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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXVII)

   

PARTE IV - O CÉU

I. Sobre a natureza do Céu

Não devemos, como fazem alguns, imaginar o Céu como um reino puramente espiritual. Pois o Céu é um lugar determinado, onde não somente Deus está e onde agora se encontram os Anjos, mas onde também está Cristo em sua sagrada humanidade e Nossa Senhora com o seu corpo humano. Ali também habitarão todos os bem-aventurados com seus corpos glorificados, depois do Juízo Final. Se o Céu é um lugar determinado deve, por conseguinte, ser um reino visível, e não meramente espiritual; pois um lugar deve, por sua própria natureza, ser em certa medida conforme àqueles que nele habitam.

Além disso, sabemos que, depois do Juízo Final, os santos contemplarão o Céu com seus olhos corporais e, consequentemente, ele deve ser um reino visível. Ignoramos de que será constituída a estrutura material do Céu; sabemos apenas que será algo infinitamente superior e mais precioso do que a matéria de que são formadas as demais esferas, o sol, a lua e os outros corpos celestes. Pois, tendo Deus criado o Céu para si mesmo e para os seus eleitos, fê-lo tão belo e tão glorioso que os bem-aventurados jamais se cansarão de contemplar os seus esplendores por toda a eternidade.

Contudo, repito, não está ao alcance de quem escreve descrever, nem ao alcance de quem lê compreender, aquilo de que o Céu é realmente constituído. Talvez possamos aprender algo a esse respeito pelo que escreve Santa Teresa. Falando de si mesma, ela diz: 'A Santíssima Mãe de Deus deu-me uma joia e colocou em torno do meu pescoço uma magnífica corrente de ouro, à qual estava presa uma cruz de valor inestimável. Tanto o ouro como as pedras preciosas que me foram assim dados são tão diferentes daqueles que possuímos neste mundo que nenhuma comparação pode ser estabelecida entre eles. São belos para além de tudo quanto se possa conceber, e a matéria de que são compostos está além do nosso conhecimento. Pois aquilo que chamamos ouro e pedras preciosas, comparado a eles, parece escuro e sem brilho como carvão'.

Por essas palavras, podemos formar alguma ideia da beleza, da raridade e da preciosidade das pedras com que são construídas as muralhas do Céu. Delas também inferimos que a luz do Céu é tão deslumbrante que não apenas ofusca o sol e as estrelas, mas faz com que todo o brilho terreno pareça escuridão. Temos, além disso, todas as razões para crer que, na luz do Céu, todas as cores do arco-íris são vistas a cintilar, conferindo-lhe um encanto indescritível aos olhos dos bem-aventurados. Ademais, os corpos dos redimidos resplandecem de luz, e quanto mais santa tiver sido a sua vida na terra, mais brilhantemente resplandecerão no Céu.

Qual não deve ser a glória daquele firmamento celestial, cintilando com o fulgor de muitos milhares de estrelas! Nada é mais agradável aos olhos do que a luz; quão brilhante, quão bela deve ser a luz do Céu, se, comparados a ela, os luminosos raios do sol não passam de trevas! Quanto devem os redimidos deleitar-se na contemplação dessa claridade pura e deslumbrante! Ó meu Deus, concedei-me a graça de, enquanto estiver na terra, amar a luz e evitar as obras das trevas, para que eu possa alcançar a contemplação da luz eterna e perpétua!

Quanto à extensão do Céu, tudo o que sabemos é que ela é incomensurável, inconcebível e incompreensível. Um sábio teólogo, falando sobre esse assunto, diz: 'Se Deus transformasse cada grão de areia em um novo mundo, todas essas inúmeras esferas ainda não preencheriam a imensidão do Céu'. São Bernardo também afirma que temos fundamento para crer que a cada um dos salvos será destinado, na pátria celestial, um lugar e uma herança cujos limites não serão estreitos.

Quão incomensuravelmente vasto deve ser, então, o Céu! Bem pôde o profeta Baruc exclamar: 'Ó Israel, quão grande é a casa de Deus, e quão vasto é o lugar de sua possessão! É grande e não tem fim; é elevado e imenso' (Br 3,24-25). Podemos facilmente acreditar nisso, pois temos diante de nossos olhos os ilimitados domínios do espaço. Mas nada sabemos acerca da natureza dos infinitos domínios do Céu, embora possamos, até certo ponto, representá-los à nossa imaginação. Seria contrário ao bom senso pensar que essas vastas regiões celestiais sejam vazias e desertas, ou que o grande Artífice, para quem a criação de mundos é coisa tão pequena, as deixasse sem beleza e sem ornamento.

Se príncipes e senhores ocupam todos os espaços e não deixam recanto algum de seus palácios ou de seus jardins sem embelezamento e ornamento, haveremos de supor que o grande Rei do Céu permitiria que o seu palácio real, o seu paraíso celestial, carecesse de magnificência e beleza? O que haveria para deleitar os sentidos dos santos se o Céu fosse apenas um vasto espaço vazio? Que prazer, além da visão beatífica de Deus, haveria para eles, se permanecessem todos reunidos numa planície árida, como ovelhas encerradas num aprisco? Não temos, portanto, razão para crer que existem no Céu esplêndidas e espaçosas moradas, construídas de materiais incorruptíveis?

Mais ainda: um erudito comentador da Sagrada Escritura considera provável que, pela admirável habilidade e sabedoria do grande Criador, esses belos palácios e moradas tenham formas e dimensões variadas, sendo alguns mais baixos, outros mais elevados, e alguns mais ricamente adornados do que outros. Elevando-se acima de todos e superando-os em grandeza e magnificência, destaca-se o palácio do grande Rei, Jesus Cristo; e, logo depois, em esplendor e dignidade, vem a morada de Nossa Soberana Senhora, a Rainha do Céu. Seguem-se os doze palácios dos doze Apóstolos, tão ricos e belos que o próprio Céu se maravilha diante de sua magnificência. Além desses, existem inúmeras mansões e moradas que tornam a Jerusalém celeste indescritivelmente majestosa e encantadora. Essas esplêndidas habitações foram criadas quando o próprio Céu foi feito e destinadas a ser a morada dos redimidos.

A Igreja nos ensina, no Ofício dos Mártires, que cada um dos eleitos terá seu próprio lugar no reino dos Céus. Dabo sanctis meis locum nominatum in regno Patris mei, dicit Dominus - Darei aos meus santos um lugar determinado no reino de meu Pai, diz o Senhor. E o Salmista Real diz: 'Exultarão os santos na glória; alegrar-se-ão em seus leitos' (Sl 149,5). Temos também as palavras de Cristo: 'Fazei-vos amigos com as riquezas da iniquidade, para que, quando vierdes a faltar, eles vos recebam nas moradas eternas' (Lc 16,9) - isto é, empregai em obras de caridade e beneficência aquilo que possuís além do necessário, para que essas obras se tornem como amigos que vos obtenham a entrada nas moradas eternas e celestiais.

E ainda: 'Na casa de meu Pai há muitas moradas' (Jo 14,2). Daí se pode inferir que cada um dos redimidos possui sua própria morada no Céu. Pois, assim como um pai justo e prudente reparte seus bens entre os filhos, atribuindo a cada um a sua parte particular, assim também nosso Pai celestial distribui a cada um dos seus eleitos uma parte dos seus tesouros celestes, tanto visíveis como invisíveis, dando a cada qual mais ou menos, conforme aquilo que merece receber.

Quem poderá descrever a majestade e a glória dessas moradas celestes? Se os reis e príncipes deste mundo constroem para si palácios grandiosos e suntuosos, qual não deve ser o esplendor e a beleza da cidade celestial que o Rei dos reis edificou para si mesmo e para aqueles que o amam e são os seus amigos? Ouçamos o que São João diz acerca dessa cidade: 'Um Anjo mostrou-me a cidade santa, Jerusalém, que tinha a glória de Deus. Sua luz era semelhante a uma pedra preciosa, como pedra de jaspe, transparente como cristal. A própria cidade era de ouro puro, semelhante a vidro límpido, e os fundamentos da muralha da cidade estavam adornados com toda espécie de pedras preciosas' (Ap 21,11.18-19).

Falando das dimensões da cidade, escreve o mesmo Apóstolo: 'O Anjo que falava comigo tinha por medida uma cana de ouro, para medir a cidade, suas portas e sua muralha. A cidade era quadrangular, e seu comprimento era igual à largura; e ele mediu a cidade com a cana de ouro: doze mil estádios; seu comprimento, sua largura e sua altura eram iguais. E mediu a sua muralha: cento e quarenta e quatro côvados, medida de homem, que era também a medida usada pelo Anjo' (Jo 21,15-17). Um estádio equivale a duzentas e vinte jardas, e oito estádios perfazem uma milha. Deve-se observar que o Anjo não mediu a circunferência da cidade, mas apenas o comprimento de sua muralha, que era de doze mil estádios. Multiplicando-se esse número por quatro, obtêm-se quarenta e oito mil estádios para a circunferência da cidade, equivalentes a seis mil milhas. Para povoar uma cidade dessas dimensões seriam necessários muitos milhares de milhões de habitantes.

Pelas informações dadas por São João, que nos diz serem iguais o comprimento, a largura e a altura da cidade, podemos formar alguma ideia da imponente elevação dessa construção celestial. Essa cidade não constitui toda a Jerusalém celeste; é a morada especial do Deus Altíssimo, onde habita a sagrada humanidade de Cristo, juntamente com numerosas companhias de Anjos e dos Santos mais eminentes. Pois, além dessa augusta cidade, existem inúmeras outras nas planícies celestiais, nas quais os redimidos habitam em companhia dos Anjos. Quanto maior tiver sido o bem realizado por um santo na terra, mais grandiosa será a morada que lhe é destinada no Céu. Esses palácios e mansões são transparentes como cristal e construídos com pedras preciosas da mais alta qualidade. E podemos acrescentar, apoiados na autoridade de um erudito teólogo, que os bem-aventurados convivem uns com os outros e se reúnem para louvar e engrandecer a onipotência do Altíssimo, que lhes preparou moradas tão gloriosas, unindo suas vozes para exaltar a sua sabedoria e o seu amor.

Não sentes tu, ó minha alma, um intenso desejo de contemplar essa cidade celestial e, mais ainda, de nela habitar para sempre? Consideramos um prazer visitar uma bela cidade, célebre por sua arquitetura e por outros encantos; e muitos são os viajantes que percorrem o mundo inteiro para conhecer cidades estrangeiras e regalar os olhos com a sua beleza. Mas o que são essas cidades da terra comparadas às cidades celestiais? Se pudéssemos contemplá-las ainda que por poucos instantes, que maravilhas não veríamos! Certamente exclamaríamos, com as palavras do rei Davi: 'Quão amáveis são os vossos tabernáculos, ó Senhor dos Exércitos! Minha alma suspira e desfalece pelos átrios do Senhor. Meu coração e minha carne exultaram no Deus vivo. Bem-aventurados os que habitam em vossa casa, ó Senhor; eles vos louvarão pelos séculos dos séculos. Porque vale mais um só dia em vossos átrios do que milhares; preferi ser desprezado na casa de meu Deus a habitar nas tendas dos pecadores' (Sl 83,2-3.5.11).

Se nos é permitido aventurar-nos a falar do interior do reino celestial, podemos supor que o vasto e incomensurável espaço do Céu não contém somente essas cidades celestiais, mas muitas outras coisas, todas elas aumentando as delícias daquela terra bem-aventurada. Pois, assim como os reis e príncipes da terra possuem jardins e parques de recreio junto aos seus palácios, onde se deleitam durante o verão, assim também, afirmam muitos teólogos, existem paraísos celestiais que proporcionam ainda maior deleite aos bem-aventurados. Pois não somente as almas dos salvos, mas também seus corpos glorificados serão conduzidos pelos Anjos de Deus ao Céu depois do Dia do Juízo.

Santo Agostinho, Santo Anselmo e muitos outros santos não hesitam em sustentar que existem no Céu árvores verdadeiras, frutos verdadeiros e flores verdadeiras, indescritivelmente belos e agradáveis à vista, ao paladar, ao olfato e ao tato, diferentes de tudo quanto somos capazes de imaginar. Nas revelações dos santos, faz-se menção aos jardins do Céu e às flores que ali desabrocham; e sabemos que se narra na história de Santa Doroteia que ela enviou a Teófilo, pelas mãos de um Anjo, uma cesta de flores colhidas nos jardins do paraíso celestial, de beleza tão extraordinária que sua contemplação o levou a tornar-se cristão e a dar a vida pela fé em Cristo. Lemos também na vida de São Dídaco que, voltando a si depois de um êxtase em que caíra pouco antes de morrer, exclamou em alta voz: 'Ó, que flores há no Paraíso! Que flores há no Paraíso!' Episódios semelhantes são encontrados com frequência nas vidas dos santos.

Considera quão delicioso será para aqueles que tiverem a felicidade de se salvar passear pelos jardins celestiais e contemplar aquelas belas flores. Quão agradáveis serão aos olhos aquelas formosas flores, quão delicioso o perfume que exalam! Na verdade, se um homem viesse a possuir uma única dessas flores celestiais, ela produziria nele o mesmo efeito que produziu em Teófilo. Toda a beleza da terra perderia para ele o seu encanto, e ele aspiraria com toda a sua alma à beleza perfeita do Céu. Medita, portanto, frequentemente nas coisas do Céu; eleva teus olhos e teu coração ao luminoso firmamento acima de ti e desperta em teu coração, por este ou por outros meios, um ardente desejo de contemplar as moradas do Pai eterno e nelas habitar para sempre.

Ó Deus, que enriquecestes a Jerusalém Celeste com tamanha beleza para que nós, pobres filhos da terra, tivéssemos um desejo ainda maior de contemplá-la, eu vos suplico: inflamai meu coração de ardente amor e desejo pela morada celestial que preparastes para nós. Pois bem-aventurados são, ó Senhor, aqueles que habitam em vossa casa; eles gozarão para sempre da perfeita felicidade e louvarão eternamente o poder, a sabedoria e a bondade de nosso Deus. Quem me dera ser digno de pertencer àquela companhia sem pecado, contemplar aquela formosa cidade e tornar-me um de seus felizes habitantes! Concedei-me esta graça, ó Deus, eu vos suplico; não permitais que eu seja excluído do número dos vossos eleitos.

Ó bem-aventurados santos de Deus, vós que habitais nos átrios da Jerusalém Celeste, humildemente vos suplico que intercedais por mim, para que, em sua infinita clemência, o Deus de misericórdia me conceda viver de tal maneira que eu seja considerado digno de ser admitido em vossa bem-aventurada companhia! Ouvi as orações dos vossos Santos, ó Deus de infinita compaixão e, pelos méritos de Jesus Cristo, concedei-me uma parte daquela herança que Ele adquiriu para nós com o seu precioso Sangue. Que as coisas deste mundo percam todo o seu valor aos meus olhos, e fazei arder meu coração com o desejo de vos contemplar e de ver a cidade que edificastes, a Jerusalém Celeste. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

terça-feira, 18 de agosto de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXVI)

  

PARTE III - O INFERNO

VIII. Sobre a eternidade

Nas páginas precedentes, apresentou-se ao leitor uma breve descrição dos tormentos do Inferno; agora, é a eternidade que deve ocupar a nossa atenção - assunto sobre o qual não é fácil escrever nem falar. Os tormentos do Inferno são todos tão horríveis e aterradores que bastam para fazer tremer até o homem mais corajoso. Mas o pensamento da eternidade é tão terrível que uma séria consideração a seu respeito é quase suficiente para fazer uma pessoa perder o juízo. Pois, neste mundo, por mais atribulado que um homem possa estar, ele possui uma fonte segura de consolação: sabe que, mais cedo ou mais tarde, a sua miséria terminará.

É próprio da natureza humana cansar-se de tudo depois de algum tempo, até mesmo das coisas que lhe são agradáveis e correspondem aos seus gostos. Se um homem fosse obrigado a permanecer o dia inteiro sentado à mesa, acabaria por sentir repugnância pelos alimentos colocados diante dele. Se alguém fosse forçado a dormir, dia e noite, durante uma semana inteira, no leito mais macio e confortável, como lhe pareceria longo aquele tempo! Se o mais ardoroso amante da dança fosse obrigado a continuar, dia e noite e sem descanso, essa sua diversão favorita, acabaria por adquirir por ela uma profunda aversão.

E, se assim acontece com as coisas conformes à nossa natureza e às nossas inclinações, o que sucederia com aquelas que nos são desagradáveis e repugnantes? Se uma pequena pedra entrasse no sapato de alguém e, como penitência, ele tivesse de conservá-la ali durante uma semana inteira, isso lhe pareceria quase intolerável. E, se uma leve dor ou incômodo se torna, após algum tempo, terrivelmente penoso, como se poderia suportar continuamente uma doença grave ou um verdadeiro sofrimento, sem murmuração nem impaciência?

Se fosse possível que um infeliz pecador fosse condenado a permanecer deitado numa fornalha, amarrado de pés e mãos, durante um ano inteiro, não o privaria a dor do uso da razão? Ninguém poderia ter o coração tão endurecido que não sentisse a mais profunda compaixão por uma pessoa assim atormentada. Contemplai agora o abismo do Inferno, e ali vereis milhares e milhares dessas infelizes criaturas no lago de fogo e de tormentos. Muitas delas já passaram vinte, cem, mil e até cinco mil anos nesse terrível estado de sofrimento.

Mas o que as espera? Não outros cinco mil anos, nem cem mil, nem mil vezes mil anos dessa terrível agonia: elas deverão suportá-la pelos séculos dos séculos. Diante delas está a eternidade, sem conforto nem consolação, sem graça nem misericórdia, sem mérito nem recompensa, sem a mais tênue esperança de libertação. É isso que torna tão incomensurável o tormento dos condenados; é isso que os leva ao furor e ao desespero.

Que imaginais ser realmente a eternidade? Qual será a sua duração? A eternidade é algo que não tem princípio nem fim. É um tempo sempre presente, que jamais passa. Assim, os tormentos dos condenados nunca terminarão, nunca passarão. Quando tiverem transcorrido mil anos, outros mil começarão, e assim por toda a eternidade. Nenhum dos condenados pode calcular há quanto tempo está no Inferno, porque ali não existe sucessão de dias e noites, nem divisão do tempo, mas uma noite contínua e eterna, desde o primeiro instante de sua entrada no Inferno e para sempre.

E, se quiserdes formar uma pálida ideia da eternidade, imaginai que todo o globo terrestre fosse composto de grãos de painço e que, a cada ano, viesse um pássaro e retirasse um desses pequeninos grãos. Que número infinito de anos teria de transcorrer antes que toda a Terra fosse consumida dessa maneira! Mais ainda: quantos milhares de anos não teriam de passar antes que uma única pequena colina fosse consumida! É impossível fazer qualquer estimativa desse número.

Talvez penseis que seria necessária toda a eternidade para destruir a Terra mediante um processo tão lento. Mas acreditai-me: ela poderia ser destruída muitas vezes antes que a eternidade chegasse ao fim. Pois a Terra, por fim, desapareceria, ainda que apenas um único grão fosse retirado de toda ela a cada século; mas a eternidade não pode terminar, porque nada se pode retirar dela. Quão terrível é esse pensamento! É verdadeiramente aterrador quando alguém procura compreendê-lo.

Os condenados se alegrariam e dariam graças a Deus se pudessem esperar que, depois de milhões e milhões de anos de tormentos, seriam finalmente libertados de sua miséria. Mas não há esperança alguma de que sejam finalmente libertados das penas do Inferno. Ninguém que reflita seriamente sobre isso pode deixar de se sentir tomado de assombro e horror. Ó Deus, quão terrível sois! Quão grande é a vossa severidade! Como podeis Vós, Pai das misericórdias, contemplar essas infelizes criaturas condenadas a tais suplícios pelos séculos dos séculos? Como podeis ouvir, sem vos comover, os seus gritos de desespero?

Tudo isso nos ensina quão grave deve ser todo pecado mortal, uma vez que Vós, Deus infinitamente misericordioso, podeis condenar o pecador à perdição eterna por um único pecado mortal. Ó cristão, suplico-vos, em nome de tudo o que é santo: não pequeis com tanta facilidade; não considereis o pecado mortal como coisa de pouca importância. Vede quão terrível é o castigo infligido aos infelizes pecadores. Talvez vos pareça quase inacreditável que Deus, cuja misericórdia é infinita, possa impor a uma de suas frágeis criaturas um castigo sem fim por um único pecado mortal.

Entretanto, assim é; e é igualmente verdade que um homem que tenha levado uma vida piedosa, se antes de morrer tiver a indizível desventura de cometer um pecado mortal e morrer sem arrependimento, será entregue à perdição eterna. O salmista não pôde deixar de manifestar a sua admiração diante disso; com efeito, parece considerá-lo quase impossível. Ouvi as suas palavras: 'Pensei nos dias antigos e tive presentes os anos eternos. E meditei de noite em meu coração; exercitei-me e perscrutei o meu espírito. Acaso Deus nos rejeitará para sempre? Ou nunca mais nos será favorável? Ou retirará para sempre a sua misericórdia, de geração em geração? Acaso Deus se esquecerá de usar de misericórdia? Ou, em sua ira, encerrará as suas misericórdias?' (Sl 76,6-10). Em outro salmo, ele responde a essas perguntas: 'O homem não poderá dar a Deus o seu resgate, nem o preço da redenção de sua alma; padecerá eternamente e ainda viverá até o fim; isto é, será atormentado para sempre e, contudo, continuará a viver (Sl 48,9-10).

A razão pela qual Deus, infinitamente misericordioso, pune o pecado mortal com um castigo eterno e nunca mais o perdoa é que o pecador, depois de condenado, não despertará em seu coração a contrição e o arrependimento, nem pedirá perdão a Deus. Pois, se alguém morre em pecado mortal, fica de tal maneira endurecido nele que jamais o abandonará por toda a eternidade. E, porque Deus o entregou à perdição, ele concebe contra Deus um ódio tão intenso que procuraria ofendê-lo de todas as maneiras que pudesse.

Em vez de se humilhar diante de Deus e implorar o seu perdão, preferiria suportar tormentos ainda maiores no Inferno. Portanto, porque o pecador não quer arrepender-se de seus pecados nem pedir perdão por eles, permanece eternamente em estado de pecado; e, como o seu pecado jamais é expiado nem objeto de arrependimento, também o castigo é eterno. Pois Deus não cessa de punir enquanto o pecador não se arrepende, não deplora o seu pecado e não pede perdão. Vê-se, portanto, que Deus não comete injustiça alguma contra o réprobo quando o submete a um castigo eterno, pois a justiça divina exige que, se o pecado permanece eternamente, também a pena correspondente a esse pecado seja eterna. 

Talvez se possa imaginar que os condenados se acostumem aos seus tormentos e que, por fim, se tornem insensíveis e quase indiferentes a eles. Isso está muito longe da verdade. Os condenados sentem os seus tormentos em toda a sua intensidade e sempre no mesmo grau. Cada um dos infelizes habitantes do Inferno sente agora os seus sofrimentos com a mesma intensidade com que os sentiu na primeira hora de sua condenação; e continuará a senti-los com igual violência depois de transcorridos milhares e milhares de anos.

Ora, porque os condenados sabem perfeitamente que jamais serão libertados do Inferno, mas deverão permanecer ali para sempre; porque sabem que os terríveis tormentos que suportam nunca terão fim; porque sabem que nenhuma criatura jamais se compadecerá deles, mas que todas reconhecerão a justiça de sua condenação - por tudo isso, começam a desesperar-se e a amaldiçoar a si mesmos e tudo quanto a mão de Deus criou.

O seu desespero apenas aumenta os seus sofrimentos. Podemos comprovar isso pelo exemplo de nossos semelhantes na Terra quando se entregam ao desespero. É impossível fazer alguma coisa por um homem desesperado: ninguém pode ajudá-lo ou consolá-lo; ninguém pode confortá-lo nem fazê-lo recobrar a razão. Ele se parece com um espectro; delira e se enfurece como o próprio demônio; declara que porá fim à própria vida, que se afogará ou se enforcará; destrói tudo o que encontra pelo caminho; amaldiçoa todos os homens e todas as coisas. É isso que os condenados fazem em seu desespero e, desse modo, atormentam a si mesmos ainda mais do que os demônios podem atormentá-los. Gritam e uivam, amaldiçoam e blasfemam, agitam-se e enfurecem-se; numa palavra, comportam-se como se fossem demônios encarnados.

Em sua fúria e malignidade, atacam-se uns aos outros com a mais feroz animosidade; mais ainda: em seu desesperado frenesi, procuram por todos os meios possíveis estrangular a si mesmos. Contudo, os seus esforços são inúteis. Tudo o que conseguem é aumentar os próprios tormentos e infligir a si mesmos novas dores. Quem dera que todo pecador obstinado gravasse isso profundamente em seu coração e tomasse cuidado para não se tornar, algum dia, presa desse desespero eterno!

'É coisa terrível cair nas mãos do Deus vivo' - diz São Paulo (Hb 10,31). Se agora temermos o Inferno, não teremos motivo para temê-lo nem padecê-lo na outra vida. Todos possuem razões suficientes para temê-lo. Os justos e os santos devem temer o Inferno, porque ainda podem cair nele. Enquanto permanecerem na Terra, estarão cercados não apenas por perigos exteriores, mas também por perigos interiores. Fora deles está o mundo, com os seus atrativos, escândalos, tentações e respeitos humanos.

Dentro deles habitam paixões violentas e uma vontade fraca. Um único pecado mortal é suficiente para causar a sua condenação ao abismo infernal. Quantos estão agora no Inferno que, durante algum tempo, se distinguiram por sua piedade e virtude, mas que gradualmente se tornaram negligentes no serviço de Deus e, por fim, caíram em pecado mortal e morreram sem se terem reconciliado com Deus! Até mesmo a grande Santa Teresa esteve em perigo de condenação, pois Deus lhe mostrou o lugar que lhe estava reservado no Inferno caso ela não abandonasse determinadas faltas.

Os maiores santos estremeceram e tremeram ao pensar no perigo em que se encontravam de cometer um pecado mortal e, por causa dele, serem condenados aos tormentos intermináveis do Inferno. São Pedro de Alcântara, que praticou tão grandes penitências, temia, mesmo em seus últimos momentos, o perigo de cair no Inferno. Santo Agostinho e São Bernardo enchiam-se de terror ao simples pensamento do Inferno e do perigo em que se encontravam de merecê-lo.

O católico negligente e tíbio deve, acima de todos, temer o Inferno, pois caminha continuamente à beira do abismo infernal. Ele dá pouca importância ao preceito de assistir à Santa Missa e à abstinência de carne prescrita pela Igreja; não tem escrúpulos em negligenciar a formação religiosa de seus filhos; convive com pessoas e frequenta lugares que constituem para ele ocasião de pecado; entrega-se a pensamentos impuros e comete pecados de impureza sem remorso; cede aos sentimentos de vingança contra o próximo; apropria-se dos bens alheios; excede-se na comida e na bebida; negligencia a oração e os sacramentos.

Agora é o momento de ele despertar de sua vida de pecado; agora é o momento de abandonar o pecado e mudar de vida, pois, se adiar essa mudança, em breve poderá ser tarde demais. Esta pode realmente ser a última advertência que Deus lhe concede. Se os condenados pudessem retornar à vida, a que penitências e austeridades não se submeteriam com ardor e alegria! O profeta Isaías pergunta: 'Qual de vós poderá habitar com o fogo devorador?' (Is 33,14).

Podeis suportar os terríveis tormentos do Inferno por toda a eternidade, vós que sois tão apegados ao conforto e tão sensíveis à menor dor? Qual de vós mereceu habitar no Inferno? Cada um de nós, imediatamente depois de cometer o primeiro pecado mortal, já merecia ser condenado àquele abismo de miséria e sofrimento! É graças à misericórdia divina que não fomos assim condenados. 'Se o Senhor não tivesse vindo em meu auxílio, por pouco minha alma teria habitado no Inferno' (Sl 93,17). Temos a certeza de haver merecido o Inferno, mas não temos igual certeza de haver sido perdoados. 'O homem não sabe se é digno de amor ou de ódio' (Eclo 9,1). Que terrível incerteza! Quanto ela deveria fazer-nos tremer!

Isaías pergunta novamente: 'Qual de vós habitará entre as chamas eternas?'  (Is 33,14). A resposta é: todos os pecadores que não abandonam o pecado, que não lamentam nem confessam os seus pecados e não corrigem a própria vida habitarão entre as chamas eternas! Façamos, caro leitor, todos os esforços; empreguemos todas as nossas forças; suportemos todos os sofrimentos e façamos todos os sacrifícios nesta vida, a fim de escaparmos ao horrível destino daqueles que, por sua própria culpa, caem vítimas da justiça divina! Nenhuma dor é grande demais, nenhum sacrifício é caro demais, quando se trata de evitar os tormentos eternos. Digamos, portanto, com Santo Agostinho: 'Senhor, queimai-nos aqui; cortai-nos e feri-nos nesta vida, contanto que nos poupeis na eternidade!'

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

PRESENÇA DE DEUS

1. Precisamos estar convencidos de que Deus está sempre perto de nós. Vivemos como se ele estivesse longe, lá no alto dos céus, e nos esquecemos de que Ele está também constantemente ao nosso lado. Ele está presente como um Pai amoroso. Ele ama cada um de nós mais do que todas as mães do mundo podem amar seus filhos - ajudando-nos, inspirando-nos, abençoando... e perdoando... Precisamos estar cheios, imbuídos da ideia de que nosso Pai, e verdadeiramente nosso Pai, é Deus, que está perto de nós e no céu.

2. Acostume-se a elevar o seu coração a Deus, em atos de gratidão, muitas vezes ao dia. Porque Ele lhe dá isto e aquilo. Porque você foi desprezado. Porque você não tem o que precisa ou porque você tem. Porque Ele fez a sua Mãe tão bela, Sua Mãe que também é a sua Mãe. Porque Ele criou o sol e a lua e este animal e aquela planta. Porque Ele fez aquele homem eloquente e deixou você sem palavras... Agradeça a Ele por tudo, porque tudo está bem.

3. Não seja tão cego ou tão desatento a ponto de não entrar em cada Tabernáculo quando vislumbrar as paredes ou as torres das casas de Deus. Ele está esperando por você. Não seja tão cego ou tão desatento a ponto de não invocar Maria Imaculada com pelo menos uma exclamação, sempre que passar perto daqueles lugares onde você sabe que Cristo é ofendido.

4. Seja sempre uma alma de oração: nas intenções, que Jesus seja nosso objetivo; nos afetos, nosso Amor; na conversa, nosso tema; nas ações, nosso modelo.

5. Nunca tome uma decisão sem antes parar para refletir sobre o assunto na presença de Deus.

6. Se você se acostumar, mesmo que apenas uma vez por semana, a buscar a união com Maria para ir até Jesus, verá como terá mais a presença de Deus.

7. Viva na presença de Deus e você terá uma vida sobrenatural.

(Excertos da obra 'Caminho', de São Josemaria Escrivá)

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXV)

 

PARTE III - O INFERNO

VII. Sobre o verme que não morre

Nosso Divino Salvador diz: 'Se a tua mão te escandaliza, corta-a; melhor é entrares na vida mutilado do que, tendo as duas mãos, ires para o inferno, para o fogo que nunca se apaga, onde o seu verme não morre e o fogo não se extingue. E, se o teu pé te escandaliza, corta-o; melhor é entrares coxo na vida do que, tendo os dois pés, seres lançado no inferno, no fogo inextinguível, onde o seu verme não morre e o fogo não se extingue. E, se o teu olho te escandaliza, arranca-o; melhor é entrares no Reino de Deus com um só olho do que, tendo dois olhos, seres lançado no inferno de fogo, onde o seu verme não morre e o fogo não se extingue' (Mc 9,42-47).

Por estas palavras, nosso bendito Redentor quis gravar profundamente em nossas almas a necessidade de evitar as ocasiões de pecado e de fazer até os mais dolorosos sacrifícios para fugir do pecado e, assim, escapar das penas eternas do inferno. Quis também imprimir vivamente em nossa mente que dois dos mais terríveis tormentos do inferno são o seu fogo inextinguível e o seu verme que nunca morre. Já vimos, em um capítulo anterior, em que consiste o terrível fogo do inferno. Resta-nos agora examinar em que consiste 'o verme que não morre'.

Todos os sentidos dos réprobos terão o seu castigo próprio; a razão, ou inteligência, é castigada pela pena da perda, como vimos no capítulo precedente, castigo este que ultrapassa incomparavelmente os sofrimentos dos sentidos. A memória dos condenados será atormentada pelo 'verme que não morre', isto é, por um remorso de consciência agudíssimo e incessante, que jamais lhes dará descanso.

O pecador condenado recordar-se-á de quantas graças e meios de salvação lhe foram concedidos durante a vida para salvar a sua alma; de como Deus lhe enviou tantas inspirações santas; de como recebeu tantas boas instruções; de como teve ao seu alcance a graça da oração para o ajudar a praticar as virtudes próprias do seu estado, vencer as tentações, guardar os Mandamentos de Deus e da sua Igreja; de como seus amigos piedosos o exortaram a levar uma vida santa, não apenas por suas palavras, mas sobretudo por seu bom exemplo; de como teve tantas oportunidades de instruir-se acerca de seus deveres, ouvindo a Palavra de Deus e lendo bons livros; e de fortalecer-se no cumprimento de suas obrigações pela recepção dos Sacramentos e pela prática da devoção à Santíssima Virgem.

Em suma, o pecador condenado recordar-se-á de quão pouco esforço lhe teria sido necessário para salvar a alma e evitar o inferno. Dirá a si mesmo: 'Tão pequeno esforço era necessário para a minha salvação! Mesmo depois dos meus numerosos pecados, uma boa confissão teria sido suficiente. Mas, por vergonha, por respeito humano, não a fiz. Como fui insensato! Quantas vezes minha consciência, minha família e meus amigos me exortaram a confessar-me! Tudo, porém, foi em vão. Outros cometeram pecados maiores do que os meus, mas deles se arrependeram, confessaram-se, mudaram de vida e agora desfrutam de uma felicidade inefável no Céu! Quanto a mim, estou perdido para sempre, e isso por minha própria culpa, pois tive à minha disposição uma abundância extraordinária de meios de salvação. Mas agora o arrependimento já não aproveita; é tarde demais!' Consideremos, porém, as expressões de pesar dos diversos pecadores condenados. Sua dor é vã, porque, à semelhança da de Judas, é o pesar do desespero. 

'Durante a vida' - dirão esses pecadores condenados a si mesmos - 'amei o conforto, o bem-estar e o luxo, as vestes finas, as joias preciosas e as mansões suntuosas. Para alcançar essas coisas, não hesitei em defraudar o meu próximo de todas as maneiras possíveis. Roubei meus patrões, prestei falsos juramentos, filiei-me a sociedades secretas, cheguei até a vender a minha própria virtude! Deixava de assistir à Santa Missa, comia carne nos dias proibidos, negligenciava os Sacramentos e fui ao ponto de renegar a minha fé. Contraí matrimônio diante de um magistrado civil ou de um ministro herege; contraí um matrimônio misto sem dispensa; obtive o divórcio e depois ousei violar as leis de Deus e da Igreja, casando-me novamente! Quis ser livre para fazer exatamente o que me agradava.

As leis de Deus e de Sua Igreja proibiam-me de frequentar ocasiões perigosas; mas desprezei essas leis porque queria divertir-me e satisfazer as minhas paixões, convivendo com pessoas e frequentando lugares que constituíam ocasião de pecado para mim. Assim, caí repetidas vezes em faltas, até mesmo nas mais vergonhosas.

Deus ordenava-me que fosse puro e casto, mas eu encontrava prazer em satisfazer as mais vis paixões de todas as maneiras possíveis, procurando toda ocasião favorável para isso. Quão criminosamente procedi ao negligenciar a educação religiosa de meus filhos, tornando-me assim causa da perdição de suas almas! Durante a vida, comprazia-me em ouvir e propagar maledicências, calúnias, conversas obscenas e até discursos ímpios. Gostava de ler romances imorais e de contemplar imagens e objetos indecentes. Enquanto vivi na terra, entreguei-me ao vício da embriaguez, abusando das bebidas fortes até degradar-me abaixo dos próprios animais e cometer inumeráveis crimes contra minha esposa, contra meus filhos e contra o meu próximo. Durante a vida, deleitava-me em blasfemar, praguejar, proferir terríveis juramentos e imprecações, em promover contendas, entregar-me ao jogo e praticar quase toda espécie de pecado.

E agora encontro-me encerrado na sombria prisão do inferno, em companhia de uma multidão incontável de malfeitores, assassinos e dos seres mais degradados que já existiram. Já não tenho um pai amoroso, um filho afetuoso, um amigo compassivo. Não! Todos os laços da amizade e da natureza foram para sempre rompidos, transformando-se para sempre em ódio diabólico. Todo espírito maligno, todo réprobo me insulta, me amaldiçoa, me atormenta e procura aumentar ainda mais os meus sofrimentos. Sou obrigado a suportar tudo isso porque, durante a vida, recusei-me a submeter-me à santa vontade de Deus. Eu poderia ter-me salvado com tanta facilidade, e agora estou perdido, perdido para sempre, e isso por minha própria culpa! Jamais verei a Deus; jamais gozarei das delícias do Céu; jamais serei libertado destes terríveis tormentos. Agora é tarde demais!'

Tudo isso, e muito mais, dirá aos condenados o verme da consciência, ferindo-os com censuras tão incessantes e impiedosas que quase os levará à loucura do desespero. Com efeito, os condenados urrarão e enfurecer-se-ão como possessos, lançando maldições contra si mesmos. Mas tudo será em vão; é tarde demais para o arrependimento. Esse terrível remorso nada fará para expiar os seus pecados; apenas aumentará a intensidade de seus sofrimentos.

Reflete sobre isso, ó pecador obstinado, que pecas com tanta audácia e, mesmo quando tua consciência te adverte, fechas os ouvidos às suas repreensões. Tem por certo que um dia a tua própria consciência será o teu carrasco e te atormentará com maior persistência do que os próprios demônios. Se desejas escapar dessa miséria sem fim, escuta agora a voz da tua consciência; segue os seus conselhos quando ela te manda evitar o mal e te exorta a praticar o bem.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

'POR QUE DEUS NOS CRIOU E O QUE ESPERA DE NÓS?'

1. Há dois modos de responder a essa pergunta, conforme a consideremos do ponto de vista de Deus ou do nosso. Considerando-a do ponto de vista de Deus, a resposta é: 'Deus nos fez para mostrar a sua bondade'. Posto que Ele é um Ser infinitamente perfeito, a principal razão pela qual faz alguma coisa deve ser uma razão infinitamente perfeita. Mas só há uma razão infinitamente perfeita para se fazer alguma coisa: é fazê-la por Deus. Por isso, seria indigno de Deus, contrário à sua infinita perfeição, que Ele fizesse alguma coisa por uma razão inferior a Si mesmo. 

2. A primeira razão, pois – a grande razão pela qual Deus fez o universo e nos fez a nós - foi a sua própria glória: para mostrar o seu poder e bondade infinitos. Seu infinito poder mostra-se pelo fato de existirmos. Sua infinita bondade, pelo fato de Ele nos querer fazer participar do seu amor e felicidade.

3. Do nosso ponto de vista à pergunta: 'Para que nos fez Deus?' dizemos que nos fez 'para participarmos da sua eterna felicidade no céu'. As duas respostas são como que as duas faces da mesma moeda, o anverso e o reverso: a bondade de Deus nos fez participar da sua felicidade e a nossa participação na sua felicidade mostra a bondade de Deus. 

4. Deus, que é infinitamente bom, não poria nos corações humanos esta ânsia de felicidade perfeita se não houvesse modo de satisfazê-la. Deus não tortura com a frustração as almas que criou. Mas, mesmo que as riquezas materiais ou espirituais desta vida pudessem satisfazer todos os desejos humanos, permaneceria a certeza de que um dia a morte nos tirará tudo – e a nossa felicidade seria incompleta. No céu, pelo contrário, não só seremos felizes com a máxima capacidade do nosso coração, mas teremos, além disso, a perfeição final da felicidade, por sabermos que nada no-la poderá arrebatar. 

5. Nunca se ressaltará bastante que a felicidade do céu consiste essencialmente na visão intelectual de Deus – na posse final e completa de Deus, a quem nesta terra desejamos e amamos debilmente e de longe. E se este há de ser o nosso destino - estarmos eternamente unidos a Deus pelo amor - disso se depreende que temos de começar a amá-lo aqui nesta vida. 

6. Deus não pode elevar à plenitude o que nem sequer existe. Se não há um princípio de amor de Deus em nosso coração, aqui, na terra, não pode haver a fruição do amor na eternidade. Para isso nos colocou Deus na Terra, para que, amando-o, estabeleçamos os alicerces necessários para a nossa felicidade no céu.

7. Só há uma maneira de provarmos o nosso amor a Deus: é fazer o que Ele quer que façamos, sendo o tipo de homem que Ele quer que sejamos. O amor a Deus não está nos sentimentos. Amar a Deus não significa que nosso coração deva dar saltos de cada vez que pensamos nEle. Algumas pessoas poderão sentir seu amor a Deus de modo emocional; mas não é isso o essencial. Porque o amor a Deus reside na vontade. Não é pelo que sentimos sobre Deus, mas pelo que estamos dispostos a fazer por Ele, que provamos o nosso amor a Deus.

(Excertos da obra 'A Fé Explicada', de Leo Trese)

sexta-feira, 24 de julho de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXIV)

PARTE III - O INFERNO

VI. Sobre a perda da Visão Beatífica de Deus

Já falamos de muitos e dos terríveis castigos infligidos aos condenados; contudo, estes constituem apenas uma parte muito pequena do conjunto. São incontáveis em número e tão grandes e espantosos que, como diz Santo Agostinho, todos os sofrimentos deste mundo são como nada quando comparados com o fogo eterno e os tormentos do Inferno.

Assim como o Apóstolo São Paulo diz: 'Nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, nem jamais entrou no coração do homem o que Deus preparou para aqueles que o amam', também se pode dizer: 'nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram os castigos que Deus preparou para aqueles sobre os quais recaem os seus justos juízos'. E, quando lemos os terríveis castigos com que Deus ameaça esmagar, ainda neste mundo, os transgressores da sua santa lei, não podemos estar certos de que Ele derramará toda a força da sua ira sobre aqueles pecadores audazes que desprezaram os seus avisos e, com malícia diabólica, perseveraram em sua iniquidade até o fim da vida?

Recordai-vos do que Deus disse ao povo de Israel: 'Um fogo se acendeu na minha ira e arderá até o mais profundo do Inferno; consumirá a terra com os seus frutos e queimará os fundamentos dos montes. Amontoarei males sobre os transgressores da minha lei e esgotarei contra eles as minhas flechas. Serão consumidos pela fome, e as aves os devorarão com mordedura amarguíssima; enviarei contra eles os dentes das feras, juntamente com o furor das serpentes. Por fora os devastará a espada e por dentro o terror, tanto o jovem como a virgem, a criança de peito e o homem já avançado em anos' (Dt 32,22-25).

A Sagrada Escritura contém muitas outras ameaças semelhantes e igualmente aterradoras. Não há dúvida de que, na outra vida, onde reinará a justiça e não a misericórdia, Deus castigará com mão inexorável os insolentes violadores dos seus santos mandamentos. Os castigos da eternidade serão sem número e sem medida. Os condenados estarão cercados por aflição e tristeza, por angústias e tormentos inumeráveis. São Bernardo afirma que as penas dos condenados são incontáveis; nenhuma língua mortal é capaz de enumerá-las.

Entretanto, dentre todos esses sofrimentos, aquele que causa a mais aguda angústia é a privação da visão de Deus. Jamais será concedido aos condenados contemplar a Face divina. Essa pena excederá incomparavelmente todos os demais tormentos de que falamos. É impossível ao homem mortal compreender quão grande pode ser essa aflição para os condenados.

Todavia, este é o ensinamento dos Santos Padres: todos sustentam que não há sofrimento que os réprobos lamentem tão amargamente quanto o de serem excluídos para sempre da visão de Deus. Enquanto vivemos neste mundo, pouco pensamos na visão de Deus e no que significaria sermos privados dela por toda a eternidade. Isso provém da obscuridade de nossa percepção, que nos impede de compreender a infinita beleza e bondade de Deus e a felicidade experimentada por aqueles que o contemplam face a face. Mas, depois da morte, quando estivermos livres dos entraves do corpo, nossos olhos se abrirão, e perceberemos, ao menos em certa medida, que Deus é o Bem supremo e infinito, e que a posse dele constitui a nossa mais alta felicidade.

Então, um desejo tão ardente de contemplar e possuir esse Bem supremo se apoderará de nossa alma, que ela será irresistivelmente atraída para Deus e ansiará, com todas as suas forças, contemplar a sua inefável beleza. E, se por causa de seus pecados lhe for negada essa visão beatífica, isso lhe causará a mais intensa angústia. Nenhuma dor, nenhum suplício conhecido neste mundo pode, de modo algum, ser comparado a ela.

São Boaventura dá testemunho disso quando afirma: 'A pena mais terrível dos condenados é serem excluídos para sempre da contemplação bem-aventurada e jubilosa da Santíssima Trindade'. Do mesmo modo, São João Crisóstomo diz: 'Conheço muitas pessoas que temem o Inferno apenas por causa de seus tormentos; mas eu afirmo que a perda da glória celeste é uma fonte de sofrimento mais amargo do que todos os tormentos do Inferno'. O próprio demônio foi constrangido a reconhecer essa verdade, conforme se lê nas Legendas do Bem-aventurado Jordão da Saxônia, outrora Mestre Geral da Ordem Dominicana. 

Quando Jordão perguntou a Satanás, por intermédio de um possesso, qual era o principal tormento do Inferno, este respondeu: 'Ser excluído da presença de Deus'. Jordão perguntou então: 'É Deus, pois, tão belo de contemplar?' Ao que o demônio respondeu: 'Sim, pois Ele é de uma beleza incomparável'. Jordão prosseguiu: 'Quão grande é essa beleza?' E o demônio replicou: 'Insensato! Como podes fazer-me semelhante pergunta? Não sabes que a sua beleza está acima de toda comparação?' Jordão insistiu: 'Não poderias apresentar-me alguma comparação que ao menos me desse uma pequena ideia da beleza divina?' Então Satanás respondeu: 'Imagina uma esfera de cristal mil vezes mais resplandecente que o sol, na qual se reunissem a formosura de todas as cores do arco-íris, o perfume de todas as flores, a doçura de todos os sabores mais deliciosos, o valor de todas as pedras preciosas, a bondade dos homens e o encanto de todos os Anjos. Por mais bela e preciosa que fosse essa esfera de cristal, comparada com a beleza divina, ela pareceria disforme e impura'. Então o santo religioso perguntou ainda: 'E dize-me: que darias para seres admitido à visão de Deus?' O demônio respondeu: 'Se houvesse uma coluna que se estendesse da terra ao Céu, coberta de pontas afiadas, pregos e ganchos, eu consentiria de bom grado em ser arrastado para cima e para baixo por essa coluna, desde agora até o Dia do Juízo, se ao menos me fosse permitido contemplar a Face divina por alguns breves instantes'.

Daí podemos compreender quão infinita é a beleza da Face de Deus, se até mesmo o espírito do mal se sujeitaria aos tormentos físicos que ele próprio descreveu, para gozar, ainda que por breves instantes, da contemplação daquele semblante cheio de graça e majestade. Não há, pois, dúvida de que nada causa aos demônios e aos condenados angústia tão profunda quanto serem privados da visão beatífica de Deus.

Suponhamos, portanto, que Deus enviasse um Anjo às portas do Inferno com esta mensagem aos infelizes habitantes daquele lugar de tormento: 'O Todo-Poderoso, em sua misericórdia, compadeceu-se de vós e está disposto a libertar-vos de uma das penas que sofreis. Qual delas desejais que vos seja retirada?' Que pensais que responderiam? Todos, como uma só voz, exclamariam: 'Ó bom Anjo, suplicai a Deus que, ao menos por sua infinita bondade, deixe de privar-nos da visão da sua Face!' Este seria o único favor que implorariam de Deus. Se lhes fosse possível contemplar a Face divina, ainda que permanecessem em meio às chamas do Inferno, a alegria dessa visão faria com que já não se importassem com o fogo devorador. Pois a visão de Deus é tão bela, tão bem-aventurada, tão cheia de êxtase e de delícias infinitas, que todas as alegrias e atrativos da terra não podem ser-lhe comparados nem de muito longe.

Na verdade, toda a felicidade celeste, por maior que fosse, converter-se-ia em amargura se lhe faltasse a visão de Deus; e os próprios redimidos prefeririam estar no Inferno, desde que ali pudessem gozar da visão beatífica, a permanecer no Céu privados dela. Assim como o privilégio de contemplar a Face divina constitui a felicidade principal dos bem-aventurados - aquela sem a qual nenhuma outra felicidade seria verdadeiramente felicidade - assim também constitui a principal miséria do Inferno: o fato de que as almas condenadas estejam para sempre excluídas dessa visão. Sobre isso diz São João Crisóstomo: 'Os tormentos de mil infernos nada são em comparação com a angústia de ser banido da bem-aventurança eterna e da visão de Deus'.

Para compreendermos, ao menos em parte, quão grande é essa pena de dano, devemos recordar que fomos criados por Deus para sermos felizes eternamente. Esse amor à felicidade, esse anseio por ela que cada um de nós sente no coração, jamais será destruído, nem mesmo no Inferno. Durante esta vida, os homens, impelidos por esse desejo e cegados pelas paixões, procuram a felicidade nas riquezas, nas honras e nos prazeres dos sentidos. Essas imagens ilusórias da felicidade nos enganam enquanto a alma permanece unida ao corpo. Mas, quando a alma se separa do corpo, todos esses prazeres falsos e passageiros desaparecem, e ela reconhece que somente Deus é a fonte de toda felicidade e que apenas na posse dEle se pode encontrá-la.

Já não iludida pelas falsas aparências, já não obscurecida pelas paixões, ela percebe claramente a inefável e arrebatadora beleza de Deus e suas perfeições infinitas. Contempla o seu poder infinito na criação do universo, a sua sabedoria infinita no governo de todas as coisas, o seu amor incomensurável por ela ao fazer-se homem, ao morrer por ela, ao dar-se a ela como alimento da sua alma no Santíssimo Sacramento e ao destiná-la a participar para sempre da sua própria felicidade no Céu. Esse conhecimento da grandeza, da bondade e da beleza de Deus permanecerá profundamente gravado nela por toda a eternidade. Ela compreenderá também a perfeita justiça dos castigos que Deus inflige eternamente no Inferno a todos aqueles que não guardaram os seus mandamentos.

Então a alma réproba, sedenta de felicidade e irresistivelmente atraída para Deus, único que pode torná-la feliz, esforça-se por lançar-se para Ele com todo o ímpeto de sua natureza, desejando contemplá-o, possuí-lo e unir-se a Ele. Mas sente-se repelida por uma força infinita e rejeitada por Deus por causa dos seus pecados. Ainda que nesse momento lhe fossem oferecidas todas as riquezas, todas as honras e todos os prazeres do mundo, ela os rejeitaria e até os amaldiçoaria, porque anseia unicamente por Deus e somente nele pode encontrar a felicidade.

A alma condenada, atormentada pelos mais horríveis sofrimentos, procura ao seu redor algum alívio, alguma palavra de consolação; mas nem sequer um olhar de compaixão encontra, pois está cercada de demônios cruéis e inimigos implacáveis. Não encontrando misericórdia onde está, levanta os olhos para o Céu e o contempla tão belo, tão encantador, tão admirável, tão repleto da verdadeira felicidade. Recorda-se de que foi criada e destinada a participar dessa bem-aventurança; e agora, em meio às dores mais atrozes, deseja aqueles gozos com um anseio ainda mais indizível. Faz esforços extraordinários para alcançar o Céu, mas não pode abandonar a sua morada de tormentos.

Ninguém no Céu parece notar a sua presença. Ela vê o trono que Deus, em sua bondade, lhe havia preparado, agora ocupado por outro! Já não há mais lugar para ela no Céu. Contempla ali alguns de seus parentes, companheiros e conhecidos, mas eles não lhe dão atenção. Vê todos os eleitos cheios de alegria e felicidade. Nem sequer se compadecem dela; antes, como canta o salmista: 'O justo se alegrará quando vier a vingança' (Sl 57,11).

Em vão a alma réproba invoca os Santos, a Santíssima Virgem e o próprio Salvador divino. Ela sente-se atraída para Deus por um impulso irresistível e compreende que somente Deus pode saciar a sua sede de felicidade e torná-la feliz. Anseia contemplá-lo e possuí-lo; repetidas vezes procura lançar-se para Ele, mas sente-se repelida por uma força invencível. Reconhece-se objeto da ira divina, do anátema de Deus. Tem plena consciência de que a sua situação é irremediável e de que jamais será admitida nas moradas dos bem-aventurados, nem sairá da habitação da miséria sem fim.

Então o desespero apoderar-se-á dela. Proferirá as mais terríveis imprecações contra Deus e contra os eleitos, contra o Céu, contra si mesma, contra os seus pais, seus companheiros e contra todas as criaturas. Todo o Inferno estremecerá com as suas horrendas blasfêmias, e ela se tornará, em meio aos seus acessos de furor, objeto de terror até mesmo para todos os demais condenados.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

terça-feira, 21 de julho de 2026

A SÓS COM DEUS (V)

 

São Paulo diz que o Reino dos Céus é paz, justiça e alegria no Espírito Santo; e Jesus me ensina, no Santo Evangelho, esta verdade tão cheia de luz e de consolação: 'O Reino dos Céus está dentro de vós mesmos'. Ele está dentro de mim, e é um reino de luz, de belezas e de harmonias. Não há lugar, nesse reino, para as trevas nem para a fealdade das traições, nem para os desacertos e desvios da vontade. Nesse reino de graça e de amor, só podem ser ouvidas melodias de anjos, que cantam a glória de Deus. Esse reino é constituído pela presença de Deus.

Deus está em mim e me plenifica. Deus envolve minha alma com sua graça e a transforma em seu amor. Deus faz de minha alma um Reino dos Céus, e Ele mesmo é o meu Rei; põe em mim amplitudes e belezas infinitas e me fortalece com aspirações ilimitadas à sua própria Vida eterna e infinita. Porque Deus é a minha vida.

O Senhor trouxe-me para viver a vida eterna, que consiste em ter o pensamento, a vontade, toda a atenção e todo o afeto postos em Deus e em Jesus Cristo. Parece-me ouvir, como um dulcíssimo eco, o meu santo de devoção, São João da Cruz:

Anima-te e ergue, com alegria, o coração, e entra na luz;
olha, jubiloso e confiante, para o teu Pai Celestial,
que deseja envolver-te e iluminar-te
com a luz e a beleza inatas do seu olhar.

E para que assim o possa fazer,
não queiras nada, nada, nada do que é propriamente teu,
porque é vileza e miséria, porque é pequenez e desarmonia.
E o que é vil e miserável não pode entrar no Reino dos Céus.

Não queiras nada do que pertence à terra, às trevas e à mesquinhez.
Levanta-te e esvazia-te de tudo o que é feio e mortal,
para que entre em ti a chama do amor de Deus e te transforme.
Deus então estabelecerá em ti o Reino dos Céus
e te fará experimentar o gosto da vida eterna.

[Excertos da obra 'Com Dios a Solas - Un Carmelita Descalzo', do Pe. Valentin de San Jose (1896 - 1989)]

sexta-feira, 17 de julho de 2026

SOBRE O CONSELHO ESPIRITUAL

1. Para vencer as inclinações do orgulho e da soberba, a alma necessita buscar o conselho seguro de um diretor espiritual. Quem confia apenas nas próprias luzes facilmente cai em ilusão e erro.

2. O dom do conselho é uma graça especialíssima com que o Espírito Santo aperfeiçoa a virtude da prudência. Por meio dele, a alma recebe uma facilidade sobrenatural para julgar, prontamente e de modo reto, o que deve fazer em circunstâncias difíceis, escolhendo o que mais convém para a glória de Deus e a própria salvação.

3. Não estamos abandonados às nossas próprias opiniões confusas. Na Igreja, encontramos o conselho seguro e a guia infalível estabelecida por Cristo para que caminhemos na verdade.

4. Diante de uma decisão moral importante, o cristão deve recorrer primeiro à oração, suplicando o conselho divino antes de agir.

5. Aquele que por um mau conselho induz o próximo a cometer uma injustiça ou a faltar com a verdade, torna-se corresponsável pelo pecado alheio e tem a obrigação de tentar reparar o erro.

6. O sacerdote no confessionário não age apenas como um juiz que absolve, mas como um médico que cura e um pai que oferece o conselho oportuno para a emenda de vida.

7. O bom católico acolhe com humildade o conselho de seus pastores, reconhecendo neles os canais da providência e da instrução cristã.

(Excertos da obra 'A Fé Explicada', de Leo Trese)

terça-feira, 14 de julho de 2026

A SÓS COM DEUS (IV)

 

O santo ama a solidão e ama o retiro e o silêncio, porque ama a luz, porque recebe soberanas notícias da infinita magnificência de Deus; como vive vivendo o amor de Deus, todas as coisas lhe falam de Deus e o próprio Deus fala continuamente ao seu coração palavras do Céu.

Quero nestes dias de recolhimento especial olhar para essas nobilíssimas verdades e pedir humildemente ao Senhor que Ele mesmo me ensine tanta formosura. O amoroso conhecimento e abraço desta formosura faz, ainda na terra, a felicidade da alma santa que goza de viver na companhia de Deus. O trato não necessário com as criaturas impede esta amorosa e gozosa comunicação da alma com Deus e a afasta da vida e da luz divinas.

Nestes dias quero fechar os olhos e os ouvidos do meu corpo, para estar atento e abraçado somente com Deus. Recolhe-te, alma minha, dentro de ti mesma e submerge-te na luz, na verdade, na beleza infinita e no amor sem limites de Deus. Esconde-te em teu Deus, com visão de fé, e vive a vida eterna da graça e do amor.

Moisés, o escolhido de Deus, subiu ao alto do Monte Sinai, ao silêncio não perturbado por ninguém, à claridade e luz pura não contaminada; subiu, deixando abaixo o ruído e as inquietações das gentes com todos os seus afãs, preocupações e pequenezas; subiu para isolar-se das necessárias perturbações de seus afazeres e obrigações e ficar a sós com Deus. Não subia para morrer; subia para receber a instrução e o ensinamento do próprio Deus; para tratar em silêncio e isolamento com Deus e escutar diretamente as palavras de verdade que Ele colocava no íntimo de sua alma. 

Em um momento difícil da perseguição que padeceu por parte dos grandes da terra, Elias sentiu a vida pesada e intolerável; sentiu um tédio avassalador e o peso de sua miséria natural. Deus mandava-o subir à solidão e ao silêncio, e na luz de Deus. Elias não fala, mas escuta, olha, atende a Deus no silêncio e no esquecimento das criaturas, e sente a presença e o olhar de Deus. Nesse olhar de amor, comunica-se-lhe e dá-se-lhe a sabedoria do divino conhecimento. Junto com este conhecimento, recebeu em sua alma a fortaleza do espírito e a vida de Deus, que é vida eterna de luz, de verdade e de todo bem.

Como a Moisés e como a Elias, chamastes-me e trouxestes-me, Senhor, à Religião, e agora a esta solidão e recolhimento; não para morrer, nem para tristezas, nem para ruídos ou distrações com as criaturas, não para descansar, mas para a tua casa de silêncio e santidade, para viver em ti mesmo, para comunicar-te e dar-me a tua vida, e alegrias e luzes do espírito; vim para viver na tua própria vida.

Que eu vos conheça e vos ame, Deus meu. Quereis dar-me uma vida sobrenatural em plenitude. Que eu prepare a minha alma com virtudes e com o contínuo trato convosco na oração e no silêncio, para que possa crescer e desenvolver-se continuamente mais esta vossa vida em mim. Dá-me a vossa própria vida. Como poderei corresponder a um tal bem?

[Excertos da obra 'Com Dios a Solas - Un Carmelita Descalzo', do Pe. Valentin de San Jose (1896 - 1989)]

sexta-feira, 10 de julho de 2026

SOBRE O REINO DE DEUS

1. Jesus lembrava-lhes continuamente que o reino de Deus estava próximo. Este reino de Deus na terra – que nós denominamos Igreja – seria a preparação do homem para o reino eterno do céu. A velha religião judaica, estabelecida por Deus para preparar a vinda de Cristo, ia terminar. A velha lei do temor ia ser substituída pela nova lei do amor.

2. A graça que recebemos não é um adorno superficial, mas a própria vida de Cristo que se estabelece em nós. É por meio desta transformação interior que o reino de Deus começa a reinar de maneira viva na alma do justo, preparando-o para a posse definitiva na eternidade.

3. Pela virtude da fé, aceitamos a autoridade de Cristo como Mestre e Senhor. Assim, submetendo a nossa inteligência às suas verdades, permitimos que o reino de Deus governe os nossos pensamentos e guie cada uma de nossas decisões no mundo.

4. A caridade é a lei fundamental que rege o reino de Deus. Sem o amor ativo a Deus e ao próximo, qualquer esforço externo de cumprimento dos mandamentos seria incompleto, pois o reino celestial é a consumação perfeita desse amor que começou na terra.

5. A vida humana pertence exclusivamente ao Criador. Cada homem foi chamado à existência com um propósito que ultrapassa a matéria física, devendo ordenar as suas ações corporais e espirituais em conformidade com as leis do reino de Deus.

6. Os paramentos e os ritos litúrgicos cumprem a função de elevar a mente do fiel acima das preocupações cotidianas. Eles nos recordam de que a Missa não é um evento puramente humano, mas a manifestação visível da realeza e do reino de Deus operando no altar.

7. Ao recebermos a Sagrada Comunhão com as devidas disposições de alma, Cristo estabelece e robustece o seu reino de Deus dentro de nós, capacitando-nos a espalhar a santidade e a verdade em meio à sociedade.

(Excertos da obra 'A Fé Explicada', de Leo Trese)

quinta-feira, 9 de julho de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXIII)

PARTE III - O INFERNO

V. Sobre a companhia no Inferno

Há muitos pecadores audazes que, quando são castigados por seus crimes e ameaçados com o fogo do Inferno, costumam responder atrevidamente: 'Onde quer que eu vá, ao menos não me faltará companhia'. Como se a presença de outros lhes pudesse proporcionar algum consolo ou qualquer alívio em seus tormentos. Para que esses pecadores insolentes vejam quão errados estão ao falar assim, e quão pouco motivo têm para esperar algum conforto da companhia em que se encontrarão, este capítulo será dedicado a mostrar quão miserável será essa companhia e como ela agravará ainda mais a sua desgraça.

A sociedade dos condenados é composta de demônios e de almas perdidas. Ambos são inumeráveis. Quanto à companhia dos demônios, ela é tão detestável que pode ser considerada o pior castigo dos réprobos no Inferno. O lugar dos tormentos seria muito menos digno desse nome se nele não houvesse demônios. Por causa da multidão deles, reina ali tal confusão, tal aflição, tal miséria e tal tirania, que apenas pensar nisso já parte o coração.

Nós, mortais, não temos inimigo pior do que o demônio, que nos odeia com um ódio tão intenso que deseja, a cada instante, lançar-nos no abismo da perdição. E, quando finalmente consegue ter alguém sob seu poder, trata-o com maior barbárie do que jamais o mais cruel dos déspotas tratou o seu mais mortal inimigo. Todo o ódio e toda a inveja que, no momento de sua queda, concebeu contra Deus, e que não pode descarregar sobre Ele, descarrega-os sobre os condenados, atormentando-os com suplícios cujo simples pensamento faz gelar o sangue de qualquer homem. Ainda que não lhes causasse nenhum outro mal, o simples fato de habitar com eles por toda a eternidade seria uma desgraça tão terrível para esses infelizes pecadores, que o horror de sua condição lhes seria como uma morte contínua.

Entre todos os espíritos decaídos, nenhum é tão abominável quanto o chefe de todos eles, o soberbo Lúcifer, cuja crueldade, malícia e perversidade o tornam objeto de terror não somente para os condenados, mas também para os próprios demônios que lhe estão sujeitos. Esse Lúcifer é chamado, nas Sagradas Escrituras, por diversos nomes, todos indicando sua malignidade. Por causa de seu aspecto repugnante, é chamado dragão; por causa de sua ferocidade, leão; por causa de sua malícia, antiga serpente; por causa de seu espírito enganador, pai da mentira; por causa de seu orgulho, rei sobre todos os filhos da soberba; e, por causa de seu grande poder e força, príncipe deste mundo.

Escutai o que dizem os Padres da Igreja e alguns intérpretes das Sagradas Escrituras acerca do terrível aspecto apresentado por Satanás. Eles lhe aplicam a descrição do Leviatã encontrada no Livro de Jó: 'Quem poderá descobrir a superfície de sua veste? Ou quem penetrará no meio de sua boca? Quem abrirá as portas de seu rosto? Em redor de seus dentes reina o terror. Seu corpo é como um escudo fundido, fechado e unido por escamas que se comprimem umas contra as outras. Cada uma se liga à outra, de tal modo que nem mesmo o ar pode passar entre elas. Seus espirros fazem brilhar a luz, e seus olhos são como as pálpebras da aurora. De sua boca saem tochas, e faíscas de fogo se desprendem. De suas narinas sai fumaça, como de uma panela fervente sobre o fogo. Seu hálito acende carvões, e de sua boca sai uma chama. Em seu pescoço habita a força, e diante dele marcha a ruína. Seu coração é duro como pedra, firme como a bigorna do ferreiro. Quando ele se levanta, os anjos estremecem e, cheios de temor, recorrem a Deus em busca de proteção. Faz ferver o mar profundo como uma caldeira. Não há poder sobre a terra que se lhe possa comparar, pois foi criado para não temer ninguém. Contempla tudo quanto é elevado; é rei sobre todos os filhos da soberba' (Jó 41).

É opinião de São Cirilo, Santo Atanásio, São Gregório e de outros sábios intérpretes tanto da Igreja Grega quanto da Igreja Latina que, embora essa descrição se refira literalmente a um monstro marinho, ela foi também destinada, em seu sentido místico, a aplicar-se a Lúcifer. E, se alguém comparar o que é dito do Leviatã com os atributos que são atribuídos ao príncipe das trevas, será impossível negar a semelhança entre ambos. Além disso, sabe-se, como fato geral, que tanto as coisas más quanto as boas possuem, no mundo natural, suas figuras e representações: as primeiras servem para nossa advertência; as segundas, para nosso exemplo.

Além do príncipe das trevas, existem centenas de milhares de demônios inferiores que, embora menos perversos e menos abomináveis do que ele, são ainda assim tão maus e tão horríveis que dificilmente alguém poderia contemplá-los e continuar vivo. Santo Antão relata que um dos irmãos de sua Ordem soltou um grito lancinante ao ver um demônio que lhe apareceu. Os demais monges, acorrendo assustados, encontraram-no mais morto do que vivo. Depois de lhe darem algo que lhe restituísse as forças, perguntaram-lhe o que havia acontecido.

Então ele lhes contou que o demônio lhe aparecera e o aterrorizara de tal maneira que toda a vida parecia ter-lhe abandonado o corpo. Perguntaram-lhe ainda qual era a aparência daquele demônio. Ele respondeu: 'Isso realmente não posso dizer. Apenas posso afirmar que, se me fosse dada a escolha, preferiria ser lançado numa fornalha em brasa do que tornar a contemplar o rosto daquele demônio'. Lemos quase a mesma coisa na vida de Santa Catarina de Sena. Ela também declarou que preferiria atravessar um fogo ardente a fixar, por um único instante sequer, os olhos sobre o demônio.

Se a simples visão do espírito maligno é tão espantosa que os santos a consideram mais intolerável do que o sofrimento de serem expostos às chamas de um fogo ardente, que temor e que horror não experimentarão os condenados, obrigados a habitar para sempre no meio de inumeráveis espíritos infernais! Que terror sentirias se um cão raivoso saltasse de repente sobre ti, te derrubasse ao chão e começasse a dilacerar-te com os dentes! Não imagines que o demônio cairá sobre os condenados com menor fúria, nem que os tratará com maior misericórdia.

O relato que Jó faz de seus perseguidores descreve com grande exatidão o estado de uma alma perdida no Inferno: 'Meu inimigo reuniu contra mim todo o seu furor; ameaçando-me, rangeu os dentes contra mim; fitou-me com olhos terríveis. Abriram contra mim a sua boca; cobrindo-me de insultos, feriram-me na face; todos se juntaram contra mim. Agarrou-me pelo pescoço, despedaçou-me e fez de mim o alvo de seus golpes. Cercou-me de lanças; traspassou-me os rins sem piedade. Rasgou-me ferida sobre ferida; lançou-se sobre mim como um gigante' (Jó 16,10-15).

Essa passagem pode dar-nos alguma ideia do terrível caráter da companhia em cujo meio os condenados se encontrarão no Inferno. Os réprobos talvez procurem, contudo, consolar-se com este pensamento: 'Ao menos teremos conosco os nossos semelhantes no Inferno, e deles não haverá falta'. Guardai-vos de vos iludirdes com esse falso consolo. Toda alma condenada preferiria infinitamente estar sozinha no Inferno, se lhe fosse dada essa escolha. Pois, assim como no Inferno não existe a caridade divina, também não existe o amor ao próximo. Pelo contrário, todos os condenados estão tão cheios de amargura uns contra os outros que desejam mutuamente apenas o mal, escarnecem uns dos outros e se amaldiçoam da maneira mais cruel.

E, assim como nesta vida é extremamente penoso ser obrigado a conviver com um inimigo que nos faz toda sorte de males, assim também não é pequeno tormento permanecer continuamente entre milhares de pessoas, todas as quais se odeiam e se detestam do fundo do coração. Que julgais que sentiríeis se fôsseis cruelmente atormentados, maltratados e perseguidos pelos demônios, a ponto de não poderdes conter altos gritos de dor e aflição e, contudo, entre os milhares que vos cercassem, não encontrásseis sequer uma única pessoa que vos demonstrasse a menor compaixão? Pelo contrário, todos zombariam de vós, todos vos amaldiçoariam, porque cada um se alegraria com o vosso sofrimento.

Até mesmo vosso pai e vossa mãe, vossa esposa e vossos filhos, vossos irmãos e irmãs, vossos amigos e parentes seriam então vossos declarados inimigos e, em vez de vos manifestarem qualquer gratidão, procurariam apenas causar-vos maior dano. Mas, entre todos os vossos inimigos, os mais implacáveis serão aqueles a quem escandalizastes com vosso mau exemplo, aqueles que conduzistes ao pecado por vossos conselhos ou por vossa conduta, aqueles que vos devem a própria perdição. Eles vos odiarão e execrarão com tal amargura e vos atormentarão com tamanha animosidade que parecerão menos homens do que demônios encarnados.

A esse respeito, São Bernardino narra o seguinte exemplo: 'Havia um rico usurário que tinha dois filhos. Um deles entrou para uma Ordem religiosa, enquanto o outro permaneceu no mundo junto de seu pai. Pouco tempo depois o pai morreu e, em breve espaço de tempo, foi seguido ao túmulo por esse filho, a quem havia deixado toda a sua fortuna. O outro filho, que se tornara monge, estava profundamente preocupado com o destino de seus familiares e suplicava insistentemente a Deus Todo-Poderoso que lhe revelasse qual era a sorte deles na outra vida. Por fim, suas súplicas foram atendidas.

Certo dia foi transportado em espírito ao Inferno. Embora olhasse por toda parte, não conseguia encontrar nem seu pai nem seu irmão. Finalmente percebeu um abismo de fogo, cujas chamas se elevavam a enorme altura. Naquele poço ardente, viu justamente aqueles que procurava, acorrentados um ao outro por pesadas cadeias de ferro, enfurecidos e praguejando um contra o outro. O pai amaldiçoava o filho, lançando sobre ele toda a culpa de sua condenação, dizendo: 'Maldito sejas, filho perverso! Tu és o único responsável pela minha perdição. Foi por tua causa, para fazer de ti um homem rico, que pratiquei a usura. Se não fosse por ti, eu não estaria agora mergulhado nesta miséria'. Então o filho respondeu ao pai: 'Maldito sejas tu, pai ímpio! Tu és o único responsável pela minha perdição. Se não tivesses praticado a usura e me deixado em herança teus bens injustamente adquiridos, eu jamais teria possuído riquezas mal adquiridas e não teria vindo parar nesta miséria'. 

Assim acontecerá convosco, se de algum modo fordes responsáveis pela perda de uma alma. Vossa esposa e vossos filhos vos amaldiçoarão e vos lançarão em rosto as ocasiões de pecado que lhes proporcionastes. O rico Epulão sentiu isso tão vivamente que suplicou com insistência ao pai Abraão que enviasse Lázaro à casa de seu pai para dar testemunho a seus irmãos dos sofrimentos que ele suportava, a fim de que eles não viessem também para aquele lugar de tormentos. E não fez isso por amor a seus irmãos, como observa Santo Antão, mas porque sabia muito bem que, se eles viessem juntar-se a ele no Inferno, seus tormentos seriam ainda mais agravados.

Suponhamos, porém, que ainda subsistissem no Inferno os afetos naturais, sobretudo entre aqueles que sinceramente se haviam amado nesta vida e que não tivessem sido causa da condenação um do outro. Mesmo assim, a companhia de uma pessoa que vos fosse querida aumentaria, em vez de diminuir, a vossa dor, e isso na mesma proporção do amor que por ela tivésseis. Pois que angústia seria para vós ver o vosso mais querido amigo torturado e atormentado de todas as maneiras possíveis! Seria suficiente para partir-vos o coração de tristeza e compaixão.

E, além dessa dor interior e espiritual, os condenados aumentam imensamente os sofrimentos exteriores e corporais uns dos outros. Primeiramente, porque permanecem comprimidos uns contra os outros. Em segundo lugar, porque todos exalam um odor repugnante e insuportável. Em terceiro lugar, porque uivam de maneira tão lamentável e fazem ressoar o Inferno com seus gemidos e lamentos. É disso que fala Cristo quando diz: 'Ali haverá choro e ranger de dentes'. Ele repete essas palavras mais de uma vez, para lhes dar maior força e gravar em nossos espíritos a grandeza dos tormentos suportados pelos condenados.

Também os demônios unirão seus uivos aos gritos dos condenados e levantarão tal clamor que o próprio Inferno estremecerá. O tormento dos condenados será ainda mais agravado pelo aspecto horrendo de seus corpos e pelo horror que inspirarão uns aos outros. Pois Santo Anselmo diz: 'Assim como nenhum mau cheiro pode ser comparado ao mau cheiro dos condenados, assim também nada neste mundo pode dar uma ideia de sua aparência hedionda'. Assim, cada vez que uma alma condenada olhar para outra, estremecerá de repugnância, aversão e horror.

Ainda que não houvesse no Inferno outro tormento senão esse, bastaria ele para tornar seus habitantes sumamente miseráveis. Finalmente, o tormento do Inferno será grandemente aumentado pela vergonha eterna que constituirá a herança dos condenados. São Tomás de Aquino ensina que os pecados de cada um serão conhecidos por todos os demais tão claramente como se os contemplassem com seus próprios olhos corporais. Cada um pode imaginar que angústia isso deve causar. Pois que há, nesta terra, de mais doloroso do que ser exposto à vergonha pública? Para um homem que perdeu sua boa reputação, a vida já não merece ser vivida; torna-se apenas um peso.

Antigamente, em alguns países, era costume marcar os malfeitores, como os ladrões, com um ferro em brasa na fronte ou no ombro. Que ignomínia para qualquer pessoa que ainda conservasse um mínimo de amor-próprio! Sempre que alguém olhasse para ela, deveria corar de vergonha. O demônio marcará todos os réprobos com o selo da vergonha sobre a fronte ou naquela parte do corpo com a qual pecaram, para que todas as ações vergonhosas que praticaram durante a vida sejam conhecidas por todos. É essa vergonha eterna que Deus anuncia ao pecador pela boca do seu profeta: 'Farei cair sobre vós um opróbrio eterno e uma vergonha perpétua que jamais será esquecida' (Jr 23,40).

Façam os condenados o que fizerem, jamais conseguirão apagar esse sinal, nem ocultá-lo dos seus companheiros de suplício. Por isso, como diz Santo Efrém, essa vergonha e essa infâmia lhes serão mais insuportáveis do que o próprio fogo do Inferno, porque conservarão continuamente diante de sua memória os pecados com que se mancharam durante a vida. Dionísio, o Cartuxo, narra o caso de um dos religiosos de sua Ordem, na Inglaterra, que, depois de um êxtase que durou três dias, contou aos monges, a pedido insistente deles, o que havia visto. 

Disse ele: 'Meu guia conduziu-me por longo caminho até chegarmos a uma região de trevas e de horror, onde se encontrava uma multidão incontável de homens e mulheres, todos submetidos a terríveis tormentos. Eram aqueles que haviam pecado por meio do corpo. Eram atormentados por enormes monstros de fogo que se lançavam sobre eles e, apesar de toda a resistência que ofereciam, apertavam-nos e os abraçavam com suas garras até fazê-los soltar gritos lancinantes de dor. Entre os que assim eram atormentados vi um homem que eu conhecia muito bem e que, no mundo, gozara de grande estima e consideração. Ao ver-me, exclamou em voz lamentável: Ai de mim! Ai de mim! Desgraçado de mim por haver pecado como pequei durante minha vida! Pois agora o tormento que padeço aumenta de dia para dia. Mas, acima de tudo, o que mais agudamente sinto é a vergonha e a desonra a que meus pecados me expõem, porque todos os conhecem, todos me desprezam e todos zombam de mim por causa deles'.

Vê-se, portanto, que, por mais imensuráveis que sejam os tormentos do Inferno, aquilo que os condenados temem ainda mais do que os sofrimentos físicos é tornarem-se objeto de desprezo e de escárnio para seus companheiros por causa de seus pecados. Assim, sua miséria, longe de ser diminuída pela companhia dos outros, é extraordinariamente aumentada por ela. Portanto, não procureis consolar-vos com o pensamento dos companheiros que encontrareis no Inferno, porque sua convivência é apenas motivo de terror. E, para que jamais sejais lançado em tão miserável companhia, guardai-vos de associar-vos, neste mundo, com aqueles que possam conduzir-vos ao pecado e, talvez, arrastar-vos à perdição.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)