segunda-feira, 13 de abril de 2026

A SANTIFICAÇÃO DA MATERNIDADE

Contemplei durante muito tempo, na célebre abadia de Melk, à beira do Danúbio, as pinturas da abóbada que representam a fé, a esperança e a caridade. São três mulheres: a fé traz a cruz e o cálice, a esperança a âncora de salvação, a caridade é uma mãe rodeada de filhos - um ·deles abraça-a, o outro beija-a e o terceiro brinca ao seu lado... Todas as aspirações da mulher encontram na família a sua mais bela plenitude.

O cetro do mundo pertence a quem pode dar a vida a um novo ser e, por isso, podem as mulheres olhar com desdém para o grandioso edifício de São Pedro de Roma ou qualquer outra construção tão impressionante como essa. Elas trouxeram ao mundo algo de mais senhorial e mais belo: o templo para uma alma imortal! A mulher trabalha no lar, mas o seu silencioso labor reflete-se em todo um povo. Transmite todo o tesouro da cultura aos filhos e aos netos, edifica o futuro e não só o futuro terreno; já que a sua ação penetra na eternidade até ao coração de Deus. 

Sem ela não há família, sem ela não há pátria. Sem ela perder-se-iam as fontes mais ricas da energia da humanidade; sem ela desapareceriam a bondade, o amor e a compaixão. É o humilde cajado em que se apoia o homem, cansado de peregrinar pelos poeirentos caminhos da vida. É o soldado desconhecido do contínuo dia a dia. A mão que embala uma criança, guia o leme do mundo e tudo quanto no mundo vive e morre, teve a sua origem numa mulher.

'O homem vem à vida através da mulher' - diz São Paulo e, por isso, nas obras dos homens sempre se vislumbra a imagem de uma mulher. O homem pode encontrar-se numa situação elevada e brilhante, de destaque perante a história, ou numa profunda obscuridade. A mulher, como imagem do valor eternamente duradouro, vai criando no silêncio vidas novas, traça-lhes o caminho e deita a semente num campo que nunca foi lavrado. 

Nos traços da mãe está impressa a face do povo que há de vir. Uma moça, pouco depois de ser mãe, dizia-me: 'A passagem da mulher para mãe é mais importante que a passagem de adolescente para mulher'. Na maternidade, encontra a sua solução esse problema premente e angustiante que tantas sombras projeta nos dias da juventude, o problema da aparição do amor e da mútua harmonia dos amores. O matrimônio serve para realizar essa harmonia e resolve o problema da mulher, porque é na maternidade que ela consegue alcançar a sua felicidade em clima apropriado à sua natureza. 

A vida da mulher é mais silenciosa e recolhida que a do homem, mas do fogo do lar pode ela fazer fogo de um altar sagrado onde oferecer-se, dia a dia, silenciosamente, até ao holocausto. Quando contemplo uma cruz coroada de rosas, penso no meu íntimo: este é o símbolo da vida da mulher, a cruz escondida entre as rosas! A vida e a vocação da mulher não são sempre rosas, mas também não são sempre cruz. Lado a lado, caminham rosas e cruz. Em resumo, viver para os outros, procurar por todos os meios a felicidade dos outros, ainda que se desfaça em sangue o coração!

Uma frase de León Bloy é digna de ser meditada: 'Quanto mais santa é uma mulher, tanto mais é mulher'. E também tem valor permanente o pensamento de Schiller: 'Honra a mulher! Ela tece rosas no caminho da vida, tece o feliz vínculo do amor e, oculta sob o véu da graça, alimenta vigilante, com mãos sagradas, o eterno fogo dos nobres sentimentos'.

Excertos da obra 'A Mãe', do Cardeal Mindszenty (1956)

domingo, 12 de abril de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

    

'Dai graças ao Senhor porque Ele é bom, eterna é a sua misericórdia!' (Sl 117)

Primeira Leitura (At 2,42-47) - Segunda Leitura (1Pd 1,3-9) - Evangelho (Jo 20,19-31)

  12/04/2026 - SEGUNDO DOMINGO DA PÁSCOA 

'MEU SENHOR E MEU DEUS!'


O segundo domingo do tempo pascal é consagrado como sendo o 'Domingo da Divina Misericórdia', com base no decreto promulgado pelo Papa João Paulo II na Páscoa do ano 2000. No Domingo da Divina Misericórdia daquele ano, o Santo Padre canonizou Santa Maria Faustina Kowalska, instrumento pelo qual Nosso Senhor Jesus Cristo fez conhecer aos homens o seu amor misericordioso: 'Causam-me prazer as almas que recorrem à minha misericórdia. A estas almas concedo graças que excedem os seus pedidos. Não posso castigar, mesmo o maior dos pecadores, se ele recorre à minha compaixão, mas justifico-o na minha insondável e inescrutável misericórdia'.

No Evangelho deste domingo, Jesus já havia se revelado às santas mulheres, a Pedro e aos discípulos de Emaús. Agora, apresenta-se diante os Apóstolos reunidos em local fechado e, uma vez 'estando fechadas as portas' (Jo 20,19), manifesta, assim, a glória da sua ressurreição aos discípulos amados. 'A paz esteja convosco' (Jo 20,19) foi a saudação inicial do Mestre aos apóstolos mergulhados em tristeza e desamparo profundos. 'A paz esteja convosco' (Jo 20,21) vai dizer ainda uma segunda vez e, em seguida, infunde sobre eles o dom do Espírito Santo para o perdão dos pecados: 'Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos' (Jo 20,22-23), manifestação preceptora da infusão dos demais dons do Espírito Santo por ocasião de Pentecostes. A paz de Cristo e o Sacramento da Reconciliação são reflexos incomensuráveis do amor e da misericórdia de Deus.

E eis que se manifesta, então, o apóstolo da incredulidade, Tomé, tomado pela obstinação à graça: 'Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei' (Jo 20,25). E o Deus de Infinita Misericórdia se submete à presunção do apóstolo incrédulo ao lhe oferecer as chagas e o lado, numa segunda aparição oito dias depois, quando estão todos novamente reunidos, agora com a presença de Tomé, chamado Dídimo. 'Meu Senhor e meu Deus!' (Jo 20,28) é a confissão extremada de fé do apóstolo arrependido, expressando, nesta curta expressão, todo o tesouro teológico das duas naturezas - humana e divina - imanentes na pessoa do Cristo.

'Bem-aventurados os que creram sem terem visto!' (Jo 20,29) é a exclamação final de Jesus Ressuscitado pronunciada neste Evangelho. Benditos somos nós, que cremos sem termos vistos, que colocamos toda a nossa vida nas mãos do Pai, que nos consolamos no tesouro de graças da Santa Igreja. E bem aventurados somos nós que podemos chegar ao Cristo Ressuscitado com Maria, espelho da eternidade de Deus na consumação infinita da Misericórdia do Pai.

sábado, 11 de abril de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (97/100)

 

97. OS TRÊS CORAÇÕES

São Bento Labre (que passou a vida como mendigo e morreu em Roma em 1783), visitando uma vez um doente, ensinou-lhe quais as ofertas que agradam a Deus. Dizia assim o santo: 

'Seria preciso possuir três corações para oferecer-lhe num só coração. O primeiro todo fogo por Deus, isto é, cheio de amor para com ele; o segundo todo de carne, isto é, cheio de compaixão para com o próximo e inclinado à oração frequente; o terceiro todo de bronze para conosco, isto é, forte contra as paixões (mormente contra a sensualidade) e inclinado a castigar o próprio corpo com a mortificação'.

Estes três corações são a melhor oferta que cada um de nós pode fazer a Jesus.

98. NÃO SE DEVE ADIAR A VOCAÇÃO

Um jovem, sentindo-se chamado por Deus à vida de perfeição, resolveu tomar o hábito religioso e entrar num convento. Passado algum tempo, pôs-se a dizer consigo (certamente tentado pelo demônio): Sou muito moço ainda, tenho saúde, sou robusto e teria de passar a vida fora do mundo e a fazer continuas penitências? Não; vou deixar isso para mais tarde; a morte está longe, não virá tão cedo!
E ficou no mundo... Mas, quanto durou sua vida?
Quatro meses apenas... e, morrendo, o infeliz não conseguía ter paz nem sossego.

99. COMO MORRERAM ALGUNS HERESIARCAS

Ario, que fez tão grande dano à Igreja com os seus erros, enquanto passava triunfante pelas ruas de Constantinopla, foi atacado de improviso mal-estar e imediatamente perdeu a vida do modo mais horrendo.

Lutero, celebrado autor do protestantismo, morreu entre dores atrozes após uma vergonhosa indigestão. Calvino, outro heresiarca, contemporâneo de Lutero, morreu chamando os demônios, amaldiçoando a si próprio, enquanto de suas chagas escorria pus. 

Finalmente, para nomear só estes, eis como terminou Voltaire a sua vida depravada. Na última hora pediu com insistência um padre para confessar-se; mas os amigos (melhor diríamos os inimigos) que o rodeavam não permitiram que o padre se aproximasse daquele infeliz, que, desesperado, expirou entre dores atrozes.

Assim tratou o grande Rei do Céu e da terra todos aqueles que, além de não ouvirem os seus ministros, ainda se tornaram os seus perseguidores.

100. O CARNAVAL E OS SANTOS

São Francisco de Sales dizia ser o carnaval o tempo de suas dores e aflições e, naqueles dias, fazia o retiro espiritual para reparar as graves desordens e o procedimento licencioso de tantos cristãos.
São Vicente Ferrer dizia que o carnaval é um tempo infelicíssimo, no qual os cristãos cometem pecados sobre pecados, e correm à rédea solta para a perdição.
O Servo de Deus João de Foligno dava ao carnaval o nome de vindima do diabo.
Santa Catarina de Sena, referindo-se ao carnaval, exclamava entre soluços: 'Ó que tempo diabólico!'
São Carlos Borromeu dizia jamais poder compreender como cristãos tenham podido conservar tal perniciosíssimo costume do paganismo.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

sexta-feira, 10 de abril de 2026

FRASES DE SENDARIUM (LXXI)

'A única coisa que podemos chamar de nossa neste mundo é o pecado' 

(São João Maria Vianney, o Cura D'Ars)

Deves temer mais um único pecado do que todos os demônios do inferno: o pecado é a ferida de morte que coloca a tua alma à mercê de todos eles.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

AS 10 APARIÇÕES DE JESUS RESSUSCITADO


E a eles se manifestou vivo depois de sua Paixão, com muitas provas, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando das coisas do Reino de Deus [At 1,3]

I. Aparição a Maria Madalena (Maria de Magdala)

Entretanto, Maria se conservava do lado de fora perto do sepulcro e chorava. Chorando, inclinou-se para olhar dentro do sepulcro. Viu dois anjos vestidos de branco, sentados onde estivera o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. Eles lhe perguntaram: 'Mulher, por que choras?'. Ela respondeu: 'Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram'. Ditas essas palavras, voltou-se para trás e viu Jesus em pé, mas não o reconheceu. Perguntou-lhe Jesus: 'Mulher, por que choras? Quem procuras?' Supondo ela que fosse o jardineiro, res­pondeu: 'Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste e eu o irei buscar'. Disse-lhe Jesus: 'Maria!' Voltando-se ela, exclamou em hebraico: 'Rabôni!' (que quer dizer Mestre) [Jo 20,11-18].

Tendo Jesus ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana apareceu primeiramente a Maria de Magdala, de quem tinha expulsado sete demônios [Mc 16,9].
 
II.  Aparição a Maria Madalena, Maria (mãe de Tiago), Joana e outras mulheres 

Depois do sábado, quando amanhecia o primeiro dia da semana, Maria Madalena e a ou­tra Maria [a mãe de Tiago conforme Mc 16,1, incluindo Joana em outras versões] foram ver o túmulo... Nesse momento, Jesus apresentou-se diante delas e disse-lhes: 'Salve!' Aproximaram-se elas e, prostradas diante dele, beijaram-lhe os pés. Disse-lhes Jesus: 'Não temais! Ide dizer aos meus irmãos que se dirijam à Galileia, pois é lá que eles me verão' [Mt 28,1.10].

Eram elas Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago; as outras suas amigas relataram aos apóstolos a mesma coisa [LC 24,10].

III. Aparição a Pedro

Levantaram-se na mesma hora e voltaram a Jerusalém. Aí acharam reunidos os Onze e os que com eles estavam. Todos diziam: 'O Senhor ressuscitou verdadeiramente e apareceu a Simão' [Lc 24,34].

Ele foi visto por Pedro (Cefas) e depois pelos Doze [1Cor 15,5].

IV. Aparição a Cleofas e outro discípulo a caminho de Emaús

Nesse mesmo dia, dois discípulos caminhavam para uma aldeia chamada Emaús, distante de Jerusalém sessenta estádios. Iam falando um com o outro de tudo o que se tinha passado. Enquanto iam conversando e discorrendo entre si, o mesmo Jesus aproximou-se deles e caminhava com eles... Então, se lhes abriram os olhos e o reconheceram... mas ele desapareceu [Lc 24,13-15.31]

V. Aparição aos onze discipulos exceto Tomé

Enquanto ainda falavam dessas coisas, Jesus apresentou-se no meio deles e disse-lhes: 'A paz esteja convosco!' Perturbados e espantados, pensaram estar vendo um espírito. Mas ele lhes disse: 'Por que estais perturbados, e por que essas dúvidas nos vossos corações? Vede minhas mãos e meus pés, sou eu mesmo; apalpai e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que tenho' [LC 24,36-39].

Na tarde do mesmo dia, que era o primeiro da semana, os discípulos tinham fechado as portas do lugar onde se achavam, por medo dos judeus. Jesus veio e pôs-se no meio deles. Disse-lhes ele: 'A paz esteja convosco!' Dito isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos alegraram-se ao ver o Senhor [Jo 20,19-20].

VI. Aparição aos onze discípulos incluindo Tomé

Oito dias depois, estavam os seus discípulos outra vez no mesmo lugar e Tomé com eles. Estando trancadas as portas, veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse: 'A paz esteja convosco!'... Disse-lhe Jesus: 'Creste, porque me viste. Felizes aqueles que creem sem ter visto!' [Jo 20,26.29].

VII. Aparição a sete discípulos no Mar de Tiberíades

Depois disso, tornou Jesus a ma­nifestar-se aos seus discípulos junto ao lago de Tibería­des... Estavam juntos Simão Pedro, Tomé (chamado Dídimo), Natanael (que era de Caná da Galileia), os filhos de Zebedeu e outros dois dos seus discípulos [Jo 21,1-2].

VIII. Aparição aos onze discípulos em uma montanha da Galileia

Os onze discípulos foram para a Galileia, para a montanha que Jesus lhes tinha designado. Quando o viram, adoraram-no... 'Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo' [Mt 26,16-17.20].

IX. Aparição a Tiago

Depois apareceu a Tiago e, em seguida, a todos os apóstolos [1Cor 15,7].

X. Aparição aos onze discípulos em Betânia, na sua Ascensão ao Céu

Depois os levou (os onze discípulos) para Betânia e, levantando as mãos, os abençoou. Enquanto os abençoava, separou-se deles e foi arrebatado ao céu [Lc 24,50-51].

'Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e até os confins do mundo'. Dizendo isso, elevou-se da (terra) à vista deles e uma nuvem o ocultou aos seus olhos [At 1,8-9].

quarta-feira, 8 de abril de 2026

VERSUS: CARIDADE X CARIDADE


A verdadeira caridade é paciente na adversidade e comedida na prosperidade; é forte no sofrimento doloroso, alegre nas boas obras, perfeitamente segura na tentação; é suave com os verdadeiros irmãos e paciente com os falsos; é inocente nas armadilhas; chora na maldade; respira na verdade. É pura em Susana casada, em Ana viúva, em Maria virgem (Dn 13,1-; Lc 2,36). É humilde na obediência de Pedro e livre na argumentação de Paulo. É humana no testemunho dos cristãos, divina no perdão de Cristo. Porque a verdadeira caridade, queridos irmãos, é a alma de todas as Escrituras, a força da profecia, a moldura do conhecimento, o fruto da fé, a riqueza dos pobres, a vida dos moribundos. Conservai-a pois com fidelidade; amai-a com todo o vosso coração e com toda a força do vosso entendimento (cf Mc 12,30).
(São Cesário de Arles)


Pensas que a caridade é facultativa? Que não se trata de uma lei, mas de um simples conselho? Bem gostaria que fosse assim. Mas assusta-me o lado esquerdo de Deus, esse lado para onde Ele mandou os cabritos, aos quais não censurou o fato de terem roubado, pilhado, cometido adultérios ou perpetrado outros delitos deste tipo, mas o fato de não terem honrado a Cristo na pessoa dos seus pobres. Por isso, se me julgais dignos de alguma atenção, servos de Cristo, seus irmãos e co-herdeiros, visitemos a Cristo, alimentemos a Cristo, tratemos as feridas de Cristo, honremos a Cristo, não só sentando-o à nossa mesa como Simão, não só ungindo-o com perfumes como Maria, não só dando-lhe sepulcro como José de Arimateia, não só provendo o necessário para a sua sepultura como Nicodemos, não só, finalmente, oferecendo-lhe ouro, incenso e mirra como os magos. Mas, uma vez que o Senhor do universo prefere a misericórdia ao sacrifício (cf Mt 9,13), uma vez que a compaixão tem muitos mais valor que a gordura de milhares de cordeiros, ofereçamos a misericórdia e a compaixão na pessoa dos pobres que hoje na terra são humilhados, de modo que, ao sairmos deste mundo, sejamos recebidos nas moradas eternas (cf Lc 16,9) pelo mesmo Cristo, Nosso Senhor, a quem seja dada glória pelos séculos dos séculos..

(São Gregório de Nazianzeno)

terça-feira, 7 de abril de 2026

SOBRE A AVAREZA ESPIRITUAL

Muitos principiantes têm às vezes também grande avareza espiritual. Mal se contentam com o espírito que Deus lhes dá, andam muito desconsolados e queixosos por não acharem, nas coisas espirituais, o consolo desejado.

Muitos nunca se fartam de ouvir conselhos e aprender regras de vida espiritual; querem ter sempre grande cópia de livros sobre este assunto. Ocupam-se mais em ler do que em se exercitarem na mortificação e perfeição da pobreza interior do espírito como deveriam.

Além disto, carregam-se de imagens e rosários, ora deixam uns, ora tomam outros; vivem a trocá-los e destrocá-los; querem-nos, já desta maneira, já daquela outra, afeiçoando-se mais a esta cruz do que àquela, por lhes parecer mais interessante. Também vereis a outros bem munidos de Agnus Dei, relíquias e santinhos, como as crianças com brinquedos.

Condeno, em tudo isto, a propriedade do coração e o apego e curiosidades destas coisas; pois esta maneira de agir é muito contrária à pobreza de espírito, que só põe os olhos na substância da devoção, e se aproveita somente do que lhe serve para tal fim, cansando-se de tudo mais.

A verdadeira piedade há de brotar do coração, firmando-se na verdade e solidez assertivas destas coisas espirituais; o resto é mero apego e desserviço de imperfeição, o qual é necessário cortar a fim de se atingir algo da perfeição.

(Excertos da obra 'A Noite Escura da Alma', de São João da Cruz)

segunda-feira, 6 de abril de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XVI)

       

PARTE II - O JUÍZO FINAL

XI. Sobre a proclamação da sentença sobre os bons e os maus

O que foi dito até agora a respeito do Juízo Final é, de fato, algo terrível, mas o que está por vir é ainda maior: estamos prestes a falar da sentença pronunciada sobre os ímpios e de como eles serão lançados no inferno. Isso é tão terrível que nada em toda a eternidade pode ser comparado a tal horror.

Quando o Juiz supremo tiver sondado os corações de todos os homens e pesado todas as suas ações na balança da justiça, quando tudo tiver sido revelado e manifestado ao mundo inteiro, Ele proferirá sentença sobre os bons e sobre os maus. Primeiro, Ele voltará um rosto bondoso para os seus eleitos (que estarão à sua direita) e dirigirá a eles as palavras consoladoras: 'Vinde, ó benditos do meu Pai, possuí o reino preparado para vós desde a fundação do mundo. Pois tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era estrangeiro e me acolhestes; estava nu e me vestistes; estava doente e me visitastes; estava na prisão e viestes ter comigo' (Mt 25,34-36).

'Vocês foram fiéis a mim até o fim das suas vidas. Desprezaram o mundo e todas as coisas do mundo, amaram-me e buscaram acima de tudo promover a minha glória. Sofreram muito enquanto estavam na terra, realizaram árduas obras de penitência, foram desprezados e oprimidos pelos adeptos do mundo e pelos ímpios. Mas agora o tempo do sofrimento terminou e o tempo da felicidade começa; vossa tristeza se transformará em alegria, alegria eterna que nenhum homem poderá tirar de vós. Vinde, pois, ó meus amigos, vinde, vós, abençoados e escolhidos do meu Pai celestial, vinde do trabalho para o descanso, vinde da tristeza para a alegria, vinde dos reinos das trevas para as regiões da luz, vinde da terra para o Céu. Vinde e possuí a pátria celestial, pela qual tantas vezes ansiastes, vinde e reinai comigo para sempre, pois por vossas boas obras merecestes esta recompensa. Vossa felicidade perdurará enquanto eu for Deus, e na minha presença desfrutareis da bem-aventurança do Céu por toda a eternidade'.

Os corações dos eleitos transbordarão de alegria, consolo e deleite ao ouvirem estas palavras amorosas. Eles erguerão os olhos para o rosto benigno de seu Juiz e dirão a Ele com alegria e gratidão: 'Deus e Senhor misericordioso, vossa bondade para conosco é infinita, e vossa generosidade não conhece limites. Como merecemos receber de Vós uma tal recompensa? O que fizemos para merecer a felicidade sem fim? É somente por vossa misericórdia e caridade infinita que Vós nos acolheis em vosso reino de glória. Sede bendito para sempre; nossa boca exaltará a vossa majestadade para sempre!'

Depois disso, Cristo ordenará aos seus Anjos que tragam todos os santos diante de si. E, à medida que se aproximarem do seu trono, Ele as revestirá com uma vestimenta de glória, brilhante e bela, de modo que brilhem como estrelas. Sobre suas cabeças, colocará coroas de ouro de brilho incomparável e, em suas mãos, colocará lírios, rosas, ramos de palmeira e um cetro, para simbolizar a vitória que alcançaram sobre o mundo, a carne e o demônio.

Os perdidos testemunharão a glória e a exaltação dos santos. Ouvirão seus gritos de triunfo, e isso lhes será como fel e absinto. Rangerão os dentes de raiva e remorso; todo o prazer que sentiam em seus pecados agora se foi. Chorarão e lamentarão, e dirão, em meio a soluços de profundo desespero: 'Ai de nós, quão infelizes, quão miseráveis somos! O que fizemos! Vede aqueles a quem outrora desprezávamos, agora tão felizes, tão extasiados, tão honrados e glorificados, e nós, que os desprezávamos, estamos agora tão infelizes, tão miseráveis, tão desonrados, marcados para sempre com todos os sinais de reprovação! E, no entanto, poderíamos ter conquistado para nós o mesmo destino glorioso que eles; o trabalho e a dificuldade não teriam sido além de nossas forças. Mas nós, em nossa maldita loucura, desperdiçamos o Bem Supremo e nos privamos da felicidade eterna em troca de prazeres sem valor e passageiros. Ó que loucura, que insanidade da nossa parte! Como pudemos nos deixar deslumbrar a tal ponto pelas vis devassidões do mundo!'

Depois que esses seres infelizes tiverem lamentado sua miséria por um tempo considerável, a trombeta voltará a emitir um som poderoso. Esse toque da trombeta anunciará a sentença proferida sobre os réprobos e imporá silêncio a todos os presentes. Então, o Juiz se voltará para os ímpios e, olhando para eles com um rosto inflamado de santa ira, dirá: 'Ó pecadores tolos e cegos! Chegou agora o dia terrível de que vos falei quando estava na terra: o dia, a hora do julgamento. Agora está diante de vós Aquele a quem sempre vos mostrastes inimigos. Em vossa presunção arrogante, causastes todo tipo de dor e dano a mim, à minha Igreja, aos meus irmãos e irmãs, a todos os filhos de Deus. Contemplem as feridas que me infligiram; contemplem o lado que perfuraram; contemplem a Cruz na qual me cravaram; contemplem o pilar no qual me açoitaram e, ao qual, nos anos seguintes, amarraram a minha Igreja, minha esposa imaculada, século após século, lacerando e rasgando sua carne com o açoite de vossa zombaria insolente, vossa incredulidade, vossos escândalos, vossas seduções, vossos atos infames de todo tipo'.

'Por amor a vós, desci do Céu e, por amor a vós, suportei as crueldades da morte. E, no entanto, o meu amor, tão maravilhoso em sua extensão, não despertou resposta em vossos corações, não encontrou amor em troca; pelo contrário, rejeitastes-me com desprezo e ódio quando me apresentei à porta de vossos corações como um suplicante, desejoso de obter admissão ali. Quantas vezes Eu vos chamei e vós não quisestes me ouvir. Estendi as minhas mãos para vós, mas vós vos afastastes do meu abraço. Recorri a ameaças, visitei-vos com muitos castigos amorosos, mas vós não quisestes curvar o vosso pescoço orgulhoso sob o meu jugo suave. Escolhestes deliberadamente servir ao demônio como vosso deus e, por isso, partilhareis agora o seu destino e estareis com ele no abismo da condenação por toda a eternidade. Eu também rirei da vossa destruição. Eis que os meus servos, todos os justos, comerão e se fartarão, enquanto vós passareis fome eternamente. Aos meus servos será dado beber em abundância, enquanto vós tereis sede, e a vossa sede nunca será saciada. Os meus servos se alegrarão e vós chorareis. Meus servos exultarão em êxtase perpétuo e vós gritareis em agonia e desespero. Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno que foi preparado para o demônio e os seus anjos. Pois tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber; era estrangeiro e não me acolhestes, estava nu e não me vestistes, fiquei doente e na prisão e não me visitastes'.

Este veredito, pronunciado pelo Juiz justo, atingirá os ouvidos dos condenados como um trovão; eles cairão prostrados no chão, oprimidos por estas palavras terríveis, e então lançarão tal grito de desespero e raiva, que os próprios Céus e a terra tremerão com o som: 'Ai de nós, malditos e miseráveis que somos! Agora seremos banidos da presença de Deus e dos santos para toda a eternidade! Teremos de arder para sempre e sempre com os demônios nas chamas do inferno! Ide para o fogo eterno! Ó que sentença terrível dos lábios do nosso Juiz! Fogo eterno! Tormento eterno! Nenhuma esperança de salvação! Ai de nós, pecadores miseráveis; ai de nós, ai de nós!

Assim, as almas perdidas se queixarão, chorarão e se lamentarão. Contudo, o tempo da graça já passou; a sentença foi proferida; não há mais misericórdia, nem clemência para elas. 'Compreendam estas coisas, vós que vos esquecestes de Deus; para que Ele não vos arrebate e não haja quem vos livre (Sl 49,22). Sim, compreendam isso, ó infelizes pecadores, e zelem para que um destino semelhante não vos alcance. Pensem em como se sentiriam se estivessem entre esses réprobos. Considerem o que desejariam ter feito e o que dariam como preço de resgate, se fosse possível serem libertados. Pois bem, façam agora o que desejariam ter feito então. Confessem e lamentem seus pecados enquanto ainda há tempo e supliquem a Deus que os preserve do tormento sem fim.

ORAÇÃO

Ó Deus misericordiosíssimo, Vós nos dissestes pela boca do vosso profeta: 'No tempo aceitável, eu te ouvirei, e no dia da salvação, eu te ajudarei' (Is 49,8). Eis que agora é o dia da salvação; por isso, invoco-vos e, com a maior confiança e do fundo do meu coração, suplico-vos que me concedais graça e ajuda na medida das minhas necessidades, para que eu não seja rejeitado. Pois os mortos não vos louvam, ó Senhor, nem aqueles que descem ao inferno, mas os vivos, nós que vivemos em vossa santa presença, exaltaremos o vosso santo nome para sempre. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

domingo, 5 de abril de 2026

BÊNÇÃO URBI ET ORBI - PÁSCOA 2026


SEMANA SANTA MAIOR: PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO

 SOLENIDADE DA RESSURREIÇÃO DE NOSSO SENHOR

'Haec est dies quam fecit Dominus. Exultemus et laetemur in ea
— 
'Esse é o dia que o Senhor fez. Seja para nós dia de alegria e felicidade'
 (Sl 117, 24)

Cristo ressuscitou! Eis a Festa da Páscoa da Ressurreição, a data magna da cristandade. Por causa da ressurreição de Jesus, podemos ter fé e esperança, obter o perdão dos nossos pecados e a salvação de nossas almas. Com a ressurreição de Jesus, a morte foi vencida. E as Portas do Céu foram abertas para toda a eternidade.

'Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está o teu aguilhão?' 
(1 Cor 15, 55)

 

EVANGELHO DO DOMINGO

   

'Este é o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos!' (Sl 117)

Primeira Leitura (At 10,34a.37-43) - Segunda Leitura (Cl 3,1-4) - Evangelho (Jo 20,1-9)

  05/04/2026 - DOMINGO DA PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR

PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO


Este é o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos! A mão direita do Senhor fez maravilhas, a mão direita do Senhor me levantou. Não morrerei, mas, ao contrário, viverei para cantar as grandes obras do Senhor! Aleluia! Aleluia! Aleluia!

Eis o grande dia do Senhor, em que a vida venceu a morte, a luz iluminou as trevas, a glória de Deus se impôs aos valores do mundo. Jesus veio para fazer novas todas as coisas, abrir o caminho para o Céu, eternizar a glória de Deus na alma humana. Cristo Ressuscitado é a razão suprema de nossa fé, penhor maior de nossa esperança, causa de nossa alegria, plenitude do amor humano. Como filhos da redenção de Cristo, cantamos jubilosos a Páscoa da Ressurreição: 'Tende confiança! Eu venci o mundo' (Jo 16, 33).

O Triunfo de Cristo é o nosso triunfo pois o o Homem Novo tomou o lugar do homem do pecado. Mortos para o mundo, tornamo-nos herdeiros da ressurreição da nova vida em Deus: 'Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus; aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres. Pois vós morrestes, e a vossa vida está escondida, com Cristo, em Deus (Cl 3, 1-3).

Entremos com Pedro no sepulcro agora vazio de Jesus: 'Viu as faixas de linho deitadas no chão e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte' (Jo 20, 6 -7). Este sepulcro vazio é a morte do pecado, a vitória da vida sobre a morte: 'Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?' (1 Cor 15, 55). Jesus ressuscitou! Bendito é o Senhor dos Exércitos que, com a sua Ressurreição, derrotou o mundo e nos fez herdeiros do Céu! Este é o dia da alegria suprema, do triunfo da vida, do gáudio eterno dos justos. Este é o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos!

Hæc est dies quam fecit Dominus. Exultemus et lætemur in ea!

sábado, 4 de abril de 2026

SEMANA SANTA MAIOR: SÁBADO SANTO

     VIGÍLIA PASCAL

Estamos prostrados em silêncio diante o Santo Sepulcro. Hoje é o dia da bênção do Fogo Novo, do Círio Pascal, da renovação das nossas promessas do batismo. Cantamos o Exultet com Maria. Com Maria, Mãe de todas as vigílias, aguardamos, em súplice espera, a Ressurreição do Senhor.


Vamos nos juntar à devoção com que Maria, o discípulo amado, Maria Madalena e as santas mulheres recolheram, em seus braços, o corpo de Jesus descido da cruz por José de Arimatéia e Nicodemos. Com que ternura e amor Maria considera todas as suas chagas, olha todo o seu corpo dilacerado, beija todas as suas feridas! E o discípulo amado, como se projeta sobre aquele peito em que havia repousado a cabeça na noite anterior! Como o beija e se acende de vontade de se enterrar naquele peito aberto! E Madalena, como abraça os sagrados pés, de quem recebera o perdão; como os lava com as suas lágrimas e os enxuga com os seus cabelos! Entremos nos piedosos sentimentos dessas almas santas.

I - O QUE NOS ENSINA O ENTERRO DE NOSSO SENHOR

Este mistério nos ensina primeiro COMO DEVEMOS COMUNGAR. Depois que o adorável corpo foi deposto da cruz, Nicodemos trouxe cem libras de um perfume precioso, composto de mirra e aloés, para embalsamá-lo. José de Arimatéia ofereceu-se para envolvê-lo em linho branco e para levar o corpo até um sepulcro novo, talhado na rocha, que ainda não tinha sido utilizado; depois, a entrada do túmulo foi fechada por uma pedra, ficando sob a guarda da autoridade pública e a custódia de soldados. 

QUANDO O CORPO DE NOSSO SENHOR CHEGA ATÉ NÓS NA SAGRADA COMUNHÃO, DEVEMOS TAMBÉM ENVOLVÊ-LO COM O PERFUME DAS SANTAS INTENÇÕES, COM O PERFUME DAS BOAS OBRAS, COM A APRESENTAÇÃO DE UM CORAÇÃO PURO DA INOCÊNCIA, FIGURADA NAQUELE LINHO SEM MANCHA; COM UMA RÍGIDA DETERMINAÇÃO DE FAZER O BEM TAL QUAL A PEDRA DO SEPULCRO; UMA CONSCIÊNCIA INTEIRAMENTE RENOVADA PELA PENITÊNCIA; E, DEPOIS DA COMUNHÃO, DEVEMOS CERRAR AS PORTAS DO NOSSO CORAÇÃO COM A PEDRA E O SELO DO NOSSO RECOLHIMENTO, FRENTE A MODÉSTIA, MESURAS E ATENÇÃO COM NÓS MESMOS, COMO GUARDAS VIGILANTES PARA IMPEDIR QUE NOS ARREBATEM O TESOURO PRECIOSO QUE ACABAMOS DE RECEBER.

É assim que fazemos? Este mistério nos ensina, em segundo lugar, AS TRÊS PREMISSAS QUE CONSTITUEM A MORTE ESPIRITUAL A QUE ESTÁ CHAMADO TODO CRISTÃO, segundo a doutrina do Apóstolo: 'tomai-vos por mortos, porque mortos estais e vossa vida está escondida com Cristo em Deus'. O primeiro dessas premissas é AMAR A VIDA OCULTA; estar como morto, em relação a todas as coisas que podem ser ditas ou pensadas sobre nós, não buscar nem ver o mundo, nem ser visto por ele. Jesus, na noite do seu sepultamento, dá-nos esta lição. Que o mundo nos esqueça e até nos possa pisar, pouco nos importa. Nós não devemos nos preocupar com isso, mais do que se importa um morto. A felicidade de uma alma cristã é se esconder em Jesus e em Deus. Nossa perversa natureza se compraz em deleitar-se, em querer ser louvado, amado, ser distinguido de reputação e amizades; não lhe façamos caso; quanto mais sensível e extremado sejamos ao apreço dos outros, mais indigno este se torna e maior é a nossa necessidade de privar-nos dele. Que se nos livre da reputação, para que em nada nos levem em conta, que nem pensem em nós, que nos olhem com horror. Faça-se, Senhor, Vossa Santa Vontade! 

A segunda premissa da morte espiritual é USAR OS BENS SENSÍVEIS POR NECESSIDADE, SEM DAR-LHES NENHUMA IMPORTÂNCIA; não nos deleitar com a preguiça nem com os prazeres da vida, nem os prazeres da gula, nem a satisfação da curiosidade que quer ver e saber de tudo; estar, em suma, como mortos para os prazeres dos sentidos. Nesta segunda premissa é preciso juntar O ABANDONO DE SI MESMO À DIVINA PROVIDÊNCIA, abandono que, tal como um cadáver, nos deixamos levar, sem argumentar e nem querer ou desejar qualquer coisa, indiferentes a todas as coisas e a todas as ocupações. Quando deixarei de me amar desordenadamente? Quando morrerei em mim para viver somente em Vós?

II - O QUE NOS ENSINA A DESCIDA DA ALMA DE JESUS AO LIMBO

Este mistério nos ensina, em primeiro lugar, O AMOR DE JESUS AOS HOMENS. Ao deixar o sagrado corpo, sua santa alma poderia ter-se apresentado diante de Deus para descansar ali todas as suas dores; mas o seu amor para os homens o inspirou a descer ao limbo para consolar os Patriarcas e anunciar-lhes que, dentro de quarenta dias, eles o iriam acompanhar ao paraíso. É assim, pois, que o amor de Jesus não tem repouso. Após sua morte, como em sua vida, fez todo o bem possível aos homens. Obrigado, ó Jesus, mil vezes obrigado por este esforço em nos fazer tanto bem. 

Este mistério nos ensina, em segundo lugar, O NOSSO AMOR A JESUS. À vista dessa santa alma, os justos retidos não podem conter o seu júbilo e entoam cânticos de louvor, gratidão e amor, e entregam todos os seus corações ao Deus libertador. Eis aí os nossos modelos: Por que teríamos menos gratidão e amor, uma vez que Jesus morreu por nós e por eles, porque nos ama como amou a eles e, como a eles, nos prometeu seu Paraíso?

(Excertos da obra 'Meditações para todos os dias do ano para uso do clero e dos fieis', de Pe. Andrés Hamon, Tomo II).

sexta-feira, 3 de abril de 2026

SEMANA SANTA MAIOR: SEXTA-FEIRA SANTA

    CELEBRAÇÃO DA PAIXÃO E MORTE DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO


Nós Vos adoramos, Nosso Senhor Jesus Cristo, e Vos bendizemos,
porque pela Vossa Santa Cruz remistes o mundo.

Penitência, jejum, abstinência, silêncio, oração. Jesus agonizante acabou de pronunciar suas últimas palavras, entregando o Espírito ao Pai. E morre sobre a cruz. José e Nicodemos o descem do lenho das flagelações para os braços da Mãe Dolorosa. E, então, o conduzem para o Santo Sepulcro.


Transportemo-nos em espírito ao Calvário; adoremos ali a Jesus cravado na Cruz por nós e, à vista do seu Corpo transformado em uma única chaga, deixemos transbordar a compaixão dos nossos corações, em ato de agradecimento, contrição, amor e devoção.

I - SEXTA-FEIRA SANTA, DIA DE AMOR 

Contemplemos amorosamente o divino Crucificado desde os pés até à cabeça, desde o menor movimento de seu Coração até às suas mais vivas emoções; tudo nos conduz a amá-lo; todo Ele nos diz: 'Meu Filho, dá-me o teu coração'. Seus braços estendidos nos revelam que Ele nos abraça a todos sem distinção; sua cabeça, que não pode repousar a não ser sobre os espinhos que a mantém suspensa, inclina-se para nos dar o beijo da paz e da reconciliação; seu peito, retalhado pelos golpes, ergue-se sob a cadência de um coração cheio de amor; suas mãos e os seus pés, perfurados pelos cravos; sua visão esmaecida, suas veias exangues, sua boca seca pela sede, todas as chagas, enfim, que cobrem o seu corpo, formam um concerto de vozes a nos dizer: 'Vede o quanto Ele nos ama!' 

AH! SE PENETRÁSSEMOS NESTE CORAÇÃO, O VERÍAMOS TODO OCUPADO EM NOS AMAR A TODOS, PEDINDO MISERICÓRDIA POR NOSSAS INGRATIDÕES, NOSSA FRIEZA E NOSSOS PECADOS; PEDINDO POR NÓS TODOS OS SOCORROS DAS GRAÇAS QUE TEMOS RECEBIDO E RECEBEREMOS; OFERECENDO AO PAI A SUA VIDA POR NÓS, O SEU SANGUE, TODAS AS SUAS DORES INTERNAS E EXTERNAS; ENFIM, CONSUMINDO-SE EM ARDORES INDESCRITÍVEIS DE AMOR, SEM QUE NADA POSSA DISTRAÍ-LO.

Ó amor! Seria demasiado morrer de amor por tanto amor? 'Ó Bom Jesus', direi como São Bernardo, 'nada me enternece tanto, nada me abrasa e incendeia meu coração de vosso amor do que a Vossa Paixão'. É ela que me atrai mais a Vós, é ela que me une a Vós mais estreitamente, é ela que, com mais firmeza, me comove. Ó quanta razão tinha São Francisco de Sales ao afirmar que o Monte Calvário é um monte de amor; que ali, nas chagas de Jesus, as almas fieis encontram o mais puro amor e, no próprio Céu, depois da bondade divina, é a Vossa Paixão o motivo da maior alegria, o mais doce e o mais poderoso instrumento para sublimar de amor os bem aventurados! E eu, Jesus, diante disso, ó Jesus Crucificado, poderia ter outra vida que não Vos amar?

II - SEXTA-FEIRA SANTA, DIA DE CONVERSÃO 

PARA PROVAR A JESUS CRUCIFICADO QUE EU O AMO VERDADEIRAMENTE, É PRECISO QUE EU ME CONVERTA, QUE EU DEIXE MORRER, AOS PÉS DA CRUZ, TUDO QUE AINDA EXISTE DO MUNDO EM MIM, todas as minhas negligências e todas as minhas tibiezas, todo o meu amor próprio e meu orgulho; todas as minhas futilidades, desejos de gozos e prazeres, tão grandes inimigos do despojamento e da mortificação; a sensibilidade que, de tudo, se ressente; o espírito de crítica e de maledicência, que de tudo murmura; a tibieza, a dissipação e o espírito errante, que não quer refletir em recolhimento; a intemperança da língua, que fala de tudo que está no nosso interior; enfim, de tudo aquilo que é incompatível com o amor que nos pede Jesus Crucificado. 

Há que se substituir todas estas más inclinações pelas sólidas virtudes que a Cruz nos ensina: a humildade, a mansidão, a caridade, a paciência, o despojamento. Jesus nos pede tudo isso, por todas as suas chagas, por tantos outros modos. Podemos recusar? Poderia eu conservar meus apegos, quando o vejo desnudo na Cruz? Desta nudez não poderia eu me vestir, fazer minha veste dos seus opróbrios, minha riqueza de sua pobreza, minha glória de sua vertigem, minha alegria dos seus sofrimentos?

(Excertos da obra 'Meditações para todos os dias do ano para uso do clero e dos fieis', de Pe. Andrés Hamon, Tomo II).

quinta-feira, 2 de abril de 2026

SEMANA SANTA MAIOR: QUINTA-FEIRA SANTA

    CELEBRAÇÃO DA INSTITUIÇÃO DA EUCARISTIA E DO SACERDÓCIO

Nesta Quinta-Feira Santa, a Igreja recorda a Última Ceia de Jesus e a instituição da Eucaristia, sacramento do Seu Corpo e do Seu Sangue: 'Fazei isto em memória de Mim'; a instauração do novo Mandamento: 'Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei' e a suprema lição de humildade de Jesus, quando o Senhor lava os pés dos seus discípulos.


Transportemo-nos em espírito à última Ceia, na qual, Jesus Cristo, às vésperas de sua morte, reúne os seus Apóstolos como o pai de família, próximo ao seu fim, reúne os seus filhos em torno do leito de morte para dar-lhes as suas últimas vontades e legar-lhes a herança do seu amor em comum. Sobretudo, então, lhes atesta o quanto os ama. Assistamos, com recolhimento e amor, a este espetáculo amoroso e meditemos nos grandes mistérios deste dia: a instituição da Eucaristia e a instituição do sacerdócio.

I - A INSTITUIÇÃO DA EUCARISTIA 

Admiremos de princípio Jesus ajoelhado diante dos seus Apóstolos, lavando-lhes os pés para ensinar a todos os dons da humildade profunda; da caridade perfeita, da pureza sem mancha, que pede o Sacramento que Ele vai instituir e que eles vão receber. Sentando-se em seguida à mesa, toma o pão, o abençoa, o parte e o distribui aos seus discípulos, dizendo: 'Tomai e bebei; ESTE É O MEU SANGUE, O SANGUE DA NOVA ALIANÇA QUE QUE SERÁ DERRAMADA POR VÓS EM REMISSÃO AOS VOSSOS PECADOS'

Ó como se conhece bem o amor de Jesus! O Divino Salvador, próximo a deixar-nos, não pode se separar de nós. 'Não os deixarei órfãos', Ele havia dito,' meu Pai me chama; porém, ao ir ao Pai não me separarei de vós; minha morte está determinada por decretos eternos; mas, morrendo, permanecerei vivo para ficar convosco. Minha sabedoria idealizou como obter isso e o meu amor como fazê-lo'.

Na sequência, transforma o pão em seu Corpo e o vinho em seu Sangue, em face da união indissolúvel entre a Pessoa Divina e a natureza humana, e o que pouco antes era apenas pão e apenas vinho é agora a Pessoa Adorável de Jesus Cristo por inteiro, sua Pessoa Divina, tão grande, tão poderosa, como está diante do Pai, governando todos os mundos e adorado por todos os anjos que se estremecem na Sua Presença.

A este milagre sucede outro: 'O que acabo de vos dizer', disse Jesus, 'vós, meus Apóstolos, o fareis; dou-vos este poder não somente a vós, mas a todos os seus sucessores até o fim dos tempos, uma vez que a Eucaristia será a alma de toda a Religião e a essência do seu culto, e deve perdurar tanto quanto ela mesma'. Esta é a rica herança que o amor de Jesus transmitiu aos seus filhos pelo longo dos séculos; este é o testamento que este bom Pai de Família fez, no momento de sua partida, em favor de seus filhos; suas mãos moribundas o escreveram e, em seguida, o selou com o seu Sangue; esta é a bênção que o bom Jacó deu a seus filhos reunidos em torno de Si antes de deixá-los. Ó preciosa herança, ó bendito e amado testamento, ó tão rica bênção! Como podemos agradecer tanto amor?

II PONTO - A INSTITUIÇÃO DO SACERDÓCIO 

Parece, Senhor, que havia se esgotado para nós todas as riquezas do vosso amor e eis, então, que surgem novas maravilhas: NÃO É SOMENTE A EUCARISTIA QUE NOS LEGAIS NESTE SANTO DIA, MAS TAMBÉM O SACERDÓCIO, COM TODOS OS SEUS SACRAMENTOS, COM A SANTA IGREJA, COM A SUA AUTORIDADE INFALÍVEL PARA ENSINAR, O PODER DE GOVERNAR, A GRAÇA DE ABENÇOAR E A SABEDORIA PARA DIRIGIR. Porque tudo isso está ligado essencialmente com a Eucaristia, como preparação da alma para recebê-la, como consequência para conservá-la e para multiplicar os seus frutos. Assim, Jesus Cristo, como Pontífice soberano, quis estabelecer e estabeleceu realmente todos estes poderes de uma só vez e numa só ordem: 'Fazei isso!' 

Ó sacerdócio que esclareceis, purificais e engrandeceis as almas, que dispensais sobre a terra os mistérios de Deus e, em socorro das almas caídas e das almas dos justos, as riquezas da graça; sacerdócio que, em socorro das almas caídas e das almas dos justos, fazeis nascer o arrependimento e abris as portas do Céu, acolhendo os pecadores e fazendo-os volver à inocência; sacerdócio pelo qual sustentais a alma vacilante e a fazeis avançar na virtude, que protegeis o mundo contra si mesmo e à corrupção, contra a ira santa de Deus; sacerdócio, bem inefável, eu o bendigo e bendigo a Deus por tê-lo herdado à terra! 

Que seria do mundo sem vós? Sem vós, o que seria o sol, sua luz, seu calor, seu consolo, sua força e seu apoio! Ó Quinta - Feira Santa, mil vezes bendita, porque trouxestes tanta felicidade para os filhos de Adão! Jamais poderemos celebrar por completo esta graça com a devida piedade, recolhimento e amor.

(Excertos da obra 'Meditações para todos os dias do ano para uso do clero e dos fieis', de Pe. Andrés Hamon, Tomo II).

quarta-feira, 1 de abril de 2026

ORAÇÃO DO CALVÁRIO

 


Dai-me, Senhor, a Vossa angústia no Monte das Oliveiras, para que eu me surpreenda com o Vosso horror ao pecado;

Dai-me, Senhor, o Vosso suor de sangue para que eu possa apagar o fogo das minhas inquietudes;

Dai-me, Senhor, as marcas dos Vossos flagelos, para que eu possa curar-me das feridas da vaidade;

Dai-me, Senhor, a dor lancinante dos espinhos que perfuraram a Vossa fronte para que possa aliviar os Vossos filhos que sofrem;

Dai-me, Senhor, a Vossa agonia na subida do Calvário para que eu seja capaz de abrir caminhos nas marcas de Vossas sandálias;

Dai-me, Senhor, o desfalecimento das Vossas quedas para que eu possa erguer da terra com mais perseverança;

Dai-me, senhor, o peso do madeiro que vergaste Vossos braços no Calvário, para que eu me desfaleça diante da minha miséria;

Dai-me, Senhor, a rigidez dos pregos cortando Vossos membros, para que eu tenha a ternura dos que constroem a paz;

Dai-me, Senhor, o assombro de Vossos espasmos para que a sombra do orgulho não acompanhe os meus passos;

Dai-me, Senhor, a Vossa sede atroz para que eu possa saciar a muitos com o refrigério da esperança;

Dai-me, Senhor, a Vossa compaixão diante dos Vossos algozes, para que eu saiba amar sem medida alguma;

Dai-me, Senhor, o Vosso peito aberto à lança que mata, para que eu defenda a vida ainda que no ventre;

Dai-me, Senhor, a água que brota do Vosso coração dilacerado para que eu possa lavar todas as minhas faltas;

Dai-me, Senhor, a Vossa Cruz bendita para que um dia, diante de Vós, eu não chegue de mãos vazias...

(Arcos de Pilares) 

terça-feira, 31 de março de 2026

INDULGÊNCIAS PLENÁRIAS DA SEMANA SANTA

 

No riquíssimo acervo das indulgências concedidas pela Santa Igreja, concessões diversas são dadas aos fieis por ocasião do Tríduo Pascal (Quinta-feira Santa, Sexta-feira Santa e Vigília Pascal) para a obtenção de indulgências plenárias, desde que atendidas as demais condições habituais*:

Quinta-Feira Santa

· Recitação ou canto do hino eucarístico 'Tantum Ergo' durante a solene adoração ao Santíssimo Sacramento que se segue à Missa da Ceia do Senhor;

· Visita e adoração ao Santíssimo Sacramento pelo prazo de meia hora.

Sexta-Feira Santa

· Participação piedosa da Veneração da Cruz na solene celebração da Paixão do Senhor.

Sábado Santo  

· Recitação do Santo Rosário.

· Participação piedosa da celebração da Vigília Pascal, com renovação sincera das promessas do Batismo.

Domingo de Páscoa

· Participação devota e piedosa à benção dada pelo Sumo Pontífice a Roma e ao mundo (bênção Urbi et Orbi), ainda que por rádio ou televisão.

* É sempre importante lembrar que a indulgência não é o perdão dos pecados, mas a reparação das penas e danos devidos aos pecados. Para se obter a indulgência plenária é preciso:

1. ter uma disposição interior de afastamento total de todo o pecado, mesmo do pecado venial;
2. ter feito confissão recente;
3. receber a Sagrada Comunhão;
4. rezar em intenção do Santo Padre e da Santa Igreja (orações livres, mas que se recomenda fazer na forma de 'Pai Nosso', 'Ave Maria' e 'Glória').

segunda-feira, 30 de março de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (93/96)


93. O CRUCIFIXO DO PROFESSOR DA UNIVERS1DADE

Não faz muitos anos, após uma lição teórico-prática na Policlínica de Nápoles, um grupo de estudantes de medicina estava a prosear em frente ao quarto de um dos mais notáveis assistentes do professor Durante. O jovem doutor, ao entrar no quarto, deixara a porta aberta e, logo, alguns estudantes, lançando um olhar curioso para o interior, viram à cabeceira do leito do professor um grande Crucifixo.

Alguns deles, imbuídos de preconceitos, riram-se e perguntaram ao professor: como podia ele, um sábio, tolerar aquela imagem à cabeceira do leito. O jovem doutor, com semblante carregado, respondeu:
➖ Não tolero coisa alguma; o Crucifixo está ali porque eu o quero e ali o coloquei com minhas próprias mãos. Se isso faz rir aos néscios, ali ao lado colocarei também a imagem de Nossa Senhora. Meus amigos, estudai e sede mais inteligentes. Adeus!

A esta bem acertada lição, os estudantes emudeceram e retiraram-se corridos. O professor, homem de convicções e de coragem, é um exemplo digno de imitação.

94. NÃO SE IMPACIENTOU

Filipe II, rei da Espanha, passara várias horas da noite a escrever longa e importante carta ao Papa. Apenas a tinha concluído, passou-a ao seu secretário para que a timbrasse e a colocasse na sobrecarta. O secretário, que não estava bem acordado, em vez do timbre, entornou sobre a carta um tinteiro de tinta.

Quando notou o que fizera, ficou horrorizado. O rei, porém, não se impacientou e, como se nada tivesse acontecido, disse: 'Dê-me outro papel de carta, que a escreverei de novo'.

A mesma calma e admirável paciência manifestou o mesmo rei Filipe no dia da sua coroação. Um soldado da guarda, talvez por ser bastante desajeitado, quebrou três lampadários que estavam ao lado do trono real. Todo o óleo caiu sobre as vestes preciosas do rei e da rainha. O soberano, no entanto, com rosto alegre, exclamou: 'Isto é um bom augúrio de que, sob o meu reinado, haverá a unção da paz e a abundância de todo o bem'.

95. CRISTO RESSUSCITOU!

Em 1918, fui testemunha de um fato estupendo que me impressionou. Por ocasião da Páscoa, os bolchevistas de Petrogrado organizaram a sua propaganda ateísta. Spitzberg, o mais hábil e enérgico dos oradores comunistas, expunha com muita ênfase as provas da impossibilidade da Ressurreição de Jesus Cristo.

Para se compreender melhor o que se deu então, é preciso saber que, durante a semana da Páscoa, os russos tem o costume de saudar-se, dizendo: 'Cristo ressuscitou!', ao que o outro responde: 'Ressuscitou verdadeiramente!'. É um uso antigo, geral, comovente.

Spitzberg, o orador comunista, falava com vivacidade, fazia-se de espirituoso e alcançava sucesso. Interrompiam-lhe o discurso risadas e aplausos. Suas últimas palavras foram acolhidas com uma salva de palmas. Então, no fundo da sala, ergueu-se um venerando sacerdote, com uma cruz de ouro sobre o peito. Dirigindo-se ao presidente da assembléia, disse:
➖ Peço licença para responder ao orador.
➖ Sim - respondeu o outro mal-humorado, mas sede breve, cidadão, pois dou-vos apenas cinco minutos.
➖ Obrigado! Gastarei menos de cinco minutos.

Subiu à tribuna, fez o sinal da cruz, beijou com devoção sua cruz de ouro, fez uma profunda inclinação ao auditório e pronunciou com voz clara e firme a saudação: 'Cristo ressuscitou!'. 'Ressuscitou verdadeiramente!', respondeu em coro a assembléia, isto é, aqueles mesmos que acabavam de ouvir e aplaudir o orador do ateísmo.

O prelado abençoou a multidão, fez uma inclinação profunda, desceu da tribuna e saiu. Ninguém ousou molestá-lo. O efeito, porém, do discurso de Spitzberg estava irremediavelmente abalado. Sejamos também nós cristãos corajosos, pois é assim que se deve responder à impiedade.

96. MEU FILHO É MAIS DO QUE EU

O conde De Bonald, grande sociólogo, polemista e dentista católico, depois que seu filho foi ordenado sacerdote, sempre se descobria para dirigir-lhe a palavra. A alguém que lhe perguntou por que assim procedia, uma vez que o padre era seu filho, respondeu:
➖ É meu dever proceder desse modo, pois meu filho, desde que foi sagrado ministro de Deus, é mais, muito mais do que eu.
Esse seu filho foi mais tarde arcebispo e cardeal de Lyon.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)