segunda-feira, 5 de outubro de 2026

FRASES DE SENDARIUM (LXXXIII)

 

'Cristo é a minha força, a oração é a minha fortaleza, a fé é o meu escudo' 

(Santa Rosa de Lima)

Ama, com extremado amor, o poder do silêncio, a riqueza extraordinária do escondimento, a glória imensa do anonimato. Como herdeiro dos céus, eis aí a tua identidade como filho de Deus no mundo: a humildade como armadura, a caridade como bagagem, a fé como único tesouro...

domingo, 4 de outubro de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

    

'A vinha do Senhor é a casa de Israel' (Sl 79)

Primeira Leitura (Is 5,1-7) - Segunda Leitura (Fl 4,6-9) - Evangelho (Mt 21,33-43)

  04/10/2026 - VIGÉSIMO SÉTIMO DOMINGO DO TEMPO COMUM

 A PARÁBOLA DOS VINHATEIROS HOMICIDAS


O Evangelho deste domingo apresenta mais um evento relativo aos enfrentamentos públicos de Jesus com os mestres da lei e os anciãos do Templo, na terça-feira santa, logo após o júbilo messiânico vivido pelo povo de Jerusalém naquele Domingo de Ramos. Nenhum outro apóstolo detalhou, com maior precisão e rigor, estes últimos acontecimentos que antecederam a Paixão e Morte de Nosso Senhor, do que São Mateus.

Àqueles homens duros de coração, letrados nos textos das Sagradas Escrituras e sabedores por excelência que 'a vinha do Senhor é a casa de Israel' (refrão do salmo 79), Jesus vai proclamar a perda e a devastação desta vinha, que será abandonada pelo seu dono e deixada à mercê das sarças e dos espinhos que a tornarão 'inculta e selvagem' (Is 5,6). E que, mais além, será restaurada e tornada cultura de raro louvor porque 'o Reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá frutos' (Mt 21,43). Trata-se de um testemunho explícito de que o juízo de Deus extrapola apenas o plano individual, mas alcança a dimensão de povos e nações e, portanto, de toda a humanidade por gerações.

A vinha do Senhor foi preparada, cercada, cuidada com zelo; depois, arrendada a vinhateiros para que dela cuidassem com o mesmo esmero e dela produzissem muitos frutos bons. Mas eis que estes maus zeladores corromperam a obra de Deus e produziram na vinha apenas frutos de injustiça e de iniquidade. Sabedores dos suas omissões e desvarios, e ensandecidos pela cobiça e pelo orgulho, fazem morrer não apenas os enviados do Senhor (os grandes profetas), mas o próprio filho do Senhor da vinha. Diante de passagens tão explícitas àqueles tempos e àqueles personagens, estes não parecem perceber que resumem a própria condenação nas suas próprias palavras: (o senhor da vinha) 'mandará matar de modo violento esses perversos e arrendará a vinha a outros vinhateiros, que lhe entregarão os frutos no tempo certo' (Mt 21,41).

Nesta parábola Jesus nos interpela, a cada um de nós, a zelar pela vinha que somos, com zelo extremado de salvação eterna, fugindo das ciladas das vaidades e do orgulho humano dos vinhateiros homicidas. Não podemos matar em nós o puro amor cristão, não podemos matar os dons recebidos e as virtudes do coração, não podemos matar a graça santificadora do batismo, não podemos matar em nós a herança do Reino de Deus; mas devemos nos ocupar 'com tudo o que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, honroso, tudo o que é virtude ou de qualquer modo mereça louvor' (Fl 4,8) porque, nas vinhas do Senhor, somente florescem as videiras que produzem frutos de vida eterna.

sábado, 3 de outubro de 2026

LENDAS DA BEM AVENTURADA VIRGEM MARIA (I)


Em tempos antigos, vivia em um vilarejo em Hainaut, entre Valenciennes e Maubeuge ('onde' - diz a antiga crônica - 'Deus era servido com lealdade, e sua santa Mãe dignamente honrada'), uma moça simples do campo, cuja juventude e graça, candura e gentileza, atraíam a estima geral dos moradores do vilarejo. Ela cresceu pouco versada em assuntos mundanos, mas caminhando confiantemente diante de Deus em inocência e verdade, sem sonhar com o mal.

Sem o dom da memória, e ainda menos com o do conhecimento, a jovem do vilarejo conhecia apenas uma oração, que era - JESUS e MARIA! E mesmo quando seus lábios cessavam de se mover, o eco desses doces nomes flutuava em seu coração.*

* 'Esta curta oração, Jesus e Maria! é fácil de lembrar; ela preenche docemente a mente e é extremamente poderosa na hora da necessidade'  (Tomás de Kempis).

Acompanhai-me agora na lenda popular. O diabo - a quem nossos pais, por mais ignorantes que julguemos que tenham sido, percebiam estar agindo em vários momentos e em diferentes circunstâncias nas quais nós, com nosso orgulho intelectual, não permitimos que ele tenha qualquer papel, deixando de reconhecer o demônio que anda continuamente rugindo ao redor, procurando a quem devorar - o diabo, então, não podia contemplar, sem fúria, a constante e simples piedade desta pobre jovem, tão confiante, tão ingênua, tão simples e tão bela. Ele, portanto, buscou a sua ruína.

Ele atraiu muitos jovens apaixonados para cortejá-la. Com sua curta e simples, mas poderosa oração, ela os repelia sem sequer suspeitar de suas intenções. 'Esses camponeses são sujeitos enfadonhos e estúpidos' - disse o diabo, que, como muitos outros, julgava os talentos daqueles que empregava pelo sucesso de seus próprios planos.


Ele então despertou as paixões dos galanteadores na corte do Conde Guilherme VI. O mais nobre deles, tendo ouvido falar dos encantos da jovem aldeã, veio para a vizinhança ricamente vestido e ofereceu-lhe a homenagem dos seus elogios. A poderosa oraçãozinha triunfou sobre os cortesãos assim como havia feito sobre os rústicos camponeses. O coração humilde a sussurrava com uma firme esperança. Como lhe havia sido ensinado, ela acreditava piamente que Jesus era o seu Deus e Maria, a sua padroeira.

'Bem, isto é espantoso!' - disse o diabo: 'não me resta outra alternativa senão ir eu mesmo e ver o que posso fazer'. Ele sabia que a inocência é defendida pela proteção divina e que Deus guarda os corações simples. Ele estava enfurecido. Assumiu, então, a forma humana, diz a tradição, e apresentou-se diante da jovem. Ele possuía a aparência mais sedutora e os modos mais cativantes; e a conversa dele era tão animada que a jovem ficou encantada com ele; e ficou tão dominada pela confusão que ele lhe causava que se esqueceu de sua santa oração.

O demônio alegrou-se secretamente e redobrou os seus esforços até que, acreditando ter assegurado a sua presa, perguntou despretensiosamente à simples garota: 'Qual é o seu nome, bela jovem?' Por que o diabo fez essa pergunta? E o que teria motivado tal indagação? 'Maria!' - respondeu ela. Ao som deste nome, que é canal de graça e fonte de força, o demônio sobressaltou-se e desapareceu. Surpresa e alarmada com o sumiço repentino dele, a pobre jovem percebeu o perigo que havia corrido. Mas ela havia sido salva e nunca mais a sua curta e doce oração - JESUS e MARIA! - saiu da sua mente.

(Excertos da obra 'Légendes de la Sainte Vierge', por J. Collin de Plancy, 1853)

BREVIÁRIO DIGITAL: A PEQUENA VIA (II)

 

Poucos dias depois de minha oblação ao Amor Misericordioso de Deus, eu estava no coro, começando a Via-Sacra, quando me senti subitamente ferida por um dardo de fogo tão ardente que pensei que fosse morrer. Não sei como explicar isso; não há comparação capaz de descrever a intensidade daquela chama. Parecia que uma força invisível me mergulhava inteiramente no fogo. Mas... Que fogo! Que doçura!

(Santa Teresa do Menino Jesus)

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXIX)

PARTE IV - O CÉU

III. Sobre as alegrias do Céu (continuação)

Quanto às alegrias espirituais dos remidos no Céu, são tão abundantes que, ao falar delas, não se sabe por onde começar nem onde terminar. Considerai as consolações espirituais concedidas neste mundo aos eminentes servos de Deus. Sabemos que a vida de alguns santos na terra se assemelhava mais à dos anjos do que à dos homens, tão frequentemente eram favorecidos com êxtases, visões, luzes interiores e consolações divinas de toda espécie. E, contudo, todos esses favores eram apenas como uma gota do oceano sem limites da doçura celestial. Que arrebatamento será, para as almas santas no Céu, beber diretamente da fonte e haurir livremente do manancial inesgotável de toda felicidade! Todas as faculdades da alma - o entendimento, a memória, a vontade, a imaginação, cada pensamento, cada desejo, todo o ser intelectual, elevado e aperfeiçoado pelo próprio Deus - serão plenamente satisfeitas e contribuirão para aumentar e intensificar as alegrias da alma.

Com o entendimento, os bem-aventurados contemplarão todas as coisas criadas à luz de Deus e penetrarão profundamente os segredos da natureza. Está escrito acerca do rei Salomão: 'Deus deu a Salomão sabedoria e entendimento em grandíssima medida, e uma amplidão de espírito como a areia que está na praia do mar. E a sabedoria de Salomão excedia a sabedoria de todos os orientais e dos egípcios, e ele era mais sábio do que todos os homens. Proferiu também três mil parábolas, e os seus cânticos foram mil e cinco. Tratou das árvores, desde o cedro que está no Líbano até ao hissopo que nasce nos muros; e discorreu sobre os animais, as aves, os répteis e os peixes. E vinham de todas as nações ouvir a sabedoria de Salomão, enviados por todos os reis da terra que tinham ouvido falar da sua sabedoria' (3Rs 4,29-34).

Nunca ouvimos falar de uma sabedoria igual a essa, nem podemos deixar de nos admirar com a vastidão e a perspicácia do entendimento desse grande rei. Contudo, comparada com a sabedoria do menor dos santos no Céu, ela não supera o conhecimento de uma criança de três anos diante da erudição e da sabedoria do mais douto dos homens. Pois todas as operações da natureza e todas as forças do universo estão manifestas e reveladas ao menor dos santos no Céu. Nada é oculto ou misterioso aos seus olhos. Ele conhece tudo o que a Santíssima Trindade realizou desde toda a eternidade; sabe de que maneira admirável os céus e a terra foram criados do nada e com que sabedoria tudo foi ordenado e sustentado, desde o princípio até ao fim dos tempos. 

Sabe como o Filho de Deus foi gerado pelo Pai antes de todos os séculos; sabe como o Espírito Santo procede eternamente do Pai e do Filho. Sabe como Cristo nasceu de uma mãe terrena sem violar a sua virgindade; conhece tudo o que Nosso Senhor fez e sofreu durante toda a sua vida, e como cada santo e servo de Deus viveu para Deus e trabalhou ao seu serviço. Tudo o que, nas Sagradas Escrituras, nos parece misterioso e incompreensível, assim como os mistérios da religião e da natureza, ele compreende sem um instante de reflexão. Ainda que tivesses sido na terra apenas um camponês simples e iletrado, ao entrares no Céu teus olhos se abririam, e verias claramente e compreenderias perfeitamente todas as coisas. Que alegria, que felicidade esse conhecimento e essa visão clara te proporcionarão! Que agradecimentos cheios de gratidão renderás a Deus por isso!

Em segundo lugar, no que diz respeito à memória, os bem-aventurados também encontrarão no Céu a plenitude da alegria, pois ela, assim como o entendimento, será iluminada por Deus; e todos os acontecimentos de sua vida passada estarão tão vivos e tão nítidos em sua lembrança como se os contemplassem inscritos em tábuas diante dos olhos. Então perceberão por que caminho admirável Deus os conduziu ao seu destino eterno, com que misericórdia lhes perdoou as transgressões, como os socorreu na hora da tentação e como fez com que todas as coisas concorressem para o seu bem.

Essa visão retrospectiva despertará no coração de cada um a mais santa gratidão para com Deus, e muitas vezes a expressarão assim: 'Ó meu Deus, a quem amo acima de todas as coisas, quão grandes são os dons e as graças que me concedestes! Quão generoso fostes para comigo! Quantas vezes me livrastes do perigo de cair em pecado! Com que misericórdia me preservastes da condenação eterna e de que modo admirável me guiastes pelo caminho da salvação! Como poderei louvar e exaltar suficientemente a vossa infinita bondade? Como poderei agradecer-vos e adorar-vos suficientemente pelos benefícios que tão abundantemente derramastes sobre mim?'

Em terceiro lugar, a vontade de cada um dos bem-aventurados será coroada de felicidade e abrasada de amor por Deus e pelos bem-aventurados em cuja companhia se encontra. Os prazeres mais nobres de que um homem pode desfrutar provêm de sua vontade. Um homem é feliz quando tudo lhe sucede conforme os seus desejos; quando adquire e possui tudo o que seu coração pode desejar; quando é estimado e elogiado por seus semelhantes; quando ama e é amado por aquele a quem dedica suas afeições. Tudo isso, e muito mais, constitui a porção dos bem-aventurados, mas no mais alto grau e na maior perfeição possível.

O amor de Deus por eles e o amor deles por Deus são tão profundos que ficam abrasados e consumidos pela caridade divina; sua vontade se assemelha a uma brasa viva, resplandecente de luz e calor, até ser absorvida pelo fogo de que faz parte. Assim acontece com os santos no Céu: impregnados de caridade divina, ardem e resplandecem na luz de Deus e refletem cada vez mais a sua imagem. São João diz: 'Sabemos que, quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque o veremos tal como Ele é' (1Jo 3,2). No amor de Deus e na união com Ele, encontram uma delícia tão inefável que, inebriados pela doçura da caridade divina, se perdem nele.

Não há maior felicidade na terra do que amar e ser amado; e, quanto mais terno, puro e ardente é esse amor, maiores são a alegria e a satisfação que nos proporciona. Ora, o amor do Céu, o amor dos remidos por Deus e uns pelos outros, é a mais terna, a mais pura e a mais ardente afeição, uma afeição infinita e sem limites; por isso, é fonte de imensa alegria e de felicidade indizível. Que o Deus de toda graça nos faça participantes desse amor, e então conheceremos por experiência aquilo de que as palavras não conseguem transmitir uma ideia. Ninguém terá o privilégio de participar desse amor se, aqui na terra, não viver no amor de Deus e não morrer na sua amizade. Esforcemo-nos, portanto, por fazer crescer em nós essa caridade divina, para que, na vida futura, sejamos admitidos ao pleno gozo do seu amor.

A visão beatífica da face divina é uma alegria acima de todas as alegrias, uma delícia que supera de longe todos os prazeres celestiais de que falamos. Sem ela, todas as outras alegrias perderiam o seu sabor e se transformariam em amargura. Certa vez, quando o demônio falava pela boca de uma pessoa possessa, disse: 'Se todos os céus fossem uma folha de pergaminho, se todo o oceano fosse tinta, se cada folha de relva fosse uma pena e cada homem da terra um escriba, isso não bastaria para descrever a intensa e incomensurável delícia que a visão de Deus proporciona aos bem-aventurados'. Em outra ocasião, disse que, se Deus se dignasse conceder-lhe o privilégio de contemplar a sua face divina por alguns instantes, suportaria de bom grado, se isso fosse possível, todos os tormentos do Inferno em sua própria pessoa até ao Dia do Juízo. Isso nos ensina que, se um homem passasse toda a sua vida praticando as mais severas penitências e, depois da morte, lhe fosse permitido contemplar a face de Deus por um único instante, já teria recebido uma ampla recompensa por todas as suas mortificações.

Considerai agora quão sublime deve ser a felicidade que os santos encontram na contemplação, na fruição e na posse do Deus supremo! Se contemplar a face divina por um breve instante é uma alegria que supera tudo o que uma vida de prazeres oferece ao homem mundano, que arrebatamento será contemplar para sempre, com olhos jamais obscurecidos, a sua infinita beleza! Que arrebatamento será possuir esse Bem supremo por toda a eternidade!

Deus é um ser em quem tudo o que há de mais admirável e desejável existe no mais alto grau. Nele se encontra tudo o que mais nos atrai e fascina: clemência, beleza, justiça, compaixão, sabedoria, majestade, todos os atributos doces e sublimes em sua mais plena perfeição. De Deus procede toda graça, tudo o que necessitamos para o nosso bem espiritual e temporal, toda a felicidade, a alegria, o repouso, a consolação, todos os benefícios e bênçãos de que suas criaturas desfrutam no Céu e na terra. E, quando os remidos passarem a contemplar esse Bem infinito e a possuir essa fonte de tudo o que merece ser amado, admirado e desejado, sua alegria será verdadeiramente plena. Que delícia indizível lhes proporcionará compreender o mistério da Encarnação e o mistério da Santíssima Eucaristia!

Que delícia indizível será para eles compreender como Deus pode ser invisível e, contudo, ver todas as coisas; como pode permanecer imóvel e, contudo, ser a fonte de todo movimento; como pode ser imutável e, contudo, ser o autor de toda mudança. Esses e muitos outros mistérios serão esclarecidos aos bem-aventurados na luz de Deus, e essa fonte de conhecimento não se esgotará por toda a eternidade. Quanto mais conhecerem a Deus, mais crescerá o seu desejo de conhecê-lo melhor, e esse conhecimento não terá limite nem imperfeição. Assim, terão sempre fome e, contudo, estarão perfeitamente saciados; esse rico tesouro estará sempre aberto para eles, e jamais esgotarão todas as riquezas que contém. Medita frequentemente sobre esse assunto, ó leitor, e desperta em tua alma um ardente desejo de desfrutar de Deus pelos séculos dos séculos.

Ó meu Deus e meu tudo! Vós que sois beleza infinita, doçura infinita, bondade infinita! De todo o coração suspiro por Vós. Assim como o cervo anseia pelas águas dos ribeiros, minha alma tem sede de Vós, o Deus poderoso e vivo; quando irei apresentar-me diante de vossa presença? Quando terei a ventura de vos contemplar e de desfrutar de Vós para sempre? Ouso esperar que essa alegria possa ser minha; humildemente espero e confio em vossa infinita bondade, pois não rejeitais ninguém que se aproxima de Vós com um coração contrito e cheio de amor. Quão rico, quão feliz, quão alegre serei quando possuir esse Bem supremo! Eu vos abraçarei com reverente amor e me perderei em Vós, quando enfim vos possuir.

Estou pronto e desejo, ó meu Deus, fazer tudo o que estiver ao meu alcance para tornar-me digno de ser admitido em vossa presença. Estou disposto a sofrer tudo o que minha frágil natureza me permitir suportar. Estou disposto a afastar-me do mundo e a renunciar a todas as coisas terrenas, na medida em que os deveres do meu estado o permitirem. Estou disposto a trabalhar, tanto quanto puder, em vosso serviço; e assim farei, na esperança de vos alcançar, ó Bem infinito e eterno, e de contemplar para sempre a vossa infinita beleza. Mais ainda: mesmo que soubesse que haveria de me perder, ainda assim vos amaria. Pois não vos amo porque espero alcançar por Vós a salvação eterna, mas porque sois a Beleza perfeita e a Bondade infinita, dignas de ser o único objeto de nossas afeições e aspirações.

Crendo e esperando assim, desejo viver e morrer, e tomo os anjos e os santos por testemunhas da verdade do que digo. E, para confirmá-lo, repito com o coração e com a voz:

'Meu Deus, eu vos amo, não porque assim espere alcançar o Céu;
nem porque aqueles que não vos amam devam arder eternamente.
não pela esperança de ganhar alguma coisa, nem buscando uma recompensa;
mas como Vós mesmo me amastes, ó Senhor que sempre amais'.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

01 DE OUTUBRO - SANTA TERESA DE LISIEUX

  


Chamada de ‘maior santa dos tempos modernos’ e recentemente elevada à glória de doutora da Igreja Católica, Teresa de Lisieux transformou-se num dos personagens mais venerados no mundo católico como ‘Santa Teresinha do Menino Jesus’. Feitos extraordinários para uma simples carmelita, que viveu no mais absoluto ostracismo e morreu com apenas 24 anos de idade. Marie Françoise Thérèse Martin nasceu em Alençon, em 02/01/1873, e faleceu em Lisieux, em 30/09/1897. Foi canonizada em 17 de maio de 1925 pelo Papa Pio XI, que posteriormente a declarou ‘Patrona Universal das Missões Católicas’ em 1927. O Papa João Paulo II tornou-a Doutora da Igreja no dia 19 de outubro de 1997.

Por desígnios divinos, Santa Teresinha foi a preceptora de um particular caminho de santificação: a chamada ‘pequena via’, a via de confiança absoluta à vontade de Deus. Na plena aceitação dos desígnios divinos sobre as almas de cada um de nós, no abandono de nossas vidas nos braços de Jesus Cristo, na entrega total de nossas ações e pensamentos à proteção da Santíssima Virgem: eis aí a pequena via, o caminho da infância espiritual, a gloriosa trilha de santificação para os homens comuns, o espantoso atalho ao Céu, proposto e vivido intensamente pela santa carmelita. Eis a sua pequena via maravilhosa de santificação: basta aceitar a nossa própria pequenez, a imensa fragilidade humana que nos domina, as enormes limitações de viver em plenitude os desígnios de Deus sobre as nossas almas; fazer de tantas imperfeições e fragilidades, não meros obstáculos, mas as próprias pedras do caminho, rejuntadas e consolidadas firmemente num imenso amor e numa confiança sem limites na bondade e misericórdia de Deus.

Além de cartas e poesias (e outros documentos registrados por suas irmãs do Carmelo), o legado de Santa Teresinha está por inteiro em sua famosa obra ‘História de uma alma’ (publicado originalmente em 1898), que registra, além de seus manuscritos autobiográficos e de suas proposições espirituais, as premissas e os fundamentos do seu caminho da infância espiritual.

Nesta pequena via, a santificação começa e termina pelo propósito de fazer, de cada dia, mais um passo na peregrinação ao Céu, transformando cada ação diária, cada ato da nossa vida mundana, por mais simples e despojado que seja, em obra de perfeição cristã, compartilhado e vivido para a plena glória do Pai (‘sede perfeitos como vosso Pai do Céu é perfeito’). Nesta pequena via, a santificação é caminho simples e fácil para todos os homens e mulheres dos nossos tempos, e precisa apenas da resolução tão claramente expressa na curta vida da carmelita de Lisieux: ‘nunca distanciar a minha alma do olhar de Jesus’.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

INDEX DAS APARIÇÕES MARIANAS - I

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terça-feira, 29 de setembro de 2026

PÁGINAS DIFÍCEIS DOS EVANGELHOS (III)

3. A PARÁBOLA DOS DOIS FILHOS

Um homem pediu para os seus dois filhos que fossem trabalhar na vinha. O primeiro disse não, mas foi; o segundo disse sim, mas não foi [Mt 21,28-32].

Naquele tempo, Jesus disse aos sacerdotes e anciãos do povo: 
[28] Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, ele disse: 'Filho, vai trabalhar hoje na vinha!' 
[29] O filho respondeu: 'Não quero'. Mas depois mudou de opinião e foi. 
[30] O pai dirigiu-se ao outro filho e disse a mesma coisa. Este respondeu: 'Sim, senhor, eu vou'. Mas não foi. 
[31] 'Qual dos dois fez a vontade do pai?' Os sumos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: 'O primeiro'. Então Jesus lhes disse: 'Em verdade vos digo, que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus. 
[32] Porque João veio até vós, num caminho de justiça, e vós não acreditastes nele. Ao contrário, os cobradores de impostos e as prostitutas creram nele. Vós, porém, mesmo vendo isso, não vos arrependestes para crer nele'.


Na parábola desse Evangelho, um pai pede aos dois filhos que trabalhem na vinha. Um responde 'não', mas depois se arrepende e vai [29]; o outro responde 'sim', mas não vai [30]. Quando Jesus pergunta qual deles fez a vontade do pai, a resposta é clara: o primeiro [31]. As palavras seguintes de Jesus são impactantes: os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus [31], algo que soaria como uma aparente aprovação ao pecado.

Num primeiro contexto, à luz do ensinamento de Jesus sobre a graça, conclui-se do texto bíblico que, ainda que a vontade seja realmente humana e livre, ela não é autossuficiente para se voltar a Deus e perseverar no bem que conduz ao Reino. Deus não age no lugar do primeiro filho, como se este fosse passivo. A graça desperta e sustenta sua conversão; ele responde livremente, arrepende-se e vai. É nesse sentido que o Catecismo diz que a graça precede e suscita a resposta livre, sem suprimi-la. Assim, a crítica de Jesus não se dirige à vontade enquanto capacidade de escolher. Dirige-se à vontade fechada em si mesma, que presume que basta dizer 'sim', mas resiste ao chamado concreto de Deus. Por outro lado, a vontade convertida reconhece sua necessidade de ajuda e se manifesta em obras. Fazer a vontade do Pai é querer e agir em resposta à graça, e não apenas confiar na força de uma resolução pessoal.

E Jesus menciona, então, que publicanos e prostitutas precedem os chefes religiosos no Reino [31]. Lida isoladamente, a frase pode soar como um manifesto estranho em favor da vida pecaminosa em relação à vida religiosa. No versículo seguinte, a aparente contradição é desfeita: os cobradores de impostos e as prostitutas, apesar dos seus graves pecados, responderam sim à conversão ao acatarem as palavras de João Batista, ao contrário dos interlocutores de Jesus [32]. Jesus não elogia a cobrança injusta ou a prostituição; Jesus não atribui mérito ao pecado, mas à conversão do pecador como resposta ao chamado da graça divina.

A menção a exemplos de pecadores extremados tem uma função: mostrar aos chefes religiosos que sua condição respeitada não lhes garante a entrada no Reino. A comparação é entre pecadores que acolhem o chamado de Deus e pessoas que, apesar de sua posição religiosa, recusam esse chamado. Também não significa que todos os publicanos e todas as prostitutas se converteram, nem que todos os chefes religiosos estavam excluídos (Jesus usa o termo 'precedem' entre uns e outros). O contexto aqui é universal: Jesus explicita que a ação da vontade ao chamado da graça é para todos e que a conversão é tarefa contínua que se impõe tanto para quem caiu gravemente em pecado como para quem se considera justo. 

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

VERSUS: 'NÃO VOS PREOCUPEIS COM O AMANHÃ'

Quando alguém se encontra em dificuldade e já não sabe o que fazer, procura uma pessoa prudente a quem pedir conselho. Imaginemos que o mundo inteiro fosse um só homem: deseja escapar do mal, mas tarda em praticar o bem. À medida que suas aflições aumentam, a quem poderia recorrer com mais proveito do que a Cristo? Se não encontra conselheiro melhor, aproxime-se daquele que pode encontrar em toda parte; escute-o e acolha seu conselho.

Os males temporais que os homens tanto temem são passageiros: ou eles passam por nós, ou nós passamos por eles. Desaparecem enquanto vivemos ou ficam para trás quando morremos. Não pode ser grande, pela sua duração, uma tribulação que dura tão pouco. Tu, que te inquietas com o amanhã, já não te recordas do ontem? Quando chegar o dia seguinte, esse amanhã também será ontem. E, no entanto, os homens se consomem em ansiedade para escapar de sofrimentos que passam - ou, melhor, que voam. Quanto cuidado não deveriam dedicar, então, a escapar daquilo que permanece!

(Santo Agostinho)


Quando Cristo diz: 'não vos preocupeis com o amanhã' - não está proibindo o trabalho. Ele nos ensina a não ficar presos às coisas desta vida. Alguém pode nada fazer e, ainda assim, ocupar-se inteiramente em acumular para o futuro; outro pode trabalhar e permanecer livre da inquietação. Trabalhar e viver ansioso não são a mesma coisa.

Também quando disse a Marta que ela se preocupava com muitas coisas e que uma só era necessária, Cristo não condenou sua hospitalidade. Mostrou-lhe que há um momento próprio para cada cuidado: naquela hora, em que Ele estava ali para ensinar, escutar sua palavra merecia o primeiro lugar. Marta desejava recebê-lo e preparar-lhe uma boa mesa; poderia acolhê-lo também prestando atenção ao que Ele tinha a lhe dizer.

Aprendamos, pois, caríssimos, a pedir a Deus aquilo que convém pedir-lhe. Quanto às coisas desta vida, qualquer que seja seu desfecho, elas não podem causar-nos o dano que mais importa temer. A riqueza só pode oferecer seu conforto durante esta vida; a pobreza, por sua vez, não é um mal definitivo. Tanto os esplendores quanto as dores presentes passam depressa. Voltemos nosso cuidado, portanto, para as coisas que permanecem.

(São João Crisóstomo)

domingo, 27 de setembro de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

   

'Recordai, Senhor meu Deus, vossa ternura e compaixão!' (Sl 24)

Primeira Leitura (Ez 18,25-28) - Segunda Leitura (Fl 2,1-11) - Evangelho (Mt 21,28-32)

  27/09/2026 - VIGÉSIMO SEXTO DOMINGO DO TEMPO COMUM

 OS HUMILDES E DUROS DE CORAÇÃO


No Evangelho deste domingo, encontramos Jesus após a sua entrada triunfal em Jerusalém, acossado pela malícia humana dos escribas, mestres da lei, anciãos e demais membros do Sinédrio. Tomados pela inveja e calúnia, queriam justificar publicamente a sentença de morte que já haviam imposto secretamente a Jesus nos seus corações e mentes. O júbilo messiânico daquele Domingo de Ramos selara em definitivo o destino e a morte de Jesus.

A missão do Senhor aproxima-se do final e impõe-se cumpri-la até o fim. Jesus contempla com enorme tristeza aqueles homens duros de coração que, cientes de todos os textos proféticos, não compreenderam ou não quiseram compreender os sinais da vinda do Messias ao mundo dos homens. Da mesma forma como negaram João Batista, era preciso agora, com muito mais vigor e malícia, negarem a Cristo; mais do que isso, precisavam tramar e manipular o povo para tornar natural e incontestável a condenação de Jesus à morte, a uma morte de cruz.

Aos duros de coração, elabora, então, a parábola dos dois filhos que o pai ordena trabalharem na vinha: 'Filho, vai trabalhar hoje na vinha!’ (Mt 21,28). O primeiro se nega a princípio e depois acata a ordem do pai e o segundo, que parecia acatar, não cumpre a ordem paterna. Filhos que são os filhos deste mundo, chamados por Deus, para serem operários nas vinhas do Senhor: os que ouvem o chamado à graça, pela manhã ou nas horas mais tardias da vida, e vão trabalhar na vinha e os que não vão, por desobediência explícita, por insensatez, por descuidado zelo. Ontem, os primeiros foram os gentios, publicanos e pecadores e os últimos, os escribas e os fariseus que tramaram contra Jesus; ontem e sempre, os primeiros foram aqueles que humildemente refletiram as palavras e os ensinamentos do Mestre no coração e os últimos, os duros de coração, que se ensoberbeceram no jogo das meras palavras e das promessas vazias.

O caminho da salvação perpassa pelo coração. 'Então Jesus lhes disse: Em verdade vos digo que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus' (Mt 21,31). Foram e são muitos os pecadores que aceitaram o firme propósito do arrependimento sincero e de conversão; infelizmente também são muitos os que se apegam aos valores humanos, à vanglória, à tibieza e à obstinação do orgulho desmedido. Nesta conduta de retidão, serão separados o joio e o trigo, os justos e os ímpios diante do tribunal de Deus, porque 'quando um justo se desvia da justiça, pratica o mal e morre... quando um ímpio se arrepende da maldade que praticou e observa o direito e a justiça, conserva a própria vida' (Ez 18,26 - 27).

sábado, 26 de setembro de 2026

ORAÇÃO PELA INTERCESSÃO DA VIRGEM MARIA

 

Virgem Mãe de Deus, Maria Santíssima, refúgio seguro dos pecadores! A vós, que sois, depois de Deus, nossa esperança e consolação neste lugar de exílio, recorro com sincera confiança, embora seja tão indigno de vossa proteção. Sei quanto preciso converter-me de todo o coração; mas, ao mesmo tempo, a gravidade dos meus pecados me enche de temor.

A vós, portanto, me dirijo: a vós, que intercedeis por nós junto de vosso amado Filho Jesus, assim como Ele intercede junto do Pai eterno. Depois de Jesus, é a vós que devo recorrer para alcançar minha mudança de vida. Dignai-vos, pois, ó Mãe de Misericórdia, obter-me a graça de uma conversão verdadeira e duradoura.

Desejo mudar inteiramente de vida, e nisso sou sincero. Mas meus maus hábitos, o mau uso que fiz de tantas inspirações salutares, a quantidade e a gravidade dos meus pecados e os laços com que o mundo me prende tornam difícil essa mudança e exigem vosso auxílio especial. Concedei-mo, apesar da minha indignidade. Em vós confio; não me rejeiteis.

Embora mereça o castigo eterno, lanço-me aos vossos pés, contrito e arrependido. Reconheço que meus pecados me tiraram a força que a graça concede, afastaram-me do número dos filhos adotivos de Deus, privaram-me do direito à felicidade eterna e atraíram sobre mim a ira do Céu. Dizei-me o que devo fazer para recuperar a amizade de vosso Filho Jesus. Pedi-lhe, por seu Preciosíssimo Sangue, por sua dolorosa Paixão e por sua cruel morte na Cruz, que perdoe minhas faltas, e Ele as perdoará. Manifestai-lhe vosso desejo de que eu seja salvo, e Ele me salvará.

Mas, como ainda posso cair em pecado e perder a vida da graça em meio aos perigos que me cercam, velai sempre por mim; assim vencerei os inimigos que sem cessar procuram minha ruína. Infundi em meu coração uma fé viva, uma esperança firme, uma caridade ardente e todas as virtudes próprias do meu estado de vida. Alcançai-me a constância no bem e a perseverança final.

Enfim, sede minha Mãe amorosa nesta vida e minha advogada na hora da morte, para que eu esteja entre aqueles a quem vosso divino Filho dirá: 'Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino preparado para vós'. Amém.

('Prayer', The Raccolta or Collection of Indulgenced Prayers and Good Works, 1910)

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

BREVIÁRIO DIGITAL: A PEQUENA VIA (I)

'
É tão doce chamar a Deus 'Pai nosso'!… Não consigo imaginar bem o que terei a mais no Céu do que tenho agora. É verdade que verei a Deus; mas, quanto a estar com Ele, já estou com Ele aqui na terra'.

(Santa Teresa do Menino Jesus)

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

GLÓRIAS DE MARIA: NOSSA SENHORA DAS MERCÊS

   

Na coroa de glórias dadas à Nossa Senhora, a Virgem das Mercês é celebrada em 24 de setembro. Mercês significa 'graças', 'favores', 'bênçãos' mas, acima de tudo, 'misericórdia'. A devoção teve origem na Espanha, durante a dura perseguição e prisão imposta aos cristãos numa Europa então invadida pelos mouros.

Na noite de primeiro para 2 de agosto de 1218, Nossa Senhora se manifestou em sonho para São Pedro Nolasco, para São Raimundo de Peñaforte,  seu confessor, e para o rei Dom Jaime I de Aragão, dando-se a conhecer com o título de Mercês, e pedindo a fundação de uma ordem religiosa para o resgate dos cristãos cativos dos mouros. A ordem religiosa dos Mercedários foi, então, fundada em 10 de agosto de 1218, em Barcelona, na Espanha, tendo São Pedro Nolasco como primeiro diretor geral. A devoção logo se difundiu por toda a Europa e chegou ao Brasil, pelas mãos dos frades mercedários, dando origem a várias confrarias no país. Em 1696, o Papa Inocêncio XII estendeu a festa de Nossa Senhora das Mercês para toda a Igreja, estabelecendo a data de 24 de setembro para a sua celebração.


Oração a Nossa Senhora das Mercês

Virgem Maria, Mãe das Mercês,
com humildade acorremos a Vós,
certos de que não nos abandonais
por causa de nossas limitações e faltas.
Animados pelo vosso amor de Mãe,
oferecemo-vos nosso corpo para que o purifiqueis,
nossa alma para que a santifiqueis,
o que somos e o que temos, consagrando tudo a Vós.
Amparai, protegei, bendizei e guardai
sob a vossa maternal bondade a todos
e a cada um dos membros desta família
que se consagra totalmente a Vós.
Ó Maria, Mãe e Senhora nossa das Mercês,
apresentai-nos ao vosso Filho Jesus,
para que, por vosso intermédio
alcancemos, na terra, a sua Graça
e depois a vida eterna.
Amém!

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (153/155)

 

153. POR QUE CHORAS?

Uma menina, mandada a fazer uma compra, perdeu o dinheiro e pôs-se a chorar. Um senhor, que por ali passava, perguntou-lhe:
➖ Menina, por que choras?
➖ Porque perdi o dinheiro com que devia fazer uma compra.
➖ Oh! E por que não tens mais cuidado?
➖ O senhor tem razão; mas o que mais me aflige é pensar no quanto custa ao meu pobre pai ganhar esse dinheiro.

Aquele senhor, compadecido, deu-lhe o dinheiro. Alguns instantes depois voltou a menina para devolver-lhe aquela importância, pois encontrara o dinheiro que havia perdido. O homem, admirado de tanta honradez, não aceitou a devolução e, como recompensa, deu-lhe mais outra quantia. A menina não a queria aceitar, repetindo que não fizera mais que cumprir o seu dever. O senhor, porém, respondeu que ela merecia aquele presente porque procedera não só com justiça mas com honradez.

154. O AMOR DÁ CORAGEM

Era uma jovem de uns dezesseis anos. Vivia num bairro pobre de uma cidade do norte da Espanha. Todos ali eram pescadores e passavam a vida à beira do mar. Sobre aquelas águas sem horizonte navegavam todos os dias procurando naqueles procelosos abismos o pão de cada dia. O pai de nossa jovem era pescador, e dos piores e mais brutos que se possam imaginar. Nunca o viram na igreja. Para ele só havia dois lugares prediletos: a taberna e o mar. Muito natural, portanto, que sua filha, apesar de seus dezesseis anos, não tivesse feito a primeira Comunhão.

Naqueles dias tinham chegado ali alguns padres missionários. Transformaram um barracão em igreja e, pela manhã e à noite, reuniam aqueles pobres pescadores para falar-lhes de Deus e da salvação eterna. Além disso, em horas diversas, reuniam os meninos e as meninas para explicar-lhes o catecismo. E isto era uma necessidade porque, entre aquelas pobres alminhas, muitas nunca tinham ouvido falar de confissão ou de comunhão. Nossa jovem de dezesseis anos era das mais assíduas e atentas. De manhã, quando o pai ia para o mar, ela corria à capela dos missionários para aprender a rezar e cantar e ouvir coisas tão belas que nunca ouvira em sua vida.

Chegou o dia da confissão. Passavam de sessenta as meninas que já haviam completado quinze anos e que no dia seguinte iam ter a felicidade de receber Jesus pela primeira vez. Estavam todas radiantes de alegria. Começava a anoitecer e o padre missionário levantou-se do confessionário. Terminara a sua tarefa. Naquele momento aproximou-se dele uma daquelas meninas e, apontando com o dedo uma jovem que estava no fundo da capela, disse:
➖ Padre, aquela menina tem mais de dezesseis anos e ainda não fez também a primeira comunhão. Nem sequer se confessou. Mas o senhor não a confesse porque, se o pai dela souber que se confessou, dá-lhe uma sova e a deixa moída.
➖ Ele é tão mau assim?
➖ Se é! É péssimo. É o pior homem do bairro e tem o apelido de 'Barrabás'.

O padre missionário dirigiu-se à jovenzinha, que já conhecemos, e entre os dois travou-se o seguinte diálogo:
➖ Quantos anos tens?
➖ Já completei dezesseis.
➖ Nunca te confessaste?
➖ Nunca.
➖ Sabes o catecismo?
➖ Antes, não; mas agora, sim; porque todos os dias tenho vindo pela manhã e à tarde e comprei um livrinho e já o sei de cor.

O padre fez-lhe algumas perguntas e viu que não havia menina que soubesse o catecismo tão bem como ela.
➖ E queres confessar-te?
➖ Sim, Padre.
➖ E comungar?
➖ Mais ainda.
➖ E teu pai consentirá?
➖ Meu pai não o saberá. Quando ele for de manhã para o mar, eu venho comungar e ele não ficará sabendo. E se souber...
➖ Então ele te bate...
➖ Paciência. Será só mais uma surra.

O missionário estava pasmado. A almas como aquelas não se pode negar o maior prêmio da vida: a Eucaristia. Sentou-se, pois, no confessionário e a menina aproximou-se da grade. Já estava o padre a dar-lhe a absolvição, quando se ouviram na capela uns passos pesados e compassados. Não havia dúvida: tinha que ser algum pescador que entrava com seus pesados sapatões. E era isso com efeito. Foi direto ao confessionário e, agarrando pelo braço a jovem que naquele instante se levantava, deu-lhe tremendas bofetadas e pontapés, empurrando-a para a rua e dizendo:
➖ Eu já suspeitava que tu andavas por aqui. De onde te vêm essas beatices? Eu te ensinarei a ter juízo. Fora daqui, filha má...

Era o pai. Não se enganaram os que disseram que ele era o homem mais bruto do bairro. O padre missionário não podia fazer nada com aquele pai monstro.
➖Meninas - disse àquelas que estavam ainda na igreja e contemplavam aterradas aquela cena brutal -  meninas, de joelhos! Vamos rezar três Ave-Marias por aquela filha mártir e por aquele pai verdugo.
E todos se ajoelharam e rezaram com fervor. 

Amanheceu o grande dia da comunhão daquelas boas meninas. Antes da hora já estavam ali com seus melhores vestidinhos. Os bancos estavam enfeitados com flores brancas. Ia começar a missa e o padre perguntou:
➖ Veio aquela menina a quem o pai ontem esbofeteou tão brutalmente?
➖ Não - disseram - não devemos esperar por ela. Terá cama por alguns dias, talvez com alguma costela quebrada.
Diziam isto, quando junto à pia de água benta apareceu a nossa jovem. Tinha a cabeça toda enfaixada, mas seus olhos brilhavam de alegria. Fez o sinal da Cruz e, satisfeita e resoluta, sentou-se no banco entre as outras jovens.
➖ Mas, minha filha - disse-lhe o velho missionário - o que foi que te aconteceu?
➖ Nada, padre - respondeu com a maior tranquilidade - apenas meu pai, por eu me ter confessado, me deu ontem tão tremendas pancadas, que estou com o rosto e a cabeça cobertas de feridas.
➖ E teu pai, onde está agora?
➖ Seguiu para o mar.
➖ Ele sabe que vieste comungar,?
➖ Não, senhor.
➖ E se ele vier a saber?
➖ Vai me dar outra sova.
➖ E que dizes sobre isso?
➖ Não faz mal, padre; para ter a felicidade de comungar, a gente bem pode aguentar duas sovas.
Com que prazer não terá Jesus entrado naquele coração. Aquela jovem, sim, amava a Jesus; aquela, sim, sabia fazer sacrifícios por amor de Jesus Cristo! Vós, meninos e meninas, admirai-lhe a grandeza de alma, a coragem e tal firmeza de caráter.

155. QUE SANTOS BEIJOS!

Margarida acabava de completar vinte anos. Não era mais uma menina. Entretanto, desde a sua primeira comunhão, amava a Jesus-Hóstia com um amor imenso, apaixonado. Sua maior alegria e felicidade consistia em lavar e engomar os objetos que serviam para o altar. Lavava as toalhas e, quando acabava de engomá-las, depositava nelas um beijo porque sabia que sobre elas seriam colocados pelos sacerdotes o cálice, o cibório, a custódia... Lavava e engomava os corporais e beijava-os não uma mas muitas vezes, porque - dizia - sobre eles repousará a branca hóstia, depois de consagrada.

Às vezes estava sozinha na igreja e não podia conter-se: corria ao altar do Santíssimo e, quando julgava que ninguém a via, subia a uma cadeira e beijava a portinha do sacrário, porque - dizia - ali atrás está escondido o meu amor. Aquela alma estava madura para o céu. Margarida morreu na flor dos anos. Tendo sido sacramentada, ia receber o sagrado viático; e foi então que fez o que sempre desejara fazer. Quando o sacerdote aproximou de seus lábios a hóstia divina, que seria a sua última comunhão, antes de tomá-la, imprimiu-lhe um beijo. E dizia depois, satisfeita, que nada mais lhe faltava para ser feliz. E partiu para o céu...

Todo ato de amor, toda jaculatória de amor, passará através da portinha do Sacrário e encherá de alegria o coração de Jesus tão esquecido pelos bons e tão desprezado pelos maus.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

terça-feira, 22 de setembro de 2026

PÁGINAS DIFÍCEIS DOS EVANGELHOS (II)

2. OS TRABALHADORES DA ÚLTIMA HORA

Um patrão sai de casa, em diferentes horários do dia, à procura de trabalhadores para a sua vinha [Mt 20,1-16a].

[1] O Reino dos Céus é como a história do patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha.
[2] Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha. 
[3] Às nove horas da manhã, o patrão saiu de novo, viu outros que estavam na praça, desocupados, 
[4] e lhes disse: 'Ide também vós para a minha vinha! E eu vos pagarei o que for justo'. 
[5] E eles foram. O patrão saiu de novo ao meio-dia e às três horas da tarde, e fez a mesma coisa. 
[6] Saindo outra vez pelas cinco horas da tarde, encontrou outros que estavam na praça, e lhes disse: 'Por que estais aí o dia inteiro desocupados?' 
[7] Eles responderam: 'Porque ninguém nos contratou'. O patrão lhes disse: 'Ide vós também para a minha vinha'. 
[8] Quando chegou a tarde, o patrão disse ao administrador: 'Chama os trabalhadores e paga-lhes uma diária a todos, começando pelos últimos até os primeiros!'
[9]  Vieram os que tinham sido contratados às cinco da tarde e cada um recebeu uma moeda de prata. [10] Em seguida vieram os que foram contratados primeiro, e pensavam que iam receber mais. Porém, cada um deles também recebeu uma moeda de prata. 
[11] Ao receberem o pagamento, começaram a resmungar contra o patrão: 
[12] 'Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro'. 
[13] Então o patrão disse a um deles: 'Amigo, eu não fui injusto contigo. Não combinamos uma moeda de prata? 
[14] Toma o que é teu e volta para casa! Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti. 
[15] Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?' 
[16a] Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos.


A dificuldade do texto é que ele apresenta uma aparente injustiça. O salário representa o dom do Reino de Deus, que não é compartilhado com os princípios da lógica humana. A moeda de prata [denário] como pagamento diário [2] representa primariamente a vida eterna e, sendo um dom de Deus, não pode ser fracionada, porque a misericórdia de Deus é infinita para os que o amam; todos os trabalhadores foram contemplados com o mesmo salário, porque todos responderam, prontamente ou ainda que mais tarde, ao mesmo chamado à vinha e tornaram-se, então, herdeiros comuns da mesma graça: a vida eterna em Deus [8].

A premissa fundamental desta passagem dos Evangelhos é que Deus não faz acepção de pessoas. O Reino não é concedido em virtude de origem étnica, posição social ou anterioridade histórica, mas a todos que respondem sim ao chamado comum aos filhos de Deus. Todos os que receberam a moeda de prata aceitaram o chamado e, ainda que por pouco tempo, mereceram usufruir integralmente as graças divinas. As diversas horas do dia [1,3,5,6] representam diferentes etapas da vida humana: infância, juventude, maturidade, idade avançada ou proximidade da morte. São Gregório Magno associa uma segunda escala de tempos, associada à história da salvação, além dos períodos da vida humana: madrugada (época de Adão a Noé), nove horas da manhã (de Noé a Abraão), meio dia (de Abraão a Moisés), três horas da tarde (de Moisés a Cristo) e cinco horas da tarde (o tempo a partir de Cristo e da convocação dos gentios). Na história da salvação, os trabalhadores da primeira hora podem representar o povo da Antiga Aliança e os últimos, os gentios introduzidos na Igreja. E estes, portanto, não recebem um Reino de Deus inferior aos primeiros por terem sido chamados mais tarde na história.

A proposição fundamental distingue duas ordens de princípios: (i) justiça: Deus dá aos primeiros trabalhadores chamados aquilo que lhes prometeu; (ii) misericórdia: Deus dá aos últimos trabalhadores chamados mais dos que eles teriam merecido, num sentido não de elogiar o atraso voluntário da conversão, mas impedir o desespero daquele que foi chamado tarde. E, neste contexto, sobrevém a terceira ordem de princípios:  (iii) graças divinas: a parábola não elimina o verdadeiro mérito das obras realizadas na graça, nem exclui diferentes graus de glória. Todos os trabalhadores possuem o mesmo bem essencial: Deus. Mas nem todos o recebem segundo a mesma capacidade de caridade e mérito.

A parábola não nega o mérito; combate a pretensão de transformar a graça em dívida para com Deus. Este ensinamento está presente pela murmuração dos trabalhadores que foram contratados primeiro [11], pelo fato de o patrão ter determinado ao administrador efetuar o pagamento começando pelos últimos trabalhadores [8]. Eles não ficaram satisfeitos por apenas receber o que era justo [13], mas postularam uma partilha distinta em relação aos últimos, convertendo uma reivindicação aparentemente justa em inveja espiritual [15]. Portanto, cuidado: ainda que tenhamos trabalhado bem uma vida inteira, não nos locupletemos de orgulho próprio para reivindicar um mérito que não é nosso e muito menos para menosprezar aqueles que a Providência Divina esperou para chamar depois.

Por outro lado, a parábola não nos autoriza adiar a conversão e isso constituiria uma leitura gravemente contrária à sua proposição. Ao chamado do patrão, os trabalhadores da última hora disseram: 'Ninguém nos contratou' [7] e não: 'fomos chamados mais cedo, mas preferimos ser chamados outra vez somente no final do dia'. Há uma diferença fundamental entre aquele que só conhece ou acolhe eficazmente o chamado de Deus no final da vida (como o bom ladrão dos Evangelhos) daquele que porventura presume da misericórdia divina e adia deliberadamente a sua conversão. A presunção é um pecado gravíssimo contra a esperança, porque ninguém pode saber se terá uma última hora, tempo para se converter ou disposição interior para fazê-lo ainda em tempo.