Mostrando postagens com marcador Textos Católicos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Textos Católicos. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 19 de maio de 2026

'APASCENTA-ME SENHOR E APASCENTA-TE COMIGO'

Tu, Senhor, me tiraste das entranhas do meu pai; tu me formaste no ventre da minha mãe; tu me fizeste nascer menino e nu, pois as leis da natureza seguem os teus mandamentos.

Com a bênção do Espírito Santo, preparaste a minha criação e a minha existência, não por vontade de homem, nem por desejo carnal, mas por uma tua graça inefável. Previste o meu nascimento com um cuidado superior ao das leis naturais; pois me trouxeste à luz, adotando-me como teu filho, e me contaste entre os filhos da tua Igreja santa e imaculada.

Alimentaste-me com o leite espiritual de teus ensinamentos divinos. Nutriste-me com o alimento vigoroso do corpo de Cristo, nosso Deus, teu santo Unigênito, e embriagaste-me com o cálice divino, ou seja, com seu sangue vivificante, que Ele derramou pela salvação do mundo inteiro.

Porque tu, Senhor, nos amaste e entregaste o teu único e amado Filho para a nossa redenção, que Ele aceitou voluntariamente, sem repugnância; mais ainda, visto que Ele mesmo se ofereceu, foi destinado ao sacrifício como cordeiro inocente, porque, sendo Deus, fez-se homem e, com a sua vontade humana, submeteu-se, tornando-se obediente a ti, Deus, seu Pai, até à morte, e uma morte na cruz.

Assim, ó Cristo, meu Deus, humilhaste-te para me carregar sobre os teus ombros, como uma ovelha perdida, e me apascentaste em pastos verdes; alimentaste-me com as águas da verdadeira doutrina por intermédio dos teus pastores, a quem tu mesmo alimentas para que, por sua vez, alimentem o teu rebanho eleito e sublime.

Pela imposição das mãos do bispo, chamaste-me para servir aos teus filhos. Ignoro por que razão me escolheste; só tu o sabes. Mas tu, Senhor, alivia o pesado fardo dos meus pecados, com os quais gravemente te ofendi; purifica o meu coração e a minha mente. Conduz-me pelo caminho reto, tu que és uma lâmpada que ilumina.

Coloca as tuas palavras nos meus lábios; dá-me uma linguagem clara e fácil, por meio da língua de fogo do teu Espírito, para que a tua presença sempre vigie.

Apascenta-me, Senhor, e apascenta-te comigo, para que o meu coração não se desvie nem para a direita nem para a esquerda, mas que o teu Espírito bom me conduza pelo caminho reto e as minhas obras se realizem segundo a tua vontade até o último momento.

E tu, cume resplandecente da mais íntegra pureza, excelente congregação da Igreja, que esperas a ajuda de Deus, tu, em quem Deus repousa, recebe de nossas mãos a doutrina imune a todo erro, tal como nos foi transmitida por nossos Padres, e com a qual a Igreja se fortalece. 

(São João Damasceno, Da Declaração da Fé)

terça-feira, 12 de maio de 2026

'O SALÁRIO DO PECADO É A MORTE'

'Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor' (Rm 6,23)

Uma característica comum aos santos da Igreja é uma percepção confortadora de uma experiência prévia do Céu já aqui nesta vida. Não se trata ainda da visão plena e eterna prometida aos bem-aventurados, mas de uma antecipação das primícias eternas, algo como a contenplação suave dos primeiros raios do amanhecer antes do esplendor de uma bela manhã radiante de sol.

Assim, na oração, na vida cotidiana, no recolhimento interior, cada instante de verdadeira paz, cada experiência profunda de amor, cada encontro sincero com Deus já pertence, de algum modo, à eternidade. Quando a alma se despoja de si no encontro com Deus, experimenta, no influxo do amor divino, a graça de viver aqui na terra um arrimo de promessa das bem aventuranças eternas.

Do mesmo modo - em confrontação diametral - os estertores do inferno se reproduzem como fungos diabólicos no coração dos homens destinados à perdição eterna, arautos de um ódio mortal, indescritível e recorrente contra tudo que norteia e sempre moldou a civilização cristã. Inventem-se os ressignificados, mascarem-se as narrativas, sucateiem a verdade com especulações grotescas e doentias, mas tudo se resume e se impõe em nome do ódio que antecipa o próprio inferno. Não adianta tratativas, argumentos ou furiosas contestações: o coração humano é entojado na miséria dos instintos; a alma é assombrada e submersa num turbilhão de iniquidades, contra tudo e contra todos que se levantam em nome de valores cristãos, morais e religiosos.

Estamos afundados num mar de lama porque o ódio e a iniquidade que aí estão e nos vitimizam são as meras sementes ensandecidas do que há de se colher como joio e espinheiros nas vinhas da eternidade. Se não fosse assim, o inferno seria uma ficção ou estaria irremediavelmente vazio. Esse desvario e esse padrão de insensatez e loucura, que nos rodeiam, demonstram algo absolutamente oposto e terrível, e que apenas preanunciam o veredito das Escrituras de que 'o salário do pecado é a morte' (Rm 6,23). É preciso ter isso em mente, impõe-se subtrair-se desse jogo perverso, é mais do que nunca necessário entender que a nossa vida é simplesmente uma antecipação da vida futura porque 'o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor' (Rm 6,23).

segunda-feira, 11 de maio de 2026

OS DEZ MANDAMENTOS DAS PRÁTICAS DA HUMILDADE

I

Abre os olhos da tua alma e pensa que nada tens para te mover a alguma estima de ti. De teu só tens o pecado, a debilidade, a fraqueza; e quanto aos dons da natureza e da graça que estão em ti, assim como os recebeste de Deus, que é o princípio de todo ser, assim só a Ele deves dar glória.

II

Concebe por isso um profundo sentimento do teu nada, e fá-lo crescer constantemente no teu coração, apesar do orgulho que existe em ti. Intimamente, persuade-te de que não há no mundo coisa mais vã e ridícula que o desejo de ser estimado por alguns dons que recebemos da gratuita liberalidade do Criador, pois, como diz o Apóstolo, se os recebeste, por que te glorias como se fossem teus, e não os tivesses recebido? (1Cor 4,7).

III

Pensa frequentemente na tua fraqueza, na tua cegueira, na tua vileza, na tua dureza de coração, na tua inconstância, na tua sensualidade, na tua insensibilidade para com Deus, no teu apego às criaturas e em tantas outras viciosas inclinações que nascem da tua natureza corrompida. Sirva-te isto de grande motivo para te espantares continuamente no teu nada, e seres aos teus olhos o menor e o mais vil de todos.

IV

A memória dos pecados da tua vida passada esteja sempre impressa no teu espírito. Nenhuma outra coisa consideres tão abominável como o pecado da soberba, o qual, posto em comparação, vence qualquer outro, tanto sobre a terra como no inferno: este foi o pecado que fez prevaricar os anjos no Céu e os precipitou nos abismos; este foi o que corrompeu todo o gênero humano, e que fez cair sobre a terra aquela infinita multidão de males, que durarão enquanto durar o mundo, ou, melhor dizendo, durarão toda a eternidade.

Ademais, uma alma maculada pelo pecado só é digna de ódio, de desprezo e de suplícios; vê, portanto, que estima podes fazer de ti mesmo, depois de tantos pecados dos quais te tornaste culpado.

V

Considera também que não há delito, por enorme e detestável que seja, ao qual não se incline a tua natureza corrompida, e do qual não possas fazer-te réu; e que só pela misericórdia de Deus e pelo socorro das suas divinas graças foste dele livre até hoje, segundo aquela sentença de Santo Agostinho: 'Não haveria pecado no mundo que o homem não cometesse, se a mão que fez o homem deixasse de sustentá-lo (Arl. C. 15). Chora eternamente esse deplorável estado e toma a firme resolução de te incluíres entre os mais indignos pecadores.

VI

Pensa frequentemente que cedo ou tarde vais morrer e que o teu corpo apodrecerá numa fossa; tem sempre diante dos olhos o inexorável tribunal de Jesus Cristo, onde todos necessariamente devem comparecer; medita nas eternas penas do inferno preparadas para os maus, e principalmente para os imitadores de Satanás, que são os soberbos. Considera sinceramente que, por esse véu impenetrável que esconde aos olhos mortais os juízos divinos, estás na incerteza de pertencer ou não ao número dos réprobos, que eternamente, em companhia dos demônios, serão remetidos para aquele lugar de tormentos, para serem vítimas eternas de um fogo aceso pela ira divina. Esta incerteza deve bastar por si só para conservar-te numa extrema humildade e para inspirar-te o mais salutar temor.

VII

Não te iludas pensando que poderás conseguir a humildade sem aquelas práticas que a ela estão ligadas, como os atos de mansidão, de paciência, de obediência, de ódio contra ti, de renúncia ao teu sentimento e às tuas opiniões, de arrependimento dos teus pecados e outros atos semelhantes, porque somente estas armas poderão vencer em ti o reino do amor-próprio, aquele abominável terreno onde brotam todos os vícios, onde se aninham e crescem desmedidamente o teu orgulho e a tua presunção.

VIII

Tanto quanto possível, observa o silêncio e o recolhimento, desde que isso não cause prejuízo a outrem, e, quando fores obrigado a falar, fala sempre com gravidade, com modéstia e simplicidade. E se por acaso não fores ouvido, seja por desprezo ou por qualquer outra causa, não te mostres ressentido, mas aceita essa humilhação e sofre-a com resignação e tranquilidade.

IX

Com todo o cuidado e atenção, evita proferir palavras atrevidas, orgulhosas e que indiquem pretensão de superioridade, como também qualquer frase estudada e toda a sorte de gracejos frívolos; cala sempre tudo aquilo que puder fazer com que te considerem uma pessoa de espírito e digna da estima dos outros. Nunca fales de ti sem justo motivo e nada digas que possa granjear-te honra e louvor.

X

Cuida-te de não mortificar e ferir a outrem com palavras e sarcasmos; foge de tudo o que lembra o espírito mundano. Fala pouco das coisas espirituais e não o faças em tom magistral e à maneira de repreensão, a não ser que a isso sejas obrigado pelo teu cargo ou pela caridade: contenta-te com interrogar os que delas entendem e que sabes que te podem dar conselhos oportunos; porque o querer fazer-se de mestre sem necessidade é acrescentar lenha ao fogo da nossa alma, que se consome em fumaça de soberba.
(Papa Leão XIII)

terça-feira, 28 de abril de 2026

OS FRUTOS ATUAIS DA GRANDE APOSTASIA

De acordo com as palavras de São Paulo, 'haverá apostasia e o homem da iniquidade será revelado'. Em outras palavras, o Homem da Iniquidade nasce de uma apostasia ou pelo menos chega ao poder por meio de uma apostasia, ou é precedido por uma apostasia. Ou seja, ele não existiria se não fosse por uma apostasia. É isso que diz o texto inspirado; agora, observemos, como se pode ver na história, como o curso da Providência nos permite interpretar essa predição.

...Não há razões para temer que tal apostasia esteja sendo gradualmente preparada, se acumulando e amadurecendo em nossos dias? Não existe, neste exato momento, um esforço específico em quase todas as partes do mundo para se viver sem religião, mais ou menos evidente aqui e ali, mas mais visível e sedimenatdo nas regiões mais civilizadas e poderosas? Não há um consenso recente de que um estado não tem nada a ver com religião, que esta diz respeito apenas à consciência individual? O que equivale a dizer que podemos deixar a Verdade desaparecer da face da Terra sem fazer nada para impedi-la. Não existe um movimento vigoroso e unificado em todos os países com o objetivo de privar a Igreja de Cristo de seu poder e posição? Não existe um esforço febril e persistente para se livrar da necessidade da religião nos assuntos públicos? 

Por exemplo, a tentativa de abolir os juramentos sob o pretexto de serem demasiado sagrados para os assuntos do dia a dia, em vez de garantir que sejam proferidos de forma mais reverente e apropriada. Não haveria uma tentativa de educar sem religião, isto é, colocando todas as formas de religião no mesmo nível? Não haveria uma tentativa de reforçar a temperança e todas as virtudes que dela decorrem, sem religião, por meio de sociedades baseadas em meros princípios de utilidade? De ​​fazer da conveniência, e não da verdade, o fim e o padrão das decisões do Estado e da constituição das leis; de fazer dos números, e não da Verdade, o critério para defender ou rejeitar este ou aquele artigo de fé, como se as Escrituras fornecessem uma base para sustentar que muitos estão certos e poucos estão errados? 

De privar a Bíblia do seu significado primordial, para nos fazer pensar que ela tem cem significados, todos igualmente verdadeiros ou, por outras palavras, que ela não tem significado algum, que é letra morta e que pode ser desconsiderada? Substituir a religião como um todo, na medida em que é externa e objetiva, expressa em leis e palavras escritas, por algo meramente subjetivo, confinando-a aos nossos sentimentos internos e, assim, dada a sua instabilidade e variabilidade, destruindo, em última instância, a religião?

(Excertos de "Quatro Sermões sobre o Anticristo', proferidos pelo Cardeal John H. Newman em 1873!)

terça-feira, 21 de abril de 2026

QUANDO DEUS PUNE OS ÍMPIOS NESTA VIDA

A Providência Divina governa este mundo de tal maneira que não pune todos os ímpios nesta vida, mas não deixa de punir muitos deles. Se Deus punisse a todos, as pessoas poderiam imaginar que tudo acabou nesta vida, não restando nada para a próxima; e se Ele não punisse ninguém, poderiam imaginar que não há Providência para governar os assuntos humanos. Portanto, a Sabedoria Divina (que dirige todas as coisas para o bem de suas criaturas) pune algumas coisas severamente nesta vida, para que as pessoas vejam que a Providência existe (especialmente aquelas coisas tão extremas que elas mesmas clamam a Deus e imploram por vingança) e deixa outras impunes, para que entendamos que Ele reserva o seu castigo para a vida futura e que nem tudo se resolve nesta vida terrena.

Isso pode ser confirmado para alguns dos imperadores que perseguiram a Igreja, que receberam ainda aqui o que lhes era devido, particularmente durante a chamada Era dos Mártires. Assim, a divina Providência resplandece maravilhosamente, usando tiranos como ministros e instrumentos para estabelecer a Fé da sua Igreja com o sangue dos mártires e para adornar o Céu com esse glorioso exército. Pois se não houvesse tiranos, não haveria mártires; se não houvesse Décio, não haveria Lourenço. Se não houvesse Deciano, não haveria Vicente; e se não houvesse Herodes, não haveria mártires inocentes. Neste sentido, muitos reis e imperadores que martirizaram os santos da Igreja tiveram fins trágicos.

Herodes, para matar o Menino Jesus, matou os Inocentes, teve doença e morte foram terríveis;  após ter os olhos saltado das órbitas, em um banho, desesperado, apunhalou o próprio peito e se matou, depois de ter ordenado a morte do terceiro de seus filhos, após já ter matado dois deles (Antiguidades Judaicas, Flávio Josefo, Livro 16, Capítulo 13).

O segundo Herodes, que decapitou Tiago e aprisionou São Pedro, foi ferido por um anjo e morreu devorado vivo por vermes, como o próprio Josefo e São Lucas relatam. O terceiro perseguidor da Igreja (Idem, Livro 19, Capítulo 7, Atos 12) foi Nero (que martirizou São Pedro e São Paulo). Vendo que não podia escapar dos conspiradores que buscavam matá-lo, livrou-os dessa tarefa suicidando-se. O quarto, Domiciano, que exilou São João Evangelista, foi morto pelos seus próprios homens.

Valeriano, um cruel perseguidor da Igreja, foi derrotado em batalha pelo rei dos persas, que o capturou, ordenou que lhe arrancassem os olhos e o usou como apoio para os pés quando cavalgava. Aureliano foi morto pelos seus próprios homens. Décio, que martirizou São Lourenço, foi morto junto com seus filhos.

Diocleciano, a besta mais cruel, que se fez venerar como um deus, caiu em tamanha perdição e loucura que foi forçado a abandonar a Coroa e o Cetro e viver como um homem comum. Maximiano, seu companheiro, também o abandonou e viveu como ele; e mesmo assim, não lhe foi permitido viver, pois Maxêncio, seu filho, que queria tomar o Império, o expulsou de Roma. De lá, fugiu e buscou a proteção de Constantino, seu genro. E, sendo nobremente recebido por ele, tramou uma traição contra o imperador. Isso foi descoberto, e por isso foi punido com a morte, a desonra e a infâmia. Suas estátuas e medalhas foram ordenadas a serem destruídas onde quer que estivessem, e os nomes dos estabelecimentos públicos que levavam seu nome foram ordenados a serem mudados. 

Maxêncio, seu filho, herdeiro dos vícios e da crueldade do pai, morreu por um milagre especial e pela vontade divina. Porque, tendo construído uma ponte falsa sobre um rio perto de Roma, para que o imperador Constantino, ao chegar, afundasse no rio, este, como que num acesso de loucura, esquecendo-se do que havia tramado, colocou os pés sobre o cavalo e, atravessando a ponte, caiu e se afogou.

Maximino, também um dos mais cruéis perseguidores da Igreja, foi derrotado em batalha pelo próprio Constantino e escapou fugindo de seu exército para o meio dos aguadeiros. Portanto, indignado com os adivinhos que lhe prometeram a vitória, ordenou que fossem mortos. E por essa afronta, Deus o castigou com uma doença gravíssima, com suas entranhas inchando e apodrecendo; e em seu peito surgiu uma ferida que, pouco a pouco, se espalhou por todo o seu corpo, além das outras feridas que já tinha, das quais jorravam vermes. E com eles exalava um odor tão terrível que ninguém, nem mesmo os cirurgiões, conseguia se aproximar dele. E vendo que seus médicos não conseguiam curá-lo nem lhe fazer nenhum bem, mas, ao contrário, fugiam dele por causa de seu odor abominável, ordenou que muitos deles fossem mortos. Finalmente, perdendo a visão e compreendendo melhor a feiura de seus sofrimentos, pôs fim à sua vida perversa com uma morte dolorosa.

Licínio, que governou no Oriente na época de Constantino, que perseguiu a Igreja não menos cruelmente que seus predecessores, insurgindo-se contra Constantino, também foi morto por ele em batalha.

Depois disso, Juliano, o Apóstata (que, com outras novas artes, travou uma guerra ainda mais cruel contra a Igreja), pôs fim ao seu império e à sua vida em poucos dias, morrendo na guerra contra os persas, deixando seu exército em grande perigo; nem seus deuses, nem seus adivinhos e encantadores, em quem depositava toda a sua confiança, puderam lhe valer qualquer proveito.

Valente, o Ariano, um grande perseguidor dos católicos, foi derrotado pelos godos em batalha; e, quando escondido em uma cabana, esta foi incendiada e assim ele morreu, como mereciam os seus atos.

Esses foram os fins e destinos crueis de muitos daqueles que pegaram em armas contra a religião cristã e isso constitui um argumento considerável a favor da verdade e da santidade da Igreja.

(Excertos da obra Introdução ao Símbolo da Fé', do Frei Luís de Granada, Espanha, 1730)

segunda-feira, 20 de abril de 2026

A SANTA VONTADE DE DEUS

Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito (Rm 12,2)

O que o Apóstolo quer dizer com 'a vontade perfeita' é que a alma assume a forma de piedade, na medida em que a graça do Espírito a faz florescer até a suprema beleza, atuando com o homem sofredor em sua transformação.

O crescimento do corpo não depende de nós, pois a natureza não mede sua estatura segundo o julgamento ou desejo humano: ela segue sua própria inclinação e necessidades naturais. Ao contrário, na ordem do novo nascimento, a medida e a beleza da alma - concedidas pela graça do Espírito, que vem através do zelo de quem a recebe - crescem segundo a nossa disposição. Quanto mais você se esforça pela piedade, mais a estatura da sua alma se expande, por meio dessas lutas e trabalhos aos quais o Senhor nos convida, dizendo: 'Esforcem-se para entrar pela porta estreita' (Lc 13,24; Mt 7,13), e também: 'Esforcem-se pela violência, pois são os violentos que conquistam o Reino dos Céus' (Mt 11,12). E ainda: 'Aquele que perseverar até o fim será salvo' (Mt 10,22). E mais: 'Pela perseverança, eles conquistarão suas almas' (Mc 13,12). O apóstolo também diz: 'Corramos com perseverança a corrida que nos está proposta' (Hb 12,1), e também: 'Corramos de tal maneira que alcancemos o prêmio' (1Cor 9,24), e ainda: 'Como servos de Deus com paciência incansável' (2Cor 6,4).

Isso nos convida, portanto, a correr e a direcionar todos os nossos esforços para essas batalhas, visto que a graça é proporcional ao esforço de quem a recebe. Pois é a graça do Espírito que concede a vida eterna e a alegria inefável no céu; e é o amor que, pela fé acompanhada de boas obras, conquista a recompensa, atrai os dons e proporciona o gozo da graça. A graça do Espírito Santo e as boas obras, trabalhando para o mesmo fim, preenchem a alma na qual se unem com esta vida bem-aventurada.

Pelo contrário, separadas, não trariam benefício algum à alma. Pois a graça de Deus é de tal natureza que não pode alcançar as almas que rejeitam a salvação; e o poder da virtude humana por si só não basta para elevar à forma da vida celestial aquelas almas que não participam da graça. A menos que o Senhor edifique a casa e guarde a cidade, diz a Escritura, em vão vigia a sentinela, e o construtor trabalha (Sl 127,1). E também: 'Não foi pela espada que conquistaram a terra, nem foram salvos pelas armas - embora armas e espadas tenham servido na batalha -, mas a tua mão e o teu braço, ó Senhor, e a luz do teu rosto' (Sl 43,4).

O que isso significa? Significa que, do alto, o Senhor luta com aqueles que lutam - e que a coroa não depende unicamente do trabalho dos homens, nem mesmo de seus esforços. A esperança, em última análise, repousa na vontade de Deus. É necessário, portanto, conhecer antes de tudo qual é a vontade de Deus; voltar-se para ela, dirigindo todos os nossos esforços para ela; e, buscando a vida bem-aventurada através do desejo, organizando nossa própria existência tendo em vista essa vida.

A 'vontade perfeita' de Deus consiste em purificar a alma de toda mácula pela graça, elevando-a acima dos prazeres do corpo e oferecendo-a a Deus, pura, repleta de desejo e capaz de ver a luz inteligível e inefável. Então o Senhor declara o homem 'bem-aventurado': 'Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus' (Mt 5,8). E em outro lugar, Ele ordena: 'Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial' (Mt 5,48). O Apóstolo nos exorta a lutar por essa perfeição quando diz: 'A ele é que anunciamos, admoestando todos os homens e instruindo-os em toda a sabedoria, para tornar todo homem perfeito em Cristo' (Cl 1,28).

(Excertos da obra 'O Objetivo Divino e a Vida Segundo a Verdade', de São Gregório de Nissa)

sexta-feira, 17 de abril de 2026

A FONTE DA INFINITA MISERICÓRDIA

 

Alma necessitada de misericórdia,
seja quem for e onde quer que esteja,
saiba que todas as riquezas da Divina Misericórdia
estão prontas para você, contidas e ofertadas,
no Santíssimo Sacramento do Altar.

Caminhe até o sacrário,
ou procure a custódia que exibe o Corpo de Cristo,
– um banquete para os seus olhos –
e  adore ali o mistério da Divina Misericórdia.
Abra por inteiro o seu coração, 
na plenitude da disposição interior, 
para acolher a poderosa torrente de Misericórdia
destinada a você e, por meio de você, 
àqueles cujas dores e fraquezas
você escolheu ou lhes foi dado suportar.

Adore o Sangue e a Água que, ainda agora,
jorram do Lado Sagrado
com uma frescura e uma pureza que nunca envelhecem.
Adore os dons do Espírito Santo
e anseie recebê-los hoje e sempre, 
como a Alma da tua alma,
ou seja, a própria Vida da tua vida.
A Fonte da Divina Misericórdia
está escondida no Sacramento do Altar.

Perto da Fonte Eucarística,
você encontrará Maria, a Mater Misericordiae.
Ela nunca se cansa de comunicar às almas
a abundância da Divina Misericórdia.
Tão próxima está ela da Fonte,
que é como se ela e a Fonte fossem uma coisa só:
tudo o que jorra da Fonte passa por ela,
e está em seu poder direcionar o fluxo da Divina Misericórdia
para quem ela quiser.
O seu Filho confia tanto em seu Coração maternal
que lhe confiou tudo,
permitindo-lhe dispensar livremente da sua Misericórdia para com as almas.

Alma devotada à Divina Misericórdia,
adore Aquele que está presente como Misericórdia
no Sacramento do Altar.
A Divina Misericórdia entra no mundo pelo Santíssimo Sacramento,
pois nele está o Coração de Jesus, a fonte da sua Misericórdia,
e seu Lado traspassado, a fonte da Divina Misericórdia,
a porta pela qual a Divina Misericórdia entra no universo
e espraia abundantemente sobre as almas
para purificá-las, santificá-las e glorificá-las.

Alma submersa em misérias,
se deseja experimentar a Divina Misericórdia,
aproxime-se da Presença Eucarística do Transpassado;
permanece na luz do seu Rosto Eucarístico;
mantenha-se recolhido e confiante diante do seu Lado Aberto.
Ali, você nunca será decepcionado em sua esperança.
Pois com Ele está a Misericórdia e a redenção abundante,
e Ele perdoará todos os seus pecados.
Cada tabernáculo que abriga o seu adorável Corpo e Sangue
coloca à sua disposição e a de todos os seus filhos,
a Fonte da infinita Misericórdia de Deus.

(A Inesgotável Misericórdia de Deus, do site Vultus Christi)

segunda-feira, 13 de abril de 2026

A SANTIFICAÇÃO DA MATERNIDADE

Contemplei durante muito tempo, na célebre abadia de Melk, à beira do Danúbio, as pinturas da abóbada que representam a fé, a esperança e a caridade. São três mulheres: a fé traz a cruz e o cálice, a esperança a âncora de salvação, a caridade é uma mãe rodeada de filhos - um ·deles abraça-a, o outro beija-a e o terceiro brinca ao seu lado... Todas as aspirações da mulher encontram na família a sua mais bela plenitude.

O cetro do mundo pertence a quem pode dar a vida a um novo ser e, por isso, podem as mulheres olhar com desdém para o grandioso edifício de São Pedro de Roma ou qualquer outra construção tão impressionante como essa. Elas trouxeram ao mundo algo de mais senhorial e mais belo: o templo para uma alma imortal! A mulher trabalha no lar, mas o seu silencioso labor reflete-se em todo um povo. Transmite todo o tesouro da cultura aos filhos e aos netos, edifica o futuro e não só o futuro terreno; já que a sua ação penetra na eternidade até ao coração de Deus. 

Sem ela não há família, sem ela não há pátria. Sem ela perder-se-iam as fontes mais ricas da energia da humanidade; sem ela desapareceriam a bondade, o amor e a compaixão. É o humilde cajado em que se apoia o homem, cansado de peregrinar pelos poeirentos caminhos da vida. É o soldado desconhecido do contínuo dia a dia. A mão que embala uma criança, guia o leme do mundo e tudo quanto no mundo vive e morre, teve a sua origem numa mulher.

'O homem vem à vida através da mulher' - diz São Paulo e, por isso, nas obras dos homens sempre se vislumbra a imagem de uma mulher. O homem pode encontrar-se numa situação elevada e brilhante, de destaque perante a história, ou numa profunda obscuridade. A mulher, como imagem do valor eternamente duradouro, vai criando no silêncio vidas novas, traça-lhes o caminho e deita a semente num campo que nunca foi lavrado. 

Nos traços da mãe está impressa a face do povo que há de vir. Uma moça, pouco depois de ser mãe, dizia-me: 'A passagem da mulher para mãe é mais importante que a passagem de adolescente para mulher'. Na maternidade, encontra a sua solução esse problema premente e angustiante que tantas sombras projeta nos dias da juventude, o problema da aparição do amor e da mútua harmonia dos amores. O matrimônio serve para realizar essa harmonia e resolve o problema da mulher, porque é na maternidade que ela consegue alcançar a sua felicidade em clima apropriado à sua natureza. 

A vida da mulher é mais silenciosa e recolhida que a do homem, mas do fogo do lar pode ela fazer fogo de um altar sagrado onde oferecer-se, dia a dia, silenciosamente, até ao holocausto. Quando contemplo uma cruz coroada de rosas, penso no meu íntimo: este é o símbolo da vida da mulher, a cruz escondida entre as rosas! A vida e a vocação da mulher não são sempre rosas, mas também não são sempre cruz. Lado a lado, caminham rosas e cruz. Em resumo, viver para os outros, procurar por todos os meios a felicidade dos outros, ainda que se desfaça em sangue o coração!

Uma frase de León Bloy é digna de ser meditada: 'Quanto mais santa é uma mulher, tanto mais é mulher'. E também tem valor permanente o pensamento de Schiller: 'Honra a mulher! Ela tece rosas no caminho da vida, tece o feliz vínculo do amor e, oculta sob o véu da graça, alimenta vigilante, com mãos sagradas, o eterno fogo dos nobres sentimentos'.

Excertos da obra 'A Mãe', do Cardeal Mindszenty (1956)

terça-feira, 7 de abril de 2026

SOBRE A AVAREZA ESPIRITUAL

Muitos principiantes têm às vezes também grande avareza espiritual. Mal se contentam com o espírito que Deus lhes dá, andam muito desconsolados e queixosos por não acharem, nas coisas espirituais, o consolo desejado.

Muitos nunca se fartam de ouvir conselhos e aprender regras de vida espiritual; querem ter sempre grande cópia de livros sobre este assunto. Ocupam-se mais em ler do que em se exercitarem na mortificação e perfeição da pobreza interior do espírito como deveriam.

Além disto, carregam-se de imagens e rosários, ora deixam uns, ora tomam outros; vivem a trocá-los e destrocá-los; querem-nos, já desta maneira, já daquela outra, afeiçoando-se mais a esta cruz do que àquela, por lhes parecer mais interessante. Também vereis a outros bem munidos de Agnus Dei, relíquias e santinhos, como as crianças com brinquedos.

Condeno, em tudo isto, a propriedade do coração e o apego e curiosidades destas coisas; pois esta maneira de agir é muito contrária à pobreza de espírito, que só põe os olhos na substância da devoção, e se aproveita somente do que lhe serve para tal fim, cansando-se de tudo mais.

A verdadeira piedade há de brotar do coração, firmando-se na verdade e solidez assertivas destas coisas espirituais; o resto é mero apego e desserviço de imperfeição, o qual é necessário cortar a fim de se atingir algo da perfeição.

(Excertos da obra 'A Noite Escura da Alma', de São João da Cruz)

quinta-feira, 26 de março de 2026

SETE REFLEXÕES SOBRE A QUARESMA

I. Aproximar-se um pouco mais de Deus quer dizer estar disposto a uma nova conversão, a uma nova retificação, a ouvir atentamente as suas inspirações - os santos desejos que faz brotar nas nossas almas - e a pô-las em prática [Forja].

II. Entramos no tempo da Quaresma: tempo de penitência, de purificação, de conversão. Não é fácil tarefa. O cristianismo não é um caminho cômodo; não basta estar na Igreja e deixar que os anos passem. Na nossa vida, na vida dos cristãos, a primeira conversão - esse momento único, que cada um de nós recorda, em que advertimos claramente tudo o que o Senhor nos pede - é importante; mas ainda mais importantes e mais difíceis são as conversões sucessivas. É preciso manter a alma jovem, invocar o Senhor, saber ouvir, descobrir o que corre mal, pedir perdão, para facilitarmos o trabalho da graça divina nessas sucessivas conversões [Cristo que passa].

III.  Reparai nesta maravilha que é o cuidado que Deus tem por nós, sempre disposto a ouvir-nos, atento em cada momento à palavra do homem. Em qualquer altura - mas agora de modo especial, porque o nosso coração está bem disposto, decidido a purificar-se - Ele nos ouve e não deixará de atender ao que lhe pede um coração contrito e humilhado [Cristo que passa].

IV. Haverá melhor maneira de começar a Quaresma? Renovamos a Fé, a Esperança, a Caridade. Esta é a fonte do espírito de penitência, do desejo de purificação. A Quaresma não é apenas uma ocasião de intensificar as nossas práticas externas de mortificação; se pensássemos que era isso apenas, escapar-nos-ia o seu sentido profundo na vida cristã, porque esses atos externos são frutos da Fé, da Esperança e do Amor [Cristo que passa].

V. É tempo de penitência, pois. Mas não se trata de uma tarefa negativa. A Quaresma deve ser vivida com o espírito de filiação que Cristo nos comunicou e que vive na nossa alma. O Senhor chama-nos para que nos acerquemos d'Ele, desejando ser como Ele: Sede imitadores de Deus, como filhos muito amados, colaborando humildemente, mas fervorosamente, no divino propósito de unir o que está quebrado, de salvar o que está perdido, de ordenar o que o homem pecador desordenou, de conduzir ao seu fim o que está desencaminhado, de restabelecer a divina concórdia a todas as criaturas [Cristo que passa].

VI. A Quaresma coloca-nos agora perante estas perguntas fundamentais: avanço na minha fidelidade a Cristo? Em desejos de santidade? Em generosidade apostólica na minha vida diária, no meu trabalho cotidiano entre os meus companheiros de profissão? [Cristo que passa].

VII. Não podemos considerar esta Quaresma como uma época a mais, uma repetição cíclica do tempo litúrgico; este momento é único; é uma ajuda divina que é necessário aproveitar. Jesus passa ao nosso lado e espera de nós - hoje, agora - uma grande mudança [Cristo que passa].

(São Josemaria Escrivá)

terça-feira, 24 de março de 2026

'OLHA PARA O TEU NADA!'

Não possuímos as virtudes, não por ser difícil, mas porque não queremos. Não temos paciência porque não queremos. Não temos temperança porque não queremos. Não temos castidade pela mesma razão. Se quiséssemos, seríamos santos, e é muito mais difícil ser engenheiro do que ser santo. Ah se tivéssemos fé!

Vida interior, vida espiritual, vida de oração: meu Deus, que difícil que isso deve ser! De modo nenhum. Afasta do teu coração o que o perturba, e encontrarás Deus. Com isso, o trabalho está feito. Muitas vezes buscamos o que não existe e, pelo contrário, passamos ao lado de um tesouro que não vemos. É a mesma coisa com Deus, a quem procuramos num emaranhado de coisas, que quanto mais complicado, melhor nos parece. No entanto, levamos Deus dentro de nós, e não o procuramos aí! Recolhe-te dentro de ti mesmo; olha para o teu nada; olha para o nada do mundo; põe-te ao pé de uma cruz e, se fores simples, verás Deus.

Se Deus não está na nossa alma, é porque não queremos. Temos uma tal acumulação de cuidados, de distrações, de tendências, de desejos, de vaidades, de presunções, temos tantas pessoas dentro nós, que Deus se afasta. Assim que o quisermos, Deus enche-nos a alma de tal modo, que é preciso sermos cegos para não o vermos. 

Uma alma quer viver de acordo com Deus? Afaste tudo o que não seja Ele, e está feito. É relativamente fácil. Se o quiséssemos, se o pedíssemos a Deus com simplicidade, faríamos um grande progresso na vida espiritual. Se quiséssemos, seríamos santos, mas somos tão tolos que não queremos; preferimos perder tempo com vaidades estúpidas.

(Excertos da obra 'Escritos Espirituais", de São Rafael Arnaiz Barón)

terça-feira, 17 de março de 2026

'DEIXAI-OS EM PAZ!'

Ó pecadores cegos e obstinados, ouçam-me agora! Abram os olhos, eu lhes imploro! Abandonem o pecado, implorem pela graça do arrependimento. Convertam-se a Deus, e imediatamente! Não esperem até amanhã; pois amanhã, a vossa situação estará ainda mais desesperadora! Ai de mim! Minhas palavras são em vão! Esses pecadores não têm nem audição, nem visão, nem entendimento. Eles podem, de fato, fazer penitência e emendar-se, pois isso nunca é impossível; mas nunca o farão, porque nunca desejarão fazê-lo. 'Deixai-os em paz' - disse Cristo aos seus discípulos a respeito dos fariseus endurecidos - 'eles são cegos'. 

Ó Senhor misericordioso, devemos deixá-los em paz? E o que será deles? Estarão perdidos para sempre. Devemos, então, ficar olhando enquanto eles correm para o inferno, sem estender a mão para salvá-los? Sim, deixem-nos em paz. Deixem-nos ir para a sua destruição, porque são cegos. Não se preocupem mais com eles; qualquer esforço gasto na tentativa de convertê-los é infrutífero; eles são cegos. 'Deixai-nos em paz!' Ó palavras terríveis! Ó palavras que não são palavras, mas sim tempestades de granizo e raios! Deixem os pecadores obstinados em paz! Não há, então, mais esperança de sua conversão? Eles são rejeitados por Deus e condenados ao inferno? Então, tudo o que posso fazer é dizer-lhes: Ai de vós! Tenho pena de vós; tenho pena de vossa condição miserável, de vossas preciosas almas; e, a menos que um milagre da graça aconteça para restaurar vossa visão espiritual, tenho pena de vós por causa da eternidade infeliz que vos espera!

Por fim, tenho uma palavra a dizer a vocês. Espero que nenhum de vocês se encontre nesse estado miserável de cegueira; e este sermão visa apenas ser uma advertência salutar para dissuadi-los de jamais cair nele. Ah, que Deus nos proteja, a vocês e a mim, disso! 'Andem enquanto têm a luz'. Agora, enquanto seus olhos estão abertos, andem com cuidado, observando rigorosamente os mandamentos divinos; trabalhem pela sua salvação com temor, humildade e amor servil a Deus; odeiem e evitem o pecado acima de todas as coisas, tanto quanto puderem. Acima de tudo, nunca criem o hábito de pecar, pois esse é o próximo passo para a obstinação. 

Se vocês já o são - que Deus nos livre! - pecadores habituais, presos por um amor desmedido a qualquer criatura, tomem imediatamente uma resolução heróica e, por meio de penitência rápida, libertem-se desse estado, 'para que as trevas não os alcancem'. Já fizeram penitência? Então, mantenham-se fiéis a ela e certifiquem-se de nunca mais cometer outro pecado mortal. Talvez o próximo pecado que cometerem seja aquele que despertará tanto a ira e a indignação de Deus que, de acordo com seus decretos insondáveis e, ao mesmo tempo, justíssimos, Ele retirará a sua luz de vocês e os deixará na cegueira, presos em seus próprios desejos. 

Digam a si mesmos todas as manhãs e noites: Quantos pecados eu não cometi durante a minha vida? Não é hora de eu deixar de pecar agora? Ah, detestem seus pecados passados e arrependam-se de todo o coração por terem ofendido a Deus. Quantos são aqueles que, embora seus pecados sejam menos numerosos que os seus, estão agora em estado de cegueira ou estão de fato no inferno! Agradeço a Deus por ter permitido que sua consciência os atormente e por não ter retirado sua luz de vocês. Não peçam mais para que, após esta vida, possam chegar ao pleno gozo da felicidade em uma eternidade feliz. Amém.

(Excertos da obra 'The Penitent Christian', do Pe. Francis Hunolt, 1889)

sábado, 14 de março de 2026

DIÁLOGO DO HOMEM DOENTE COM CRISTO CONSOLADOR


O homem doente:

Senhor, o dia avança e o sol já começa a declinar: tuas palavras e a tua graça me sustentaram até esta hora, mas novas provações surgem ao meio-dia e, por assim dizer, torrentes ainda mais intensas de sofrimento. Vejo a agitação da vida a meu redor, ouço sons distantes que me falam dos trabalhos diligentes e úteis dos meus semelhantes. O sofrimento e a fraqueza me obrigam a levar uma vida egoísta, assim como o prazer causa egoísmo nos outros. Esse pensamento me enche de tristeza e humilhação, pois, ó meu Deus, Tu me deste um coração para amar-te e uma vontade de trabalhar para a tua glória e o bem dos meus semelhantes.

Por que sou, então, tão impotente, enquanto anseio por servir-te, ou por que o amor e o anseio espirituais sobrevivem à força para exercê-los? Senhor, apaga este fogo sagrado que arde sem propósito em meu coração e apenas torna ainda mais pesado o fardo de uma vida inútil.

Cristo, o Consolador:

A experiência do sofrimento não te ensinou nada, meu filho? Escuta as minhas palavras e guarda-as no coração. De todas as coisas que o homem deve aprender, a mais oculta e misteriosa é o sofrimento. Por mais terno que seja o coração de um homem, ou por mais apurado que seja o seu instinto, ele nunca compreenderá os sofrimentos alheios, a menos que ele próprio tenha sofrido; falará deles como um cego falaria das cores. Daí a incapacidade comum daqueles que nunca conheceram o sofrimento de consolar aqueles que sofrem. Nada pode suprir essa falta; nem o afeto mais caloroso, nem a devoção mais completa. Somente a experiência pessoal pode derrubar a barreira e nos dar a graça de consolar os outros.

Não sentiste isso muitas vezes, meu filho? Que consolo encontraste em teus momentos de fraqueza por parte daquelas pessoas alegres e prósperas a quem a sorte sorriu ininterruptamente? Muitos deles te amavam de verdade e desejavam sinceramente te ajudar; mas, por mais sábias e gentis que fossem suas palavras, faltava sempre aquela palavra que te traria consolo. Essa palavra misteriosa, essa gota de unção sagrada, nada pode ensiná-la à alma a não ser um conhecimento pessoal do sofrimento.

Essa lei é tão profunda e tão universal que até mesmo Eu, que possuo todo o conhecimento, quis sentir todos os segredos da miséria humana na fraqueza da carne, para que assim pudesse tornar-me para o homem aquele Consolador experiente de quem ele tanto necessita em momentos de angústia. Minha participação em suas dores atrai os homens poderosamente a mim; e quando o fogo da provação se abate sobre eles, não é para a contemplação da minha glória no Monte Tabor que se voltam, mas para a minha Cruz no Calvário. Lá, vendo em meus membros sagrados os sulcos de suas próprias aflições, dizem com confiança inabalável: 'Porque não temos um Sumo Sacerdote que não possa ter compaixão de nossas fraquezas; mas um que, em tudo, foi tentado como nós, sem pecado' (Hb 4,15). Esta ciência do sofrimento é tão importante que nada pode compensar a falta dela. Aquele que não a possui, que tenha cuidado ao tentar lidar com as dores dos outros; mas aquele que a possui pode fazer todas as coisas, pois carrega dentro de si um poder de cura.

Aquele que sofreu, que passou por longos anos de dor e aflição, de ansiedade desgastante, de desânimos secretos, de esperanças frustradas e lágrimas solitárias - tal pessoa, se não recebeu sua alma em vão, deve doravante percorrer o mundo como um sacramento vivo do meu consolo. Tal pessoa não pode deixar de exercer uma influência reconfortante sobre as almas sofredoras. Os doentes, os entristecidos, os aflitos, reconhecem-no imediatamente entre os outros homens. Outros podem falar, mas ele é o único que detém o segredo daquela palavra-chave, que encontra o caminho para o coração ferido e age como bálsamo sobre as suas feridas.

Tal pessoa é gentil, terna, paciente diante da dor. Ele sabe que um doente se tornou novamente uma criança e que, se precisa de palavras encorajadoras para despertar as energias adormecidas de sua mente, por outro lado, sua fraqueza requer a indulgência, a tranquilidade e a vigilância de uma mãe. Aquele que foi ensinado pelo próprio sofrimento possui a arte de conduzir suavemente as almas doentes a pensamentos sobre mim. Ele não fará, como alguns fazem, de seu zelo um pretexto para uma dureza que, por si só, provoca e desperta oposição. 'A cana quebrada Ele não quebrará, e o pavio fumegante Ele não apagará' (Is 43,3).

Portanto, alegra-te, ó meu filho, por teres conhecido o que é sofrer, e conforta-te por ainda seres chamado a sofrer; esta iniciação ao sofrimento é um tesouro inefável. Em breve irás procurar os aflitos; ou, se não puderes ir em busca deles, eles virão a ti. Acolhe os aflitos como enviados a ti por mim; acolhe-os como aqueles por quem aprendeste, trabalhaste e sofreste; acolhe-os como aqueles que confiei aos teus cuidados neste mundo. Não precisarás de palavras ensaiadas para falar com eles; abre teu coração e mostra-lhes as cicatrizes de tuas próprias feridas; diz-lhes que sabes o que é sofrer; ouve a história de suas provações e responde-lhes com a plenitude de teu coração. 

Rico neste tesouro de consolo, poderás ir sem medo entre os pobres e os aflitos. Tuas dores desaparecerão diante das dores deles, teus sofrimentos se desvanecerão diante dos sofrimentos deles; esquecer-te-ás de ti mesmo ao ministrar aos outros e, quando a noite chegar, ficarás surpreso ao sentir uma nova vida brotando dentro de ti; e dirás a mim em tua gratidão: 'Senhor, o que é isto que me aconteceu?  Para onde Tu me tens conduzido, e o que eu tenho feito? Não sei como isso aconteceu, mas enquanto me esforçava por fazer algo pelos outros, parece que, na verdade, estava fazendo tudo por mim mesmo; ao tentar curá-los, estava curando minhas próprias feridas; ao procurar consolar os aflitos, enxugava minhas próprias lágrimas; ao me esforçar para acalmar suas dores, perdi a amargura das minhas; ao dar o pouco que tinha, encontrei tudo'.

(Excertos da obra 'Counsels to the Sick", do Abade Henri Perreyve [1831 - 1865])

quinta-feira, 12 de março de 2026

SOMENTE A FÉ NÃO BASTA!

'Muitos são os chamados e poucos os escolhidos' (Mt 20,16). Muitos, com efeito, chegam à fé, mas bem poucos ao Reino dos Céus. O rebanho da Igreja acolhe tanto os bodes como os cordeiros; mas, segundo o testemunho do Evangelho, quando o Juiz vier, há de separar os bons e os maus. 

Pois os que se fazem na terra escravos dos prazeres da carne, não poderão, no céu, serem contados entre as ovelhas. Vedes, caros fiéis, muitas dessas pessoas na Igreja, mas não deveis imitá-las; nem, por outro lado, desesperar de que possam salvar-se. De fato, vemos bem o que uma pessoa é hoje, mas ignoramos como será amanhã. Muitas vezes quem parece vir atrás de nós passa à nossa frente pelo impulso de uma boa ação. E, às vezes, mal podemos seguir amanhã o que hoje deixávamos para trás.

Quando Estêvão morria pela fé, Saulo tomava conta das vestes daqueles que o lapidavam. Ele o lapidava, portanto, pelas mãos de todos os seus algozes, que então podiam mover-se mais à vontade, para atirar as pedras. E, no entanto, por seus trabalhos pela Santa Igreja, Paulo superou aquele do qual fizera um mártir, ao persegui-lo.

Há, por conseguinte, duas coisas a que devemos estar atentos, uma vez que há muitos chamados e poucos escolhidos. A primeira coisa é que ninguém deve jamais presumir de si próprio; pois, ainda que chamado à fé, ignora se será digno do Reino eterno. A segunda é que jamais devemos ter a ousadia de desesperar do próximo, ainda que o vejamos mergulhado nos vícios, pois não conhecemos os tesouros da misericórdia divina.

(São Gregório Magno)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

MESMO QUE APENAS UM SEJA SALVO!

Que a fé de nossos pais seja proposta àqueles que estão enganados, mas sempre de boa vontade, com toda ternura e caridade. Se eles concordarem, recebamo-los em nosso meio. Se eles não concordarem, habitemos sozinhos, independente de número e mantenhamo-nos afastados de almas equivocadas, que não possuem aquela simplicidade sem dolo, indispensavelmente necessária nos primeiros dias do Evangelho.

Os crentes, como está escrito nas Escrituras, tinham apenas um coração e uma alma. Portanto, aqueles que nos censuram por não desejar a pacificação, marquem bem quem são os verdadeiros autores da perturbação. Que eles não peçam mais reconciliação de nossa parte.

A todo argumento especioso que pareça aconselhar silêncio de nossa parte, opomos este outro argumento, a saber, que a caridade não conta como nada, nem seus próprios interesses nem as dificuldades dos tempos. Mesmo que nenhum homem esteja disposto a seguir nosso exemplo, o que fazer então? Devemos abandonar o dever somente por essa razão? Na fornalha ardente, os filhos do cativeiro da Babilônia entoaram seu cântico ao Senhor, sem fazer nenhuma avaliação da multidão que deixou a verdade de lado. Eles eram suficientes um para o outro, e eram apenas três!

Então, animem-se! Sob cada golpe, renovem-se no amor; deixem seu zelo ganhar força a cada dia, sabendo que em vocês devem ser preservados os últimos resquícios de piedade que o Senhor, em seu retorno, pode encontrar na terra...

Não deem atenção ao que a multidão pode pensar, pois um mero sopro de vento é suficiente para balançar a multidão para frente e para trás, como a onda ondulante. Mesmo que apenas um fosse salvo, como no caso de Ló de Sodoma, não seria lícito para ele se desviar do caminho da retidão, meramente porque ele descobre que ele é o único que está certo. Não; ele deve ficar sozinho, impassível, mantendo firme e unicamente a sua esperança em Jesus Cristo'.

(São Basílio de Cesareia)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

SOBRE A BATALHA ESPIRITUAL CONTRA OS VÍCIOS

Na luta que devemos empreender contra os vícios, devemos empregar a mesma tática com que estes nos assaltam. Para isso, urge descobrir qual o vício que mais nos subjuga e iniciar contra ele a luta principal. Que cada um, com toda a atenção e diligência da mente, bem como com a máxima vigilância, observe suas investidas. Dirijamos, então, contra ele os dardos dos jejuns cotidianos, golpeando-o com frequentes suspiros e gemidos do coração; invoquemos contra ele o labor das vigílias e das meditações espirituais, as incessantes orações com lágrimas derramadas perante Deus, implorando-lhe que, de modo especial e para sempre, extinga esses ataques.

É impossível triunfar sobre qualquer paixão, se antes não compreendermos que nossa diligência e nosso esforço jamais poderão alcançar-nos a vitória nessa luta. Contudo, toda a obra de purificação exige cuidado e solicitude incessantes, dia e noite. No entanto, ao sentir-se alguém liberto, novamente esquadrinhe todos os recantos do coração com a mesma meticulosidade e surpreenda aquele que entre os outros vícios percebe ser o mais pernicioso. É indispensável, então, que se lance mão de todas as armas espirituais para combatê-lo. Desse modo, depois de vencidos os mais poderosos, mais facilmente serão superados os restantes, e a luta contra os mais fracos passa a ser vitoriosa.

... Por uma tática semelhante, superadas as paixões mais violentas, nos dispomos gradualmente a combater as mais fracas, obtendo assim, sem riscos, uma completa vitória. Contudo, não julguemos que, ao orientarmos nossa luta específica contra um vício particular, olhando com negligência os dardos de outros, sejamos feridos com facilidade por um golpe inesperado. Isso é impossível; pois, quem se preocupa com a purificação de seu coração e, com esse intuito, lança mão de todas as forças de sua alma para libertar-se de determinado vício, envolve todos os outros no mesmo ódio e se mantém vigilante contra todos eles.

A que título mereceria alguém a vitória desejada sobre uma paixão, se depois se tornasse indigno da recompensa prometida aos puros de coração, por se ter contaminado com outros vícios? Mas, quando tivermos feito da luta contra determinada paixão nosso principal propósito, passaremos a rezar nessa intenção, com zelo e solicitude a fim de merecermos a graça de uma vigilância mais cuidadosa e assim alcançarmos uma rápida vitória.

(Excertos da obra 'Conferências', de João Cassiano, monge do século V)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

A ORAÇÃO SILENCIOSA DO CORAÇÃO

Que a nossa fala e nossa súplica sejam disciplinadas quando orarmos, e que preservemos a tranquilidade e a modéstia, pois, lembrem-se, estamos diante de Deus. Devemos agradar aos olhos de Deus tanto com os movimentos do nosso corpo quanto com a maneira como usamos as nossas vozes. Pois, assim como um homem desavergonhado fará barulho com seus gritos, também convém que o modesto ore de maneira moderada.

Além disso, o Senhor nos ensinou a orar em segredo, em lugares escondidos e remotos, em nossos próprios quartos – e isso é o mais adequado para a fé, pois nos mostra que Deus está em todos os lugares e ouve e vê tudo e, na plenitude de sua majestade, está presente até mesmo em lugares escondidos e secretos, como está escrito: 'Eu sou um Deus próximo e não distante. Se alguém se esconder em lugares secretos, não o verei? Não preencho eu todos os céus e a terra?' e, ainda: 'Os olhos de Deus estão em toda parte e veem o bem e o mal igualmente' .

Quando nos reunimos com os irmãos em um só lugar e celebramos os sacrifícios divinos com o sacerdote de Deus, devemos lembrar-nos da nossa modéstia e disciplina, não proclamando as nossas orações em voz alta, nem apresentando a Deus, com indisciplina e prolixidade, uma súplica que seria melhor feita com mais modéstia: pois, afinal, Deus não ouve a voz, mas o coração, e aquele que vê os nossos pensamentos não deve ser perturbado pelas nossas vozes, como o Senhor demonstra quando diz: 'Por que pensais mal nos vossos corações?' ou ainda: 'Todas as igrejas saberão que sou eu quem sonda as vossas motivações e os vossos pensamentos' .

No primeiro livro dos Reis, vemos que Ana orava a Deus não com súplicas em voz alta, mas silenciosa e modestamente, no íntimo do seu coração. Ela falava com uma oração silenciosa, mas com fé manifesta. Não falava com a voz, mas com o coração, porque sabia que era assim que Deus ouvia, e recebeu o que buscava porque pediu com fé. A Sagrada Escritura afirma isso quando diz: 'Ela falava em seu coração, e seus lábios se moviam, e sua voz não era audível; e Deus a ouvia'. E lemos nos Salmos: 'Falem em seus corações e em seus leitos, e sejam acolhidos'. Novamente, o Espírito Santo ensina as mesmas coisas por meio de Jeremias, dizendo: 'Mas é no coração que deves ser adorado, ó Senhor'.

Amados irmãos, que o adorador não se esqueça de como o publicano orou com o fariseu no templo - não com os olhos altivos voltados para o céu, nem com as mãos erguidas em orgulho; mas, batendo no peito e confessando os pecados que carregava, implorava a ajuda da misericórdia divina. Enquanto o fariseu se vangloriava de si mesmo, foi o publicano quem mereceu ser santificado, pois depositou sua esperança de salvação não na confiança em sua inocência - pois ninguém é inocente - mas orou, confessando humildemente os seus pecados, e Aquele que perdoa os humildes ouviu a sua oração.

(São Cipriano de Cartago)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A IGREJA É ÚNICA COMO A VERDADE

A Igreja, espalhada por todo o mundo até aos confins da terra, recebeu dos apóstolos e dos seus discípulos, a fé num único Deus Pai todo-poderoso, que criou o céu, a terra, o mar e tudo o que eles contêm; e num único Jesus Cristo, Filho de Deus, que se encarnou para a nossa salvação; e no Espírito Santo, que pelos profetas anunciou os planos de Deus, a vinda de Cristo, seu nascimento da Virgem, sua paixão, sua ressurreição dentre os mortos, sua ascensão corporal aos céus, sua vinda dos céus, na glória do Pai, para recapitular todas as coisas e ressuscitar toda a linhagem humana, a fim de que diante de Cristo Jesus, nosso Senhor, Deus e Salvador e Rei, pela vontade do Pai invisível, todo joelho se dobre no céu, na terra, no abismo, e toda língua proclame aquele que fará justo julgamento em todas as coisas.

A Igreja, então, disseminada, como dissemos, por todo o mundo, guarda diligentemente a pregação e a fé recebida, habitando como em uma única casa; e sua fé é igual em todos os lugares, como se tivesse uma única alma e um único coração, e tudo o que prega, ensina e transmite, faz em uníssono, como se tivesse uma única boca. Pois, embora existam muitas línguas diferentes no mundo, o conteúdo da tradição é único e idêntico para todos.

As Igrejas da Alemanha acreditam e transmitem o mesmo que as outras dos ibéricos ou dos celtas, do Oriente, do Egito ou da Líbia ou do centro do mundo. Assim como o sol, criatura de Deus, é um e o mesmo em todo o mundo, também a pregação da verdade resplandece por toda parte e ilumina todos aqueles que querem chegar ao conhecimento da verdade.

Nas Igrejas, os bons oradores, entre os líderes da comunidade, pois ninguém está acima do Mestre, não dirão coisas diferentes, nem a escassa oratória de outros enfraquecerá a força da tradição, pois sendo a fé uma e a mesma, nem a amplia quem fala muito nem a diminui quem dela fala pouco.

(Excertos da obra 'Contra as Heresias', de Santo Irineu de Lyon)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

OS OITO GRAUS OU VÍCIOS DO ORGULHO

'o orgulho é a mãe de todos os vícios' (Ecl 10,15)

1. Gabar-se do que se tem, como se não o tivesse recebido de Deus ou do que não se tem, ou de coisas que merecem reprovação; e isso se chama arrogância.

2. Desejar ser visto pelos homens para ser elogiado e se alegrar em agradá-los ou em ser estimado por eles; e isso é vaidade.

3. Elogiar a si mesmo, vendendo-se por aquilo que não se é, ou engrandecendo aquilo que se é, e revelando desnecessariamente aquilo sobre o qual se deveria manter silêncio; e isso é vanglória.

4. Ter um desejo desmedido por posições e dignidades; isso é ambição.

5. Empreender tarefas que excedem a própria força e capacidade, o que se chama presunção.

6. Fingir ser algo que não se é ou praticar boas ações na presença de outros somente para ser estimado; isso é hipocrisia.

7. Ser teimoso em seu próprio julgamento e preferir a sua própria opinião à dos outros, não querendo ceder a ninguém; isso é obstinação.

8. Tratar com soberba ou desdém as outras pessoas, tanto seus iguais quanto os seus superiores; isso é desprezo.

(Excertos da obra 'Manual de Piedosas Meditações', autor anônimo, Barcelona)

sábado, 31 de janeiro de 2026

A ARTE DE EDUCAR COM AMOR

Quantas vezes, meus filhinhos, no decurso de toda a minha vida, tive de me convencer desta grande verdade! É mais fácil encolerizar-se do que ter paciência, ameaçar uma criança do que persuadi-la. Direi mesmo que é mais cômodo, para nossa impaciência e nossa soberba, castigar os que resistem do que corrigi-los, suportando os com firmeza e suavidade.

Tomai cuidado para que ninguém vos julgue dominados por um ímpeto de violenta indignação. É muito difícil, quando se castiga, conservar aquela calma tão necessária para afastar qualquer dúvida de que agimos para demonstrar a nossa autoridade ou descarregar o próprio mal humor. Consideremos como nossos filhos aqueles sobre os quais exercemos certo poder. Ponhamo-nos a seu seviço, assim como Jesus, que veio para obedecer e não para dar ordens; envergonhemo-nos de tudo o que nos possa dar aparência de dominadores; e se algum domínio exercemos sobre eles, é para melhor servirmos.

Assim procedia Jesus com seus apóstolos; tolerava-os na sua ignorância e rudeza, e até mesmo na sua pouca fidelidade. A afeição e a familiaridade com que tratava os pecadores eram tais que em alguns causava espanto, em outros escândalo, mas em muitos infundia a esperança de receber o perdão de Deus. Por isso nos ordenou que aprendêssemos dele a ser mansos e humildes de coração.

Uma vez que são nossos filhos, afastemos toda cólera quando devemos corrigir-lhes as faltas ou, pelo menos, a moderemos de tal modo que pareça totalmente dominada. Nada de agitação de ânimo, nada de desprezo no olhar, nada de injúrias nos lábios; então sereis verdadeiros pais se conseguirem uma verdadeira correção. Em determinados momentos muito graves, vale mais uma recomendação a Deus, um ato de humildade perante ele, do que uma tempestade de palavras que só fazem mal a quem as ouve e não e não tem proveito algum para quem as merece.

(Das Cartas de São João Bosco)