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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

O MILAGRE EUCARÍSTICO DE BORDEAUX

 

Ao contrário de outros milagres eucarísticos, o  Milagre Eucarístico de Bordeaux (França) em 1822 não consiste em um evento extraordinário envolvendo uma transformação física e permanente das espécies eucarísticas em carne ou sangue, mas uma manifestação ou aparição eucarística: Cristo teria se tornado sensivelmente visível no lugar normalmente ocupado pela Hóstia.

Na tarde de domingo de 3 de fevereiro de 1822, ocorria a cerimônia de bênção do Santíssimo Sacramento em uma pequena capela situada na rua Mazarin, em Bordeaux, presidida pelo Padre Pierre-Justin Delort, substituindo naquela ocasião o celebrante habitual - padre Pierre-Bienvenu Noailles - fundador da nascente comunidade da Sagrada Família de Bordeaux.

No momento em que o Santíssimo foi exposto no ostensório e o sacerdote iniciou a incensação, a Hóstia deixou de ser percebida normalmente, manifestando em forma visível a figura de um homem, descrita pelo Padre Delort e testemunhas (coroinha, religiosas e leigos presentes) como sendo de um homem de aproximadamente trinta anos e extraordinária beleza, apresentando as seguintes características e feições: rosto intensamente luminoso, cabelos claros caindo até os ombros, uma faixa ou manto vermelho disposta sobre o ombro e o peito, a mão esquerda pousada sobre o coração e a mão direita estendida sobre os presentes em gesto de bênção. 


Esta figura de Jesus Cristo não correspondia a uma imagem pintada ou imóvel mas, pelo contrário, mostrava-se viva, inclinando-se algumas vezes para a direita e para a frente. O fenômeno teria permanecido visível por cerca de vinte minutos. Outros presentes não perceberam a imagem exposta na Hóstia, mas viram uma luz extraordinária emanando dela ou experimentaram uma intensa sensação da presença divina. O acontecimento ocorreu somente vinte meses depois da fundação da comunidade da Sagrada Família de Bordeaux, de modo que o padre Noailles interpretou a aparição como uma confirmação de que a obra nascente era agradável a Deus.

padre Pierre-Bienvenu Noailles

Depoimentos escritos das testemunhas foram encaminhados ao então arcebispo de Bordeaux, Dom Charles-François d’Aviau du Bois de Sanzay. De acordo com a tradição documental da Sagrada Família, o arcebispo determinou uma investigação e considerou o acontecimento digno de crédito, autorizando a celebração anual em sua memória no dia 3 de fevereiro. O ostensório associado ao acontecimento foi conservado pela Sagrada Família e tradicionalmente venerado na comunidade contemplativa de La Solitude, em Martillac, perto de Bordeaux.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

OS MILAGRES EUCARÍSTICOS DE FLORENÇA

A Igreja de Santo Ambrósio, em Florença, foi contemplada com dois milagres eucarísticos: um ocorrido em 1230 e outro em 1595. O primeiro milagre eucarístico é conhecido tradicionalmente como o Milagre da Encarnação (Miracolo dell'Incarnazione) e ocorreu em 30 de dezembro de 1230, no mosteiro beneditino anexo à Igreja de Santo Ambrósio.

Neste dia, um sacerdote de idade avançada chamado Uguccione, então capelão das monjas beneditinas, celebrou a Santa Missa na festa de São Florêncio. Ao terminar a celebração, durante a purificação do cálice, deixou inadvertidamente algumas gotas do Preciosíssimo Sangue, sob as espécies consagradas do vinho, no interior do vaso sagrado. Na manhã seguinte, ao preparar-se para celebrar novamente a Missa, encontrou no cálice não mais vestígios de vinho, mas sangue coagulado, descrito como 'sangue vivo, coagulado e encarnado'. 


O acontecimento foi objeto de investigação detalhada, conduzida pelo bispo de Florença, Ardingo Foraboschi, que posteriormente reconheceu a extraordinária natureza do evento. O sangue foi cuidadosamente recolhido do cálice e colocado em uma ampola de cristal, destinada à veneração pública. Segundo a tradição, o próprio bispo devolveu a relíquia ao mosteiro numa rica custódia de marfim ornamentada com ouro. A ampola contendo o sangue é conservada até hoje na Capela do Milagre do Santíssimo Sacramento, à esquerda do altar-mor da Igreja de Santo Ambrósio, guardada dentro de um tabernáculo de mármore esculpido por Mino da Fiesole, executado entre 1481 e 1484. Nesta mesma capela, um grande afresco de Cosimo Rosselli reproduz os acontecimentos relacionados ao milagre, representado na praça localizada na frente da Igreja de Santo Ambrósio.

tabernáculo de mármore esculpido por Mino da Fiesole

afresco de Cosimo Rosselli sobre o Milagre da Encarnação

O segundo Milagre Eucarístico ocorreu na Sexta-feira Santa do ano de 1595. Uma vela que permaneceu acesa sobre o altar da capela lateral, denominada Capela do Santo Sepulcro, deu início a um incêndio de grandes proporções no interior da Igreja de Santo Ambrósio. Os fiéis conseguiram retirar o Santíssimo Sacramento e o cálice mas, infelizmente seis Hóstias consagradas caíram do cibório sobre um tapete em chamas. Mas, apesar de caírem diretamente sobre o fogo, as seis Hóstias foram posteriormente encontradas intactas e reunidas na forma de um anel. Em 1628, o arcebispo Marzio Medici examinou as Hóstias e constatou que todas permaneciam incorruptas, ordenando a sua conservação em um precioso relicário.


Assim, os dois acontecimentos são considerados complementares: o primeiro manifesta a permanência extraordinária da Hóstia consagrada, enquanto o segundo ressalta a proteção providencial do Santíssimo Sacramento em meio à destruição causada pelo fogo. Todos os anos, durante a devoção das Quarenta Horas, as relíquias dos dois milagres (1230 e 1595) são expostas juntas para adoração pública.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

O MILAGRE EUCARÍSTICO DE MORROVALLE


Na madrugada de 17 de abril de 1560, quarta feira da Oitava da Páscoa, um incêndio de grandes proporções irrompeu sobre o Convento Franciscano de Morrovalle, cidade histórica medieval da Itália, situada sobre uma colina com vista para a costa adriática. O incêndio, em poucas horas de descontrole total, consumiu totalmente o templo do século XIII, que ficou reduzido a escombros e cinzas.


No dia 23 de abril, em outra busca dos frades no meio dos escombros, o padre Battista da Ascoli, ao remover um pedaço de mármore do altar-mor, deparou-se maravilhado com a píxide de prata, que mesmo completamente derretida, conservara inteira e intacta a Hóstia grande consagrada. Nenhuma chama ou calor do incêndio devastador ousara profanar o Santíssimo Sacramento. Diante do prodígio inexplicável, a Hóstia consagrada foi imediatmente exposta para adoração do fieis.

O Papa Pio IV enviou uma comissão de cinco cardeais para a instalação do devido processo canônico diocesano, que se estendeu entre 16 e 26 de maio de 1560, e que ratificou o evento como um milagre eucarístico de preservação da Hóstia consagrada. Na bula Sacrossanta Romana Ecclesia, de 19 de setembro de 1560, o papa Pio IV reconheceu oficialmente o Milagre Eucarístico de Morrovalle, concedendo indulgência plenária perpétua a todos que visitassem o local de culto no aniversário do evento, ou seja, no período de 17 a 27 de abril de cada ano, conhecido como 'os dias das Indulgências'.

O milagre atraiu multidões de todos os lugares, forçando a reconstrução de uma igreja no local, muito maior que o templo original e na forma de uma cruz latina. Da estrutura pré-existente, apenas a antiga torre sineira permaneceu. Em 1741, terremotos danificaram a igreja, tornando necessária a sua restauração. Com o advento da era napoleônica, os franciscanos foram forçados a abandonar o convento em 1810. Atualmente, a igreja reformada do antigo convento franciscano, constitui um auditório, utilizado para diversas atividades culturais. 


Por estas razões, o rito das indulgências plenárias é atualmente celebrado na Igreja de São Bartolomeu. Em 1960, por ocasião do quarto centenário do milagre, a cidade celebrou solenemente o evento e adotou a inscrição latina Civitas Eucharistica - Cidade Eucarística - em sua porta principal. A hóstia consagrada, então guardada numa caixa de marfim, não chegou, porém, aos nossos tempos e, desde a primeira metade do século XVII, já não era mais conservada.

sábado, 16 de maio de 2026

O MILAGRE EUCARÍSTICO DE TIXTLA

Em 22* de outubro de 2006, durante a missa dominical de um retiro espiritual oferecido aos fieis da Paróquia de São Martinho de Tours, em Tixtla, no México, conduzido pelo Pe. Raymundo Reyna Esteban como oficiante convidado, a Irmã Arely Marroquín observou que uma das hóstias parecia exsudar uma substância avermelhada à semelhança de sangue fresco. 

A hóstia eucarística foi cuidadosamente preservada, subdividida em amostras distintas que foram submetidas a exaustivos testes científicos, que envolveram laboratórios, cientistas e técnicas de origens diversas e independentes e em anonimato completo às conclusões dos estudos realizados pelos outros laboratórios envolvidos. 


Todos os testes confirmaram que o material analisado constituía tecido de músculo cardíaco, com identificação clara de células adiposas, glóbulos vermelhos e glóbulos brancos, indicando um metabolismo vivo e em franca manifestação. Adicionalmente, os estudos imunológicos demonstratam tratar-se de sangue humano, pertencente ao grupo sanguíneo AB. O fluxo sanguíneo foi caracterizado como proveniente do interior da hóstia para a superfície da mesma, sem quaisquer possibilidades de origem exterior à hóstia.

Em 12 de outubro de 2013, após vários anos dos estudos científicos e cuidadosa reflexão teológica, Dom Alejo Zavala Castro, bispo da diocese local, declarou o evento como um milagre eucarístico, convidando os fiéis a meditar sobre a Presença Real de Cristo e a se aproximarem da Sagrada Comunhão com maior fé, reverência e amor. A hóstia do milagre eucarístico de Tixtla permanece preservada na Paróquia de São Martinho de Tours, na diocese de Chilpancingo–Chilapa, no México, onde o milagre ocorreu, como objeto de veneração pública.

* outras referências indicam equivocadamente a data de 21 de outubro de 2006 (sábado)

quarta-feira, 15 de abril de 2026

OS MILAGRES EUCARÍSTICOS DE CHIRATTAKONAM E VILAKKANUR

Chirattakonam (pronuncia-se Kiratakónam) é uma pequena localidade na Índia, situada no estado de Kerala, ao sul do país, conhecido pelas suas paisagens tropicais, rios e praias. Em termos geográficos, Chirattakonam é uma área rural associada à região de Thiruvananthapuram (ou Trivandrum), que é a capital do estado de Kerala. Neste local, mais especificamente na Igreja de Santa Maria (rito católico siro-malancar), ocorreu o chamado milagre eucarístico de Chirattakonam, em 28 de abril de 2001.

Neste dia, pela manhã, como ocorria normalmente todos os anos, teve início naquela paróquia a novena a São Judas Tadeu. Exatamente às 08:49h, o padre celebrante - Fr. Johnson Karnoor, pároco da igreja entre 1998 e 2007 - expôs o ostensório com o Santíssimo Sacramento para adoração pública, percebendo, logo em seguida, a presença de três pontos de sangue muito nítidos na Santa Eucaristia. Após destacar esse fato singular aos fieis presentes, exortou-os a continuarem em oração, enquanto guardava o ostensório no sacrário. No dia 30 de abril, viajou para Trivandrum e só retornou à sua paróquia para a missa da manhã do sábado seguinte, dia 05 de maio de 2001.

Ao abrir o sacrário, deparou-se com grande admiração com uma figura claramente estampada na hóstia, à semelhança de um rosto humano. Outras pessoas viam a figura também que, uma vez exposta à adoração, tornava-se cada vez mais nítida para todos. Durante a adoração, era hábito a leitura de uma passagem das Sagradas Escrituras que, naquele abençoado dia, narrava o episódio da aparição de Jesus ao incrédulo São Tomé, pedindo-lhe que tocasse as suas feridas da Paixão. Um fotógrafo foi chamado então para registrar o evento extraordinário exposto na hóstia consagrada. Com o tempo, a imagem tornou-se cada vez mais nítida e revelou-se a de um homem semelhante a Cristo, coroado de espinhos.


A imagem milagrosa foi investigada pela diocese de Trivandrum e a custódia com a hóstia permanece guardada na igreja até o presente. Este milagre eucarístico foi ratificado recentemente por outro, ocorrido em Vilakkannur, também no estado de Kerala, no sul da Índia. 

Em 15 de novembro de 2013, durante uma missa matinal de rotina na Igreja local de Cristo Rei, o padre Thomas Pathickal elevou a hóstia consagrada e, neste exato momento, uma imagem misteriosa começou a surgir sobre a superfície branca da hóstia. A imagem de um rosto inconfundivelmente humano, o qual as testemunhas reconheceram imediatamente como sendo o rosto de Jesus Cristo. Todos se ajoelharam em reverência e a notícia do acontecimento se espalhou rapidamente por toda a região.


Mais tarde, a hóstia com a imagem de Cristo foi confiada ao Núncio Apostólico na Índia e, após um cuidadoso processo de investigação, o Vaticano chancelou o evento como sendo um autêntico milagre eucarístico, que foi reconhecido oficialmente pela Igreja em 31 de maio de 2025.

sábado, 21 de março de 2026

O MILAGRE EUCARÍSTICO DE BUENOS AIRES


Na noite de 18 de agosto de 1996, o padre Alejandro Pezet celebrava a Santa Missa das 19h do domingo na Igreja de Santa Maria, no bairro de Almagro, no centro comercial de Buenos Aires. Ao terminar a distribuição da Sagrada Comunhão, uma assistente aproximou-se dele para lhe dizer que havia encontrado uma hóstia descartada em um castiçal no fundo da igreja. Ao chegar ao local designado, o padre Alejandro recolheu a hóstia profanada, colocando-a num recipiente com água e guardando-a no sacrário da capela do Santíssimo Sacramento. Este procedimento da Igreja visa garantir a dissolução completa da hóstia e, assim, a consumação respeitosa da hóstia consagrada. 

No dia 26 de agosto, quando o sacrário foi aberto, verificou-se surpreendentemente que a hóstia consagrada não se havia dissolvido mas, pelo contrário, assumira um aspecto de uma substância sanguinolenta. Inteirado dos fatos, o então Arcebispo de Buenos Aires Dom Jorge Bergoglio - mais tarde o Papa Francisco - determinou que a hóstia fosse fotografada profissionalmente. As fotos, datadas de 6 de setembro de 1996, mostram a hóstia então transformada em um pedaço de carne sangrenta. Diante destes fatos extraordinários e com a devida cautela contra o sensacionalismo e injunções imediatas, a hóstia permaneceu protegida no Tabernáculo em segredo por três anos. E permaneceu sempre com a mesma natureza e aspecto da condição inicial.


Diante destas evidências, o  Cardeal Bergoglio decidiu que era mais do que necessária uma abordagem científica dos eventos e, para garantir uma maior independência e credibilidade à investigação, contatou profissionais externos do clero e da academia da Argentina. Assim, o neuropsicólogo boliviano Ricardo Castañón Gómez foi foi encarregado para coordenar os trabalhos da investigação científica da hóstia, com a participação decisiva de Ron Tesoriero*, um leigo australiano já então bastante conhecido por estudar cientificamente e divulgar relatos de milagres eucarísticos ao redor do mundo. Nessa empreitada, foram envolvidos diferentes laboratórios e especialistas, com destaque para a participação do médico legista e patologista americano Dr. Frederick Zugibe de Nova York. 

* Ron Tesoriero publicou estes fatos em livro: 'My Human Heart: Where Science and Faith Collide' - Meu Coração Humano: Onde a Ciência e a Fé se Encontram


Em 20 de abril de 2004, uma amostra da hóstia ensanguentada foi examinada ao microscópio pelo Dr. Zugibe em Nova York, sem que o mesmo soubesse da sua origem (na linguagem científica, o chamado 'procedimento cego'), que relatou as seguintes conclusões:

'O coração é a minha área de atuação. Isto é carne. Esta carne é tecido muscular cardíaco, miocárdio, da parede do ventrículo esquerdo, próximo à área das válvulas. É o músculo que dá ao coração seus batimentos e ao corpo sua vida. Este músculo cardíaco está inflamado. Perdeu suas estrias e está infiltrado por glóbulos brancos. Os glóbulos brancos normalmente não são encontrados no tecido cardíaco. Essas células são produzidas pelo corpo e escapam do sangue, infiltrando-se no tecido para tratar traumas ou lesões. 

A presença desses glóbulos brancos no tecido me diz duas coisas: Em primeiro lugar, este coração sofreu uma lesão traumática. Houve comprometimento do suprimento sanguíneo para o coração. Isso não é diferente do que já vi quando alguém é golpeado violentamente no peito, na região do coração. Em segundo lugar, este coração estava vivo. Este coração pertence a uma pessoa viva, não a uma pessoa morta. Estou vendo uma fotografia de um coração vivo. Posso datar a lesão. Posso datar quando ocorreu a interrupção do fluxo sanguíneo. Aconteceu 3 dias antes da imagem capturada na lâmina microscópica'.

A Igreja nos ensina que a Eucaristia é uma memória da paixão, morte e ressurreição de Jesus. Quando recebemos a Comunhão, recebemos Jesus no momento de sua Ressurreição, três dias após a sua Paixão. No relatório final, o especialista complementa assim as suas análises:

'Os tecidos do coração sofreram alterações degenerativas do miocárdio, possivelmente devido à obstrução de uma artéria coronária que fornece nutrientes e oxigênio a uma área do músculo cardíaco. Essa obstrução pode ser resultado de um forte golpe no peito sobre o coração'.

(Igreja de Santa Maria / Buenos Aires)

Eventos preliminares em celebrações eucarísticas nesta mesma igreja dão a entender uma perspectiva em escala do evento maior. Com efeito, em maio de 1992, fragmentos de hóstia consagrada foram encontrados no altar e, uma vez colocados em água dentro do sacrário, não se dissolverem, passando a apresentar coloração avermelhada semelhante a sangue. Poucos dias depois, foram constatadas também gotas de sangue nas patenas durante a comunhão. Posteriormente, em julho de 1994, durante uma missa para as crianças, uma gota de sangue foi vista fluindo pela lateral da âmbula do sacrário. Os eventos de 1992, 1994 e 1996 constituem, assim, três milagres eucarísticos distintos e sucessivos na Igreja de Santa Maria em Buenos Aires.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O MILAGRE EUCARÍSTICO DE SANTARÉM

Em Santarém, cerca de 45km de Fátima, um milagre eucarístico que ainda hoje persiste na história, antecipou por quase 700 anos as aparições de Nossa Senhora em Fátima. A data exata do milagre é desconhecida, mas comumente enquadrada aproximadamente na primeira metade do século XIII (as referências mais comuns situam o evento nos anos de 1247 ou 1266). O extraordinário se mantém intacto, ainda que o cenário e os personagens tenham sido desfeitos como poeira pelo tempo.

O fato singular tem início com um sacrilégio, envolvendo uma esposa infeliz e um marido infiel. Diante a situação de um casamento em crise profunda, a infeliz esposa buscou auxílio com uma feiticeira, que lhe prometeu ajuda no amor conjugal mediante a entrega por ela de uma hóstia consagrada. A mulher dirigiu-se, então, à Igreja de Santo Estêvão, participou normalmente da comunhão mas não engoliu a hóstia, removendo-a às escondidas da boca e, após envolvê-la por um véu, se dispôs a levá-la para o feitiço proposto. Durante o trajeto, entretanto, a hóstia começou a sangrar abundantemente, manchando o véu que a cobria com tal viva exposição, que a mulher mudou imediatamente de ideia, dirigiu-se apressadamente para casa e, na falta de uma opção melhor, guardou toda a peça em um pequeno baú.

Durante a madrugada, a casa foi tomada por uma intensa luz brilhante que se irradiava do baú; em pânico, a mulher confessou o seu pecado ao marido e ambos se prostraram cheios de temor diante o baú até o amanhecer, quando o pároco local foi chamado e inteirado dos fatos. A Sagrada Hóstia foi então transferida em procissão para a Igreja de Santo Estêvão, sendo conservada dentro de uma custódia feita de cera para preservar o sangue derramado.

Um outro evento extraordinário seguiu-se ao primeiro. Ao se abrir o sacrário contendo a custódia para uma solenidade de adoração pública da hóstia milagrosa, constatou-se que a mesma encontrava-se agora encerrada em uma píxide de cristal, juntamente com o precioso sangue, e com a cera envolvente desfeita em pedaços. No século XVIII, a hóstia foi transferida para um ostensório de ouro e prata que simula a irradiação original com 33 raios de luz, onde permanece até hoje. 

A hóstia apresenta um formato irregular, assemelhando-se à carne, com delicadas veias que percorrem toda a sua extensão, com uma quantidade associada de sangue seco e endurecido. O sangue se liquefez por diversas vezes ao longo dos séculos e a hóstia permanece intacta mesmo quase oito séculos depois. São Francisco Xavier, que visitou o santuário antes de partir para as suas missões, foi um dos muitos que testemunharam diretamente esse sinal extraordinário dos Céus.


A pequena casa onde o milagre ocorreu foi transformada em uma capela (atual Ermida), sendo agora o local de partida da procissão anual da festa litúrgica (comumente no Segundo Domingo da Páscoa, embora o aniversário do milagre seja celebrado no dia 22 de fevereiro), que refaz o trajeto da hóstia milagrosa até a igreja de Santo Estêvão que, após investigação formal e aprovação das autoridades da Igreja, foi renomeada como 'Igreja do Santíssimo Milagre'. Em 1997, a igreja foi elevada a santuário diocesano. Vários papas (Pio IV, São Pio V, Pio VI e Gregório XIV) concederam privilégios especiais e indulgências aos peregrinos e visitantes devotos do Santíssimo Milagre de Santarém.


VER MILAGRES EUCARÍSTICOS - PÁGINA DE SENDARIUM

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

O MILAGRE EUCARÍSTICO DE AMSTERDÃ - II

Em 24 de maio de 1452, a então já bastante desenvolvida cidade de Amsterdã foi praticamente devastada por um incêndio de grandes proporções, facilitado em larga escala pelas suas construções tipicamente de madeira com telhados de palha. O fogo destruiu não apenas moradias, mas também prédios públicos, igrejas e edifícios de maneira geral, causando enormes prejuízos e uma quase completa ruína da cidade. 

Quando o incêndio atingiu a capela construída no local do milagre eucarístico de 1345 (Nieuwezijds Kapel ou 'Capela da Cidade Nova'), muitos moradores tentaram salvar a Hóstia Milagrosa da destruição pelo fogo, sem êxito, devido à rápida propagação das chamas. Toda a igreja desabou e foi reduzida a cinzas. Mas um segundo milagre iria envolver a Hóstia Milagrosa, mais de 100 anos depois. No dia seguinte, em meio aos destroços do incêndio, o baú-relicário que continha a Hóstia foi encontrado completamente intacto, contra todas as expectativas possíveis. A hóstia havia sido preservada do fogo uma segunda vez.

(gravura da Nieuwezijds Kapel, datada de 1663)

A renovação extraordinária do Milagre Eucarístico de Amsterdã elevou a cidade a centro de peregrinação religiosa de toda a Europa a partir de então e uma nova capela foi construída no local, substituindo a capela original. Durante o século XVI, porém, Amsterdã passou pela Reforma Protestante e, como consequência, muitas igrejas foram profanadas e muitos símbolos católicos foram roubados e destruídos, incluindo a própria Hóstia Milagrosa, furtada e nunca mais recuperada. Em 1578, a Nieuwezijds Kapel foi confiscada pelo governo protestante e o culto católico foi proibido. A capela foi readaptada para diferentes fins ao longo dos tempos, sendo completamente demolida em 1908.

(baú-relicário da Hóstia Milagrosa)

Os únicos objetos remanescentes do segundo milagre são o baú-relicário que continha a Sagrada Hóstia e documentos oficiais que atestam o milagre. Ainda hoje e todos os anos, a comunidade católica refaz a procissão solene em honra do milagre (a chamada Stille Omgang ou Procissão Silenciosa) que percorre em silêncio o mesmo trajeto original da procissão medieval, na véspera do Domingo de Ramos.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

O MILAGRE EUCARÍSTICO DE AMSTERDÃ - I


Amstelredam (Amsterdã) surgiu a partir de uma barragem construída no século XIII na foz do rio Amstel. O milagre eucarístico de Amsterdã ocorreu em 13 de março de 1345, quando a atual capital da Holanda não passava ainda de uma vila simplória conformada por um canal que contornava umas poucas ruas, casas e becos, alinhadas com cabanas de pescadores, uma igreja e um mosteiro. Numa casa simples às margens do canal, um pescador chamado Ysbrant Dommer, em seu leito de morte, fez chamar um sacerdote para receber os últimos sacramentos da Igreja. Após ouvir a confissão do homem, o padre o abençoou com os óleos da Extrema Unção e lhe deu a Comunhão.

Assim que o padre se foi, o pobre homem começou a tossir violentamente e, incapaz de qualquer contenção, acabou por vomitar a Hóstia recebida com todo o alimento do estômago. A Hóstia vomitada e ainda intacta foi lançada então em uma lareira acesa, desaparecendo em meio às chamas intensas, de acordo com o rito litúrgico medieval de se tratar a Eucaristia quando esta era expelida ou impossibilitada de ser consumida reverentemente.

No dia seguinte, porém, revolvendo-se as brasas e cinzas do fogo anterior, a Hóstia foi encontrada ainda perfeitamente intacta, sem quaisquer sinais de queima ou mudanças de forma ou de cor, mas tão somente branca, clara e brilhante como saída das mãos do sacerdote da comunhão. A Hóstia foi então recolhida cuidadosamente com um pano limpo e guardada em uma pequena arca, dando-se ciência então dos fatos ao sacerdote do dia anterior. Pedindo discrição a todos, o padre levou a Hóstia para a igreja paroquial de São Nicolau, colocando-a num píxide guardado no sacrário. Por espantoso que pareça, no dia seguinte, a Hóstia desapareceu do sacrário e foi reencontrada na pequena arca onde havia sido guardada originalmente. Levada novamente à Igreja, repetiu-se pela segunda vez o seu reaparecimento no local original onde fôra guardada.


A terceira vez que a Hóstia foi levada à igreja local ocorreu em meio a uma solene procissão e adoração eucarística, depois de ampla divulgação pública destes extraodinários eventos. As investigações oficiais, com amplo relato de testemunhas, foram conduzidas e atestadas pelo Bispo de Utrecht. Em carta pastoral, o bispo ratificou oficialmente como autêntico o milagre eucarístico ocorrido na pequena vila de Amsterdã, autorizando em seguida a exposição e a veneração pública da Hóstia. A casa do pescador - que recuperou a saúde - tornou-se local de peregrinação e, mais tarde, em 1347, foi transformada em capela (Heilige Stede ou 'Lugar Santo').

Com o grande afluxo de peregrinos, decidiu-se erguer um templo maior em local próximo, chamado Nieuwezijds Kapel (em tradução livre, Capela da Cidade Nova), construído entre 1347 e 1351, no então bairro do chamado 'lado novo' de Amsterdã, que passou a guardar a Hóstia Milagrosa em um baú-relicário, convertendo-se, assim, no santuário oficial do Milagre Eucarístico de Amsterdã. Deste modo, antes de Amsterdã ser conhecida internacionalmente como porto e cidade comercial, ela tornou-se um famoso local de peregrinação na Idade Média, graças a este milagre eucarístico.

terça-feira, 29 de abril de 2025

O PRIMEIRO MILAGRE DE SANTA TERESA DE LISIEUX

(Reine Fauquet)

Em 26 de maio de 1908, Reine Fauquet, uma menina de quatro anos, dada como irreversivelmente cega pela medicina, visitou com sua família o primeiro túmulo de Teresa, no Cemitério de Lisieux. Ao retornar da peregrinação, a menina inesperadamente recuperou a visão. Marie, sua irmã mais velha, perguntou-lhe quando ela havia recuperado a visão e a menina revelou então em detalhes a visita celestial de Teresa.

Marie lembrou-se então de ter visto Reine, na manhã de 26 de maio, acalmar-se de repente após um forte ataque de dor e permanecer sorrindo e olhando fixamente numa dada direção, antes de adormecer pacificamente. O testemunho de Reine, apesar da sua tenra idade, nunca mudou, declarando perante as Carmelitas de Lisieux: 'Eu vi Teresa muito perto da minha cama, ela pegou na minha mão, ela riu comigo e era linda, tinha um véu e tudo estava iluminado ao redor da sua cabeça'. Uma das freiras lhe perguntou: 'E como ela estava vestida? Ao que a menina respondeu: 'Como você está vestida'.

Os médicos que a tratavam da cegueira emitiram um certificado em 6 de julho de 1908, atestando a recuperação completa da visão de Reine Fauquet. Este foi o milagre que resultou na abertura do processo de reconhecimento da santidade de Teresa de Lisieux. No ano seguinte, já seria aberta uma investigação para reconhecer as virtudes heroicas da Venerável Serva de Deus. Teresa foi beatificada em 29 de abril de 1923 (102 anos atrás) e canonizada em 17 de maio de 1925 pelo Papa Pio XI, apenas 27 anos depois de sua morte.

sábado, 7 de setembro de 2024

O MILAGRE EUCARÍSTICO DE AVIGNON

Avignon, cidade situada na região sul da França e cortada pelo rio Ródano, é a única cidade que recebeu oficialmente o papado fora de Roma em toda história. Disputas pelo poder envolvendo o rei francês Filipe IV, levaram o papado para a França. O período histórico de 1309 a 1377 ganhou o nome de Papado de Avignon e esta permanência dos papas na região provençal constitui um dos períodos mais conturbados da história da Igreja. Foram sete papas franceses em um período de 68 anos.

Desde o século XII, a região do sul da França era cenário do desenvolvimento intenso de um dos maiores movimentos heréticos da Idade Média, o chamado catarismo ou heresia albigense, que negava a existência de um único Deus e a presença real de Cristo na sagrada eucaristia, propagando a salvação fundamentada apaenas no conhecimento direto de Deus.

Para celebrar a vitória da Igreja contra a heresia albigense, o então rei Luís VIII fez construir a Capela de Santa Cruz, em honra ao Santíssimo Sacramento. Mais ainda, promoveu e participou ativamente de uma procissão ao Santíssimo Sacramento que percorreu várias ruas da cidade e foi encerrada na capela recém-construída, durante a Festa da Exaltação da Santa Cruz em 14 de setembro de 1226. Desde então, teve início a adoração perpétua do Santíssimo Sacramento nesta igreja e, para a salvaguarda dessa devoção, foi instituída a chamada Confraria Real dos Penitentes Cinzentos de Avignon.


Cerca de duzentos anos depois, no final de novembro de 1433, a região foi assolada por chuvas torrenciais que produziram cheias históricas do rio Ródano e a inundação completa das áreas ao seu redor. As águas subiam sem parar e os penitentes da confraria, responsáveis pela devoção eucarística na Capela de Santa Cruz, temeram fortemente pela inundação da igreja. Dois membros da confraria decidiram, então, acessar a igreja por barco e resgatar a custódia contendo o Santíssimo Sacramento antes do pior. Diante deles, entretanto, a situação era bem mais crítica, pois uma muralha de água de quase 1,8m de altura já submergia o local e a própria porta frontal do templo.

Ao adentrarem na igreja, porém, os dois religiosos foram tomados por um estupor sem tamanho: à semelhança da partição das águas do Mar Vermelho, as águas da enchente conformavam dois paredões laterais próximos às paredes internas do templo, mantendo irretocavelmente seco o espaço central da igreja situado desde a porta frontal até o altar, conservando-se intacta, assim, a custódia contendo as hóstias consagradas da ação da enchente.


Após prostarem-se em oração e jubilosos com tal milagre, recolheram o Santíssimo e o conduziram a uma outra igreja em terreno mais elevado e protegido da inundação. A notícia do milagre espalhou-se rapidamente e centenas de pessoas foram testemunhas dele. A confraria franciscana instituiu a celebração do milagre desde então na capela, todos os anos, no dia de Santo André Apóstolo, 30 de novembro. Neste dia, antes da bênção do Santíssimo Sacramento, canta-se ali o Cântico que Moisés teria composto após a travessia do Mar Vermelho (Ex 15, 1-18):

'Cantarei ao Senhor, porque ele manifestou sua glória. Precipitou no mar cavalos e cavaleiros. O Senhor é a minha força e o objeto do meu cântico; foi ele quem me salvou. Ele é o meu Deus – eu o celebrarei; o Deus de meu pai – eu o exaltarei. O Senhor é o herói dos combates, seu nome é Javé. Lançou no mar os carros do faraó e o seu exército; a elite de seus combatentes afogou-se no mar Vermelho; o abismo os cobriu; afundaram-se nas águas como pedra. A vossa (mão) direita, ó Senhor, manifestou sua força. Vossa direita aniquilou o inimigo. Por vossa soberana majestade derrotais vossos adversários; desencadeais vossa cólera, e ela os consome como palha. Ao sopro de vosso furor amontoaram-se as águas; levantaram-se as ondas como muralha, solidificaram-se as vagas no coração do mar. Dizia o inimigo: perseguirei, alcançarei, repartirei o despojo, satisfarei meu desejo de vingança, desembainharei a espada, minha mão os destruirá. Ao sopro de vosso hálito o mar os sepultou; submergiram como chumbo na vastidão das águas. Quem entre os deuses é semelhante a vós, Senhor? Quem é semelhante a vós, glorioso por vossa santidade, temível por vossos feitos dignos de louvor, e que operais prodígios? Apenas estendestes a mão, e a terra os tragou. Conduzistes com bondade esse povo, que libertastes; e com vosso poder o guiastes à vossa morada santa. Ao ouvir isso, estremeceram os povos. Um pavor imenso apoderou-se dos filisteus; os chefes de Edom ficaram aterrados; a angústia tomou conta dos valentes de Moab; tremeram de medo todos os habitantes de Canaã. Caíram sobre eles o terror e a angústia, o poder do vosso braço os petrificou, até que tivesse passado o vosso povo, Senhor, até que tivesse passado o povo que adquiristes para vós. Vós o conduzireis e o plantareis na montanha que vos pertence, no lugar que preparastes para vossa habitação, Senhor, no santuário, Senhor, que vossas mãos fundaram. O Senhor é rei para sempre, sem fim!'.

sábado, 6 de julho de 2024

O MILAGRE EUCARÍSTICO DE CASCIA

Em 1330, na região de Cascia (Itália), um sacerdote foi chamado às pressas para ministrar a Sagrada Eucaristia a um homem doente em estado terminal. Atendendo rapidamente ao pedido, o sacerdote resolveu, de forma inesperada e totalmente irreverente, levar a hóstia consagrada destinada ao doente guardada entre as páginas do seu breviário. Na casa do doente, ao abrir o breviário para ministrar ao doente a comunhão, descobriu estupefato que a hóstia não apenas se transformara num coágulo único, mas se desmanchava em grandes manchas de sangue em ambas as páginas do breviário entre as quais havia sido mantida.

Sob forte comoção e arrependimento, o sacerdote dirigiu-se imediatamente para um mosteiro agostiniano próximo de Siena, ao encontro do Frei Simone Fidati, sacerdote de piedade e santidade reconhecidas, para narrar os fatos e pedir a sua confissão. O breviário foi então recolhido e as duas páginas, manchadas de sangue e com dimensões de 52mm x 44mm, foram preservadas e destinadas à veneração interna no mosteiro. 


Em 1389, o papa Bonifácio IX confirmou a autenticidade do milagre, concedendo indulgência especial ao culto da relíquia em 1401. Ao longo dos anos, um outro evento extraordinário transcorreu com as manchas de sangue diluídas nas páginas do breviário: elas passaram a conformar a figura de um rosto humano, reproduzindo a imagem de um homem com barba. A relíquia foi transferida do mosteiro agostiniano para a capela inferior da Basílica de Santa Rita em Cascia em 1930, onde se encontra atualmente, mantidas em um tabernáculo de cristal ladeado por dois painéis de mármore, que simulam as páginas do breviário contendo as imagens formadas do rosto humano.


segunda-feira, 3 de junho de 2024

O MILAGRE EUCARÍSTICO DE SEEFELD

Seefeld, uma pequena localidade situada na região do Tirol (Áustria) foi palco de um dos eventos sobrenaturais mais extraordinários do século XIV.  Este evento ocorreu na Quinta Feira Santa de 1384, na pequena igreja de Saint Oswald (São Oswaldo), erigida originalmente como uma pequena capela em 1306.


Durante a missa local, Oswald Milser, nobre e senhor de Schlossberg, aproximou-se do altar para receber a Eucaristia. Era uma pessoa muito poderosa na comunidade à época e reconhecidamente uma figura de má conduta e completamente alheia à religião católica. Ainda assim, não só adiantou-se para receber a comunhão aos pés do altar, como exigiu que o sacerdote a fizesse não com a hóstia comum oferecida aos comungantes, mas por meio da grande hóstia reservada apenas ao sacerdote celebrante. O sacerdote, refém do respeito e do temor humano, fez como lhe havia sido ordenado e compartilhou com o senhor de Schlossberg a sacrílega comunhão.


Assim que recebeu a Sagrada Hóstia, o piso de pedra começou a afundar sob os pés do homem, como se não tivesse resistência alguma. Ao mesmo tempo, a Hóstia começou a diluir-se em sangue na boca do ímpio comungante, e não podia ser consumida. Com a boca aberta e fluindo sangue, o infeliz tentou ainda agarrar-se à borda do altar no desespero da situação e, nesse momento, o sacerdote conseguiu recuperar a hóstia ensanguentada. Imediatamente, o piso retornou à sua condição estável natural e o nobre pôde recompor-se de pé, saindo do buraco do chão.


A igreja tornou-se, então, um grande centro de peregrinação religiosa na Áustria e foi ampliada entre 1423 e 1431. Em 1574,  foi construída uma capela dedicada exclusivamente à relíquia eucarística - chamada Capela do Sangue - que abriga atualmente a Hóstia milagrosa, e diversas pinturas que reproduzem o milagre. 


E essa Hóstia ensanguentada permanece incólume mesmo 640 anos após esse evento, encapsulada num ostensório guardado perto do altar da capela. Ainda hoje é possível também ver o grande buraco que se abriu no piso de pedra quando Oswald Milser afundou no chão, hoje recoberto por uma grade por questões de segurança.



Quanto ao homem destes fatos extraordinários, sua vida mudou radicalmente. Convertido e profundamente abalado pelos eventos, o senhor de Schlossberg abandonou a vida mundana e ingressou imediatamente no mosteiro de Stams onde, após dois anos de severas penitências, morreu de causas naturais.

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

O MILAGRE EUCARÍSTICO DE SIENA

Nas vésperas da festa da Assunção de Nossa Senhora, os sacerdotes de Siena estavam reunidos em vigília na catedral da cidade, na noite de 14 de agosto de 1730. Muitas hóstias haviam sido consagradas naqueles dias e estavam guardadas nas igrejas para o atendimento do grande número previsto de comunhões. E esse contexto serviu de oportunidade para alguns ladrões invadirem a basílica de São Francisco e roubarem uma âmbula de ouro contendo centenas de hóstias consagradas. 

(Basílica de São Francisco - Siena / Itália)

Constatado o sacrilégio na manhã seguinte, o roubo foi confirmado pelo achado da parte superior da âmbula perdida na rua, sem quaisquer resquícios da âmbula e das hóstias consagradas. Tristeza, e muitas orações de desagravo e na intenção da recuperação do tesouro eucarístico roubado. E eis que, três dias depois, uma pessoa notou alguma coisa branca destacando-se numa caixa de coleta numa igreja próxima à basílica de São Francisco e - surpresa! - ali se encontravam exatamente e na sua totalidade as 351 hóstias que haviam sido roubadas! 



Embora sujas e envoltas por teias de aranha, as 351 hóstias foram resgatadas uma a uma, recolocadas em outra âmbula e reconduzidas à basílica de São Francisco, onde foram objeto de maciças orações de desagravo e adoração, até que se deteriorassem por inteiro. Mas isto nunca aconteceu. As hóstias permaneceram e permanecem intactas até hoje, com o mesma aparência e frescor de hóstias recém-preparadas, como examinadas com todo o rigor em diversas ocasiões depois destes fatos. Embora muitas delas tenham sido consumidas ao longo do tempo, conservam-se atualmente na basílica de São Francisco em Siena 223 hóstias frescas que foram elaboradas e consagradas há quase 300 anos! 

sexta-feira, 25 de junho de 2021

O MILAGRE EUCARÍSTICO DE BOLSENA

(Bolsena / Itália - 1263)

No retorno de uma peregrinação a Roma, um sacerdote oriundo de Praga (de nome Pedro, segundo a tradição) parou na localidade de Bolsena, tradicional ponto de parada ao longo da Via Cassia (uma das mais antigas estradas romanas). Ali, celebrou uma Santa Missa na Igreja de Santa Cristina, que guarda os restos mortais da mártir e padroeira da cidade. Durante as palavras da consagração, o sangue começou a fluir de repente da hóstia consagrada, a escorrer pelas mãos do sacerdote e a respingar sobre as pedras de mármore do altar.

(Igreja de Santa Cristina, em Bolsena)

(altar do milagre na Igreja de Santa Cristina, em Bolsena)

Deslocando-se até Orvieto, cidade situada a menos de 20km de Bolsena, comunicou o milagre ao papa Papa Urbano IV, que estava ali em residência temporária. E fez uma confissão e um pedido de perdão: ele, mesmo sendo sacerdote, muitas vezes havia duvidado da real presença de Cristo nas hóstias consagradas. O papa, sabendo tratar-se de um sacerdote justo e piedoso, embora incrédulo, o absolveu, procedeu a uma investigação particular dos fatos junto à diocese local e, posteriormente, fez conduzir a hóstia e o corporal utilizado na Missa - pequeno pano quadrangular de linho sobre o qual se coloca o cálice para o ato de consagração - manchado de sangue, para imposição no altar da catedral de Orvieto.

(Catedral de Orvieto)

(Corporal do milagre de Bolsena - altar da Catedral de Orvieto)

(Manchas de sangue no corporal do milagre de Bolsena)

Motivado por este milagre eucarístico, o papa Urbano IV encarregou São Tomás de Aquino a compor o Próprio para uma Missa e um Ofício honrando a Sagrada Eucaristia e o Corpo e o Sangue de Cristo. Em agosto de 1264, pouco mais de um ano após o milagre, o Papa Urbano IV instituiu na Igreja a festa de Corpus Christi (bula papal Transiturus de Hoc Mundo). Em agosto de 1964, no 700º aniversário da instituição da festa de Corpus Christi, o Papa Paulo VI celebrou a Santa Missa diretamente do altar da Catedral de Orvieto, que guarda as relíquias do milagre eucarístico de Bolsena.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O DOM DE LER OS CORAÇÕES (CURA D'ARS)


Por volta de 1833, Marguerite Humbert, de Ecully, então Madame Fayolle, fez uma visita - a primeira em quinze anos - ao seu primo, Jean-Marie Vianney. Ela estava então sob os cuidados das Filhas da Providência, a pedido do próprio cura, particularmente porque ela tinha cuidado dele durante o tempo dos seus estudos. Ela relata o ocorrido: 'Pouco antes de partir [da cidadezinha de Ars], retornei à igreja [onde o cura atendia confissões] e me perguntei se deveria ou não confessar-me com o meu primo. Neste exato momento, alguém me chamou e me comunicou que o cura estava à minha espera. Fiquei muito surpresa porque ele não podia ver onde eu me encontrava ... Deixei Ars cheia de uma grande alegria interior'.

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Um dia, o servo de Deus estava ouvindo confissões na sacristia. O relato é de M. Oriol: 'De repente ele apareceu na entrada da sacristia e, dirigindo-se a mim, falou: 'Meu amigo, peça aquela senhora que está nos fundos da igreja para vir até aqui'. E me disse então como eu deveria reconhecê-la. Sem encontrar tal pessoa no local onde ele havia indicado, retornei e lhe comuniquei o fato. Ele respondeu então: 'Vá depressa ... Ela está passando na frente de tal casa [e a descreveu rapidamente para mim]. Eu corri e alcancei a senhora no lugar mencionado; ela estava indo embora, muito decepcionada por não ter podido confessar, porque não podia esperar mais. A pobre mulher, que por excessiva timidez tinha perdido a oportunidade de se confessar com o cura umas duas ou três vezes anteriormente, estava há oito dias em Ars sem conseguir uma nova oportunidade de se confessar. Agora o próprio santo havia ido buscá-la; mais do que isso, ele a conduziu desde a entrada da igreja até a Capela de São João Batista para receber a sua confissão. O santo sabia que a graça tem os seus momentos e que ela pode passar e não voltar mais. Neste caso em especial, ele literalmente apanhou essa alma com as asas'.

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No ano de 1853, um alegre bando de jovens partiu de Lyon para ir em peregrinação a Ars. Todos eles eram bons cristãos, exceto um, um velho homem que havia se juntado ao grupo 'simplesmente para agradar aos jovens'. Eles chegaram à aldeia por volta das três horas da tarde. 'Vocês podem ir à igreja, se quiserem', disse o incrédulo aos demais 'quanto a mim, vou pedir o jantar'. Ele caminhou alguns passos e parou: 'Não, pensando bem, eu vou com vocês, porque isto não deve demorar muito'. Em seguida, todo o grupo entrou na igreja. Neste momento, o Cura d'Ars saiu da sacristia e entrou na capela-mor. Ele se ajoelhou, levantou-se e virou-se; seus olhos estavam procurando alguém próximo à pia de água benta; finalmente, ele sinalizou para alguém se aproximar. 'É você que ele está chamando' disseram os jovens ao velho incrédulo. Este se dirigiu titubeante ao cura, no relato da freira que nos conta esta história. O Cura apertou as suas mãos, dizendo: 'Tem muito tempo que você não faz uma confissão?' 'Meu bom cura, tem uns trinta anos, eu acho...' 'Trinta anos, meu amigo?'... acho que são trinta e três anos ... e você a fez em tal lugar [mencionando o lugar]. 'Você está certo, senhor'. 'Ah, bem, então nós vamos fazer nossa confissão agora, não vamos?' O velho homem confessou mais tarde que ele estava tão surpreso com o convite que não se atreveu a dizer não; mas acrescentou: 'Eu experimentei uma sensação de conforto indescritível'. A confissão levou cerca de vinte minutos, e fez dele um novo homem.