Mostrando postagens com marcador Textos Católicos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Textos Católicos. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

SOBRE O AMOR DE DEUS

Toda santidade e perfeição consiste no amor a Jesus Cristo, nosso Deus, nosso sumo bem e nosso redentor. É a caridade que une e conserva todas as virtudes que tornam o homem perfeito. Será que Deus não merece todo o nosso amor? Ele nos amou desde toda a eternidade. 'Lembra-te, ó homem' -assim nos fala - que fui eu o primeiro a te amar. Tu ainda não estavas no mundo, o mundo nem mesmo existia, e eu já te amava. Desde que sou Deus, eu te amo'.

Deus, sabendo que o homem se deixa cativar com os benefícios, quis atraí-lo ao seu amor por meio de seus dons. Eis por que disse: 'Quero atrair os homens ao meu amor com os mesmos laços com que eles se deixam prender, isto é, com os laços do amor'. Tais precisamente têm sido todos os dons feitos por Deus ao homem. Deu-lhe uma alma dotada, à sua imagem, de memória, inteligência e vontade; deu-lhe um corpo provido de sentidos; para ele criou também o céu e a terra com toda a multidão de seres; por amor do homem criou tudo isso, para que todas as criaturas servissem ao homem e o homem, em agradecimento por tantos benefícios, o amasse.

Mas Deus não se contentou em dar-nos tão belas criaturas. Para conquistar todo o nosso amor, foi ao ponto de dar-se a si mesmo totalmente a nós. O Pai eterno chegou ao extremo de nos dar seu único Filho. Vendo-nos a todos mortos pelo pecado e privados de sua graça, que fez ele? Movido pelo imenso, ou melhor - como diz o Apóstolo - pelo seu demasiado amor, enviou seu amado Filho, para nos justificar e nos restituir a vida que havíamos perdido pelo pecado.

Ao dar-nos o Filho, a quem não poupou para nos poupar, deu-nos com ele todos os bens: a graça, a caridade e o paraíso. E porque todos estes bens são certamente menores do que o Filho, Deus, que não poupou a seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos daria tudo junto com ele? (Rm 8,32).

(Santo Afonso Maria de Ligório)

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

AS VINHAS DE DEUS (VIII)

 

50. A videira é plantada principalmente por causa de seu fruto; e, por isso, o fruto é o primeiro a ser desejado e procurado, embora as folhas e as flores apareçam antes dele. Assim também, o grande Redentor foi o primeiro na intenção divina e naquele plano eterno que a Divina Providência formou para trazer as criaturas à existência. Tendo em vista esse fruto tão desejável, foi plantada a videira do mundo e estabelecida a sucessão de muitas gerações, as quais, à semelhança das folhas e das flores, deveriam preceder o fruto como precursoras, preparando convenientemente a vinda daquele cacho de uvas que o Esposo do Cântico dos Cânticos tanto louva e cujo vinho alegra a Deus e ao homem.

51. O nardo é um pequeno arbusto que jamais se eleva às alturas, como os cedros do Líbano, mas permanece sempre em sua pequenez, exalando o seu perfume com tamanha suavidade que alegra todos os que dele se aproximam. Podemos, com efeito, dizer com toda a verdade que a Santíssima Virgem é semelhante a um nardo preciosíssimo, pois jamais se exaltou por causa das grandes graças e favores que recebeu, nem pelos louvores que lhe foram tributados, mas permaneceu sempre bela em sua humildade e pequenez. E, por essa humildade, à semelhança do nardo, difundiu ao seu redor um perfume tão suave que este se elevou até o trono da Divina Majestade; e Deus tanto se comprazia nele que desceu do Céu, veio até esta terra e se encarnou em seu sagrado seio.

52. Imaginai uma grande esponja que acaba de ser formada no mar. Se a contemplardes, vereis que há água em todas as suas partes e que ela está inteiramente impregnada de água; o mar está acima e abaixo dela e, numa palavra, ela se encontra cercada de água por todos os lados... Observai, porém, peço-vos, que, embora o mar esteja em todas as partes da esponja, a esponja não se estende por toda a imensidão do mar, pois o mar é um oceano vasto e profundo que não poderia ser contido numa esponja. Ora, esta comparação representa muito bem a união da natureza divina com a natureza humana. A esponja representa a humanidade de Nosso Senhor; o oceano, a sua Divindade, que de tal modo impregnou a humanidade que não há a menor parte do corpo ou da alma de Nosso Senhor que não esteja repleta dela.

53. Ó Jesus! Enchei os nossos corações com o sagrado bálsamo de vosso divino Nome, para que a suavidade de seu perfume se difunda por todos os nossos sentidos e em todas as nossas ações! Mas, para que estes corações se tornem capazes de receber tão doce licor, circuncidai-os e cortai deles tudo quanto possa desagradar aos vossos santos olhos.

54. Consideramos também a Cruz, não como ela se encontra atualmente, separada do Crucificado, à maneira de uma relíquia, mas como era no tempo da Paixão, quando Nosso Senhor estava nela pregado, quando essa árvore preciosa estava carregada de seu fruto, quando essa mirra destilava de todos os lados gotas de Sangue salvador. Nessa contemplação, nossas almas honram a verdadeira Cruz com a mesma honra com que honram o Crucificado.

55. A mirra tem um perfume muito suave, mas seu suco é extremamente amargo. A querida esposa, pois - a Igreja ou a alma devota - diz que seu Amado será para ela como um ramalhete de mirra sobre o coração, para mostrar que conservará sempre a lembrança da amargura de sua dolorosa Paixão.

56. Houve, sem dúvida, uma grandíssima alegria na arca de Noé, quando a pomba, que pouco antes havia saído para verificar em que estado se encontrava o mundo, finalmente regressou trazendo no bico um ramo de oliveira, sinal seguro de que as águas haviam baixado e de que Deus havia restituído ao mundo a felicidade de sua paz. Mas, ó Deus! Que alegria, que júbilo festivo não deve ter tomado os Apóstolos reunidos, quando viram a sagrada Humanidade de Jesus retornar ao meio deles depois da Ressurreição, trazendo o ramo de oliveira de uma santa e agradável paz e dizendo-lhes: Pax vobis - A paz esteja convosco!

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 5, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

PRESENÇA DE DEUS

1. Precisamos estar convencidos de que Deus está sempre perto de nós. Vivemos como se ele estivesse longe, lá no alto dos céus, e nos esquecemos de que Ele está também constantemente ao nosso lado. Ele está presente como um Pai amoroso. Ele ama cada um de nós mais do que todas as mães do mundo podem amar seus filhos - ajudando-nos, inspirando-nos, abençoando... e perdoando... Precisamos estar cheios, imbuídos da ideia de que nosso Pai, e verdadeiramente nosso Pai, é Deus, que está perto de nós e no céu.

2. Acostume-se a elevar o seu coração a Deus, em atos de gratidão, muitas vezes ao dia. Porque Ele lhe dá isto e aquilo. Porque você foi desprezado. Porque você não tem o que precisa ou porque você tem. Porque Ele fez a sua Mãe tão bela, Sua Mãe que também é a sua Mãe. Porque Ele criou o sol e a lua e este animal e aquela planta. Porque Ele fez aquele homem eloquente e deixou você sem palavras... Agradeça a Ele por tudo, porque tudo está bem.

3. Não seja tão cego ou tão desatento a ponto de não entrar em cada Tabernáculo quando vislumbrar as paredes ou as torres das casas de Deus. Ele está esperando por você. Não seja tão cego ou tão desatento a ponto de não invocar Maria Imaculada com pelo menos uma exclamação, sempre que passar perto daqueles lugares onde você sabe que Cristo é ofendido.

4. Seja sempre uma alma de oração: nas intenções, que Jesus seja nosso objetivo; nos afetos, nosso Amor; na conversa, nosso tema; nas ações, nosso modelo.

5. Nunca tome uma decisão sem antes parar para refletir sobre o assunto na presença de Deus.

6. Se você se acostumar, mesmo que apenas uma vez por semana, a buscar a união com Maria para ir até Jesus, verá como terá mais a presença de Deus.

7. Viva na presença de Deus e você terá uma vida sobrenatural.

(Excertos da obra 'Caminho', de São Josemaria Escrivá)

sábado, 8 de agosto de 2026

AS VINHAS DE DEUS (VII)

 

43. Os antigos filósofos, falando do homem, diziam que ele era uma árvore invertida, com as raízes para cima e os ramos para baixo. Ora, assim como uma árvore não pode viver por muito tempo se não extrair continuamente, por meio de suas raízes, o alimento de que necessita, assim também acontece com o homem, que não pode viver a vida da graça se não fizer descer sobre si as influências celestes por meio da oração, a qual, depois dos sacramentos, é um dos meios mais poderosos, não somente para conservar a graça, mas também para adquiri-la.

44. Assim como a vindima se faz espremendo as uvas, também a vindima espiritual se faz espremendo a graça de Deus e Suas promessas. Para extrair a graça de Deus, devemos multiplicar nossas orações por meio de breves, mas ardentes, elevações de nosso coração a Deus; e, para obter o cumprimento de Suas promessas, devemos multiplicar nossas obras de caridade, pois é em favor delas que Deus cumprirá Suas promessas.

45. 'Quem é esta que sobe do deserto como uma coluna de fumaça de perfumes aromáticos, de mirra e incenso e de todos os pós do perfumista, apoiada em seu amado?' (Ct 3,6 e 8,5.) Essas palavras podem muito bem ser aplicadas a uma alma humilde que pratica perfeitamente a bela virtude da humildade; pois, embora seja muito fecunda em boas obras, o humilde conceito que tem de si mesma faz com que não veja em si bem algum; antes, julga que nada faz e parece a seus próprios olhos semelhante a um deserto estéril, onde não há árvores frutíferas, porque não percebe em si mesma uma única virtude... O lírio e a rosa da oração somente se conservam e se alimentam entre os espinhos da mortificação.

46. Assim como as aves têm seus ninhos, para onde se retiram quando precisam, e os cervos têm seus bosques, onde podem abrigar-se dos ardores do verão, assim também nossos corações devem escolher, a cada dia, algum lugar de repouso, seja no Monte Calvário, seja nas Chagas de nosso Salvador, seja em algum outro lugar junto dEle, para onde possam retirar-se à vontade, a fim de buscar repouso e refrigério em meio às fadigas da vida e encontrar-se ali como em uma fortaleza, protegidos contra a tentação.

47. 'Tu és um jardim fechado e selado' - diz o Esposo, no Cântico dos Cânticos, à Santíssima Virgem; um jardim ornado com as mais belas flores que se poderiam encontrar... Não foi por meio dela que a Igreja foi semeada com as rosas do martírio e as violetas de tantas santas viúvas, humildes e modestas como essas flores, mas que espalham ao seu redor um suave perfume?... Foi seguindo o exemplo que ela nos deu que tantas virgens consagraram seus corações e seus corpos à Divina Majestade, mediante uma resolução e um voto indissolúvel de conservar sua virgindade e sua pureza.

48. São José superou em pureza os Anjos e os Arcanjos. Pois, se o sol necessita apenas de alguns dias para dar ao lírio a sua deslumbrante brancura, quem poderá imaginar a que admirável grau se elevou a pureza de José, exposta, como esteve, noite e dia, durante tantos anos, aos raios do Sol de Justiça e daquela Lua mística que recebe do Sol o seu esplendor?

49. Acima de tudo, recomendo-vos uma fervorosa oração mental, especialmente aquela que tem por objeto a Vida e a Paixão de Nosso Senhor. Esta é a árvore da vida, à sombra da qual devemos buscar repouso.

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 5, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

sexta-feira, 31 de julho de 2026

AS VINHAS DE DEUS (VI)

36. Deus nos ordenou que fizéssemos o melhor que pudéssemos para adquirir a virtude. Não negligenciemos, pois, nada do que possa contribuir para essa santa empresa. Mas, depois de termos plantado e regado, não nos esqueçamos de que somente Deus pode dar o crescimento (1Cor 3,6) às árvores de nossas boas inclinações e hábitos. Por isso, devemos esperar da sua Providência o fruto de nossos desejos e de nossas obras. Se, portanto, não sentimos que estamos progredindo na vida devota tanto quanto desejaríamos, não nos perturbemos; permaneçamos em paz e deixemos que a tranquilidade reine sempre em nossos corações. Cabe-nos cultivar bem a nossa alma, e a isso devemos dedicar-nos com fidelidade. Quanto à abundância da colheita, deixemo-la inteiramente nas mãos de Nosso Senhor. O lavrador jamais será censurado por não ter obtido uma colheita abundante; será, porém, justamente repreendido se negligenciar o cultivo da terra e deixar de lançar a semente no tempo oportuno.

37. Rogo-vos que não ameis coisa alguma com excessivo ardor, nem mesmo a virtude, pois às vezes a perdemos justamente por ultrapassar os limites da moderação... Parece-me que não é natural que uma rosa seja branca, pois as vermelhas são mais belas e exalam perfume mais suave; mas é natural que o lírio seja branco. Sejamos, pois, aquilo que somos, e sejamo-lo unicamente para a honra do nosso Criador, de cujas mãos saímos como obra sua... Seria grande insensatez esperar colher figos de uma oliveira, ou azeitonas de uma figueira. Quem deseja figos deve plantar figueiras; quem deseja azeitonas deve plantar oliveiras.

38. Devemos ter grande cuidado em jamais indagar por que a Sabedoria Suprema concedeu determinada graça a uma pessoa em vez de outra, ou por que faz abundarem os seus favores mais num lugar do que noutro. Pois, uma vez que todos possuem o necessário - e mais do que o necessário - para alcançar a salvação, que direito teria alguém de se queixar porque aprouve a Deus conceder as suas graças mais abundantemente a uns do que a outros? Como diz São Paulo: 'Cada um recebe de Deus o seu próprio dom: um de um modo, outro de outro' (1Cor 7,7)... É preciso, portanto, que haja flores de diferentes tamanhos, diversas cores, variados perfumes e, enfim, distintos graus de perfeição. Todas possuem o seu valor, a sua graça e o seu encanto; e todas, reunidas na harmonia da sua diversidade, compõem uma beleza perfeita e extremamente agradável.

39. Aqueles que respiram o perfume da mandrágora apenas de passagem, e à distância, deleitam-se com uma fragrância muito agradável; mas os que o aspiram de perto e por muito tempo acabam desfalecendo e adoecendo. Assim também as honras proporcionam uma doce consolação àquele que delas apenas saboreia moderadamente, sem nelas prender excessivamente o coração; mas tornam-se extremamente nocivas para quem delas se alimenta e a elas se apega.

40. A honra, a posição social e a dignidade são como o açafrão: nunca prosperam tanto como quando são pisados. A beleza só alcança toda a sua graça e encanto quando é despretensiosa e não se preocupa consigo mesma; e a ciência, quando nos enche de vaidade, perde o seu brilho e degenera em pedantismo.

41. É bom cultivar muitos santos desejos; mas é preciso que eles sejam ordenados, e que procureis realizá-los, cada um a seu tempo e conforme as vossas possibilidades. As videiras e outras árvores são podadas para que não produzam folhas e ramos em excesso, a fim de que sua seiva seja suficiente para formar bons frutos e para que toda a sua força natural não se dissipe numa abundância exagerada de folhagem. Assim também convém moderar a multiplicação dos nossos desejos, para que a alma não se entretenha apenas com eles, negligenciando, entretanto, as obras concretas. Ora, a menor dessas obras costuma ser mais proveitosa do que grandes desejos de coisas que estão além do nosso alcance. Porque Deus espera de nós muito mais fidelidade na realização das pequenas coisas que colocou ao nosso alcance do que um ardor desmedido pelas grandes obras que não dependem de nós.

42. Caminhemos por estes humildes vales das pequenas virtudes. Neles encontraremos a rosa entre os espinhos - a caridade, que resplandece em meio às aflições interiores e exteriores; o lírio da pureza; a violeta da mortificação; e muitas outras flores que não poderia enumerar. Mas, acima de todas, amo especialmente estas três pequenas virtudes: a mansidão do coração, a pobreza de espírito e a simplicidade de vida; e também estes grandes exercícios da caridade: visitar os enfermos, socorrer os pobres e consolar os aflitos, mas sempre sem agitação nem precipitação, e com verdadeira liberdade de espírito. Nossos braços ainda não são suficientemente longos para alcançar os cedros do Líbano; contentemo-nos, por enquanto, com o hissopo dos vales.

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 4, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

sábado, 25 de julho de 2026

AS VINHAS DE DEUS (V)

 

29. Ao cultivarmos o nosso jardim, não podemos deixar de admirar a inocência e a pureza do humilde morangueiro. Embora se arraste rente ao chão e seja continuamente pisado por serpentes, lagartos e outros répteis venenosos, não absorve o menor vestígio de veneno nem a mais leve qualidade maligna. É um verdadeiro sinal de que não possui qualquer afinidade com o veneno. Assim acontece também com as virtudes humanas. Ainda que estejam em um coração vil, terreno e dominado pelo pecado, de modo algum se contaminam com a sua malícia, porque são de natureza tão sincera e tão pura, que não podem ser corrompidas pela convivência com a iniquidade.

30. A nossa miserável natureza, ferida pelo pecado, assemelha-se às palmeiras que existem nesta região, as quais não produzem senão bagas imperfeitas, meros esboços de fruto. Produzir tâmaras plenamente desenvolvidas, doces e maduras, é privilégio reservado às terras mais quentes. Assim também os nossos pobres corações humanos produzem naturalmente certos começos de amor para com Deus; mas amá-lo acima de todas as coisas - que é a verdadeira maturidade do amor devido à Bondade Suprema - é dom que pertence somente às almas vivificadas e auxiliadas pela graça celeste, e que se encontram no estado da santa caridade.

31. O homem está neste mundo como uma árvore plantada pela mão do Criador, cultivada por sua sabedoria e regada pelo Sangue de Jesus Cristo, para que produza frutos segundo o agrado de seu Senhor, que deseja ser servido principalmente nisto: que, com pleno consentimento da nossa vontade, nos deixemos governar pela sua Providência, a qual conduz os que livremente se submetem a ela e arrasta os que lhe resistem.

32. O ramo da videira, unido à cepa, não produz fruto por si mesmo, mas porque faz parte da própria videira. Assim também nós estamos unidos a Nosso Senhor pela caridade, como os membros estão unidos à cabeça; e é por isso que os nossos frutos e as nossas boas obras, recebendo dele o seu valor, tornam-se meritórios para a vida eterna.

33. Se cortardes um pé de roseira e colocardes um grão de almíscar na abertura, as rosas que depois nascerem exalarão um intenso perfume de almíscar. Fendei, pois, o vosso coração pela santa penitência e depositai nessa abertura o amor de Deus; depois enxertai sobre ele a virtude que desejardes, e todas as vossas boas obras ficarão impregnadas do perfume da santidade, sem que tenhais de vos preocupar com isso.

34. E, assim como sementes que por si mesmas produziriam apenas melões insípidos e sem sabor passam a produzir melões deliciosos e perfumados quando são embebidas em água açucarada, assim também as nossas almas, que por si mesmas não seriam capazes de conceber um único bom pensamento para o serviço de Deus, quando são impregnadas das santas delícias do Espírito Santo, que habita em nós, produzem obras santas que conduzem à glória eterna e nos levam até ela.

35. As nossas obras, consideradas apenas como procedentes de nós mesmos, não passam de frágeis caniços; mas esses caniços tornam-se de ouro pela caridade. É com essa vara de ouro que se mede a Jerusalém celeste (Ap 21,15), a qual nos é concedida segundo essa medida. Pois tanto os homens como os anjos recebem maior ou menor grau de glória conforme a sua caridade e as suas obras; por isso, 'a medida do anjo é também a medida do homem' (Ap 21,17). E Deus 'dará a cada um segundo as suas obras' (Ap 22,12).

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 4, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

terça-feira, 21 de julho de 2026

A SÓS COM DEUS (V)

 

São Paulo diz que o Reino dos Céus é paz, justiça e alegria no Espírito Santo; e Jesus me ensina, no Santo Evangelho, esta verdade tão cheia de luz e de consolação: 'O Reino dos Céus está dentro de vós mesmos'. Ele está dentro de mim, e é um reino de luz, de belezas e de harmonias. Não há lugar, nesse reino, para as trevas nem para a fealdade das traições, nem para os desacertos e desvios da vontade. Nesse reino de graça e de amor, só podem ser ouvidas melodias de anjos, que cantam a glória de Deus. Esse reino é constituído pela presença de Deus.

Deus está em mim e me plenifica. Deus envolve minha alma com sua graça e a transforma em seu amor. Deus faz de minha alma um Reino dos Céus, e Ele mesmo é o meu Rei; põe em mim amplitudes e belezas infinitas e me fortalece com aspirações ilimitadas à sua própria Vida eterna e infinita. Porque Deus é a minha vida.

O Senhor trouxe-me para viver a vida eterna, que consiste em ter o pensamento, a vontade, toda a atenção e todo o afeto postos em Deus e em Jesus Cristo. Parece-me ouvir, como um dulcíssimo eco, o meu santo de devoção, São João da Cruz:

Anima-te e ergue, com alegria, o coração, e entra na luz;
olha, jubiloso e confiante, para o teu Pai Celestial,
que deseja envolver-te e iluminar-te
com a luz e a beleza inatas do seu olhar.

E para que assim o possa fazer,
não queiras nada, nada, nada do que é propriamente teu,
porque é vileza e miséria, porque é pequenez e desarmonia.
E o que é vil e miserável não pode entrar no Reino dos Céus.

Não queiras nada do que pertence à terra, às trevas e à mesquinhez.
Levanta-te e esvazia-te de tudo o que é feio e mortal,
para que entre em ti a chama do amor de Deus e te transforme.
Deus então estabelecerá em ti o Reino dos Céus
e te fará experimentar o gosto da vida eterna.

[Excertos da obra 'Com Dios a Solas - Un Carmelita Descalzo', do Pe. Valentin de San Jose (1896 - 1989)]

sábado, 18 de julho de 2026

AS VINHAS DE DEUS (IV)

 

22. Se formos melindrosos quanto a cargos e títulos, além de expormos nossas qualificações a exames e contradições, nós as tornamos vis e desprezíveis. Pois a honra, que é nobre quando concedida livremente, torna-se detestável quando exigida, buscada e reivindicada. As flores, que são lindas enquanto deixadas no solo em que foram plantadas, murcham assim que são colhidas.

23. Há muitas causas diferentes que servem para nos fazer julgar os outros precipitadamente, e devemos tentar descobri-las e corrigi-las o mais rápido possível. Algumas pessoas são ásperas, amargas e rudes por natureza, e tornam tudo o que encontram igualmente áspero e amargo, 'mudando' - diz o profeta - 'o juízo em absinto, e nunca julgando o seu próximo senão com rigor e aspereza'. Seria muito bom para essas pessoas caírem nas mãos de um bom médico espiritual. Pois, como essa amargura de coração lhes é natural, é difícil superá-la; e, embora não seja um pecado, mas apenas uma imperfeição, ainda assim é perigosa, porque faz o julgamento temerário e a calúnia reinarem na alma.

24. Todos os cristãos, certamente, mas especialmente todos os religiosos, ao considerarem e lerem as vidas dos santos, deveriam tentar moldar-se conforme o seu exemplo, assim como as abelhas apenas pousam nas flores para colher o mel com o qual se alimentam. Ora, há muitas almas que fazem justamente o contrário disso e se assemelham às vespas, que também pousam na flor, mas para extrair não o mel, mas o veneno; e, se porventura sugam o mel, é apenas para transformá-lo em fel; olhando para as ações de seus próximos não para colher o mel da santa edificação pela consideração de suas virtudes, mas para extrair veneno delas ao repararem nas falhas e imperfeições daqueles com quem convivem ... E, ainda, há outras pessoas maliciosas que não se contentam em reparar nas falhas alheias e copiá-las, mas dão más interpretações a tudo o que veem e incitam os outros a fazerem o mesmo, de modo que são exatamente como as vespas, que por seu zumbido atraem outras moscas para a flor onde descobriram o veneno. 

25. Às vezes, julgamos a afeição mais por belas frases do que pelos frutos de verdadeiros sentimentos interiores, os quais só aparecem em ocasiões raras e notáveis, e que nos são muito mais úteis.

26. A nogueira é muito prejudicial às vinhas e aos campos em que é plantada porque, sendo muito grande, atrai para si toda a seiva da terra, que deixa de ser suficiente para nutrir as outras plantas. Suas folhas são tão densas e espalhadas que fazem uma sombra agradável e, por fim, ela atrai os transeuntes que, ao derrubarem seus frutos, estragam e pisoteiam tudo ao redor. Esses amores tolos causam o mesmo dano à alma, pois a ocupam e absorvem todos os seus pensamentos e sentimentos com tanta força que ela não fica apta para nenhuma boa obra. As folhas, isto é, as conversas, os divertimentos e os galanteios, são tão frequentes que desperdiçam todo o tempo livre de alguém, e então causam tantas tentações, distrações, suspeitas e outras consequências miseráveis que o coração inteiro fica esmagado e arruinado. Em suma, eles banem não apenas o amor celestial, mas o temor de Deus, enervam a mente e enfraquecem a reputação. São, em uma palavra, o passatempo dos mundanos, mas a praga dos corações.

27. O grande São Basílio nos diz que a rosa entre os espinhos faz esta admoestação ao homem: 'As coisas mais agradáveis deste mundo, ó mortais, estão sempre misturadas com a dor; nada aqui é puro: o arrependimento está sempre lado a lado com a alegria, a família e os fardos com a criação dos filhos, a ignomínia com a glória, as humilhações com as honras, o desgosto com o prazer e a doença com a saúde. A rosa é uma flor bela' - continua - 'mas ela sempre me enche de tristeza, ao lembrar-me dos meus pecados, pelos quais a terra foi condenada a produzir espinhos'.

28. Mesmo a rosa não é tão perfeita que não tenha as suas imperfeições, pois embora pela manhã seja bela e brilhante, derramando um perfume delicioso ao seu redor, à noite está murcha e desbotada; de modo que a Escritura faz uso dela para simbolizar o prazer e os deleites do mundo, e coisas que, embora pareçam belas aos nossos olhos, são passageiras e de curta duração.

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 4, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

terça-feira, 14 de julho de 2026

A SÓS COM DEUS (IV)

 

O santo ama a solidão e ama o retiro e o silêncio, porque ama a luz, porque recebe soberanas notícias da infinita magnificência de Deus; como vive vivendo o amor de Deus, todas as coisas lhe falam de Deus e o próprio Deus fala continuamente ao seu coração palavras do Céu.

Quero nestes dias de recolhimento especial olhar para essas nobilíssimas verdades e pedir humildemente ao Senhor que Ele mesmo me ensine tanta formosura. O amoroso conhecimento e abraço desta formosura faz, ainda na terra, a felicidade da alma santa que goza de viver na companhia de Deus. O trato não necessário com as criaturas impede esta amorosa e gozosa comunicação da alma com Deus e a afasta da vida e da luz divinas.

Nestes dias quero fechar os olhos e os ouvidos do meu corpo, para estar atento e abraçado somente com Deus. Recolhe-te, alma minha, dentro de ti mesma e submerge-te na luz, na verdade, na beleza infinita e no amor sem limites de Deus. Esconde-te em teu Deus, com visão de fé, e vive a vida eterna da graça e do amor.

Moisés, o escolhido de Deus, subiu ao alto do Monte Sinai, ao silêncio não perturbado por ninguém, à claridade e luz pura não contaminada; subiu, deixando abaixo o ruído e as inquietações das gentes com todos os seus afãs, preocupações e pequenezas; subiu para isolar-se das necessárias perturbações de seus afazeres e obrigações e ficar a sós com Deus. Não subia para morrer; subia para receber a instrução e o ensinamento do próprio Deus; para tratar em silêncio e isolamento com Deus e escutar diretamente as palavras de verdade que Ele colocava no íntimo de sua alma. 

Em um momento difícil da perseguição que padeceu por parte dos grandes da terra, Elias sentiu a vida pesada e intolerável; sentiu um tédio avassalador e o peso de sua miséria natural. Deus mandava-o subir à solidão e ao silêncio, e na luz de Deus. Elias não fala, mas escuta, olha, atende a Deus no silêncio e no esquecimento das criaturas, e sente a presença e o olhar de Deus. Nesse olhar de amor, comunica-se-lhe e dá-se-lhe a sabedoria do divino conhecimento. Junto com este conhecimento, recebeu em sua alma a fortaleza do espírito e a vida de Deus, que é vida eterna de luz, de verdade e de todo bem.

Como a Moisés e como a Elias, chamastes-me e trouxestes-me, Senhor, à Religião, e agora a esta solidão e recolhimento; não para morrer, nem para tristezas, nem para ruídos ou distrações com as criaturas, não para descansar, mas para a tua casa de silêncio e santidade, para viver em ti mesmo, para comunicar-te e dar-me a tua vida, e alegrias e luzes do espírito; vim para viver na tua própria vida.

Que eu vos conheça e vos ame, Deus meu. Quereis dar-me uma vida sobrenatural em plenitude. Que eu prepare a minha alma com virtudes e com o contínuo trato convosco na oração e no silêncio, para que possa crescer e desenvolver-se continuamente mais esta vossa vida em mim. Dá-me a vossa própria vida. Como poderei corresponder a um tal bem?

[Excertos da obra 'Com Dios a Solas - Un Carmelita Descalzo', do Pe. Valentin de San Jose (1896 - 1989)]

sábado, 11 de julho de 2026

AS VINHAS DE DEUS (III)

 

15. Há algumas pessoas que são naturalmente leves e frívolas; outras, ásperas e ranzinzas; outras, apegadas às suas próprias opiniões; outras, inclinadas à ira e à indignação; de fato, há raríssimas pessoas nas quais não encontramos algum tipo de imperfeição. Mas, embora tais falhas possam parecer naturais de cada um, elas podem ser corrigidas e moderadas e, com grande cuidado e cultivando a virtude oposta, podemos nos libertar delas por completo. E eu lhe digo que isso precisa ser feito. Meios foram encontrados para transformar amêndoas amargas em doces, apenas perfurando o pé da árvore para deixar o suco escorrer. Por que não podemos expelir nossas inclinações perversas e assim nos tornarmos melhores? Não existe caráter natural tão bom que não possa ser corrompido por hábitos viciosos; e não há nenhum tão rebelde que não possa ser subjugado, primeiro, pela graça de Deus, e depois, pelo empenho constante e diligência.

16. Renunciar a nós mesmos é simplesmente purificar-nos de tudo o que é feito pelo instinto do amor-próprio, o qual, enquanto estivermos nesta vida mortal, não deixará de produzir brotos que devem ser imediatamente cortados, assim como fazemos com a videira. E como não basta podar a videira uma vez por ano, sendo necessário cortá-la em um momento e, em outro, desfolhá-la, de modo que o viticultor deve ter a podadeira continuamente pronta para cortar os ramos inúteis; da mesma forma devemos lidar com as nossas imperfeições.

17. O amor-próprio, a autoestima e uma falsa liberdade de espírito são raízes que nunca podem ser completamente arrancadas do coração humano; mas podemos impedir a produção de seu fruto, que é o pecado. É impossível, enquanto estivermos no mundo, evitar os seus primeiros ímpetos — ou seja, os seus brotos, isto é, os seus primeiros movimentos; mas podemos moderar e diminuir o seu número e a sua violência pela prática das virtudes opostas e, acima de tudo, do amor de Deus. Devemos, portanto, ser pacientes e corrigir os nossos maus hábitos pouco a pouco, conquistar as nossas aversões e superar as nossas más inclinações e paixões à medida que elas entrarem em ação.

18. Alguns autores nos asseguram que, se escrevermos algumas palavras em uma amêndoa inteira, a colocarmos novamente em sua casca, a fecharmos com muito cuidado e a plantarmos, cada fruto da árvore que nascer dela trará as palavras escritas nele. De minha parte, nunca pude aprovar o método daqueles que, desejando reformar um homem, começam pelo exterior - pelo corpo, pelo rosto, pelas vestes ou pelo cabelo. Penso que é muito melhor começar pelo interior: 'Voltai-vos para mim, diz Deus, de todo o vosso coração; meu filho, dai-me o vosso coração'. Pois, sendo o coração a fonte de todas as ações, conforme ele for, assim elas serão. O Esposo Divino, convidando a alma, diz: 'Põe-me como um selo sobre o teu coração, como um selo sobre o teu braço'. Sim, verdadeiramente, pois quem quer que tenha Jesus Cristo dentro de seu coração, logo o manifestará em suas ações externas.

19. Tendo encontrado o Salvador de nossas almas, Madalena converteu-se de forma tão verdadeira que se tornou um vaso puro e fragrante, no qual Deus derramou o mais precioso e suave licor da sua graça, com o qual ela depois perfumou o seu Salvador; e aquela que, por seus pecados, era uma massa de imundície, tornou-se, por sua conversão, um belo lírio, uma flor perfeitamente doce e perfumada; e quanto mais suja e revoltante ela era antes, por causa de seus pecados, tanto mais foi purificada e renovada pela graça depois. Assim como vemos que as flores no jardim tiram seu crescimento e beleza da matéria em decomposição, e quanto mais o solo é adubado, mais belas as flores se tornam, da mesma forma Santa Maria Madalena, após a sua conversão, foi mais bela em sua extrema humildade, em sua fervorosa contrição e no ardente amor com que fez penitência, porque, antes, estava profundamente imersa na maldade e no pecado.

20. Podemos, portanto, prestar contas da ordem dos efeitos da Divina Providência, no que diz respeito à nossa salvação, descendo do primeiro ao último - isto é, do fruto, que é a glória, até a raiz desta bela planta, que é a redenção de nosso Salvador. Pois a Bondade Divina concede a glória após os méritos, os méritos após a caridade, a caridade após a penitência, a penitência após a obediência em seguir a nossa vocação, a obediência em seguir a nossa vocação após a nossa vocação, e a vocação após a redenção realizada por nosso Salvador. Em suma, todas essas graças dependem absolutamente da redenção realizada por nosso Salvador, que lhes deu mérito para nós, segundo a estrita justiça, por meio de Sua sublime e amorosa obediência, a qual o tornou 'obediente até a morte, e morte de cruz', e que é a raiz de todas as graças que recebemos, nós que somos ramos espirituais enxertados em seu tronco.

21. Um inverno rigoroso mata e destrói todas as plantas e flores do campo, de modo que, se durasse para sempre, elas também permaneceriam neste estado de morte. O pecado, esse triste e terrível inverno da alma, destrói todas as obras santas que ali encontra; e, se durasse sempre, a vida e o vigor jamais retornariam. Mas, assim como no retorno da bela primavera, não apenas as novas sementes, semeadas sob o favor desta estação bela e frutífera, brotam frescas e fortes, cada uma segundo a sua espécie, mas também as antigas plantas, que a severidade do inverno havia castigado e murchado, tornam a esverdear e a ganhar vigor; da mesma forma, quando o pecado é expulso e a graça do amor divino retorna à alma, não apenas os novos afetos que o retorno desta santa primavera produz desabrocham em ricos méritos e bênçãos, mas as obras desbotadas e murchas sob a crueza do inverno passado do pecado, como que libertas de seu inimigo mortal, retomam sua força e vigor e, como que ressuscitadas da morte, florescem de novo e frutificam como méritos para a vida eterna.

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 3, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

terça-feira, 7 de julho de 2026

A SÓS COM DEUS (III)


Quero meditar atentamente sobre quais são os obstáculos que me impedem de viver esta vida espiritual e quais são aqueles que eu mesmo coloco diante de mim. Quero contemplá-los para arrancá-los de minha alma e, com firme resolução, começar a viver a vida que Deus me oferece. Para que eu a vivesse, Ele me chamou e me tirou do mundo; agora inspira-me a sair de mim mesmo e a viver a sua vida, recolhido não apenas no convento mas, sobretudo, nEle mesmo, fazendo da minha vida um Céu, vivendo do seu Amor.

No Céu e na vida do Céu, tudo é luz e beleza; tudo é transparência e claridade; Deus enche todas as coisas e tudo se vê em Deus. Por que, então, ainda não vivo essa vida espiritual? A razão está em ter desperdiçado tantos meios que Ele continuamente me concedeu para viver em união de amor com Ele: meios ordinários e extraordinários, muitos dos quais recordo muito bem.

O maior obstáculo para viver a santa vida interior não é o mundo, nem o demônio: o maior obstáculo está em que tenho mais cabeça do que coração, e mais paixões e dissipação do que prudência e sensatez. Tenho mais 'cabeça', guiada pelo meu egoísmo, pelo comodismo e pelo apego às comodidades, do que 'coração', forte e mortificado, cheio do amor e da humildade de Jesus. Quero saciar minha curiosidade e minha dissipação, e, ao mesmo tempo, permanecer recolhido e atento ao amor de Deus.

Quero o impossível: uma virtude, uma santidade e uma vida de Deus vividas de modo humano e até mundano, tanto quanto isso pode acontecer dentro de um convento. Mas a vida de Deus é vivida à maneira divina, com a atenção voltada para o interior, onde Deus habita. Tenho, pois, de expulsar de mim esse pequeno mundo que afago e alimento com fantasias em meu próprio coração, porque ele é incompatível com o amoroso olhar de Deus. Não posso unir a baixeza da terra à beleza do Céu. A vida do Céu e o amor do Céu devem dar vida ao meu coração. Mais ainda: devo confessá-lo com a fronte por terra, cheio de confusão e, ao mesmo tempo, de alegria: Deus quer ser o meu coração. Se o meu fim é amar a Deus, não deve este pensamento inundar-me de alegria e de júbilo?

A vida eterna na terra consiste em conhecer a Deus com a visão da fé e a posse da caridade; é a experiência de Deus vivido na luz do amor; é conhecê-lo interiormente, no mais íntimo de mim, tanto quanto é possível conhecê-lo, por uma viva presença sua em mim, por uma luz de afeto que ultrapassa toda luz do conhecimento natural, pela atuação da fé viva, cheia de amor, que me dá a certeza de que Deus está em mim, amando-me e preenchendo-me.

Ele está em mim por essência, presença e potência, e me plenifica com o amor de Pai, comunicando-me a sua Vida; está em mim pela vida de amor e me dá o seu amor, um amor que é mais do que amor do Céu. Eu estou em Deus, amando-o. A vida de Deus é amor experimentado; é uma realidade de conhecimento que ilumina. O amor é vida, a mais bela de todas que se vive.

[Excertos da obra 'Com Dios a Solas - Un Carmelita Descalzo', do Pe. Valentin de San Jose (1896 - 1989)]

sábado, 4 de julho de 2026

AS VINHAS DE DEUS (II)

 

8. Como é possível que uma alma racional, tendo uma vez provado as delícias do amor divino, possa algum dia voltar-se voluntariamente para beber as amargas águas do pecado mortal? As crianças que são alimentadas com leite, manteiga e mel detestam o amargor do absinto e da orpina, e choram lastimosamente se são forçadas a prová-los. Como, então, ó verdadeiro Deus, pode uma alma que uma vez experimentou a bondade e o amor de seu Criador abandonar-vos para seguir as vaidades do mundo?

9. A mandrágora é um encanto, que enfeitiça os olhos e suaviza a dor, a tristeza e todas as nossas paixões por meio do sono. Contudo, aquele que lhe aspira o odor por muito tempo torna-se mudo, e aquele que dela bebe profundamente morre sem remédio... Poderiam o fausto, as riquezas e os deleites dos mundanos ser melhor representados? São belos e atraentes; mas quem come desses frutos, isto é, quem os examina cuidadosamente, descobrirá que são destituídos de gosto e de prazer. Não obstante, encantam e acalmam pelo seu vão perfume; e o apreço que os filhos do mundo lhes atribuem perturba aqueles que deles desfrutam em demasia ou neles se entregam com excessiva frequência. Ora, é por uma mandrágora como esta, por vagas sombras de contentamento, que abandonamos o amor de nosso Esposo celeste. E como podemos dizer que o amamos acima de todas as coisas, quando preferimos essas miseráveis vaidades à sua graça divina?

10. Podemos dizer que uma fé morta é como uma árvore seca, sem seiva nem vitalidade, e que, por isso, quando chega a primavera e as outras árvores produzem folhas e flores, permanece desnuda e sem fruto, porque lhe falta a seiva vivificante que corre em toda árvore que vive, ainda que possa parecer morta... Assim acontece com uma fé morta, que nunca pode produzir os frutos e as flores das boas obras, as quais uma fé viva produz em todos os tempos e estações. É, portanto, pelas obras da caridade que sabemos se a fé está viva, morta ou agonizante; e, quando ela não produz boas obras, dizemos que é uma fé morta; quando essas obras são poucas e débeis, dizemos que está morrendo; ao passo que, se, pelo contrário, são frequentes e fervorosas, dizemos que é uma fé viva. Ó quão verdadeiramente bela é esta fé viva!

11. Deveis certamente esforçar-vos por corrigir as vossa pequenas faltas, porque o melhor momento para combatê-las é enquanto ainda são pequenas; pois, se esperardes que cresçam, será mais difícil vencê-las. É fácil desviar o curso de um rio junto à sua nascente, quando ele ainda é apenas um pequeno regato; mas, mais adiante, ele há de zombar dos vossos esforços. 

12. Como é possível que, tendo eu uma vontade tão grande de amar a Deus, tantas imperfeições apareçam e cresçam dentro de mim? Elas não procedem da minha própria vontade, nem são queridas por minha vontade; não, certamente que não! Nascem, parece-me, como o visco que cresce sobre a árvore, mas não faz parte da árvore.

13. O lírio não tem uma estação determinada, mas floresce mais cedo ou mais tarde, conforme a profundidade da terra em que é plantado. Pois, se for plantado apenas à profundidade de três dedos, floresce imediatamente; mas, se for plantado a seis ou nove dedos de profundidade, florescerá tanto mais tarde quanto maior for essa profundidade. Do mesmo modo, se uma alma que deseja amar a Deus estiver profundamente mergulhada nos negócios do mundo, levará muito tempo para florescer. Mas, se viver no mundo apenas na medida em que o seu estado de vida o exigir, então a vereis produzir belas flores e espalhar ao seu redor um suave perfume.

14. Como acontece que, na primavera, os cães perdem o faro e o rastro de um animal com mais facilidade do que em qualquer outra época do ano? Caçadores e filósofos dizem que isso se deve ao fato de que, nessa estação, as ervas e as flores estão em pleno florescimento, e a variedade de seus perfumes embota de tal modo os sentidos dos cães, que eles já não conseguem distinguir entre o perfume das flores e o cheiro da presa. Do mesmo modo, as almas que estão continuamente cheias de desejos, planos e projetos mundanos jamais suspiram pelo amor divino e celestial, nem conseguem seguir as pegadas amorosas do Amor Divino.

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 2, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

terça-feira, 30 de junho de 2026

A SÓS COM DEUS (II)


Jesus me disse: Eu sou a Vida e quero dá-la a ti; e conduz-me à sua morada para que viva nEle mesmo e participe dessa vida divina, cada vez mais intensa, tornando-me por ela, de certo modo, participante da natureza divina. Não é soberba, ó meu Deus, nem presunção, nem temerário atrevimento deste pobre coração pensar assim, desejar e esperar viver da vossa própria vida ainda neste exílio. 

Seria soberba incompreensível, se tal pensamento tivesse brotado de mim; mas fostes Vós quem me ensinastes como Pai e quem me ordenastes. Quero, humilde e obediente, seguir-vos; quero, submisso e fiel, oferecer-me inteiramente à vossa santa vontade e, por ela, alcançar tão grande felicidade.

Certamente, este viver em Deus não é fácil, nem sequer possível às nossas pequenas forças. Grandes obstáculos tendem a nos dificultar e o principal obstáculo somos nós mesmos; somos nós que os erguemos.

Para que este belo ideal e desejo de viver em Deus se realize em mim, e para que eu possa receber em plenitude a vida de Deus, é necessário que antes faça desaparecer todos os obstáculos, destrua e arranque tudo quanto em mim é miséria moral, fraqueza e maldade; é preciso por fim ao meu amor-próprio, reconhecer a minha impotência e compreender que é somente Deus - exigindo, contudo, a minha cooperação - quem me comunica a sua vida e a sua santidade. Somente negando-me deste modo e permanecendo vigilante, cheio de esperança em Deus, preparar-me-ei para receber a beleza que Deus deseja comunicar-me.

Ó meu Deus, que quereis dar-me a vossa própria vida! Fazei que eu me prepare para recebê-la, que eu a peça e vos manifeste o meu desejo de a possuir. Fazei que eu a queira de verdade; que queira eficazmente; que queira com humildade e com uma vontade firme e resoluta. Mas, por muito que eu o queira, será possível que eu possa participar da vida de Deus? Essa Vida está acima das minhas forças; porém Deus é meu Pai e me diz por Jesus Cristo: 'Quero que sejas um comigo; quero comunicar-te a minha vida. Não ponhas obstáculos; deixa-te reduzir ao nada de ti mesmo para que Eu possa dar-te a verdadeira vida'.

[Excertos da obra 'Com Dios a Solas - Un Carmelita Descalzo', do Pe. Valentin de San Jose (1896 - 1989)]

sábado, 27 de junho de 2026

AS VINHAS DE DEUS (I)

 

1. Estou prestes a dizer a todos os que me ouvem que suas almas são a vinha de Deus, na qual a fé é a cisterna, a esperança é a torre, a santa caridade é o lagar, e a lei de Deus é a cerca que as separa dos infiéis... Tua vontade é a tua vinha; as inspirações divinas derramadas por Deus em tua alma são a cisterna; a santa castidade é a torre que, como a de Davi, deve ser feita de marfim; a obediência, pela qual todas as tuas ações se tornam meritórias, é o lagar. Que Deus preserve esta vinha que Ele plantou com as suas próprias mãos. Que Ele encha a cisterna com as abundantes águas da graça divina. Que proteja sua torre; que seu lagar, sob a pressão de sua mão, transborde do vinho bom; que conserve sempre fechada e espessa a bela cerca com que rodeou a sua vinha; e que seus santos anjos sejam os vinhateiros imortais.

2. Deus permita que floresças, ó bela planta, filha do céu; Deus permita que teus frutos cheguem à maturidade; e que Ele os preserve, dia e noite, em sua plena maturação, dos ventos cruéis que lançam ao chão os frutos da terra, onde os animais selvagens e famintos os devoram.

3. O anseio pela santidade deve ser semelhante às laranjeiras da costa marítima de Gênova, que permanecem cobertas de frutos, flores e folhas durante quase todo o ano. Pois o teu desejo deve amadurecer diariamente em frutos, em cada oportunidade de praticar o bem que se apresentar, sem jamais deixar de aspirar a novas ocasiões de progresso espiritual. Essas aspirações são as flores da árvore; suas folhas são o frequente reconhecimento de tua própria fraqueza, o qual preserva tanto as tuas boas obras quanto os teus bons desejos.

4. Nossos corações são árvores; os afetos e as paixões são seus ramos; e as obras e ações são seus frutos. O coração é bom quando possui bons afetos, e os afetos são bons quando produzem ações boas e santas. Se a doçura, a ternura e as consolações nos tornam mais humildes, pacientes, mansos, caridosos e compassivos para com o próximo; mais fervorosos na mortificação de nossas concupiscências e más inclinações; mais constantes em nossos exercícios religiosos; mais dóceis nas mãos de nossos superiores; mais simples em nosso modo de vida, então, sem dúvida, elas vêm de Deus. Mas se essa doçura é apenas para nós mesmos, tornando-nos curiosos, ásperos, excessivamente melindrosos, impacientes, obstinados, orgulhosos, presunçosos e duros de coração para com o próximo; se nos leva a acreditar que já somos santos e, por isso, não precisamos mais de direção nem de correção, então, certamente, essas consolações são falsas e perniciosas. Uma árvore boa produz bons frutos.

5. No princípio, Deus ordenou às plantas que produzissem frutos, cada uma segundo a sua espécie; da mesma forma, ordena a todos os cristãos, que são as plantas vivas da sua Igreja, que produzam os frutos da devoção, cada qual de acordo com sua condição e vocação.

6. Olhai as abelhas sobre o tomilho: elas encontram ali um suco amargo, mas, ao sugá-lo, transformam-no em mel. Assim também as almas verdadeiramente devotas transformam as amarguras, tribulações e mortificações da vida em doçura espiritual, porque o amor de Deus converte aquilo que naturalmente seria penoso em ocasião de alegria e crescimento interior.

7. O açúcar adoça os frutos ainda verdes e corrige tudo o que há de áspero ou nocivo nos frutos maduros. Ora, a devoção é o verdadeiro açúcar espiritual: ela retira das mortificações a sua amargura e das consolações todo o perigo. Ela anima os pobres e modera os ricos; suaviza a miséria dos oprimidos e a insolência dos favorecidos; alivia a tristeza dos que vivem na solidão e as discórdias dos que vivem em sociedade... Se a caridade é o leite, a devoção é sua nata; se a caridade é uma planta, a devoção é sua flor; se é uma pedra preciosa, a devoção é seu brilho; se é um bálsamo precioso, a devoção é seu perfume - um perfume de suavidade que consola os homens e faz os anjos estremecerem de alegria.

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 1coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

terça-feira, 16 de junho de 2026

SOBRE BENS E AS OBRIGAÇÕES DE COMPARTILHAR OS BENS

Bens:

1. Bens necessários à vida: são aqueles sem os quais não se pode viver; todos os demais bens são supérfluos à vida.

2. Bens necessários para um dado estado de vida:  são aqueles necessários para a manutenção deste estado de vida; bens supérfluos a este estado de vida são todos os demais.

3. Bens necessários para a manutenção adequada do estado de vida: são aqueles necessários para garantir uma manutenção adequada de um estado de vida; fora disso, todo o resto constitui bens supérfluos no seu sentido mais amplo.

Obrigações

(i) Se alguém estiver em extrema necessidade, sem o necessário para a própria sobrevivência, devemos ajudar com bens das classes 2 e 3; não precisamos dar o que precisamos para a nossa própria sobrevivência.

(ii) Se alguém estiver em grave necessidade, mas não carente do essencial para sobreviver, devemos ajudar com bens da classe 3. 

(iii) Se alguém estiver em necessidade modesta, devemos ajudar algumas pessoas em alguns momentos, sem discriminar com precisão casos individuais, pois há muitos que podem ajudar e as necessidades impostas são relativamente modestas e comuns.

[Pe. William Most (1914 - 1999), sacerdote e teólogo americano]

terça-feira, 9 de junho de 2026

'TUDO PASSA!'

Quanta verdade é que a figura deste mundo sempre está passando, e nós também! Dos sábios e justos, diz Isaías, que vêem a terra de longe. Ora vem cá, alma minha, faze por ser sábia, toma as asas da contemplação, e suspende-se nelas, e olha de longe para esta bola da terra, e verás como a sua figura sempre está passando.

Que é o que vês? Mares, rios, árvores, montes, vales, campinas, desertos, povoados... e tudo passando. Os mares em contínuas crescentes e minguantes; os rios sempre correndo; as árvores sempre remudando-se, ora secas, ora floridas, ora murchas; os montes já foram vales, e os vales já foram montes, ou campinas; os desertos já foram povoados, e os povoados de agora, já foram desertos.

Mas olha em especial para os povoado, porque o mundo são os homens. Tudo está fervendo em movimentos que acabam e começam: uns a sair dos seios das mães, outros a entrar nos ventres das sepulturas; aqueles cantam, dali a pouco choram; estes outros choram, dali a pouco cantam; aqui se está enfeitando um vivo, parede e meia estão amortalhando um defunto; aqui contratam, acolá distratam; aqui conversam, acolá brigam; aqui estão à mesa rindo e fartando-se, acolá estão no leito, gemendo o que riram, e sangrando-se do que comeram...

Lá vai um no seu coche com os pés sobre tela e veludo; atrás das rodas vai um pobre nu e descalço. E que turba-multa é aquela que vai cobrindo os campos de armas e carruagens? É um exército, que vai a uma de duas coisas: ou a morrer, ou a matar. E sobre quê? Sobre que dois palmos de terra são de cá, e não são de lá...

E que árvores são aquelas que vão voando pelas ondas com asas de pano? São navios, que vão buscar muito longe coisas que piquem a língua para comer mais, coisas que afaguem a pele, coisas que alegrem os olhos; isto é: espécies, sedas, ouro.

Olhai o tráfego! Tudo ferve, tudo se muda por instantes. Se divertirdes os olhos, dali a nada tudo achareis virado. O rico já é pobre, o plebeu já é fidalgo, o moço já é velho, o são já é enfermo, e o homem já é cinzas. Já são outras cidades, outras ruas, outra linguagem, outros trajes, outras leis, outros homens... Lembra-te, tudo passa!

Pe. Manuel Bernardes (Sermões)

quarta-feira, 3 de junho de 2026

SEIS CONDIÇÕES PARA REZAR BEM

A primeira condição é a fé, de acordo com as palavras do apóstolo: 'Porém, como invocarão aquele em quem não têm fé?' (Rm 10,14a), com as quais São Tiago concorda: mas peça-a com fé, sem nenhuma vacilação (Tg 1,6a). Mas a necessidade de fé não deve ser entendida como se fosse importante acreditar que Deus deva certamente atender ao que é pedido, pois neste caso nossa fé seria provada falsa e então não obteríamos nada. Devemos acreditar que Deus é mais poderoso, mais sábio e mais digno de fé; e que Ele sabe, que tem poder e está preparado para atender nossos pedidos, se entendê-lo apropriado e útil para nós, receberemos o que pedimos. 

Esta fé Cristo pediu aos dois homens cegos que curou: 'Credes que eu posso fazer isso?' (Mt 9,28). Com a mesma fé Davi rezou pelo seu filho adoentado, como provam suas palavras, pois ele acreditava não ser seguro que Deus atenderia suas preces, mas que somente Deus seria capaz de conceder tal graça: 'Quem sabe, talvez o Senhor terá pena de mim e o menino ficará bom?' (2Sm 12,22). Disto não se pode duvidar. Com a mesma fé, o apóstolo Paulo rezou para se livrar de um 'espinho na carne'. Pois o apóstolo rezou com fé, e sua fé não era falsa se ele acreditava que Deus poderia lhe conceder a cura que pedia, embora não tenha obtido o que pedia. E com a mesma fé a Igreja pede por todos os heréticos, pagãos, cismáticos e maus cristãos que possam ser converter, e, no entanto, é certo que nem todos se converterão.

Outra condição muito necessária para rezar é a esperança. Pois ainda que pela fé, que é consequência da compreensão, nós não acreditemos que Deus atenderá nossos pedidos; pela esperança, que é um ato de desejo, podemos firmemente nos apoiar na bondade divina e termos confiança que Deus poderá nos atender. Esta condição Deus requer do paralítico, para quem diz: 'Meu filho, coragem! Teus pecados te são perdoados' (Mt 9,2). O mesmo pede o apóstolo para todos, quando diz: 'Aproximemo-nos, pois, confiantemente do trono da graça, a fim de alcançar misericórdia e achar a graça de um auxílio oportuno' (Heb 4,16). E muito antes dele, o profeta apresenta Deus, falando: 'Quando me invocar, eu o atenderei; na tribulação estarei com ele' (Sl 90,15). 

Mas como a esperança brota da fé perfeita, quando a Escritura requer fé nas grandes coisas, ela acrescenta algo sobre esperança. Assim lemos em São Marcos: 'Em verdade vos declaro: todo o que disser a este monte: Levanta-te e lança-te ao mar, se não duvidar no seu coração, mas acreditar que sucederá tudo o que disser, obterá esse milagre' (Mc 11,23). Que a fé produz confiança, podemos entender destas palavras do apóstolo: 'mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas' (1Cor 13,2b). João Cassiano escreve em seu Tratado sobre a Oração que um sinal certo que nossos pedidos serão atendidos, ocorre quando em oração, nós não duvidamos que Deus certamente nos atenderá, e não hesitamos de nenhuma maneira, mas derramamos nossas orações com alegria espiritual.

A terceira condição é a caridade, pela qual nos libertamos dos pecados; pois os amigos de Deus obtém os seus dons. Assim fala Davi em um salmo: 'Os olhos do Senhor estão voltados para os justos, e seus ouvidos atentos aos seus clamores' (Sl 33,15) e em outro: 'Se eu intentasse no coração o mal, não me teria ouvido o Senhor' (Sl 65,18). E no Novo Testamento, o Senhor mesmo confirma: 'Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito' (Jo 15,7). E o amado discípulo fala: 'Caríssimos, se a nossa consciência nada nos censura, temos confiança diante de Deus, e tudo o que lhe pedirmos, receberemos dele porque guardamos os seus mandamentos e fazemos o que é agradável a seus olhos' (1Jo 3,21-22).

Isto não é contrário à doutrina. Quando o publicano suplica por perdão de seus pecados, ele retorna para casa 'justificado', pois um pecador arrependido não obtém perdão por ser pecador, mas por estar arrependido; pois, como pecador, ele é inimigo de Deus; como penitente, amigo de Deus. Aquele que peca, desagrada a Deus; mas quem se arrepende dos seus pecados, faz o que mais agrada ao Senhor.

A quarta condição é a humildade, pela qual o suplicante, confia não em sua própria justiça, mas na bondade de Deus: 'Fui eu quem fez o universo, e tudo me pertence', declara o Senhor. É o angustiado que atrai meus olhares, o coração contrito que teme minha palavra (Is 66,2). E o Livro do Eclesiástico acrescenta: 'A oração do humilde penetra as nuvens; ele não se consolará, enquanto ela não chegar (a Deus), e não se afastará, enquanto o Altíssimo não puser nela os olhos' (Eclo 35,21).

A quinta condição é a devoção, pela qual não devemos rezar de maneira negligente, como muitos costumam fazer, mas com atenção, sinceridade, diligência e fervor. Nosso Senhor severamente adverte aqueles que rezam apenas com os lábios. Assim Ele nos fala em Isaias: 'O Senhor disse: Esse povo vem a mim apenas com palavras e me honra só com os lábios, enquanto seu coração está longe de mim' (Is 29,13). Esta virtude é fruto de uma fé viva e consiste não apenas no hábito de orar, mas na ação. Para aqueles que com fé firme e atenção consideram a grandeza da sua Majestade, Nosso Senhor, quão grande é nossa insignificância, e como são importantes nossos pedidos, não pode fazer diferente do que rezar com grande humildade, reverência, devoção e fervor.

A sexta condição é a perseverança, que nosso Senhor em duas parábolas recomenda: uma sobre o amigo importuno que pede dois pães em um horário inconveniente, no meio da noite, e recebe pela sua perserverança (Lc 11,5-8); outra sobre a viúva que pede sem esmorecer para que o juiz a livre de seu adversário; e o juiz, embora sendo iníquo, homem que não temia nem Deus nem os homens, sobrepujado pela perseverança da mulher, livrou-a de seu inimigo. Destes exemplos o Senhor conclui, que muito mais perseverantes devemos ser na oração a Deus, porque ele é justo e misericordioso. E São Tiago completa: 'Deus concede generosamente a todos, sem recriminações' (Tg 1,5). Ou seja, ele concede seus dons liberalmente a todos que pedem, e 'sem recriminações' por serem inoportunos, pois Deus não tem limites em suas riquezas nem em sua misericórdia.

(Excertos da obra 'A Arte de Morrer Bem', de São Roberto Belarmino)