domingo, 31 de maio de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

          

'A Vós, louvor, honra e glória eternamente!' 

Primeira Leitura (Ex 34,4b-6.8-9) - Segunda Leitura (2Cor 13,11-13) - Evangelho (Jo 3,16-18)

  31/05/2026 - SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE

GLÓRIA AO PAI, AO FILHO E AO ESPÍRITO SANTO


O mistério da Santíssima Trindade é um mistério de conhecimento e de amor. Pois, desde toda a eternidade, o Pai, conhecendo-se a Si mesmo com conhecimento infinito de sua essência divina, por amor gera o Filho, Segunda Pessoa da Trindade Santa. E esse elo de amor infinito que une Pai e Filho num mistério insondável à natureza humana se manifesta pela ação do Espírito Santo, que é o amor de Deus por si mesmo. Trindade Una, Três Pessoas em um só Deus.

Mistério dado ao homem pelas revelações do próprio Jesus, posto que não seria capaz de percepção e compreensão apenas pela razão natural, uma vez inacessível à inteligência humana: 'Tudo o que o Pai possui é meu. Por isso, disse que o que ele (o Espírito Santo) receberá e vos anunciará, é meu' (Jo 16,15). Mistério revelado em sua extraordinária natureza em outras palavras de Cristo nos Evangelhos: 'Em verdade, em verdade vos digo: O Filho não pode de si mesmo fazer coisa alguma, mas somente o que vir fazer o Pai; porque tudo o que fizer o Pai, o faz igualmente o Filho. Porque o Pai ama o Filho, e mostra-lhe tudo o que ele faz (Jo 5,19-20) ou ainda 'Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; e ninguém conhece o Filho senão o Pai; nem alguém conhece o Pai senão o Filho' (Mt 11,27).

Nosso Senhor Jesus Cristo é o Verbo de Deus feito homem, sob duas naturezas: a natureza divina e a natureza humana: 'Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele' (Jo 3,16 - 17). Enquanto homem, Jesus teve as três potências da alma humana: inteligência, vontade e sensibilidade; enquanto Deus, Jesus foi consubstancial ao Pai, possuindo inteligência e vontade divinas.

'Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo'. Glórias sejam dadas à Santíssima Trindade: Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. Neste domingo da Santíssima Trindade, a Igreja exalta e ratifica aos cristãos o maior dos mistérios de Deus, proclamado e revelado aos homens: O Pai está todo inteiro no Filho, todo inteiro no Espírito Santo; o Filho está todo inteiro no Pai, todo inteiro no Espírito Santo; o Espírito Santo está todo inteiro no Pai, todo inteiro no Filho (Conselho de Florença, 1442).

sábado, 30 de maio de 2026

MAGNIFICA HUMANITAS E A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA


A primeira encíclica do Papa Leão XIV - Magnifica Humanitas - já está sendo descrita como a grande intervenção da Igreja Católica no debate sobre a inteligência artificial. Essa descrição é correta, dentro dos limites que estabelece. O Papa aborda o poder dos algoritmos, a automação, a substituição da mão de obra, a vigilância e a crescente concentração da influência tecnológica nas mãos de um pequeno número de atores corporativos e políticos. Mas o tema mais profundo da encíclica não é a inteligência artificial. É a pessoa humana e sua definição.

Essa é a questão subjacente a todo debate contemporâneo sobre IA, mesmo quando não expressa. Somos meramente máquinas biológicas altamente sofisticadas - conjuntos de impulsos, preferências e atividade neural à espera de replicação por sistemas mais avançados? Ou somos criaturas dotadas de capacidade moral, profundidade espiritual, criatividade, consciência e um destino transcendente que nenhum algoritmo pode imitar?

A resposta é importante porque toda tecnologia acaba se tornando uma expressão da civilização que a cria. Ferramentas nunca são meramente ferramentas. Elas carregam pressupostos embutidos sobre a natureza humana, a intenção humana e o propósito humano.

Leão compreende isso claramente. Ao longo de Magnifica Humanitas, ele adverte contra tanto o economismo quanto o cientificismo - a tendência de reduzir as pessoas a unidades de produtividade econômica ou a processos materiais inteiramente sujeitos à gestão técnica. A dignidade humana, ele insiste, não é conferida pela eficiência, pela utilidade de mercado ou pela superioridade computacional. Ela é intrínseca à própria pessoa. Isso coloca o papa em oposição direta não à tecnologia em si, mas à visão de mundo transumanista cada vez mais influente que molda grande parte do desenvolvimento tecnológico de elite e a cultura que o produz.

O transumanismo* parte de uma compreensão limitada do homem. Se a consciência é redutível ao processamento de informações, então as limitações humanas tornam-se problemas de engenharia à espera de solução. A mortalidade torna-se um defeito técnico. A dependência torna-se fraqueza. O próprio corpo torna-se hardware obsoleto à espera de atualização. Sob essa visão, o propósito da tecnologia não é mais servir à humanidade, mas transcendê-la.

Essa aspiração anima hoje uma quantidade surpreendente da retórica tecnológica contemporânea. Ouvem-se constantemente promessas de que a IA em breve superará os seres humanos não apenas no cálculo, mas também na criatividade, no discernimento, na inteligência emocional, na companhia e até mesmo no raciocínio moral. A implicação é inequívoca: a própria humanidade está se tornando um estágio intermediário ineficiente na evolução da inteligência. É difícil não perceber a ironia. Uma civilização cada vez mais incerta quanto ao significado da vida e da identidade humana propõe agora construir máquinas à sua própria imagem.

A encíclica de Leão representa um desafio direto a essa antropologia. O papa insiste que os seres humanos não podem ser compreendidos meramente através das categorias de eficiência, produtividade ou resultados mensuráveis, pois os seres humanos não são sistemas materiais autônomos. Eles possuem o que a tradição cristã clássica descreve como transcendência - uma abertura à verdade, à beleza, à bondade, ao amor, ao sacrifício e, em última instância, ao próprio Deus. Nessa perspectiva, o sentido de nossa humanidade se revela precisamente em nossa contingência e vulnerabilidade. A pessoa humana, nesse entendimento, não é superada pela máquina porque a pessoa humana não é redutível a cálculos.

Essa percepção não é anticientífica. Nem é nostálgica. Leão tem o cuidado de evitar a tentação troglodítica que muitas vezes acompanhou períodos de rápida mudança tecnológica. Ele não clama por um recuo em relação à inovação. Ele não romantiza um passado pré-tecnológico. De fato, um dos aspectos mais marcantes de Magnifica Humanitas é sua recusa em demonizar o próprio progresso.

O papa elogia explicitamente a iniciativa empreendedora como uma vocação digna. Ele reconhece que a inovação aliviou o sofrimento, ampliou as possibilidades humanas e tirou bilhões de pessoas de condições de pobreza e isolamento que seriam inimagináveis para as gerações anteriores. A preocupação da Igreja, ele deixa claro, não é com a tecnologia em si, mas com os pressupostos morais e antropológicos que orientam o seu desenvolvimento. Essa distinção é fundamental porque grande parte do debate público em torno da inteligência artificial permanece presa entre dois extremos igualmente inadequados.

De um lado estão os utópicos tecnológicos. Para eles, todo aumento no poder computacional representa progresso moral. Os problemas humanos tornam-se problemas de engenharia. A política torna-se gestão de sistemas. Atrito, ambiguidade, dependência e limitação são vistos menos como características permanentes da condição humana do que como erros a serem corrigidos por meio de tecnologia suficientemente avançada.

Do outro lado estão os novos reacionários - aqueles tentados a tratar a própria tecnologia moderna como um erro civilizacional. Seu instinto é o recuo: um anseio romantizado por uma era anterior, supostamente intocada pela alienação, pela burocracia e pela mediação tecnológica. Ambas as visões interpretam mal o problema porque ambas interpretam mal a pessoa humana. O desafio que a civilização moderna enfrenta não é se possuiremos tecnologias poderosas. Já as possuímos. A verdadeira questão é se nossas tecnologias permanecerão subordinadas a uma visão coerente do florescimento humano. Uma civilização livre e verdadeiramente virtuosa requer mais do que inovação. Ela requer um pluralismo enraizado em uma compreensão duradoura da dignidade humana.

A encíclica de Leão aponta precisamente para essa possibilidade. Sua defesa reiterada das instituições intermediárias - famílias, igrejas, escolas, associações voluntárias, comunidades locais e iniciativa empreendedora - reflete a compreensão de que a civilização não é construída exclusivamente por meio de regulamentação centralizada ou gestão burocrática ou tecnológica. Ela é construída por meio da cultura. E a cultura depende, em última instância, da antropologia. A questão decisiva da era da IA, portanto, não é simplesmente o que as máquinas são capazes de fazer. É para que servem os seres humanos. Qual é o seu telos?

Se o homem é meramente um organismo computacional avançado, então sistemas artificiais cada vez mais sofisticados tornar-se-ão naturalmente a medida da inteligência, da produtividade e da autoridade social. Nessas condições, a humanidade acabará por parecer sempre obsoleta segundo os seus próprios padrões. Mas se a pessoa humana possui uma dignidade irredutível fundamentada na transcendência - se ela está orientada não apenas para o consumo e a eficiência, mas para a verdade, a beleza, a virtude, a adoração e o amor - então nenhuma máquina, por mais poderosa que seja, pode substituí-la.

As máquinas podem nos superar em velocidade, memória, previsão e cálculo. Elas podem realizar inúmeras tarefas melhor do que nós. Mas não podem se arrepender. Não podem se sacrificar por outra pessoa. Não podem contemplar a beleza por si mesma. Não podem amar. Não podem buscar a Deus. Uma civilização que esqueça isso pode tornar-se tecnologicamente magnífica, mas espiritualmente exaurida. Uma civilização que se lembre disso ainda poderá construir tecnologias dignas do homem.

* movimento filosófico e científico que defende o uso da tecnologia e da ciência para aprimorar as capacidades físicas, intelectuais e psicológicas do ser humano

(Robert A. Sirico, em First Things, 29/05/2026, tradução do autor do blog)

sexta-feira, 29 de maio de 2026

COMO O SOL BAILOU EM FÁTIMA AO MEIO DIA!

(i) o sol tinha a forma de um disco luminoso, com a borda claramente delineada por uma faixa luminosa e podia ser visado diretamente por longo tempo, sem cegar ou ofuscar a visão das pessoas;

(ii) o sol pareceu dançar no firmamento, passando a girar aceleradamente sobre o seu eixo para, em seguida, interromper e recomeçar outras vezes esse movimento vertiginoso;

(iii) o sol começou a irradiar luzes diferentes e cambiantes, que foram disseminadas e refletidas sobre todo o ambiente da Cova da Iria (sobre as pessoas, a paisagem, os montes e as árvores);

(iv) ao final dos eventos, o sol pareceu precipitar-se sobre a terra num movimento apocalíptico que produziu nas pessoas um enorme temor e uma impressão geral de 'fim do mundo'; interrompendo esse processo de arremetida em ziguezague, o sol retornou então à sua posição natural e passou a ser visto na sua conformação original e ofuscante à visão direta;

(v) os mesmos fenômenos foram vistos por inúmeras outras pessoas, muitas delas a quilômetros de distância da Cova da Iria.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XX)

           

PARTE III - O INFERNO

II. Sobre a fome e a sede padecidos no Inferno

Assim como os crimes pelos quais o pecador, nesta vida, provoca a ira de Deus são de vários tipos, também as dores do inferno, pelas quais esses crimes serão punidos, variam em sua natureza. Sabemos que os homens muitas vezes pecam por intemperança, entregando-se avidamente à comida e à bebida. Consequentemente, Deus designou uma pena severa para esse pecado no outro mundo. Cristo o prediz, de fato, com estas palavras: 'Ai de vós que estais saciados, pois tereis fome' (Lc 6,25).

Quando Nosso Senhor pronuncia a palavra 'Ai', Ele sempre pretende ameaçar ou predizer alguma grande calamidade. Consideremos por um momento o que isso realmente significa neste caso. É impossível para nós formarmos uma ideia verdadeira das dores da fome, porque nunca as sentimos. Se durante um dia inteiro alguém não tem nada para comer, o tempo parece muito longo e a pessoa deseja muito algum alimento. E se alguém fosse privado de qualquer alimento por dois ou três dias, que miséria seria! Mas se um homem não tivesse absolutamente nada para comer durante uma semana inteira e fosse deixado à mercê da fome, o que seria dele?

Em tempos de escassez e fome, fica-se horrorizado ao ver quais são os efeitos produzidos pela fome e que terrível flagelo é a escassez de alimentos. Pois, para acalmar as dores insuportáveis da fome, as pessoas devoram tudo o que conseguem encontrar: grama, folhas, animais imundos e repugnantes; sim, os homens chegaram até a se alimentar da carne de seus semelhantes, mães sacrificaram seus filhos, e sabe-se que alguns roeram sua própria carne. E quando os pobres infelizes famintos não têm mais nada, vagam como sombras de si mesmos, pálidos e emaciados como a própria morte.

Eles arrastam uma existência moribunda até que todas as suas forças se esgotem; finalmente, pela tortura da fome, perdem os sentidos; deliram, gritam e uivam, e morrem da mais miserável das mortes. Se tais são os efeitos da fome na Terra, como será a fome que se experimentará no Inferno?

Se a falta de comida por apenas alguns dias causa tal tortura, como será uma fome contínua e sem fim? Quem pode pensar sem horror na fome sofrida no Inferno! Ai daqueles que tiverem de suportá-la. O profeta Isaías testemunha a existência de uma fome real e efetiva no Inferno, nesta passagem da Sagrada Escritura: Deus assim fala pela boca do profeta: 'Porque eu chamei e vocês não responderam, falei e vocês não ouviram; eis que os meus servos comerão e vocês terão fome; eis que os meus servos beberão e vocês terão sede. Meus servos se alegrarão e vós ficareis confusos; meus servos louvarão com alegria no coração e vós chorareis de tristeza no coração, e uivareis de dor no espírito' (Is 65, 12-14). 

Quem pode dizer quão terrível será essa fome no Inferno? O salmista diz dos inimigos de Deus que sofrerão fome como cães (Sl 58,7). Os réprobos serão então constantemente atormentados pela fome mais voraz, por uma fome tão grande que excederá além da medida a fome suportada em tempos de fome, por uma fome que os atormentará para sempre.

O que vocês fizeram, ó infelizes pecadores! Vocês trouxeram sobre si mesmos esta dor eterna. Se tivessem feito penitência nesta vida, não teriam se tornado presas desta fome eterna. Mas vocês desejaram comer e se saciar em vida; consequentemente, agora devem suportar o que Cristo predisse que seria o seu destino: 'Ai de vocês que estão saciados, pois terão fome'.

Que tomem isto especialmente a sério aqueles que costumam negligenciar deliberadamente a observância dos jejuns prescritos e comer carne nos dias de abstinência. Pois quem come carne nos jejuns da Igreja sem necessidade e sem ter sido dispensado, comete um pecado grave. Fazer isso equivale a desafiar a Igreja e excluir-se voluntariamente de sua bênção. E aquele que persiste nesse pecado, e não se arrepende sinceramente dele, não pode esperar a felicidade eterna. O que poderia ser mais imprudente e insensato do que, por uma satisfação tão desprezível, expor-se ao perigo da perdição eterna! Ó pecador obstinado, para onde vais! Pensa na fome sem fim que será suportada no Inferno e tem piedade da tua própria alma!

Além da fome, os condenados sofrem a sede mais ardente, que está além do poder das palavras para descrever. Todos sabem quão terríveis são os sofrimentos causados pela sede: são simplesmente insuportáveis. Aqueles que são atormentados pela sede beberão das fontes mais impuras, e se nada puder ser obtido para saciar sua sede, o resultado será uma morte lenta e dolorosa. A sede sofrida pelas almas perdidas é infinitamente maior, mais intensa, mais dolorosa do que qualquer sede experimentada na terra, por maior que seja. Se um homem mortal pudesse senti-la mesmo que por um breve período, desmaiaria e morreria imediatamente.

Nunca há descanso ou trégua para os condenados; eles são levados de um tormento a outro incessantemente. Isso provoca sede. Mas o calor do fogo do Inferno, no qual ardem dia e noite, para todo o sempre, é a principal causa da sede intolerável que os consome. Eles estão imersos em chamas e nunca obtêm o alívio de um gole de água. Meu Deus, quão grande deve ser a sede deles! É insuportável, e ainda assim eles precisam suportá-la. Ouça o apelo lastimável de uma alma perdida implorando fervorosamente pela graça de uma única gota de água: 'Pai Abraão, tem misericórdia de mim e manda Lázaro molhar a ponta do dedo na água para refrescar a minha língua; pois estou atormentado nesta chama' (Lc 16,24). 

'Deus misericordiosíssimo, peço apenas água; anseio por apenas uma gota de água para dar alívio momentâneo à minha língua em chamas. Tu não recusarás um pedido tão moderado, Tu que és louvado por todas as tuas criaturas como a própria bondade'. Mas esta súplica é em vão. Deus faz ouvidos moucos à voz do seu apelo. Nem uma única gota de água é dada para mitigar os seus sofrimentos. É possível, ó meu Deus, que Tu possas ser tão severo? Pai de compaixão, por que não queres ouvir a oração deles? Tua justiça e Teu ódio ao pecado não te permitem ceder; eles te obrigam a punir o pecado eternamente e da maneira mais terrível.

Mas nos é dito que os condenados não apenas são atormentados por fome e sede excessivas, como também são alimentados com chamas e obrigados a beber do cálice da ira divina. 'Se alguém adorar a besta, também beberá do vinho da ira de Deus, que está misturado com vinho puro no cálice da sua ira, e será atormentado com fogo e enxofre. E a fumaça de seus tormentos subirá para todo o sempre' (Ap 14,10). No livro de Moisés também lemos: 'O vinho deles é o fel dos dragões e o veneno das víboras, que é incurável' (Dt 32,33).

Reflita, ó pecador, sobre esta agonia indescritível. Fogo e enxofre serão o alimento dos condenados e a sua bebida, o vinho da ira de Deus. O que pode exceder tal tortura? Meu Deus, quão rigoroso és! Quão severos são os teus castigos! Pensem, vós, pecadores, que agora bebeis em excesso, pensai qual é o vinho preparado para vós no futuro, pensai na terrível sede que vos consumirá por toda a eternidade. Se não suportais ter sede por um dia, como suportareis a sede ardente da qual nunca obtereis alívio? Refleti sobre isso em vosso coração e não vos entregueis mais à vossa intemperança. Abandonai esse vício, que infalivelmente vos arrastará para a perdição.

São Paulo fecha expressamente a porta do Céu para vocês, quando diz: 'Os bêbados não herdarão o reino de Deus' (1Cor 6,10). Aí está a sentença, pronunciada contra vocês de antemão. Se continuarem a seguir o caminho do mal, não poderão alegar ignorância quanto ao destino ao qual serão condenados.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quarta-feira, 27 de maio de 2026

VERSUS: O MUNDO DOS BONS X O MUNDO DOS MAUS


Nosso Senhor foi um modelo incomparável de paciência: aguentou um 'demônio' entre os seus discípulos até à sua Paixão (Jo 6,70). Dizia Ele: 'Deixai um e outro crescer juntos, até à ceifa, para que não suceda que, ao apanhardes o joio, arranqueis o trigo ao mesmo tempo' (cf Mt 13,29). Tendo a rede como símbolo da Igreja, predisse que esta traria para a praia, quer dizer, até ao fim do mundo, toda a espécie de peixes, bons e maus. E deu a conhecer de muitas outras maneiras, tanto abertamente como através de parábolas, que haveria sempre essa mistura de bons e maus. E, no entanto, afirmou que é necessário vigiar pela disciplina na Igreja quando disse: 'Se o teu irmão pecar, vai ter com ele e repreende-o a sós. Se te der ouvidos, terás ganho o teu irmão' (Mt 18,15).


Mas hoje vemos pessoas que só tomam em consideração os preceitos rigorosos, que mandam reprimir os que causam perturbação, que ordenam que 'não se dêem aos cães as coisas santas', que se 'tratem como aos publicanos' aqueles que desprezam a Igreja, que se repudiem do seu corpo os membros escandalosos (Mt 7,6; 18,17; 5,30). O seu zelo intempestivo causa muita tribulação à Igreja, porque desejariam arrancar o joio antes do tempo e a sua cegueira faz deles próprios inimigos da unidade de Jesus Cristo.

Tomemos cuidado em não deixarmos entrar no nosso coração estes pensamentos presunçosos, em não procurarmos destacar-nos dos pecadores para não nos sujarmos com o seu contato, em não tentarmos formar como que um rebanho de discípulos puros e santos. Sob o pretexto de não convivermos com os maus, conseguiríamos apenas romper a unidade. Pelo contrário, recordemo-nos das parábolas da Escritura, dessas palavras inspiradas, desses exemplos tocantes, onde se nos demonstra que os maus estarão sempre misturados com os bons na Igreja, até ao fim do mundo e até ao dia do juízo, sem que a sua participação nos sacramentos seja prejudicial aos bons, desde que estes não participem dos pecados daqueles.

(Excertos da obra 'A fé e as obras', de Santo Agostinho)

segunda-feira, 25 de maio de 2026

O VALE DOS OSSOS SECOS


1. A mão do Senhor desceu sobre mim. Ele me arrebatou em espírito e me colocou no meio de um vale que estava coberto de ossos.

2. Ele fez-me circular em todos os sentidos no meio desses ossos numerosos que jaziam na superfície. Vi que estavam inteiramente secos.

3. Disse-me o Senhor: 'Filho do homem, poderiam esses ossos retornar à vida?'. 'Senhor Javé' – respondi – 'só vós o sabeis'.

4. Ele disse-me então: 'Profere um oráculo sobre esses ossos. Ossos dessecados, lhes dirás, escutai a palavra do Senhor:

5. eis o que vos declara o Senhor Javé: vou fazer reentrar em vós o sopro da vida para vos fazer reviver.

6. Porei em vós músculos, farei vir carne sobre vós, vos cobrirei de pele; depois farei entrar em vós o sopro da vida, a fim de que revivais. E sabereis assim que eu sou o Senhor.

7. Profetizei, pois, assim como tinha recebido ordem. No momento em que comecei, um barulho se fez ouvir, em seguida um ruído ensurde­cedor, enquanto os ossos se vinham unir aos outros.

8. Prestando atenção, vi que se formavam sobre eles músculos, que nascia neles carne e que uma pele os recobria. Todavia, não tinham espírito.

9. Profetiza ao espírito, disse-me o Senhor, profetiza, filho do homem, e dirige-te ao espírito: eis o que diz o Senhor Javé: vem, espírito, dos quatro cantos do céu, sopra sobre esses mortos para que reviva'.

10. Proferi o oráculo que ele me havia ditado, e daí a pouco o espírito penetrou neles. Retornando à vida, eles se levantaram sobre seus pés: um grande, um imenso exército.

11. Então, o Senhor me disse: 'Filho do homem, esses ossos são toda a raça dos israelitas. Eles dizem: nossos ossos estão secos, nossa esperança está morta; estamos perdidos!

12. Por isso, dirige-lhes o seguinte oráculo: eis o que diz o Senhor Javé: Ó meu povo, vou abrir os vossos túmulos; eu vos farei sair deles para vos transportar à terra de Israel.

13. Sabereis, então, que eu é que sou o Senhor, ó meu povo, quando eu abrir os vossos túmulos e vos fizer sair deles,

14. quando eu colocar em vós o meu espírito para vos fazer voltar à vida e quando vos hei de restabelecer em vossa terra. Sabereis então que sou eu o Senhor, que o disse e o executei – oráculo do Senhor'.

(Ez 37,1-14)

domingo, 24 de maio de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

         

'Enviai o vosso Espírito, Senhor, e da terra toda a face renovai!' (Sl 103)

Primeira Leitura (At 2,1-11) - Segunda Leitura (1Cor 12,3b-7.12-13) - Evangelho (Jo 20,19-23)

  24/05/2026 - DOMINGO DE PENTECOSTES

SOLENIDADE DE PENTECOSTES


Emitte Spiritum tuum et creabuntur et renovabis faciem terrae

'Enviai, Senhor, o vosso espírito criador
e será renovada toda a face da terra'

Originalmente, Pentecostes representava uma das festas judaicas mais tradicionais de 'peregrinação' (nas quais os israelitas deviam peregrinar até Jerusalém para adorar a Deus no Templo), sempre celebrada após 50 dias da Páscoa e na qual eram oferecidas a Deus as primícias das colheitas do campo. No Novo Pentecostes, a efusão do Espírito Santo torna-se agora o coroamento do mistério pascal de Jesus Cristo, na celebração da Nova Aliança entre Deus e a humanidade redimida.

Eis que os apóstolos encontravam-se reunidos, com Maria e em oração constante, quando 'todos ficaram cheios do Espírito Santo' (At 2,4), manifestado sob a forma de línguas de fogo, vento impetuoso e ruídos estrondosos, sinais exteriores do poder e da grandeza da efusão do Novo Pentecostes. Luz e calor associados ao fogo restaurador da autêntica fé cristã; ventania que evoca o sopro da Verdade de Deus sobre os homens; reverberação que emana a força da missão confiada aos apóstolos reunidos no cenáculo e proclamada aos apóstolos de todos os tempos.

O Paráclito é derramado numa torrente de graças, distribuindo dons e talentos, porque 'Há diversidade de dons, mas um mesmo é o Espírito. Há diversidade de ministérios, mas um mesmo é o Senhor. Há diferentes atividades, mas um mesmo Deus que realiza todas as coisas em todos' (1Cor 12,4-6). Na simbologia dos vários membros de um mesmo corpo, somos mensageiros e testemunhas de Cristo no meio dos homens, na identidade comum de Filhos de Deus partícipes e continuadores da missão salvífica de Cristo: 'Como o Pai me enviou, também Eu vos envio' (Jo 20,21).

No Espírito Consolador, não somos mais meros expectadores de uma efusão de graças e dons tão diversos, mas apóstolos e testemunhas, iluminados e portadores da Verdade, pela qual será renovada a face da terra e pelo qual será apagada a mancha do pecado no mundo: 'Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos' (Jo 20,22-23).

sábado, 23 de maio de 2026

TRÊS PESSOAS DISTINTAS E UM ÚNICO DEUS

Vi um grande palácio de magnitude incompreensível, semelhante ao céu sereno, no qual havia inúmeras pessoas assentadas e vestidas com roupas brancas e resplandecentes como os raios do sol. No palácio, vi um trono maravilhoso no qual estava sentado um homem mais resplandecente que o sol, de beleza incompreensível, e Senhor de imenso poder, cujo esplendor era também incompreensível em extensão, largura e profundidade. Ao lado do assento do trono, havia uma Virgem que brilhava com admirável resplendor e usava uma coroa preciosa. Todos os presentes serviam àquele que estava sentado no trono, louvando-o com hinos e cânticos, e honravam com reverência aquela Virgem, como Rainha dos céus.

Então, aquele que estava no trono me disse com voz majestosa: Eu sou o Criador do céu e da terra, um único Deus verdadeiro com o Pai e com o Espírito Santo; porque o Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito Santo é Deus; e, apesar de tudo isso, não são três deuses, mas três pessoas distintas e um único Deus. Mas agora, você poderá me perguntar: se são três pessoas, por que não são três deuses? Ao que respondo que Deus é o próprio poder, a própria sabedoria e a própria bondade, de quem provém todo o poder abaixo e acima do céu, toda a sabedoria e toda a piedade que se possa imaginar. Assim, pois, Deus é trino e uno; trino em pessoas e uno em essência. Porque poder e sabedoria é o Pai, de quem procedem todas as coisas, e que é poderoso acima de tudo, não por ninguém, mas por si mesmo e eternamente.

Poder e sabedoria é também o Filho, igual ao Pai, mas não como poder originado de si mesmo, sim poderosamente e inefavelmente gerado pelo Pai, que é princípio do princípio, e jamais separado do Pai. Poder e sabedoria é também o Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho, eterno com o Pai e com o Filho, e igual em majestade e poder. Há, portanto, um único Deus e três pessoas, porque uma só é a natureza das três, uma só a operação e a vontade, e uma só a glória e o poder; um só em essência e distintos na propriedade das pessoas. Pois todo o Pai está no Filho e no Espírito Santo, e o Filho no Pai e no Espírito Santo, e o Espírito Santo em ambos numa única natureza da Divindade; não antes nem depois, mas de uma maneira inefável, onde nada há anterior nem posterior, nada maior ou menor que o outro ou de outra espécie, mas tudo inefável e igual; por essa razão está sabiamente escrito que Deus é admirável e muito digno de louvor.

Deus, pois, enviou seu Verbo à Virgem Maria por meio de seu anjo Gabriel; mas, no entanto, o mesmo Deus que enviava e era enviado com o anjo, estava em Gabriel e na Virgem antes da missão de Gabriel. Mas, assim que o anjo proferiu aquelas palavras, o Verbo assumiu a carne da Virgem. Esse Verbo sou eu, que estou falando contigo. O Pai enviou-me ao seio da Virgem, mas não de tal forma que os anjos ficassem privados da visão e da presença da minha divindade, mas sim que eu, o Filho, que com o Pai e com o Espírito Santo estive no ventre virginal, era o mesmo no céu com o Pai e com o Espírito Santo na presença dos anjos, governando e mantendo tudo, embora a minha humanidade, assumida apenas por mim, repousasse no ventre de Maria.

Eu, que sou um único Deus, não me desdenho de falar contigo para encontrar o meu amor e para fortalecer a santa fé cristã. E mesmo que te pareça que a minha humanidade está junto a ti e fala contigo, mais certo é que a tua alma e a tua inteligência estão comigo e em mim, pois nada me é impossível, nada me é difícil no céu nem na terra. Eu sou como um poderoso Rei que, quando chega à cidade com seu exército, tudo preenche e ocupa; da mesma forma, minha graça preenche e fortalece todos os teus membros. Estou em ti e fora de ti, e embora fale contigo, sou, no entanto, o mesmo na glória. O que me é difícil, a mim, que com meu poder sustento todas as coisas, com minha sabedoria disponho tudo e com minha virtude supero tudo? Eu, um único Deus com o Pai e com o Espírito Santo, sem princípio e sem fim, que pela salvação dos homens assumi a carne humana, permanecendo intacta a divindade, sofri verdadeiramente, ressuscitei e subi aos céus; agora, na verdade, estou falando contigo.

Eu sou o verdadeiro Imperador e Senhor. Não há senhor mais excelente do que eu, nem houve antes de mim, nem haverá depois de mim; mas todo domínio vem de mim e por mim. Eu sou, portanto, o verdadeiro Senhor, e ninguém deve chamar-se verdadeiro senhor, a não ser eu sozinho, porque de mim procede todo poder e domínio, e ninguém pode resistir ao meu poder.

(Das Profecias e Revelações de Santa Brígida)

sexta-feira, 22 de maio de 2026

AS CRUZES LUMINOSAS

Cercados e envolvidos por tantos afazeres e labores, nem questionamos as pequenas vicissitudes e contrariedades do dia a dia, um amontoado de percalços que, somados, poderiam nos fazer galgadores de montanhas... Mal os percebemos e, uma vez ultrapassados e vencidos, recaem no anonimato dos tempos e nas perdas da memória pouco atenta.

Somos viajantes impelidos pela pressa, pelo seguir sempre em frente, andarilhos de praças e esquinas que não levam a lugar nenhum. E caminhamos sós, ensimesmados, senhores do nosso rumo e escravos dos nossos passos. E fatigados de carregar os fardos da vida, como que autômatos do ir e vir de todo santo dia, dias que na verdade nada têm de santos. 

Porque nunca estamos sós e porque não prestamos atenção como desviamos e superamos os contrapesos e os obstáculos da longa caminhada de uma vida inteira. Deus nos dá, a cada passo e a cada dia, estes benditos frutos de provações e contratempos, não como fardos e preocupações inúteis, mas como pequenas cruzes luminosas para nos guiar, entre as trevas do mundo, no caminho da luz. Quão benditas e venturosas são estas pequenas atribulações cotidianas, que incomodam, inquietam e perturbam o ciclo cotidiano de nossas vidas! Deus nos dá, com elas, centenas de suaves e aveludadas oportunidades de crescer na graça e colher frutos abundantes de santificação pessoal. 

Temos essa percepção? Ou apenas estas coisas induzem em nós tédio e indisposição? Sabemos ver as cruzes luminosas de cada dia ou fingimos estar bem, mesmo envolvidos por completa escuridão? Ansiamos pelos Céus olhando o chão? 

Que Deus nos dê a graça de ter muitas e muitas cruzes luminosas a cada dia, nos guiando para o seu caminho de luz. Que não nos acostumemos a tatear desnorteados na escuridão e nem nos fingirmos de cegos. Que sejamos viajantes de alma lavada e de dias santos. E que mal algum nos possa prostar por terra e nos afastar do amor de Deus. Amém.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

FRASES DE SENDARIUM (LXXIII)

 

'Entre o último suspiro e a eternidade,
existe um abismo da misericórdia divina'

(São Francisco de Sales)

Confia a salvação da tua alma nas chagas abertas do Imaculado Coração de Jesus, oceano de compaixão e abismo de misericórdia, que tudo sublima e tudo perdoa. A infinita misericórdia de Deus é o bálsamo e refúgio de todos os pecadores.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (111/115)

111. A PAZ DE CONSCIÊNCIA

A beata Angela de Foligno, em sua mocidade, caíra em faltas graves, das quais não se confessara bem por vergonha. Fez até comunhões sacrílegas. Mas, como os remorsos não a deixavam em paz nem de dia nem de noite, recorreu a São Francisco de Assis para que a fizesse encontrar um confessor ao qual pudesse abrir todo o seu coração.

À noite, apareceu-lhe o santo, sob a figura de um velho venerando, e disse-lhe:
➖ Minha irmã, há mais tempo haveria lhe ter concedido essa graça, mas não a pediste. Amanhã bem cedo encontrarás o confessor que procuras.

De fato, o santo a fez encontrar um ótimo confessor, ao qual pode abrir francamente o seu coração, embora com grande pejo e muita humilhação. A oração fervorosa obteve-lhe a graça de uma santa confissão, a doce paz da consciência, muitas consolações na vida e o gozo eterno no céu.

112. O PECADOR PRECISA VOLTAR A DEUS

Um taverneiro, havia anos, andava com a consciência sobrecarregada por vários pecados. Tocado pela graça divina, pensou em sair desse triste estado, recorrendo ao Pe. Hofreuter, sacerdote experiente na arte de reconduzir a Deus os pecadores. Não quis perder tempo. Selou o cavalo, montou e partiu.

Estando já à porta da casa paroquial, sentiu-se tomado de vergonha e faltou-lhe coragem para bater. Mas, eis que, por disposição de Deus, naquele momento apareceu o padre, que em tom afetuoso disse ao taverneiro: 'O senhor vem para confessar-se, não é mesmo? Entre, que estou aqui para atendê-lo'. Depois de ter feito uma boa confissão, o taverneiro montou a cavalo e, com o coração aliviado, dirigiu-se ao animal: 'Agora, a galope, meu cavalinho, pois que levas cem quilos a menos'.

Seis anos depois, acabando de receber os últimos sacramentos em seu leito de dores, dirigiu-se ao novo vigário, dizendo: 'Peço-lhe ainda um favor. Depois da minha morte, mande dizer ao Pe. Hofreuter que, depois daquela confissão que fiz com ele, nunca mais cometi pecado mortal ou venial voluntário'.
Cem quilos de menos sobre a consciência! Sim; após uma confissão bem feita, que alívio!

113 - 115. OS SACERDOTES DO ALTÍSSIMO

1. Achando-se de passagem em Quito (Equador), um humilde frade foi visitar o célebre Presidente Garcia Moreno, grande estadista e fervoroso católico. Estando ainda à entrada do palácio, logo que viu o Presidente descobriu-se e conservou o chapéu na mão.
➖ Cubra-se, Padre - disse García Moreno.
➖ Um pobre frade - respondeu o outro - não pode cobrir-se em presença do senhor Presidente.
➖ Padre - replicou Garcia Moreno, pondo-lhe o chapéu na cabeça - que é um Presidente do Equador em comparação a um sacerdote do Altíssimo?

2. A mãe do célebre Cardeal Vaughan era uma convertida do protestantismo. Durante 20 anos, sem interrupção, consagrava uma hora por dia a visitar o Santíssimo Sacramento. Que é que pedia ela a Jesus nessas visitas? Sabendo muito bem que a vocação ao sacerdócio é um dom especial de Deus, e querendo para seus filhos tamanha graça, oferecia a Jesus suas visitas e os desejos ardentes de seu coração maternal. Jesus na Eucaristia ouviu as suas preces.

Dos oito filhos homens, que recebera de Deus, seis se tornaram padres e um deles chegou a ser cardeal com grande aplauso e veneração de todos os católicos ingleses.

3. São Clemente Maria, apóstolo e patrono de Viena, de família humilde e órfão de pai, sentia imensos desejos de ser padre. Precisando ganhar o sustento para sua mãe e irmãos, aos dezesseis anos empregou-se numa panificação. Quando saía pelas ruas com a cesta de pão nos braços e o filhinho de seu patrão no ombro, ouvia dizer: 'Olhem o São Cristovão!'
➖ Oxalá eu o fosse mesmo e tivesse a felicidade de tomar o Salvador em minhas mãos!

Trabalhava e estudava, porque havia de ser padre. Indo a Roma com um amigo, bem cedinho entraram numa igreja. Ali perguntou Clemente a um menino:
➖Que Padres são esses?
➖ São Redentoristas e o senhor será um deles.
E assim foi. Em 1785, Clemente celebrou a sua primeira santa Missa, e foi sempre um padre segundo o coração de Deus. Faleceu em Viena em 1820 e foi canonizado pelo Papa São Pio X.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

terça-feira, 19 de maio de 2026

'APASCENTA-ME SENHOR E APASCENTA-TE COMIGO'

Tu, Senhor, me tiraste das entranhas do meu pai; tu me formaste no ventre da minha mãe; tu me fizeste nascer menino e nu, pois as leis da natureza seguem os teus mandamentos.

Com a bênção do Espírito Santo, preparaste a minha criação e a minha existência, não por vontade de homem, nem por desejo carnal, mas por uma tua graça inefável. Previste o meu nascimento com um cuidado superior ao das leis naturais; pois me trouxeste à luz, adotando-me como teu filho, e me contaste entre os filhos da tua Igreja santa e imaculada.

Alimentaste-me com o leite espiritual de teus ensinamentos divinos. Nutriste-me com o alimento vigoroso do corpo de Cristo, nosso Deus, teu santo Unigênito, e embriagaste-me com o cálice divino, ou seja, com seu sangue vivificante, que Ele derramou pela salvação do mundo inteiro.

Porque tu, Senhor, nos amaste e entregaste o teu único e amado Filho para a nossa redenção, que Ele aceitou voluntariamente, sem repugnância; mais ainda, visto que Ele mesmo se ofereceu, foi destinado ao sacrifício como cordeiro inocente, porque, sendo Deus, fez-se homem e, com a sua vontade humana, submeteu-se, tornando-se obediente a ti, Deus, seu Pai, até à morte, e uma morte na cruz.

Assim, ó Cristo, meu Deus, humilhaste-te para me carregar sobre os teus ombros, como uma ovelha perdida, e me apascentaste em pastos verdes; alimentaste-me com as águas da verdadeira doutrina por intermédio dos teus pastores, a quem tu mesmo alimentas para que, por sua vez, alimentem o teu rebanho eleito e sublime.

Pela imposição das mãos do bispo, chamaste-me para servir aos teus filhos. Ignoro por que razão me escolheste; só tu o sabes. Mas tu, Senhor, alivia o pesado fardo dos meus pecados, com os quais gravemente te ofendi; purifica o meu coração e a minha mente. Conduz-me pelo caminho reto, tu que és uma lâmpada que ilumina.

Coloca as tuas palavras nos meus lábios; dá-me uma linguagem clara e fácil, por meio da língua de fogo do teu Espírito, para que a tua presença sempre vigie.

Apascenta-me, Senhor, e apascenta-te comigo, para que o meu coração não se desvie nem para a direita nem para a esquerda, mas que o teu Espírito bom me conduza pelo caminho reto e as minhas obras se realizem segundo a tua vontade até o último momento.

E tu, cume resplandecente da mais íntegra pureza, excelente congregação da Igreja, que esperas a ajuda de Deus, tu, em quem Deus repousa, recebe de nossas mãos a doutrina imune a todo erro, tal como nos foi transmitida por nossos Padres, e com a qual a Igreja se fortalece. 

(São João Damasceno, Da Declaração da Fé)

domingo, 17 de maio de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

        

'Por entre aclamações Deus se elevou, o Senhor subiu ao toque da trombeta' (Sl 46)

Primeira Leitura (At 1,1-11) - Segunda Leitura (Ef 1,17-23) - Evangelho (Mt 28,16-20)

  17/05/2026 - SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR 

'IDE E FAZEIS DISCÍPULOS MEUS TODOS OS POVOS' 


Antes de subir aos Céus, Jesus manifesta a seus discípulos (de ontem e de sempre) as bases do verdadeiro apostolado cristão, a ser levado a todos os povos e nações: 'Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra. Portanto, ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei!' (Mt 28,18 - 20). Ratificando as mensagens proféticas do Antigo Testamento, Nosso Senhor imprime diretamente no coração humano os sinais da fé sobrenatural e da esperança definitiva na Boa Nova do Evangelho, que nasce, se transcende e se propaga com a Igreja de Cristo na terra.

Antes de subir aos Céus, Jesus nos fez testemunhas da esperança: 'Vós sereis testemunhas de tudo isso' (Lc 24,48). Pela ação de Pentecostes, pela efusão do Espírito Santo, pela manifestação da 'Força do Alto', os apóstolos tornar-se-iam instrumentos da graça e da conversão de muitos povos e nações. Na mesma certeza, somos continuadores dessa aliança de Deus com os homens, na missão de semear a Boa Nova do Evangelho nos terrenos áridos da humanidade pecadora para depois colher, a cem por um, os frutos da redenção nos campos eternos da glória. Como missionários da graça, 'que ele abra o vosso coração à sua luz, para que saibais qual a esperança que o seu chamamento vos dá, qual a riqueza da glória que está na vossa herança com os santos' (Ef 1,18).

E a sua derradeira proclamação aos discípulos é a sua promessa de estar sempre junto aos homens de todos os tempos, até a consumação dos séculos: 'Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo' (Mt 28,20). Promessa que tem, para nós, membros do seu Corpo Vivo, que é a Santa Igreja, a dimensão de uma vitória antecipada, na feliz esperança de sermos partícipes de sua glória.

E Jesus se eleva diante dos seus discípulos e sobe para os Céus. Jesus vai primeiro porque é o Caminho e para preparar para cada um de nós 'as muitas moradas da casa do Pai'. Na solenidade da Ascensão do Senhor, a Igreja comemora a glorificação final de Jesus Cristo na terra, como o Filho de Deus Vivo e, ao mesmo tempo, imprime na nossa alma o legado cristão que nos tornou, neste dia, testemunhas da esperança eterna em Cristo e herdeiros dos Céus.

sábado, 16 de maio de 2026

O MILAGRE EUCARÍSTICO DE TIXTLA

Em 22* de outubro de 2006, durante a missa dominical de um retiro espiritual oferecido aos fieis da Paróquia de São Martinho de Tours, em Tixtla, no México, conduzido pelo Pe. Raymundo Reyna Esteban como oficiante convidado, a Irmã Arely Marroquín observou que uma das hóstias parecia exsudar uma substância avermelhada à semelhança de sangue fresco. 

A hóstia eucarística foi cuidadosamente preservada, subdividida em amostras distintas que foram submetidas a exaustivos testes científicos, que envolveram laboratórios, cientistas e técnicas de origens diversas e independentes e em anonimato completo às conclusões dos estudos realizados pelos outros laboratórios envolvidos. 


Todos os testes confirmaram que o material analisado constituía tecido de músculo cardíaco, com identificação clara de células adiposas, glóbulos vermelhos e glóbulos brancos, indicando um metabolismo vivo e em franca manifestação. Adicionalmente, os estudos imunológicos demonstratam tratar-se de sangue humano, pertencente ao grupo sanguíneo AB. O fluxo sanguíneo foi caracterizado como proveniente do interior da hóstia para a superfície da mesma, sem quaisquer possibilidades de origem exterior à hóstia.

Em 12 de outubro de 2013, após vários anos dos estudos científicos e cuidadosa reflexão teológica, Dom Alejo Zavala Castro, bispo da diocese local, declarou o evento como um milagre eucarístico, convidando os fiéis a meditar sobre a Presença Real de Cristo e a se aproximarem da Sagrada Comunhão com maior fé, reverência e amor. A hóstia do milagre eucarístico de Tixtla permanece preservada na Paróquia de São Martinho de Tours, na diocese de Chilpancingo–Chilapa, no México, onde o milagre ocorreu, como objeto de veneração pública.

* outras referências indicam equivocadamente a data de 21 de outubro de 2006 (sábado)

sexta-feira, 15 de maio de 2026

PALAVRAS DA SALVAÇÃO

Amarás o Senhor teu Deus 'com todo o teu coração'. 'Todo': não podes guardar nenhuma parte para ti. Ele quer a oferta total de ti próprio; comprou-te por inteiro, para te ter para si por inteiro. Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração. Não guardes uma parte de ti mesmo, como Ananias e Safira, porque de outra maneira poderias morrer como eles (At 5,1-). Portanto, ama totalmente e não em parte. Porque Deus não tem partes, está inteiramente em toda a parte. E não deseja partilhar o teu ser, Ele que está por inteiro no seu ser. Se reservas uma parte de ti mesmo, és teu, e não dele. Portanto, queres possuir tudo? Dá-lhe o que és, e Ele te dará o que é. E não mais terás nada de teu; mas tê-lo-ás a Ele inteiramente contigo.

(Santo Antônio de Lisboa)

quinta-feira, 14 de maio de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XIX)

          

PARTE III - O INFERNO

I. Sobre o fogo do Inferno

Apesar de, nos dias de hoje, muitos negarem a existência do Inferno ou, pelo menos, a eternidade do castigo, não consideramos que nos caiba apresentar uma série de provas de que existe um lugar chamado Inferno. No caso do leitor cristão, a quem este livro se destina, evidências dessa natureza são totalmente supérfluas, pois ele não terá naufragado em sua fé. De fato, que outras provas podem ser necessárias para a existência do Inferno e a eternidade do castigo, visto que os profetas, o próprio Cristo, os apóstolos e os Padres da Igreja, e até mesmo os turcos e os pagãos, falam disso como um fato inquestionável? Aqueles que negam a existência do Inferno devem, consequentemente, ser contados entre os tolos que dizem em seu coração que não há Deus que castigue as suas más ações.

Seria, sem dúvida, muito agradável para essas pessoas se tudo terminasse com esta vida, se não houvesse dia do Juízo Final ou se, pelo menos, as regiões infernais fossem um pouco menos intoleráveis. Isso explica por que se agarram a quaisquer argumentos aparentes com os quais se iludam e adormeçam seu medo dos castigos eternos do Inferno. Não entraremos em qualquer análise dos sofismas miseráveis com os quais esses tolos se enganam; pois o ensinamento da Igreja Católica sobre este ponto é tudo o que precisamos. Ela ensina que há um lugar ou estado de dor inigualável e sem fim reservado para os condenados.

Sabemos que realmente há fogo no Inferno, pelas palavras que Cristo dirigiu aos ímpios: 'Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que foi preparado para o diabo e seus anjos' (Mt 25,41). Isso mostra que há fogo real no Inferno e que nele os condenados devem arder eternamente. Qual será a intensidade dessa dor está além do poder do homem descrever. Pois, de todos os variados tipos de sofrimento físico a que o homem pode ser submetido, não há nenhum tão grande, tão cruel, tão agonizante quanto aquele causado pelo fogo. Suplícios ou a amputação dos membros de um homem são exemplos de torturas terríveis, mas não se comparam à dor da queimadura. Basta tocar um ferro em brasa para sentir que dor excruciante isso causa! Em um instante a pele se desprende, a carne viva se expõe, sangue e matéria escorrem da ferida, e a dor penetra até a medula dos nossos ossos. Não se pode evitar gritar e urrar como se tivéssemos perdido os sentidos. Ora, se o contato momentâneo com o ferro em brasa causa dor tão aguda, como seria se tivéssemos de segurar um ferro em brasa por algum tempo!

Agora, imagine que você fosse condenado a ser queimado vivo por seus pecados e, durante um dia inteiro, permanecesse em meio às chamas, incapaz de morrer. Como chorarias e gemerias lastimosamente, como gritarias e rugirias alto em tua agonia, de modo que os gritos de partir o coração arrancados de ti pela tortura que suportas não apenas fariam os espectadores estremecerem, mas os encheriam de sincera compaixão. Aquele homem deveria ter, de fato, um coração de pedra para suportar olhar impassível tal espetáculo.

Em pouco tempo, tu serias queimado a tal ponto que não serias mais reconhecível, reduzido à aparência de uma brasa incandescente. Agora, reflete, ó cristão: se a ação do fogo terreno causa agonia tão intolerável, qual será a tortura do fogo do Inferno, cujo calor é incomparavelmente mais intenso e penetrante do que o de qualquer fogo com o qual estamos familiarizados? E se perguntares por que o fogo do Inferno deve exceder tanto o fogo terreno na intensidade de seu calor, há várias razões que explicam esse fato.

Em primeiro lugar, todos sabem que quanto maior o fogo, maior o calor que ele exala. A chama de uma vela de cera não é muito quente, mas se a vela inteira estiver queimando de uma só vez, a chama que dela se eleva é muito mais quente. Quando uma casa está em chamas, o calor nas imediações é muito intenso, mas se uma aldeia inteira estiver em chamas, o calor da conflagração torna-se insuportável mesmo à distância. Se tal é o efeito produzido pelo fogo da terra, que é comparativamente pequeno em sua extensão, qual será a ação do fogo do Inferno, que é incomensuravelmente maior do que qualquer incêndio visto na terra!

Em segundo lugar, um fogo confinado em uma fornalha arde com muito mais intensidade do que se estivesse ao ar livre, porque o calor, ao estar confinado, não pode escapar nem se difundir, nem ser atenuado pelo ar circundante. Se assim é, com que fúria as chamas da imensa fornalha do Inferno irão arder, com que intensidade irão brilhar! Suponha-se uma desgraça como a de um homem ser lançado em um forno de cal, ou em uma fornalha aquecida até ficar incandescente: quão terríveis seriam seus sofrimentos!

A razão seguinte pela qual o fogo do Inferno supera em intensidade de calor todos os outros fogos é que ele é aceso pelo sopro de Deus. Pois o profeta Isaías diz: 'Vede! É o nome do Senhor que vem de longe, sua cólera é ardente, uma nuvem pesada se levanta, seus lábios respiram furor, e sua língua é como um fogo devorador. Seu sopro assemelha-se a uma torrente transbordante cuja água sobe até o pescoço. Ele passará as nações no crivo destruidor' (Is 30,27-28). E ainda: 'um lugar de incineração está preparado também para Tofet [inferno], cavado, profundo e largo; palha e lenha ali há em quantidade, e o sopro do Senhor, como uma torrente de enxofre, o acenderá' (Is 30,33).

Que descrição terrível é aqui dada do Inferno e de seu fogo torturante. Não digam que, nessas e em outras passagens conhecidas da Sagrada Escritura, as expressões empregadas são meras figuras de linguagem, pelas quais os profetas predisseram os julgamentos divinos prestes a recair sobre as nações pecadoras, e que não devem ser tomadas em sentido literal, como se referindo ao Inferno e às suas punições. Não nos iludamos. Essas imagens devem, é verdade, ser entendidas, em seu significado primário, como indicando a condenação das nações pecadoras; mas, num sentido mais amplo e elevado, de acordo com a interpretação que lhes dão os exegetas das Escrituras, são previsões do castigo judicial que, após o Juízo Final, será a sorte dos pecadores réprobos.

Santa Brígida afirma com razão em suas revelações: 'O calor do fogo do Inferno é tão grande que, se o mundo inteiro estivesse envolto em chamas, o calor de tal incêndio seria como nada em comparação com ele'. Daí aprendemos que aquele fogo terreno não tem mais semelhança com o fogo do Inferno do que a fraca chama de uma vela de cera com o calor branco de uma fornalha incandescente. Lembre-se disso, ó pecador, e leve tudo em alta consideração! São Agostinho nos diz que o fogo mais temível da terra é, em comparação com o fogo do Inferno, como uma pintura de fogo comparada a um fogo real. Quando vires um fogo, lembra-te do fogo do Inferno. E já que não suportarias colocar a mão por um único instante nesse fogo, pensa em como deve ser o calor do fogo do Inferno, que supera infinitamente o pequeno fogo que vês diante de ti. Se não consegues suportar isto, como poderás suportar o outro? 

Ficou agora claro que os condenados serão um dia lançados, de corpo e alma, na enorme e terrível fornalha do Inferno, no imenso lago de fogo, onde estarão rodeados por chamas. Haverá fogo abaixo deles, fogo acima deles, fogo por toda a parte à sua volta. Cada respiração será o sopro escaldante de uma fornalha. Essas chamas infernais penetrarão em cada parte do corpo, de modo que não haverá parte ou membro, por dentro ou por fora, que não esteja mergulhado no fogo.

Quão desesperados serão os gritos, quão agonizantes os gemidos que subirão deste abismo de tortura! 'Ai de nós, criaturas miseráveis! Ai de nós mil vezes! Estamos sendo torturados nesta chama! A dor excruciante permeia cada membro do nosso corpo; a agonia intolerável não nos deixa descanso! Se ao menos pudéssemos morrer, se ao menos pudéssemos morrer para escapar desta tortura terrível! Ai de nós, este desejo é em vão! Mortos no que diz respeito à vida da alma, mortos porque perdemos a graça, a misericórdia de Deus, estamos ainda condenados a viver, a viver para todo o sempre! Que privilégio seria para nós a morte, a aniquilação! Mas ela nos escapa; não podemos mais esperar que venha para nos libertar desta miséria, desta tortura, da fornalha do Inferno. Ai de nós, quão grande foi a nossa loucura! Por prazeres fúteis de um momento, incorremos nesta miséria intolerável, uma miséria que perdurará por toda a eternidade'.

'Compreendei bem isto' - diz Davi - 'vós que vos esqueceis de Deus: não suceda que eu vos arrebate e não haja quem vos salve' (Sl 49,22). Escuta isto, ó pecador, e deixa que as lamentações dos perdidos te sirvam de lição. Imagina para ti mesmo a fossa de fogo na qual essas criaturas miseráveis têm de expiar os seus pecados. Tu aceitarias, perguntamos novamente, por qualquer quantia de dinheiro, por maior que fosse, passar um único dia imerso nessas chamas? Não, nem por todo o mundo tu aceitarias permanecer naquele fogo por uma única hora. Se assim é, por que, em nome de algum prazer pecaminoso, de algum ganho injusto, tu te lanças voluntariamente para sempre no fogo do inferno? Ó que loucura, que loucura consumada! Que Deus conceda que esses pecadores cegos sejam iluminados, para que tomem consciência da imprudência de sua conduta e se dediquem a tempo às coisas que dizem respeito à sua salvação.

ORAÇÃO

Ó Deus de justiça! Quão grande é a vossa ira e quão todo-poderoso é o vosso ódio ao pecado e ao pecador! Ai de mim e de todos aqueles que têm a terrível infelicidade de cometer pecado mortal. Que Deus me preserve de tal pecado, que seria o meio de me lançar na perdição eterna. Sofrirei de bom grado todas as coisas, as maiores tribulações temporais, as dores mais agudas, até mesmo a morte mais cruel, de modo a escapar do tormento eterno no Inferno. Este é o meu firme propósito; por isso, concedei-me a vossa graça e fortalecei-me nesta minha boa resolução.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)