TESOURO DE EXEMPLOS (II)

  

101. AS HORAS SÃO SÉCULOS...

São Paulo da Cruz, estando uma noite para se deitar, ouviu de repente um grande ruído perto de seu quarto. Crendo ser uma visita do demônio, que vinha, como de costume, perturbar o seu sono, aliás brevíssimo, deu-lhe ordem para retirar-se. Mas, repetindo-se por três vezes o estranho ruído, perguntou o que era e o que queria.

➖ 'Sou' - apresentou-se uma voz - 'a alma do sacerdote que faleceu esta tarde às seis e meia e venho comunicar-lhe que estou no Purgatório por não me haver emendado dos defeitos de que o senhor me repreendeu muitas vezes. Ó quanto sofro! Parece-me já ter passado mil anos neste oceano de fogo.
Comovido até às lágrimas, levantou-se o santo, olhou o relógio que marcava então seis e três quartos, e disse ao sacerdote:
➖ Como? Faz um quarto de hora que falecestes e parece-vos que já são mil anos?!
➖ Ó  como é longo o tempo no Purgatório!

E, pedindo com instância que o aliviasse, não se afastou enquanto o santo não lhe prometeu isso. Tomando sua disciplina de ferro, São Paulo da Cruz açoitou-se até sair sangue, orou e chorou pedindo a Deus que livrasse aquela alma de tão grandes tormentos. Não recebendo nenhum aviso do céu, como costumava acontecer, tomou de novo os seus rudes instrumentos de penitência, querendo fazer-se violência à divina Misericórdia. Como a resposta ainda não viesse, disse num transporte de confiança filial: 'Senhor, meu Deus, rogo-vos que livreis esta alma pelo amor que tendes à minha'.

Vencido pelos seus rogos, prometeu-lhe o Senhor que, no dia seguinte, antes do meio dia, a alma do sacerdote sairia do Purgatório. Apenas amanhecera, São Paulo subiu ao altar e celebrou com mais fervor do que nunca o Santo Sacrifício, oferecendo a Deus por aquela alma o precioso sangue de Jesus Cristo. Ó maravilha! No momento da comunhão, viu o santo passar diante de si, alegre e resplandecente de luz, a alma daquele sacerdote que subia ao Céu.

102. AS CRIANÇAS E O PURGATÓRIO

A. Santa Perpétua, que foi martirizada em Cartago no ano de 202, refere, em carta escrita de seu próprio punho no cárcere, que teve um sonho em que viu seu irmãozinho, falecido na idade de sete anos, encerrado num lugar escuro, coberto de lodo e devorado pela sede. Ao acordar, entendeu o que o sonho significava e passou o dia em oração pelo defunto. Depois de algumas noites tornou a vê-lo, mas desta vez junto a uma fonte em que bebia; as vestes estavam limpas e ele muito melhor e alegre. A santa ficou muito consolada com aquela visão e viu que aqueles sonhos foram mandados por Deus para o bem daquele menino.

B. São Pedro Damião ficou órfão muito criança e cresceu sob os cuidados de um seu irmão que o tratava com a maior crueldade, dando-lhe, além disso, muita pouca roupa e comida. Um dia achou no caminho uma moeda de prata, o que seria um tesouro para comida, roupa e sapatos. Estava a pensar no que faria com aquele achado, quando lhe veio à mente a lembrança de seus pais que tinham sido tão bons para com ele.
➖ Ah! - disse consigo - talvez estejam penando no Purgatório e eu os poderia aliviar agora.
Correu à igreja e entregou o dinheiro ao sacerdote, dizendo:
➖ Peço ao senhor que celebre missas por meus falecidos pais.
Desde aquela data todas as portas lhe foram abertas para ser sacerdote e um grande santo.

C. Santa Catarina de Bolonha foi certa vez favorecida com uma visão do Purgatório. Viu o fogo ardente que devorava o íntimo das almas e pareceu-lhe que o do inferno não poderia ser mais abrasador. Havia ali, ardendo nas chamas, tanta gente como folhas em uma floresta. Muitos haviam levado vida muito santa, mas ainda não estavam bastante puros para ver a Deus.

Viu ali, também, muitos meninos que não haviam cometido mais do que pecados veniais, como desafios, discussões com seus irmãos, desobediência aos pais... e as penas que sofriam por essas faltas leves causavam compaixão. Com isso compreendeu a gravidade mesmo do pecado venial que Deus, em sua justiça e santidade, castiga tão severamente.

103. MORRE A MÃE; A CRIANÇA, NÃO

Em 15 de junho de 1909, caiu um raio em Serebes (Hungria), atingindo a senhora Josefina Toth, que trazia no colo o seu filhinho. A mãe, fulminada pelo raio, morreu instantaneamente; a criancinha, porém, não sofreu coisa alguma.

104. DEVOÇÃO AOS SANTOS ANJOS

São Paulo da Cruz e São Francisco de Sales nunca começavam os seus sermões sem antes saudar os Anjos da Guarda de seus ouvintes, suplicando-lhes o seu auxílio. O venerável Baltasar Álvares, em suas viagens, ao entrar em um povoado ou em uma cidade, invocava os Anjos tutelares daqueles habitantes e pedia-lhes que o ajudassem a salvar as almas; e o seu apostolado foi sempre coroado de grande êxito.

Santo Afonso, bispo de Santa Águeda, nunca entrava em um quarto estranho sem saudar primeiro os Anjos da Guarda dos donos da casa. São Luís Maria Grignion de Montfort, missionário e grande devoto de Maria, costumava saudar os Santos Anjos das pessoas com quem se encontrava.

105. QUANTO SOFREM AS ALMAS

O verdadeiro e principal tormento é a privação da visão de Deus. Fala-se, porém, do fogo do purgatório como de uma pena semelhante à do inferno, com a diferença de que não é eterna. Num convento dos Estados Unidos duas religiosas, ligadas durante dez anos por uma santa amizade espiritual, procuraram ajudar-se a servir a Deus cada dia com maior perfeição.

Veio a falecer uma delas a quem chamavam a 'santa da casa'. Fizeram-se por ela os sufrágios costumeiros da comunidade e sua companheira não deixou de recomendar por sua alma de modo todo especial. Uma tarde, na mesma semana da morte, enquanto ceavam, sua amiga que pensava nela, creu ter ouvido estas palavras: 'Venho pedir-lhe três missas; crê você que tenha rezado muito por mim e que não estou sofrendo? Para que tenha uma ideia das minhas penas, vou tocá-la apenas com um dedo'.

No mesmo instante a religiosa sentiu-se tão terrivelmente queimada no joelho que lançou um grito agudíssimo. Toda a comunidade reagiu espantada; interrompeu-se a leitura das orações e todas as religiosas voltaram suas atenções para a Irmã. Interrogada, referiu à Superiora o que acabava de passar-se e viram, com efeito, no joelho da Irmã uma profunda queimadura.

Esse fato ocorreu em julho de 1869, e o periódico La Croix acrescentou que, a 9 de novembro de 1889,  a referida religiosa ainda estava viva e apresentava as cicatrizes da queimadura. As missas foram naturalmente celebradas o mais breve possível e a falecida não tornou mais a se manifestar.

106. ÁTILA E SÃO LEÃO

Assim como o Anjo protegeu a São Pedro, o primeiro papa, livrando-o das mãos de Herodes, assim cuidou também que o grande Papa São Leão não caísse nas mãos do mais feroz dos bárbaros: Átila, rei dos hunos. As hordas dos bárbaros avançavam por toda a Europa, arrasando cidades e levando os povos como escravos. Átila, com seus cem mil guerreiros, havia penetrado no norte da Itália e marchava para Roma, arrasando as cidades, arruinando as searas, roubando tudo quanto tinha algum valor e matando a todos os que se lhe opunham.

Parecia que toda a cristandade ia perecer. Deus, porém, pusera à frente de sua Igreja um homem que foi o martelo das heresias e o domador dos bárbaros, São Leão Magno. Era homem de grande ciência, visão clara, decisão pronta e segura, firmeza inquebrantável, constância em seus projetos e grande caridade. Se era notável como homem de seu século, não era o menos por suas virtudes cristãs; sem pretensões pessoais, todas as suas atividades eram consagradas a Deus, à Igreja e ao serviço dos ignorantes, extraviados, pobres e aflitos.

Assim foi que, quando o imperador Valentiniano III lhe manifestou que seus soldados eram incapazes de defender a Itália e Roma dos bárbaros que avançavam vitoriosos, não duvidou em oferecer a sua vida por suas ovelhas. O terror e o pânico que se apoderaram de Roma e de outras cidades da Itália eram indescritíveis. Ninguém senão Deus podia deter a inundação e as destruições dos bárbaros que já assomavam às portas. O Bom Pastor não faltou ao dever de defender as suas ovelhas.

Mandou oferecer orações ao Deus dos exércitos, suplicando-lhe que velasse por seus rebanhos e pelos tantos inocentes que iriam perecer sem defesa. Dirigindo-se à cidade de Mântua, onde entrara o chefe dos bárbaros, resolveu apresentar-se a ele para implorar misericórdia e paz. Ia revestido de suas vestes pontificais, tiara e báculo; e seu rosto, embora suplicante, apresentava a majestade do Vigário de Jesus Cristo. 

Átila não se impressionaria com essa vista, nem com palavras ou lágrimas; mas aconteceu qualquer coisa de sobrenatural. Dizem que, por detrás do Pontífice, apareceu ao bárbaro um Anjo, sem dúvida São Miguel, com rosto severo e celestial que, de espada em punho, ameaçava Átila se não atendesse as súplicas do venerando ancião. E o feroz conquistador, pela primeira vez, sentiu-se vencido e ordenou imediatamente que suas tropas abandonassem o caminho de Roma e tomassem outro rumo.

107. NÃO TERIA SIDO UM ANJO?

Pio IX (1846-1878), o grande papa da Imaculada, era filho do conde Mastai-Ferreti. Quando menino, costumava ajudar à missa, na capela doméstica dos seus pais. Um dia, estando ajoelhado no degrau do altar, notou que, do lado oposto, um vulto o chamava por sinais.

O menino teve medo de sair do seu lugar. Mas, como viu que o vulto insistia, cada vez mais, deixou o lugar e passou para o outro lado onde se achava aquele vulto. Naquele mesmo instante, desprendeu-se do teto uma grande estátua que caiu exatamente no lugar onde o coroinha, havia poucos segundos, estava ajoelhado. É que os Santos Anjos protegem as crianças de um modo maravilhoso.

108. INSPIRAÇÃO DO ANJO DA GUARDA

Em um dia de 1890, 31 crianças da escola de uma aldeia na Boêmia foram a passeio pelos campos vizinhos. Estando ali, desencadeou-se uma furiosa tempestade que as obrigou a se refugiarem debaixo de uma grande árvore até que cessassem a chuva e os raios.

De repente uma das meninas se sentiu impelida a sair daquele abrigo, gritando:
➖ Vamo-nos embora! - e pôs-se a correr.
Seguiram-na instintivamente todas as crianças. Apenas se haviam afastado um pouco, caiu um raio naquela árvore, causando enorme estrago. Os pais das crianças, gratos aos Santos Anjos, ergueram ali um grande cruzeiro para perpetuar a lembrança do acontecimento.

109. PERDOAR AOS INIMIGOS

João Gualberto era homem como outros. Trazia uma espada à cinta e costumava viver metido em brigas e desafios. Tinha um irmão a quem amava com toda a sua alma. Um dia, porém, um malvado matou o seu irmão. Gualberto conhecia muito bem o assassino, e daquele dia em diante procurava ocasião de varar-lhe o peito com a sua espada. Ele o havia jurado e assim o faria.

Era uma Sexta-feira Santa. João Gualberto montou a cavalo e saiu passear pelo campo. Foi andando até que se meteu num caminho estreito entre penhascos muito altos. Nesse momento, vê que vem ao seu encontro um viandante... fixa-o... conhece-o... e, veloz como um raio, salta de seu cavalo. Era o assassino de seu irmão. Ali o tinha diante de si; podia saciar seus desejos de vingança, e grita:
➖Canalha! assassino! Por Barrabás que agora mesmo morres em minhas mãos.

E, desembainhando a espada, lança-se sobre o outro. Nesse momento, o assassino, que vinha desarmado, prostra-lhe aos pés e, com voz angustiosa e com os braços em cruz, dirigia ele esta súplica:
➖ Irmão, hoje é Sexta-feira Santa; por amor de Cristo crucificado, perdoa-me!

O que se passou então no coração de Gualberto? Conteve-se; ergueu os olhos ao céu... olhou para a cruz gravada em sua espada. Pensou em Jesus Cristo que, do alto da cruz, perdoara aos seus crucificadores...
➖ Irmão - disse Gualberto ao assassino - por amor a Jesus Cristo eu te perdoo!

Despediram-se. O assassino afastou-se, arrependido e dando graças a Deus. Gualberto entrou numa capela que encontrou no caminho. Ajoelhou-se diante do Cristo que ali estava pregado na cruz. Tirou a espada, suspendeu-a aos pés daquela Vítima Divina e jurou aos pés da mesma deixar tudo e enveredar pelo caminho da santidade. E assim o fez e a Igreja comemora a sua santificação em 12 de julho.

110. FIRMEZA NA FÉ

Naquele tempo perdia-se em todas as libertinagens e fazia-se réu de todas as crueldades um dos reis mais perversos da história: Henrique VIII da Inglaterra. Era chanceler de seus reinos um homem de conduta irrepreensível: Tomás Moro. Quis o rei arrastá-lo pelos mesmos caminhos de dissolução e impiedade que seguia. O magnânimo chanceler, que era um católico de grande envergadura, resistiu com enérgica heroicidade. Por fim, o rei o depôs de seu cargo e o condenou à morte.

Com a coragem e a intrepidez dos mártires caminhava ele para o patíbulo, sereno e majestoso. Foi quando saiu ao seu encontro sua mulher, que, com lágrimas nos olhos, lhe pedia que renegasse a fé católica ou ao menos a dissimulasse. Respondeu-lhe o santo esposo:
➖ Luísa (assim se chamava a sua mulher), nem tu nem eu somos moços. Quantos anos pensas tu que ainda posso viver?
➖ Ao menos vinte anos, Tomás.
➖ Vinte anos! Vinte anos! Mulher estulta, por vinte anos de vida neste mundo, queres que eu perca a vida eterna e seja condenado eternamente?

Assim falou Tomás Moro, hoje canonizado e venerado sobre os altares. Está no céu, onde recebe e receberá por toda a eternidade a recompensa de sua firmeza na fé. E onde estará Henrique VIII, aquele rei crudelíssimo, que antes era católico e, depois, apostatou vergonhosamente, abraçando o protestantismo para viver na devassidão?

Santo Atanásio diz: 'Os santos que praticaram a virtude irão para a vida eterna; os pecadores, os que obraram mal, baixarão ao fogo eterno. Esta é a fé católica, e não poderá salvar-se quem não a guardar com fidelidade e firmeza até à morte'.

111. DESFILE DE PRESOS

Narram as crônicas do tempo que um vice-rei de Nápoles foi certo dia visitar uma prisão. Ordenou que, em um grande pátio, ficassem perfilados todos os presos. Momentos após ali estavam alinhados, como soldados, todos os reclusos daquele presídio. Que tipos! que caras! que olhares! que atitudes! Somente ver aquela gente impressionava. Quase todos levavam na fronte a marca dos crimes cometidos.

Apresentou-se o prudente e discreto vice-rei e começou a passá-los em revista. Um após outro todos tinham que desfilar diante dele. Passou o primeiro preso.
➖ Por que estás aqui? - perguntou o vice-rei.
➖ Senhor - respondeu o presidiário - por nada, por uma calúnia.
Passou o segundo preso.
➖ E tu, por que estás aqui? Que crime cometeste?
➖ Eu, crime? Não cometi crime nenhum.
Passou o terceiro preso.
➖ Vamos ver se encontro algum criminoso. Dize-me: por que estás aqui?
➖ Eu, senhor, porque me trouxeram, mas não fiz mal a ninguém.
E assim passaram quatro, vinte, cinquenta. Todos eram bons, inocentes. Cada um dizia mais ou menos o mesmo: não matei, não roubei, não desonrei, não fiz mal a ninguém. Estavam presos apesar de serem todos bons e virtuosos. A justiça humana era a única culpada.

Aconteceu, porém, passar por ele um preso que respondeu de maneira diferente de todos os outros. Era um moço. Manifestava nas faces a vergonha que lhe causava o achar-se naquele lugar. Apresentou-se diante do vice-rei, que lhe perguntou como aos demais:
➖ Por que estás aqui? Que crime cometeste?
➖ Senhor, respondeu o infeliz, baixando a cabeça; senhor, tenho cometido muitos. Estou onde devo estar. A justiça humana teve razão de me condenar; espero que me salve a misericórdia divina.

E, após este, foram desfilando todos os restantes; todos uns verdadeiros santos, pois não tinham derramado nem uma gota de sangue. Terminou o desfile. O vice-rei chamou aquele que havia confessado seus crimes, e disse:
➖ Amigo, pelo que vejo tu és o único mau, e os outros são bons. Para não que não os contaminem, sai depressa, vai para a rua!
E, voltando-se para os outros, acrescentou:
➖ Vós, porém, continuai aqui. Na rua há muitos pecadores e não convém que eles tornem a perder-vos com seus maus exemplos.

112. HEROÍSMO DE UMA FAMÍLIA

Foi nos primeiros dias da luta contra o comunismo na Espanha. O Exército da África levantara-se para salvar a Espanha das garras mortais do terrível inimigo. Num vilarejo de Navarra vivia um homem já idoso, pai de três filhos robustos e sãos de corpo e alma, como seu pai.
➖ Vou - disse ele à mulher e aos filhos - vou lutar por Deus e pela Espanha.
E pôs na cabeça a boina vermelha.
➖ E eu vou com o senhor - disse o filho mais velho.
➖ E eu também - acrescentou o segundo.
Duas boinas mais que adornaram as cabeças de dois soldados da Pátria. E os três cheios de santo entusiasmo marcharam para a guerra.

Chegou a hora da refeição. Na mesa só havia um prato preparado. A mãe e esposa sentou-se diante dele serena e grave. O último filho, que mal teria dezesseis anos, olhou admirado para a mãe.
➖Mãe, eu não como?
➖ Em minha casa - respondeu laconicamente aquela verdadeira espartana - não comem os covardes.
E o rapaz colocou na cabeça outra boina vermelha e foi atrás de seus irmãos e de seu pai para lutar e morrer com eles.

Até aqui a história é autêntica. Entra agora a lenda. Meses mais tarde regressavam ao lar o pai e os três filhos; voltavam alegres, cantando canções guerreiras, voltavam com as condecorações dos heróis. Não regressavam sós: um grupo de soldados os acompanhava.
Falou o último dos filhos, o mais entusiasmado:
➖ Mãe, aqui estamos por poucos dias. Tornaremos à guerra que ainda será longa. Lutaremos até o fim. Como vês, seguem-nos estes amigos que ontem eram milicianos vermelhos e hoje combatem por Deus e pela Espanha ao nosso lado. Renderam-se ao nosso heroísmo. Falamos-lhes de Deus e da nossa querida Espanha e os conquistamos para a Espanha e para Deus. Por esse ideal querem lutar até à morte. 
E aquela mãe de três heróis e esposa de um gigante, abraça-os a todos e fá-los sentar à mesa para servir-lhes o melhor que possuía. E termina a lenda, afirmando que jamais uma mulher teve uma alegria tão grande como aquela.

113. É DEUS QUEM ME FALA

Certamente já ouviste falar de Donosco Cortês. Foi um dos maiores e mais vigorosos pensadores do século XIX; o mais famoso orador espanhol do seu tempo, considerado o mestre do pensamento e a glória da eloquência parlamentar. Era embaixador da Espanha em Paris. Todos os domingos e dias de preceito abandonava o bulício daquela capital e ia assistir à missa na pobre igreja de uma aldeia vizinha. Ajoelhava-se no chão, rezava como um santo, ouvia com toda a atenção o santo sacrifício.

Depois do Evangelho, o vigário daquela paróquia voltava-se para os assistentes e fazia a sua prática ou homilia. Donoso Cortês era quem o ouvia com maior atenção e reverência.
➖ Donoso - dizia-lhe um amigo - se sabes mais que esse padre, se és maior orador do que ele, por que o ouves?
O grande Donoso respondeu:
➖ Pode ser que eu saiba mais e talvez possua mais eloquência; mas ele tem uma coisa que eu não tenho: é o representante da autoridade e da palavra de Deus. Quando ele fala, é Deus quem fala; e suas palavras sempre têm o segredo de comover-me e tornar-me melhor. E é isso que procuro.

A exemplo desse grande cristão, abandonai os cuidados da vida; deixai por algumas horas as ocupações deste mundo; correi à casa de Deus para ouvir a doutrina da salvação e para salvar a vossa alma!

114. O CORAÇÃO DE OURO

O moderno e famoso escritor Tihamér Toth narra a seguinte curiosidade. Havia em uma cidade (não revela o nome) um senhor cuja fé não devia ser lá muito profunda. Profundo, sim, e ridículo era o conceito que tinha das superstições. A todo o transe havia de levar consigo algum amuleto ou talismã. Pensava que somente assim podia ser feliz.

Entrou numa joalheria. Pôs-se a contemplar os diferentes talismãs usados pela gente supersticiosa de nossos dias: uma ferradurinha com diamantes, uma estrela de ouro, um corcundinha, um elefante de marfim e outros muitos. Contemplou-os demoradamente aquele senhor, mas nenhum daqueles objetos lhe agradou. Voltando-se para o joalheiro, disse:
➖ Não teria um coração de ouro? Creio que isso seria minha felicidade.
➖ Não tenho, respondeu o outro. Isso já não se usa, está fora de moda. Talvez em outra casa o senhor encontre.

E o homem percorreu pacientemente uma, duas, três casas. Os amuletos eram muitos e muito variados, mas todos os joalheiros lhe diziam a mesma coisa: o coração de ouro está fora de moda, já passou sua época. E, afinal, quem manda no comércio é a moda!
Desconsolado saía aquele senhor da última casa. Não encontrara o coração de ouro que lhe poderia trazer a felicidade...
➖Amigo - disse-lhe o dono da última casa, acompanhando-o até à porta - vá a uma casa de antiguidades e talvez lá encontre o coraçãozinho de ouro que procura.

E o homem lá se foi... Caro leitor, o coraçãozinho de ouro já não se usa, está fora de moda e, contudo, para seres feliz e para fazeres felizes aos outros só precisarias disso, que, desgraçadamente, não se encontra: um coração de ouro. Como seríamos felizes, como viveríamos em paz, se todos levássemos, aqui dentro do peito, um coração de ouro, um coração cheio de caridade para com Deus e para com o próximo...

115. O TIO PEDRO ASSISTE ÀS MISSÕES

O ano era 1909. Cedinho foi o missionário à pequenina igreja da vila. A porta ainda estava fechada; mas quem estava ali com a sua lanterninha na mão era o tio Pedro: homem muito conhecido em todo o município por sua fé robusta e sua vigorosa velhice. Entre o missionário e o bom roceiro travou-se logo uma animada conversa.
➖ Quantos anos tem, tio Pedro?
➖ Passei dos oitenta, 'seu' missionário.
➖ Tem assistido às santas missões?
➖ Os senhores já pregaram quatro nesta comarca. Assisti a todas; não perdi nem um sermão e não faltei a nenhum catecismo, porque sempre se aprende alguma coisa.
➖ Muito bem, tio Pedro, bravo; e sua casa, quanto dista daqui?
➖ Quase nada: uns dois quilômetros.
➖ E o senhor vem aqui todas as manhãs?
➖ Todas. Acendo a minha lanterninha e toco para a missão.
➖ Pois olhe, tio Pedro, não faça isso. O caminho é péssimo e o senhor já não é uma criança. Pode acontecer-lhe algum desastre, uma queda por exemplo, e ficamos sem o tio Pedro.
➖ Não se preocupe, 'seu' missionário. Quando saio de casa, digo ao meu Anjo da Guarda: 'Meu santo Anjo, cuida do tio Pedro, que já está velho, a fim de que não lhe aconteça nada'. E até hoje, graças ao meu Anjo, nada me aconteceu.
➖ Ótimo, tio Pedro; mas, seja como for, não venha. Já assistiu a quatro missões, fique em casa.

Ao ouvir essas palavras, tio Pedro ergueu-se, pôs-se de pé direitinho, e disse:
➖ Senhor Padre, não me diga isso nem por brincadeira. Das coisas de Deus não se deve perder nem uma migalha!
E, com efeito, não perdeu nenhuma migalha daquelas santas missões. Assistiu a todos os sermões com o fervor e a piedade de um santo. Ó se todos tivessem uma fé viva como o tio Pedro!

116. HISTÓRIA DE UMA PENEIRA

Um jovem abandonou o mundo e foi sepultar-se no deserto. Tinha ânsias de Deus. Para não pensar senão em Deus e viver somente para Nosso Senhor, encerrou-se numa cela solitária. Dali saía apenas uma vez por semana: ia ouvir a prática que um velho monge fazia àqueles solitários. 

Contam que um dia o jovem foi ter com o santo ancião e falou-lhe:
➖ Meu pai, só tenho um amor: o amor de Deus. Só tenho um desejo: o de o amar cada dia mais. Por isso deixei o mundo; por isso vim morar nestes desertos. Sou feliz em minha estreita celazinha. Encantam-me a oração e a meditação. Deixo o silêncio da minha cela somente para ouvi-lo cada semana. Meu pai, eu o ouço mas não sei o que será: parece-me que não tiro fruto de suas pregações. Não seria melhor que eu ficasse em minha cela consagrando o tempo à oração?

Respondeu o velho santo:
➖ Meu filho, não faças isso; assiste a minhas práticas; sempre farão muito bem ao teu espírito, embora pareça que não sirvam para a purificação de tua alma.

O jovem continuava duvidando. O velho monge calou-se. Em seguida, tomando uma peneira, deu-a ao noviço e disse:
➖ Toma, vai à fonte e traze-me a peneira cheia de água.
O jovem, obediente, foi. Passados alguns instantes, voltava com a peneira vazia.
➖ Meu pai - disse - a água se foi pelos buracos.
➖ Anda - insistiu o monge - volta à fonte e traze-me a peneira cheia de água.
Uma segunda vez foi o noviço. Encheu a peneira completamente. Voltou correndo em vão. Não ficou na peneira nem uma gota sequer.
O ancião sorriu. O obediente noviço corria de novo, enchia a peneira, e quando, de volta, chegava à cela do mestre, para dizer:
➖ Meu pai! Nem uma gota, nem uma...

O santo monge deu-lhe então esta maravilhosa lição:
➖ É verdade, filho, não me trouxeste a água, ela se vai pelos buracos, mas me lavaste a peneira...
O noviço compreendeu a lição: 'Vais aos sermões. Parece-te que não tiras proveito nenhum. Continua assistindo e, pouco a pouco, a tua alma estará purificada das vaidades e triunfará em teu coração o amor das coisas divinas'.

117. UM MONGE E A SUA CURIOSIDADE

Vivia um monge no silêncio de seu mosteiro. Era sábio e santo. Permitiu Deus que uma curiosidade perturbasse a paz de sua alma: 'Qual será atualmente no mundo' - perguntava-se - a mais santa das almas? 'E a mais sábia e mais feliz, qual será?' Estava no coro, às primeiras horas da manhã, orava e dirigia a Deus a mesma pergunta: 'Senhor, das almas que vivem agora neste mundo, qual será a mais santa, a mais sábia e a mais feliz?' Ouviu uma voz que lhe dizia: 'Vai ao pórtico da igreja e ali te dirão quais são'.

O monge pôs o capuz na cabeça, meteu as mãos nas largas mangas do hábito e atravessou os claustros silenciosos. Chegou ao pórtico. Um pobre ali estava. Passara a noite estendido num banco de pedra e naquele momento espreguiçava-se e benzia-se.
➖Bom dia, irmão - disse-lhe o monge.
➖Bom dia - respondeu o mendigo com rosto alegre e em tom de entusiasmo.
➖ Irmão - replicou o monge - pelo que vejo estás contente.
➖ Sempre estou contente.
➖ Sempre? Então és um homem feliz?
➖ Muito feliz - respondeu o humilde mendigo.
➖ Feliz? Não creio. Dize-me: Quando tens fome e pedes esmola e não recebes, és feliz?
➖ Sim, padre, sou feliz, porque penso que Deus, meu Pai, quer que eu passe um pouco de fome. Ele também passou. Mas Deus é muito bom para mim; nunca me falta um pedaço de pão.
➖ Dize-me - prosseguiu o monge - quando está nevando no inverno e tu, tremendo de frio, vais de porta em porta, como um passarinho que salta de um galho para outro, és feliz?
➖ Sim, padre, muito feliz, porque penso: é Deus, meu Pai, que quer que passe um pouco de frio, pois também Ele passou frio. Aliás nunca me falta um palheiro, onde passar a noite.

Estava o monge admirado. Contemplando-o de alto a baixo, disse:
➖ Tu me enganas; não és pobre.
Sorriu o mendigo e respondeu:
➖ Não, padre, eu não sou um pobre.
➖ Logo vi. Então, quem és?
➖ Padre - disse o outro - sou um rei que viajo incógnito por este mundo.
➖ Um rei? Um rei? E qual é o teu reino?
➖ Meu reino é o meu coração, onde mando sobre minhas paixões! Tenho, porém, um reino muito maior. Vê o senhor esse céu imenso? Vê o sol, as estrelas, o firmamento? Tudo isso é de Deus, meu Pai. Todos os dias ponho-me de joelhos muitas vezes e digo: 'Pai nosso, que estais no céus, como sois grande, como sois sábio, como sois poderoso! Não vos esqueçais deste pobre filho que anda por este mundo. Creia-me: Quando chegar a morte, despojarei destes andrajos e voarei para o céu, onde verei a Deus, meu Pai, e com Ele reinarei pelos séculos dos séculos...'

O monge não perguntou nada mais. Baixou a cabeça e voltou ao coro, convencido de ter encontrado o homem mais santo, mais sábio e mais feliz neste mundo.

118. FILHA, TEU PAI ESTÁ NO CÉU

Na vida de Santa Margarida Maria Alacoque lê-se um fato muito consolador. Sendo a santa a mestra das noviças, recebeu uma carta em que se comunicava a morte do pai de uma sua noviça e em que se pedia fosse transmitida a dolorosa notícia sem causar-lhe pena. A santa chamou a noviça e, com palavras de muito conforto, anunciou-lhe a morte do pai. Compreende-se a dor daquela filha.

Passado o primeiro instante de amargura, disse à mestra:
➖ Rogo-lhe, Madre, à senhora que é tão devota do Sagrado Coração de Jesus, que reze pela alma do meu querido pai.
A santa  rezou nessa intenção com todo fervor. Em seguida, toda contente, chamou a noviça e lhe disse:
➖ Minha querida filha, tenho boas notícias: teu pai já está no Céu; foi Jesus quem me disse.

A noviça, diante de tão inesperada notícia, exclamou:
➖Como assim? Meu pai, é verdade, era um bom cristão, mas estava longe de ser um santo!
➖ Dentro de três dias, respondeu a santa, a tua mãe virá lhe visitar: pergunte a ela o que fez o teu pai antes de morrer.

A mãe veio realmente em visita. A filha deu-lhe a consoladora notícia de que o pai estava no céu e depois indagou:
➖ Mãe, o que fez meu pai antes de morrer?
➖ Teu pai, minha filha, quando o padre lhe ofereceu o Santo Viático, viu, entre os que o acompanhavam, um homem que várias vezes o ofendera muito. Quando deu com os olhos nele, antes de tomar a santa comunhão, chamou-o para junto de si e o abraçou e beijou e, em presença de todos, perdoou-lhe de coração os graves danos e as ofensas que dele recebera. A seguir, recebeu contente o Santo Viático. Julgo por isso que, se teu pai já está no céu, é justamente porque, por amor de Deus e a exemplo de Jesus Cristo, perdoou a quem tanto o havia ofendido.

119. O CONSOLADOR DOS QUE SOFREM

Lembremos o exemplo daquela gloriosa mártir francesa, Santa Joana d'Arc. Pôs-se à frente das tropas de sua pátria e as conduziu de vitória em vitória. À frente dos exércitos vencedores, entrou pelas portas da cidade de Reims e ali foi ungido, consagrado e proclamado Carlos VII, o verdadeiro rei de França.

Algum tempo depois, aquela valorosa heroína caiu em poder dos ingleses, seus inimigos, e foi condenada à morte. Ergueu-se o patíbulo no meio da cidade de Ruão, onde se ajuntou enorme multidão. Serena, com a serenidade da justiça, e formosa com a formosura da inocência, subiu Joana as escadas da morte e amarraram-na a um poste de ferro. Momentos depois, no meio de um imponente silêncio, o algoz põs fogo à lenha que a circundava e as chamas vorazes subiram e alcançaram os seus vestidos. 

Ardia aquela carne virginal. Em frente dela, estava um frade com um crucifixo na mão.
➖ Padre - dizia-lhe a mártir - levantai-o um pouco; quero vê-lo...
Seus olhares pregavam-se naquele divino Crucificado e uma força divina punha em suas faces e beleza do amor...
➖ Mais lenha - diziam os algozes - mais lenha!

E atiravam na fogueira feixes de lenha. As chamas envolviam a mártir por todos os lados e a carne ardia como vítima de santidade. Ela gritava com ânsias ainda maiores: 'Padre, levantai-o mais alto, mais alto, que não o vejo'. E o frade atou o Cristo a um pau e levantou-o bem alto, acima das chamas que formavam uma fogueira gigantesca.

E Joana rezava e olhava para o seu Deus crucificado e dizia: 'Jesus! Jesus!' E caiu morta, quase convertida em cinzas no meio daquelas horríveis chamas. A vista desse Deus crucificado de tal modo consola as vítimas da dor, que Santa Madalena de Pazzi dizia, louca de amor: 'Senhor, sofrer e não morrer!' Sim, olhai para o céu: ali se enxugarão as vossas lágrimas; ali está o reino da felicidade e do amor.

120. SOU UM ASSASSINO! SOU UM ASSASSINO!

Dia inesquecível naquele colégio! Era a festa de Nossa Senhora que se venerava na igreja e, ao mesmo tempo, a festa do Padre Diretor. Felicidade, alegria, entusiasmo por toda parte. Pela manhã, comunhão geral; às dez, missa soleníssima com sermão; à tarde, esplêndida procissão. Como rezavam! Como cantavam aqueles alunos! Que dia formoso! Quem poderia imaginar o desenlace trágico que iria acontecer!

Às seis da tarde haveria uma representação teatral, em que se levaria ao palco a peça 'A morte de Garcia Moreno'. Meia hora antes que soasse a sineta para aquela festa, dois rapazes de uns quinze anos entraram num quarto contíguo ao cenário. Ali estava sobre a mesa um revólver. Com ele iam disparar pela janela, quando no palco se representasse a pantomima de se disparar o tiro em Garcia Moreno. 

Um dos rapazes, precisamente o que ia fazer o papel de assassino no palco, toma o revólver e diz ao seu amigo:
➖ Toma posição para veres como te vou apontar no palco.
O outro, que ia fazer o papel de Garcia Moreno, a nobre vítima, apruma-se com energia e diz:
➖ Atira, traidor!
O amigo aperta o gatilho, soa um disparo, sai uma bala que se enterra na cabeça do desventurado rapaz, que cai prontamente, derramando um rio de sangue pela ferida.

O inocente assassino atira-se sobre o ferido, lançando gritos de dor.
➖ Amigo, o que eu fiz? Eu te matei, eu te matei. Foi sem querer. Perdoa-me. Não, amigo, eu não queria te matar. Amigo, levanta-te... não, não morras!
E, tirando o lenço, procurava estancar o sangue. Mas era inútil; o ferido não se movia.
➖ Amigo - continuava gritando - levanta-te, não morras... não queria matar-te... perdoa-me.
E pegava-o e levantava-o um pouco, mas não podia com ele. Ensopava-se naquele sangue.
➖ Morreu - gritava - morreu; eu o matei; sou um assassino! ai! sou um assassino!

Entretanto, os outros alunos estavam nos pátios do colégio, em conversa animada à espera do som da sineta. De repente ouvem gritos, olham... Lá, no fundo do pátio, aparece o rapaz todo cheio de sangue. Levantava os braços e gritava como desesperado, correndo de um lado para outro:
➖ Eu o matei! Sou um assassino!
E corria sem rumo nem destino, como um louco.

Por nossos pecados somos também assassinos. Por nossos pecados sofre e morre Jesus. Nossos sacrilégios, impurezas e profanações são os punhais que cravamos no coração de Nosso Senhor. Somos assassinos! Com que grande, imensa e infinita dor deveríamos chegar ao confessionário. E que santa seria então a nossa confissão!

121. DEUS RECOMPENSA OS SACRIFÍCIOS

Os sacrifícios escolhidos voluntariamente fazem que Deus seja generoso e bom para conosco. Os pequenos presentes que lhe oferecemos espontaneamente exercem grande e irresistível poder sobre Ele. Forçado então pela bondade do seu coração, Deus, que não se deixa vencer em generosidade, não se cansa de cumular de bênçãos aqueles que se mostram generosos para com Ele. Dou, a propósito o seguinte exemplo.
 
Num colégio de Friburgo, na Suíça, achava-se, poucos anos atrás, uma menina que fazia extraordinários progressos nos estudos, e sentia-se feliz. Certo dia a superiora do colégio recebeu uma carta do pai da criança, comunicando-lhe que, por dificuldades financeiras, não lhe era possível manter a filha no colégio por mais tempo.

O que fez a superiora? Mandou chamar a menina e lhe disse:
➖ Minha filha, uma notícia bem desagradável. Teu pai acaba de escrever-me que se acha em grandes dificuldades e que talvez seja obrigado a retirar-te do colégio.
A menina, muito aflita, pôs-se a chorar e dizer:
➖ Madre, o que será de mim? Ajudai-me, Madre, ajudai-me! Dizei-me o que devo fazer.
➖ Minha filha - disse a superiora muito comovida - tu podes modificar tudo isso. Sabes que dentro de algumas semanas teremos o Santo Natal; sabes, igualmente, que até lá temos todos os dias de devoção ao Menino Jesus, não é?
➖ Sim, Madre...
➖ Pois bem; faze um fervoroso pedido diariamente ao Menino Jesus, para que Ele te conserve aqui e oferece-lhe alguns pequenos sacrifícios. Verás que Jesus não rejeitará os teus pedidos.
➖ Sim, Madre, farei tudo para que Jesus me ouça, e peço também as vossas orações.

A menina, que tinha grande desejo de continuar os seus estudos na companhia das Irmãs, cheia de confiança, sentou-se e escreveu ao Menino Jesus uma cartinha. Prometia não só orações fervorosas, mas fazia também o propósito de, por amor de Jesus, abster-se, todos os dias até o Natal, de queijo e frutas, de que gostava muito. E tudo isso para que Deus socorresse o seu querido pai e ela pudesse continuar no colégio.

No dia do Natal achou a superiora debaixo da imagem do Menino Jesus a cartinha da menina. Leu-a e ficou profundamente comovida. Dois dias depois chegava uma carta do pai, que, entre outras coisas, dizia: 'Madre, não sei como agradecer a Deus; de modo prodigioso e inesperado veio o auxílio do céu. Minha filha pode continuar estudando aí...' Podemos imaginar a alegria de ambas, da aluna e da Superiora, vendo que a sua confiança em Deus não falhara.

122. OITO CADÁVERES!

Há homens, que parecem feras. Entre os comunistas vermelhos há alguns desses homens. Foi no tempo do Movimento Nacional, que libertou a Espanha das garras do comunismo. O que vamos narrar passou-se perto de Cordoba. Triunfaram ali, desde os primeiros instantes, as hordas comunistas. Saíram como saem as feras de seus covis e, em poucas horas, mais de cem cadáveres de nobres e cristãos jaziam por terra junto aos muros do cemitério.

Enfureceram-se principalmente contra uma família de fé arraigada, de coração generoso e de fortuna regular. Jamais negaram os direitos dos operários. Jamais um pobre bateu às portas de sua casa e dali foi despedido sem auxílio. O pai, os filhos, as filhas, todos naquela numerosa família se distinguiam pela firmeza de suas crenças católicas.

➖ 'Agora, estes!' - bradaram aquelas feras humanas. E nadando em sangue, caiu o velho pai, homem fidalgo e distinto.. E nadando em sangue, caíram três filhos seus, jovens na flor da idade e nadando em sangue, caíram também dois genros, que eram o encanto de suas esposas e o orgulho da religião. Havia ainda outros dois jovens que eram noivos das duas filhas solteiras. 
➖ 'Agora, estes!' - rugiram aquelas hienas. E os dois caíram, também, nadando em sangue.

Oito cadáveres jaziam às portas daquela residência, onde até poucas horas viviam felizes aqueles corações cristãos. Oito cadáveres! Eram os seres mais amados, eram a esperança da família, eram o amor de todos... Oito cadáveres!

➖ 'Agora, estes!' - continuavam uivando aquelas feras sedentas de sangue humano. E em desordenado tropel penetraram naquela fidalga residência, espalhando-se por ela, roubando, saqueando, destruindo tudo o que encontravam. Enfim, cansados de tantas fadigas, estiraram-se nos sofás e cadeiras de braço, bebendo e cantando, estavam satisfeitos de sua obra. Oito cadáveres!

E a esposa? E as filhas casadas? E as solteiras? E os tenros e delicados netinhos? Não os esqueceram, aqueles vis criminosos. Trancaram-nos num quarto, dizendo-lhes que esperassem a decisão do povo: ao povo pertencia dispor o destino deles. E o povo dispôs que fossem enxotados de sua própria casa, que desde aquele momento passava a ser propriedade do comunismo.

E de sua casa teve de sair a infeliz família. Ia adiante a velha mãe, de cabelos brancos; atrás, as filhas casadas, carregando seus tenros filhinhos e, por fim, as filhas solteiras sem pai, sem irmãos, sem amores, sem um pedaço de pão e, assim, foram batendo de porta em porta e viram que as portas de muitas famílias que julgavam amigas se fecharam para elas. E por isso levavam a maldição da 'Casa do Povo'. Ó como foi triste, foi doloroso, foi revoltante! Foi, em suma, a obra do comunismo ateu, do qual nos livre a misericórdia de Deus.

123. BAILANDO COM O DIABO

Uma jovem francesa, que frequentava as salas de baile, atraída pela fama do santo Cura d'Ars, resolveu procurá-lo para se confessar. Vejamos como ela narrou o seu colóquio com o santo.
➖ Lembras-te - disse ele - da última vez que foste ao baile? Estava lá um moço que te parecia bonito, e te causou sentimentos de ciúme e de inveja, porque bailava somente com as outras e não se dignava dirigir-te um olhar sequer? 
➖ É verdade. Lembro-me, sim.
➖ Lembras-te que, em dado momento, ele retirou-se da sala, deixando-te desiludida, por não se ter dignado dançar contigo nem uma vez?
➖ Sim.
➖ E notaste, então, um pequeno fenômeno: duas como chamazinhas entre as solas dos sapatos dele e o pavimento da sala, quando se retirou. E não fizeste caso, atribuindo aquilo a uma ilusão de ótica do contraste entre as luzes e a obscuridade da porta de saída... lembras-te disso?
➖ Sim; lembro-me.
➖ Pois bem. Aquele que te parecia um rapaz encantador, que te causou tantos ciúmes, tanta inveja, tanto despeito... quem era?
➖ ....
➖ Aquele era o diabo. Dançou com aquelas que já lhe pertencem, com aquelas que não tem o menor escrúpulo da impureza. Contigo não quis dançar, porque ainda eras pura, e sabia que virias te confessar.
A moça ficou impressionadíssima com aquelas revelações do santo e prometeu que nunca mais iria a um baile. E tu, jovem leitora, não achas que contigo poderia acontecer?

124. UM PREFEITO LIVRE-PENSADOR LEVA NA CABEÇA

Há cerca de quarenta anos, estava em uma vila da Áustria o coronel Dobner von Dobenau com o seu batalhão. Ia estabelecer ali o seu quartel de inverno. A população alegrou-se com isso, pois esperava fazer bons negócios com os oficiais e soldados e contava, além disso, com o bom número de distrações. O prefeito da cidade, acompanhado de seus conselheiros municipais, saiu a saudar o coronel. Este era fervoroso católico e um de seus filhos era padre. Mas, ignorando essas circunstâncias, e julgando-o livre-pensador, o prefeito dirigiu-lhe longo discurso, insistindo na alegria que os habitantes da cidade sentiam com a presença da tropa que, certamente, viria quebrar a monotonia da estação hibernal. 

Não pôde deixar, porém, de mostrar o seu desagrado pelas práticas religiosas, dizendo:
➖ Uma só coisa desagradável há aqui, meu coronel. É que hoje, precisamente, os padres deram início a uma grande missão que vai durar mais de oito dias. Infelizmente não a podemos impedir, apesar de vermos na mesma um grande desmancha-prazeres. O batalhão deve, entretanto, consolar-se com o pensamento de que esses dias passarão e, logo depois, a alegria será muito maior.

Terminado o discurso, o coronel, carregando os sobrolhos, respondeu em tom seco:
- Senhor prefeito, não vejo na missão absolutamente nenhum desmancha-prazeres. Pelo contrário; eu só não assistirei aos sermões da missão, quando o serviço assim me permitir como meus oficiais, bem como toda a tropa, terão o prazer de me acompanhar. Eu só sinto não ter o poder, senhor prefeito, de mandar também a vós e aos vossos conselheiros a também ir a todos os sermões. As pregações não vos fariam mal nenhum; muito ao contrário, elas fariam imenso bem.
Após o seu destemido discurso, retirou-se friamente o coronel, deixando bastante desapontados e confusos os seus visitantes. E a lição foi bem merecida.

125. OLÁ! VOCÊ VIROU CAROLA?

Pedro Jorge Frassati, falecido santamente em Turim em 4 de abril de 1925, era filho de um ilustre embaixador. Muito rico, conservou, entretanto, sua inocência, sua fé e um coração extremamente sensível às misérias alheias. Tornou-se um campeão de Cristo e um apóstolo do bom exemplo. Frassati não era desses que só praticam a religião quando encerrados dentro de quatro paredes. A propósito lê-se em sua biografia o seguinte fato.

Um dia, ao sair de uma igreja, conservava ainda na mão o seu rosário. Um conhecido passando por ali justamente naquele momento e, não perdendo a ocasião, diz-lhe, mofando:
➖ Olá, Jorge! você virou carola?
E Jorge, sem se perturbar, respondeu prontamente:
➖ Não; eu continuo apenas um bom cristão; e disso não me envergonho, antes me glorio.

Antes de expirar - e contava então somente vinte e quatro anos de idade - Frassati fez a seguinte profissão de fé: 'Cada dia compreendo melhor a graça de ser católico. Pobres, infelizes os que não têm fé. Viver sem a fé, sem uma herança que se possa defender, sem uma verdade que se possa sustentar por um combate contínuo, não é viver, é vegetar. Não devemos vegetar, devemos viver; porque, apesar de todas as decepções, devemos lembrar-nos sempre que somos os únicos a possuir a verdade. Temos uma fé que defender, e a esperança de chegar à nossa Pátria. Para o alto os corações e avante sempre pelo triunfo do reinado de Cristo na sociedade. E Jorge Frassati foi um desses apóstolos do reino de Cristo na sociedade; foi um militante da Ação Católica, foi um combatente ardoroso até à morte.

126. A COLEGIAL QUE SE CONVERTEU

Estudava em um colégio de irmãs uma menina de treze anos apenas. Era uma alma forte; era um coração indômito. Não sei o que tinha aquela criatura, mas exercia uma influência poderosa sobre todas as colegas que viviam com ela. Quando pregava a revolução entre as suas companheiras, contra as ordens das Irmãs, a revolução estalava tumultuosa, e só a mão forte da Superiora conseguia impor de novo a disciplina.

Um dia aquela menina altiva e insolente foi severamente repreendida e castigada. Aquela tarde não poderia sair a passeio com as colegas. Tinha que ficar no colégio, escrevendo cem vezes estas palavras: 'Primeiro mandamento da lei de Deus: Amarás o senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças'.

Ficou na sala vigiada por uma professora. Pôs o papel diante de si e começou a escrever: 'Primeiro mandamento da lei de Deus: Amarás o senhor, teu Deus...' E continuou escrevendo... Logo estava cansada. Largou a pena e passou os olhos pela sala. Bem em frente, pendurada na parede, estava uma imagem de Jesus Crucificado. Contemplou-o como jamais o contemplara. Parecia-lhe que aquelas palavras que acabava de escrever, a ela eram dirigidas por aquele santo Cristo, que tinha diante dos olhos. Lentamente, solenemente, com acento de ternura, com olhos cheios de lágrimas, dizia-lhe aquele Deus amoroso: 'Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração'...

O que se passou então naquela alma forte e naquele coração indômito, que lhe saltaram as lágrimas e ali mesmo se ajoelhou e se fixaram longo tempo os olhos daquele Deus-Amor e daquela menina-revolução? Em seguida levantou-se e pediu humildemente licença à mestra para ir uns instantes à capela. Tinha sede de falar de mais perto com Deus e Deus estava ali, a dois passos dela, no sacrário.

Quando se levantou estava transformada. Desde aquele dia foi a santa do colégio. Anos mais tarde, quando o capelão e o confessor falavam dela, diziam: 'as almas ou são grandes santas ou grandes pecadoras'. Naquela tarde de sua vida começou a ser santa e o foi até o fim, até o heroísmo.

127. COMO MORRE UM VIGÁRIO

O pároco de Constantina, em terras de Sevilha, era um homem de fé ardente. Prenderam-no os bárbaros comunistas, lançaram-no numa asquerosa prisão, deram-lhe muitas pauladas, negaram-lhe todo o alimento e, por fim, fizeram em nome do comunismo o que não poderiam deixar de fazer, isto é, saquearam a casa paroquial e a igreja.

Mas foram mais longe: conduziram-no à praça pública e ali o apresentaram àqueles mesmos paroquianos pelos quais ele havia trabalhado durante vinte e seis anos. A multidão, enfurecida pelos vermelhos, saciou contra ele o seu ódio vil. Levaram-no outra vez à igreja. Cinco dias durava já o martírio; há cinco dias que não via sua querida igreja paroquial. Ao entrar nela voltou-se com grave dignidade para aqueles sacrílegos, e lhes disse:
➖ Perdoo-vos o que a mim me tendes feito; mas profanastes a igreja de Deus e sentireis o peso da justiça divina.

Aproximou-se do altar do Santíssimo e... que dor! Viu que as sagradas partículas tinham sido atiradas ao chão. Quis ajuntá-las, mas não pôde. Derrubaram-no por terra e ali mesmo o golpearam barbaramente. Quando quis dizer: 'Viva Cristo Rei!' não terminou, pois um vil assassino atravessou-lhe a cabeça com uma bala.

Alguns meses mais tarde, em 15 de dezembro, quando a cidade de Constantina caiu em poder das tropas espanholas, ordenou a câmara que desenterrassem o cadáver do pároco. Estava perfeitamente incorrupto. Tinha sobre o peito um crucifixo. Aquele santo Cristo se lhe incrustara completamente na carne. Conseguiram separá-los, mas a cruz ficou para sempre gravada no peito do mártir. Ficou incrustada a cruz em seu peito. Trazei também vós no coração o espírito de Jesus Cristo e, estou certo, não deixareis de perdoar a todos os vossos inimigos.

128. OLHAI PARA O ALTO

Santo Afonso, um dos homens mais santos e sábios, gostava de recordar o seguinte fato. Caminhavam por montes e vales uns homens ricos e amigos dos prazeres. Eram caçadores? Não sabemos; o certo é que se internaram pela floresta adentro e, no meio dela, entre as árvores frondosas, encontraram uma choupana. Aproximaram-se e dentro dela viram um anacoreta, cujo rosto era o retrato de uma alma que gozava de paz.
➖ Irmão - perguntaram aqueles senhores - o que fazes aqui?
➖ Irmãos - respondeu o ermitão - vim procurar a felicidade.
➖ A felicidade? Nós gozamos da abundância das riquezas; corremos de diversão em diversão e, contudo, não pudemos achar a felicidade; e tu a procuraste aqui?
➖ Aqui a procurei e aqui a encontrei.
➖ Encontraste mesmo a felicidade?
➖ Sim; olhai por esta janelinha da minha choupana. Por aí se vê a minha felicidade.

Os caçadores precipitaram-se para a janelinha e olharam ansiosos. Em seguida, mal-humorados, disseram:
➖ Irmão, enganaste-nos como um velhaco.
➖ Nunca, nunca - replicou o santo solitário; é porque não olhastes bem; tornai a olhar. Garanto que por aí se vê a minha felicidade.

Pela segunda vez chegaram-se os homens à janelinha, olharam por todos os lados e, agastados, disseram:
➖ Irmão, pela segunda vez nos enganaste. És um impostor.
E o solitário, com aquele ar de paz que nunca o abandonava, responde:
➖ Irmãos, não olhais bem. Asseguro-vos que não vos engano: olhai melhor, pois garanto que daí se vê a minha felicidade.

Os homens, desejosos de descobrir a felicidade, olharam, tornaram a olhar para baixo, para cima, para os lados e, por fim, disseram:
➖ Irmão, não nos enganes mais. Por aqui não se vê nada; apenas um pedacinho do céu...
➖ Isso, isso - exclamou radiante da alegria o ermitão - isso, isso. Aí está a minha felicidade. Quando tenho algum sofrimento, quando a dor me atormenta, contemplo esse pedacinho de céu e digo a mim mesmo: tudo passa; dentro em pouco estarei no céu e a alegria enche a minha alma.

Esse solitário era Santo Antão. Havia ido para o deserto em busca da felicidade. Passou os longos anos de sua vida em orações e penitências. Olhava para o alto e via um pedacinho do céu! Teve lutas terríveis com o espírito do mal; não via o fim daquela guerra; mas olhava para o alto, e via um pedacinho do céu!

Sofreu fome, calor, sede; a carne pedia comodidade, o cilício atormentava-o, molestava-o a pobreza do hábito. Olhava para o alto e via um pedacinho do céu! Passaram-se os dias e passaram-se os anos. Olhava sempre para o alto, e o pedacinho do céu parecia-lhe cada vez mais próximo, cada vez maior. Afinal, um dia não viu mais a terra, não viu mais o deserto. Ante seus olhos surgia uma cidade fantástica. Aquilo era a terra da promissão, era a pátria de Deus, era o que tantas vezes vira de longe: o céu! o céu! E a alma de Santo Antão, que vivera para Deus, para a oração, para a penitência, para a santidade, para o céu, entrava gloriosa no paraíso...

129. A MENINA QUE REZAVA PELOS AVIADORES

Do alto do púlpito, um dos mais famosos oradores contemporâneos da Espanha dirigia a sua palavra eloquente a um seleto auditório. Era na festa de Nossa Senhora de Loreto e ele falava aos aviadores que a haviam escolhido por padroeira. Falou-lhes assim:

'Aviadores de minha pátria, ainda vos lembrais? Era nos primeiros dias do nosso movimento contra o comunismo. Vós, todas as manhãs, em vossos aviões de bombardeio, em formação impecável, voáveis sobre as terras de Castela e, ousados e destemidos, internando-vos nas zonas montanhosas de Biscaia, íeis romper com vossas bombas o cinturão de ferro de Bilbao.

O que, porém, não sabeis é que ali, nas margens do Ebro, todos os dias, guardando o seu rebanho, estava uma menina que não passaria dos onze anos. Ao ver-vos ficava emocionada: ajoelhava-se, e com as mãos postas, rezava a Nossa Senhora por vós para que triunfásseis sobre os inimigos de Deus e da Espanha, e para que não sofrêsseis nenhuma desgraça. E quando em vossos aviões desaparecíeis ao longe, a menina, sempre de joelhos, levava os dedos da mão direita à boca, imprimia neles um beijo e o mandava a vós, heróis da pátria e soldados da fé.

Os aviões tinham já desaparecido e a menina continuava ainda de joelhos rezando por vós. Graças a Deus estais com vida. Não deveis - quem sabe? - a vossa vida às orações daquele anjo de onze anos que guardava seu rebanho de ovelhas em terras de Castela?'

E aqueles frios aviadores, acostumados a desafiar a morte e a permanecer tranquilos e calmos no meio dos tremendos perigos dos ares, choravam como crianças.

130. CALVÁRIO DE UMA MÃE

Quereis um exemplo de paciência e resignação de uma mãe sublime e heroica? Foi sempre boa aquela senhora. Nascera na pobreza e, nos trabalhos dos campos, passara os anos da juventude. Quando estava para completar vinte e cinco anos, casou-se com um moço bom como ela, e, como ela, lavrador de pobres campos, que eram toda a sua fazenda.

Tiveram cinco filhos: três meninos e duas meninas. Estavam todos ainda na infância, quando lhes morreu o pai. A pobre viúva pôs a sua confiança naquele Senhor que nos livros sagrados se chama a si mesmo 'consolo e amparo das viúvas'. E não esperou em vão. Trabalhou muito a pobre mãe; mas afinal teve a consolação de ver que seus filhos cresciam fortes e bons. Naquela casa não faltava o pão ganho com o trabalho honesto e comido em paz e na graça de Deus.

O mais velho dos filhos disse um dia à mãe: 'Mãe, vou a N. para ver se ganho algum dinheiro para nós'. Foi a N. e, poucos dias depois de lá chegar, morreu. Disse o segundo filho: 'Mãe eu não vou a N.; vou à capital à procura de uma colocação para que não tenhas de trabalhar tanto'. E foi à capital; mas apenas lá chegou, pereceu num incêndio.

O terceiro filho disse um dia à mãe: 'Mãe, eu não vou nem a N. e nem à capital; ficarei em casa cultivando nossos pobres campos. Deus jamais nos negará um pedaço de pão'. E um dia subiu a um morro em companhia de um amigo; e este, ao experimentar uma arma, sem querer desfechou-lhe um tiro e o matou; e o pobre ali ficou no meio do caminho estendido e banhado no próprio sangue.

A filha mais velha, derramando lágrimas sobre os finados irmãos, disse à mãe: 'Mãe, que pecado teremos cometido para que Deus nos prove tanto? Vou para o convento'. E para o convento foi e, oito dias, depois a levavam ao cemitério.

Por fim, a última filha, que contaria uns dezesseis anos, disse à mãe: 'Mãe, não chores; enquanto eu viver, não te faltará um pedaço de pão. Vou para a cidade aprender costura e corte'. E foi para a cidade; mas, no primeiro motim comunista, uma bala perdida atingiu a sua cabeça e ela caiu morta.

A mãe não tinha mais lágrimas nos olhos. Inclinava a cabeça, chorava e rezava. Por fim, ficou doente, teve de meter-se na cama, onde, durante anos, dores horríveis não lhe deram descanso. Contudo, a Providência divina não a desamparou: nunca faltaram almas boas que cuidassem dela. Um missionário, que por ali pregava, foi um dia visitá-la. Sentou-se à cabeceira do carte e ela contou-lhe a sua trágica história. Quando terminou, chorava e soluçava.
➖ Filha - disse-lhe o Padre Missionário - estás agora conformada com a vontade de Deus?
➖ Padre - respondeu - já sou velha; já completei oitenta e quatro anos. Oitenta e quatro anos, Padre, dizendo muitas vezes ao dia: 'Faça-se a vossa vontade, assim na terra como no céu'. Virou a cabeça e fixou o crucifixo pendurado à parede. Era Ele a sua única esperança.

Aí tendes uma mulher simples, uma mulher camponesa, que aprendeu, na sua fé e no seu amor a Deus, a lição dificílima da paciência e da conformidade com as penas e as dores desta vida.

131. O CONSOLO DE LÚCIFER

Um dia, voltando da terra, chegou um demônio ao inferno. Estava triste e abatido. Dirigindo-se a Lúcifer, o rei das trevas, disse:
➖ Chefe, falhou completamente o meu esforço. Mostrei ao Filho do Homem todas as riquezas e grandezas do universo e prometi-lhe dar-lhe tudo aquilo com a única condição de que me adorasse. E eis que Ele me repeliu com desprezo.
➖ Consola-te, meu filho - respondeu Lúcifer - mesmo que esse esteja perdido, todos os outros nos pertencem.

Depois de algum tempo regressa o demônio de sua nova excursão pela terra e diz:
➖ Chefe, está tudo perdido. O Filho do Homem acaba de fazer ao povo, no monte Tabor, um sermão sem igual. Ele afasta a todos das vaidades terrenas e impele-os para o reino de Deus.
➖ Consola-te, meu filho - disse Lúcifer - eles gostam de ouvir palavras novas e belas, mas não as põem em prática. Esquecer-se-ão delas como se esqueceram dos ensinamentos dos profetas.

Faz o demônio outra excursão pela terra. Quando volta ao inferno, chega-se ao poderoso rei Lúcifer e, desanimado, diz:
➖ Meu chefe, o nosso poder está liquidado para sempre. O Filho do Homem selou sua doutrina com a própria vida, provando assim que é realmente o Filho de Deus.
➖ Não te aflijas demais, meu filho - replicou Lúcifer - eles serão nossos apesar de tudo. O Filho do homem provou, é verdade, por sua morte na Cruz, que é o Filho de Deus, mas consola-te, meu fiel emissário, os homens não crerão nele.

Meu irmão, tira deste imaginário diálogo uma preciosa lição para tua alma, isto é, que não deves viver, como pagãos e libertinos, sem fé, sem religião e sem Deus.

132. SEMPRE MAIS

Perguntai a São Paulo o que deveis fazer para vos tornardes semelhantes a Jesus Cristo. São Paulo não vos enganará. Ele é o doutor que mais admiravelmente expôs as leis divinas de nossa perfeição na vida espiritual.
➖ Santo Apóstolo, temos a fé de Pedro, o discípulo escolhido por Jesus Cristo para seu vigário na terra. Isso nos basta?
➖ Não basta.
➖ Temos a caridade para com Deus e o amor para com o próximo, que aprendemos do discípulo predileto de Jesus. Isso nos basta?
➖ Não.
➖ Temos a fortaleza heroica demonstrada pelo Batista diante os inimigos. Isso nos basta?
➖ Não.
➖ Temos a confiança em Deus que distinguiu o patriarca São José, o qual mereceu ser tido por pai de Jesus. Isso nos basta?
➖ Não basta, não.

Escutai o que vos digo: Jesus Cristo é o modelo que deveis ter sempre diante dos olhos; é o retrato que haveis de reproduzir em vosso corpo e em vossa alma. E quem era Jesus Cristo? Era a caridade, era a justiça, a mansidão, a prudência e a paciência... Era a beleza de Deus manifestando-se aos olhos humanos, para que nele nos transformemos. Tendes, pois, de trabalhar, trabalhar muito, até que sejais retratos perfeitos desse divino Modelo.

➖ Mas, santo Apóstolo, nossa carne é fraca, nosso coração é louco, nossa concupiscência é animal, nossas inclinações são perversas, as tentações são muitas, os demônios rodeiam-nos dia e noite, o mundo nos fascina...
➖ Trabalhai! É preciso imitar a Jesus Cristo. Essa é a única segura garantia de nossa eterna salvação. Se temos a sua graça, temos tudo.
➖ Mas isso será trabalho de muitos anos.
➖ Tendes razão; é trabalho de toda a vida. Mas para isso é que Deus nos pôs no mundo, para isso é a vida. Se não a entendeis assim, estais tristemente equivocados.

Trabalhai! Tendes diante de vós uma eternidade para descansar e gozar pelas nossas virtudes.
 
CASTO... SEM RELIGIÃO?!

Estava aquele médico na flor da idade. Era uma cabeça leviana e andava cheio de orgulho por sua ciência vã. Além disso, relegara a fé a um canto de sua inteligência e, segundo havia aprendido de seus mestres sem religião, afirmava que para viver bem e ser feliz bastava a luz da razão.

Por aqueles dias um famoso pregador, um homem de eloquência singular, alvoroçara toda a cidade. O vaidoso doutor afirmava à boca-cheia, no círculo de suas amizades, que iria entrevistar o famoso orador e que o havia de encurralar com a força de sua discussão. E lá se foi, com efeito, seguido de alguns amigos zombeteiros e curiosos. Achando-se frente à frente com o missionário, o doutor disse entre outras coisas:
➖ Padre, eu não pratico a religião; sou, porém, homem honrado e posso garantir-lhe que sou casto. Sorriu com desconfiança o ilustre pregador e observou:
➖ Casto?... Casto sem religião?!
➖ Sim , casto - insistia o doutor.
➖ E vai a toda espécie de cinema?
➖ Naturalmente.
➖ E lê toda espécie de livros?
➖ Tudo o que cai sob os meus olhos.
➖ Desvia o olhar quando se encontra com alguma beleza provocadora?
➖ Ó, pelo contrário.
➖ E diz que não reza?
➖ Nada.
➖ E diz que é casto?
➖ Digo.

➖ Pois bem - replicou aquele homem apostólico, aquele profundo conhecedor do coração humano - acredito que o senhor seja casto, mas casto como os cachorros. E nada mais disse. E havia dito tudo. O doutor mordeu a língua; os amigos sorriam maliciosamente e o missionário interrompeu bruscamente o diálogo. Todos estavam de acordo: sem a prática da oração não podiam ser castos. E constitui refinada loucura afirmar o contrário.

134. DIÁLOGO COM SÃO PAULO

Jesus Cristo disse de si mesmo: 'Eu sou a luz do mundo'. Nos seus lábios e nos lábios dos seus apóstolos, em poucos anos, viu o mundo a formosura dessa luz e ficou envolvido em seus raios. Duvidais? Interrogai São Paulo, o gigante da verdade e do amor, o apóstolo que não descansa, a boca que não cala, as mãos que não desmaiam, o coração que nunca se apaga. Aí o tendes: interrogai-o.

➖ Santo Apóstolo, de onde vens?
➖ Da Grécia.
➖ Percorreste a Arábia?
➖ Toda.
➖ Estiveste na Ásia?
➖ Cheguei às suas praias mais remotas.
➖ E visitaste Atenas?
➖ Falei do Areópago, bem como nas ruas de Corinto, Tessalônica e Éfeso.
➖ Pensas em ir a Roma?
➖ Até lá chegarei. Tenho ardentes desejos de avistar-me com os césares do mundo.
➖ Estiveste na prisão?
➖ Muitas vezes.
➖ Sofreste naufrágios?
➖ Três vezes me vi nos abismos do mar.
➖ Estiveste em perigo de morte?
➖ Em muitos; a cada passo.
➖ Sofreste fome?
➖ Sim.
➖ Frio?
➖ Também.
➖ Ódios e calúnias?
➖ Isso toda a vida; prego a verdade e não me creem; prego o amor e odeiam-me.
➖ Santo Apóstolo, descansa!
➖ Não posso.
➖ Modera tuas energias.
➖ Tudo me parece pouco.
➖ És incompreensível.
➖ Sou a lógica, a lógica da verdade, a lógica do amor.

O Apóstolo cala-se um instante. Pensa. Levanta a cabeça e prossegue:
➖ Vi o meu divino Mestre. Conheci-o na estrada de Damasco. Compreendi que é a verdade, a luz. Levo-o no coração: é um fogo que me abrasa. Levo-o nos lábios: é uma luz que me guia e me arrebata. Poucos anos faz que andamos pelo mundo, eu e os demais Apóstolos, pregando a sua doutrina, anunciando a sua lei. Erguei os olhos e vede: a fé tem sido pregada em todo o universo. Jesus Cristo conquista toda a terra, porque Ele é a luz, é o sol da verdade. Viva Jesus Cristo!

135. UM MENTIROSO CRUEL

O czar Nicolau, que há cem anos governou o império russo, foi um dos homens mais sanguinários. A sua crueldade arrancou a vida de milhares de filhos da Igreja Católica; maior, porém, foi o número dos que tiveram uma morte lenta nos trabalhos forçados e nos horrendos cárceres do clima horrível da Sibéria.

Entretanto, diante dos reis europeus e sobretudo diante do Soberano Pontífice, fazia sempre alarde de sentimentos religiosos e humanitários. Indo a Roma, o poderoso e sanguinário czar foi recebido em audiência por sua Santidade o Papa Pio IX. O Pontífice perguntou-lhe como tratava os católicos. E o czar, com a mais vil hipocrisia, respondeu:
➖ Muito bem, Santíssimo Padre.

Não pôde o Papa sofrer a vileza daquele coração traidor. Levantou-se de seu trono, fitou o poderoso imperador com majestosa dignidade e com voz forte e enérgica disse:
➖ Mentis!
O imperador russo não pôde conservar-se em pé; ficou com que aniquilado e saiu dali aterrado, como se uma tempestade tivesse estalado sobre a sua cabeça e o fogo de um raio o ameaçasse. Desceu rapidamente as escadas do Vaticano e foi ocultar-se no palácio em que se hospedava.

Também a vós, milhares de cristãos; também a vós, milhares de católicos, pergunta o vigário de Jesus Cristo:
➖ Amais a Jesus Cristo?
E respondeis com hipócrita serenidade:
➖ Amamos!

➖ Mentis! vos dirá o Papa.
E com razão, pois não sois vós que profanais os dias santos de guarda? Não sois vós que abandonais a oração e os sacramentos? Não sois vós que desprezais os mandamentos divinos? E não mentis aos homens, mas a Jesus Cristo... ao próprio Deus!

136. O PUNHAL DA IMPUREZA

Aquele moço não conhecia maior tesouro neste mundo do que o coração de sua mãe. Filho e mãe viviam sozinhos no mundo. E eram felizes, porque possuíam a maior felicidade da vida: a felicidade do amor.

Mas aquele moço começou a sofrer de uma doença esquisita. Tremiam-lhe as pernas. O tremor nervoso subia pouco a pouco pelo corpo e, quando chegava à cabeça, estourava a loucura. Naqueles momentos de furiosa loucura, o rapaz procurava uma faca, empunhava-se e corria por toda a casa, com os olhos arregalados, gesticulando ferozmente, e gritando: 'Minha mãe, minha mãe! Onde está minha mãe? Quero matar minha mãe!'

Cessava a loucura. O filho voltava a si. Conhecia a sua loucura e, de joelhos, pedia mil vezes perdão a sua mãe. Dizia-lhe: 'Mãe, minha mãe, se um dia, num desses arrebatamentos, eu te tirasse a vida? Que seria de mim? Morreria de dor'. Assim também eram grandes os temores da mãe como as angústias do filho. Sabeis o que ele resolveu fazer? Quando sentia que o temor começava a subir-lhe pelo corpo, pegava uma corda muito forte, corria para a mãe e dizia-lhe: 'Amarra-me, mãe, amarra-me' e a mãe amarrava fortemente as mãos do filho.

No momento em que a loucura subia à cabeça, ele soltava rugidos de fera e gritava: 'Onde está minha mãe? Quero matar minha mãe!' Mas, como poderia fazer-lhe mal, se tinha as mãos bem amarradas? Passada a loucura, o moço tomava aquela corda e beijava-a com loucuras de amor. Meu irmão, alerta! Quando sentires que vem chegando a tentação, o perigo, toma o rosário, cinge-te com as cadeiras da oração. Reza e serás forte. Quando passar o perigo, beijarás, reconhecido e grato, o teu rosário, que te livrou do punhal da impureza.

137. DOM BOSCO CONFESSA UM DEFUNTO

Havia um jovem, chamado Carlos, que só pensava em viver e divertir-se. Mas eis que cai doente, tão doente que o médico lhe dá apenas algumas horas de vida. Quis confessar-se a Dom Bosco, que lhe era muito afeiçoado, mas Dom Bosco não pôde ir. Confessou-se com outro sacerdote, mas a confissão não foi sincera, pois ocultou faltas graves.

E o jovem morreu... Comunicaram logo a Dom Bosco que o seu querido Carlito falecera. Nesse momento uma voz misteriosa parecia segredar a Dom Bosco que o infeliz não se confessara bem. Saltou do leito, correu à casa do defunto. Ali estava Carlito imóvel, amarelo, endurecido: ia ser colocado no caixão. Dom Bosco ordenou que todos deixassem o aposento; ali só ficaram o santo e o cadáver.

Dom Bosco, falando ao ouvido do defunto, disse:
➖ Carlito!
O rapaz abriu os olhos e fitou-os em seu santo diretor.
➖ Onde estiveste? - perguntou-lhe o servo de Deus.
➖ Padre, numa região misteriosa e desconhecida. Vi muitos demônios e todos me queriam arrastar ao inferno. Diziam que tinham direito sobre mim.
➖ Filho, é porque não te confessaste bem. Ocultaste um pecado por vergonha, não é verdade?
➖ Sim, padre; mas agora quero declará-lo.

E o rapaz confessou com grande humildade seus pecados e sacrilégios.
➖ Padre, se não fôra esta grande misericórdia de Deus, eu estaria perdido para sempre.
Dom Bosco, erguendo a destra, deu-lhe a absolvição. Recebeu-a o jovem com grande recolhimento e na atitude da mais profunda gratidão. O santo abriu a porta e disse aos que esperavam do lado de fora:
➖ Podem entrar.

Entraram e lançaram um grito de surpresa e de terror. O morto estava sentado na cama. Parentes e amigos caíram de joelhos, mudos de assombro.
Dom Bosco inclinou-se e disse ao ouvido do jovem:
➖ Carlito, agora que estás na graça de Deus, que é que desejas: viver ou morrer?
➖ Padre - respondeu o rapaz - quero morrer.
Enquanto o santo lhe dava a bênção, Carlito deixava cair a cabeça sobre o travesseiro, juntava as mãos sobre o peito, fechava os olhos e... morria.

138. O FILÓSOFO E O BARQUEIRO

Um barqueiro transportava um filósofo em sua barca. Durante a travessia, disse o filósofo ao barqueiro:
➖ Então, meu velho, você sabe alguma coisa?
➖ Eu? Sei remar e nadar.
➖ Não sabe filosofia?
➖ Nunca ouvi falar disso.
➖ Não sabe astronomia?
➖ Não, senhor.
➖ Não conhece a gramática?
➖ Também não, senhor.

E assim foi o filósofo perguntando muitas coisas e o barqueiro respondendo:
➖ Não sei nada disso.
➖ Pois, assim, você perdeu a metade da vida, acrescentou o filósofo.

Nisso, distraídos pela conversa, deram contra um rochedo, partiu-se a barca e os dois naufragaram. O barqueiro, nadando, alcançou a margem; ao passo que o filósofo se afogava. O barqueiro, malicioso, gritou-lhe:
➖ Senhor filósofo, não sabe nadar?
➖ Não.
➖ Ah! não sabe? Então o senhor é um infeliz; perdeu a vida inteira. Suas astronomias e filosofias não lhe servem para nada.

Isto mesmo se pode dizer dos que sabem tudo deste mundo, menos a doutrina cristã, pois a ciência mais apreciada é que o homem bem acabe: porque, no fim da jornada, aquele que se salva, sabe e o que não se salva, não sabe nada.

139. O SOLDADO E O OVO

A pessoa que sabe sofrer com paciência é semelhante a um anjo. Conta Santiago que, num hospital servido por Irmãs de Caridade, achava-se um soldado em tratamento. Certo dia pediu-lhe trouxessem um ovo cozido. Poucos instantes após uma das Irmãs servia o enfermo o ovo cozido; mas aquele indivíduo, querendo, ao que parece, provar a paciência da religiosa, rejeitou o ovo bruscamente, dizendo:
➖ Está duro demais.

Retirou-se a Irmã em silêncio e, depois de alguns minutos, trouxe outro ovo; mas o doente rejeitou-o de novo, alegando:
➖ Está mole demais.

Sem mostrar o menor indício de impaciência, foi a Irmã, pela terceira vez, à copa e trouxe ao soldado um vaso com água fervente e um ovo fresco e disse-lhe com toda calma:
➖ Aqui tem o senhor tudo que é necessário; prepare o ovo do modo que lhe agradar.

Essa paciência inalterável da boa religiosa causou ao soldado tal impressão, que não pôde deixar de exclamar:
➖ Agora compreendo que há um Deus no céu, uma vez que há tais anjos na terra.
Por aí se vê que, pela paciência, pode-se fazer um grande bem ao próximo.

140. POR QUE DEVO SOFRER TANTO?

São Pedro Mártir (falecido em 1252), da Ordem Dominicana, teve de sofrer incríveis calúnias e perseguições, mesmo sendo inocente e santo. Ajoelhou-se um dia aos pés do Crucifixo e queixou-se a Nosso Senhor de seus sofrimentos:
➖ Senhor, que mal fiz eu para sofrer tanto?
Enquanto assim se lamentava ouviu o santo, como vindas da Cruz, estas palavras:
➖ E que mal fiz eu para sofrer tanto na cruz? Teus sofrimentos não se podem comparar com os meus. Suporta-os por isso com paciência.

Estas palavras deram ânimo ao santo. Daí em diante, quando tinha de sofrer, olhava para o Crucifixo, lembrando-se que o Filho de Deus teve de sofrer imensamente mais do que ele.

141. A CONFIANÇA RECOMPENSADA

O imperador Napoleão I entrou, certa vez, num restaurante de Paris, acompanhado de seu ajudante Duroc. Ali ninguém os conhecia. Depois de haverem tomado a refeição, e apresentada a conta de 14 francos, aconteceu que nenhum deles tinha dinheiro consigo.

O imperador estava incógnito e não queria dar-se a conhecer. Seu ajudante, dirigindo-se à dona do restaurante, pediu-lhe que tivesse paciência de esperar uma hora e o pagamento seria feito pontualmente. A dona, porém, uma velha muito segura, não concordou; pelo contrário, ameaçou-os com a polícia se não pagassem imediatamente.

A coisa ia ficando feia, quando chegou o garçom que, interessando-se pelos hóspedes, disse à patroa:
➖ Estes senhores fazem-me boa impressão; não devem ser gente má. Pagarei por eles os 14 francos. Se me enganar, perderei eu o dinheiro e não a senhora; mas peço-lhe que deixe os homens em paz. Em seguida pagou a conta. Os dois senhores agradeceram e logo se retiraram.

Passada uma hora, ou pouco mais, apareceu de novo o ajudante do imperador e, dirigindo-se à dona do restaurante perguntou:
➖ Senhora, quanto vale este seu restaurante?
➖ Em todo caso mais que 14 francos - respondeu ela um tanto agastada.
Mas o homem insistiu:
➖ Diga-me seriamente: quanto a senhora quer por este seu restaurante?
➖ Bem; 30.000 francos e nem um centavo a menos.

Puxando a sua carteira, pagou-lhe Duroc aquela soma e disse:
➖ Por ordem do meu senhor faço presente deste restaurante ao garçom em reconhecimento pela confiança que depositou em nós. Admirada, a senhora perguntou:
➖ E quem era aquele seu companheiro?
➖ É o imperador Napoleão...
Se assim recompensa um homem a confiança nele depositada, como não recompensará o bom Deus a quem nele confiar?

142. VOCÊ TEM RAZÃO

Havia um senhor rico à moderna, que não queria saber de religião, nem de igreja, nem de preceito pascal, nem de oração. Com ele servia, há muitos anos, um ótimo criado, piedoso, fiel e que lhe queria muito bem. Esse criado, valendo-se da confiança que lhe dava o patrão, dizia-lhe às vezes:
➖ Mas, senhor patrão, pense também um pouco em Deus e em sua alma.
➖ Fique tranquilo, respondia-lhe o patrão. Veja ou eu sou predestinado e então me salvarei da mesma forma sem ir à igreja receber os sacramentos e rezar; ou não sou predestinado, e então, faça eu o bem que fizer, me condenarei do mesmo modo.

Aconteceu que, um dia, aquele senhor caiu doente. Chamou logo o servo fiel e disse-lhe:
➖ Vá chamar o médico para mim.
O criado ouviu, mas não foi. Chegada a tarde sem que o médico aparecesse, perguntou o enfermo:
➖ Você não chamou o médico?
➖ Escute senhor patrão, eu pensei assim: ou Deus destinou que meu patrão sare, e então sarará também sem médico; ou destinou que morra, e então, mesmo com todos os médicos do mundo, morrerá igualmente; por isso é inútil chamar o médico.
➖ Você é um tolo, um imbecil! - gritou o patrão, furioso. Deus não quer fazer milagres sem motivo, quer que empreguemos os meios que estabeleceu. Em caso de doença quer que se chame o médico; e você vá correndo chamá-lo, ouviu?
➖Sim; sim, senhor; vou já; por que o senhor patrão não raciocina do mesmo modo quando se trata de sua alma?
A observação era acertada e o patrão teve de responder:
➖ Você tem razão!

143. O PRESENTE DE NATAL

Conta o acadêmico francês J. Marmier que, na manhã de Natal, Bertinha, filha do porteiro, entregou-lhe seus jornais e cartas. Tinha na mão uma moeda de prata novinha de cinco francos e disse-lhe:
➖ Olha o que o Menino Jesus me encarregou de te dar.

A menina ao olhar com olhos grandes aquela moeda e exclama:
➖ Como é bom o Menino Jesus!
➖ Sim, Ele queria por esta moeda em teus sapatinhos na chaminé, mas não os viu.
➖ Meus sapatinhos! Como é possível? Lá estavam e de manhã lá encontrei uma boneca e uma laranja...
➖ Sim, mas como nesta noite de Natal Jesus muito o que fazer e me conhece bem, me parou por um instante e me disse: 'Isto é para a Bertinha'.
➖ O Menino Jesus sabe o meu nome?
➖ Como não? Tanto sabe que me deu essa moedinha para ti.
➖ Ah! - murmurou Bertinha juntando as mãozinhas - terei que lhe agradecer muito.

E subiu correndo escada acima para à sua mamãe o presente que lhe mandara o Menino Jesus. Se algum livre pensador lesse por acaso esta história, diria provavelmente que o acadêmico e a Bertinha são dois idiotas, mas... que talentosos e que sábios são os livre pensadores!

144. O SACRIFÍCIO POR JESUS

Um sacrifício - disse a mãe - seria, por exemplo, em lugar de gastar com brinquedos os cinco cruzeiros que te deu a vovó pelo Natal, dá-los por amor de Jesus a algum menino pobre que não tem o que comer nem o que vestir.
O menino calou-se. Na manhã seguinte, porém, quando foi abraçar a mamãe, disse-lhe:
➖ Mamãe, quero fazer um sacrifício pelo Menino Jesus. Vou dar os cinco cruzeiros ao pobrezinho enfermo que um dia destes fomos visitar.

No café, pôs de lado o pão com manteiga.
➖ Não tens fome, filhinho?
➖ Guardo-o para o pobrezinho.
➖ Come, eu te darei outro para o pobrezinho.
➖ Não, não, mamãe! Não seria a mesma coisa; não seria um sacrifício para o Menino Jesus.
E brotaram lágrimas dos olhos da feliz mãe...

145. MAÇÃS E ROSAS DO CÉU

No ano de 304, no maior furor da perseguição movida por Diocleciano, uma virgem cristã, chamada Dorotéia, foi conduzida ao tribunal do governador de Cesareia, na Capadócia. Como não quis sacrificar aos deuses e aos ídolos pagãos, a esposa de Cristo teve de sofrer um terrível martírio. 

Mantendo-se tranquila no meio dos tormentos, disse ao juiz:
➖ Apressa-te a fazer o que queres, e sejam os suplícios o caminho que me leve ao celeste esposo. Amo-o e nada temo. Desejo os tormentos, pois são leves e passageiros, uma vez que por meio deles chegamos às delícias do paraíso, onde há frutos e flores de maravilhosa formosura e suavidade, que nunca murcham, fontes de águas vivas, onde os santos são saciados na alegria eterna de Jesus Cristo.

Ao ouvir estas palavras o assessor do juiz, um letrado chamado Teófilo, dirigiu-se à santa caçoando e rindo:
➖ Envia-me então rosas e maçãs do jardim de teu esposo do paraíso quando lá chegares.
➖ Sim, eu as enviarei - respondeu a jovem.

Estava-se em pleno inverno. O verdugo apoderou-se do corpo da virgem e cortou-lhe a cabeça. Teófilo, chegando em casa, contou a pilhéria aos amigos, entre zombarias e sarcasmos. De repente, porém, apareceu-lhe um menino de rara beleza, levando nas pregas de seu manto três magníficas maçãs e três rosas de extraordinária frescura e fragrância.
➖ Eis aqui - disse o menino - o que a virgem Dorotéia prometeu enviar-lhe da parte do seu esposo do Céu.

Teófilo, estupefato, tomou as maçãs e as rosas e, contemplando-as um instante, exclamou:
➖ Verdadeiramente Jesus Cristo é Deus, o Deus que cumpre o que promete.
Fazendo esta confissão, Teófilo selava assim a sua sentença de morte. Algumas horas depois conduziam-no ao suplício, tornando-se então mártir da fé católica de que antes zombara.

146. UM INSTINTO DIVINO

Há coisas que só Deus pode ensinar às crianças. Elas têm às vezes ideias de anjos que espantam os grandes. Para celebrar a primeira comunhão de seus filhinhos, costumam as mães preparar lindos vestidos brancos que simbolizam a alvura da alma e que completam a festa interior do coração. Lindas flores enfeitam o dia da primeira comunhão. A alma, entretanto, tem lá as suas flores que ninguém vê nem suspeita.

Uma menina se preparava com admirável fervor para receber Nosso Senhor, pela primeira vez, em seu coração. Faltavam poucos dias para a solenidade e a mãe, julgando causar alegria à filhinha, disse a ela:
➖ Amélia, venha experimentar o vestido branco.

Sobre a mesa do quarto estava estendido um belíssimo vestido de seda branca. A mãe esperava uma explosão de alegria, mas enganou-se. Vendo o vestido, Amélia parecia cobrir-se de tristeza.
➖ O que é isso, Amélia? Não gostou do vestido?
➖ Ah! mamãe, ele vai me distrair. Naquele dia quisera ver só Jesus, pensar somente nele e falar só com ele. Faça, mamãe, um vestido mais simples e serei feliz, como os pobrezinhos...
➖ Você é um anjo - disse a mãe abraçando-a; só Deus pode ter ensinado a você essas coisas!

147. BEIJAR A MÃO DO PADRE

Um grupo de alegres rapazes combinaram fazer uma excursão. Iam bem dispostos, levando cada um a sua merenda, quando se encontraram com um padre modesto e bondoso. Todos beijaram a mão do ministro de Deus. Todos, não, porque dois, que pareciam ter ideias revolucionárias, logo depois caçoaram dos companheiros e disseram:
➖ Vocês não passam de uns beatos.
➖ De modo nenhum - respondeu um deles; bons cristãos, isso sim. Por que beijam vocês as mãos de suas mães? Porque lhes dão de comer e vestir, ou os curam quando é preciso, não é? Pois bem; nós beijamos a mão do sacerdote porque com ela nos reparte o pão da Eucaristia, nos abençoa, perdoa-nos os pecados e dirige-nos no caminho do céu.
➖ Bobagens! - responderam os mal educados; isso era costume em tempos atrasados; hoje não se beija mais a mão da mãe e menos ainda do padre.
➖ Vocês estão muito enganados. Se não beijam sua mãe, nem são agradecidos ao sacerdote, também não merecem o nome de homens, pois faltam-lhes sentimentos humanos. Temos que respeitar os ministros de Deus, como aos nossos pais, porque realmente são os pais de nossas almas.

148. CASTIGO DO CÉU

Em 18 de fevereiro de 1881, numa sexta-feira, houve em Mônaco um escandaloso baile de máscaras. Muitos dos mascarados ridicularizavam as vestes sacerdotais e os hábitos religiosos, fantasiando-se de frades e freiras, fingindo-se muito gordos com enchimentos de estopa e lã.

Alguém imprudentemente usou fogo para acender o cigarro, fogo esse que pegou num dos trajes usados e as chamas se propagaram como um rastilho de pólvora. Doze daqueles sacrílegos mascarados morreram no meio do pânico, e os outros, sofrendo dores horríveis, foram transportados ao hospital, onde alguns vieram a falecer e outros ficaram com cicatrizes das queimaduras como lembrança do infeliz divertimento.

Em face desta horrível catástrofe, toda a cidade exclamou:
➖ Castigo! Foi um castigo do Céu!

149. O RESPEITO DO IMPERADOR

No ano de 325, após três séculos de cruéis perseguições, movidas pelos imperadores pagãos contra os discípulos de Jesus Cristo, puderam afinal reunir-se em Nicéia os bispos de todo mundo, para celebrar o primeiro Concílio ecumênico ou universal. A esse concílio assistiram trezentos e quinze bispos e inúmeros sacerdotes. A ele assistiu também o grande imperador Constantino, que fizera cessar a perseguição contra a Igreja, convertendo-se ele próprio ao catolicismo.

O imperador, cheio de respeito para com os ilustres prelados, quis ocupar o último lugar na augusta assembleia e, além disso, não se assentava antes dos bispos ou sem obter permissão para isso. Terminado o grandioso Concílio, perguntou alguém ao monarca:
➖ Por que mostrava vossa majestade tanto respeito àqueles homens?
➖ Meu amigo - disse o imperador - o sacerdote, embora revertido de uma dignidade divina, é homem e pode pecar; mas nenhum de seus pecados deve diminuir o nosso respeito. Digo-lhe mais: se visse um sacerdote pecar, em vez de publicar ou divulgar o pecado dele, cobriria o sacerdote com meu manto imperial para subtraí-lo às murmurações.

Aquele imperador tinha razão. O caráter sacerdotal é de um valor intenso, impresso embora, algumas vezes, numa alma fraca.

150. VIVA CRISTO REI!

No México, não faz muitos anos, um presidente chamado Calles perseguiu com furor não só os padres, mas também todos os católicos militantes. Em setembro de 1927, os soldados de Calles prenderam três jovens: José Valência, Nicolau Navarro e Salvador Vergas, porque faziam propaganda em favor da religião.

Depois de maltratá-los brutalmente, conduziram-nos, a 3 de janeiro de 1928, para longe da cidade, e ali os espancaram e feriram com cutelos. Repreendeu-os José Valência, dizendo:
➖ Sois uns perversos, martirizando-nos ferozmente: Deus vos perdoe!
E dirigindo-se aos companheiros, recordou-lhes que eram católicos, que a verdadeira pátria era o céu, para onde logo partiriam. E todos os três gritaram: Viva Cristo Rei! Viva a Mãe de Deus! 

Furiosos, os cruéis soldados os espancavam de novo e cortaram-lhes a língua, dizendo:
➖ Vamos ver se agora falais e rezais!
Ao volver-se o mártir para os seus companheiros para mostrar-lhes o céu, fuzilaram-no e em seguida cortaram-lhe a cabeça. Os outros dois companheiros imitaram o heroísmo do primeiro.

Em seguida aquela soldadesca tomou os cadáveres e, levando-os à cidade, deixou-os no meio da praça, como se tivesse realizado uma grande façanha. Acudiu logo uma multidão imensa de curiosos. Chamaram também a mãe do jovem mártir José Valência. A heroica senhora, em vez de chorar, olhos fixos no céu exclamou:
➖ Senhor, bendigo-vos por terdes disposto que eu fosse a mãe de um mártir!
E julgando-se indigna de abraçar o corpo do filho, beijou-lhe os pés devotamente.

151. QUE LHE PARECE?

Apresentou-se, certo dia, num convento, uma jovem que desejava ser religiosa. Parecia ter muito boas disposições, mas a Superiora, querendo experimentar-lhe a vocação, percorreu com ela as dependências da casa, e foi dizendo:
➖Esta é a nossa capela. Aqui mora o dono da casa: é Jesus. O que Ele manda se faz; O que Ele proíbe, se deixa: o que não pede, se adivinha.

Rezaram ali um instante e, continuando a visita, disse a Superiora:
➖ Aqui é a sala de jantar: tudo pobre. Sendo assim, neste refeitório não se prova nenhum manjar delicado, entende?
➖ Sim, senhora - respondeu a jovem.
➖ Esta é a sala de trabalhos; como sabe, todas as religiosas vivem trabalhando e rezando; descanso, só no céu.

Passaram a outro corredor e a Superiora indicou uma cela à jovem, dizendo:
➖ Este será o seu quarto; é limpo, mas pobre, até na mobília. Será a sua morada para toda a vida: aqui você fará penitência por seus pecados e pelos pecados do mundo, ouviu?
➖ Sim, senhora.

Saíram para fora da casa, andaram alguns passos e a Superiora falou então:
➖ Olhe este horto; quando você falecer, será enterrada, sem nenhuma pompa, aos pés daquele grande Cristo.

A jovem, sem dizer uma palavra, contemplava a bela imagem de Jesus Crucificado.
➖ Que lhe parece? Tem medo?
➖ Não, madre - respondeu. Está tudo bem. Não tenho medo não; porque na capela, na sala de trabalhos, no refeitório, na cela, no jardim e em toda parte vi o Crucifixo; ele me dará forças para sofrer. Se tanto padeceu Jesus por mim, por que não hei de padecer um pouco por Ele?
E a jovem foi aceita. E tornou-se santa.

152. HEROÍSMO DE UM ANCIÃO

São Policarpo, um dos grandes heróis da Igreja Católica, era bispo de Esmirna e discípulo de São João Evangelista. Foi um dia detido por um piquete de soldados, aos quais recebeu e tratou com muita caridade ,convidando-os a se assentarem à sua mesa para a ceia.

Pediu-lhes depois lhe dessem tempo para encomendar a Deus a Igreja e seus perseguidores. Feita a sua oração, pôs-se a caminho com os soldados, que o maltrataram cruelmente durante toda a viagem, pagando com violências os benefícios que lhes fizera o santo bispo. Conduzido à presença do governador, quis este convencê-lo que era melhor sacrificar aos deuses e salvar a vida do que deixar-se martirizar. Falou-lhe assim:
➖ Venerável ancião, amaldiçoa a Cristo e eu te colocarei em liberdade.
➖ Faz oitenta anos que sirvo a Jesus Cristo e dele só tenho recebido favores e benefícios; por que, pois, haveria de amaldiçoá -lo?
➖ Se as feras não te dilacerarem - insistiu o governador - serás queimado vivo.
➖ Bem se vê que desconheceis o fogo eterno do inferno, e por isso me ameaças com o tormento do fogo terreno e passageiro.

Condenado à fogueira, o fogo, em vez de queimá-lo, formou como que uma grinalda ao redor dele, não lhe causando o menor dano. Atravessaram-no então com a espada e, assim, terminou gloriosamente a sua vida terrena o heroico confessor de Jesus Cristo e defensor intemerato da Santa Igreja.

153. SÃO CARLOS E A EPIDEMIA

Em 1576, propagou-se a peste negra na cidade de Milão (ltália) com força e velocidade aterradoras. As mortes eram contínuas. São Carlos Borromeu, zelosíssimo arcebispo daquela infeliz cidade, não encontrava pessoas que quisessem cuidar dos empestados, nem sacerdotes que dessem os sacramentos aos agonizantes.

A angústia do santo era grande; não podia ver aquela calamidade; precisava remediá-la. Ia, ele mesmo, de casa em casa, visitava e socorria os enfermos, começando pelos mais graves. Saía, depois, à janela das casas e, com vozes que cortavam os corações, convidava tanto aos sacerdotes como aos seculares que o ajudassem naquela obra de caridade.

Diante aquele belo exemplo do santo arcebispo, muitos cidadãos se sentiram impelidos a socorrer os empestados. Até os sacerdotes, que haviam fugido, voltaram para oficiar os sacramento aos moribundos, sendo coadjuvados por outros vindos do estrangeiro.

Naquela terrível epidemia, que durou cerca de um ano e meio, perderam a vida dois jesuítas, dois barnabitas, quatro frades capuchinhos e cento e vinte sacerdotes seculares. Assim sacrificaram a sua vida corporal aqueles zelosos ministros de Deus para a salvação eterna das almas, muitas das quais, sem os auxílios da religião e sem os santos sacramentos, ter-se-iam precipitado no inferno eternamente.

Para aplacar a cólera divina, organizou São Carlos grandes procissões de penitência, sendo ele o primeiro a tomar parte nelas, caminhando a pé e descalço e dirigindo ao céu fervorosas preces.

154. NÃO QUERO QUEBRAR O JEJUM

São Frutuoso, bispo de Tarragona, na Espanha, foi encarcerado por certo governador romano chamado Emiliano. Condenado a morrer queimado a fogo lento, achava-se ao pé da fogueira quando, alguns cristãos, compadecidos lhe ofereceram de comer para que não desfalecesse.
➖ Não, disse o confessor da fé, não quero quebrar o jejum; assim chegarei ao céu mais depressa.

Todos ficaram muito edificados com tal exemplo de fidelidade às leis da Santa lgreja.

158. CASTIGUE-ME!

Chegou a uma vila uma professora que não acreditava em Deus. E querendo corromper as alunas, disse-lhes:
➖ Vamos ao ditado; escrevei! E ditou-lhes despudoradamente: 'Não existe Deus; os que creem nele são uns bobos, aos quais se deveriam por orelhas de burro'.

Ao recolher e corrigir os ditados, viu que uma menina escrevera:
➖ Eu creio que Deus existe.
➖ Por que escreveste isto, senhorita? Olha que te castigarei.
➖ Minha mãe - disse a menina - ensinou-me que existe Deus, e acrescentou que é preferível deixar-se matar a ofender a Deus, nosso Criador. Se a senhora quiser castigar-me, castigue-me; Deus e minha mãe estarão contentes comigo.

Comoveu-se então a professora diante daquelas palavras pronunciadas por sua alunazinha, e mais tarde converteu-se.

159. NA MINHA FÁBRICA NÃO SE TRABALHARÁ

Um comerciante tinha em sua fábrica centenas de operários, cujo trabalho devia ser contínuo e uma suspensão do mesmo em dias festivos acarretava a perda de grandes lucros. Apresentou-se ao bispo e perguntou se podia considerar razão suficiente para trabalhar em dias festivos a considerável perda que sofria, e em consciência pedia-lhe licença para trabalhar depois que os operários tivessem ouvido missa.

O bispo disse-lhe que escrevesse ao papa. Ele o fez e a resposta favorável foi enviada ao próprio bispo, que foi encarregado de comunicá-la ao comerciante. Chamou-o e disse-lhe:
➖ O papa outorgou-vos a dispensa solicitada; mas o vosso exemplo há de influir nos outros, os quais nunca entenderão suficientemente o motivo da dispensa, pois o público não raciocina e só verá um favor concedido a um rico. Vede se quereis tomar sobre vós essa responsabilidade e se, na hora da morte, não tereis de arrepender-vos de haver dado motivo para que outros faltassem contra a lei de Deus.
➖ Está bem, senhor bispo; na minha fábrica não se trabalhará em nenhum dia de festa. Prefiro perder bom dinheiro a arcar com tanta responsabilidade.

160. ASSIM CONTA UM MISSIONÁRIO

Um missionário foi chamado para assistir a um velho moribundo que vivia numa casinha perdida numa vasta planície. Levou consigo o necessário para celebrar a missa. Tratava-se de um senhor de origem francesa que há quarenta anos vivia na região de Filadélfia e fazia vinte anos que não vira mais um sacerdote.

O missionário atendeu ao enfermo, celebrou a missa para dar-lhe a comunhão e, terminada a ação de graças, perguntou ao doente:
➖ Que prática especial fez o senhor durante a sua vida para merecer a assistência de Deus nos seus derradeiros instantes?
O velho pensou um pouco e disse:
➖ O único bem que fiz foi caminhar todos os sábados sessenta quilômetros para ir à vila confessar-me, comungar e ouvir a missa no domingo. Isto fiz sempre até que meus incômodos me impediram.

Pois foi isso precisamente que o fez merecer a graça de receber os últimos sacramentos.

161. COMO ELE MEDITAVA NA MORTE

Santo Efrém ia frequentemente, à tardinha, meditar junto às sepulturas. Triste e pensativo ia de túmulo em túmulo, lendo as inscrições e nomes dos defuntos: príncipes da cidade, magistrados da província, ricos senhores, sábios admirados pelo mundo. 

Às vezes, o santo chamava-os em voz alta por seus nomes: ninguém lhe respondia. Onde estão aquelas soberbas figuras de homens e de mulheres aos quais todos se sujeitavam? Aquelas línguas que só falavam de seus próprios méritos e dos defeitos alheios? Onde estão? Onde estão aqueles ouvidos que só queriam ouvir os seus próprios louvores?

Tudo tornou-se pó e cinza. Lembra-te, ó homem soberbo, que és pó! Então Santo Efrém voltava para casa mais humilde e mais paciente.

162. O MUNDO PERVERTE

São Gabriel da Virgem Dolorosa, depois de passar a primeira juventude entre as lisonjas do mundo, refugiou-se na religião e nos primeiros dias de convento, pensando em seu amigo Filipe Giovanetti, que era estudante no liceu de Espoleto e, temendo por ele, que se encontrava em muitas tentações de pecado, escreveu-lhe assim: 

'Tens razão de dizer que o mundo está cheio de perigos e tropeços e que é coisa muito difícil poder salvar nossa única alma; não deves por isso desanimar. Desejas a tua salvação? Foge dos maus companheiros. Desejas a tua salvação? Foge dos teatros. Ó é verdade, e eu sei por experiência, que é impossível entrar neles com a graça de Deus e sair sem a ter perdido ou a posto em perigo. Desejas a tua salvação? Foge das diversões, porque naqueles lugares tudo se conjura contra a nossa alma. Foge enfim dos maus livros, pois é indizível o mal que eles podem causar aos corações de todos e especialmente dos jovens. Dize-me: podia ter eu maiores diversões e prazeres do que gozei no mundo? Pois bem: o que me resta agora? Confesso-o a ti: Não me restam senão amarguras'.

163. QUERIA MORRER MÁRTIR...

O pequeno Orígenes tinha uma alma ardente e pura. Naquele tempo havia perseguições contra os cristãos. Bem o sabia o menino, e não tinha medo, antes tinha grande desejo do martírio para testemunhar com a vida e o sangue o seu amor a Jesus Cristo. Resolvera secretamente entregar-se nas mãos dos verdugos e teria morrido mártir se a astúcia de sua mãe não tivesse conseguido impedi-lo.

Aquela santa mulher compreendera o propósito do filho e, antes que este despertasse naquela manhã perigosa, escondeu-lhe as roupas e o obrigou a ficar na cama (Eusébio, História Eclesiástica). Como é possível que um menino tivesse tanta coragem, tanta fé e tanto entusiasmo a ponto de desejar a morte? Era possível, porque seu pai, o beato Leônidas, também morrera como mártir.

Aí está, prezados pais, vossos filhos crescerão segundo os vossos exemplos. Vós os quereis obedientes: obedecei também vós a Deus. Vós os quereis religiosos, puros, honrados, trabalhadores: frequentai também vós os sacramentos e exercitai-vos nas virtudes cristãs.

164. AMOR AOS ENFERMOS

Os missionários católicos não encontram campo mais difícil de conquistar para a fé do que entre os maometanos. Quantas experiências não terminaram em sangue? Escolheram, então, o método de praticar a caridade antes de a ensinar. Ante os missionários que curam os enfermos e protegem os infelizes, também o orgulho muçulmano se dobra. 

Irmã Rosália, filha da caridade, trabalhava num dispensário. Para extrair os dentes daqueles pobrezinhos, era mister primeiro vencer o horror às pinças, e a lrmã usava das mais carinhosas expressões árabes: Coragem, meu coração, minha alma, meus olhos! E a pobre mulher, depois de curada, retirava-se dizendo: 'Que Alá conserve suas mãos!'

Alguns muçulmanos, que esperavam seu turno, diziam: 'Se todos os infiéis (chamam assim aos cristãos) vão para o inferno, para lrmã Rosália far-se-á uma exceção'. Quando, em Damasco, a religiosa cuidava de um doente, este lhe disse: 'Estou reduzido à última miséria; tenho esposa e filhos e nenhum dos meus pensa em consolar-me. Tu, que és estrangeira, vens à minha pobre casa para me socorrer; tua religião é melhor do que a minha'.

Assistindo a uma jovem muçulmana, Irmã Rosália deu-lhe uma medalha de Nossa Senhora que a enferma beijou e pôs ao pescoço. A Irmã criou coragem e apresentou-lhe um Crucifixo. É coisa inaudita para um muçulmano beijar o Crucifixo... entretanto a jovem o beijou; e os parentes e amigos não só não o impediram, como até o aprovaram. Ó quanto bem se pode fazer, tratando os doentes com amor e com verdadeira caridade cristã...

165. TENS O NOME DE CRISTÃO...

O pobre 'rei de Roma', o pálido filho de Napoleão I, teve que passar na Áustria os poucos anos de sua juventude. Foram dias dolorosos para ele. O ministro Metternich, quando queria mortificá-lo, dizia-lhe que não tinha nada de seu Pai, nada que o fizesse capaz de governar. 'Tens o chapéu, mas não tens a cabeça de teu pai'.

A quantos que se dizem cristãos se poderia repetir a mesma reprimenda: 'Tens o nome, mas não o coração de Jesus Cristo'. Por quê? Porque não ajudas o teu próximo nem te compadeces dele.

166. O QUE FALTAVA ERA A HUMILDADE

Serapião, o famoso santo do deserto, recebeu um dia a visita de certo monge que continuamente se dizia pecador, e pedia-lhe conselhos de perfeição. O santo, depois de havê-lo feito assentar-se à sua mesa, permitiu-se fazer-lhe algumas observações para o bem de sua alma. 'Filho' - disse-lhe com grande mansidão e caridade - 'estás no reto caminho, mas se queres progredir na perfeição, não andes demais por aqui e acolá; fica em tua cela, atende à oração, ao trabalho, ao recolhimento interior, do contrário...'

Não pôde nem acabar a frase, porque o monge ficou pálido, agitado e gritava como um possesso. 'lrmão meu' - disse Serapião - 'o que te falta é a humildade'. 

Vá alguém fazer a mesma correção a uma senhora, a uma jovem, e diga-lhe: 'Criatura de Deus, estás sempre fora de casa, de manhã, de tarde e à noite, gastando horas inteiras sem fazer nada, proseando inutilmente...' Então vereis como o tempo esquenta...

167. BEIJOU A MÃO DE SÃO DOMINGOS

Um homem entregue a todos os vícios e atormentado pelo demônio, ouvindo dizer que São Domingos estava em Bolonha, foi vê-lo, assistiu à missa que o santo celebrou e depois correu a beijar-lhe a mão. Apenas deu o respeitoso ósculo, experimentou um tal perfume, que lhe pareceu ter vindo do Céu e como jamais experimentara em toda a sua vida.

O mais maravilhoso é que, imediatamente, se lhe apagou o fogo da luxúria e ele se converteu a uma vida sinceramente cristã. Era o efeito da palavra de Cristo: 'lde e mostrai-vos aos sacerdotes!' (Lc 17, 11). Cristãos! quando as tentações vos assaltarem; quando o demônio conseguir escravizar a vossa alma, apresentai-vos ao sacerdote para ouvir a santa missa ou, melhor, para vos confessardes. Também vós, como o pecador de Bolonha, experimentareis um perfume celestial, que é o odor da graça divina.

168. AQUELE FUSO FLORESCEU

Conta-se que uma santa, a virgem Libéria, fiava todos os dias por amor de Deus e dos pobres, e eis que, de repente, em seu fuso floresceram perfumadas flores como nunca se viram em parte alguma do mundo.

Ó se, como nos aconselha São Paulo, fizéssemos tudo por amor de Deus; os anjos veriam florescer os instrumentos de nosso trabalho: a enxada do lavrador, o malho do ferreiro, a tesoura da costureira, a vassoura da criada, a panela da cozinheira, a pena do escritor!

169. SÓFOCLES E OS SEUS FILHOS

Um dos grandes poetas da Grécia e do mundo, Sófocles, foi denunciado como louco por seus próprios filhos que, antes do tempo devido, pretendiam a herança paterna. O processo foi interessantíssimo e muita gente acudiu ao tribunal. Por um lado o velho poeta estava tranquilo e, por outro, os seus desnaturados e rebeldes filhos se esforçavam por demonstrar a demência do pai.

Quando se calaram, reinou um profundo silêncio e todos ficaram em expectativa. Então Sófocles puxou, por sob a toga, a sua última peça de tragédia e declamou-a diante dos acusadores, juízes e povo. Quando terminou, todos o aplaudiram freneticamente e pediram que o glorioso ancião fosse coroado com coroa de louro, enquanto seus indignos filhos, humilhados, correram a esconder-se.

Para defender-se das acusações e calúnias dos seus filhos rebeldes, não tem a Igreja necessidade senão de apresentar o seu Evangelho e as suas obras.

170. ZOMBAVAM DE NOÉ

Eram tantos os pecados do mundo que um dia Deus se arrependeu de ter criado o homem. Chamou a Noé, que era justo, e ordenou-lhe que construísse um grande navio: a arca. Cento e vinte anos foram gastos na sua construção. 

São João Crisóstomo descreve as zombarias que os homens corrompidos dirigiam a Noé. Diziam: 'Caduco! ó velho caduco! ó falso profeta! Não vês, como o céu está limpo e sereno, enquanto tu ameaças com o dilúvio?' Noé, porém, continuava, martelando sem descanso. E aqueles homens diziam: 'Todos anseiam pelo ar livre e o céu espaçoso e este está a fazer uma casa de madeira para meter-se vivo nela com sua família, com seus bens e com os animais!'

Noé termina a arca e entra, com aquela gente má ao redor rindo e escarnecendo. Mas, depois de sete dias, as cataratas do céu abriram-se com estrondo, todos os rios transbordaram e as ondas do mar inundaram a terra. Todos pereceram no dilúvio universal; mas a arca flutuava sobre as águas e Noé louvava a Deus. 

Nossa vida na terra é como a arca de Noé. Toda boa obra, que praticamos, é motivo de zombaria e de perseguições por parte dos inimigos de Deus. Não recuemos, não nos envergonhemos do Evangelho, não nos deixemos vencer pelo respeito humano.

171. FASCINADO PELO DINHEIRO

Num domingo, em Nova York, um excêntrico milionário chamou um de seus empregados e lhe disse: 'Sobre esta mesa há um milhão de notas de um dólar. Tudo será teu, se conseguires contá-las até meia-noite e, olha, ainda são seis horas da manhã'. O empregado ficou por uns instantes atordoado diante daquela mesa coberta de notas. Em seguida, com mãos febris, começou a contar: um, dois, dez, cem... um pacote, dois pacotes... e quase que nem respirava. 

Ficou ali com a cabeça reclinada, o olhar fixo, o corpo imóvel, somente as mãos se agitando, indo e vindo tão rapidamente como a regularidade de uma máquina. Os sinos tocam para a santa missa, chamando o povo. Ele, debruçado sobre o dinheiro, não ouve nada. Passam as horas... é meio-dia. Deve sentir fome, mas nem pensa em comer. Conta e conta... Põe-se o sol. Onde estarão os seus filhos? Terão o que comer? Chega a noite... e as ruas estão desertas e o prédio está coberto pelo silêncio e pelas sombras. 

Um serviçal acende a luz e leva-lhe um copo de vinho. O contador nem o percebe. Os olhos já estão pesados, os nervos retraem-se, os músculos das mãos entorpecem. Está próxima a meia-noite. Ele conta e conta sempre. Diante dele, o milionário o contempla com frieza e, de repente, toma-lhe as mãos e grita: 'Basta! É meia-noite'. O infeliz não tinha chegado nem à metade de sua meta. Dilata horrivelmente os olhos sem luz e um ataque cardíaco o acomete e o faz cair morto.

Pobre louco que se deixara alucinar e seduzir pelo ouro! Em lugar do que esperava, só encontrou desenganos e a morte. Destes loucos há por aí inúmeros. Para a igreja, para a missa, para a alma, não têm tempo: devem ganhar dinheiro! Até que um dia vem o demônio e lhe diz: 'Basta!'

172. A VOZ DO SANGUE CRISTÃO

O sangue dos mártires dá testemunho da verdade católica. Não foram raros os episódios como o seguinte. Nas catacumbas, no dia de Páscoa, muitíssimos cristãos estavam reunidos e assistiam à missa do Pontífice Caio. Durante a elevação da hóstia, enquanto o povo a adorava, ouviram-se gritos: 'Morte aos Cristãos!' Eram os gritos dos beleguins de Diocleciano que ali penetraram por traição. 

Sem saírem do lugar, a multidão continuava adorando a Cristo na Eucaristia. Os soldados com suas espadas iam ferindo à direita e à esquerda. 'Filhos caríssimos' - exclamou o Pontífice Caio - 'Cristo morreu e ressuscitou por nós. Coragem! Ele quer nos coroar com Ele'. E todos a uma voz gritaram: 'Somos cristãos'. A matança continuou, mas ninguém vacilou. As mães, segurando junto ao peito os seus filhinhos, diziam: 'Vamos para o céu; o Senhor Jesus vem nos buscar'.

O Papa Caio disse por sua vez: 'Sou cristão' e, ao ser decapitado, sua cabeça rolou pelos degraus do altar. Morreram os cristãos, morreu o papa... mas a Igreja não morre! O tempo dos mártires não terminou. Em nossos dias, temos outros mártires gloriosos, cujo sangue faz brilhar a nossa fé, fortalece a nossa confiança e entusiasma o nosso ardor e só faz crescer o nosso amor à Igreja.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos', do Pe. Francisco Alves, 1958; com adaptações)