segunda-feira, 31 de maio de 2021

VERSUS: CONFISSÃO FREQUENTE X ATUAL

Mas, dirás, de nada me aproveita a confissão. Estou sempre na mesma, recaio constantemente nos mesmos pecados! A tua objeção esconde um sofisma dos mais sutis. Se vives escravizado a qual­quer mau hábito, nem por isso hás de per­der a coragem. Extingue-se o incêndio e fica o braseiro do rescaldo. Para o apagar, é preciso ainda muita água. As labaredas do pecado, uma confissão as apagou; mas fica o braseiro do mau hábito, e esse só a abundante chuva de graças que dá a con­fissão frequente, o extinguirá.

Confessa-te, pois, com frequência. Aban­donar-te ao desespero seria crime enorme, pois levar-te-ia à perdição eterna. Coragem! E quando os maus hábitos apertarem contigo, diz: 'Não, agora não hei de pecar'. E sempre que a tentação volte; lhe hás de responder com o mesmo falar. E se, apesar disso, te acontecer à desgraça de recair, vai logo a confessar-te. A primeira queda arrastar-te-ia a uma se­gunda, terceira, e a muitas outras, se ime­diatamente te não levantasses amparado à graça do Sacramento.

E se a força do mau hábito outra vez te fizer cair, não desanimes por isso. Ora, torna a orar, e teima em ir buscar a força e o vigor que te faltam, na frequência da Confissão e na recepção da Sagrada Euca­ristia. Ao fim, hás de ver, serás tu o ven­cedor. E como o sacramento da Penitência além de nos perdoar os pecados, nos fortifica con­tra o mal, devemos recebê-lo com frequência, quer tenhamos cometido pecados graves, quer não. Se Deus, com tanto amor e generosi­dade, põe ao nosso alcance tantos meios de obter a graça, justo é saibamos aproveitá-los e corresponder assim às suas misericórdias.

'E podes ter a certeza de que serás salvo, se resolveres confessar-te com frequência, digna, ordenada e regularmente. Adota como regra de vida: cometeste um pecado? Não deixes pôr-se o sol, sem te reconciliares com Deus. Se assim fizeres, andarás preve­nido contra a morte repentina, e nunca em teu coração enraizará qualquer hábito pecaminoso' [P. Dosz – S.J].

(Excertos da obra 'O Cristão no Tribunal da Penitência', de Frei Frutuoso Hockenmaier)


Como proceder em relação ao sacramento da confissão nestes tristes tempos de pandemia face à enorme dificuldade de acesso frequente (ou mesmo periódico) aos sacerdotes em confinamento em suas casas paroquiais? Muitas dúvidas têm sido expostas em relação à concessão do sacramento da confissão nas atuais circunstâncias, comumente sem as devidas respostas que, basicamente, implica as seguintes proposições:

(i) absolvição individual: manutenção da celebração individual da reconciliação sacramental, mediante a adoção de medidas sanitárias que preservem e assegurem a saúde do sacerdote e do penitente, tais como a utilização de máscaras, o distanciamento adequado entre as partes e uma adequada ventilação do ambiente, sem prejuízo da atenção absoluta à salvaguarda do selo sacramental e à necessária descrição do momento (prescrições que devem ser estabelecidas pelo bispo diocesano).

(ii) absolvição coletiva: a absolvição simultânea a vários penitentes, sem confissão individual prévia, constitui uma prática de caráter absolutamente excepcional, nas seguintes condições (Cân. 961):

§1 - 1.° esteja iminente o perigo de morte, e não haja tempo para um ou mais sacerdotes poderem ouvir a confissão de cada um dos penitentes; 

2.° haja necessidade grave, isto é, quando, dado o número de penitentes, não houver sacerdotes suficientes para, dentro de tempo razoável, ouvirem devidamente as confissões de cada um, de tal modo que os penitentes, sem culpa própria, fossem obrigados a permanecer durante muito tempo privados da graça sacramental ou da sagrada comunhão; não se considera existir necessidade suficiente quando não possam estar presentes confessores bastantes somente por motivo de grande afluência de penitentes, como pode suceder em alguma grande festividade ou peregrinação. 

§2 - Emitir juízo acerca da existência das condições requeridas no §1 - (ii) compete ao bispo diocesano, o qual, atendendo aos critérios fixados por acordo com os restantes membros da conferência episcopal, pode determinar os casos em que se verifique tal necessidade.

A caracterização dessas condições de excepcionalidade é de atribuição do bispo diocesano (é inválida, portanto, sem essa concessão específica e local). Mas, ainda assim, tal concessão excepcional, que incorre nas mesmas exigências formais das confissões particulares, implica ainda a proposição explícita da confissão individual posterior, no devido tempo e previamente a uma nova absolvição geral, a não ser por causa justa.

(iii) confissão por telefone ou via online: expressamente proibida, pelos gravíssimos riscos associados à inviolabilidade do sigilo sacramental.

(iv) ato de contrição perfeita: que o ato de contrição perfeita possui o mérito de nos alcançar o perdão dos nossos pecados, antes mesmo da confissão, é doutrina do catecismo da Igreja firmado no Concílio de Trento (14ª sessão, cap. 4). Para ser perfeito, o ato de contrição deve ser essencialmente um ato de amor a Deus e expressar sinceramente o nosso arrependimento de ter ofendido a Deus, infinitamente bom e digno de ser amado sobre todas as coisas. Pode ser expresso meramente por uma jaculatória simples, tal como: 'Senhor, dai-me a graça do perfeito arrependimento e da perfeita contrição dos meus pecados'.

Conforme a prescrição do próprio Catecismo da Igreja, o ato de contrição perfeita não dispensa o pecador da necessidade de acusar-se de todos os seus pecados mortais no Sacramento da Confissão e de receber a absolvição diretamente de um ministro de Deus. Deste modo, o próprio ato de contrição perfeita deve inclui implicitamente o firme propósito da confissão individual posterior, em tempo oportuno (e o mais breve possível).

domingo, 30 de maio de 2021

EVANGELHO DO DOMINGO

 

'Feliz o povo que o Senhor escolheu por sua herança' (Sl 32)

 30/05/2021 - Solenidade da Santíssima Trindade

27. GLÓRIA AO PAI, AO FILHO E AO ESPÍRITO SANTO


O mistério da Santíssima Trindade é um mistério de conhecimento e de amor. Pois, desde toda a eternidade, o Pai, conhecendo-se a Si mesmo com conhecimento infinito de sua essência divina, por amor gera o Filho, Segunda Pessoa da Trindade Santa. E esse elo de amor infinito que une Pai e Filho num mistério insondável à natureza humana se manifesta pela ação do Espírito Santo, que é o amor de Deus por si mesmo. Trindade Una, Três Pessoas em um só Deus.

Mistério dado ao homem pelas revelações do próprio Jesus, posto que não seria capaz de percepção e compreensão apenas pela razão natural, uma vez inacessível à inteligência humana: 'Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra. Portanto, ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei! Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo' (Mt 28, 18 - 20). Mistério também revelado em sua extraordinária natureza, em outras palavras de Cristo nos Evangelhos: 'Em verdade, em verdade vos digo: O Filho não pode de si mesmo fazer coisa alguma, mas somente o que vir fazer o Pai; porque tudo o que fizer o Pai, o faz igualmente o Filho. Porque o Pai ama o Filho, e mostra-lhe tudo o que ele faz' (Jo 5, 19-20) ou ainda 'Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; e ninguém conhece o Filho senão o Pai; nem alguém conhece o Pai senão o Filho' (Mt 11, 27).

Nosso Senhor Jesus Cristo é o Verbo de Deus feito homem, sob duas naturezas: a natureza divina e a natureza humana: 'Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele' (Jo 3, 16 - 17). Enquanto homem, Jesus teve as três potências da alma humana: inteligência, vontade e sensibilidade; enquanto Deus, Jesus foi consubstancial ao Pai, possuindo inteligência e vontade divinas.

'Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo'. Glórias sejam dadas à Santíssima Trindade: Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. Neste domingo da Santíssima Trindade, a Igreja exalta e ratifica aos cristãos o maior dos mistérios de Deus, proclamado e revelado aos homens: O Pai está todo inteiro no Filho, todo inteiro no Espírito Santo; o Filho está todo inteiro no Pai, todo inteiro no Espírito Santo; o Espírito Santo está todo inteiro no Pai, todo inteiro no Filho (Conselho de Florença, 1442).

sábado, 29 de maio de 2021

O DOGMA DO PURGATÓRIO (VIII)

Capítulo VIII

Localização do Purgatório - São Gregório Magno:  o Diácono Paschasius e o Sacerdote de Centumcelle - O Beato Estêvão e o Religioso na Capela - Teóphile Renaud e a paciente de Dôle

Segundo Santo Tomás e outros doutores da Igreja, como visto previamente, em alguns casos particulares a justiça divina atribui um lugar especial na terra para a purificação de certas almas. Esse sentimento é confirmado por vários fatos; entre os quais citaremos em primeiro lugar dois deles relatados por São Gregório Magno em seus Diálogos: 'Quando eu era jovem e ainda leigo' - escreve o santo Papa - 'ouvi de anciãos bem informados como o diácono Paschasius havia aparecido a Germain, bispo de Cápua'. 

'Paschasius, diácono desta sé apostólica, de quem ainda temos excelentes livros sobre o Espírito Santo, era um homem de eminente santidade, devotado às obras de caridade, zeloso pela ajuda aos pobres e muito esquecido de si mesmo. Certa ocasião, teve início uma acirrada disputa envolvendo uma eleição de um pontífice. Paschasius, isolando-se da posição dos bispos, apoiou uma escolha diversa da aprovada pelo episcopado. Mas ele morreu em seguida, com fama de santidade, que Deus confirmou por um milagre: uma cura instantânea ocorreu no próprio dia do seu funeral, ao simples toque de sua dalmática'.

'Muito tempo depois, Germain, bispo de Cápua, foi enviado pelos médicos para se banhar nas termas de Sant-Angelo, em Abruzzo. Qual não foi o seu espanto em encontrar ali, empregado nos últimos serviços dos banhos, o mesmo diácono Paschasius! 'Estou expiando aqui', disse-lhe a aparição, 'pela culpa que tive em me aliar ao partido errado'. Peço-lhe, ore ao Senhor por mim: saberá que tem sido ouvido assim que deixar de me ver nestes lugares. Germain começou a orar pelo falecido e, depois de alguns dias, ao retornar, procurou em vão por Paschasius, que havia desaparecido. Ele teve que sofrer, acrescenta São Gregório, apenas um castigo temporário depois desta vida, porque pecou por ignorância e não por maldade'. 

O mesmo santo papa relata também sobre um sacerdote de Centumcelle, atual Cività-Vecchia, que também foi-se servir das águas termais. Um homem atendeu-o nas funções mais servis e humildes daquele ofício, por vários dias, sempre com extrema complacência e disposição. O bom sacerdote, pensando que deveria recompensar tanta consideração, levou dois pães abençoados e, depois do serviço do dia, ofereceu-os ao servo prestativo. Este último, com uma expressão triste, respondeu-lhe: 'Por que, padre, oferece-me estes pães? Eu não os posso comer. Eu, que me vês, fui o senhor deste lugar e, depois da minha morte, fui mandado de volta para cá para a expiação das minhas faltas, nesta condição em que me encontro. Se você me quer bem, ó oferece a mim o Pão da Eucaristia!'.

Com essas palavras, desapareceu repentinamente e aquele que o sacerdote pensava tratar-se de um servidor prestativo mostrou-se, ao desaparecer assim, ser tão somente um espírito. Durante uma semana inteira, o sacerdote entregou-se a exercícios de penitência e ofereceu todos os dias a Sagrada Hóstia nas intenções do falecido; retornando posteriormente às termas, já não mais o encontrou ali, concluindo, então, que ele havia sido libertado.

Parece que a justiça divina, às vezes, condena as almas a padecer os seus castigos no mesmo lugar onde cometeram as suas faltas. Lemos nas crônicas dos Frades Menores que o Beato Estêvão, religioso deste instituto, tinha uma devoção singular ao Santíssimo Sacramento, o que o fazia passar parte de suas noites em adoração. Em uma dessas circunstâncias, estando sozinho na capela em meio a escuridão, quebrada pela única luz de uma pequena lamparina, ele viu de repente um religioso num dos assentos, profundamente recolhido e com a cabeça totalmente encoberta pelo capuz. 

Estêvão se aproxima dele e pergunta se ele tem permissão para estar fora da cela naquele momento. 'Sou um religioso falecido' - o homem responde. 'É aqui que devo cumprir meu purgatório, de acordo com um julgamento da justiça de Deus, porque é aqui que pequei por mornidão e negligência no ofício divino. O Senhor permite que você conheça a minha condição, para que possa me ajudar com as suas orações'. Comovido diante estas palavras, o beato se ajoelhou imediatamente e começou a o hino De Profundis e outras orações, percebendo que, enquanto orava, o rosto do falecido expressava alegria. Várias vezes mais, nas noites seguintes, a aparição mostrou-se da mesma forma, cada vez mais feliz, à medida que se aproximava a sua libertação. Finalmente, depois de uma última oração do Beato Estêvão, o espírito levantou-se do seu assento, imerso em luz radiante, expressou sua gratidão ao beato e desapareceu na luz da glória.

O relato seguinte tem algo tão maravilhoso que ter-se-ia hesitação em reproduzi-lo, como disse o Cônego Postel, se não tivesse sido registrado em muitas obras, segundo o Pe. Théophile Renaud, teólogo e polemista do Século XVII, que o relata como um acontecimento ocorrido na sua época e quase sob os seus olhos. Padre Louvet acrescenta que o Vigário Geral do Arcebispado de Besançon, depois de examinar todos os detalhes, reconheceu a sua plena veracidade. 

No ano de 1629, em Dôle, região de Franche-Compté, Huguette Roy, uma mulher de meia-idade, ficou confinada de cama por causa de uma inflamação dos pulmões, que a fez temer por sua vida. O médico que a atendeu, optando por induzir uma sangria na paciente, cortou involuntariamente uma artéria do seu braço esquerdo, comprometendo o fluxo de sangue até às extremidades do seu membro. No dia seguinte, logo pela manhã, uma jovem toda vestida de branco adentra no seu quarto e pergunta à paciente, com uma atitude muito modesta, se ela aceita ser cuidada por ela. 

A paciente, feliz com a oferta, aceita de imediato e com grande prazer. Imediatamente a seguir, a estranha pôs-se a acender o fogo, conduziu gentilmente Huguette a deitar-se na cama e assim continuou a atendê-la e a servi-la como a enfermeira mais prestativa e devotada possível.. Coisa maravilhosa! O simples toque das mãos dessa estranha havia sido tão benéfico que a paciente ficara tão aliviada que até sentia estar já completamente curada. Ela queria saber detalhes daquela pessoa tão amável e quis interrogá-la, mas a estranha disse que precisava ir embora e que voltaria à noite.

Quando a visitante desconhecida retornou à noite, ela disse a Huguette Roy, sem maiores rodeios: 'Saiba, minha querida sobrinha, que eu sou a sua tia, Léonarde Collin, que morreu há dezessete anos, deixando para você uma pequena propriedade como herança. Graças à bondade divina, estou salva, e foi graças à bem aventurada Virgem Maria, por quem tive sempre grande devoção, que obteve para mim esta felicidade. Sem ela, eu estaria perdida. Quando a morte me atingiu de repente, eu estava em pecado mortal; mas a misericordiosa Virgem obteve para mim naquele momento um ato de contrição perfeita, salvando-me assim da condenação eterna. Desde então, estou no purgatório, e o Senhor permite que eu venha até aqui e complemente a minha expiação, ficando ao seu serviço por quarenta dias. No final deste tempo, estarei liberada dos meus sofrimentos e, por sua vez, você deverá ter a caridade de fazer três peregrinações em minha intenção a três santuários da Santíssima Virgem'. 

Huguette ficou atônita, sem saber o que pensar dessa linguagem, não podendo acreditar na realidade dessa aparição e, temendo alguma armadilha do espírito maligno, consultou o seu confessor, o padre Antoine Rolland, um jesuíta, que a aconselhou a ameaçar a desconhecida com os exorcismos da Igreja. Essa ameaça, entretanto, não a perturbou; ela disse calmamente que não temia as orações da Igreja: 'Eles não têm força' - acrescentou ela - 'exceto contra os demônios e os condenados, de forma alguma contra as almas predestinadas e a favor de Deus, como a minha'.

Huguette não se convenceu: 'Como' - disse ela à jovem - 'você pode ser minha tia Léonarde? Ela era velha e alquebrada, além de desagradável e um tanto caprichosa, enquanto você é jovem, gentil e atenciosa'. 'Ah! minha sobrinha' - respondeu a aparição - 'meu verdadeiro corpo está no túmulo, onde permanecerá até a ressurreição; aquele pelo qual você me vê é outro corpo, milagrosamente formado do ar, para me permitir falar com você, servi-la e obter os seus votos. Quanto ao meu caráter difícil e raivoso, dezessete anos de terrível sofrimento me ensinaram paciência e gentileza. Saiba além do mais que, no Purgatório, a pessoa é confirmada na graça, marcada com o selo dos eleitos e, portanto, isenta de todos os vícios'. 

Após tais explicações, a incredulidade não era mais possível. Huguette, ao mesmo tempo maravilhada e grata, recebeu com alegria os serviços que lhe foram prestados, durante os quarenta dias assinalados. Só ela podia ver e ouvir a falecida, que lhe aparecia em determinados momentos e depois desaparecia. Assim que as suas forças o permitiram, ela realizou piedosamente as peregrinações que lhe haviam sido solicitadas.

No final dos quarenta dias, as aparições cessaram. Léonarde apareceu uma última vez para anunciar sua libertação: ela estava então em um estado de glória incomparável, cintilando como uma estrela e trazendo no rosto a expressão da mais perfeita bem aventurança. Ela, por sua vez, expressou sua gratidão à sobrinha, prometeu rezar por ela e por toda a sua família, e se comprometeu a sempre lembrar a ela, em meio às dores da vida, a meta suprema de nossa existência, que é a salvação da nossa alma.

Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog)

sexta-feira, 28 de maio de 2021

PARA VIVER A DIVINA MISERICÓRDIA UM DIA POR SEMANA³

 

Ó Sangue e Água que jorrastes do Coração de Jesus como fonte de misericórdia para nós,
eu confio em Vós!

'Fala ao mundo da Minha Misericórdia, que toda a humanidade conheça a Minha insondável misericórdia. Este é o sinal para os últimos tempos; depois dele virá o dia da justiça. Enquanto é tempo, recorram à fonte da Minha Misericórdia'

Intenção do Dia - Terceira Semana

dedicar-me ao silêncio interior, buscando uma maior intimidade com Deus

apaguem-se os ruídos de toda lida / para que não me revolvam as vertigens de fora / que o Meu Deus recline a sua face / no mais íntimo da minha alma

quinta-feira, 27 de maio de 2021

SOBRE O PECADO DO ESCÂNDALO

A palavra escândalo, em sentido próprio, significa obstáculo. Em linguagem teológica, significa a palavra, ação ou omissão, que é para o próximo ocasião de pecado. O escândalo diz-se direto, quando premeditada e deliberadamente se intenta o pecado do próximo; indireto, quando embora não se intente o pecado do próximo, suficientemente se prevê que as nossas palavras, ações ou omissões o induzirão a pecar.

Há escândalo direto quando se induz o próximo ao mal, aconselhando, ajudando, mandando, aprovando ou aplaudindo. Quem deliberadamente induz o próximo a pecado grave, peca gravemente contra a caridade e contra o preceito ou virtude a cuja violação o induz. Quem aconselhar outro a cometer um furto, deve na confissão declarar 'induzi o meu próximo a furtar', e acrescentar logo a qualidade e a quantidade do furto.

O proprietário que, sem justo motivo, induz os criados ou operários a trabalhar ao domingo e dias de festa, peca, e deve dizer na confissão que obrigou os seus servos ou empregados a trabalhar em dia de festa de preceito. É evidente que uma coisa é induzir o próximo a roubar e outra a jurar falso; uma coisa é levá-lo a trabalhar ao domingo; outra violar a castidade; e, por isso, na confissão deve-se declarar qual a espécie de pecado que se induziu alguém a cometer.

Há escândalo indireto quando, não havendo intenção de induzir o próximo a pecar, faz-se ou se omite, sem justo motivo e causa suficiente, qualquer coisa que se prevê irá servir de ocasião de pecado ao nosso semelhante. É escândalo indireto falar mal dos superiores eclesiásticos e civis; porque de tais palavras decorre, nos que as ouvem, o desprezo da autoridade e, com o desprezo, a perda de influência da mesma autoridade e o desprestígio da religião.

Dá ocasião ao pecado, e por isso escandaliza, quem distribui maus livros ou imagens indecentes. Este escândalo será direto ou indireto, segundo houve ou não intenção de induzir os outros a pecar ou apostatar da fé. Se houve tal intenção, além do pecado de escândalo, também se pecou contra a caridade num caso e, no outro, contra a fé.

O escândalo indireto também pode nascer do mau exemplo. De fato, não poucas vezes o nosso mau exemplo arrasta os outros ao mal e enfraquece ou pelo menos leva a apagar, nas almas débeis e frouxas, todo o temor ao pecado. Essas almas facilmente raciocinam dessa forma: 'Se os outros não fazem caso desse ou daquele pecado, para que hei de eu ser escrupuloso onde os outros não veem motivo de reparo? Não serei eu o primeiro nem o último a fazer isto'. É, pois, inegável a sedução e perniciosa influência do mau exemplo. Essas almas tenras e débeis nunca cometeriam tais pecados, se não fossem os maus exemplos que lhes foram dados.

Trabalhar nos dias de festa sem necessidade e em lugar onde todos podem ver ou transgredir publicamente o preceito da abstinência, é dar ocasião de que outros cometam as mesmas faltas e, por isso, é escândalo. É também escândalo pronunciar más palavras, rogar pragas diante de crianças, porque tomam daí ocasião de as aprender e de contrair o mau costume de as repetir.

Outra coisa será transgredir os citados preceitos ou pronunciar essas más palavras diante de cristãos fervorosos que, com certeza, não se deixarão arrastar pelo mau exemplo; ou de maus cristãos que, sem o mau exemplo, já transgridem esses preceitos e já têm o mau costume de profanar os nomes santos. Nestes casos, o mau exemplo não seria ocasião de pecado e, por isso, não se juntaria o pecado de escândalo aos pecados que foram cometidos.

A vida da alma é muito mais nobre e preciosa do que a do corpo. Se temos obrigação de não danificar a esta, muito mais a temos de não prejudicar aquela. Portanto, falta-se ao amor do próximo se, sem motivo, se lhe dá ocasião de pecar. Dar ocasião a faltas leves dos outros, é pecado venial. Se não se advertiu na malícia de um ato gravemente escandaloso, o pecado será ainda leve. E quem não conhece nem sabe que dá escândalo, não comete pecado algum. É necessário evitar o escândalo a todo o custo, e não dar ao próximo ocasião de pecado, nem mesmo venial. Se, para tanto, fosse preciso omitir uma ação por si mesma indiferente, ou mesmo boa, ou até às vezes prescrita pela Igreja, teríamos obrigação de omiti-la para evitar o escândalo.

Vejamos alguns exemplos: uma pessoa sabe, por experiência, que sua presença num passeio público em determinadas circunstâncias é ocasião de pecado grave para outra. A caridade cristã exige-lhe que durante algum tempo não apareça em tal passeio, se o puder fazer sem grave incômodo. Disse 'por algum tempo', e 'sem grave incômodo', porque ninguém está obrigado a privar-se de um passeio honesto por muito tempo, o que de per si seria incômodo grave e um sacrifício extraordinário que Deus não exige de nós para evitarmos os pecados dos outros.

Animado de sincero e ardente desejo de perfeição, desejarias receber frequentemente os sacramentos, mas prevês que o teu procedimento dará motivo a escárnios contra a religião e a calúnias contra ti ou outras pessoas. Que fazer? Procura, se podes, com prudentes e ajuizadas observações, prevenir o escândalo. Se nada conseguires, podes deixar os sacramentos, se prevês que será este o meio eficaz de evitar o escândalo. Mas isto uma ou duas vezes, e não por muito tempo, porque a caridade bem ordenada começa por nós; e seria loucura, a pretexto de não prejudicar a alma do próximo, causar grave dano espiritual a ti mesmo. Do mesmo modo, para evitar o escândalo e a ocasião certa de alguém cometer pecado grave, por exemplo, contra a castidade, poderás uma vez por outra deixar de assistir à missa de obrigação. E, se para evitar o escândalo se vai até omitir obrigações, com maior razão se deverá ir até omitir certas ações por si mesmas indiferentes ou até mesmo boas.

No caso de haver motivos justos e particulares para fazer qualquer coisa de que o próximo se vai escandalizar, devemos explicar o motivo do nosso procedimento ou, se for possível, esperar melhor ocasião para fazermos o que desejávamos. É dia de abstinência e vais comer carne publicamente porque estás dispensado do preceito; então tens de explicar, aos que estão presentes, os motivos do teu proceder. Impossível seria, mesmo com a melhor boa vontade, evitar ao próximo toda a ocasião de pecado. Nunca faltarão olhos perversos que vejam ou finjam ver ocasião de pecado nas mais santas das nossas ações.

O Divino Salvador foi acusado de escandaloso pelos judeus; e os fariseus até dos seus milagres a favor dos que sofriam, tomavam como motivo de escândalo. Para evitar escândalos assim, seria preciso, como disse São Paulo aos coríntios, andar fora deste mundo. De nenhum modo, por exemplo, estarás obrigado a sujeitar-te às exorbitantes exigências de um artista ou operário, embora prevejas que vai romper em pragas e imprecações. Ao prejuízo que irias sofrer, acresceria ainda dar razão para que, numa vez seguinte, pudessem mais exorbitar. Os pais podem e devem corrigir seus filhos, mesmo quando preveem que se vão zangar ou ficarem amuados. Antes esses seus arrebatamentos ou amuos do que ficarem com o caminho aberto para faltas mais graves.

E para terminar, advertimos que nem sempre o autor do escândalo indireto está obrigado na confissão a declarar expressamente que escandalizou. Acusa-se alguém, por exemplo, de ter dito palavras obscenas diante de crianças. Não precisa de dizer mais nada; já assim vai tudo confessado, pois sempre as crianças se escandalizam quando ouvem conversas desonestas. Também, pela mesma razão, não é obrigado a declarar o pecado de escândalo quem se acusa de ter trabalhado publicamente no domingo.

'O que escandalizar a um destes pequeninos que creem em Mim, melhor lhe fora que se lhe dependurasse ao pescoço uma mó e o lançassem no fundo do mar. Ai do mundo por causa dos escândalos! Ai daquele homem por quem vem o escândalo!' (Mt. 18,6-7) Duras e terríveis estas palavras do Salvador, sempre todo mansidão e doçura! Pensa, porém, no que é o escândalo e nas suas terríveis consequências, e compreenderás a dureza do seu falar.

O escandaloso é um verdadeiro assassino, como diz Santo Agostinho: 'quem dá escândalo é um assassino', porque mata a vida da alma. Por isso a Escritura chama ao demônio 'homicida desde o princípio'. O demônio foi o primeiro sedutor e o pai de todos os sedutores e escandalosos, seus instrumentos e auxiliares em tudo são semelhantes, quando procuram arrastar à perdição as almas puras e inocentes.

Um só pecado de escândalo pode ser causa da ruína espiritual de centenas de pessoas. Escandalizaste a uma pessoa, esta a outra, e assim por diante; e foi o teu pecado a causa remota de todos estes pecados. Sucederá até, que, morto o escandaloso, sepultado de há muito, esquecido pelos homens o seu nome, continue ainda a ser causa da ruína de muitas almas. A semente por ele lançada à terra germinou, cresceu e produziu frutos de morte eterna, entre os homens!

Não te iludas, parecendo-te que o escândalo é coisa de pouca monta; nem o consideres ser coisa leve. Examina com cuidado se tens dado escândalo, onde e de que modo. Suposto mesmo que não tenhas sido absolutamente responsável diante de Deus porque não advertiste no pecado ou nas suas consequências, procura reparar do melhor modo possível, e evitar completamente para o futuro, todo o escândalo: 'Não percas aquele por quem Cristo morreu' (Rm 14,15). Se conheceres que alguém arma ciladas à tua virtude, ou que sua amizade é perigosa para a tua alma, foge com o maior cuidado, porque também Jesus Cristo morreu por ti sobre a Cruz.

Aquele que, sem justo motivo, deu ao próximo ocasião de pecar, está obrigado a reparar, quanto puder, o dano espiritual que lhe causou. Se, por tua culpa, alguém se apartou do caminho do bem, cuida por todas as maneiras de o trazer de novo à virtude, exortando-o, instruindo-o, orando por ele e dando-lhe bom exemplo. Que ele veja, nas tuas palavras e obras, que repudias todo o mal que fizeste e dele estás arrependido de todo o teu coração.

O melhor meio de reparar o mal será a tua conversão de pedra de escândalo que eras, pelo teu mau exemplo, em pregador mudo, mas eloquente da virtude pela tua vida exemplar e verdadeiramente cristã. Nas dúvidas que te ocorrerem sobre qualquer ponto em particular, aconselha-te com o teu confessor.

(Excertos da obra 'O Cristão no Tribunal da Penitência', do Pe. Frutuoso Hockenmaier)

quarta-feira, 26 de maio de 2021

TESOURO DE EXEMPLOS (73/75)

 

73. RECUPEROU A VISTA

Em Vinovo, aldeia pouco distante de Turim, na Itália, uma moça chamada Maria Stardero teve a desgraça de perder totalmente a vista. Desejando recuperá-la, fez uma visita a São João Bosco, que então construía, com as esmolas do povo de Turim, a magnífica igreja de Maria Auxiliadora. 

A moça, depois de ter rezado diante de uma imagem de Nossa Senhora, falou com São João Bosco, que lhe perguntou:
➖ Faz muito tempo que perdeu a vista?
➖ Sim, muito; faz um ano que não vejo nada.
➖ Tens consultado os médicos?
➖ Ah! padre, já não sabem o que receitar-me.
➖ Distingues os objetos grandes ou pequenos?
➖ Não; como disse, não vejo nem pouco nem muito.
➖ Mas não vês a luz desta janela?
➖ Não, senhor; nada.
➖ Queres recuperar a vista?
➖ Sr. padre, sou pobre e preciso dela para ganhar a vida.
➖ Servir-te-ás da vista para proveito de tua alma e não para ofender a Deus?
➖ Prometo-o sinceramente.
➖ Confia, pois, em Nossa Senhora e São José. 

E, em tom solene, Dom Bosco acrescentou: 
➖ Para a glória de Deus, da Santíssima Virgem e de São José, dize: que é que tenho na mão?
A moça abre os olhos, que antes não viam nada, e diz:
➖ Uma medalha de Nossa Senhora.
➖ E isto, o que é?
➖ Um ancião com uma vara florida; é São José.
Estava operado o milagre. Pode-se imaginar a alegria da moça e dos seus pobres pais!...

74. UM LOBO QUE SE TORNA UM CORDEIRO

Estava no hospital uma infeliz mulher que, há vinte e dois anos, abandonara sua família para se entregar aos vícios mais vergonhosos. Fora, enfim, internada naquela casa pela polícia. A vida que levara, de tal modo a embrutecera que parecia louca; e o médico, não descobrindo nenhuma doença, queria despedi-la do hospital para que não perturbasse os verdadeiros enfermos.

Pediram-lhe as religiosas que a deixasse alguns dias ainda, enquanto recorriam a São José. Bem inspiradas, vestiram-na com o hábito e com o cordão de São José e puseram-se a pedir com fervor que o santo tivesse compaixão daquela pobre alma.

O auxílio de São José não se fez esperar. Poucos dias depois a mulher recobrou a paz, confessou-se com muita dor e arrependimento. Era um verdadeiro lobo e tornou-se tão manso cordeiro que pediu ao seu protetor lhe alcançasse antes a morte que voltar à vida de pecado. Atendeu o santo a tão pios desejos, vindo a convertida a falecer com os mais sinceros sentimentos de dor. Antes da morte, pediu humildemente perdão a todos os que escandalizara com os seus vícios.

75. PADROEIRO DOS IMPOSSÍVEIS

Jazia em seu leito de agonia um infeliz apodrecido de vícios, sem o menor remorso, zombando de Deus e desprezando todos os auxílios da religião para a hora suprema. Vendo-o zombar, com riso satânico, de seus esforços para salvar-lhe a alma, resolveram seus parentes recorrer a São José. Este grande santo havia de fazer com que o misericordioso Coração de Jesus se compadecesse daquele infeliz.

Era o mês de março. O sacerdote, os parentes e amigos dirigiram ao padroeiro da boa morte fervorosas súplicas. Maravilhoso poder o da oração! Na manhã de 19 de março, festa de São José, o próprio doente pediu a confissão e fez questão que chamassem o padre de quem mais zombara até então. Confessou-se com o mais sincero arrependimento e, pouco tempo depois, faleceu...

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos', do Pe. Francisco Alves, 1958; com adaptações)

ver PÁGINA: TESOURO DE EXEMPLOS

terça-feira, 25 de maio de 2021

11 PROVÁVEIS RELÍQUIAS DE JESUS CRISTO

1. Fragmentos da Santa Cruz (Tesouro Imperial - Viena/Áustria)

2. Prego da crucificação de Jesus (Catedral de Bamberg, Alemanha)

3. Cálice utilizado por Cristo na Última Ceia (Catedral de Valência, Espanha)

4. Túnica usada por Jesus no caminho do Calvário (Catedral de Trier, Alemanha)

5. Lança que perfurou o lado de Jesus na Cruz (Tesouro Imperial - Viena, Áustria)

6. Ouro, incenso e mirra oferecidos pelos Reis Magos (Mosteiro de São Paulo, Monte Athos, Grécia)

7. Coroa de Espinhos da crucificação (Catedral de Notre Dame, Paris, França)

8. Coluna da Flagelação de Jesus (Basílica de Santa Praxedes, Roma, Itália)

9. Frasco contendo o Sangue de Cristo (Basílica do Sangue Sagrado, Bruges, Bélgica)

10. Tábula fixada na Cruz (Basílica da Santa Cruz de Jerusalém, Roma, Itália)

11. Sudário de Turim (Catedral de São João Batista,Turim, Itália)

(originalmente publicado em ChurchPOP)

segunda-feira, 24 de maio de 2021

A VIDA OCULTA EM DEUS: CONTEMPLAÇÃO FELIZ OU CONTEMPLAÇÃO DOLOROSA

Pode haver uma contemplação feliz ou uma contemplação dolorosa e, às vezes, essa segunda pode ocultar parcialmente os fenômenos místicos. Mas parece que, mesmo na contemplação dolorosa, há consciência da união, pelo menos no íntimo maior da alma, porque sem isso os santos não poderiam suportar o peso do sofrimento que Deus lhes impõe.

Parece não haver santo canonizado em que não se tenha reconhecido esta ação mística de Deus. Pode-se desejar a ação direta dos dons do Espírito Santo, no sentido de que obrigam a alma ao exercício máximo da caridade. Muitos autores alertam acertadamente contra a sensibilidade às consolações espirituais, mas consolações superiores não devem ser incluídas nesta desconfiança geral, desde que não se apegue demasiado nelas.

É possível viver habitualmente na presença de Deus sem que os dons do Espírito Santo se movam conscientemente como tal e sem que seja necessário que tenhamos luzes especiais e estejamos conscientes delas. Mas o inverso também pode ser verdadeiro. Eu diria então que é possível ser contemplativo sem ser muito virtuoso e que é possível ser virtuoso mesmo sem ser contemplativo. Depende de tantas coisas... Das faculdades alcançadas pela ação de Deus, das reações do temperamento, do caráter, da vontade...

(Excertos da obra 'A Vida Oculta em Deus', de Robert de Langeac; Parte II -  A Ação de Deus; tradução do autor do blog)

domingo, 23 de maio de 2021

EVANGELHO DO DOMINGO

 

'Enviai o vosso Espírito, Senhor, e da terra toda a face renovai!' (Sl 103)

 23/05/2021 - Solenidade de Pentecostes

26. 'RECEBEI O ESPÍRITO SANTO'

 

Emitte Spiritum tuum et creabuntur. Et renovabis faciem terrae

'Enviai, Senhor, o vosso espírito criador e será renovada toda a face da terra'

Originalmente, Pentecostes representava uma das festas judaicas mais tradicionais de 'peregrinação' (nas quais os israelitas deviam peregrinar até Jerusalém para adorar a Deus no Templo), sempre celebrada 50 dias após à Páscoa e na qual eram oferecidas a Deus as primícias das colheitas do campo. No Novo Pentecostes, a efusão do Espírito Santo torna-se agora o coroamento do mistério pascal de Jesus Cristo, na celebração da Nova Aliança entre Deus e a humanidade redimida.

Eis que os apóstolos encontravam-se reunidos, com Maria e em oração constante, quando 'todos ficaram cheios do Espírito Santo' (At 2, 4), manifestado sob a forma de línguas de fogo, vento impetuoso e ruídos estrondosos, sinais exteriores do poder e da grandeza da efusão do Novo Pentecostes. Luz e calor associados ao fogo restaurador da autêntica fé cristã; ventania que evoca o sopro da Verdade de Deus sobre os homens; reverberação que emana a força da missão confiada aos apóstolos reunidos no cenáculo e proclamada aos apóstolos de todos os tempos.

O Paráclito é derramado numa torrente de graças, distribuindo dons e talentos, porque 'Há diversidade de dons, mas um mesmo é o Espírito. Há diversidade de ministérios, mas um mesmo é o Senhor. Há diferentes atividades, mas um mesmo Deus que realiza todas as coisas em todos' (1 Cor 12, 4-6). Na simbologia dos vários membros de um mesmo corpo, somos mensageiros e testemunhas de Cristo no meio dos homens, na identidade comum de Filhos de Deus partícipes e continuadores da missão salvífica de Cristo: 'Como o Pai me enviou, também Eu vos envio' (Jo 20, 21).

No Espírito Consolador, não somos mais meros expectadores de uma efusão de graças e dons tão diversos, mas apóstolos e testemunhas, iluminados e portadores da Verdade, pela qual será renovada a face da terra e pelo qual será apagada a mancha do pecado no mundo: 'Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos' (Jo 20, 22-23).

sábado, 22 de maio de 2021

22 DE MAIO - SANTA RITA DE CÁSSIA

 


A santa, que padeceu uma vida doméstica de sofrimentos e provações, tornou-se a advogada dos desesperados e a padroeira das causas impossíveis. Filha única de pais já envelhecidos - Antonio Mancini e Amata Ferri - Margherita (que ficou Rita) nasceu no vilarejo de Roccaporena, na região de Cascia, na Úmbria (centro da Itália) em 1381. Inclinada à vida religiosa, cedeu às tratativas paternas e aos rigores da época, desposando, logo após a adolescência um homem chamado Paulo Ferdinando, com o qual teve dois filhos.

Sua vida matrimonial, entretanto, foi um período de enormes provações e humilhações em relação ao marido, sempre violento e agressivo. Depois de muitas orações pelo marido, este se converteu e passaram a formar uma igreja doméstica até que uma tragédia a desfez por completo: Paulo foi assassinado numa ato de vingança devido às suas desavenças passadas. Outra tragédia se anunciava: os dois filhos estavam decididos a vingar a morte do pai. Rita preferiu perdê-los do que eles ao Céu e ofereceu as suas vidas a Deus antes de cometerem tal crime. Com efeito, cerca de um ano após a morte do pai, ambos faleceram, arrependidos do sentimento de vingança.

Rita ficou, então, sozinha no mundo e buscou, sem sucesso, a vida religiosa, por já ter vivido uma união matrimonial por 18 anos. A opção por converter-se em uma monja agostiniana foi-lhe repetidamente negada. Entregando a sua vocação nas mãos de Deus e sobrecarregando-se em orações, alcançou a causa impossível por um milagre extraordinário. Certa feita, foi conduzida por três pessoas à capela interna do mosteiro, totalmente fechado e a altas horas da noite: São João Batista (também concebido na velhice dos pais), Santo Agostinho (fundador da ordem agostiniana) e São Nicolau de Tolentino (religioso agostiniano). Diante do relato e dos fatos sobrenaturais, Rita foi aceita na ordem, dedicando o resto da sua vida aos votos de pobreza, obediência e castidade. 

A sua extrema capacidade de servir, obedecer e aceitar mesmo o que aparentemente poderia ser improvável pode ser compreendido no milagre que transformou um ramo seco, regado periodicamente e com grande diligência pela santa, numa videira que produziu muitos e muitos frutos. Ou, quase no final de sua vida, com a roseira que, sob os seus cuidados, floriu viçosa em pleno inverno rigoroso. Por 15 anos, estigmatizada, padeceu os sofrimentos e as dores de uma ferida repugnante na testa, que expelia pus e que exalava mau odor, o que a a levou a uma vida de isolamento e de absoluto confinamento numa cela do convento.

Aos 76 anos, Santa Rita de Cascia (adaptado como Cássia) faleceu no convento, em 22 de maio de 1457, sem deixar quaisquer registros escritos, mas os exemplos heroicos de uma vida de santidade. Morta, a ferida tornou-se limpa e passou a exalar um odor perfumado. Foi beatificada em 1627, ocasião em que o seu corpo mostrou-se no mesmo estado quando da sua morte, mais de cento e cinquenta anos antes. Seu corpo atualmente repousa no Santuário de Cascia, desde 18 de maio de 1947, numa urna de prata e cristal.  Exames médicos recentes efetuados no corpo confirmaram os traços de uma ferida óssea (osteomielite) na testa. A santa das causas impossíveis foi canonizada em 24 de maio de 1900, sob o pontificado do Papa Leão XIII.

(urna de cristal com o corpo de Santa Rita de Cássia)

Santa Rita de Cássia, rogai por nós!

sexta-feira, 21 de maio de 2021

PARA VIVER A DIVINA MISERICÓRDIA UM DIA POR SEMANA²

  

Ó Sangue e Água que jorrastes do Coração de Jesus como fonte de misericórdia para nós,
eu confio em Vós!

'Fala ao mundo da Minha Misericórdia, que toda a humanidade conheça a Minha insondável misericórdia. Este é o sinal para os últimos tempos; depois dele virá o dia da justiça. Enquanto é tempo, recorram à fonte da Minha Misericórdia'

Intenção do Dia - Segunda Semana

conformar a minha vontade à Santa Vontade de Deus em tudo, com todos, o tempo todo

dai-me, Senhor, provar da água pura / que jorra do vosso lado ferido / minha alma tem sede de Vós / ó Deus de misericórdia infinita

quinta-feira, 20 de maio de 2021

A SANTIDADE SEGUNDO CARLO ACUTIS

Carlo Acutis (1991 - 2006)

Há algo extraordinário na santidade de pessoas absolutamente comuns. Carlo Acutis, Chiara Badano e Anne-Gabrielle Caron são referências e modelos de santidade extraordinária para uma juventude que não se espelha nos falsos valores de um mundo atual cada vez menos cristão.

Carlo Acutis viveu apenas 15 anos nessa terra e nunca realizou feitos portentosos. Mas a sua vida simples, cotidiana e comum foi absolutamente extraordinária, não apenas como fruto de uma doação singular às graças divinas, mas pelo empenho de viver a santidade à perfeição. Tal propósito incluía amar como Jesus amava, praticar a caridade como regra cotidiana de vida, colocar-se à disposição do próximo com enorme generosidade e sem se preocupar com retribuição alguma. Praticava a oração e a eucaristia quase diária e transformava uma fé viva e autêntica em obras constantes de caridade: 'a tristeza é o olhar voltado para si; a felicidade é o olhar voltado para Deus'. 


Carlo nasceu em Londres, filho de pais italianos em viagem de trabalho - Andrea Acutis e Antonia Salzano – em 3 de maio de 1991, sendo batizado em seguida. Pouco depois - em setembro de 1991 - a família retornou à Itália e Carlo passou a viver em Milão, onde fez seus estudos e onde, em contato como um estudante de engenharia de computação, desenvolveu enorme habilidade nessa área, particularmente na elaboração de sites e desenvolvimento de programas utilizando linguagens computacionais como C++ e HTML. Neste contexto, desenvolveu um projeto de apresentação, por meio de um site especialmente desenvolvido por ele, de uma resenha, com uma rica exposição de imagens, dos principais milagres eucarísticos conhecidos no mundo. 

A síntese de sua via espiritual era a amizade com Deus: a alegria de viver na presença de Deus, o cuidado em não ofender a Divina Vontade, o empenho extremado em estar disponível a todas as graças, particularmente na posse da eucaristia diária e, caso não possível, na prática da comunhão espiritual frequente. Tudo emanado da prática da caridade constante, da cordialidade extrema ao próximo e do bom dia aos porteiros dos prédios vizinhos, aos cuidados em servir e alimentar, no anonimato e no despojamento, os moradores de rua. Tudo por Jesus e para Jesus, ou como ele próprio dizia: 'a conversão é simplesmente um olhar para o Alto'.

Em outubro de 2006, foi internado por causa de uma suposta gripe, posteriormente diagnosticada como uma leucemia particularmente agressiva. Aceitou serenamente a provação, afirmando: 'Ofereço ao Senhor os sofrimentos que terei que sofrer, pelo papa e pela Igreja, para não ter que passar pelo Purgatório e poder ir diretamente para o Céu'. Faleceu em 12 de outubro de 2006 no hospital de San Gerardo, em Monza, após ter recebido a eucaristia e a unção dos enfermos. O seu funeral já foi um reflexo da sua santidade precoce. O seu corpo foi sepultado no túmulo da família em Ternengo e, em fevereiro de 2007, transferido para o cemitério municipal de Assis, conforme seu próprio desejo, mesmo antes de passar pela doença. Em 10 de outubro de 2020, foi beatificado em Assis pelo Papa Francisco. Cerca de 10 dias antes, havia sido feita a exumação do seu corpo, constatando-se que o mesmo permanecia intacto a quaisquer processos de decomposição desde a época da sua morte.


quarta-feira, 19 de maio de 2021

SOBRE A SANTIDADE DO SOFRIMENTO


É fácil santificar as provações quando compreendemos o papel da dor no plano divino. 'Quem fará, com que minha oração seja ouvida', dizia Jó, 'e que Deus me conceda aquilo que espero, isto é, que Ele se digne esmagar-me, pondo fim aos meus dias à mercê de sua vontade e me reste ainda este consolo, e que exulte sob os golpes de uma dor implacável, por não haver contestado os decretos do Santo dos Santos?' (Jó 6, 8-10). Que Deus satisfaça, portanto, sua justiça, contente a sua santidade, exerça o seu poder, e que sua própria bondade proceda livremente, mergulhando-me na dor e retirando dessa mesma dor todos os benefícios que encerra.

São os atributos de Deus que exigem o sofrimento da criatura humana e o fazem servir aos desígnios da sabedoria eterna. Diante da desordem terrível que é o pecado, a justiça incorruptível reclama uma expiação; não pode desistir de seus direitos; Deus deixaria de ser Deus se não castigasse o pecado. Jó, como todos aqueles a quem a santidade da vida valeu grandes esclarecimentos, compreendia a equidade da sentença divina, que condena o homem pecador ao sofrimento. 

Como todas as almas perfeitas, sentia em si um vivo desejo de pagar suas dívidas à justiça divina. As mesmas luzes da graça revelavam-lhe ainda a pureza que o Deus infinitamente santo reclama de seus amigos e desejava ser purificado pelo sofrimento. Sabia também que a Sabedoria Incriada atinge seus fins por vias inteiramente opostas às dos homens e conduz à felicidade pelo sofrimento. Sabia que o Deus infinitamente poderoso e infinitamente bom podia procurar-lhe, por este meio, os mais preciosos bens. Como não pedir então ao Senhor que fosse até ao fim, e completasse nele sua obra, amarga, sem dúvida, porém benfazeja. Esse homem justo não deseja contradizer os decretos do Deus santo, pois se os planos divinos são sabedoria e bondade, pode o homem, infelizmente, fazê-los fracassar, ou, ao menos, impedir-lhe a plena realização. Jó deseja, portanto, e pede que não seja obstáculo aos desígnios do seu Deus.

Deus ficará satisfeito e nisto encontrará a sua glória. Que importa, pois, que eu gema; que importa que uma mísera criatura sofra, se Deus for glorificado, que importa que um ser, um nada, seja esmagado, se Deus ficar contente! Haveria quem protestasse e, para agrado do rei, fosse esmagado um pobre vermezinho, de cujo corpo moído exalasse suave perfume? Ou quem criticasse o consumo de grãos de incenso, queimados para aromatizar uma igreja, deleitar os fiéis e honrar a Deus? Pois bem, somos nós esses vermezinhos, esses pobres grãos de incenso; devemos considerar-nos felizes se, por meio de sofrimentos santamente suportados, fizéramos subir até ao trono de nosso Deus um delicioso perfume.

Tais os pensamentos a que devemos recorrer quando a dor nos oprime, em vez de recordar os fatos que nos entristecem, ou reanimar inutilmente uma ferida que o tempo cicatrizará. Quem maltratasse por prazer uma ferida sua e lhe rasgasse continuamente os tecidos que se refazem, procederia como um louco. Não é menos insensato quem repassa constantemente na memória, as causas de seus sofrimentos, as faltas de seus irmãos para com ele, as injustiças de que se julga vítima, ou os golpes da Providência que o fere. 

Ao contrário, devemos humilhar-nos e reconhecer que tais sofrimentos estão muito aquém do que merecemos, pois, se viéssemos a morrer, passaríamos por um rigoroso purgatório para expiar nossos pecados. Merecemos ser lançados ao fogo; como então podemos nos queixar? Nossas pobres almas, tão manchadas pelo pecado, pelo apego a nós mesmos e a toda espécie de imperfeições, precisam ser purificadas pelo sofrimento para se tornarem agradáveis aos olhos do Deus infinitamente santo. Há em nós como que uma marca que nos desfigura e não pode ser arrancada sem uma acerba dor.

E é este o pensamento que torna as almas humildes cada vez mais pacientes, enquanto que a falta de resignação indica um orgulho recôndito. Deus é justo quando nos experimenta; sua bondade, porém, brilha ainda mais que a sua justiça. Com efeito, Ele quer que essa dor, ao lavar e purificar as almas, lhes dilate, ao mesmo tempo, a beleza e os méritos. A dor passa, o mérito perdura; tantas outras penas já passaram, de que nem sequer nos lembramos. Deus, porém, conservou-lhes a lembrança, a fim de recompensar. Momentaneum et leve tribulationis nostrae aeternum gloriae pondus operatur in nobis [a nossa tribulação momentânea e  ligeira nos proporciona um peso eterno de glória (2Cor 4,17)]. Nossas penas são passageiras e leves, mas, no grande dia em que se fixar a nossa sorte; cada qual produzirá, e para sempre, novo esplendor de glória.

Deus é justo e santo, Deus é bom quando nos experimenta. Se, na dor, elevarmos para Ele o olhar, de nosso coração partirá um fiat generoso, que será um ato de amor perfeito. Talvez o esforço passageiro despendido será de efeito transitório e a lembrança do sofrimento nos perseguirá, mau grado nosso. A dor, afastada um momento pela resignação, voltaria ao coração; um novo esforço, porém, produzirá novo ato de submissão. Se fitarmos outra vez os olhos nas grandezas e perfeições de Deus, na sua bondade e santidade infinitas, faremos então outro ato de amor. Tantas vitórias alcançadas sobre a natureza, cem por dia talvez, tantos passos dados no caminho do amor e da perfeição.

(Excertos da obra 'O Caminho que leva a Deus', do Cônego Augusto Saudreau)

terça-feira, 18 de maio de 2021

O TEMPO DE DEUS

O que é o Tempo de Deus? Aqueles que isto perguntam ainda não te compreendem, ó sabedoria de Deus (Ef 3,10); ó luz das mentes, ainda não compreendem como são feitas as coisas que por meio de ti e em ti são feitas, e esforçam-se por saborear as realidades eternas, mas o seu coração esvoaça ainda nos movimentos passados e futuros das coisas, continuando vazio (Sl 5,10). 

Quem poderá deter o tempo e fixá-lo, a fim de que ele pare e por um momento capte o esplendor da eternidade sempre fixa, e a compare com os tempos nunca fixos, e veja que a eternidade é incomparável, e veja que um longo tempo não é longo senão a partir de muitos momentos que passam e não podem alongar-se simultaneamente; veja, pelo contrário, que, no que é eterno, nada é passado, mas tudo é presente, enquanto nenhum tempo é todo ele presente: e veja que todo o passado é obrigado a recuar a partir do futuro, e que todo o futuro se segue a partir de um passado, e que todo o passado e futuro são criados e derivam daquilo que é sempre presente? Quem poderá deter o coração do homem, a ponto de ele parar e ver como a eternidade, que é fixa, nem futura nem passada, determina os tempos futuros e passados? Será que, porventura, a minha mão consegue isto, ou que a minha boca, que se manifesta falando, realiza tão grande intento?

E tu não precedes os tempos com o tempo: se assim fosse, não precederias todos os tempos. Mas precedes todos os passados com a grandeza da tua eternidade sempre presente, e superas todos os futuros porque eles são futuros, e quando eles chegarem, serão passado; tu, porém, és o mesmo e os teus anos não têm fim (Sl 101,28; Hb 1,12). 

Os teus anos não vão nem vêm: os nossos vão e vêm, para que todos venham. Os teus anos existem todos ao mesmo tempo, porque não passam, e os que vão não são excluídos pelos que vêm, porque não passam: enquanto os nossos só existirão todos, quando todos não existirem. Os teus anos são um só dia (Sl 89,4; 2Pe 3,8), e o teu dia não é todos os dias, mas um ‘hoje’, porque o teu dia de hoje não antecede o de amanhã; pois não sucede ao de ontem. O teu hoje é a eternidade: por isso, geraste co-eterno contigo aquele a quem disseste: 'Eu hoje te gerei' (Sl 2,7; At 13,33; Hb 1,5; 5,5). Tu fizeste todos os tempos e tu és antes de todos os tempos, e não houve tempo algum em que não havia tempo.

(Do Livro das Confissões, de Santo Agostinho)