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quarta-feira, 14 de outubro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXX/Final)

PARTE IV - O CÉU

IV. Sobre o número dos que se salvam

Nos três capítulos anteriores, tivemos a agradável tarefa de mostrar quão belo é o paraíso celestial e quão grande é a felicidade de que desfrutam os redimidos. Sem dúvida, no coração de cada um de nossos leitores surgiu um fervoroso desejo de ser admitido nos domínios da luz eterna e de participar de suas alegrias. Talvez cada um se sinta seguro de que suas esperanças a esse respeito serão realizadas.

É, contudo, muito de temer que muitos não alcancem a meta e sejam para sempre excluídos do Reino dos Céus, como este capítulo pretende demonstrar. Permiti-me, porém, suplicar a todos os que o lerem que não deixem que estas palavras os desanimem e os tornem pusilânimes, mas que, pelo contrário, elas aumentem neles o espírito de humildade e de temor salutar, estimulando-os a maior empenho e diligência na obra de sua salvação, caso esta lhes pareça menos fácil do que estavam inclinados a imaginar. Meu único motivo ao escrever este capítulo é abrir os olhos do leitor e mostrar-lhe o perigo em que se encontra. Pois, se eu não o fizesse, ele poderia continuar cegamente pelo caminho errado e somente perceber que se trata do caminho da perdição quando já fosse tarde demais para voltar atrás, quando a mão da morte retirasse o véu de seus olhos. Considero, portanto, que prestarei um serviço àquele que anda desgarrado se o esclarecer acerca do risco que corre e procurar dirigir seus passos para o caminho do Céu.

Permite-me perguntar-te, ó leitor: que proporção de todos os que vivem sobre esta terra julgas que será salva? A metade? A terça parte? Ou talvez a quarta parte? Ah! Receio, e não sem boas razões, que o número esteja muito longe de ser tão grande. Jesus Cristo, que é a Verdade eterna, seus santos Apóstolos e os Padres da Igreja, todos nos dizem que assim será.

Que diz Cristo acerca do número dos eleitos? Suas palavras são estas: 'Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos'. Ele repete essas palavras ao falar do convidado que não trajava a veste nupcial: 'Atai-lhe as mãos e os pés e lançai-o nas trevas exteriores. Pois muitos são chamados, mas poucos são escolhidos'. Ainda que nada mais se encontrasse em toda a Escritura a esse respeito, essa passagem não poderia deixar de nos alarmar. Há, porém, muitas outras semelhantes, das quais citarei uma ou duas.

No Evangelho de São Mateus, lemos que Nosso Senhor disse: 'Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso é o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ele. Quão estreita é a porta e apertado o caminho que conduz à vida, e poucos são os que o encontram' (Mt 7,13). Não são essas palavras capazes de nos inspirar inquietação e apreensão? Não poderemos estar entre aqueles que entram pela porta larga e caminham pela estrada espaçosa que termina na perdição eterna?

Para que possas compreender melhor o sentido das palavras de Nosso Senhor e perceber mais claramente quão poucos são os eleitos, observa que Cristo não disse que eram poucos os que caminhavam pela senda do Céu, mas que eram poucos os que encontravam esse caminho estreito. 'Quão estreita é a porta que conduz à vida, e poucos são os que a encontram'. É como se o Salvador quisesse dizer: o caminho que conduz ao Céu é tão estreito e tão áspero, tão tomado pela vegetação, tão escuro e difícil de distinguir, que muitos passam a vida inteira sem jamais encontrá-lo. E aqueles que o encontram estão constantemente expostos ao perigo de se desviar dele, de tomar uma direção errada e de se afastar inadvertidamente, porque ele é tão irregular e tão encoberto pela vegetação. Assim o diz São Jerônimo em seu comentário à passagem em questão. Além disso, há alguns que, mesmo estando no caminho certo, se apressam em abandoná-lo, porque ele é tão íngreme e penoso. Há também muitos que são atraídos para fora do caminho estreito pelas artimanhas e pelos enganos do demônio e, assim, quase sem perceber, são conduzidos para baixo, rumo ao Inferno. De tudo o que foi dito, podemos concluir que são poucos os que encontram o caminho do Céu, e ainda menos os que perseveram em segui-lo até o fim.

Ora, como Cristo sabia que essas suas palavras seriam mal interpretadas e entendidas em sentido falso tanto pelos crentes como pelos descrentes, em outra ocasião acentuou e reforçou o que já havia dito acerca do pequeno número dos eleitos. Pois, quando um dos discípulos lhe perguntou: 'Senhor, são poucos os que se salvam?' - Ele respondeu: 'Esforçai-vos por entrar pela porta estreita; porque muitos, eu vos digo, procurarão entrar e não poderão' (Lc 13,24). Escuta as palavras do Divino Mestre. Ele nos ordena que nos esforcemos, que nos empenhemos, que empreguemos todas as nossas forças para entrar pela porta estreita. E, o que é ainda mais capaz de nos causar temor, acrescenta que muitos procurarão entrar e não poderão.

Se aqueles que desejam e se esforçam por entrar no Reino dos Céus não conseguem fazê-lo, que será daqueles que levam uma vida descuidada, talvez até ímpia, e não demonstram zelo nem interesse pelo que diz respeito à sua salvação eterna? Já ouvimos Cristo declarar-nos três vezes que o número dos eleitos é pequeno; que, em proporção à grande massa da humanidade, apenas poucos serão salvos. E, como sabia que não tomaríamos a peito essa grave verdade como deveríamos, Ele a repete em linguagem ainda mais explícita.

Depois de dizer a um homem rico que viera procurá-lo que deixasse todos os seus bens e o seguisse, e de o homem se retirar entristecido, Ele disse, dirigindo-se aos discípulos: 'Quão dificilmente entrarão no Reino de Deus os que possuem riquezas!' E os discípulos ficaram admirados com suas palavras. 'Mas Jesus, tornando a falar, disse-lhes: Filhos, quão difícil é para os que confiam nas riquezas entrar no Reino de Deus! É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus. Então, eles se admiraram ainda mais, dizendo entre si: Quem, pois, poderá salvar-se? E Jesus, olhando para eles, disse: Aos homens isso é impossível, mas não a Deus; porque a Deus tudo é possível' (Mc 10,23-27).

Na verdade, essas palavras, vindas dos lábios de nosso Divino Mestre, bastam para nos inspirar profundo temor; quase bastam para nos fazer perder o ânimo. Pois elas nos dizem expressamente que a obra de nossa salvação é de imensa dificuldade, uma realização quase milagrosa, e que é quase impossível à pobre humanidade entrar no Reino dos Céus. É, na realidade, tão milagroso que um homem escape da perdição eterna e alcance a felicidade eterna quanto seria que um único homem, sozinho, vencesse e pusesse em fuga um exército inteiro. Pois todas as potências do Inferno se aliam ao mundo perverso contra nós; todas as potências do Inferno dispõem suas forças em ordem de batalha para vencer e escravizar cada um de nós, mortais. E, com as terríveis potências das trevas, o mundo mau e astuto faz causa comum, assim como as concupiscências da carne, com o propósito de provocar nossa ruína.

Ora, visto que são tantos os adversários que nos assaltam, adversários tão astutos, tão fortes e tão ferozes, quem poderá julgar-se seguro da vitória? É quase um milagre escapar das garras de inimigos tão numerosos e tão formidáveis. Quem poderá esperar vencê-los por suas próprias forças? Devemos necessariamente reconhecer que todos os que venceram o inimigo maligno, o mundo perverso e suas próprias inclinações más foram fortalecidos por Deus com seu auxílio especial. Vemos, assim, quão penosa e laboriosa é a tarefa de conquistar o Céu; e compreendemos a verdade das palavras de Nosso Senhor, quando disse: 'O Reino dos Céus sofre violência, e os violentos o arrebatam' (Mt 11,12).

Para consolo e encorajamento do cristão, deve-se observar aqui que, se o número de seus inimigos é tão assustadoramente grande, o número de seus amigos é ainda maior. 'Não temas, porque são mais os que estão conosco do que os que estão com eles'. Assim falou o profeta Eliseu ao seu servo amedrontado. 'E o Senhor abriu os olhos do servo, e ele viu; e eis que o monte estava cheio de cavalos e de carros de fogo' (4Rs 6,16). Não somos deixados sozinhos no combate; nosso santo Anjo da Guarda e todos os espíritos bem-aventurados estão ao nosso lado; podemos contar com a poderosa proteção da Mãe de Deus, com a eficácia dos sacramentos, com os méritos da Paixão de Cristo, com a inspiração do Espírito Santo e com o socorro de Deus Todo-Poderoso. Por meio desses poderosos auxílios, venceremos, se combatermos corajosamente e não nos entregarmos, por fraqueza, ao cativeiro, como infelizmente tantos fazem. Pois essas pessoas tímidas, indolentes e sem ânimo iludem-se com a falsa esperança de que, afinal, não é difícil conquistar o Céu. Pensam e dizem a si mesmas: a situação não é tão grave quanto alguns querem fazer parecer; Cristo não sofreu por nós em vão; se não fosse da vontade de Deus que nos salvássemos, Ele não nos teria criado para desfrutarmos do Céu. Essas e outras palavras semelhantes ouvimos dos lábios dos filhos deste mundo; eles vivem segundo essas ideias e conseguem enganar a si mesmos e aos outros.

A Sagrada Escritura não nos deixa dúvida de que essas pessoas estão no erro e caminham pela estrada larga que conduz à perdição. Todo o ensinamento do Evangelho se opõe inteiramente aos princípios que elas seguem; e aqueles que levam uma vida descuidada e satisfazem desregradamente os sentidos são repetidamente advertidos de que a morte eterna será sua porção. Escuta a advertência que Cristo dirige aos devotos deste mundo e aos amantes de seus prazeres: 'Ai de vós, os ricos, porque já tendes a vossa consolação! Ai de vós, os que estais saciados, porque tereis fome! Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis! Ai de vós, quando os homens vos louvarem!' - isto é, quando homens de maus princípios, contrários às máximas da religião, aplaudirem vossas palavras, vossas ações e vossas opiniões. Essa condenação, saída dos lábios de Nosso Senhor, bem pode encher-nos de temor. Qual é o objetivo da grande maioria dos homens na vida? Que procuram alcançar e pelo que anseiam? Desejam ser ricos, prosperar, viver no luxo e ser louvados por seus semelhantes. Ninguém considera isso um pecado. E, no entanto, Nosso Senhor declara que a morte eterna será o destino dessas pessoas e as denuncia em termos veementes.

Por essas e outras passagens semelhantes, que abundam na Sagrada Escritura, vês que Deus é mais rigoroso do que imaginas e que perder tua alma é mais fácil do que talvez penses. Portanto, não continues a viver tão descuidadamente, mas trabalha por tua salvação com temor e tremor, como te exorta o Apóstolo. Assim fizeram os santos em todos os tempos, tendo sempre diante dos olhos o temor dos juízos de Deus. Os ímpios, pelo contrário, sempre costumaram dizer, como muitos ainda dizem hoje: Deus é misericordioso; Ele não nos condenará tão facilmente à perdição eterna. Mas recorda o que diz a Sagrada Escritura: 'Não estejas sem temor acerca do pecado perdoado, e não acrescentes pecado a pecado. E não digas: A misericórdia do Senhor é grande; Ele terá misericórdia da multidão dos meus pecados. Pois a misericórdia e a ira vêm prontamente dele, e sua ira recai sobre os pecadores' (Eclo 5,5-7). Encontramos também Santa Catarina de Sena dizendo: 'Ó infelizes pecadores, não vos fieis na grandeza da misericórdia de Deus; crede-me: quanto mais provocardes a ira desse Deus misericordioso pelo pecado deliberado, tanto mais profundamente sereis lançados no abismo da perdição'.

É indubitavelmente verdade que devemos depositar nossa confiança na misericórdia de Deus; mas São Gregório nos ensina qual deve ser a natureza dessa confiança. Ele diz: 'Aquele que faz tudo quanto pode confie firmemente na misericórdia de Deus. Mas, para aquele que não faz tudo o que está ao seu alcance, confiar na misericórdia de Deus seria mera presunção'. A todos e a cada um de nós, o Apóstolo Pedro diz: 'Empenhai-vos ainda mais para tornar certa, pelas boas obras, a vossa vocação e eleição' (2Pd 1,10).

Vários Padres da Igreja consideram que, do fato de apenas oito pessoas terem sido salvas por ocasião do dilúvio, de apenas quatro - a saber, Ló, sua mulher e suas duas filhas - terem escapado com vida da destruição de Sodoma e Gomorra, e de não mais de dois dos seiscentos mil homens aptos que saíram do Egito terem alcançado a Terra Prometida, enquanto todos os demais morreram no deserto, pode-se concluir que o número dos eleitos entre os cristãos será proporcionalmente pequeno. Isso concorda com o que São João Crisóstomo disse certa vez, ao pregar na cidade de Antioquia: 'Que pensais, meus ouvintes: quantos habitantes desta cidade poderão talvez salvar-se? O que estou prestes a dizer é muito terrível; contudo, não vo-lo ocultarei. Desta cidade tão populosa, com seus milhares de habitantes, nem cem se salvarão; duvido até mesmo que sejam tantos. Pois quanta indiferença vemos entre os idosos, quanta maldade entre os jovens, quanta impiedade entre todas as classes de pessoas!'

Palavras como essas bem podem fazer-nos tremer. Hesitaríamos em acreditar nelas se não viessem dos lábios de tão grande Santo e Padre da Igreja. E, se é verdade que, nos cinco primeiros séculos, quando o zelo e a devoção dos cristãos eram muito mais fervorosos do que agora, um número tão pequeno alcançava a salvação eterna, que acontecerá em nossos dias, quando o crime e o vício predominam em proporções tão assustadoras? Visto que ninguém pode negar, ou sequer duvidar, que o número dos eleitos é pequeno em comparação com o dos réprobos, suplico-te, ó leitor cristão, que te empenhes ao máximo em realizar a obra de tua salvação. Sabes quão terrível é ser condenado eternamente.

Os suplícios e tormentos do Inferno são tão terríveis que não se encontram palavras para descrevê-los. Considera, enquanto é tempo, a eternidade dessas torturas indizíveis e acautela-te, para que também tu não sejas lançado no abismo de uma angústia sem fim. Como poderias suportar tormentos tão imensuráveis e tão intermináveis? Não perderias o ânimo e te entregarias ao desespero? Não te enfurecerias e te revoltarias? Contudo, isso de nada te valeria; apenas acrescentaria sofrimento aos teus padecimentos e aumentaria tua miséria.

Tudo isso é terrível, pavoroso e aterrador. Como é que não pensas nisso mais frequentemente? Como é possível que continues a viver tão descuidadamente? Como é possível que não tenhas maior temor do Inferno? Julgas, talvez, que o Céu te está assegurado? Como é que segues a multidão, como se não soubesses que corres grande perigo de perecer com ela?

Se queres salvar-te, segue o conselho de Santo Anselmo, quando diz: 'Se queres ter certeza de estar no número dos eleitos, esforça-te por ser um dos poucos, e não um dos muitos. E, se queres estar inteiramente seguro de tua salvação, esforça-te por estar entre os mais poucos dentre os poucos; isto é: não sigas a grande maioria dos homens, mas segue aqueles que entram pelo caminho estreito, que renunciam ao mundo, que se entregam à oração e que nunca afrouxam seus esforços, nem de dia nem de noite, para alcançar a felicidade eterna'.

CONCLUSÃO

Façamos, meu caro leitor, com coragem e alegria, tudo quanto for necessário; empreendamos tudo e sacrifiquemos tudo para alcançar a felicidade inefável do Céu, pois jamais poderemos pagar por ele um preço demasiado alto. Não nos deixemos abater pelas dificuldades do caminho, pois, afinal, não é tão difícil merecer o Céu. Se fizéssemos pelo Céu a metade do que as pessoas fazem para ganhar o sustento, adquirir um pouco de riqueza, poder ou fama, ou desfrutar da vida, estaríamos certos de assegurar um lugar elevado entre os santos. Tudo o que temos de fazer para alcançar o Céu é guardar os mandamentos de Deus e de sua Igreja, carregar nossas pequenas cruzes, cumprir as obrigações de nosso estado de vida e vencer a tentação; e, embora isso ultrapasse nossas forças naturais, podemos, contudo, contar com a graça de Deus, se a pedirmos com fervor. Com o auxílio de Deus, tudo se tornará relativamente fácil, pois, como diz São Paulo: 'Tudo posso naquele que me fortalece' (Fl 4,13). A oração fervorosa e perseverante nos assegurará o Céu.

Agora, caro leitor, dirijo-te as palavras que a mãe dos Macabeus disse ao seu filho mais novo, ainda um menino, quando ele estava prestes a ser torturado até a morte, como seus seis irmãos haviam sido antes dele: 'Meu filho, suplico-te que olhes para o Céu'. Olha para o Céu todos os dias, especialmente nos momentos de provação e de tentação. O Céu vale plenamente cada sofrimento, cada sacrifício e cada combate que nos são exigidos, e até mil vezes mais! A vida é breve; suas provações, seus sofrimentos, seus trabalhos, seus combates e suas cruzes também são breves e transitórios; mas o Céu e suas alegrias são inconcebíveis, satisfazem todos os desejos do coração e não têm fim! - 'A nossa tribulação presente, momentânea e leve, produz para nós, acima de toda medida, um peso eterno de glória' (2Cor 4,17). Que Deus, em sua misericórdia, conceda esse feliz fim ao autor deste livro e a todos aqueles em cujas mãos ele vier a cair.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

VIDA INTERIOR: SABER OUVIR A VOZ DO ESPÍRITO SANTO!

Como é possível que tantas pessoas, depois de terem vivido quarenta ou cinquenta anos em estado de graça e recebido frequentemente a Santa Comunhão, quase não manifestem os dons do Espírito Santo em sua conduta e em seus atos, se ofendam por uma ninharia, mostrem grande avidez por elogios e levem uma vida muito natural? Essa condição provém dos pecados veniais que cometem frequentemente sem se preocupar com eles; esses pecados e as inclinações que deles nascem atraem essas almas para as coisas da terra e mantêm os dons do Espírito Santo como que presos, semelhantes a asas que não podem se abrir. Falta recolhimento a essas almas; elas não estão atentas às inspirações do Espírito Santo, que passam despercebidas. Consequentemente, permanecem na obscuridade, não nas trevas do alto, próprias da vida íntima de Deus, mas na obscuridade inferior que procede da matéria, das paixões desordenadas, do pecado e do erro; essa é a explicação de sua inércia espiritual. A essas almas dirigem-se as palavras do salmista, que o Ofício Divino nos apresenta diariamente nas Matinas: 'Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações'.

Para sermos dóceis ao Espírito Santo, devemos primeiro ouvir a sua voz. Para isso, são necessários o recolhimento, o desapego do mundo e de nós mesmos, a guarda do coração e a mortificação da vontade própria e do juízo pessoal. Se o silêncio não reina em nossa alma, se a voz dos afetos excessivamente humanos a perturba, não podemos ouvir com segurança as inspirações do Mestre interior. Por essa razão, o Senhor submete nossos apetites sensíveis a duras provações e, de certo modo, os crucifica, para que finalmente se calem ou se tornem inteiramente submissos à nossa vontade animada pela caridade. Se habitualmente estamos preocupados conosco mesmos, certamente ouviremos a nós mesmos ou, talvez, uma voz mais pérfida e perigosa, que procura nos desviar. Por isso, Nosso Senhor nos convida a morrer para nós mesmos, como o grão de trigo lançado à terra.

Para ouvir as inspirações divinas, devemos, portanto, fazer silêncio em nós mesmos; mas, mesmo então, a voz do Espírito Santo permanece misteriosa. Como diz Cristo: 'O Espírito sopra onde quer; ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim é todo aquele que nasceu do Espírito'. Palavras misteriosas, que devem tornar-nos prudentes e reservados em nossos juízos sobre o próximo, atentos às inclinações que o Senhor coloca em nós e que constituem as sementes diversas de um futuro conhecido pela divina Providência. São inclinações à renúncia, à oração interior; são mais preciosas do que pensamos. Alguns intelectuais sentem, desde cedo, uma atração pela oração mental silenciosa, que talvez seja a única capaz de preservá-los do orgulho espiritual e da aridez do coração, tornando suas almas semelhantes às das crianças, como devem ser para entrar no Reino de Deus e, sobretudo, na intimidade desse Reino. Muitas vezes, uma vocação para determinada ordem religiosa pode ser reconhecida por essas primeiras inclinações.

A voz do Espírito Santo começa, portanto, por um impulso interior, uma iluminação obscura; e, se perseveramos na humildade e na conformidade com a vontade de Deus, esse impulso manifesta claramente à consciência sua origem divina, embora permaneça misterioso. Os primeiros clarões tornar-se-ão outras tantas luzes que, como as estrelas, iluminarão a noite de nossa peregrinação rumo à eternidade; a noite escura tornar-se-á, assim, luminosa, semelhante à aurora da vida celeste: 'E a noite será minha luz em minhas delícias'. Para chegarmos a ser dóceis ao Espírito Santo, precisamos, portanto, de silêncio interior, recolhimento habitual, atenção e fidelidade.

(Excertos da obra 'As Três Idades da Vida Interior', Pe. Reginald Garrigou-Lagrange)

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXIX)

PARTE IV - O CÉU

III. Sobre as alegrias do Céu (continuação)

Quanto às alegrias espirituais dos remidos no Céu, são tão abundantes que, ao falar delas, não se sabe por onde começar nem onde terminar. Considerai as consolações espirituais concedidas neste mundo aos eminentes servos de Deus. Sabemos que a vida de alguns santos na terra se assemelhava mais à dos anjos do que à dos homens, tão frequentemente eram favorecidos com êxtases, visões, luzes interiores e consolações divinas de toda espécie. E, contudo, todos esses favores eram apenas como uma gota do oceano sem limites da doçura celestial. Que arrebatamento será, para as almas santas no Céu, beber diretamente da fonte e haurir livremente do manancial inesgotável de toda felicidade! Todas as faculdades da alma - o entendimento, a memória, a vontade, a imaginação, cada pensamento, cada desejo, todo o ser intelectual, elevado e aperfeiçoado pelo próprio Deus - serão plenamente satisfeitas e contribuirão para aumentar e intensificar as alegrias da alma.

Com o entendimento, os bem-aventurados contemplarão todas as coisas criadas à luz de Deus e penetrarão profundamente os segredos da natureza. Está escrito acerca do rei Salomão: 'Deus deu a Salomão sabedoria e entendimento em grandíssima medida, e uma amplidão de espírito como a areia que está na praia do mar. E a sabedoria de Salomão excedia a sabedoria de todos os orientais e dos egípcios, e ele era mais sábio do que todos os homens. Proferiu também três mil parábolas, e os seus cânticos foram mil e cinco. Tratou das árvores, desde o cedro que está no Líbano até ao hissopo que nasce nos muros; e discorreu sobre os animais, as aves, os répteis e os peixes. E vinham de todas as nações ouvir a sabedoria de Salomão, enviados por todos os reis da terra que tinham ouvido falar da sua sabedoria' (3Rs 4,29-34).

Nunca ouvimos falar de uma sabedoria igual a essa, nem podemos deixar de nos admirar com a vastidão e a perspicácia do entendimento desse grande rei. Contudo, comparada com a sabedoria do menor dos santos no Céu, ela não supera o conhecimento de uma criança de três anos diante da erudição e da sabedoria do mais douto dos homens. Pois todas as operações da natureza e todas as forças do universo estão manifestas e reveladas ao menor dos santos no Céu. Nada é oculto ou misterioso aos seus olhos. Ele conhece tudo o que a Santíssima Trindade realizou desde toda a eternidade; sabe de que maneira admirável os céus e a terra foram criados do nada e com que sabedoria tudo foi ordenado e sustentado, desde o princípio até ao fim dos tempos. 

Sabe como o Filho de Deus foi gerado pelo Pai antes de todos os séculos; sabe como o Espírito Santo procede eternamente do Pai e do Filho. Sabe como Cristo nasceu de uma mãe terrena sem violar a sua virgindade; conhece tudo o que Nosso Senhor fez e sofreu durante toda a sua vida, e como cada santo e servo de Deus viveu para Deus e trabalhou ao seu serviço. Tudo o que, nas Sagradas Escrituras, nos parece misterioso e incompreensível, assim como os mistérios da religião e da natureza, ele compreende sem um instante de reflexão. Ainda que tivesses sido na terra apenas um camponês simples e iletrado, ao entrares no Céu teus olhos se abririam, e verias claramente e compreenderias perfeitamente todas as coisas. Que alegria, que felicidade esse conhecimento e essa visão clara te proporcionarão! Que agradecimentos cheios de gratidão renderás a Deus por isso!

Em segundo lugar, no que diz respeito à memória, os bem-aventurados também encontrarão no Céu a plenitude da alegria, pois ela, assim como o entendimento, será iluminada por Deus; e todos os acontecimentos de sua vida passada estarão tão vivos e tão nítidos em sua lembrança como se os contemplassem inscritos em tábuas diante dos olhos. Então perceberão por que caminho admirável Deus os conduziu ao seu destino eterno, com que misericórdia lhes perdoou as transgressões, como os socorreu na hora da tentação e como fez com que todas as coisas concorressem para o seu bem.

Essa visão retrospectiva despertará no coração de cada um a mais santa gratidão para com Deus, e muitas vezes a expressarão assim: 'Ó meu Deus, a quem amo acima de todas as coisas, quão grandes são os dons e as graças que me concedestes! Quão generoso fostes para comigo! Quantas vezes me livrastes do perigo de cair em pecado! Com que misericórdia me preservastes da condenação eterna e de que modo admirável me guiastes pelo caminho da salvação! Como poderei louvar e exaltar suficientemente a vossa infinita bondade? Como poderei agradecer-vos e adorar-vos suficientemente pelos benefícios que tão abundantemente derramastes sobre mim?'

Em terceiro lugar, a vontade de cada um dos bem-aventurados será coroada de felicidade e abrasada de amor por Deus e pelos bem-aventurados em cuja companhia se encontra. Os prazeres mais nobres de que um homem pode desfrutar provêm de sua vontade. Um homem é feliz quando tudo lhe sucede conforme os seus desejos; quando adquire e possui tudo o que seu coração pode desejar; quando é estimado e elogiado por seus semelhantes; quando ama e é amado por aquele a quem dedica suas afeições. Tudo isso, e muito mais, constitui a porção dos bem-aventurados, mas no mais alto grau e na maior perfeição possível.

O amor de Deus por eles e o amor deles por Deus são tão profundos que ficam abrasados e consumidos pela caridade divina; sua vontade se assemelha a uma brasa viva, resplandecente de luz e calor, até ser absorvida pelo fogo de que faz parte. Assim acontece com os santos no Céu: impregnados de caridade divina, ardem e resplandecem na luz de Deus e refletem cada vez mais a sua imagem. São João diz: 'Sabemos que, quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque o veremos tal como Ele é' (1Jo 3,2). No amor de Deus e na união com Ele, encontram uma delícia tão inefável que, inebriados pela doçura da caridade divina, se perdem nele.

Não há maior felicidade na terra do que amar e ser amado; e, quanto mais terno, puro e ardente é esse amor, maiores são a alegria e a satisfação que nos proporciona. Ora, o amor do Céu, o amor dos remidos por Deus e uns pelos outros, é a mais terna, a mais pura e a mais ardente afeição, uma afeição infinita e sem limites; por isso, é fonte de imensa alegria e de felicidade indizível. Que o Deus de toda graça nos faça participantes desse amor, e então conheceremos por experiência aquilo de que as palavras não conseguem transmitir uma ideia. Ninguém terá o privilégio de participar desse amor se, aqui na terra, não viver no amor de Deus e não morrer na sua amizade. Esforcemo-nos, portanto, por fazer crescer em nós essa caridade divina, para que, na vida futura, sejamos admitidos ao pleno gozo do seu amor.

A visão beatífica da face divina é uma alegria acima de todas as alegrias, uma delícia que supera de longe todos os prazeres celestiais de que falamos. Sem ela, todas as outras alegrias perderiam o seu sabor e se transformariam em amargura. Certa vez, quando o demônio falava pela boca de uma pessoa possessa, disse: 'Se todos os céus fossem uma folha de pergaminho, se todo o oceano fosse tinta, se cada folha de relva fosse uma pena e cada homem da terra um escriba, isso não bastaria para descrever a intensa e incomensurável delícia que a visão de Deus proporciona aos bem-aventurados'. Em outra ocasião, disse que, se Deus se dignasse conceder-lhe o privilégio de contemplar a sua face divina por alguns instantes, suportaria de bom grado, se isso fosse possível, todos os tormentos do Inferno em sua própria pessoa até ao Dia do Juízo. Isso nos ensina que, se um homem passasse toda a sua vida praticando as mais severas penitências e, depois da morte, lhe fosse permitido contemplar a face de Deus por um único instante, já teria recebido uma ampla recompensa por todas as suas mortificações.

Considerai agora quão sublime deve ser a felicidade que os santos encontram na contemplação, na fruição e na posse do Deus supremo! Se contemplar a face divina por um breve instante é uma alegria que supera tudo o que uma vida de prazeres oferece ao homem mundano, que arrebatamento será contemplar para sempre, com olhos jamais obscurecidos, a sua infinita beleza! Que arrebatamento será possuir esse Bem supremo por toda a eternidade!

Deus é um ser em quem tudo o que há de mais admirável e desejável existe no mais alto grau. Nele se encontra tudo o que mais nos atrai e fascina: clemência, beleza, justiça, compaixão, sabedoria, majestade, todos os atributos doces e sublimes em sua mais plena perfeição. De Deus procede toda graça, tudo o que necessitamos para o nosso bem espiritual e temporal, toda a felicidade, a alegria, o repouso, a consolação, todos os benefícios e bênçãos de que suas criaturas desfrutam no Céu e na terra. E, quando os remidos passarem a contemplar esse Bem infinito e a possuir essa fonte de tudo o que merece ser amado, admirado e desejado, sua alegria será verdadeiramente plena. Que delícia indizível lhes proporcionará compreender o mistério da Encarnação e o mistério da Santíssima Eucaristia!

Que delícia indizível será para eles compreender como Deus pode ser invisível e, contudo, ver todas as coisas; como pode permanecer imóvel e, contudo, ser a fonte de todo movimento; como pode ser imutável e, contudo, ser o autor de toda mudança. Esses e muitos outros mistérios serão esclarecidos aos bem-aventurados na luz de Deus, e essa fonte de conhecimento não se esgotará por toda a eternidade. Quanto mais conhecerem a Deus, mais crescerá o seu desejo de conhecê-lo melhor, e esse conhecimento não terá limite nem imperfeição. Assim, terão sempre fome e, contudo, estarão perfeitamente saciados; esse rico tesouro estará sempre aberto para eles, e jamais esgotarão todas as riquezas que contém. Medita frequentemente sobre esse assunto, ó leitor, e desperta em tua alma um ardente desejo de desfrutar de Deus pelos séculos dos séculos.

Ó meu Deus e meu tudo! Vós que sois beleza infinita, doçura infinita, bondade infinita! De todo o coração suspiro por Vós. Assim como o cervo anseia pelas águas dos ribeiros, minha alma tem sede de Vós, o Deus poderoso e vivo; quando irei apresentar-me diante de vossa presença? Quando terei a ventura de vos contemplar e de desfrutar de Vós para sempre? Ouso esperar que essa alegria possa ser minha; humildemente espero e confio em vossa infinita bondade, pois não rejeitais ninguém que se aproxima de Vós com um coração contrito e cheio de amor. Quão rico, quão feliz, quão alegre serei quando possuir esse Bem supremo! Eu vos abraçarei com reverente amor e me perderei em Vós, quando enfim vos possuir.

Estou pronto e desejo, ó meu Deus, fazer tudo o que estiver ao meu alcance para tornar-me digno de ser admitido em vossa presença. Estou disposto a sofrer tudo o que minha frágil natureza me permitir suportar. Estou disposto a afastar-me do mundo e a renunciar a todas as coisas terrenas, na medida em que os deveres do meu estado o permitirem. Estou disposto a trabalhar, tanto quanto puder, em vosso serviço; e assim farei, na esperança de vos alcançar, ó Bem infinito e eterno, e de contemplar para sempre a vossa infinita beleza. Mais ainda: mesmo que soubesse que haveria de me perder, ainda assim vos amaria. Pois não vos amo porque espero alcançar por Vós a salvação eterna, mas porque sois a Beleza perfeita e a Bondade infinita, dignas de ser o único objeto de nossas afeições e aspirações.

Crendo e esperando assim, desejo viver e morrer, e tomo os anjos e os santos por testemunhas da verdade do que digo. E, para confirmá-lo, repito com o coração e com a voz:

'Meu Deus, eu vos amo, não porque assim espere alcançar o Céu;
nem porque aqueles que não vos amam devam arder eternamente.
não pela esperança de ganhar alguma coisa, nem buscando uma recompensa;
mas como Vós mesmo me amastes, ó Senhor que sempre amais'.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

ONDE ESTÁS, QUANDO NÃO ESTÁS CONTIGO?

 


1. Não podemos confiar muito em nós, porque frequentemente nos faltam a graça e o critério. Pouca luz temos em nós e esta facilmente a perdemos por negligência. De ordinário também não avaliamos quanta é a nossa cegueira interior. A miúdo procedemos mal e nos desculpamos, o que é pior. Às vezes nos move a paixão, e pensamos que é zelo. Repreendemos nos outros as faltas leves, e nos descuidamos das nossas maiores. Bem depressa sentimos e ponderamos o que dos outros sofremos, mas não se nos dá do que os outros sofrem de nós. Quem bem e retamente avaliasse suas obras não seria capaz de julgar os outros com rigor.

2. O homem interior antepõe o cuidado de si a todos os outros cuidados, e quem se ocupa de si com diligência facilmente deixa de falar dos outros. Nunca serás homem espiritual e devoto, se não calares dos outros, atendendo a ti próprio com especial cuidado. Se de ti só e de Deus cuidares, pouco te moverá o que se passa por fora. Onde estás, quando não estás contigo? E, depois de tudo percorrido, que ganhaste se esqueceste a ti mesmo? Se queres ter paz e verdadeiro sossego, é preciso que tudo mais dispenses, e a ti só tenhas diante dos olhos.

3. Portanto, grandes progressos farás se te conservares livre de todo cuidado temporal; muito te atrasará o apego a alguma coisa temporal. Nada te seja grande, nobre, aceito ou agradável, a não ser Deus mesmo ou o que for de Deus. Considera vã toda consolação que te vier das criaturas. A alma que ama a Deus despreza tudo que é abaixo de Deus. Só Deus eterno e imenso, que tudo enche, é o consolo da alma e a verdadeira alegria do coração.

(Da Imitação de Cristo, de Thomas de Kempis)

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXVIII)

    

PARTE IV - O CÉU

II. Sobre as alegrias do Céu

Agora que meditamos sobre a Jerusalém celeste, a cidade de Deus, passaremos a considerar a felicidade de que gozam os santos que nela habitam, tanto no que diz respeito ao corpo quanto à alma. É verdade que, por enquanto, como regra geral, eles ainda não possuem seus corpos; mas, no Último Dia, todos os receberão novamente, e esses corpos serão então tão belos que nada neste mundo poderá comparar-se a eles. Isso se deverá principalmente ao fato de que cada membro será dotado de quatro qualidades ou atributos, a saber: beleza, impassibilidade, agilidade e sutileza. Em razão de sua beleza ou glória, o corpo de cada um dos eleitos resplandecerá como uma estrela; contudo, assim como uma estrela difere de outra em glória, também os santos brilharão com maior ou menor esplendor, conforme suas vidas na terra tenham sido mais ou menos santas.

Nesses corpos glorificados e radiantes, os bem-aventurados serão de uma beleza tão inexprimível que, se um homem mortal pudesse agora contemplar um desses seres resplandecentes, ficaria deslumbrado por seu fulgor e estaria prestes a morrer de alegria. Em suas revelações a Santa Brígida, a Santíssima Mãe de Deus disse certa vez: 'Os santos estão ao redor de meu Filho como incontáveis estrelas, cuja glória não pode ser comparada a nenhuma luz temporal. Acredita-me: se os santos pudessem ser vistos resplandecendo com a glória que agora possuem, nenhum olho humano poderia suportar sua luz; todos desviariam o olhar, deslumbrados e cegos'. Pensa que felicidade será para ti quando teu corpo resplandecer como o sol ao meio-dia. Tudo o que vive e se move alegra-se com a luz e o calor do sol: ele enche de alegria toda a face da natureza. Do mesmo modo, teu corpo será motivo de alegria e deleite para ti mesmo e para todos os que estiverem ao teu redor no Céu, por causa de sua beleza e de sua glória.

O segundo atributo é a impassibilidade, pois o corpo glorificado é incapaz de sofrer. Jamais estará doente ou enfermo; não envelhecerá nem perderá sua beleza. Nunca mais será afligido pela fome ou pela sede, pelo calor ou pelo frio, pelas correntes de ar ou pela umidade. Nunca mais poderá ser queimado pelo fogo, afogado na água, ferido pela espada ou esmagado sob algum peso; será imortal, imutável, eternamente dotado de perfeita saúde e de força que jamais desfalece. Se alguém na terra pudesse adquirir esse dom da impassibilidade, com que alegria daria tudo o que possui para obtê-lo!

O terceiro atributo é a agilidade. O corpo glorificado será capaz de percorrer as maiores distâncias com a velocidade do pensamento. Num só instante poderá descer do Céu à terra; num só instante poderá passar de uma extremidade dos Céus à outra, sem esforço, sem fadiga, sem dificuldade. Muitas vezes desejamos poder voar como os pássaros, avançar velozmente como as nuvens sobre as asas do vento, acompanhar o pensamento em seu rápido voo. Se fosse possível adquirir tal poder, todos abririam mão de todas as suas riquezas terrenas para possuí-lo, ainda que apenas por um único ano. Como é, então, que te esforças tão pouco para assegurar para ti a posse desse dom por toda a eternidade?

O quarto atributo do corpo glorificado é a sutileza, que consiste na faculdade de penetrar toda matéria, entrando e saindo por onde quer que deseje. Nenhuma parede é tão espessa, nenhum portão de ferro tão maciço, nenhuma montanha tão grande que possa constituir obstáculo para o corpo glorificado. Assim como os raios do sol atravessam o vidro, também os corpos dos redimidos, tal como se encontram no Céu, atravessam toda matéria, por mais densa e sólida que seja. Eles também podem tornar-se visíveis ou invisíveis à vontade. O que não darias para possuir semelhante faculdade?

Quão grande é a Vossa generosidade, Deus onipotente, para com os vossos eleitos! Vós lhes concedeis dons preciosos e sublimes, que nenhuma quantidade de riquezas deste mundo poderia comprar. Quem não passaria de bom grado a vida ao vosso serviço e não suportaria as aflições deste mundo, a fim de possuir por toda a eternidade esses dons inestimáveis? Pergunta a este pobre e frágil corpo se ele não desejaria ardentemente resplandecer como a luz, estar livre de todo sofrimento, mover-se com a velocidade do pensamento e ser tão livre de impedimentos quanto um espírito. Possuir semelhantes poderes seria, de fato, uma alegria e uma consolação inexprimíveis.

Não consentirias em que te fosse imposta uma dura penitência durante um ano inteiro, se ao fim dele esses atributos te fossem concedidos? Se assim é, não consideres um fardo levar aqui embaixo uma vida de penitência, na esperança de que esses belos dons sejam teus por toda a eternidade. Cuida para que, aqui na terra, ames a luz - a luz das boas obras; suporta com paciência toda dor e tribulação; sê pronto e zeloso no serviço de Deus; mortifica cada vez mais em ti todos os desejos sensuais, e certamente serás, na vida futura, o feliz possuidor desses quatro atributos do corpo glorificado.

Voltemos agora nossa atenção para o prazer e a satisfação que os bem-aventurados experimentarão por meio dos cinco sentidos; e, antes de tudo, consideremos que satisfação encontrarão por meio da visão. A faculdade da visão será tão perfeita que nada poderá ocultar-se aos seus olhos. Verão aquilo que está distante com a mesma nitidez com que veem o que está próximo; o menor objeto tão claramente quanto o maior; as trevas lhes serão tão claras quanto a luz. Sua visão será tão límpida que poderão contemplar o sol sem desviar os olhos, ainda que sua luz fosse cem vezes mais deslumbrante. Sua vista será tão penetrante que nenhum obstáculo poderá impedi-la. 

Pensa agora no deleite que aguarda o teu sentido da visão, quando teus olhos contemplarem pela primeira vez as glórias do Céu. Em primeiro lugar, contemplarão a própria cidade, com seus palácios e moradas, cujo esplendor e majestade são tão grandes que a contemplação dessas magníficas construções proporcionaria agradável ocupação por toda uma eternidade. Em segundo lugar, contemplarás com deleite as belas flores, as árvores, os jardins e todas as outras maravilhas que atrairão o olhar no Céu. Em terceiro lugar, será para ti um prazer inexprimível contemplar a ti mesmo e a todos os outros santos revestidos de beleza, glória, esplendor, graça e majestade, ultrapassando em muito tudo quanto se pode ver neste mundo.

Em quarto lugar, verás a incomparável beleza dos Anjos, pois acredita-se que esses espíritos celestes assumirão corpos de extraordinária formosura, formados do ar, a fim de se tornarem visíveis aos bem-aventurados. Essa opinião é sustentada por Santo Anselmo. E se a beleza de um Anjo excede incomensuravelmente toda a beleza humana, não te alegrarás em contemplar, por toda a eternidade, tantos milhares de seres angélicos, todos de beleza incomparável? Em quinto lugar, sobre nada repousarão teus olhos com tão intenso deleite quanto sobre a inexprimível beleza de Jesus e Maria, cujos corpos glorificados são tão irresistivelmente encantadores, atraentes, belos e majestosos que, se fosse permitido aos condenados contemplá-los, já não considerariam o Inferno insuportável.

Considera agora que fonte inesgotável de deleite será estar contínua e eternamente cercado por visões tão encantadoras e tão sublimes. Nossa inclinação natural leva-nos, aqui embaixo, a empreender longas viagens para contemplar alguma bela paisagem, a despender grandes somas para adquirir algum objeto belo e até mesmo a colocar em perigo nossas almas na busca ardente daquilo que é belo. Se o amor pela beleza está tão profundamente enraizado em nossa natureza, como é estranho que não ansiemos pela beleza do Céu! Por que não fechamos nossos olhos às atrações da terra, para que sejamos considerados dignos de abri-los diante dos esplendores do Céu? 

Da visão, passemos agora à audição. Seria imprudente tentar descrever o prazer que os ouvidos experimentarão ao escutar os cânticos dos Anjos e a suave música de suas harpas. Os nove coros dos Anjos cantarão os louvores de Deus, e os bem-aventurados unir-se-ão a eles não apenas de coração, mas também mesclarão suas vozes nessa doce harmonia. Assim, as faculdades tanto da alma quanto do corpo serão exercitadas, e os louvores de Deus se elevarão em melodiosos hinos e cânticos celestes.

Pois, se nós, mortais, somos impelidos pelo amor fervoroso e pela alegria do coração a elevar nossa voz em cânticos, quanto mais assim farão os santos Anjos e os bem-aventurados santos, todos abrasados pelo amor de Deus e repletos de uma alegria inexprimível! Seus hinos de louvor ressoarão incessantemente pelas moradas do Céu. Em espírito profético, o velho Tobias diz: 'As portas de Jerusalém serão construídas de safira e esmeralda, e todos os seus muros ao redor serão feitos de pedras preciosas; todas as suas ruas serão pavimentadas com pedras brancas e puras, e em suas ruas cantar-se-á: Aleluia' (Tb 13,21-22).

Essas palavras parecem indicar que os redimidos caminharão livremente uns com os outros pela Jerusalém celeste, unindo suas vozes em jubilosos aleluias. Em maravilhosa harmonia, os Anjos e os Santos louvarão e glorificarão o seu Deus. Que felicidade para eles, ó meu Deus! Que doçura, que alegria! Se os cânticos suaves nos alegram aqui e despertam sentimentos elevados em nosso coração, os cânticos dos Anjos e dos Santos certamente nos causarão arrebatamento e deleite quando tivermos a felicidade de ser admitidos em sua bem-aventurada companhia.

Meu Deus e meu tudo! Quão grande é a abundância dos favores que preparastes para aqueles que vos amam! Meu coração tem sede da torrente das alegrias celestes. Verdadeiramente bem-aventurados são aqueles que habitam em vossa casa, ó Senhor; eles vos louvarão pelos séculos dos séculos. Os santos exultarão e se alegrarão nessa glória, e os altos louvores de Deus estarão em seus lábios. Quem me dera que já agora me fosse concedido unir-me a esses cidadãos do Céu e, juntamente com eles, exaltar para sempre o vosso nome! Quando chegará a hora, aquela feliz hora em que me será concedido contemplar a majestade da vossa morada? Até que ela chegue, suportarei com paciência todos os sofrimentos e tribulações deste mundo e tornarei mais luminosa minha jornada por este vale de lágrimas cantando os vossos louvores; bendirei o Senhor em todo o tempo, o seu louvor estará sempre em minha boca. Engrandecei comigo o Senhor, ó Anjos e Santos; exaltemos para sempre o seu nome.

Do sentido da audição passemos agora ao olfato. Os deliciosos aromas do Paraíso ultrapassam tudo quanto o homem possa imaginar. Os mais belos lírios, rosas, violetas, cravos e outras flores raras e encantadoras crescem nos jardins do Paraíso celeste, e sua fragrância é tão deleitável que, se um homem possuísse apenas uma pétala de uma dessas flores, ficaria como que arrebatado pela suavidade de seu perfume. 'Israel [isto é, a multidão dos redimidos] florescerá como o lírio, e seu perfume será como o do Líbano' (Os 14,6).

A experiência tem mostrado abundantemente que os corpos dos santos, mesmo enquanto repousam em seus túmulos, já exalam suave fragrância; quão mais intensa será essa fragrância quando forem novamente chamados à vida e glorificados! Acima de todos, os corpos de Cristo e de sua Santíssima Mãe exalarão perfume tão suave que todo o Céu será por ele impregnado. Quão amáveis são os vossos tabernáculos, ó Senhor, onde seremos revigorados pelos aromas fragrantes que nos envolverão! Pois, se os suaves perfumes nos confortam e reanimam aqui embaixo, certamente os aromas do Paraíso darão força e refrigério aos bem-aventurados.

Até mesmo o sentido do paladar será satisfeito no Céu; não, é verdade, pelo consumo de alimentos comuns, mas de uma maneira que ainda não somos capazes de conceber. Os bem-aventurados saborearão um doce alimento que os saciará, como aprendemos pelas palavras do Salmista real: 'Eles se inebriarão com a abundância da vossa casa, e Vós os fareis beber da torrente de vossas delícias' (Sl 35,9). 

O sentido do tato terá igualmente o seu prazer particular. Quanto mais alguém se tiver mortificado aqui na terra, maior será o bem-estar de seu corpo na vida futura. Santo Anselmo diz: 'Na vida futura, os santos experimentarão uma sensação de conforto e bem-estar inexprimíveis. Essa agradável sensação penetrará todos os membros, produzindo um maravilhoso sentimento de paz e contentamento'. Com efeito, o que poderia faltar ao corpo glorificado no Céu? Ele gozará de saúde perpétua, repouso perpétuo e felicidade perpétua, de tal maneira que, na superabundância de alegria e satisfação, mal poderá compreender quão invejável é a sua condição.

Finalmente, os redimidos encontrarão imenso prazer em contemplar uns aos outros, em conversar entre si, no convívio afetuoso e na amizade recíproca. Pensa que bela visão será contemplar centenas de milhares de seres em todo o esplendor de seu estado glorificado. Se na terra consideramos agradável contemplar um belo rosto, podemos compreender, ainda que apenas em pequena medida, como será no Céu, onde o mais humilde de seus habitantes possuirá uma beleza que ultrapassa em muito os encantos pessoais de qualquer homem mortal.

Além disso, os redimidos estarão unidos entre si pelo vínculo da caridade mútua, pois amar-se-ão uns aos outros mais ternamente do que os mais afetuosos irmãos e irmãs. Ainda que jamais tenham se encontrado na terra, conhecer-se-ão melhor do que se tivessem sido criados juntos. Cada um conhecerá os acontecimentos da vida terrena do outro. Cada um poderá ver o coração do outro e saber quão grande é a afeição que este lhe dedica. Cada um se alegrará com a glória do outro como se fosse a sua própria; e o mais humilde no Reino dos Céus exultará com a glória do mais elevado tanto quanto este próprio poderá exultar. Isso foi explicado a Santo Agostinho por São João Batista em uma visão: 'Sabe” - disse-lhe ele - 'que, por causa da inexprimível caridade que os bem-aventurados têm uns pelos outros, cada qual não sente menor alegria pela exaltação do outro do que sentiria se ela fosse sua. Mais ainda: aquele que é maior deseja que o menor lhe seja igual e até mais honrado do que ele próprio; pois, no triunfo deste, ele também triunfaria. Da mesma maneira, aqueles que ocupam um lugar mais humilde alegram-se com a glória dos que ocupam os lugares mais elevados; não os invejam, longe disso. Não desejariam para si a elevada posição se os outros não a possuíssem; antes lhes dariam uma parte de sua própria glória, se isso fosse possível'.

Daí se pode compreender que os santos se alegram com o esplendor com que seus companheiros são coroados e nutrem por todos e por cada um deles uma afeição sincera e profunda. De modo especial, amam aquele que, por sua palavra ou por seu exemplo, os ajudou no caminho para o Céu; a esse não sabem como manifestar suficientemente sua gratidão. Cada um sentirá também particular afeição pelo santo que escolheu como seu padroeiro na terra e a quem honrou com especial devoção; e essa afeição será correspondida por aquele a quem foi dirigida. Aqueles que estiveram assim ligados uns aos outros encontrar-se-ão com maior frequência; conversarão sobre coisas santas e contarão mutuamente suas experiências na terra, narrando como, de maneira maravilhosa, a Providência de Deus os salvou da perdição eterna. Em suma, serão incontáveis os prazeres proporcionados aos redimidos por esse convívio, e eles farão tudo quanto estiver ao seu alcance para agradar uns aos outros e demonstrar mutuamente sua bondade.

Ó Deus de todas as misericórdias! Quem não desejaria entrar nessa terra de paz eterna, onde existem alegrias que ultrapassam tudo quanto o homem mortal pode conceber, alegrias tão numerosas e variadas, tão maravilhosas e tão doces! Às vezes, os prazeres deste mundo exercem tamanho fascínio sobre o homem que ele não consegue renunciar a eles, ainda que veja o Inferno aberto diante de si. E, no entanto, esses prazeres são menos que nada quando comparados às alegrias do Céu; na verdade, todas as alegrias que alguém possa imaginar ou desejar para si não podem igualar sequer a menor e mais humilde das alegrias que serão nossas por toda a eternidade! Ó meu Deus, quão inexprimível será a bem-aventurança do Céu! Que me seja concedida a felicidade de participar dessa ventura!

Movido por esse desejo, não vos darei descanso; todos os dias vos suplicarei que me leveis para junto de Vós. Desprenderei meu coração deste mundo; renunciarei inteiramente a todos os prazeres terrenos; todas as minhas aspirações, todos os meus afetos estarão voltados para os tesouros celestes, e todos os dias me conservarei pronto para abandonar este cenário terreno. Quanto mais cedo a morte vier buscar-me, tanto mais bem-vinda será, pois deixarei esta terra de exílio e entrarei em minha verdadeira pátria. Que Deus conceda que assim seja. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXVII)

   

PARTE IV - O CÉU

I. Sobre a natureza do Céu

Não devemos, como fazem alguns, imaginar o Céu como um reino puramente espiritual. Pois o Céu é um lugar determinado, onde não somente Deus está e onde agora se encontram os Anjos, mas onde também está Cristo em sua sagrada humanidade e Nossa Senhora com o seu corpo humano. Ali também habitarão todos os bem-aventurados com seus corpos glorificados, depois do Juízo Final. Se o Céu é um lugar determinado deve, por conseguinte, ser um reino visível, e não meramente espiritual; pois um lugar deve, por sua própria natureza, ser em certa medida conforme àqueles que nele habitam.

Além disso, sabemos que, depois do Juízo Final, os santos contemplarão o Céu com seus olhos corporais e, consequentemente, ele deve ser um reino visível. Ignoramos de que será constituída a estrutura material do Céu; sabemos apenas que será algo infinitamente superior e mais precioso do que a matéria de que são formadas as demais esferas, o sol, a lua e os outros corpos celestes. Pois, tendo Deus criado o Céu para si mesmo e para os seus eleitos, fê-lo tão belo e tão glorioso que os bem-aventurados jamais se cansarão de contemplar os seus esplendores por toda a eternidade.

Contudo, repito, não está ao alcance de quem escreve descrever, nem ao alcance de quem lê compreender, aquilo de que o Céu é realmente constituído. Talvez possamos aprender algo a esse respeito pelo que escreve Santa Teresa. Falando de si mesma, ela diz: 'A Santíssima Mãe de Deus deu-me uma joia e colocou em torno do meu pescoço uma magnífica corrente de ouro, à qual estava presa uma cruz de valor inestimável. Tanto o ouro como as pedras preciosas que me foram assim dados são tão diferentes daqueles que possuímos neste mundo que nenhuma comparação pode ser estabelecida entre eles. São belos para além de tudo quanto se possa conceber, e a matéria de que são compostos está além do nosso conhecimento. Pois aquilo que chamamos ouro e pedras preciosas, comparado a eles, parece escuro e sem brilho como carvão'.

Por essas palavras, podemos formar alguma ideia da beleza, da raridade e da preciosidade das pedras com que são construídas as muralhas do Céu. Delas também inferimos que a luz do Céu é tão deslumbrante que não apenas ofusca o sol e as estrelas, mas faz com que todo o brilho terreno pareça escuridão. Temos, além disso, todas as razões para crer que, na luz do Céu, todas as cores do arco-íris são vistas a cintilar, conferindo-lhe um encanto indescritível aos olhos dos bem-aventurados. Ademais, os corpos dos redimidos resplandecem de luz, e quanto mais santa tiver sido a sua vida na terra, mais brilhantemente resplandecerão no Céu.

Qual não deve ser a glória daquele firmamento celestial, cintilando com o fulgor de muitos milhares de estrelas! Nada é mais agradável aos olhos do que a luz; quão brilhante, quão bela deve ser a luz do Céu, se, comparados a ela, os luminosos raios do sol não passam de trevas! Quanto devem os redimidos deleitar-se na contemplação dessa claridade pura e deslumbrante! Ó meu Deus, concedei-me a graça de, enquanto estiver na terra, amar a luz e evitar as obras das trevas, para que eu possa alcançar a contemplação da luz eterna e perpétua!

Quanto à extensão do Céu, tudo o que sabemos é que ela é incomensurável, inconcebível e incompreensível. Um sábio teólogo, falando sobre esse assunto, diz: 'Se Deus transformasse cada grão de areia em um novo mundo, todas essas inúmeras esferas ainda não preencheriam a imensidão do Céu'. São Bernardo também afirma que temos fundamento para crer que a cada um dos salvos será destinado, na pátria celestial, um lugar e uma herança cujos limites não serão estreitos.

Quão incomensuravelmente vasto deve ser, então, o Céu! Bem pôde o profeta Baruc exclamar: 'Ó Israel, quão grande é a casa de Deus, e quão vasto é o lugar de sua possessão! É grande e não tem fim; é elevado e imenso' (Br 3,24-25). Podemos facilmente acreditar nisso, pois temos diante de nossos olhos os ilimitados domínios do espaço. Mas nada sabemos acerca da natureza dos infinitos domínios do Céu, embora possamos, até certo ponto, representá-los à nossa imaginação. Seria contrário ao bom senso pensar que essas vastas regiões celestiais sejam vazias e desertas, ou que o grande Artífice, para quem a criação de mundos é coisa tão pequena, as deixasse sem beleza e sem ornamento.

Se príncipes e senhores ocupam todos os espaços e não deixam recanto algum de seus palácios ou de seus jardins sem embelezamento e ornamento, haveremos de supor que o grande Rei do Céu permitiria que o seu palácio real, o seu paraíso celestial, carecesse de magnificência e beleza? O que haveria para deleitar os sentidos dos santos se o Céu fosse apenas um vasto espaço vazio? Que prazer, além da visão beatífica de Deus, haveria para eles, se permanecessem todos reunidos numa planície árida, como ovelhas encerradas num aprisco? Não temos, portanto, razão para crer que existem no Céu esplêndidas e espaçosas moradas, construídas de materiais incorruptíveis?

Mais ainda: um erudito comentador da Sagrada Escritura considera provável que, pela admirável habilidade e sabedoria do grande Criador, esses belos palácios e moradas tenham formas e dimensões variadas, sendo alguns mais baixos, outros mais elevados, e alguns mais ricamente adornados do que outros. Elevando-se acima de todos e superando-os em grandeza e magnificência, destaca-se o palácio do grande Rei, Jesus Cristo; e, logo depois, em esplendor e dignidade, vem a morada de Nossa Soberana Senhora, a Rainha do Céu. Seguem-se os doze palácios dos doze Apóstolos, tão ricos e belos que o próprio Céu se maravilha diante de sua magnificência. Além desses, existem inúmeras mansões e moradas que tornam a Jerusalém celeste indescritivelmente majestosa e encantadora. Essas esplêndidas habitações foram criadas quando o próprio Céu foi feito e destinadas a ser a morada dos redimidos.

A Igreja nos ensina, no Ofício dos Mártires, que cada um dos eleitos terá seu próprio lugar no reino dos Céus. Dabo sanctis meis locum nominatum in regno Patris mei, dicit Dominus - Darei aos meus santos um lugar determinado no reino de meu Pai, diz o Senhor. E o Salmista Real diz: 'Exultarão os santos na glória; alegrar-se-ão em seus leitos' (Sl 149,5). Temos também as palavras de Cristo: 'Fazei-vos amigos com as riquezas da iniquidade, para que, quando vierdes a faltar, eles vos recebam nas moradas eternas' (Lc 16,9) - isto é, empregai em obras de caridade e beneficência aquilo que possuís além do necessário, para que essas obras se tornem como amigos que vos obtenham a entrada nas moradas eternas e celestiais.

E ainda: 'Na casa de meu Pai há muitas moradas' (Jo 14,2). Daí se pode inferir que cada um dos redimidos possui sua própria morada no Céu. Pois, assim como um pai justo e prudente reparte seus bens entre os filhos, atribuindo a cada um a sua parte particular, assim também nosso Pai celestial distribui a cada um dos seus eleitos uma parte dos seus tesouros celestes, tanto visíveis como invisíveis, dando a cada qual mais ou menos, conforme aquilo que merece receber.

Quem poderá descrever a majestade e a glória dessas moradas celestes? Se os reis e príncipes deste mundo constroem para si palácios grandiosos e suntuosos, qual não deve ser o esplendor e a beleza da cidade celestial que o Rei dos reis edificou para si mesmo e para aqueles que o amam e são os seus amigos? Ouçamos o que São João diz acerca dessa cidade: 'Um Anjo mostrou-me a cidade santa, Jerusalém, que tinha a glória de Deus. Sua luz era semelhante a uma pedra preciosa, como pedra de jaspe, transparente como cristal. A própria cidade era de ouro puro, semelhante a vidro límpido, e os fundamentos da muralha da cidade estavam adornados com toda espécie de pedras preciosas' (Ap 21,11.18-19).

Falando das dimensões da cidade, escreve o mesmo Apóstolo: 'O Anjo que falava comigo tinha por medida uma cana de ouro, para medir a cidade, suas portas e sua muralha. A cidade era quadrangular, e seu comprimento era igual à largura; e ele mediu a cidade com a cana de ouro: doze mil estádios; seu comprimento, sua largura e sua altura eram iguais. E mediu a sua muralha: cento e quarenta e quatro côvados, medida de homem, que era também a medida usada pelo Anjo' (Jo 21,15-17). Um estádio equivale a duzentas e vinte jardas, e oito estádios perfazem uma milha. Deve-se observar que o Anjo não mediu a circunferência da cidade, mas apenas o comprimento de sua muralha, que era de doze mil estádios. Multiplicando-se esse número por quatro, obtêm-se quarenta e oito mil estádios para a circunferência da cidade, equivalentes a seis mil milhas. Para povoar uma cidade dessas dimensões seriam necessários muitos milhares de milhões de habitantes.

Pelas informações dadas por São João, que nos diz serem iguais o comprimento, a largura e a altura da cidade, podemos formar alguma ideia da imponente elevação dessa construção celestial. Essa cidade não constitui toda a Jerusalém celeste; é a morada especial do Deus Altíssimo, onde habita a sagrada humanidade de Cristo, juntamente com numerosas companhias de Anjos e dos Santos mais eminentes. Pois, além dessa augusta cidade, existem inúmeras outras nas planícies celestiais, nas quais os redimidos habitam em companhia dos Anjos. Quanto maior tiver sido o bem realizado por um santo na terra, mais grandiosa será a morada que lhe é destinada no Céu. Esses palácios e mansões são transparentes como cristal e construídos com pedras preciosas da mais alta qualidade. E podemos acrescentar, apoiados na autoridade de um erudito teólogo, que os bem-aventurados convivem uns com os outros e se reúnem para louvar e engrandecer a onipotência do Altíssimo, que lhes preparou moradas tão gloriosas, unindo suas vozes para exaltar a sua sabedoria e o seu amor.

Não sentes tu, ó minha alma, um intenso desejo de contemplar essa cidade celestial e, mais ainda, de nela habitar para sempre? Consideramos um prazer visitar uma bela cidade, célebre por sua arquitetura e por outros encantos; e muitos são os viajantes que percorrem o mundo inteiro para conhecer cidades estrangeiras e regalar os olhos com a sua beleza. Mas o que são essas cidades da terra comparadas às cidades celestiais? Se pudéssemos contemplá-las ainda que por poucos instantes, que maravilhas não veríamos! Certamente exclamaríamos, com as palavras do rei Davi: 'Quão amáveis são os vossos tabernáculos, ó Senhor dos Exércitos! Minha alma suspira e desfalece pelos átrios do Senhor. Meu coração e minha carne exultaram no Deus vivo. Bem-aventurados os que habitam em vossa casa, ó Senhor; eles vos louvarão pelos séculos dos séculos. Porque vale mais um só dia em vossos átrios do que milhares; preferi ser desprezado na casa de meu Deus a habitar nas tendas dos pecadores' (Sl 83,2-3.5.11).

Se nos é permitido aventurar-nos a falar do interior do reino celestial, podemos supor que o vasto e incomensurável espaço do Céu não contém somente essas cidades celestiais, mas muitas outras coisas, todas elas aumentando as delícias daquela terra bem-aventurada. Pois, assim como os reis e príncipes da terra possuem jardins e parques de recreio junto aos seus palácios, onde se deleitam durante o verão, assim também, afirmam muitos teólogos, existem paraísos celestiais que proporcionam ainda maior deleite aos bem-aventurados. Pois não somente as almas dos salvos, mas também seus corpos glorificados serão conduzidos pelos Anjos de Deus ao Céu depois do Dia do Juízo.

Santo Agostinho, Santo Anselmo e muitos outros santos não hesitam em sustentar que existem no Céu árvores verdadeiras, frutos verdadeiros e flores verdadeiras, indescritivelmente belos e agradáveis à vista, ao paladar, ao olfato e ao tato, diferentes de tudo quanto somos capazes de imaginar. Nas revelações dos santos, faz-se menção aos jardins do Céu e às flores que ali desabrocham; e sabemos que se narra na história de Santa Doroteia que ela enviou a Teófilo, pelas mãos de um Anjo, uma cesta de flores colhidas nos jardins do paraíso celestial, de beleza tão extraordinária que sua contemplação o levou a tornar-se cristão e a dar a vida pela fé em Cristo. Lemos também na vida de São Dídaco que, voltando a si depois de um êxtase em que caíra pouco antes de morrer, exclamou em alta voz: 'Ó, que flores há no Paraíso! Que flores há no Paraíso!' Episódios semelhantes são encontrados com frequência nas vidas dos santos.

Considera quão delicioso será para aqueles que tiverem a felicidade de se salvar passear pelos jardins celestiais e contemplar aquelas belas flores. Quão agradáveis serão aos olhos aquelas formosas flores, quão delicioso o perfume que exalam! Na verdade, se um homem viesse a possuir uma única dessas flores celestiais, ela produziria nele o mesmo efeito que produziu em Teófilo. Toda a beleza da terra perderia para ele o seu encanto, e ele aspiraria com toda a sua alma à beleza perfeita do Céu. Medita, portanto, frequentemente nas coisas do Céu; eleva teus olhos e teu coração ao luminoso firmamento acima de ti e desperta em teu coração, por este ou por outros meios, um ardente desejo de contemplar as moradas do Pai eterno e nelas habitar para sempre.

Ó Deus, que enriquecestes a Jerusalém Celeste com tamanha beleza para que nós, pobres filhos da terra, tivéssemos um desejo ainda maior de contemplá-la, eu vos suplico: inflamai meu coração de ardente amor e desejo pela morada celestial que preparastes para nós. Pois bem-aventurados são, ó Senhor, aqueles que habitam em vossa casa; eles gozarão para sempre da perfeita felicidade e louvarão eternamente o poder, a sabedoria e a bondade de nosso Deus. Quem me dera ser digno de pertencer àquela companhia sem pecado, contemplar aquela formosa cidade e tornar-me um de seus felizes habitantes! Concedei-me esta graça, ó Deus, eu vos suplico; não permitais que eu seja excluído do número dos vossos eleitos.

Ó bem-aventurados santos de Deus, vós que habitais nos átrios da Jerusalém Celeste, humildemente vos suplico que intercedais por mim, para que, em sua infinita clemência, o Deus de misericórdia me conceda viver de tal maneira que eu seja considerado digno de ser admitido em vossa bem-aventurada companhia! Ouvi as orações dos vossos Santos, ó Deus de infinita compaixão e, pelos méritos de Jesus Cristo, concedei-me uma parte daquela herança que Ele adquiriu para nós com o seu precioso Sangue. Que as coisas deste mundo percam todo o seu valor aos meus olhos, e fazei arder meu coração com o desejo de vos contemplar e de ver a cidade que edificastes, a Jerusalém Celeste. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

terça-feira, 18 de agosto de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXVI)

  

PARTE III - O INFERNO

VIII. Sobre a eternidade

Nas páginas precedentes, apresentou-se ao leitor uma breve descrição dos tormentos do Inferno; agora, é a eternidade que deve ocupar a nossa atenção - assunto sobre o qual não é fácil escrever nem falar. Os tormentos do Inferno são todos tão horríveis e aterradores que bastam para fazer tremer até o homem mais corajoso. Mas o pensamento da eternidade é tão terrível que uma séria consideração a seu respeito é quase suficiente para fazer uma pessoa perder o juízo. Pois, neste mundo, por mais atribulado que um homem possa estar, ele possui uma fonte segura de consolação: sabe que, mais cedo ou mais tarde, a sua miséria terminará.

É próprio da natureza humana cansar-se de tudo depois de algum tempo, até mesmo das coisas que lhe são agradáveis e correspondem aos seus gostos. Se um homem fosse obrigado a permanecer o dia inteiro sentado à mesa, acabaria por sentir repugnância pelos alimentos colocados diante dele. Se alguém fosse forçado a dormir, dia e noite, durante uma semana inteira, no leito mais macio e confortável, como lhe pareceria longo aquele tempo! Se o mais ardoroso amante da dança fosse obrigado a continuar, dia e noite e sem descanso, essa sua diversão favorita, acabaria por adquirir por ela uma profunda aversão.

E, se assim acontece com as coisas conformes à nossa natureza e às nossas inclinações, o que sucederia com aquelas que nos são desagradáveis e repugnantes? Se uma pequena pedra entrasse no sapato de alguém e, como penitência, ele tivesse de conservá-la ali durante uma semana inteira, isso lhe pareceria quase intolerável. E, se uma leve dor ou incômodo se torna, após algum tempo, terrivelmente penoso, como se poderia suportar continuamente uma doença grave ou um verdadeiro sofrimento, sem murmuração nem impaciência?

Se fosse possível que um infeliz pecador fosse condenado a permanecer deitado numa fornalha, amarrado de pés e mãos, durante um ano inteiro, não o privaria a dor do uso da razão? Ninguém poderia ter o coração tão endurecido que não sentisse a mais profunda compaixão por uma pessoa assim atormentada. Contemplai agora o abismo do Inferno, e ali vereis milhares e milhares dessas infelizes criaturas no lago de fogo e de tormentos. Muitas delas já passaram vinte, cem, mil e até cinco mil anos nesse terrível estado de sofrimento.

Mas o que as espera? Não outros cinco mil anos, nem cem mil, nem mil vezes mil anos dessa terrível agonia: elas deverão suportá-la pelos séculos dos séculos. Diante delas está a eternidade, sem conforto nem consolação, sem graça nem misericórdia, sem mérito nem recompensa, sem a mais tênue esperança de libertação. É isso que torna tão incomensurável o tormento dos condenados; é isso que os leva ao furor e ao desespero.

Que imaginais ser realmente a eternidade? Qual será a sua duração? A eternidade é algo que não tem princípio nem fim. É um tempo sempre presente, que jamais passa. Assim, os tormentos dos condenados nunca terminarão, nunca passarão. Quando tiverem transcorrido mil anos, outros mil começarão, e assim por toda a eternidade. Nenhum dos condenados pode calcular há quanto tempo está no Inferno, porque ali não existe sucessão de dias e noites, nem divisão do tempo, mas uma noite contínua e eterna, desde o primeiro instante de sua entrada no Inferno e para sempre.

E, se quiserdes formar uma pálida ideia da eternidade, imaginai que todo o globo terrestre fosse composto de grãos de painço e que, a cada ano, viesse um pássaro e retirasse um desses pequeninos grãos. Que número infinito de anos teria de transcorrer antes que toda a Terra fosse consumida dessa maneira! Mais ainda: quantos milhares de anos não teriam de passar antes que uma única pequena colina fosse consumida! É impossível fazer qualquer estimativa desse número.

Talvez penseis que seria necessária toda a eternidade para destruir a Terra mediante um processo tão lento. Mas acreditai-me: ela poderia ser destruída muitas vezes antes que a eternidade chegasse ao fim. Pois a Terra, por fim, desapareceria, ainda que apenas um único grão fosse retirado de toda ela a cada século; mas a eternidade não pode terminar, porque nada se pode retirar dela. Quão terrível é esse pensamento! É verdadeiramente aterrador quando alguém procura compreendê-lo.

Os condenados se alegrariam e dariam graças a Deus se pudessem esperar que, depois de milhões e milhões de anos de tormentos, seriam finalmente libertados de sua miséria. Mas não há esperança alguma de que sejam finalmente libertados das penas do Inferno. Ninguém que reflita seriamente sobre isso pode deixar de se sentir tomado de assombro e horror. Ó Deus, quão terrível sois! Quão grande é a vossa severidade! Como podeis Vós, Pai das misericórdias, contemplar essas infelizes criaturas condenadas a tais suplícios pelos séculos dos séculos? Como podeis ouvir, sem vos comover, os seus gritos de desespero?

Tudo isso nos ensina quão grave deve ser todo pecado mortal, uma vez que Vós, Deus infinitamente misericordioso, podeis condenar o pecador à perdição eterna por um único pecado mortal. Ó cristão, suplico-vos, em nome de tudo o que é santo: não pequeis com tanta facilidade; não considereis o pecado mortal como coisa de pouca importância. Vede quão terrível é o castigo infligido aos infelizes pecadores. Talvez vos pareça quase inacreditável que Deus, cuja misericórdia é infinita, possa impor a uma de suas frágeis criaturas um castigo sem fim por um único pecado mortal.

Entretanto, assim é; e é igualmente verdade que um homem que tenha levado uma vida piedosa, se antes de morrer tiver a indizível desventura de cometer um pecado mortal e morrer sem arrependimento, será entregue à perdição eterna. O salmista não pôde deixar de manifestar a sua admiração diante disso; com efeito, parece considerá-lo quase impossível. Ouvi as suas palavras: 'Pensei nos dias antigos e tive presentes os anos eternos. E meditei de noite em meu coração; exercitei-me e perscrutei o meu espírito. Acaso Deus nos rejeitará para sempre? Ou nunca mais nos será favorável? Ou retirará para sempre a sua misericórdia, de geração em geração? Acaso Deus se esquecerá de usar de misericórdia? Ou, em sua ira, encerrará as suas misericórdias?' (Sl 76,6-10). Em outro salmo, ele responde a essas perguntas: 'O homem não poderá dar a Deus o seu resgate, nem o preço da redenção de sua alma; padecerá eternamente e ainda viverá até o fim; isto é, será atormentado para sempre e, contudo, continuará a viver (Sl 48,9-10).

A razão pela qual Deus, infinitamente misericordioso, pune o pecado mortal com um castigo eterno e nunca mais o perdoa é que o pecador, depois de condenado, não despertará em seu coração a contrição e o arrependimento, nem pedirá perdão a Deus. Pois, se alguém morre em pecado mortal, fica de tal maneira endurecido nele que jamais o abandonará por toda a eternidade. E, porque Deus o entregou à perdição, ele concebe contra Deus um ódio tão intenso que procuraria ofendê-lo de todas as maneiras que pudesse.

Em vez de se humilhar diante de Deus e implorar o seu perdão, preferiria suportar tormentos ainda maiores no Inferno. Portanto, porque o pecador não quer arrepender-se de seus pecados nem pedir perdão por eles, permanece eternamente em estado de pecado; e, como o seu pecado jamais é expiado nem objeto de arrependimento, também o castigo é eterno. Pois Deus não cessa de punir enquanto o pecador não se arrepende, não deplora o seu pecado e não pede perdão. Vê-se, portanto, que Deus não comete injustiça alguma contra o réprobo quando o submete a um castigo eterno, pois a justiça divina exige que, se o pecado permanece eternamente, também a pena correspondente a esse pecado seja eterna. 

Talvez se possa imaginar que os condenados se acostumem aos seus tormentos e que, por fim, se tornem insensíveis e quase indiferentes a eles. Isso está muito longe da verdade. Os condenados sentem os seus tormentos em toda a sua intensidade e sempre no mesmo grau. Cada um dos infelizes habitantes do Inferno sente agora os seus sofrimentos com a mesma intensidade com que os sentiu na primeira hora de sua condenação; e continuará a senti-los com igual violência depois de transcorridos milhares e milhares de anos.

Ora, porque os condenados sabem perfeitamente que jamais serão libertados do Inferno, mas deverão permanecer ali para sempre; porque sabem que os terríveis tormentos que suportam nunca terão fim; porque sabem que nenhuma criatura jamais se compadecerá deles, mas que todas reconhecerão a justiça de sua condenação - por tudo isso, começam a desesperar-se e a amaldiçoar a si mesmos e tudo quanto a mão de Deus criou.

O seu desespero apenas aumenta os seus sofrimentos. Podemos comprovar isso pelo exemplo de nossos semelhantes na Terra quando se entregam ao desespero. É impossível fazer alguma coisa por um homem desesperado: ninguém pode ajudá-lo ou consolá-lo; ninguém pode confortá-lo nem fazê-lo recobrar a razão. Ele se parece com um espectro; delira e se enfurece como o próprio demônio; declara que porá fim à própria vida, que se afogará ou se enforcará; destrói tudo o que encontra pelo caminho; amaldiçoa todos os homens e todas as coisas. É isso que os condenados fazem em seu desespero e, desse modo, atormentam a si mesmos ainda mais do que os demônios podem atormentá-los. Gritam e uivam, amaldiçoam e blasfemam, agitam-se e enfurecem-se; numa palavra, comportam-se como se fossem demônios encarnados.

Em sua fúria e malignidade, atacam-se uns aos outros com a mais feroz animosidade; mais ainda: em seu desesperado frenesi, procuram por todos os meios possíveis estrangular a si mesmos. Contudo, os seus esforços são inúteis. Tudo o que conseguem é aumentar os próprios tormentos e infligir a si mesmos novas dores. Quem dera que todo pecador obstinado gravasse isso profundamente em seu coração e tomasse cuidado para não se tornar, algum dia, presa desse desespero eterno!

'É coisa terrível cair nas mãos do Deus vivo' - diz São Paulo (Hb 10,31). Se agora temermos o Inferno, não teremos motivo para temê-lo nem padecê-lo na outra vida. Todos possuem razões suficientes para temê-lo. Os justos e os santos devem temer o Inferno, porque ainda podem cair nele. Enquanto permanecerem na Terra, estarão cercados não apenas por perigos exteriores, mas também por perigos interiores. Fora deles está o mundo, com os seus atrativos, escândalos, tentações e respeitos humanos.

Dentro deles habitam paixões violentas e uma vontade fraca. Um único pecado mortal é suficiente para causar a sua condenação ao abismo infernal. Quantos estão agora no Inferno que, durante algum tempo, se distinguiram por sua piedade e virtude, mas que gradualmente se tornaram negligentes no serviço de Deus e, por fim, caíram em pecado mortal e morreram sem se terem reconciliado com Deus! Até mesmo a grande Santa Teresa esteve em perigo de condenação, pois Deus lhe mostrou o lugar que lhe estava reservado no Inferno caso ela não abandonasse determinadas faltas.

Os maiores santos estremeceram e tremeram ao pensar no perigo em que se encontravam de cometer um pecado mortal e, por causa dele, serem condenados aos tormentos intermináveis do Inferno. São Pedro de Alcântara, que praticou tão grandes penitências, temia, mesmo em seus últimos momentos, o perigo de cair no Inferno. Santo Agostinho e São Bernardo enchiam-se de terror ao simples pensamento do Inferno e do perigo em que se encontravam de merecê-lo.

O católico negligente e tíbio deve, acima de todos, temer o Inferno, pois caminha continuamente à beira do abismo infernal. Ele dá pouca importância ao preceito de assistir à Santa Missa e à abstinência de carne prescrita pela Igreja; não tem escrúpulos em negligenciar a formação religiosa de seus filhos; convive com pessoas e frequenta lugares que constituem para ele ocasião de pecado; entrega-se a pensamentos impuros e comete pecados de impureza sem remorso; cede aos sentimentos de vingança contra o próximo; apropria-se dos bens alheios; excede-se na comida e na bebida; negligencia a oração e os sacramentos.

Agora é o momento de ele despertar de sua vida de pecado; agora é o momento de abandonar o pecado e mudar de vida, pois, se adiar essa mudança, em breve poderá ser tarde demais. Esta pode realmente ser a última advertência que Deus lhe concede. Se os condenados pudessem retornar à vida, a que penitências e austeridades não se submeteriam com ardor e alegria! O profeta Isaías pergunta: 'Qual de vós poderá habitar com o fogo devorador?' (Is 33,14).

Podeis suportar os terríveis tormentos do Inferno por toda a eternidade, vós que sois tão apegados ao conforto e tão sensíveis à menor dor? Qual de vós mereceu habitar no Inferno? Cada um de nós, imediatamente depois de cometer o primeiro pecado mortal, já merecia ser condenado àquele abismo de miséria e sofrimento! É graças à misericórdia divina que não fomos assim condenados. 'Se o Senhor não tivesse vindo em meu auxílio, por pouco minha alma teria habitado no Inferno' (Sl 93,17). Temos a certeza de haver merecido o Inferno, mas não temos igual certeza de haver sido perdoados. 'O homem não sabe se é digno de amor ou de ódio' (Eclo 9,1). Que terrível incerteza! Quanto ela deveria fazer-nos tremer!

Isaías pergunta novamente: 'Qual de vós habitará entre as chamas eternas?'  (Is 33,14). A resposta é: todos os pecadores que não abandonam o pecado, que não lamentam nem confessam os seus pecados e não corrigem a própria vida habitarão entre as chamas eternas! Façamos, caro leitor, todos os esforços; empreguemos todas as nossas forças; suportemos todos os sofrimentos e façamos todos os sacrifícios nesta vida, a fim de escaparmos ao horrível destino daqueles que, por sua própria culpa, caem vítimas da justiça divina! Nenhuma dor é grande demais, nenhum sacrifício é caro demais, quando se trata de evitar os tormentos eternos. Digamos, portanto, com Santo Agostinho: 'Senhor, queimai-nos aqui; cortai-nos e feri-nos nesta vida, contanto que nos poupeis na eternidade!'

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)