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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

SORRISOS DE DEUS (I)

(São Padre Pio, falecido em 1968)

(São Carlo Acutis, falecido em 2006)

(Serva de Deus Anne-Gabrielle Caron, falecida em 2010)

(Santa Gianna Beretta Molla, falecida em 1962)

(São Pier Giorgio Frassati, falecido em 1925)

(São Rafael Arnaiz Barón, falecido em 1938)

(Santa Bernadete Soubirous, falecida em 1879)

(São Josemaria Escrivá, falecido em 1975)

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

ETYMOLOGIAE (III)


📌Cânones dos Concílios (De canonibus Conciliorum)

1. Cânone (canon) é uma palavra grega; em latim, significa 'régua' ou 'norma' (regula). A régua recebe esse nome porque traça em linha reta (recte) e nunca se desvia. Alguns dizem que ela é assim chamada porque rege (regere), porque oferece uma norma para viver retamente (recte) ou porque corrige (corrigere) tudo o que é deformado ou perverso.

2. Os cânones dos concílios gerais começaram no tempo de Constantino pois, nos anos anteriores, enquanto grassavam as perseguições, havia pouca oportunidade para instruir o povo. 

3. Por essa razão, o cristianismo foi dilacerado por diversas heresias, pois não havia liberdade para que os bispos se reunissem em unidade até o tempo do imperador acima mencionado, que concedeu aos cristãos a faculdade de se congregarem livremente.

4. Sob Constantino, os santos Padres, reunidos de todas as partes do mundo no Concílio de Niceia, promulgaram, em conformidade com a fé evangélica e apostólica, o segundo Credo - o Credo Niceno - depois do Credo dos Apóstolos.

5. Entre os concílios da Igreja, quatro são os veneráveis sínodos que mais plenamente abrangeram toda a fé, assim como quatro são os Evangelhos e quatro os rios do Paraíso.

6. O primeiro deles, o Sínodo de Niceia, composto por 318 bispos, realizou-se durante o governo de Constantino Augusto. Nele foi condenada a blasfêmia da perfídia ariana acerca da desigualdade da Santíssima Trindade, defendida pelo próprio Ário. Esse santo sínodo estabeleceu, por meio de seu Credo, que Deus Filho é consubstancial a Deus Pai.

7. O segundo sínodo, composto por 150 Padres, reuniu-se em Constantinopla sob Teodósio, o Velho. Condenando Macedônio, que negava que o Espírito Santo fosse Deus, demonstrou que o Espírito Santo é consubstancial ao Pai e ao Filho, dando forma ao Credo que todos os fiéis de língua latina e grega proclamam nas igrejas.

8. O terceiro, o Primeiro Sínodo de Éfeso, composto por 200 bispos, realizou-se sob Teodósio Augusto, o Jovem. Condenou, com justa sentença de anátema, Nestório, que afirmava haver duas pessoas em Cristo; e demonstrou que, em duas naturezas, subsiste a única pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo.

9. O quarto, o Sínodo de Calcedônia, composto por 630 sacerdotes, realizou-se sob o imperador Marciano. Nesse sínodo, uma sentença unânime dos Padres condenou Eutiques, abade de Constantinopla, que pregava haver uma única natureza tanto do Verbo de Deus quanto de sua carne; condenou também seu defensor Dióscoro, antigo bispo de Alexandria, e novamente Nestório, juntamente com os demais hereges. Esse mesmo sínodo proclamou que Cristo Senhor nasceu da Virgem e, consequentemente, reconhecemos que em Cristo se encontra a substância tanto da natureza divina quanto da natureza humana.

10. Estes são os quatro principais sínodos, que proclamaram com a maior plenitude a doutrina de nossa fé. E todos os outros concílios que os santos Padres, repletos do Espírito de Deus, sancionaram permanecem em pleno vigor, sustentados pela autoridade desses quatro, cujas realizações estão registradas nesta obra.

(Excertos da obra 'The Etymologies of Isidore of Seville' (Barney et al. 2006), tratado etimológico de Santo Isidoro de Sevilha [560 - 636], sobre o conhecimento da Antiguidade Clássica inserido no contexto de uma visão cristã do mundo)

sábado, 22 de agosto de 2026

ETYMOLOGIAE (II)


📌 Heresia e Cisma (De haeresi et schismate)

1. 'Heresia' (haeresis) recebe esse nome, em grego, a partir de 'escolha' (electio; cf. αἱρεῖν, 'escolher'), sem dúvida porque cada pessoa escolhe (eligere) para si aquilo que lhe parece melhor, como fizeram os filósofos peripatéticos, acadêmicos, epicuristas e estoicos - ou como outros que, seguindo doutrinas perversas, afastaram-se voluntariamente da Igreja.

2. Por conseguinte, 'heresia', palavra de origem grega, recebe seu significado de 'escolha', pela qual cada pessoa, segundo o próprio juízo, escolhe para si aquilo que lhe apraz estabelecer e adotar. A nós, porém, não é permitido introduzir coisa alguma com base em nosso próprio juízo, nem escolher aquilo que outra pessoa tenha introduzido segundo o seu julgamento particular.

3. Temos como autoridades os apóstolos de Deus, que não escolheram por si mesmos coisa alguma para introduzir segundo o próprio juízo, mas transmitiram fielmente ao mundo a doutrina recebida de Cristo. E, ainda que um anjo vindo do céu pregue de outro modo, será declarado anátema.

4. 'Seita' (secta) recebe esse nome de 'seguir' (sequi, particípio secutus) e de 'manter' (tenere), pois empregamos o termo 'seitas' para designar disposições de espírito e instituições ligadas a determinado preceito ou princípio, que as pessoas mantêm e seguem quando, na prática religiosa, professam crenças muito diferentes daquelas professadas pelas demais.

5. 'Cisma' (schisma) recebe esse nome da divisão (scissura) das opiniões, pois os cismáticos conservam o mesmo culto e o mesmo rito que os demais; comprazem-se apenas na dissensão (discidium) dentro da comunidade. O cisma ocorre quando algumas pessoas dizem: 'Nós somos os justos', 'Somos nós que santificamos os impuros' e outras coisas semelhantes.

(Excertos da obra 'The Etymologies of Isidore of Seville' (Barney et al. 2006), tratado etimológico de Santo Isidoro de Sevilha [560 - 636], sobre o conhecimento da Antiguidade Clássica inserido no contexto de uma visão cristã do mundo)

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

ETYMOLOGIAE (I)


📌 Mártires (De martyribus)

1. Na língua grega, os 'mártires' (martyr) são chamados, em latim, 'testemunhas' (testis); daí também os 'testemunhos' serem chamados, em grego, martyria. E são chamados testemunhas porque, em razão do testemunho (testimonium) que deram de Cristo, padeceram seus sofrimentos e combateram pela verdade até a morte.

2. Embora pudéssemos chamá-los 'testes', empregando o termo latino, nós os chamamos 'mártires', segundo o grego, porque essa palavra grega tornou-se bastante familiar aos ouvidos da Igreja, assim como muitos outros termos gregos que empregamos em lugar dos latinos.

3. O primeiro mártir do Novo Testamento foi Estêvão, cujo nome, na língua hebraica, é interpretado como 'estandarte', pois, em seu martírio, ele foi o primeiro modelo proposto à imitação dos fiéis. O mesmo nome, traduzido da língua grega para o latim, significa 'o coroado'; e isso de modo profético, porque, por certa previsão do futuro, seu nome anunciava antecipadamente aquilo que haveria de acontecer: ele sofreu e recebeu aquilo que seu nome significava. Assim, 'Estêvão' quer dizer 'coroado': na humildade, foi apedrejado; na glória, porém, foi coroado.

4. Há, além disso, duas espécies de martírio: uma consiste no sofrimento manifesto; a outra, na fortaleza oculta da alma. Com efeito, muitas pessoas, suportando as ciladas do inimigo e resistindo a todos os desejos carnais, tornaram-se mártires mesmo em tempos de paz, porque se ofereceram, em seus corações, como sacrifício a Deus Todo-Poderoso. São precisamente aquelas que, se sobreviesse um período de perseguição, também poderiam ter sido mártires.

(Excertos da obra 'The Etymologies of Isidore of Seville' (Barney et al. 2006), tratado etimológico de Santo Isidoro de Sevilha [560 - 636], sobre o conhecimento da Antiguidade Clássica inserido no contexto de uma visão cristã do mundo)

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

GALERIA DE ARTE SACRA (XLVII)

William Dyce
(1806–1864) foi um pintor escocês particularmente interessante para quem aprecia arte cristã tradicional, ocupando uma posição singular na pintura britânica do século XIX como um artista especializado sobretudo em temas religiosos e medievais. Dyce procurava conciliar correção acadêmica, beleza formal e sentimento religioso, evitando muitas vezes o sentimentalismo teatral que aparece em parte da pintura religiosa oitocentista. Essa dimensão religiosa não era apenas temática. Dyce tinha profundo interesse pela liturgia e pela música sacra. Em 1841 fundou a Motett Society, dedicada ao estudo, execução e republicação de música eclesiástica dos séculos XVI e XVII. 

Abaixo, apresenta-se a reprodução de algumas das suas obras mais clássicas, sendo apenas a última delas uma obra não sacra.

Davi no deserto*

Nossa Senhora e o Menino Jesus

Cristo, Homem das Dores*

Lamentação sobre o Cristo Morto

São João conduz Nossa Senhora após a Crucificação

O encontro de Jacó e Raquel

Baía de Pegwell, Kent** - uma recordação de 5 de outubro de 1858

* Davi, representado como um jovem pastor, e Jesus são retratados em paisagens inspiradas nas Terras Altas da Escócia, em vez de nos cenários próprios do contexto bíblico.
** A pintura mostra membros de sua família recolhendo conchas na praia, diante das falésias de Kent.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

O MARTÍRIO DO PAPA SÃO SIXTO II

Era o ano de 258. O imperador Valeriano, cedendo à pressão dos clamores fanáticos levantados contra os cristãos - inflamados pelas desgraças que então afligiam o Império - renovara, no ano anterior, a perseguição à Igreja com severidade ainda maior do que a exercida por Décio.

Pela primeira vez, a santidade dos túmulos deixava de ser refúgio para os perseguidos seguidores de Jesus. O decreto imperial de 257 proibia aos cristãos frequentarem aquilo que os pagãos chamavam de seus 'cemitérios'. Mas o preceito apostólico de 'não abandonar as assembleias' (Hb 10,25) constituía uma lei superior ao édito do imperador; por isso, nas estreitas capelas subterrâneas das Catacumbas, os fiéis continuavam a assistir ao Santo Sacrifício da Missa.

Os agentes do imperador vigiavam cuidadosamente as entradas dos principais cemitérios. O grande cemitério de São Calisto era, naturalmente, o principal objeto de sua vigilância. Por essa razão, no dia 6 de agosto, o santo Pontífice Sisto II escolheu o cemitério de São Pretextato como o lugar onde celebraria os Sagrados Mistérios.

Era esse um local já santificado por mais de um século de recordações sagradas. Ali repousava o tribuno São Quirino, que sofrera o martírio pela fé no tempo do imperador Adriano. Ali a nobre Marmênia construíra uma câmara subterrânea abobadada, onde depositara os preciosos restos de São Januário, o primogênito dos sete filhos mártires de Santa Felicidade, cuja inscrição funerária, composta pelo Papa São Dâmaso, só veio a ser descoberta nos tempos mais recentes.

Ali também haviam sido sepultados Valeriano, esposo mártir de Santa Cecília, juntamente com seu irmão Tibúrcio e Máximo, companheiro de ambos no martírio. Pouco depois, seria igualmente sepultado numa das capelas dessa mesma catacumba o santo bispo Urbano, que justamente naquele lugar os instruíra na fé.

E agora uma procissão de futuros mártires avança pelo corredor excepcionalmente amplo desse antigo cemitério. O mais venerado santuário desse cemitério era o túmulo de São Januário; e é para lá, ao que tudo indica, que a procissão se dirige. Os diáconos Felicíssimo e Agapito preparam o altar, enquanto o arquidiácono Lourenço permanece junto do venerável Pontífice, pronto para servi-lo em tudo. Destacado por sua viril formosura e ardentemente amado por todos os pobres e aflitos entre os fiéis, o arquidiácono, de traços nobres e delicadamente esculpidos, parecia irradiar uma incomum auréola de santidade enquanto ajudava o Papa a revestir-se dos paramentos sagrados e a dar início ao Santo Sacrifício.

A Missa prossegue. Os fiéis já receberam das mãos de Sisto o Pão do Céu. Em seguida, o Pontífice, rodeado pelos seus diáconos, toma assento na cátedra de pedra junto ao altar e começa a dirigir a palavra aos presentes. De repente, ouve-se ao longe um grito de alarme. O estrépito das armas e o tropel de numerosos passos ecoam rapidamente pelo corredor subterrâneo. Aqueles que não conseguem fugir encontram coragem na serenidade imperturbável dos ministros sagrados, enquanto seus corações se fortalecem pelas palavras quase inspiradas do Pontífice.

Um traidor conduzira os sicários de Valeriano aos recessos da Catacumba; e ali eles prenderam os sete diáconos e puseram mãos sacrílegas sobre a pessoa sagrada do Vigário de Cristo. O santo Pontífice suplicou-lhes que lhe tirassem a vida, mas poupassem o seu rebanho: 'Se é a mim que procurais, deixai que estes se retirem em paz'. Quando chegaram à cidade, os guardas encarregados de São Lourenço prepararam-se para separá-lo dos demais. Então, pela primeira vez, um amargo clamor de dor brotou de seu coração. Parecia-lhe que a gloriosa coroa do martírio estava prestes a ser-lhe arrebatada e que somente ele, entre os diáconos de Roma, ficaria privado da honra de acompanhar seu amado Pontífice no supremo sacrifício. 

Exclamou então, dirigindo-se a São Sisto: 'Pai, para onde ides sem vosso filho? Para onde ides, ó sacerdote, sem vosso diácono? Nunca costumastes oferecer o Sacrifício sem que eu vos assistisse como ministro. Em que vos desagradei? Em que faltei ao meu dever? Ponde-me agora à prova e vede se escolhestes um ministro indigno de distribuir o Sangue do Senhor'.

São Sisto, profundamente comovido pelo apelo daquele nobre jovem, consolou-o com palavras que revelavam o quanto conhecia e estimava o caráter de seu dileto arquidiácono: 'Não te deixo, meu filho. Uma prova maior e uma vitória mais gloriosa estão reservadas para ti, que és forte e te encontras no vigor da juventude. Nós somos poupados às torturas por causa de nossa fraqueza e da nossa idade. Dentro de três dias, tu me seguirás' [São Lourenço foi queimado vivo sobre uma grelha]. 

Em seguida, confiou reservadamente ao arquidiácono a missão de distribuir entre os pobres todos os tesouros da Igreja, inclusive os cálices de ouro e os candelabros de prata que haviam despertado a cobiça do prefeito. Logo depois, Sisto foi conduzido perante os juízes e condenado à morte por haver desobedecido ao édito do imperador. E, para tornar ainda mais solene e intimidatória a proibição de frequentar as Catacumbas, determinou-se que Sisto e quatro de seus diáconos fossem executados precisamente na capela onde haviam sido presos.

Mais uma vez o cemitério de São Pretextato ressoou com o tropel de homens armados. Mais uma vez os fiéis acorreram timidamente à entrada da capela subterrânea, que permanecia exatamente como fora deixada quando o sermão de São Sisto havia sido tão brutalmente interrompido. Mas São Lourenço já não estava ao lado do Pontífice. Preparava-se para o seu próprio e glorioso martírio. O venerável Papa foi colocado à força em sua cátedra episcopal, e um soldado decepou-lhe a cabeça, de modo que a cadeira ficou tingida pelo seu sangue. Felicíssimo, Agapito e outros dois diáconos receberam, ao mesmo tempo, a coroa do martírio. Mais tarde, os fiéis lhes deram sepultura na capela de São Januário.

Os preciosos despojos de São Sisto foram, durante a escuridão da noite, transportados com profunda veneração para o vizinho cemitério de São Calisto, onde foram depositados no lugar de maior honra da cripta, junto aos muitos Papas mártires que ali já repousavam. O reboco que revestia a entrada dessa cripta papal conserva numerosas inscrições (graffiti) deixadas pelos peregrinos dos séculos III e IV. Entre todos os nomes ali invocados, nenhum aparece com tanta frequência quanto o de São Sisto II.

Eis um exemplo: Sancte Sixte in mente habeas in orationes Aureliu Repentinu - São Sisto, lembrai-vos em vossas orações de Aurélio Repentino. Esse simples pedido gravado na parede da catacumba testemunha a fé dos primeiros cristãos na intercessão dos santos e a profunda veneração de que gozava o Papa mártir poucas gerações após o seu sacrifício.

No reboco de um lóculo escavado no arco acima da pedra do altar, na capela de São Januário, provavelmente datado da época de São Dâmaso, ainda hoje se pode ler uma singela inscrição: 'Januário, Felicíssimo e Agapito, concedei refrigério* à alma de...' - seguindo-se o nome, hoje perdido, da pessoa ali sepultada.

(Excertos da obra Legends of the Blessed Sacrament, de Emily Mary Shapcote, 1877)

* O termo 'refrigério' traduz o antigo pedido cristão refrigerare animam, muito frequente nas inscrições funerárias das catacumbas. 

quarta-feira, 1 de julho de 2026

GALERIA DE ARTE SACRA (XLVI)

Os vitrais e as rosáceas constituem um dos elementos mais característicos da arquitetura gótica medieval. As rosáceas são grandes janelas circulares preenchidas por delicados rendilhados de pedra com vitrais. Muito além de elementos de decoração, expressam a fé católica por meio da luz transmitida que assume a cor dos vidros coloridos. Nas palavras de São Bernardo de Claraval: 'Assim como um raio de luz branca entra numa janela de vidro e sai ileso, mas adquire a cor do vidro, o Filho de Deus, que entrou no ventre castíssimo da Virgem, saiu puro, mas assumiu a cor da Virgem, isto é, a natureza de um homem e a formosura da forma humana, e revestiu-se dela'. As rosáceas das grandes catedrais francesas expressam magistralmente a beleza desta comparação.  

(rosácea norte da Catedral de Chartres)

(rosácea norte da Catedral de Chartres)

(rosácea norte da Catedral de Notre-Dame)

(rosácea da Catedral de Estraburgo)

(rosácea ocidental da Catedral de Amiens)

(rosácea ocidental da Catedral de Laon)

(rosácea ocidental da Catedral de Reims)

segunda-feira, 8 de junho de 2026

GALERIA DE ARTE SACRA (XLV)

Os tapetes de Corpus Christi revelam uma tradição muito antiga, que surgiu na região dos Açores em Portugal no século XV e foi introduzida no Brasil no período colonial. Em Minas Gerais, estado que durante o Ciclo do Ouro recebeu milhares de portugueses, a tradição foi amplamente difundida e se enraizou na sociedade cristã de todas as épocas, fazendo parte da tradição religiosa mineira. Em Ouro Preto/MG, essa tradição resulta em um verdadeiro espetáculo de fé, arte e cultura, numa mistura grandiosa de beleza, devoção e encantamento.





 


sábado, 28 de março de 2026

BREVIÁRIO DIGITAL - ICONOLOGIA CRISTÃ (XI)

Os ícones para a Festa de Todos os Santos desenvolveram-se principalmente a partir do século IX e não apresentam muitas variantes. O cenário de referência é o Paraíso, expresso pelas imagens de árvores e arbustos. A parte central do ícone representa a chamada 'nuvem de testemunhas', descrita por São Paulo em sua carta aos Hebreus (Hb 11,33-12,2), contemplando os santos de todos os tempos. O círculo que os envolve representa, na tradição cristã, a dimensão da eternidade. Os santos estão reunidos ao redor de Cristo, comumente com vestes douradas (símbolo de sua realeza) e um livro nas mãos (símbolo de sua missão profética), envolvido por uma mandorla (halo amendoado), símbolo ancestral para expressar a majestade, a glória e a divindade de Cristo nos ícones sagrados.


Os santos são representados em hierarquias distintas, incluindo apóstolos, mártires, profetas, Padres da Igreja e assim por diante, sempre num contexto de um multidão inumerável, como expresso no Apocalipse: 'uma multidão enorme, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas' (Ap 7,9). Em algumas representações, esta hierarquia é ainda muito mais rígida, buscando refletir a ordem divina dos Céus, como um grande templo celestial com Cristo reinando sobre tudo.


Abaixo do Cristo, encontra-se o Trono da Preparação, simbologia da Presença Invisível de Cristo, por meio de um trono vazio, ornado por um manto (símbolo da autoridade) e por um livro (Livro da Vida), que simboliza o julgamento final por Cristo que virá 'para julgar os vivos e os mortos' de todos os tempos. Esta simbologia universal e temporal é representada pelas figuras de Adão e Eva que se prostram sobre o trono vazio. O trono vazio é, muitas vezes, complementado pela imagem da Cruz de Cristo, sustentada por anjos ou por Santa Helena.


Na parte inferior esquerda do ícone, encontra-se o Patriarca Abraão segurando uma criança no colo, símbolo das almas dos justos, que encontram repouso no 'seio de Abraão' (Lc 16,19-31). À direita, tem-se o Patriarca Jacó, segurando um pano que ostenta o símbolo das 'Dozes Tribos de Israel', ou seja, todos os santos do Antigo Testamento, enquanto no centro está São Dimas, o ladrão penitente a quem Cristo disse na cruz: 'Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso' (Lc 23,39-43). Alternativamente, o Patriarca Isaac também é representado, com todos os patriarcas acolhendo em si as almas dos justos. Nos cantos superiores, encontram-se as imagens dos reis Salomão (à esquerda) e Davi (à direita), segurando pergaminhos com cantos sapienciais.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

ATÉ QUANDO?

'Nos últimos tempos, virão escarnecedores cheios de zombaria, que viverão segundo as suas próprias concupiscências' (2Pd 3,3)


'Feliz o homem que não procede conforme o conselho dos ímpios, não trilha o caminho dos pecadores, nem se assenta entre os escarnecedores' (Sl 1,1)

O escárnio, a blasfêmia e o escândalo são frutos da miséria humana desde a criação. E o Filho do Homem numa cruz nos ensinou que o caminho da graça não perpassa pela lixeira dos sentidos, muito menos por uma avenida de lixos em conserva.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A CIÊNCIA DE DEUS (XI)


Dois pesquisadores matemáticos* concluíram, em publicação recente no periódico Journal of Theoretical Biology, que a probabilidade de formação de uma proteína funcional - fonte de qualquer processo vital - é de 1 em 100.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000. Por outro lado, muitas proteínas precisam interagir formando grupos para realizar uma função química específica. Na imagem no topo do texto, por exemplo, um complexo proteico (à esquerda) é analisado de acordo com as interações das várias proteínas que o compõem. Assim, mesmo ignorando a baixa probabilidade de formação de cada proteína individual, a probabilidade de formação de complexos proteicos é absurdamente baixa. Como resultado, você tem uma probabilidade extremamente baixa de que proteínas individuais possam ser produzidas por interações químicas aleatórias e, mais do que isso, uma probabilidade absurdamente baixa de que tais proteínas produzidas aleatoriamente possam formar os complexos necessários para a vida. Isso significa que a chance de tais complexos proteicos se formarem como resultado de processos aleatórios é extremamente baixa x absurdamente baixa.

Quanto mais aprendemos sobre o universo, mais percebemos que ele é produto de um projeto. De fato, há algum tempo, muitos cientistas reconhecem que o universo é finamente ajustado para a vida. Existem muitos parâmetros que governam como as coisas acontecem no universo, e todos eles têm as características necessárias para que a vida floresça. Um elétron, por exemplo, é precisamente tão negativo quanto o próton é positivo, apesar de serem partículas muito, muito diferentes. Se as cargas estivessem desalinhadas por apenas um bilionésimo de um por cento, o desequilíbrio elétrico resultante nas moléculas tornaria até mesmo objetos muito pequenos instáveis ​​demais para se formarem. A explicação mais óbvia para esse ajuste fino é que o universo foi projetado para a vida.

(Excertos do artigo 'Another Peer-Reviewed Paper Favoring Intelligent Design', de Jay Wile)

* Thorvaldsen, S., & Hössjer, O. (2020). Using statistical methods to model the fine-tuning of molecular machines and systems. Journal of Theoretical Biology, 501, Article 110352.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

A CIÊNCIA DE DEUS (X)


Deus está, como diz o Catecismo da Igreja Católica, 'além do espaço e do tempo'. Se Deus não tivesse escolhido criar o espaço e o tempo, não existiriam tais coisas como espaço e tempo; portanto, as categorias espaciais e temporais não podem ser aplicadas à própria natureza de Deus. Deus é 'eterno' não no sentido de duração ilimitada, mas no sentido de existência atemporal. Como disse São Tomás de Aquino, Deus vive no nunc stans - 'o agora que permanece imóvel'. A passagem do tempo é o ganho constante de algumas coisas e a perda de outras; mas a plenitude e a perfeição do ser que é a natureza divina não podem perder nada do que têm, nem ganhar nada do que lhes falta, pois não há nada que lhes falte. Deus não aprende nem esquece, mas compreende todas as coisas em um ato infinito, perfeito e imutável de conhecimento e compreensão. Todas as coisas estão, portanto, 'presentes' para ele, não em um passado que ele precisa resgatar da memória, nem em um futuro que ele precisa antecipar. Como disse Santo Agostinho, Deus habita 'na sublimidade de uma eternidade sempre presente'.

Isso é difícil de compreender, porque nós mesmos somos seres mutáveis em um mundo de seres mutáveis, e nossos próprios pensamentos estão em constante fluxo. Não podemos imaginar a atemporalidade. Talvez o mais próximo que possamos chegar disso seja pensar em verdades atemporais, como as verdades da matemática. Não dizemos '2 + 2 serão 4' ou '2 + 2 eram 4'. Isso seria absurdo. Em vez disso, dizemos '2 + 2 são 4'. É assim de uma forma atemporal. A atemporalidade de Deus é um significado que os teólogos viram no nome que Deus revelou a Moisés da sarça ardente: 'EU SOU O QUE SOU' ou simplesmente 'EU SOU'. 'Assim dirás aos filhos de Israel: ‘EU SOU’ me enviou a vós' (Ex 3,14). E Cristo diz de si mesmo: 'Antes que Abraão existisse, EU SOU (Jo 8,58).

Como Deus está além do espaço e do tempo, todas as coisas, onde quer que estejam localizadas no espaço e no tempo, estão igualmente presentes para ele e ele está igualmente presente para elas e é igualmente a causa de seu ser e realidade. Ele 'sustenta todas as coisas pelo poder de sua palavra' (Hb 1,3). Portanto, não são apenas as coisas que existiam no início dos tempos que foram criadas por Deus. Todas as coisas que já existiram ou que existirão têm sua existência proveniente de Deus. Você está, neste momento, sendo criado por Deus, pois ele está 'sustentando' a sua existência 'pelo poder da sua palavra'.

(Excertos do artigo 'St Augustine and the Beginnning of Time', de Stephen Barr, tradução do autor do blog)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

QUAL DELES É O SEU PERSONAGEM?

Numa noite fria, em alguma taberna à beira de uma estrada poeirenta, reuniram-se à deriva sete personagens em torno de uma mesa redonda de madeira gasta e com bancos toscos, na disposição indicada na figura abaixo. O vinho servira de pretexto para conforto térmico e para conversas um tanto filosóficas concentradas no milagre de Jesus nas Bodas de Caná.


O primeiro personagem, sentado na posição 1 à mesa, iniciou a discussão:
Nympha pudica Deum vidit, et erubuit - A água viu o seu Senhor e corou.
E emendou rapidamente:
— A frase não é minha, mas de um famoso poeta inglês do século XVII. Mas que, em minha opinião, expressa com real grandeza o primeiro milagre de Jesus, prenúncio da Santa Eucaristia.

Um segundo personagem, na posição 6 à mesa, assentiu respeitosamente e complementou:
—  Excelente a sua colocação, mas tenho a firme convicção de que Jesus fez o milagre apenas para atender as necessidades de uma situação difícil da festa. O prenúncio da eucaristia que você citou é uma interpretação equivocada dos fatos ocorridos.

O terceiro personagem a se inserir neste diálogo espiritual foi o homem baixo e atarracado da posição 4 à mesa. Ele argumentou:

— Penso que a mensagem de Jesus seja mais abstrata do que física: o vinho aqui representaria muito mais um bem a ser compartilhado entre os convivas do que a água que preenchia inicialmente as talhas. O prenúncio na verdade seria do milagre dos pães e dos peixes, cujo verdadeiro milagre não seria a sua multiplicação, mas a oferta e a partilha dos bens disponíveis em favor de todos os irmãos.

O personagem 2 à mesa foi taxativo na sua intervenção:
— Interessante a sua abordagem. No caso dos pães e dos peixes, bastaram cinco pães e dois peixes. Por que, neste caso, as talhas foram integralmente preenchidas com água? Não teria bastado um litro, meio litro de água? Existem milagres e milagres... 

O senhor de óculos e espesso bigode ao seu lado, na posição 3 à mesa, questionou os demais:
— Sim, existem milagres e milagres. E também, muitas distorções e manipulações da verdade. Ou, no presente caso, muitas simulações e muitas metáforas. Água é água. Vinho é vinho. São coisas distintas, francamente distintas. Mas não seria esse milagre a persuasão de sei lá quantas pessoas de que, ainda que bebendo água, elas o tomariam como o melhor dos vinhos?

O personagem 5 à mesa, até agora amuado e aparentemente aborrecido com o assunto, deu os ares de sua graça e presença:
— Ah finalmente uma visão racional e equilibrada dessa estória, estória porque se trata de uma fábula. Que pessoa externa se importaria por que faltaria vinho numa festa de casamento? E por que estariam à disposição na festa as tais talhas de água? Por que não teriam controlado a oferta do vinho aos convidados, a ponto do vinho acabar?

Na posição 7 à mesa, um homem particularmente magro manifestou vivamente então a sua opinião:
— Não houve milagre nenhum porque nesta festa - se é que existiu mesmo - eu apostaria que o que faltou foi água e não vinho...

Aqui estão sete personagens que conformam, no seu modo de pensar, a realidade atual e histórica da natureza humana na sua condição de criaturas de Deus e senhores do seu livre arbítrio. Você consegue definir cada um deles? Qual deles é o seu personagem? 

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

FREIOS E CONTRAPESOS (III)

 SÍMBOLO DO ABUSO DO PODER JUDICIÁRIO

Virgínio, um centurião romano, matou a sua própria filha Virgínia, para salvá-la de ser escravizada e desonrada por Ápio Cláudio, que então exercia o cargo de decênviro (magistrado com poder absoluto), mediante decisão de um processo judicial fraudulento, realizado no Fórum Romano, presidido pelo próprio Ápio Cláudio.

 'A Morte de Virgínia', obra do artista francês Guillaume Guillon-Lethière (1828)

Esse evento, ocorrido por volta de 449 a.C., tornou-se um exemplo clássico de abuso e de corrupção judicial, produzindo uma intensa reação do povo romano, o que levou à queda do governo tirânico dos decênviros e ao restabelecimento da República Romana.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

FREIOS E CONTRAPESOS (II)

SÍMBOLO DO ABUSO DO PODER EXECUTIVO

Nero foi o imperador romano (54-68 d.C.) que iniciou as primeiras perseguições aos cristãos, sobretudo após o Grande Incêndio de Roma em 64 d.C., culpando-os pelo incêndio e submetendo-os a punições cruéis, incluindo o suplício de serem queimados vivos (como tochas humanas). Entre outras crueldades, foi responsável pelo assassinato da própria mãe e da esposa grávida.

'As Tochas de Nero', obra do artista polonês Henryk Siemiradzki (1876)

Em meio a revoltas militares e declarado como inimigo público, Nero fugiu de Roma e, temendo uma execução pública humilhante, cometeu suicídio, com ajuda do seu secretário, que o apunhalou. Com a sua morte, desapareceu a dinastia júlio-claudiana e o império submergiu-se numa série de guerras civis.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

FREIOS E CONTRAPESOS (I)

SÍMBOLO DO ABUSO DO PODER LEGISLATIVO

Eis o homem coberto de todas as honrarias - Caio Júlio César: líder militar, imperador, cônsul, sumo sacerdote da religião oficial romana, ditador vitalício, figura de deificação oficial. Assassinado em 15 de março de 44 a.C, no Teatro de Pompeu, em Roma, esfaqueado várias vezes por um grupo de senadores romanos, que pretendiam restaurar a República Romana.

'A Morte de Júlio César', obra do artista italiano Vincenzo Camuccini (1804/1805)

O assassinato de César e a subsequente ascensão de seu sobrinho-neto Otaviano como seu herdeiro e vingador levaram a guerras civis e à ascensão do Segundo Triunvirato. Otaviano tornou-se o Imperador César Augusto. A República Romana havia chegado ao fim.

CARTÕES DE NATAL (II)

 

Eis o tempo da Feliz Espera: 
oração, oração, oração!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025