloria,
Eiúsque soli Fílio,
Cum Spíritu Paráclito,
Nunc et per omne sæculum. Amen.


Agora que surge no céu a luz do dia,
suplicantes pedimos a Deus,
que em nossas obras neste dia
nos preserve de todo mal.

Reprima a nossa língua com moderação,
evitando o eco da discórdia;
os olhos nos guarde e nos proteja,
para que não se inclinem às vaidades.

Que seja puro o coração,
ausente de toda insensatez;
que a carne orgulhosa seja domada
com jejum e sobriedade.

Para que, ao fim deste dia,
quando um novo anoitecer recomeçar,
livres das amarras deste mundo,
possamos cantar a sua glória.

Glória seja dada ao Deus Pai,
e ao seu Filho unigênito,
com o Espírito Paráclito,
agora e pelos séculos. Amém.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

A SÓS COM DEUS (I)


O que mais me convém buscar habitual e continuamente é o olhar amoroso de Deus sobre mim e dentro de mim; perceber com amor que a minha vida se desenvolve em Deus, fui criado para Deus, Deus está em mim, eu estou em Deus e de Deus recebo a minha vida e o anelo do seu amor.

Deus sempre me observa, amando-me sem interrupção, habitando continuamente em minha alma, mesmo quando estou distraído. Ó meu Deus, que eu jamais me afaste de Vós! Mas Deus só desenvolverá em mim todo o poder amoroso do seu olhar e presença se eu o buscar e pedir com desejo e anseio, se eu dedicar a minha vida e o meu coração a encontrar e gravar em minha alma esses olhos amorosos do meu Deus.

Não quero desviar jamais o olhar da minha alma dos seus olhos de infinita beleza. Meu Deus, eu não sei nem posso gravar-vos em mim, no meu ser mais íntimo, como desejo; gravai então o vosso olhar bendito e acolhedor em minha alma e iluminai-me. Que o vosso olhar sempre me ilumine e faça florescer em mim a flor da santidade, o fruto cobiçado da vida eterna, que é a participação na vossa própria vida e a esperança de possuir a bem-aventurança perfeita.

Lê-se no Santo Evangelho que Jesus Cristo, disse a todos com voz solene: 'Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem bebe de mim, do coração daquele que crê em mim, fluirão rios de água viva'. Para que se cumprisse em mim nesta promessa divina, Ele, de antemão, colocou em minha alma a sede de Deus, a sede e o anseio de me consagrar a Deus e viver para Deus. Foi meu próprio Pai, Jesus Cristo, quem me deu, como presente inestimável de sua misericórdia, esta misteriosa sede do sobrenatural, que dá a vida eterna. O mesmo Jesus Cristo, meu Redentor, colocou a sede de Deus em meu coração. Eu não conheço este tesouro, mas Jesus Cristo, sem que eu o soubesse ou o merecesse, me deu esta sede viva de Deus e com ela tive a força e a determinação para deixar tudo no mundo e ir até Ele. Eu também não teria tido a força e a determinação para deixar tudo e renunciar a mim mesmo se Ele não tivesse colocado esse desejo e essa sede ardentes dentro de mim.

[Excertos da obra 'Com Dios a Solas - Un Carmelita Descalzo', do Pe. Valentin de San Jose (1896 - 1989)]

domingo, 21 de junho de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

             

'Atendei-me, ó Senhor, pelo vosso imenso amor!' (Sl 68)

Primeira Leitura (Jr 20,10-13) - Segunda Leitura (Rm 5,12-15) - Evangelho (Mt 10,26-33)

  21/06/2026 - DÉCIMO SEGUNDO DOMINGO DO TEMPO COMUM

'NÃO TENHAIS MEDO!' 


O Evangelho deste domingo nos infunde o sopro da Verdade de Deus. Todas as nossas ações, gestos, pensamentos, palavras, silêncios, desejos, intenções, atos e omissões, praticados a cada segundo, durante toda a vida de cada um de nós, são conhecidos por Deus como escritos em manchetes nas estrelas: 'Até os cabelos de vossa cabeça estão contados' (Mt 10, 30). Nada, absolutamente nada, ficará envolto em penumbra ou esquecimento; todas as coisas serão refletidas no espelho da verdade divina, como oráculo universal: 'nada há de encoberto que não seja revelado, e nada há de escondido que não seja conhecido' (Mt 10,27).

A certeza final é que deveremos prestar contas de cada palavra, de cada gesto, de cada intenção. Tudo será pesado na balança do juízo particular. A resposta à graça concedida e o mal devido ao pecado; a caridade anônima ou o juízo temerário, a palavra de conforto ou o gesto de revolta. O valor de uma alma é infinito, pois se trata de um ato puro da criação do Pai, na escolha personalíssima de Deus como criatura destinada a partilhar a eternidade com Ele no Céu. Mas o legado desta graça é cumprir fielmente os desígnios de Deus para as almas de sua predileção.

O pensamento da eternidade transforma em palha e espuma os tesouros, grandezas e glórias do mundo. Deus nos escolheu não para sermos peregrinos nesta terra, mas como herdeiros do Céu. E,assim, em cada pensamento ou palavra, o fim último deve ser sempre a busca da vida eterna em Deus, conforme nos fala o Apóstolo: 'Com temor e tremor trabalhai por vossa salvação’ (Fl 2,12). E esta busca passa pelo horror ao pecado e a tudo que nos aniquila como Filhos de Deus: 'Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma! Pelo contrário, temei aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno!' (Mt 10,28).

'Não tenhais medo!' (Mt 10,31). O triunfo da alma é seguir o Cristo, Caminho, Verdade e Vida. Quem tem Deus no coração, ama a Verdade e a pratica em tudo e em todos. Quem ama a Verdade, faz a Vontade do Pai que está nos Céu; quem nega a Verdade, é réu de pecado eterno: 'todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante do meu Pai que está nos céus. Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus' (Mt 10,32 - 33). Iustus ex fide vivit — O justo vive pela fé.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (124/127)

 

124. ESTES RÉUS SOIS VÓS!

Em Paris, onde se deu o caso, estava sentado no banco dos réus um jovem de dezessete anos apenas. Ele agredira e matara traiçoeiramente uma pobre velha para roubar-lhe cinco francos, mísera economia que ela guardava.
Emílio Gaudot - disse-lhe o presidente do Tribunal - se tivesses sabido que Rose Mercié tinha somente cinco francos, tu a terias matado?
➖ E por que não? - respondeu o acusado com cínica indiferença. A mim que me importa uma velha carcaça de mais ou de menos no mundo?
Ouvindo essa resposta tao revoltante, o Presidente exclamou:
➖ E quem foi que te ensinou tamanha malvadeza?
➖ Sei eu lá quem foi? - respondeu ainda mais cinicamente o jovem.

Mas o que não soube dizer o acusado, disse-o magnificamente o seu advogado. Saint-Appert, o defensor, dirigindo-se aos circunstantes, diz:
➖ O meu oficio, senhores, é muito fácil: o acusado é réu plenamente confesso, não há nenhuma defesa a fazer. Mas, se não posso defender diretamente o meu cliente, sinto-me, todavia, no dever de acusar outros que são mais réus do que ele. Esses réus, senhores, sois vós, que aqui representais a sociedade que se vê obrigada a punir as culpas, que a sua incúria e a sua corrupção não soube prevenir. Vejo diante de mim e saúdo reverentemente a imagem do Crucifixo. Ele está aqui no vosso pretório, onde condenais os réus; mas por que essa imagem não está também nas escolas, onde se ensinam e educam os meninos? Por que punis sob os olhos de Deus, se vos esforçais por expungir dos livros escolares até o nome desse mesmo Deus? Se a Gaudot tivesse sido mostrado o Crucifixo, quando se assentava nos bancos da escola, ele não se assentaria agora no banco dos réus e da infâmia. Quem disse jamais na escola a esse jovem que existe um Deus, que há uma justiça futura? Quem jamais lhe falou da alma, do respeito ao próximo, do temor de Deus? Quem lhe ensinou o mandamento do Decálogo: Não matarás? Em que livros oficializados se encontram estas verdades? Abandonado as suas paixões, este jovem viveu como uma fera no deserto, e agora esta sociedade quer matá-lo como a um tigre, quando o podia ter amansado como um cordeiro. Sim, sois vós, senhores, que eu acuso... vós que espalhais entre o povo a incredulidade e a pornografia, e ainda vos maravilhais de que o povo vos responda com crimes e com a decadência moral. Condenai o meu cliente, que para isso tendes direito; mas eu vos acuso, porque tal é o meu dever.

Este advogado disse grandes verdades. Todos os que têm estudado a fundo o espantoso fenômeno da delinquência da juventude hodierna estão de acordo em afirmar que as suas causas principais são a ignorância religiosa e o pestífero ambiente em que vivem. Precisamos, pois, de livros escolares que ensinem a fé e a moral cristãs, e não as fábulas e historietas de mau gosto, em que a juventude nada tem a aprender.

125. TAMBÉM ELE FAZIA PENITÊNCIAS

O professor Dr. Contardo Ferrini, às vezes, passava da conta ao fazer as suas penitências, usando cilícios e cadeias com pontas de ferro. Depois, ajoelhando-se humildemente aos pés de seu confessor, perguntava:
➖ Meu Padre, posso castigar, o meu corpo até ao sangue?
➖ Somos depositários e não donos de nosso corpo - respondia-lhe o ministro de Deus. É preciso usar de prudência, professor, por causa das graves obrigações de seu ministério.
Desde jovem estudante já usava Ferrini um pequeno cilício que, por motivo de saúde, um confessor lhe proibiu.

126. TENHO MEDO DAS CONTAS...

No século passado vivia na Westfália um velho e pio sacerdote. Cada dia, ao por do sol, dirigia-se ao cemitério onde recitava um terço, pelas almas do purgatório. Quando, certa vez, um amigo lhe perguntou por que fazia aquela visita todos os dias a tarde, o velho pároco deu esta bela resposta: 

'Faz muitos anos que sou vigário desta freguesia e quem sabe se por, negligência minha (ou porque não dei bastante exemplo, ou porque não fiz quanto devia fazer), causei dano aos que agora talvez estejam penando no purgatório, enquanto seus corpos repousam debaixo desta terra fria. Tenho medo das contas, que hei de dar a Deus depois de minha morte. Esta é a razão por que, todos os dias a esta hora, venho rezar aqui, a fim de expiar, por este ato de caridade para com as almas, as faltas que posso ter cometido'.
Exemplo comovente e digno de imitação.

127. MISSA PELO ESPOSO FALECIDO

Santa Matilde, esposa do imperador Henrique e mãe de Otão Magno, quando recebeu a noticia da morte de seu marido, acontecida numa expedição guerreira, a primeira coisa que fez foi ajoelhar-se aos pés do Crucifixo e rezar por ele.

Chegado o cadáver, a santa imperatriz levou os três filhos à câmara ardente, mandou que eles se ajoelhassem bem perto dos despojos do pai, e disse-lhes: 'Meu filhos, lembrai-vos de que, se tendes direito de subir ao trono do vosso pai, um dia descereis também ao túmulo como ele'.

E mandou chamar imediatamente um sacerdote que, naquele mesmo dia, celebrou pela alma do imperador. Grande foi a satisfação da imperatriz, entre as lágrimas pela perda de seu marido, por se ter encontrado um padre ainda em condições de rezar a santa missa de corpo presente.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

quarta-feira, 17 de junho de 2026

O MILAGRE EUCARÍSTICO DE MORROVALLE


Na madrugada de 17 de abril de 1560, quarta feira da Oitava da Páscoa, um incêndio de grandes proporções irrompeu sobre o Convento Franciscano de Morrovalle, cidade histórica medieval da Itália, situada sobre uma colina com vista para a costa adriática. O incêndio, em poucas horas de descontrole total, consumiu totalmente o templo do século XIII, que ficou reduzido a escombros e cinzas.


No dia 23 de abril, em outra busca dos frades no meio dos escombros, o padre Battista da Ascoli, ao remover um pedaço de mármore do altar-mor, deparou-se maravilhado com a píxide de prata, que mesmo completamente derretida, conservara inteira e intacta a Hóstia grande consagrada. Nenhuma chama ou calor do incêndio devastador ousara profanar o Santíssimo Sacramento. Diante do prodígio inexplicável, a Hóstia consagrada foi imediatmente exposta para adoração do fieis.

O Papa Pio IV enviou uma comissão de cinco cardeais para a instalação do devido processo canônico diocesano, que se estendeu entre 16 e 26 de maio de 1560, e que ratificou o evento como um milagre eucarístico de preservação da Hóstia consagrada. Na bula Sacrossanta Romana Ecclesia, de 19 de setembro de 1560, o papa Pio IV reconheceu oficialmente o Milagre Eucarístico de Morrovalle, concedendo indulgência plenária perpétua a todos que visitassem o local de culto no aniversário do evento, ou seja, no período de 17 a 27 de abril de cada ano, conhecido como 'os dias das Indulgências'.

O milagre atraiu multidões de todos os lugares, forçando a reconstrução de uma igreja no local, muito maior que o templo original e na forma de uma cruz latina. Da estrutura pré-existente, apenas a antiga torre sineira permaneceu. Em 1741, terremotos danificaram a igreja, tornando necessária a sua restauração. Com o advento da era napoleônica, os franciscanos foram forçados a abandonar o convento em 1810. Atualmente, a igreja reformada do antigo convento franciscano, constitui um auditório, utilizado para diversas atividades culturais. 


Por estas razões, o rito das indulgências plenárias é atualmente celebrado na Igreja de São Bartolomeu. Em 1960, por ocasião do quarto centenário do milagre, a cidade celebrou solenemente o evento e adotou a inscrição latina Civitas Eucharistica - Cidade Eucarística - em sua porta principal. A hóstia consagrada, então guardada numa caixa de marfim, não chegou, porém, aos nossos tempos e, desde a primeira metade do século XVII, já não era mais conservada.

terça-feira, 16 de junho de 2026

SOBRE BENS E AS OBRIGAÇÕES DE COMPARTILHAR OS BENS

Bens:

1. Bens necessários à vida: são aqueles sem os quais não se pode viver; todos os demais bens são supérfluos à vida.

2. Bens necessários para um dado estado de vida:  são aqueles necessários para a manutenção deste estado de vida; bens supérfluos a este estado de vida são todos os demais.

3. Bens necessários para a manutenção adequada do estado de vida: são aqueles necessários para garantir uma manutenção adequada de um estado de vida; fora disso, todo o resto constitui bens supérfluos no seu sentido mais amplo.

Obrigações

(i) Se alguém estiver em extrema necessidade, sem o necessário para a própria sobrevivência, devemos ajudar com bens das classes 2 e 3; não precisamos dar o que precisamos para a nossa própria sobrevivência.

(ii) Se alguém estiver em grave necessidade, mas não carente do essencial para sobreviver, devemos ajudar com bens da classe 3. 

(iii) Se alguém estiver em necessidade modesta, devemos ajudar algumas pessoas em alguns momentos, sem discriminar com precisão casos individuais, pois há muitos que podem ajudar e as necessidades impostas são relativamente modestas e comuns.

[Pe. William Most (1914 - 1999), sacerdote e teólogo americano]

segunda-feira, 15 de junho de 2026

FRASES DE SENDARIUM (LXXV)

'A Verdade não pode ser tua nem minha,
para que possa ser minha e tua' 

(Santo Agostinho)

Arma-te com o escudo da sabedoria divina, inflama-te com a confiança inabalável dos que aspiram ainda aqui anelos de eternidade; desta santa embriaguez, transforma-te em forja e cadinho, para moldar consciências e gerar espíritos ávidos da Verdade.

domingo, 14 de junho de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

            

'Nós somos o povo e o rebanho do Senhor' (Sl 99)

Primeira Leitura (Ex 19,2-6a) - Segunda Leitura (Rm 5,6-11) - Evangelho (Mt 9,36-10,8)

  14/06/2026 - DÉCIMO PRIMEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM

O SENHOR DA MESSE


'Naquele tempo', tempo de graça inimaginável quando o Senhor estava neste mundo, Jesus se compadece das multidões, 'porque estavam cansadas e abatidas como ovelhas sem pastor' (Mt 9,36). E Jesus não via apenas uma multidão diante dele, mas como multidões de homens de todos os tempos, atribulados pelas vicissitudes e aparências deste mundo, nas águas revoltas do cotidiano de vidas atribuladas e insensíveis aos bens que não passam.

Eis uma missão a ser cumprida, missão extrema, desafio universal: é preciso levar a Boa Nova do Reino de Deus a todas as criaturas; é preciso anunciar o Evangelho de Cristo no mundo inteiro. E, diante da realidade, tão portentosa, o Senhor nos ensina a seguir sempre pelas vocações missionárias, sejam elas religiosas ou leigas: 'a Messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi pois ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!' (Mt 9,37 - 38). Que nossa oração sincera seja semente que faça brotar novos apóstolos e novos missionários no Coração do Senhor da Messe!

Jesus deu início a esta missão chamando os doze Apóstolos. E lhes deu recomendações expressas: 'Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios' (Mt 10,8). E ainda mais: 'De graça recebestes, de graça deveis dar!' (Mt 10,8). Ser missionário é se fazer apóstolo, é assumir a mesma missão que constitui as marcas de identidade de um cristão no mundo. De todos os cristãos: os primeiros doze apóstolos, os outros setenta e dois, os cristãos de todos os tempos, eu e você. Como cordeiros entre lobos, como emissários da paz entre promotores das guerras, os cristãos estão no mundo para torná-lo um mundo cristão.

O apostolado começa com o bom exemplo, expande-se com o amor ao próximo, multiplica-se pela caridade. É imperioso o serviço da vocação; os frutos pertencem aos ditames da Providência. O reino de Deus deve ser proclamado para todos, em todos os lugares, mas a Boa Nova será recebida com jubilosa gratidão num lugar ou indiferença profunda em outro; aqui vai gerar frutos de salvação, mais além será pedra de tropeço. Como operários da grande messe do Senhor, Deus nos quer valorosos combatentes da fé, pregadores perseverantes da Verdade Plena. E ainda que sejamos capazes de domar a natureza e realizar prodígios, a felicidade cristã não está nos eventos temporais aqui na terra, mas na Eterna Glória daqueles que souberam combater o bom combate: 'nós nos gloriamos em Deus, por Nosso Senhor Jesus Cristo' (Rm 5,11).