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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

A ORAÇÃO SILENCIOSA DO CORAÇÃO

Que a nossa fala e nossa súplica sejam disciplinadas quando orarmos, e que preservemos a tranquilidade e a modéstia, pois, lembrem-se, estamos diante de Deus. Devemos agradar aos olhos de Deus tanto com os movimentos do nosso corpo quanto com a maneira como usamos as nossas vozes. Pois, assim como um homem desavergonhado fará barulho com seus gritos, também convém que o modesto ore de maneira moderada.

Além disso, o Senhor nos ensinou a orar em segredo, em lugares escondidos e remotos, em nossos próprios quartos – e isso é o mais adequado para a fé, pois nos mostra que Deus está em todos os lugares e ouve e vê tudo e, na plenitude de sua majestade, está presente até mesmo em lugares escondidos e secretos, como está escrito: 'Eu sou um Deus próximo e não distante. Se alguém se esconder em lugares secretos, não o verei? Não preencho eu todos os céus e a terra?' e, ainda: 'Os olhos de Deus estão em toda parte e veem o bem e o mal igualmente' .

Quando nos reunimos com os irmãos em um só lugar e celebramos os sacrifícios divinos com o sacerdote de Deus, devemos lembrar-nos da nossa modéstia e disciplina, não proclamando as nossas orações em voz alta, nem apresentando a Deus, com indisciplina e prolixidade, uma súplica que seria melhor feita com mais modéstia: pois, afinal, Deus não ouve a voz, mas o coração, e aquele que vê os nossos pensamentos não deve ser perturbado pelas nossas vozes, como o Senhor demonstra quando diz: 'Por que pensais mal nos vossos corações?' ou ainda: 'Todas as igrejas saberão que sou eu quem sonda as vossas motivações e os vossos pensamentos' .

No primeiro livro dos Reis, vemos que Ana orava a Deus não com súplicas em voz alta, mas silenciosa e modestamente, no íntimo do seu coração. Ela falava com uma oração silenciosa, mas com fé manifesta. Não falava com a voz, mas com o coração, porque sabia que era assim que Deus ouvia, e recebeu o que buscava porque pediu com fé. A Sagrada Escritura afirma isso quando diz: 'Ela falava em seu coração, e seus lábios se moviam, e sua voz não era audível; e Deus a ouvia'. E lemos nos Salmos: 'Falem em seus corações e em seus leitos, e sejam acolhidos'. Novamente, o Espírito Santo ensina as mesmas coisas por meio de Jeremias, dizendo: 'Mas é no coração que deves ser adorado, ó Senhor'.

Amados irmãos, que o adorador não se esqueça de como o publicano orou com o fariseu no templo - não com os olhos altivos voltados para o céu, nem com as mãos erguidas em orgulho; mas, batendo no peito e confessando os pecados que carregava, implorava a ajuda da misericórdia divina. Enquanto o fariseu se vangloriava de si mesmo, foi o publicano quem mereceu ser santificado, pois depositou sua esperança de salvação não na confiança em sua inocência - pois ninguém é inocente - mas orou, confessando humildemente os seus pecados, e Aquele que perdoa os humildes ouviu a sua oração.

(São Cipriano de Cartago)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A IGREJA É ÚNICA COMO A VERDADE

A Igreja, espalhada por todo o mundo até aos confins da terra, recebeu dos apóstolos e dos seus discípulos, a fé num único Deus Pai todo-poderoso, que criou o céu, a terra, o mar e tudo o que eles contêm; e num único Jesus Cristo, Filho de Deus, que se encarnou para a nossa salvação; e no Espírito Santo, que pelos profetas anunciou os planos de Deus, a vinda de Cristo, seu nascimento da Virgem, sua paixão, sua ressurreição dentre os mortos, sua ascensão corporal aos céus, sua vinda dos céus, na glória do Pai, para recapitular todas as coisas e ressuscitar toda a linhagem humana, a fim de que diante de Cristo Jesus, nosso Senhor, Deus e Salvador e Rei, pela vontade do Pai invisível, todo joelho se dobre no céu, na terra, no abismo, e toda língua proclame aquele que fará justo julgamento em todas as coisas.

A Igreja, então, disseminada, como dissemos, por todo o mundo, guarda diligentemente a pregação e a fé recebida, habitando como em uma única casa; e sua fé é igual em todos os lugares, como se tivesse uma única alma e um único coração, e tudo o que prega, ensina e transmite, faz em uníssono, como se tivesse uma única boca. Pois, embora existam muitas línguas diferentes no mundo, o conteúdo da tradição é único e idêntico para todos.

As Igrejas da Alemanha acreditam e transmitem o mesmo que as outras dos ibéricos ou dos celtas, do Oriente, do Egito ou da Líbia ou do centro do mundo. Assim como o sol, criatura de Deus, é um e o mesmo em todo o mundo, também a pregação da verdade resplandece por toda parte e ilumina todos aqueles que querem chegar ao conhecimento da verdade.

Nas Igrejas, os bons oradores, entre os líderes da comunidade, pois ninguém está acima do Mestre, não dirão coisas diferentes, nem a escassa oratória de outros enfraquecerá a força da tradição, pois sendo a fé uma e a mesma, nem a amplia quem fala muito nem a diminui quem dela fala pouco.

(Excertos da obra 'Contra as Heresias', de Santo Irineu de Lyon)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

OS OITO GRAUS OU VÍCIOS DO ORGULHO

'o orgulho é a mãe de todos os vícios' (Ecl 10,15)

1. Gabar-se do que se tem, como se não o tivesse recebido de Deus ou do que não se tem, ou de coisas que merecem reprovação; e isso se chama arrogância.

2. Desejar ser visto pelos homens para ser elogiado e se alegrar em agradá-los ou em ser estimado por eles; e isso é vaidade.

3. Elogiar a si mesmo, vendendo-se por aquilo que não se é, ou engrandecendo aquilo que se é, e revelando desnecessariamente aquilo sobre o qual se deveria manter silêncio; e isso é vanglória.

4. Ter um desejo desmedido por posições e dignidades; isso é ambição.

5. Empreender tarefas que excedem a própria força e capacidade, o que se chama presunção.

6. Fingir ser algo que não se é ou praticar boas ações na presença de outros somente para ser estimado; isso é hipocrisia.

7. Ser teimoso em seu próprio julgamento e preferir a sua própria opinião à dos outros, não querendo ceder a ninguém; isso é obstinação.

8. Tratar com soberba ou desdém as outras pessoas, tanto seus iguais quanto os seus superiores; isso é desprezo.

(Excertos da obra 'Manual de Piedosas Meditações', autor anônimo, Barcelona)

sábado, 31 de janeiro de 2026

A ARTE DE EDUCAR COM AMOR

Quantas vezes, meus filhinhos, no decurso de toda a minha vida, tive de me convencer desta grande verdade! É mais fácil encolerizar-se do que ter paciência, ameaçar uma criança do que persuadi-la. Direi mesmo que é mais cômodo, para nossa impaciência e nossa soberba, castigar os que resistem do que corrigi-los, suportando os com firmeza e suavidade.

Tomai cuidado para que ninguém vos julgue dominados por um ímpeto de violenta indignação. É muito difícil, quando se castiga, conservar aquela calma tão necessária para afastar qualquer dúvida de que agimos para demonstrar a nossa autoridade ou descarregar o próprio mal humor. Consideremos como nossos filhos aqueles sobre os quais exercemos certo poder. Ponhamo-nos a seu seviço, assim como Jesus, que veio para obedecer e não para dar ordens; envergonhemo-nos de tudo o que nos possa dar aparência de dominadores; e se algum domínio exercemos sobre eles, é para melhor servirmos.

Assim procedia Jesus com seus apóstolos; tolerava-os na sua ignorância e rudeza, e até mesmo na sua pouca fidelidade. A afeição e a familiaridade com que tratava os pecadores eram tais que em alguns causava espanto, em outros escândalo, mas em muitos infundia a esperança de receber o perdão de Deus. Por isso nos ordenou que aprendêssemos dele a ser mansos e humildes de coração.

Uma vez que são nossos filhos, afastemos toda cólera quando devemos corrigir-lhes as faltas ou, pelo menos, a moderemos de tal modo que pareça totalmente dominada. Nada de agitação de ânimo, nada de desprezo no olhar, nada de injúrias nos lábios; então sereis verdadeiros pais se conseguirem uma verdadeira correção. Em determinados momentos muito graves, vale mais uma recomendação a Deus, um ato de humildade perante ele, do que uma tempestade de palavras que só fazem mal a quem as ouve e não e não tem proveito algum para quem as merece.

(Das Cartas de São João Bosco)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

E ASSIM CRUCIFICARAM JUNTAMENTE A MÃE!


Diz a Sagrada Escritura que, quando se construiu o templo de Salomão, não se ouviu nunca golpe de martelo. Ah, Templo Divino, figurado naquele mesmo templo, que agora quando vos desfazem, se ouvem tantas e tão cruéis marteladas! Fazem eco pelos vales daquele monte; mas muito maior eco faziam no coração da lastimada Mãe: no corpo do Filho davam as marteladas divididas, porque umas feriam os pés, outras a mão direita, outras a esquerda; porém na Senhora todas batiam e descarregavam juntas no mesmo lugar, porque todas feriam o coração. 

Com todos os instrumentos do Calvário era martirizado o coração da Senhora e todos feriam o coração da Mãe, ainda os que não feriam o corpo do Filho; por isso Simeão chamou a todos espada: Et tuam ipsius animam pertransibit gladius. Se repararmos nos instrumentos da Paixão de Cristo, acharemos que nenhum deles foi espada: pois se na Paixão não houve espada como diz Simeão à Senhora que a espada da Paixão do seu Filho lhe trespassaria a alma? Et tuam ipsius animam pertransibit gladius

É porque todos os instrumentos que concorreram na Paixão do Filho foram espada para o coração da Mãe. Para o corpo do Filho a cruz era cruz, os cravos eram cravos, os martelos eram martelos; mas para o coração da Mãe a cruz era espada, os cravos eram espada, os martelos eram espada, porque todos penetravam nas suas entranhas, e lhe atravessavam o coração. Assim crucificavam juntamente a Mãe, os que crucificavam o Filho: e justa coisa seria, ó cristãos, que nos crucificassem também a nós, e que todos nós nos crucificássemos aqui hoje com Jesus Crucificado! Olhai o que nos diz São Paulo: Qui sunt Christi, carnem suam crucifixerunt cum vitiis, et concupiscentiis - os que são de Cristo, crucificaram a sua carne com todos os seus vícios, e com todos os seus apetites.

(Excertos do sermão 'Prática Espiritual da Crucifixão do Senhor', do Pe. Antônio Vieira)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

AS TRÊS VIAS E O DECÁLOGO SOBRE A PAZ

I. Em primeiro lugar, esforce-se sempre para viver em paz com Deus: 'Muita paz têm os que amam a tua lei e para eles não há tropeço' (Sl 119,165).

II. Em segundo lugar, procure encontrar paz em seu próprio coração: 'Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá' (Jo 14,27).

III. Em terceiro lugar, você deve buscar viver em paz com o seu próximo: 'Por fim, irmãos, vivei com alegria. Tendei à perfeição, animai-vos, tende um só coração, vivei em paz, e o Deus de amor e paz estará convosco' (2Cor 13,11) e ainda 'vivei em paz com todos os homens' (Rm 12, 18).

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1. Aprende a abnegar-te em muitas coisas, se queres ter paz e concórdia com os outros.

2. Não pode ficar por muito tempo em paz quem não procura ser o menor e o mais submisso de todos.

3. Acharás grande paz e sentirás mais leve o trabalho com a graça de Deus e o amor da virtude.

4. Primeiro conserva-te em paz, e depois poderás pacificar os outros.

5. Quem está em boa paz de ninguém desconfia.

6. Viver em paz com pessoas ásperas, perversas e mal educadas que nos contrariam, é grande graça e ação muito louvável.

7. Não há outro caminho para a vida e para a verdadeira paz interior, senão o caminho da santa cruz e da contínua mortificação.

8. É necessário que sempre tenhas paciência, se queres alcançar a paz da alma e merecer a coroa eterna.

9. Busca a paz verdadeira do céu, não sobre a terra, não nos homens, nem nas demais criaturas, mas só em Deus.

10. Toda a nossa paz, porém, nesta vida miserável, consiste mais na humilde resignação, que em não sentir as contrariedades. Quem melhor sabe sofrer, maior paz terá. Esse é vencedor de si mesmo e senhor do mundo, amigo de Cristo e herdeiro do céu.

(Da Imitação de Cristo, Thomas de Kempis)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A ALAVANCA QUE LEVANTA O MUNDO

Uma alma abrasada de amor não pode ficar inativa. Sem dúvida que, como Santa Maria Madalena, ela permanece aos pés de Jesus, e escuta a sua palavra doce e inflamada. Parecendo não dar nada, dá muito mais do que Marta, que se aflige com muitas coisas e que quereria que sua irmã a imitasse. Não são, de modo nenhum, os trabalhos de Marta que Jesus censura; a esses trabalhos se submeteu humildemente sua Mãe durante a vida, pois tinha de preparar as refeições da Sagrada Família. Era apenas a inquietação da sua ardente anfitriã que Ele queria corrigir.

Todos os santos o compreenderam, e mais particularmente talvez aqueles que encheram o universo com a iluminação da doutrina evangélica. Não foi acaso na oração que os santos Paulo, Agostinho, João da Cruz, Tomás de Aquino, Francisco, Domingos e tantos outros ilustres amigos de Deus beberam esta ciência divina que arrebata os maiores gênios?

Houve um sábio que disse: 'Dai-me uma alavanca, um ponto de apoio, e levantarei o mundo'. O que Arquimedes não pôde obter, porque o seu pedido não se dirigia a Deus, e por não ser feito senão sob o ponto de vista material, obtiveram-no os santos em toda a plenitude: o Todo-Poderoso deu-lhes como ponto de apoio Ele mesmo e Ele só; e como alavanca, a oração, que abrasa com fogo de amor. E foi assim que levantaram o mundo; é assim que os santos que ainda militam na terra o levantam e que, até ao fim do mundo, os futuros santos o levantarão também.

(Excertos da obra 'Manuscrito Autobiográfico', de Santa Teresa de Lisieux)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

SOBRE OS INFIÉIS E OS HEREGES

Ó santa Palavra de Deus! Ó santa Revelação! Através de ti somos admitidos nos mistérios divinos, que a razão humana nunca poderia alcançar. Nós te amamos e estamos decididos a ser submissos a ti. És tu que dás origem à grande virtude, sem a qual é impossível agradar a Deus (Hb 6,6); a virtude que inicia a obra de salvação do homem, e sem a qual esta obra não poderia ser continuada nem terminada. Esta virtude é a Fé.

Faz com que a nossa razão se curve à Palavra de Deus. Da sua obscuridade divina surge uma luz muito mais gloriosa do que todas as conclusões da razão, por maior que seja a sua evidência. Esta virtude será o vínculo de união na nova sociedade que Nosso Senhor está agora a organizar. Para se tornar membro desta sociedade, o homem deve começar por acreditar; que ele possa continuar a ser membro. Ele nunca deve, nem por um momento, vacilar na sua fé.

Em breve ouviremos Nosso Senhor dizer estas palavras: 'Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado' (Mc 16,16). Para expressar mais claramente a necessidade da Fé, os membros da Igreja devem ser chamados pelo belo nome de Fiéis: aqueles que não acreditam, devem ser chamados de Infiéis.

Sendo a fé, então, o primeiro elo da união sobrenatural entre o homem e Deus, segue-se que esta união cessa quando a fé é quebrada, isto é, negada; e que aquele que, depois de ter estado assim unido a Deus, rompe o vínculo, rejeitando a palavra de Deus e substituindo-a pelo erro, comete um dos maiores crimes. Tal pessoa será chamada de Herege, isto é, alguém que se separa; e os fiéis tremerão diante de sua apostasia.

Mesmo que sua rebelião à Palavra Revelada recaísse sobre apenas um artigo, ainda assim se comete uma enorme blasfêmia; pois ou ele se separa de Deus como sendo um enganador, ou insinua que sua própria razão criada, fraca e limitada, é superior à Verdade eterna e infinita. Com o passar do tempo, as heresias surgirão, cada uma atacando um ou outro dogma; de modo que dificilmente uma verdade permanecerá inatacável... 

(Excertos da obra 'O Ano Litúrgico', de Dom P. Guéranger)

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

AS TREVAS E AS SOMBRAS DA MORTE

Tirou-os das trevas e da escuridão (Sl 106, 14). 

São três as espécies de trevas, ou de ignorâncias:

👉 Diz o Salmista (Sl 81, 5): Não sabem nem entendem, andam nas trevas. Estas são as trevas da razão, enquanto a razão é por elas obscurecida.

👉 Há também as trevas da culpa. Diz São Paulo (Ef 5, 8): Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. E estas são trevas da razão humana não por si mesmas, mas pelos apetites, enquanto, mal dispostos pelas paixões ou por algum mau hábito, apetecem como bom o que não é o verdadeiro bem.

👉 Por fim, há as trevas da danação eterna (Mt 25, 30): E a este servo inútil lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes.

Ora, Cristo tirou-nos das trevas por ser a luz do mundo; não era o sol criado, mas Aquele por quem foi criado o sol. Contudo, como diz Agostinho, a mesma luz que fez o sol, foi feita sob o sol, e velada pela nuvem da carne, não para que fosse obscurecida, mas para que fosse temperada. E como esta luz é universal, expulsa universalmente todas as trevas.

Assim, o que me segue não anda nas trevas, da ignorância, pois eu sou a verdade; da culpa, pois eu sou a via; da danação eterna, pois eu sou a vida.

A noite pode ser compreendida de dois modos:

👉 Pela subtração da graça atual, a qual induz o pecado mortal. Quando esta noite sobrevém, ninguém pode fazer obra meritória de vida eterna.

👉 A outra é a noite consumada, quando não apenas se é privado da graça atual, mas também da faculdade de a recuperar, pela eterna danação ao inferno, onde é profunda a noite àqueles aos quais foi dito: Ide malditos para o fogo eterno

E então ninguém poderá fazer nada, pois não há mais tempo para merecer, mas apenas para receber conforme seus méritos. Assim, enquanto viveres, faze o que tens de fazer (Ecle 9, 10): Faze com presteza tudo quanto pode fazer a tua mão, porque na sepultura, para onde te precipitas, não há nem obra, nem razão, nem ciência, nem sabedoria.

A morte é a danação no inferno (Sl 48, 15): a morte os apascenta. A sombra da morte é a semelhança da danação futura que está nos pecadores. A maior pena daqueles que estão no inferno é a separação de Deus; como os pecadores já estão separados de Deus, têm semelhança com a danação futura, assim como os justos têm semelhança com a futura beatitude.

(Excertos da obra  'Meditationes ex Operibus S. Thomae', de P. D. Mézard, publicação original do site Permanência)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

DEZ VIRTUDES EM UM ÚNICO ATO DE MORTIFICAÇÃO

Em um ato de mortificação, pode-se praticar muitas virtudes, de acordo com os diferentes fins que se propõem em cada ato como, por exemplo:

1. Aquele que mortifica o seu corpo com o propósito de controlar a concupiscência realiza um ato da virtude da temperança.

2. Se ele faz isso com o propósito de regular bem a sua vida, será um ato da virtude da prudência.

3. Se ele se mortifica com o objetivo de satisfazer os pecados cometidos de sua vida passada, será um ato da virtude de justiça.

4. Se ele o faz com a intenção de vencer as dificuldades da vida espiritual, será um ato da virtude de fortaleza.

5. Se ele praticar essa virtude da mortificação com o fim de oferecer um sacrifício a Deus, privando-se do que gosta e fazendo o que é amargo e repugnante à natureza, será um ato da virtude da religião.

6. Se ele pretende, pela mortificação, receber maior luz para conhecer os atributos divinos, será um ato da virtude de .

7. Se ele o fizer com o propósito de tornar sua salvação cada vez mais segura, será um ato da virtude de esperança.

8. Se ele se negar a si mesmo para ajudar na conversão dos pecadores e para a libertação das almas do Purgatório, será um ato da virtude de caridade para com o próximo.

9. Se ele fizer isso para ajudar os pobres, será um ato da virtude de misericórdia.

10. Se ele se mortificar para agradar mais a Deus, será um ato da virtude de amor a Deus.

Em outras palavras, pode-se colocar todas essas virtudes em prática mediante um único ato de mortificação, de acordo com o fim que se propõe ao se realizar o referido ato.

(Excertos da Autobiografia de Santo Antônio Maria Claret)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

SOBRE O SACRAMENTO DA PENITÊNCIA E CONFISSÃO

Nosso Salvador legou à sua Igreja o Sacramento da Penitência e da Confissão [Mt 16,19; Mt 18,18; Jo 20,23], para que nele possamos ser purificados de todos os nossos pecados, independentemente de como e quando os tenhamos cometido. Portanto, meu filho, nunca permita que seu coração fique sobrecarregado pelo pecado, visto que existe um remédio tão seguro e eficaz à sua disposição. Assim, uma alma que, mesmo que minimamente, tenha consentido com o pecado, deve abominar-se a si mesma e apressar-se em buscar a purificação, por respeito à Divina Providência que sempre a contempla. Por que deveríamos morrer uma morte espiritual quando existe um remédio tão eficaz para nos curar?

Faça sua confissão com humildade e devoção todas as semanas e, sempre que possível, antes de comungar, mesmo que a sua consciência não o acuse de algum pecado mortal; pois, na confissão, você não só recebe a absolvição por seus pecados veniais, mas também recebe grande força para ajudá-lo a evitá-los no futuro, luz mais clara para desvelar as faltas cometidas e graças abundantes para compensar quaisquer perdas que possam ter causado. As virtudes da humildade, obediência, simplicidade e amor são inerentes à confissão e, assim, por um único ato de confissão, se pratica mais virtudes do que em qualquer outro ato religioso.

Certifique-se sempre de ter um sincero arrependimento pelos pecados que você confessa, por menores que sejam; assim como uma firme resolução de corrigi-los no futuro. Algumas pessoas continuam confessando pecados veniais por mero hábito e convencionalmente, sem fazer qualquer esforço para corrigi-los e, por isso, não se livram deles e se privam de muitas graças necessárias para o seu progresso espiritual. Suponha que você confesse ter dito algo falso, embora sem consequências graves, ou algumas palavras descuidadas, ou diversão excessiva; arrependa-se e tome uma firme resolução de emenda: é um mero abuso confessar qualquer pecado, seja mortal ou venial, sem a intenção de abandoná-lo completamente, sendo esse o objetivo expresso da confissão.

Cuidado com as autoacusações sem sentido, feitas por mera rotina, tais como: 'Não amei a Deus tanto quanto deveria; não rezei com tanta devoção quanto deveria; não amei o meu próximo como deveria; não recebi os sacramentos com reverência suficiente' e coisas semelhantes. Coisas como essas são totalmente inúteis para apresentar o estado da sua consciência ao seu confessor, na medida em que todos os santos no Paraíso e todos os homens vivos diriam o mesmo. Mas examine atentamente que razão especial você tem para se acusar assim e, quando a descobrir, acuse-se simples e claramente da sua falta. Por exemplo, ao confessar que não amou o seu próximo como deveria, pode ser que o que você queira dizer é que, tendo visto alguém em grande necessidade a quem poderia ter socorrido, você não o fez. Bem, então, acuse-se dessa omissão especial e simplesmente diga: 'Tendo encontrado uma pessoa necessitada, não a ajudei como poderia ter feito', seja por negligência, dureza ou indiferença, conforme o caso. Da mesma forma, não se acuse de não ter rezado a Deus com devoção suficiente; mas se você se deixou levar por distrações voluntárias, ou se negligenciou as circunstâncias adequadas para uma oração devota - seja o lugar, o momento ou a atitude - diga isso claramente, tal como é, e não trate de generalidades que, por assim dizer, não aquecem e nem esfriam.

Mais uma vez, não se contente em mencionar apenas o fato de seus pecados veniais, mas acuse-se da causa motriz que os levou a cometê-los. Por exemplo, não se contente em dizer que você disse uma inverdade que não prejudicou ninguém; mas diga se foi por vaidade, para ganhar elogios ou evitar críticas, por descuido ou por obstinação. Diga se você continuou por muito tempo a cometer a falta em questão, pois a importância de uma falta depende muito de sua continuidade: por exemplo, há uma grande diferença entre um ato passageiro de vaidade que termina em um quarto de hora e outro que ocupa o coração por um ou mais dias. Portanto, você deve mencionar o fato, o motivo e a duração de suas faltas. É verdade que não somos obrigados a ser tão precisos ao confessar pecados veniais, ou mesmo, tecnicamente falando, a confessá-los; mas todos aqueles que desejam purificar suas almas para alcançar uma vida realmente devota terão o cuidado de mostrar todas as suas doenças espirituais, por mais leves que sejam, ao seu médico espiritual, a fim de serem curados.

Não se poupe em contar tudo o que for necessário para explicar a natureza da sua falta, como, por exemplo, a razão pela qual você perdeu a paciência ou por que encorajou outra pessoa a cometer uma falta. Assim, alguém de quem eu não gosto diz uma palavra por acaso, em tom de brincadeira, eu levo a mal e fico furioso. Se alguém de quem eu gosto tivesse dito algo mais forte, eu não teria levado a mal; portanto, na confissão, devo dizer que perdi a paciência com uma pessoa, não tanto por causa das palavras ditas, mas porque não gosto de quem as disse; e se, para se explicar claramente, for necessário especificar as palavras, é bom fazê-lo; porque, ao acusar-se assim, descobre-se não apenas os pecados reais, mas também os maus hábitos, inclinações e sentimentos, e as outras raízes do pecado, por meio das quais o pai espiritual adquire um conhecimento mais completo do coração com que está lidando e sabe melhor quais remédios aplicar. Mas, evite sempre, na medida do possível, mencionar ou expor qualquer pessoa que tenha participado de seu pecado. Fique atento a uma variedade de pecados, que tendem a surgir e florescer, muitas vezes de forma imperceptível, na consciência, para que você possa realmente confessá-los e eliminá-los de vez [cujas particularidades são discutidas em outras partes do texto].

(Excertos da obra 'Introdução à Vida Devota', de São Francisco de Sales)

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

'É A VOSSA FACE QUE EU PROCURO!'

Vamos, coragem, pobre homem! Foge um pouco de tuas ocupações. Esconde-te um instante do tumulto de teus pensamentos. Põe de parte os cuidados que te absorvem e livra-te das preocupações que te afligem. Dá um pouco de tempo a Deus e repousa nele.

Entra no íntimo de tua alma, afasta tudo de ti, exceto Deus ou o que possa ajudar-te a procurá-lo; fecha a porta e põe-te à sua procura. Agora fala, meu coração, abre-te e dize a Deus: 'Busco a vossa face; Senhor, é a vossa face que eu procuro' (Sl 26,8). E agora, Senhor meu Deus, ensinai a meu coração onde e como vos procurar, onde e como vos encontrar.

Senhor, se não estais aqui, se estais ausente, onde vos procurarei? E se estais em toda parte, por que não vos encontro presente? É certo que habitais numa luz inacessível, mas onde está essa luz inacessível e como chegarei a ela? Quem me conduzirá e nela me introduzirá, para que nela eu vos veja? E depois, com que sinais e sob que aspecto vos devo procurar? Nunca vos vi, Senhor meu Deus, não conheço a vossa face.

Que pode fazer, altíssimo Senhor, que pode fazer este exilado longe de vós? Que pode fazer este vosso servo, sedento do vosso amor, mas tão longe da vossa presença? Aspira ver-vos, mas vossa face se esconde inteiramente dele. Deseja aproximar-se de vós, mas vossa morada é inacessível. Aspira encontrar-vos, mas não sabe onde estais. Tenta procurar-vos, mas desconhece a vossa face.

Senhor, vós sois o meu Deus, o meu Senhor, e nunca vos vi. Vós me criastes e redimistes, destes-me todos os meus bens e ainda não vos conheço. Fui criado para vos ver e ainda não fiz aquilo para que fui criado.

E vós, Senhor, até quando? Até quando, Senhor, nos esquecereis, até quando nos ocultareis a vossa face? Quando nos olhareis e nos ouvireis? Quando iluminareis os nossos olhos, e nos mostrareis a vossa face? Quando voltareis a nós?

Olhai-nos, Senhor, ouvi-nos, mostrai-vos a nós. Dai-nos novamente a vossa presença para sermos felizes, pois sem vós somos tão infelizes! Tende piedade dos rudes esforços que fazemos para alcançar-vos, nós que nada podemos sem vós.

Ensinai-me a vos procurar e mostrai-vos quando vos procuro; pois não posso procurar-vos se não me ensinais nem encontrar-vos se não vos mostrais. Que desejando eu vos procure, procurando vos deseje, amando vos encontre, e encontrando vos ame.

(Excertos da obra 'Proslógion', de Santo Anselmo)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

O ESPÍRITO DA CRUZ

Irmãos, há muito tempo que não me vedes aqui; não venho aqui com frequência. Vou falar-vos de uma coisa da qual nunca falei, nem aqui, nem algures. E essa coisa desejo-a a todos; sei bem que o meu desejo não chegará a todos. Vou falar-vos do espírito da Cruz.

Quando o Bom Deus cria um corpo humano, dá-lhe uma alma, é um espírito humano; quando o Bom Deus dá a uma alma a graça do batismo, ela tem o espírito Cristão. O espírito da Cruz é uma graça de Deus. Há a graça que faz apóstolos, e assim por diante. O que é o espírito da Cruz?

O espírito da Cruz é uma participação do próprio espírito de Nosso Senhor levando a sua Cruz, pregado à Cruz, morrendo na Cruz. Nosso Senhor amava a sua Cruz, desejava-a. Que pensava Ele levando a sua Cruz, morrendo na Cruz? Há aí grandes mistérios: quando se tem o espírito da Cruz, entra-se na inteligência destes mistérios. Existem poucos Cristãos com o espírito da Cruz, vêm-se as coisas de modo diferente do comum dos homens.

O espírito da Cruz ensina a paciência; ensina a amar o sofrimento, a fazer sacrifícios. Quando se tem o espírito da Cruz, é-se paciente, ama-se o sofrimento, fazem-se generosamente os sacrifícios que o Bom Deus nos pede. Quer-se a vontade de Deus, e ama-se; acha-se bem o que nos pede.

Os santos queixavam-se muito a Deus que Ele não lhes dava bastante sofrimento; desejavam sofrer. Por que? Porque no sofrimento se pareciam mais com Nosso Senhor. Na vida de Santa Isabel da Hungria, é dito que, depois de a terem despojado de todos os seus bens, ainda a expulsaram de casa: quando viu que nada mais possuía, foi aos Frades Menores mandar cantar um Te Deum para agradecer a Deus por lhe ter tirado tudo. Tinha o espírito da Cruz.

A Imitação diz alguma coisa do que faz o espírito da Cruz: ama mais ter menos do que mais, ama mais estar em baixo do que em cima. Ama ser desprezado. É isto o espírito da Cruz; por isso, é muito raro. Não o tendes muito, o espírito da Cruz. Posso bem dizer-vo-lo, há muito tempo que vos conheço, desde que estou convosco. Tende-lo menos do que o tivestes outrora.

Logo que tendes algum sofrimento, depressa dizeis: 'Meu Deus, livrai-me disto, livrai-me disto'; fazeis novenas para vos libertardes. É preciso amar um pouco mais o sofrimento, e não pedir tão depressa para se ver livre dele. Se tivésseis o espírito da Cruz, veríamos muitas coisas que não vemos; e há as que vemos, que talvez não víssemos.

É preciso ter um pouco mais do espírito da Cruz; é preciso pedi-lo. Tratemos de amar a Cruz, de amar a vontade de Deus.

(Excertos do último sermão do Padre Emmanuel-André, proferido em 14 de setembro de 1902)

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

7 QUESTÕES SOBRE O NATAL CRISTÃO


I. O que significa celebrar o Natal?

Significa celebrar na Liturgia, memorial do culto cristão, instituído por Jesus nosso Senhor, o mistério e a graça da sua piedosa Vinda, da sua graciosa Manifestação na nossa natureza humana e no nosso mundo, cumprindo as promessas feitas por Deus a Israel.

II. O que é esse Memorial instituído pelo Senhor?

No Israel da Antiga Aliança, toda a obra salvífica do Senhor era celebrada anualmente nas festas instituídas pelo Senhor Deus: a Páscoa, Pentecostes, as Tendas, o Kippur, a Dedicação do Templo... Tudo isto preparava para o Cristo nosso Senhor. Ele veio, realizou a salvação e na noite em que foi entregue, instituiu o Sacramento do seu Corpo e do seu Sangue, Memorial sagrado de tudo quanto Ele fez por nós, cumprindo tudo quanto Deus havia prometido.

Assim, no Sacramento da Ceia, no santo Sacrifício Eucarístico, toda a salvação torna-se presente: a criação do mundo, a história santa do antigo Israel, os atos e gestos salvíficos do Senhor, as graças dadas aos cristãos, a vida da Igreja e até mesmo a sua Vinda no final dos tempos. Na Liturgia, pela força potente do Santo Espírito do Cristo imolado e ressuscitado, tudo, tudo absolutamente, em Cristo Senhor, torna-se contemporaneamente, simultaneamente presente, de modo que, para um cristão, celebrar os santos mistérios litúrgicos é entrar realmente e verdadeiramente em contato com o Mistério da nossa salvação e com cada um dos mistérios especificamente. Na Liturgia, toda a obra da salvação é-nos dada realmente: 'Fazei isto em memória  = memorial ou zikaron, isto é, celebração ritual, eficaz e presentificante ) de Mim!'

III. O Natal é, então, celebração do quê?

É real e verdadeira celebração da Manifestação, da Vinda do Senhor na nossa carne mortal. Celebrar a Eucaristia no Natal é tornar realmente presente sobre o Altar como oferta ao Pai no Espírito Santo o Cordeiro imolado e ressuscitado no Qual tudo, absolutamente tudo da nossa salvação se encontra presente! Cristo é tudo, resume tudo, sintetiza tudo, atrai tudo, realiza tudo! Nele, eucarístico, está a criação do mundo; nele, toda a história de Israel; nele o Natal; nele a Páscoa; nele a vida da Igreja; nele a Glória dos santos; nele o Dia Final, na consumação de tudo!

Cada mistério da nossa fé que celebramos na Liturgia coloca-nos realmente, verdadeiramente em contato com a graça que nos veio daquele mistério. Qem celebra as Eucaristias do tempo sagrado do Natal entra em contato real com a graça da Vinda do Salvador! Este é um luxo, uma graça, uma elegância de Deus que somente recebe quem participa da Liturgia e só na Liturgia é dado!

IV. O Natal é o aniversário de Jesus?

De modo algum! Jamais a Igreja pensou numa coisa dessas! Na Liturgia não se diz: Jesus nasceu há 2000 anos! Diz-se: 'Hoje nasceu para vós um Salvador: Cristo, o Senhor!' A Liturgia, na potência do Espírito, coloca-nos no Hoje de Deus, coloca-nos em contato direto com a graça salvífica do acontecimento que, ocorrido uma vez por todas no passado, torna-se eternamente presente na Glória do Céu, em Cristo, único e eterno sacerdote, que na Tenda eterna do Céu ministra a Liturgia eterna que torna-se presente sobre o Altar da Igreja!

No Natal nunca, de modo algum, por motivo algum, deve-se cantar 'Parabéns' para Jesus! Seria algo totalmente contrário ao significado do Natal cristão!

V. Cristo nasceu no dia 25 de dezembro?

Não, com certeza. E os cristãos sempre souberam disso! Desde o início, esta festa é celebrada em datas diferentes pela Igreja no Oriente e no Ocidente: no Oriente, a 6 de janeiro; no Ocidente, a 25 de dezembro.

Eis os motivos do 25 de dezembro: Segundo antigas tradições, o mundo teria sido criado no dia 25 de março. Neste dia também se celebrava a Festa da Anunciação de Gabriel à Virgem Maria, início da recriação de todas as coisas em Cristo: Ele, vindo ao nosso mundo no seio da Virgem, recriou o mundo envelhecido e caduco pelo pecado. Assim, o 25 de dezembro ocorre nove meses após a celebração da concepção.

Mas, há outro motivo. Depois de o cristianismo já ter se espalhado no Império Romano e os imperadores terem aceitado a fé cristã, surgiu um que apostatou da fé e quis restaurar o paganismo em Roma: Juliano, o Apóstata! Ele fez o possível para restaurar a festa do deus Sol Vencedor em Roma, que ocorria no dia 25 de dezembro, solstício do inverno. Exatamente a época em que o sol começa a ficar mais forte e fazer os dias começarem a ficar mais longos, vencendo o frio e as trevas do inverno. Esta seria a vitória do deus sol sobre as trevas!

Os cristão reagiram fortemente, celebrando aí não o deus sol, mas o verdadeiro Sol da justiça, Luz do Alto que nos veio visitar, vencendo as trevas da idolatria, do pecado e da morte! O verdadeiro Sol Invicto é o Cristo nosso Deus, que vindo à nossa terra, tudo iluminou com a sua piedosa Manifestação. Assim, a data do Natal estabeleceu-se de vez no século IV para toda a Igreja do Oriente e do Ocidente. No dia 6 de janeiro, a Igreja passou a celebrar a Epifania do Senhor. 

VI. Seria realmente errado ver o Natal como aniversário de Jesus?

Totalmente. Comemora-se o aniversário contando os dias de acontecimentos ou pessoas neste tempo. Jesus é o Senhor, entrou na Eternidade, é Senhor do tempo; não mais está preso ao nosso tempo, mas preenche todos os tempos: 'A Ele o tempo e a eternidade'!' - diz a Igreja na Vigília Pascal. 

Comemora-se o aniversário de alguém para festejar sua entrada nesta vida. Jesus entrou nesta vida, neste mundo, por humilhação, por esvaziamento de si mesmo: sendo rico fez-se pobre, sendo Deus fez-se homem, sendo Senhor fez-se servo para nos salvar. Na verdade o nascimento de Jesus segundo a carne é um gesto de humildade e humilhação por amor!

O nascimento definitivo para um cristão é o nascimento para a Glória: dos santos, celebra-se não o dia do nascimento para este mundo, mas o Die Natalis para o Céu, o dia da morte para este mundo.

E o mais importante: nenhuma celebração da Liturgia é de aniversário; nunca é uma recordação do passado que ficou lá trás, mas é um tornar-se realmente presente de um fato ou evento salvífico que se torna atual e atuante na vida dos que celebram os santos mistérios na Liturgia. 

VII. O que é essencial para um cristão celebrar o Natal?

O que é essencial para qualquer festa cristã: participar da santa Liturgia eucarística. É na Eucaristia que todo o mistério da nossa fé, o mistério da nossa salvação, da criação à Parusia do Senhor, faz-se presente: 'Eis o Mistério da fé!' Isto é: ali, no Cordeiro imolado e ressuscitado, tudo faz-se contemporâneo na potência do Espírito! Na Eucaristia, tudo é celebrado na vida cristã e na vida do cristão! Sem a participação na Eucaristia é impossível ser cristão plenamente!

(Dom Henrique Soares da Costa, então Bispo de Palmares/PE)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

SOBRE A VIRTUDE DA PENITÊNCIA

Certas almas, mesmo piedosas, ao ouvir a palavra penitência ou mortificação, que exprimem a mesma ideia, experimentam às vezes um sentimento de repulsa. De onde isso provém? Não deve surpreender-nos; tal sentimento tem uma origem psicológica. A nossa vontade busca necessariamente o bem em geral, a felicidade, ou algo que parece sê-lo. Pois bem, a mortificação que refreia algumas das tendências dos nossos sentidos, alguns dos nossos desejos mais naturais, aparece a tais almas como algo contrário à felicidade, daí, pois, esta repugnância instintiva na presença de tudo o que constitui a prática da renúncia de si mesmo. 

Além disso, vemos muitas vezes na mortificação um fim, quando não é mais do que um meio, meio necessário sem dúvida, indispensável, mas afinal meio. Não minimizamos o Cristianismo, ao reduzir a papel de meio a renúncia de si mesmo. O Cristianismo é um mistério de morte e de vida, mas a morte não tem outro objetivo senão o de salvaguardar a vida divina em nós: 'Não é Deus de mortos, mas de vivos'. 'Cristo, ao morrer, destruiu a morte, e ao ressuscitar, restituiu-nos a vida' (Prefácio da Missa da Páscoa). A obra essencial do Cristianismo, o fim último que persegue por si só, é uma obra de vida; o Cristianismo é a reprodução da vida de Cristo na alma. 

Assim, como já vos disse, a existência de Cristo oferece este duplo aspecto: 'entregou-se à morte pelos nossos pecados, ressuscitou a fim de nos comunicar a vida da graça' (Rm 4,25). O cristão morre a tudo o que é pecado, para viver mais intensamente da vida de Deus; a penitência, consequentemente, não é, em princípio, senão um meio para conseguir a vida. São Paulo notou isso muito bem quando disse: 'Levai sempre nos vossos corpos a mortificação de Jesus, para que a vida de Jesus se manifeste em nós' (2Cor 4,10). 

Que a vida de Cristo, que tem o seu princípio na graça e a sua perfeição no amor, aumente sempre em nós: esse é o objetivo e não há outro. Para conseguir isso, é necessária a mortificação; por isso, diz São Paulo: 'Os que pertencem a Cristo, em cujo número, pelo nosso batismo, nos contamos, crucificam a sua carne com os seus vícios e concupiscências' (Gl 5,24). E em outro lugar, diz ainda com linguagem mais explícita: 'Se viverdes segundo os instintos da carne, fareis morrer em vós a vida da graça; mas se mortificardes as vossas más inclinações, vivereis uma vida divina' (Rm 8,13).

(Excertos da obra 'Jesus Cristo, Vida da Alma, de Dom Columba Marmion)

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

CARTAS DO CLAUSTRO



Madre Maria José de Jesus nasceu em 1882, sob o nome de batismo de Honorina de Abreu, sendo a filha primogênita do historiador Capistrano de Abreu. Perdeu a mãe aos 9 anos. Em janeiro de 1911, aos 29 anos de idade, decidiu afastar-se da vida mundana para assumir a rigorosa vida monástica no Convento de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, onde viveu por 48 anos, até a sua morte, em 1959.

Madre Maria José de Jesus falava sete idiomas, entre eles o latim. Traduziu para o português as obras completas de Santa Teresa d'Ávila e a Imitação de Cristo de Tomás de Kempis. Foi priora do Carmelo de Santa Teresa por 27 anos, espaçados em 9 triênios, época em que liderou um importante processo de renovação dos costumes monásticos e fundação de novos conventos. Atualmente é considerada Serva de Deus pela Igreja Católica em vista dos trâmites que buscam sua beatificação.

A opção religiosa promoveu um sensível desgosto e desaprovação no pai, de formação racionalista e agnóstico, como ele mesmo confidenciou ao amigo Mário de Alencar, em carta datada de 18 de janeiro de 1911:

Acho porém o caso dela pior que a morte: a morte é fatal; chega a hora inadiável; em resoluções como a de agora há sempre a crença, certamente errônea, de que o desenlace podia ser outro, e é isto que dói. Só agora vejo como a queria. Passo os dias sem sair, pensando nela, joguete dos sentimentos mais contraditórios, desde a indignação até as lágrimas. Só com os filhos, à hora do jantar, converso sobre ela. O receio de que qualquer estranho se possa referir ao assunto dá-me arrepios... Mas basta de Honorina. Peço-lhe que nunca mais se refira a e te assunto, se eu em primeiro lugar não o abordar.

A correspondência constituía-se no único meio possível para uma comunicação entre pai e filha, pois Capistrano, contrário ao ingresso de Honorina na vida religiosa, mostrava-se irredutível em não mais retornar ao Convento de Santa Teresa. Nas cartas enviadas ao pai, Madre Maria José buscava confortá-lo pela dor sofrida com a separação imposta pelo claustro, assegurando-lhe ter alcançado a felicidade pessoal, como nesta carta de 10 de janeiro de 1925:

Ah, meu pai, o amor paterno é essencialmente desinteressado, por isso não lamente a dor que lhe causei, porque foi a minha felicidade neste mundo e espero que também no outro. Seu sacrifício foi bem recompensado ... Creia, meu bom pai, que me sinto tão feliz na vida religiosa que constantemente estou dizendo comigo mesma: se eu, em vez de ser uma, fosse mil, não deixaria um só dos meus eus no mundo, consagraria todos a Deus; e o mesmo digo se fosse milhões e milhões, quer de mulheres, quer de homens, e ainda que tivesse segura a salvação eterna, fosse qual fosse o estado que abraçasse. Veja, meu querido pai, que sua filha está contente, e fique também contente, pois a felicidade dos filhos é a felicidade dos pais.

Mas é a conversão do pai à fé católica que vai mover Honorina em orações, devoções e pedidos diretos feitos ao pai, por meio de cartas sucessivas e recorrentes ao tema em 1913, 1914, 1917, 1919, 1923, 1924, 1925 (foram 4 cartas abordando o assunto), 1926 e 1927 (mais duas cartas).

Meu Pai tenho duas coisas a pedir-lhe, ambas espirituais. A primeira é que se aliste na Confraria de Nossa Senhora das Vitórias, que há no Colégio dos Jesuítas. O Pe. Semadini disse-me que eu o convidasse. As obrigações são só dar o nome e rezar uma Ave-Maria todos os dias. Ora, eu tenho confiança que por essa Ave-Maria, V. se venha a converter, como a tantos outros tem acontecido (11 de agosto de 2013)

Não há [nada] como a devoção a Nossa Senhora. Eu, enquanto não amei a esta boa mãe, vivi uma vida péssima, e, se não perdi minha alma, foi porque Nosso Senhor, em sua misericórdia, me conservou a vida; logo que a ela recorro, tudo o que me parecia impossível se me tornou fácil e suave, e eu não só pude viver como boa cristã, mas logo aspirei à perfeição da vida religiosa. Desde então sempre tenho amado a minha Mãe do Céu o mais possível. A Ela recorro em tudo, e Ela me tem valido sempre. Experimente, meu querido Pai, e verá como Maria se mostrará Mãe de Deus pela sua onipotência, e Mãe nossa pelo seu amor.

Eu conheci alguma coisa do que o mundo em sua inexperiência da verdadeira felicidade chama prazer, goro, alegria, e louvo infinitos milhões de vezes a Misericórdia Divina que em sua predileção gratuita para comigo não me deixou conhecer mais; entretanto, eu digo, mil vezes mais feliz fui chorando meus pecados com tanta dor, que o coração quase se me partia, do que nos concertos, nos teatros, nos passeios, nessas diversas vaidades que enleiam o espírito mas não lhe dão verdadeira felicidade [...] Quantas vezes me tem acontecido dormir apenas poucas horas durante a noite e de madrugada, quando o corpo mais precisado estava de descanso, ser despertada pela matraca e pular da cama logo com grande alegria, feliz de começar o dia com sacrifício. Como é feliz nossa vida toda de sacrifício, de silêncio, de oração! Não me canso de louvar a Deus que tão misericordiosamente me escolheu para tanto bem, e peço à Sua Divina Majestade que algum dia toda a minha família partilhe a mesma felicidade de conhecer, amar e servir a Deus (23 de outubro de 1917)

Não fique aborrecido comigo e permita que lhe peça, meu bom Pai, que ao menos reze todos os dias, de manhã e de noite, uma Ave-Maria encomendando a Nossa Senhora a hora de sua morte (24 de fevereiro de 1925).

Capistrano de Abreu morreu em 13 de agosto de 1927, no Rio de Janeiro, sem ter-se convertido à fé católica, a despeito de todos os esforços e sacrifícios de Honorina em favor de sua conversão. Tamanhas divergências com o pai, deixaram Madre Maria José profundamente pesarosa, mas nem assim a religiosa arrefeceu em sua esperança. No mesmo dia em que o pai faleceu, Madre Maria José escreveu à sua irmã Matilde, indicando os fundamentos de seu consolo: 

Agora, vamos rezar muito por nosso Paizinho, não é, Matilde, na certeza de que Nosso Senhor não deixou de atender a tantos sacrifícios feitos por ele durante tantos anos e principalmente nestes últimos dias (13 de agosto de 1927). 

(com excertos do artigo 'Cartas do Claustro', de Virgínia Buarque, 2004)

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

SOBRE A JUSTIÇA E A MISERICÓRDIA

A fortaleza da qual tenho te falado é a Santa Igreja, que construí com meu próprio sangue e o dos santos. Eu mesmo a cimentei com minha caridade e depois coloquei nela meus eleitos e amigos. Seu fundamento é a fé, ou seja, a crença em que sou um Juiz justo e misericordioso. Este fundamento tem sido agora deturpado porque todos creem e pregam que sou misericordioso, mas quase ninguém crê que Eu seja um Juiz justo. Consideram-me um juiz iníquo. 

De fato, um juiz seria iníquo se, à margem da misericórdia, deixasse os maus sem castigo de forma que pudessem continuar oprimindo os justos Eu, porém sou um Juiz justo e misericordioso e não deixarei que o mínimo pecado fique sem castigo nem que o menor bem fique sem recompensa. Pelos buracos perfurados no muro, entram na Santa Igreja pessoas que pecam sem medo, que negam que Eu seja justo e atormentam meus amigos como se os cravassem em estacas. 

A estes meus amigos não se dá alegria nem consolo. Pelo contrário, são castigados e injuriados como se fossem demônios. Quando dizem a verdade sobre mim, são silenciados e acusados de mentir. Eles anseiam com paixão ouvir ou falar a verdade, mas não há ninguém que os escute nem quem lhes diga a verdade. Além disso, Eu, Deus Criador, estou sendo blasfemado. As pessoas dizem: 'Não sabemos se Deus existe. E, se existe, não nos importa'. Jogam no chão minha doutrina e a pisoteiam dizendo: 'Por que sofreu? Em que nos beneficia? Se cumpre nossos desejos estaremos satisfeitos, que mantenha Ele o seu reino no Céu!'

Quando quero achegar deles, dizem: 'Antes morrermos que submetermos a Vós a nossa vontade!' Dá-te conta, esposa minha, que tipo é essa gente? Eu os criei e posso destruí-los com uma palavra! Que soberbos são para comigo! Graças aos rogos de minha Mãe e de todos os santos, permaneço misericordioso e tão paciente que estou desejando enviar-lhes palavras da minha boca e oferecer-lhes misericórdia. Se a quiserem aceitar, terei compaixão Do contrário, conhecerão minha justiça e, como ladrões, serão publicamente envergonhados diante dos anjos e dos homens e condenados por cada um deles. 

Como os criminosos são colocados nas forcas e devorados pelos corvos, assim eles serão devorados pelos demônios, mas não serão consumidos. Como as pessoas amarradas em cepos não podem descansar, eles padecerão dor e amargura em todas as partes. Um rio de fogo entrará por suas bocas, mas seus estômagos não serão saciados e sua sede e suplício se reavivarão a cada dia. Porém, meus amigos estarão a salvo, e serão consolados pelas palavras que saem de minha boca. Eles verão minha justiça junto de minha misericórdia. Revesti-los-ei com as armas do meu amor, que os tornarão tão fortes que os adversários da fé se desmancharão diante deles como barro; quando virem minha justiça, cairão em vergonha perpétua por haverem abusado de minha paciência.

(Excertos da obra 'As Profecias e Revelações de Santa Brígida da Suécia')

terça-feira, 11 de novembro de 2025

'MESMO QUE APENAS UM SEJA SALVO...'

Que a Fé dos nossos Pais seja proposta àqueles que estão enganados, mas de boa vontade, com toda ternura e caridade. Se eles concordarem, recebamo-los em nosso meio. Se eles não concordarem, habitemos sozinhos, independentemente de números; e mantenhamo-nos afastados de almas equivocadas, que não possuem aquela simplicidade sem dolo, indispensavelmente necessária nos primeiros dias do Evangelho.

Os crentes, como está escrito nas Escrituras, tinham apenas um coração e uma alma. Portanto, aqueles que nos censuram por não desejar a pacificação, marquem bem quem são os verdadeiros autores da perturbação. Que eles não peçam mais reconciliação de nossa parte.

A todo argumento especioso que pareça aconselhar silêncio de nossa parte, opomos este outro argumento, a saber, que a caridade não conta como nada, nem seus próprios interesses nem as dificuldades dos tempos. Mesmo que nenhum homem esteja disposto a seguir nosso exemplo, o que fazer então? Devemos abandonar o dever somente por essa razão? Na fornalha ardente, os filhos do cativeiro da Babilônia entoaram seu cântico ao Senhor, sem fazer nenhuma avaliação da multidão que deixou a verdade de lado. Eles eram suficientes um para o outro, apenas três como eles eram!

Então, animem-se! sob cada golpe, renovem-se no amor; deixem seu zelo ganhar força a cada dia, sabendo que em vocês devem ser preservados os últimos resquícios de piedade que o Senhor, em seu retorno, pode encontrar na terra. 

Não deem atenção ao que a multidão pode pensar, pois um mero sopro de vento é suficiente para balançar a multidão para frente e para trás, como a onda ondulante. Mesmo que apenas um fosse salvo, como no caso de Ló de Sodoma, não seria lícito para ele se desviar do caminho da retidão, meramente porque ele descobre que ele é o único que está certo. Não; ele deve ficar sozinho, impassível, mantendo firme sua esperança em Jesus Cristo.

(São Basílio de Cesaréia)

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

O MAIOR DE TODOS OS PECADOS

Se odiássemos o pecado como deveríamos odiá-lo; puramente, profundamente, valentemente, deveríamos fazer mais penitência, infligir em nós próprios maiores castigos, deveríamos chorar os nossos pecados mais abundantemente. Pois a suprema deslealdade para com Deus é a heresia. É o pecado dos pecados, a mais repugnante das coisas que Deus desdenha neste mundo enfermo. No entanto, quão pouco entendemos da sua enorme odiosidade! É a poluição da verdade de Deus, o que é a pior de todas as impurezas.

Porém, quão pouca importância damos à heresia! Fitamo-la e permanecemos calmos... Tocamo-la e não trememos. Misturamos-nos com ela e não temos medo. Vemo-la tocar nas coisas sagradas e não temos nenhum sentido do sacrilégio. Inalamos seu odor e não mostramos qualquer sinal de abominação ou de nojo. Entre nós, alguns simpatizam com ela e alguns até atenuam a sua culpa. Não amamos a Deus o suficiente para nos enraivecermos por causa da sua glória. Não amamos os homens o suficiente para sermos caridosamente verdadeiros por causa das suas almas.

Tendo perdido o tato, o paladar, a visão e todos os sentidos das coisas celestiais, somos capazes de morar no meio desta praga odiosa, impertubavelmente tranquilos, reconciliados com a sua repulsividade, e não sem proferirmos declarações em que nos gabamos de uma admiração liberal, talvez até com uma demonstração solícita de simpatia tolerante.

Por que estamos tão abaixo dos antigos santos, e até dos modernos apóstolos destes últimos tempos, na abundância das nossas conversões? Porque não temos a antiga firmeza! Falta-nos o velho espírito da Igreja, o velho gênio eclesiástico. A nossa caridade não é sincera porque não é severa, e não é persuasiva porque não é sincera.

Falta-nos a devoção à verdade enquanto verdade, enquanto verdade de Deus. O nosso zelo pelas almas é fraco, porque não temos zelo pela honra de Deus. Agimos como se Deus ficasse lisonjeado pelas conversões, e não pelas almas trêmulas, salvas por uma abundância de misericórdia.

Dizemos aos homens a metade da verdade, a metade que melhor convém à nossa própria pusilanimidade e aos seus próprios preconceitos. E, então, admiramo-nos que tão poucos se convertam e que, desses tão poucos, tantos apostatem.

Somos tão fracos a ponto de nos surpreendermos que a nossa meia-verdade não tenha tanto sucesso como a verdade completa de Deus. Onde não há ódio à heresia, não há santidade. Um homem, que poderia ser um apóstolo, torna-se uma úlcera na Igreja por falta de reta indignação.

(Excertos da obra 'O Preciosíssimo Sangue ou o Preço da Nossa Salvação', do Pe. Frederick William Faber)

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

A ETERNIDADE DE DEUS


'O que é o tempo de Deus?' Aqueles que isto perguntam ainda não te compreendem, ó sabedoria de Deus (Ef 3,10), ó luz das mentes - ainda não compreendem como são feitas as coisas que por meio de ti e em ti são feitas, e esforçam-se por saborear as realidades eternas, mas o seu coração esvoaça ainda nos movimentos passados e futuros das coisas, continuando vazio (Sl 5,10). 

Quem poderá deter o tempo e fixá-lo, a fim de que ele pare e por um momento capte o esplendor da eternidade sempre fixa, e a compare com os tempos nunca fixos, e veja que a eternidade é incomparável, e veja que um longo tempo não é longo senão a partir de muitos momentos que passam e não podem alongar-se simultaneamente; veja, pelo contrário, que, no que é eterno, nada é passado, mas tudo é presente, enquanto nenhum tempo é todo ele presente: e veja que todo o passado é obrigado a recuar a partir do futuro, e que todo o futuro se segue a partir de um passado, e que todo o passado e futuro são criados e derivam daquilo que é sempre presente? Quem poderá deter o coração do homem, a ponto de ele parar e ver como a eternidade, que é fixa, nem futura nem passada, determina os tempos futuros e passados? Será que, porventura, a minha mão consegue (Gn 31,29) isto, ou que a minha boca, que se manifesta falando, realiza tão grande intento?

E tu não precedes os tempos com o tempo: se assim fosse, não precederias todos os tempos. Mas precedes todos os passados com a grandeza da tua eternidade sempre presente, e superas todos os futuros porque eles são futuros, e quando eles chegarem, serão passado; tu, porém, és o mesmo e os teus anos não têm fim (Sl 101,28; Hb 1,12). Os teus anos não vão nem vêm: os nossos vão e vêm, para que todos venham. Os teus anos existem todos ao mesmo tempo, porque não passam, e os que vão não são excluídos pelos que vêm, porque não passam: enquanto os nossos só existirão todos, quando todos não existirem. 

Os teus anos são um só dia (Sl 89,4; 2Pe 3,8) e o teu dia não é todos os dias, mas um ‘hoje’, porque o teu dia de hoje não antecede o de amanhã; pois não sucede ao de ontem. O teu hoje é a eternidade: por isso, geraste co-eterno contigo aquele a quem disseste: 'Eu hoje te gerei' (Sl 2,7; At 13,33; Hb 1,5; 5,5). Tu fizeste todos os tempos e tu és antes de todos os tempos, e não houve tempo algum em que não havia tempo.

(Do Livro das Confissões, de Santo Agostinho)