TESOURO DE EXEMPLOS (II)

  

101. AS HORAS SÃO SÉCULOS...

São Paulo da Cruz, estando uma noite para se deitar, ouviu de repente um grande ruído perto de seu quarto. Crendo ser uma visita do demônio, que vinha, como de costume, perturbar o seu sono, aliás brevíssimo, deu-lhe ordem para retirar-se. Mas, repetindo-se por três vezes o estranho ruído, perguntou o que era e o que queria.

➖ 'Sou' - apresentou-se uma voz - 'a alma do sacerdote que faleceu esta tarde às seis e meia e venho comunicar-lhe que estou no Purgatório por não me haver emendado dos defeitos de que o senhor me repreendeu muitas vezes. Ó quanto sofro! Parece-me já ter passado mil anos neste oceano de fogo.
Comovido até às lágrimas, levantou-se o santo, olhou o relógio que marcava então seis e três quartos, e disse ao sacerdote:
➖ Como? Faz um quarto de hora que falecestes e parece-vos que já são mil anos?!
➖ Ó  como é longo o tempo no Purgatório!

E, pedindo com instância que o aliviasse, não se afastou enquanto o santo não lhe prometeu isso. Tomando sua disciplina de ferro, São Paulo da Cruz açoitou-se até sair sangue, orou e chorou pedindo a Deus que livrasse aquela alma de tão grandes tormentos. Não recebendo nenhum aviso do céu, como costumava acontecer, tomou de novo os seus rudes instrumentos de penitência, querendo fazer-se violência à divina Misericórdia. Como a resposta ainda não viesse, disse num transporte de confiança filial: 'Senhor, meu Deus, rogo-vos que livreis esta alma pelo amor que tendes à minha'.

Vencido pelos seus rogos, prometeu-lhe o Senhor que, no dia seguinte, antes do meio dia, a alma do sacerdote sairia do Purgatório. Apenas amanhecera, São Paulo subiu ao altar e celebrou com mais fervor do que nunca o Santo Sacrifício, oferecendo a Deus por aquela alma o precioso sangue de Jesus Cristo. Ó maravilha! No momento da comunhão, viu o santo passar diante de si, alegre e resplandecente de luz, a alma daquele sacerdote que subia ao Céu.

102. AS CRIANÇAS E O PURGATÓRIO

A. Santa Perpétua, que foi martirizada em Cartago no ano de 202, refere, em carta escrita de seu próprio punho no cárcere, que teve um sonho em que viu seu irmãozinho, falecido na idade de sete anos, encerrado num lugar escuro, coberto de lodo e devorado pela sede. Ao acordar, entendeu o que o sonho significava e passou o dia em oração pelo defunto. Depois de algumas noites tornou a vê-lo, mas desta vez junto a uma fonte em que bebia; as vestes estavam limpas e ele muito melhor e alegre. A santa ficou muito consolada com aquela visão e viu que aqueles sonhos foram mandados por Deus para o bem daquele menino.

B. São Pedro Damião ficou órfão muito criança e cresceu sob os cuidados de um seu irmão que o tratava com a maior crueldade, dando-lhe, além disso, muita pouca roupa e comida. Um dia achou no caminho uma moeda de prata, o que seria um tesouro para comida, roupa e sapatos. Estava a pensar no que faria com aquele achado, quando lhe veio à mente a lembrança de seus pais que tinham sido tão bons para com ele.
➖ Ah! - disse consigo - talvez estejam penando no Purgatório e eu os poderia aliviar agora.
Correu à igreja e entregou o dinheiro ao sacerdote, dizendo:
➖ Peço ao senhor que celebre missas por meus falecidos pais.
Desde aquela data todas as portas lhe foram abertas para ser sacerdote e um grande santo.

C. Santa Catarina de Bolonha foi certa vez favorecida com uma visão do Purgatório. Viu o fogo ardente que devorava o íntimo das almas e pareceu-lhe que o do inferno não poderia ser mais abrasador. Havia ali, ardendo nas chamas, tanta gente como folhas em uma floresta. Muitos haviam levado vida muito santa, mas ainda não estavam bastante puros para ver a Deus.

Viu ali, também, muitos meninos que não haviam cometido mais do que pecados veniais, como desafios, discussões com seus irmãos, desobediência aos pais... e as penas que sofriam por essas faltas leves causavam compaixão. Com isso compreendeu a gravidade mesmo do pecado venial que Deus, em sua justiça e santidade, castiga tão severamente.

103. MORRE A MÃE; A CRIANÇA, NÃO

Em 15 de junho de 1909, caiu um raio em Serebes (Hungria), atingindo a senhora Josefina Toth, que trazia no colo o seu filhinho. A mãe, fulminada pelo raio, morreu instantaneamente; a criancinha, porém, não sofreu coisa alguma.

104. DEVOÇÃO AOS SANTOS ANJOS

São Paulo da Cruz e São Francisco de Sales nunca começavam os seus sermões sem antes saudar os Anjos da Guarda de seus ouvintes, suplicando-lhes o seu auxílio. O venerável Baltasar Álvares, em suas viagens, ao entrar em um povoado ou em uma cidade, invocava os Anjos tutelares daqueles habitantes e pedia-lhes que o ajudassem a salvar as almas; e o seu apostolado foi sempre coroado de grande êxito.

Santo Afonso, bispo de Santa Águeda, nunca entrava em um quarto estranho sem saudar primeiro os Anjos da Guarda dos donos da casa. São Luís Maria Grignion de Montfort, missionário e grande devoto de Maria, costumava saudar os Santos Anjos das pessoas com quem se encontrava.

105. QUANTO SOFREM AS ALMAS

O verdadeiro e principal tormento é a privação da visão de Deus. Fala-se, porém, do fogo do purgatório como de uma pena semelhante à do inferno, com a diferença de que não é eterna. Num convento dos Estados Unidos duas religiosas, ligadas durante dez anos por uma santa amizade espiritual, procuraram ajudar-se a servir a Deus cada dia com maior perfeição.

Veio a falecer uma delas a quem chamavam a 'santa da casa'. Fizeram-se por ela os sufrágios costumeiros da comunidade e sua companheira não deixou de recomendar por sua alma de modo todo especial. Uma tarde, na mesma semana da morte, enquanto ceavam, sua amiga que pensava nela, creu ter ouvido estas palavras: 'Venho pedir-lhe três missas; crê você que tenha rezado muito por mim e que não estou sofrendo? Para que tenha uma ideia das minhas penas, vou tocá-la apenas com um dedo'.

No mesmo instante a religiosa sentiu-se tão terrivelmente queimada no joelho que lançou um grito agudíssimo. Toda a comunidade reagiu espantada; interrompeu-se a leitura das orações e todas as religiosas voltaram suas atenções para a Irmã. Interrogada, referiu à Superiora o que acabava de passar-se e viram, com efeito, no joelho da Irmã uma profunda queimadura.

Esse fato ocorreu em julho de 1869, e o periódico La Croix acrescentou que, a 9 de novembro de 1889,  a referida religiosa ainda estava viva e apresentava as cicatrizes da queimadura. As missas foram naturalmente celebradas o mais breve possível e a falecida não tornou mais a se manifestar.

106. ÁTILA E SÃO LEÃO

Assim como o Anjo protegeu a São Pedro, o primeiro papa, livrando-o das mãos de Herodes, assim cuidou também que o grande Papa São Leão não caísse nas mãos do mais feroz dos bárbaros: Átila, rei dos hunos. As hordas dos bárbaros avançavam por toda a Europa, arrasando cidades e levando os povos como escravos. Átila, com seus cem mil guerreiros, havia penetrado no norte da Itália e marchava para Roma, arrasando as cidades, arruinando as searas, roubando tudo quanto tinha algum valor e matando a todos os que se lhe opunham.

Parecia que toda a cristandade ia perecer. Deus, porém, pusera à frente de sua Igreja um homem que foi o martelo das heresias e o domador dos bárbaros, São Leão Magno. Era homem de grande ciência, visão clara, decisão pronta e segura, firmeza inquebrantável, constância em seus projetos e grande caridade. Se era notável como homem de seu século, não era o menos por suas virtudes cristãs; sem pretensões pessoais, todas as suas atividades eram consagradas a Deus, à Igreja e ao serviço dos ignorantes, extraviados, pobres e aflitos.

Assim foi que, quando o imperador Valentiniano III lhe manifestou que seus soldados eram incapazes de defender a Itália e Roma dos bárbaros que avançavam vitoriosos, não duvidou em oferecer a sua vida por suas ovelhas. O terror e o pânico que se apoderaram de Roma e de outras cidades da Itália eram indescritíveis. Ninguém senão Deus podia deter a inundação e as destruições dos bárbaros que já assomavam às portas. O Bom Pastor não faltou ao dever de defender as suas ovelhas.

Mandou oferecer orações ao Deus dos exércitos, suplicando-lhe que velasse por seus rebanhos e pelos tantos inocentes que iriam perecer sem defesa. Dirigindo-se à cidade de Mântua, onde entrara o chefe dos bárbaros, resolveu apresentar-se a ele para implorar misericórdia e paz. Ia revestido de suas vestes pontificais, tiara e báculo; e seu rosto, embora suplicante, apresentava a majestade do Vigário de Jesus Cristo. 

Átila não se impressionaria com essa vista, nem com palavras ou lágrimas; mas aconteceu qualquer coisa de sobrenatural. Dizem que, por detrás do Pontífice, apareceu ao bárbaro um Anjo, sem dúvida São Miguel, com rosto severo e celestial que, de espada em punho, ameaçava Átila se não atendesse as súplicas do venerando ancião. E o feroz conquistador, pela primeira vez, sentiu-se vencido e ordenou imediatamente que suas tropas abandonassem o caminho de Roma e tomassem outro rumo.

107. NÃO TERIA SIDO UM ANJO?

Pio IX (1846-1878), o grande papa da Imaculada, era filho do conde Mastai-Ferreti. Quando menino, costumava ajudar à missa, na capela doméstica dos seus pais. Um dia, estando ajoelhado no degrau do altar, notou que, do lado oposto, um vulto o chamava por sinais.

O menino teve medo de sair do seu lugar. Mas, como viu que o vulto insistia, cada vez mais, deixou o lugar e passou para o outro lado onde se achava aquele vulto. Naquele mesmo instante, desprendeu-se do teto uma grande estátua que caiu exatamente no lugar onde o coroinha, havia poucos segundos, estava ajoelhado. É que os Santos Anjos protegem as crianças de um modo maravilhoso.

108. INSPIRAÇÃO DO ANJO DA GUARDA

Em um dia de 1890, 31 crianças da escola de uma aldeia na Boêmia foram a passeio pelos campos vizinhos. Estando ali, desencadeou-se uma furiosa tempestade que as obrigou a se refugiarem debaixo de uma grande árvore até que cessassem a chuva e os raios.

De repente uma das meninas se sentiu impelida a sair daquele abrigo, gritando:
➖ Vamo-nos embora! - e pôs-se a correr.
Seguiram-na instintivamente todas as crianças. Apenas se haviam afastado um pouco, caiu um raio naquela árvore, causando enorme estrago. Os pais das crianças, gratos aos Santos Anjos, ergueram ali um grande cruzeiro para perpetuar a lembrança do acontecimento.

109. PERDOAR AOS INIMIGOS

João Gualberto era homem como outros. Trazia uma espada à cinta e costumava viver metido em brigas e desafios. Tinha um irmão a quem amava com toda a sua alma. Um dia, porém, um malvado matou o seu irmão. Gualberto conhecia muito bem o assassino, e daquele dia em diante procurava ocasião de varar-lhe o peito com a sua espada. Ele o havia jurado e assim o faria.

Era uma Sexta-feira Santa. João Gualberto montou a cavalo e saiu passear pelo campo. Foi andando até que se meteu num caminho estreito entre penhascos muito altos. Nesse momento, vê que vem ao seu encontro um viandante... fixa-o... conhece-o... e, veloz como um raio, salta de seu cavalo. Era o assassino de seu irmão. Ali o tinha diante de si; podia saciar seus desejos de vingança, e grita:
➖Canalha! assassino! Por Barrabás que agora mesmo morres em minhas mãos.

E, desembainhando a espada, lança-se sobre o outro. Nesse momento, o assassino, que vinha desarmado, prostra-lhe aos pés e, com voz angustiosa e com os braços em cruz, dirigia ele esta súplica:
➖ Irmão, hoje é Sexta-feira Santa; por amor de Cristo crucificado, perdoa-me!

O que se passou então no coração de Gualberto? Conteve-se; ergueu os olhos ao céu... olhou para a cruz gravada em sua espada. Pensou em Jesus Cristo que, do alto da cruz, perdoara aos seus crucificadores...
➖ Irmão - disse Gualberto ao assassino - por amor a Jesus Cristo eu te perdoo!

Despediram-se. O assassino afastou-se, arrependido e dando graças a Deus. Gualberto entrou numa capela que encontrou no caminho. Ajoelhou-se diante do Cristo que ali estava pregado na cruz. Tirou a espada, suspendeu-a aos pés daquela Vítima Divina e jurou aos pés da mesma deixar tudo e enveredar pelo caminho da santidade. E assim o fez e a Igreja comemora a sua santificação em 12 de julho.

110. FIRMEZA NA FÉ

Naquele tempo perdia-se em todas as libertinagens e fazia-se réu de todas as crueldades um dos reis mais perversos da história: Henrique VIII da Inglaterra. Era chanceler de seus reinos um homem de conduta irrepreensível: Tomás Moro. Quis o rei arrastá-lo pelos mesmos caminhos de dissolução e impiedade que seguia. O magnânimo chanceler, que era um católico de grande envergadura, resistiu com enérgica heroicidade. Por fim, o rei o depôs de seu cargo e o condenou à morte.

Com a coragem e a intrepidez dos mártires caminhava ele para o patíbulo, sereno e majestoso. Foi quando saiu ao seu encontro sua mulher, que, com lágrimas nos olhos, lhe pedia que renegasse a fé católica ou ao menos a dissimulasse. Respondeu-lhe o santo esposo:
➖ Luísa (assim se chamava a sua mulher), nem tu nem eu somos moços. Quantos anos pensas tu que ainda posso viver?
➖ Ao menos vinte anos, Tomás.
➖ Vinte anos! Vinte anos! Mulher estulta, por vinte anos de vida neste mundo, queres que eu perca a vida eterna e seja condenado eternamente?

Assim falou Tomás Moro, hoje canonizado e venerado sobre os altares. Está no céu, onde recebe e receberá por toda a eternidade a recompensa de sua firmeza na fé. E onde estará Henrique VIII, aquele rei crudelíssimo, que antes era católico e, depois, apostatou vergonhosamente, abraçando o protestantismo para viver na devassidão?

Santo Atanásio diz: 'Os santos que praticaram a virtude irão para a vida eterna; os pecadores, os que obraram mal, baixarão ao fogo eterno. Esta é a fé católica, e não poderá salvar-se quem não a guardar com fidelidade e firmeza até à morte'.

111. DESFILE DE PRESOS

Narram as crônicas do tempo que um vice-rei de Nápoles foi certo dia visitar uma prisão. Ordenou que, em um grande pátio, ficassem perfilados todos os presos. Momentos após ali estavam alinhados, como soldados, todos os reclusos daquele presídio. Que tipos! que caras! que olhares! que atitudes! Somente ver aquela gente impressionava. Quase todos levavam na fronte a marca dos crimes cometidos.

Apresentou-se o prudente e discreto vice-rei e começou a passá-los em revista. Um após outro todos tinham que desfilar diante dele. Passou o primeiro preso.
➖ Por que estás aqui? - perguntou o vice-rei.
➖ Senhor - respondeu o presidiário - por nada, por uma calúnia.
Passou o segundo preso.
➖ E tu, por que estás aqui? Que crime cometeste?
➖ Eu, crime? Não cometi crime nenhum.
Passou o terceiro preso.
➖ Vamos ver se encontro algum criminoso. Dize-me: por que estás aqui?
➖ Eu, senhor, porque me trouxeram, mas não fiz mal a ninguém.
E assim passaram quatro, vinte, cinquenta. Todos eram bons, inocentes. Cada um dizia mais ou menos o mesmo: não matei, não roubei, não desonrei, não fiz mal a ninguém. Estavam presos apesar de serem todos bons e virtuosos. A justiça humana era a única culpada.

Aconteceu, porém, passar por ele um preso que respondeu de maneira diferente de todos os outros. Era um moço. Manifestava nas faces a vergonha que lhe causava o achar-se naquele lugar. Apresentou-se diante do vice-rei, que lhe perguntou como aos demais:
➖ Por que estás aqui? Que crime cometeste?
➖ Senhor, respondeu o infeliz, baixando a cabeça; senhor, tenho cometido muitos. Estou onde devo estar. A justiça humana teve razão de me condenar; espero que me salve a misericórdia divina.

E, após este, foram desfilando todos os restantes; todos uns verdadeiros santos, pois não tinham derramado nem uma gota de sangue. Terminou o desfile. O vice-rei chamou aquele que havia confessado seus crimes, e disse:
➖ Amigo, pelo que vejo tu és o único mau, e os outros são bons. Para não que não os contaminem, sai depressa, vai para a rua!
E, voltando-se para os outros, acrescentou:
➖ Vós, porém, continuai aqui. Na rua há muitos pecadores e não convém que eles tornem a perder-vos com seus maus exemplos.

112. HEROÍSMO DE UMA FAMÍLIA

Foi nos primeiros dias da luta contra o comunismo na Espanha. O Exército da África levantara-se para salvar a Espanha das garras mortais do terrível inimigo. Num vilarejo de Navarra vivia um homem já idoso, pai de três filhos robustos e sãos de corpo e alma, como seu pai.
➖ Vou - disse ele à mulher e aos filhos - vou lutar por Deus e pela Espanha.
E pôs na cabeça a boina vermelha.
➖ E eu vou com o senhor - disse o filho mais velho.
➖ E eu também - acrescentou o segundo.
Duas boinas mais que adornaram as cabeças de dois soldados da Pátria. E os três cheios de santo entusiasmo marcharam para a guerra.

Chegou a hora da refeição. Na mesa só havia um prato preparado. A mãe e esposa sentou-se diante dele serena e grave. O último filho, que mal teria dezesseis anos, olhou admirado para a mãe.
➖Mãe, eu não como?
➖ Em minha casa - respondeu laconicamente aquela verdadeira espartana - não comem os covardes.
E o rapaz colocou na cabeça outra boina vermelha e foi atrás de seus irmãos e de seu pai para lutar e morrer com eles.

Até aqui a história é autêntica. Entra agora a lenda. Meses mais tarde regressavam ao lar o pai e os três filhos; voltavam alegres, cantando canções guerreiras, voltavam com as condecorações dos heróis. Não regressavam sós: um grupo de soldados os acompanhava.
Falou o último dos filhos, o mais entusiasmado:
➖ Mãe, aqui estamos por poucos dias. Tornaremos à guerra que ainda será longa. Lutaremos até o fim. Como vês, seguem-nos estes amigos que ontem eram milicianos vermelhos e hoje combatem por Deus e pela Espanha ao nosso lado. Renderam-se ao nosso heroísmo. Falamos-lhes de Deus e da nossa querida Espanha e os conquistamos para a Espanha e para Deus. Por esse ideal querem lutar até à morte. 
E aquela mãe de três heróis e esposa de um gigante, abraça-os a todos e fá-los sentar à mesa para servir-lhes o melhor que possuía. E termina a lenda, afirmando que jamais uma mulher teve uma alegria tão grande como aquela.

113. É DEUS QUEM ME FALA

Certamente já ouviste falar de Donosco Cortês. Foi um dos maiores e mais vigorosos pensadores do século XIX; o mais famoso orador espanhol do seu tempo, considerado o mestre do pensamento e a glória da eloquência parlamentar. Era embaixador da Espanha em Paris. Todos os domingos e dias de preceito abandonava o bulício daquela capital e ia assistir à missa na pobre igreja de uma aldeia vizinha. Ajoelhava-se no chão, rezava como um santo, ouvia com toda a atenção o santo sacrifício.

Depois do Evangelho, o vigário daquela paróquia voltava-se para os assistentes e fazia a sua prática ou homilia. Donoso Cortês era quem o ouvia com maior atenção e reverência.
➖ Donoso - dizia-lhe um amigo - se sabes mais que esse padre, se és maior orador do que ele, por que o ouves?
O grande Donoso respondeu:
➖ Pode ser que eu saiba mais e talvez possua mais eloquência; mas ele tem uma coisa que eu não tenho: é o representante da autoridade e da palavra de Deus. Quando ele fala, é Deus quem fala; e suas palavras sempre têm o segredo de comover-me e tornar-me melhor. E é isso que procuro.

A exemplo desse grande cristão, abandonai os cuidados da vida; deixai por algumas horas as ocupações deste mundo; correi à casa de Deus para ouvir a doutrina da salvação e para salvar a vossa alma!

114. O CORAÇÃO DE OURO

O moderno e famoso escritor Tihamér Toth narra a seguinte curiosidade. Havia em uma cidade (não revela o nome) um senhor cuja fé não devia ser lá muito profunda. Profundo, sim, e ridículo era o conceito que tinha das superstições. A todo o transe havia de levar consigo algum amuleto ou talismã. Pensava que somente assim podia ser feliz.

Entrou numa joalheria. Pôs-se a contemplar os diferentes talismãs usados pela gente supersticiosa de nossos dias: uma ferradurinha com diamantes, uma estrela de ouro, um corcundinha, um elefante de marfim e outros muitos. Contemplou-os demoradamente aquele senhor, mas nenhum daqueles objetos lhe agradou. Voltando-se para o joalheiro, disse:
➖ Não teria um coração de ouro? Creio que isso seria minha felicidade.
➖ Não tenho, respondeu o outro. Isso já não se usa, está fora de moda. Talvez em outra casa o senhor encontre.

E o homem percorreu pacientemente uma, duas, três casas. Os amuletos eram muitos e muito variados, mas todos os joalheiros lhe diziam a mesma coisa: o coração de ouro está fora de moda, já passou sua época. E, afinal, quem manda no comércio é a moda!
Desconsolado saía aquele senhor da última casa. Não encontrara o coração de ouro que lhe poderia trazer a felicidade...
➖Amigo - disse-lhe o dono da última casa, acompanhando-o até à porta - vá a uma casa de antiguidades e talvez lá encontre o coraçãozinho de ouro que procura.

E o homem lá se foi... Caro leitor, o coraçãozinho de ouro já não se usa, está fora de moda e, contudo, para seres feliz e para fazeres felizes aos outros só precisarias disso, que, desgraçadamente, não se encontra: um coração de ouro. Como seríamos felizes, como viveríamos em paz, se todos levássemos, aqui dentro do peito, um coração de ouro, um coração cheio de caridade para com Deus e para com o próximo...

115. O TIO PEDRO ASSISTE ÀS MISSÕES

O ano era 1909. Cedinho foi o missionário à pequenina igreja da vila. A porta ainda estava fechada; mas quem estava ali com a sua lanterninha na mão era o tio Pedro: homem muito conhecido em todo o município por sua fé robusta e sua vigorosa velhice. Entre o missionário e o bom roceiro travou-se logo uma animada conversa.
➖ Quantos anos tem, tio Pedro?
➖ Passei dos oitenta, 'seu' missionário.
➖ Tem assistido às santas missões?
➖ Os senhores já pregaram quatro nesta comarca. Assisti a todas; não perdi nem um sermão e não faltei a nenhum catecismo, porque sempre se aprende alguma coisa.
➖ Muito bem, tio Pedro, bravo; e sua casa, quanto dista daqui?
➖ Quase nada: uns dois quilômetros.
➖ E o senhor vem aqui todas as manhãs?
➖ Todas. Acendo a minha lanterninha e toco para a missão.
➖ Pois olhe, tio Pedro, não faça isso. O caminho é péssimo e o senhor já não é uma criança. Pode acontecer-lhe algum desastre, uma queda por exemplo, e ficamos sem o tio Pedro.
➖ Não se preocupe, 'seu' missionário. Quando saio de casa, digo ao meu Anjo da Guarda: 'Meu santo Anjo, cuida do tio Pedro, que já está velho, a fim de que não lhe aconteça nada'. E até hoje, graças ao meu Anjo, nada me aconteceu.
➖ Ótimo, tio Pedro; mas, seja como for, não venha. Já assistiu a quatro missões, fique em casa.

Ao ouvir essas palavras, tio Pedro ergueu-se, pôs-se de pé direitinho, e disse:
➖ Senhor Padre, não me diga isso nem por brincadeira. Das coisas de Deus não se deve perder nem uma migalha!
E, com efeito, não perdeu nenhuma migalha daquelas santas missões. Assistiu a todos os sermões com o fervor e a piedade de um santo. Ó se todos tivessem uma fé viva como o tio Pedro!

116. HISTÓRIA DE UMA PENEIRA

Um jovem abandonou o mundo e foi sepultar-se no deserto. Tinha ânsias de Deus. Para não pensar senão em Deus e viver somente para Nosso Senhor, encerrou-se numa cela solitária. Dali saía apenas uma vez por semana: ia ouvir a prática que um velho monge fazia àqueles solitários. 

Contam que um dia o jovem foi ter com o santo ancião e falou-lhe:
➖ Meu pai, só tenho um amor: o amor de Deus. Só tenho um desejo: o de o amar cada dia mais. Por isso deixei o mundo; por isso vim morar nestes desertos. Sou feliz em minha estreita celazinha. Encantam-me a oração e a meditação. Deixo o silêncio da minha cela somente para ouvi-lo cada semana. Meu pai, eu o ouço mas não sei o que será: parece-me que não tiro fruto de suas pregações. Não seria melhor que eu ficasse em minha cela consagrando o tempo à oração?

Respondeu o velho santo:
➖ Meu filho, não faças isso; assiste a minhas práticas; sempre farão muito bem ao teu espírito, embora pareça que não sirvam para a purificação de tua alma.

O jovem continuava duvidando. O velho monge calou-se. Em seguida, tomando uma peneira, deu-a ao noviço e disse:
➖ Toma, vai à fonte e traze-me a peneira cheia de água.
O jovem, obediente, foi. Passados alguns instantes, voltava com a peneira vazia.
➖ Meu pai - disse - a água se foi pelos buracos.
➖ Anda - insistiu o monge - volta à fonte e traze-me a peneira cheia de água.
Uma segunda vez foi o noviço. Encheu a peneira completamente. Voltou correndo em vão. Não ficou na peneira nem uma gota sequer.
O ancião sorriu. O obediente noviço corria de novo, enchia a peneira, e quando, de volta, chegava à cela do mestre, para dizer:
➖ Meu pai! Nem uma gota, nem uma...

O santo monge deu-lhe então esta maravilhosa lição:
➖ É verdade, filho, não me trouxeste a água, ela se vai pelos buracos, mas me lavaste a peneira...
O noviço compreendeu a lição: 'Vais aos sermões. Parece-te que não tiras proveito nenhum. Continua assistindo e, pouco a pouco, a tua alma estará purificada das vaidades e triunfará em teu coração o amor das coisas divinas'.

117. UM MONGE E A SUA CURIOSIDADE

Vivia um monge no silêncio de seu mosteiro. Era sábio e santo. Permitiu Deus que uma curiosidade perturbasse a paz de sua alma: 'Qual será atualmente no mundo' - perguntava-se - a mais santa das almas? 'E a mais sábia e mais feliz, qual será?' Estava no coro, às primeiras horas da manhã, orava e dirigia a Deus a mesma pergunta: 'Senhor, das almas que vivem agora neste mundo, qual será a mais santa, a mais sábia e a mais feliz?' Ouviu uma voz que lhe dizia: 'Vai ao pórtico da igreja e ali te dirão quais são'.

O monge pôs o capuz na cabeça, meteu as mãos nas largas mangas do hábito e atravessou os claustros silenciosos. Chegou ao pórtico. Um pobre ali estava. Passara a noite estendido num banco de pedra e naquele momento espreguiçava-se e benzia-se.
➖Bom dia, irmão - disse-lhe o monge.
➖Bom dia - respondeu o mendigo com rosto alegre e em tom de entusiasmo.
➖ Irmão - replicou o monge - pelo que vejo estás contente.
➖ Sempre estou contente.
➖ Sempre? Então és um homem feliz?
➖ Muito feliz - respondeu o humilde mendigo.
➖ Feliz? Não creio. Dize-me: Quando tens fome e pedes esmola e não recebes, és feliz?
➖ Sim, padre, sou feliz, porque penso que Deus, meu Pai, quer que eu passe um pouco de fome. Ele também passou. Mas Deus é muito bom para mim; nunca me falta um pedaço de pão.
➖ Dize-me - prosseguiu o monge - quando está nevando no inverno e tu, tremendo de frio, vais de porta em porta, como um passarinho que salta de um galho para outro, és feliz?
➖ Sim, padre, muito feliz, porque penso: é Deus, meu Pai, que quer que passe um pouco de frio, pois também Ele passou frio. Aliás nunca me falta um palheiro, onde passar a noite.

Estava o monge admirado. Contemplando-o de alto a baixo, disse:
➖ Tu me enganas; não és pobre.
Sorriu o mendigo e respondeu:
➖ Não, padre, eu não sou um pobre.
➖ Logo vi. Então, quem és?
➖ Padre - disse o outro - sou um rei que viajo incógnito por este mundo.
➖ Um rei? Um rei? E qual é o teu reino?
➖ Meu reino é o meu coração, onde mando sobre minhas paixões! Tenho, porém, um reino muito maior. Vê o senhor esse céu imenso? Vê o sol, as estrelas, o firmamento? Tudo isso é de Deus, meu Pai. Todos os dias ponho-me de joelhos muitas vezes e digo: 'Pai nosso, que estais no céus, como sois grande, como sois sábio, como sois poderoso! Não vos esqueçais deste pobre filho que anda por este mundo. Creia-me: Quando chegar a morte, despojarei destes andrajos e voarei para o céu, onde verei a Deus, meu Pai, e com Ele reinarei pelos séculos dos séculos...'

O monge não perguntou nada mais. Baixou a cabeça e voltou ao coro, convencido de ter encontrado o homem mais santo, mais sábio e mais feliz neste mundo.

118. FILHA, TEU PAI ESTÁ NO CÉU

Na vida de Santa Margarida Maria Alacoque lê-se um fato muito consolador. Sendo a santa a mestra das noviças, recebeu uma carta em que se comunicava a morte do pai de uma sua noviça e em que se pedia fosse transmitida a dolorosa notícia sem causar-lhe pena. A santa chamou a noviça e, com palavras de muito conforto, anunciou-lhe a morte do pai. Compreende-se a dor daquela filha.

Passado o primeiro instante de amargura, disse à mestra:
➖ Rogo-lhe, Madre, à senhora que é tão devota do Sagrado Coração de Jesus, que reze pela alma do meu querido pai.
A santa  rezou nessa intenção com todo fervor. Em seguida, toda contente, chamou a noviça e lhe disse:
➖ Minha querida filha, tenho boas notícias: teu pai já está no Céu; foi Jesus quem me disse.

A noviça, diante de tão inesperada notícia, exclamou:
➖Como assim? Meu pai, é verdade, era um bom cristão, mas estava longe de ser um santo!
➖ Dentro de três dias, respondeu a santa, a tua mãe virá lhe visitar: pergunte a ela o que fez o teu pai antes de morrer.

A mãe veio realmente em visita. A filha deu-lhe a consoladora notícia de que o pai estava no céu e depois indagou:
➖ Mãe, o que fez meu pai antes de morrer?
➖ Teu pai, minha filha, quando o padre lhe ofereceu o Santo Viático, viu, entre os que o acompanhavam, um homem que várias vezes o ofendera muito. Quando deu com os olhos nele, antes de tomar a santa comunhão, chamou-o para junto de si e o abraçou e beijou e, em presença de todos, perdoou-lhe de coração os graves danos e as ofensas que dele recebera. A seguir, recebeu contente o Santo Viático. Julgo por isso que, se teu pai já está no céu, é justamente porque, por amor de Deus e a exemplo de Jesus Cristo, perdoou a quem tanto o havia ofendido.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos', do Pe. Francisco Alves, 1958; com adaptações)