domingo, 25 de junho de 2017

'NÃO TENHAIS MEDO!'

Páginas do Evangelho - Décimo Segundo Domingo do Tempo Comum


O Evangelho deste domingo nos infunde o sopro da Verdade de Deus. Todas as nossas ações, gestos, pensamentos, palavras, silêncios, desejos, intenções, atos e omissões, praticados a cada segundo, durante toda a vida de cada um de nós, são conhecidos por Deus como escritos em manchetes nas estrelas: 'Até os cabelos de vossa cabeça estão contados' (Mt 10, 30). Nada, absolutamente nada, ficará envolto em penumbra ou esquecimento; todas as coisas serão refletidas no espelho da verdade divina, como oráculo universal: 'nada há de encoberto que não seja revelado, e nada há de escondido que não seja conhecido' (Mt 10, 27).

A certeza final é que deveremos prestar contas de cada palavra, de cada gesto, de cada intenção. Tudo será pesado na balança do juízo particular. A resposta à graça concedida e o mal devido ao pecado; a caridade anônima ou o juízo temerário, a palavra de conforto ou o gesto de revolta. O valor de uma alma é infinito, pois se trata de um ato puro da criação do Pai, na escolha personalíssima de Deus como criatura destinada a partilhar a eternidade com Ele no Céu. Mas o legado desta graça é cumprir fielmente os desígnios de Deus para as almas de sua predileção.

O pensamento da eternidade transforma em palha e espuma os tesouros, grandezas e glórias do mundo. Deus nos escolheu não para sermos peregrinos nesta terra, mas como herdeiros do Céu. E,assim, em cada pensamento ou palavra, o fim último deve ser sempre a busca da vida eterna em Deus, conforme nos fala o Apóstolo: 'Com temor e tremor trabalhai por vossa salvação’ (Fl 2,12). E esta busca passa pelo horror ao pecado e a tudo que nos aniquila como Filhos de Deus: 'Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma! Pelo contrário, temei aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno!' (Mt 10, 28).

'Não tenhais medo!' (Mt 10, 31). O triunfo da alma é seguir o Cristo, Caminho, Verdade e Vida. Quem tem Deus no coração, ama a Verdade e a pratica em tudo e em todos. Quem ama a Verdade, faz a Vontade do Pai que está nos Céu; quem nega a Verdade, é réu de pecado eterno: 'todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante do meu Pai que está nos céus. Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus (Mt 10, 32 - 33). Iustus ex fide vivit — O justo vive pela fé.

sábado, 24 de junho de 2017

NATIVIDADE DE SÃO JOÃO BATISTA


Além de Jesus e de Maria, apenas o nascimento de João Batista (24 de junho) é comemorado pela Santa Igreja Católica, glória ímpar para aquele que foi aclamado, pelo próprio Cristo, como 'o maior dentre os nascidos de mulher' (Mt 11,11).

'Houve um homem mandado por Deus. Seu nome era João… Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz' (Jo 1,6-8)

'Eis que eu envio o meu mensageiro à tua frente. Ele preparará o teu caminho diante de ti' (Mt 11,7).

'Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança lhe estremeceu no ventre, e Isabel ficou repleta do Espírito Santo' (Lc 1,41)

'Eu sou a voz que clama no deserto: aplainai o caminho do Senhor' (Is 40,3)


'Eu vos batizo com água, mas vem Aquele que é mais forte do que eu, do qual não sou digno de desatar a correia das sandálias; Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo' (Lc 3, 16). 


OS TRÊS FALSOS CAMINHOS DA VIDA INTERIOR

1. O diletantismo espiritual

A vida interior não é uma fonte de emoções religiosas que se basta a si mesma. Muitos cristãos, ansiosos de perfeição, dão muita importância a tais gozos, como se eles mostrassem o nível ou traduzissem o desenvolvimento de nosso progresso espiritual. A emoção sensível - segundo eles pensam - em nossas relações com Deus, seria o testemunho, a prova de intimidade, tal como se nas relações humanas o verdadeiro afeto fosse medido pelas efusões sentimentais que pode provocar. 

Seguindo o paralelo entre o amor humano e o amor divino, tendo por base perspectivas, em geral, falsas, não é raro pensar-se que é impossível que haja obstáculos na procura, na busca de Deus, como se na vida não víssemos surgir a cada passo coisas temíveis e inesperadas no arroubo das paixões mais nobres e mais desinteressadas. E já que Deus está presente em todas as partes e que, ininterruptamente, estão em tudo a Beleza infinita e a Bondade ilimitada, nossa sensibilidade deveria sentir sempre a embriaguez dessa presença e a sedução de tantos esplendores. Daí o fato de muitos se afastarem, abandonarem a vida interior, porque não encontraram a exaltação sensível que se haviam prometido, ou que lhes fora prometido. 

É comum vermos novelistas e até autores de obras espirituais, apresentarem a união com Deus como um perene festim de bodas. A decepção que experimentam transtorna muito àqueles que, confiados, atenderam ao convite. A ascese e a mística falam outro idioma. Sem a renúncia não há vida interior. Digo 'vida interior' porque não é preciso muita renúncia para que nos emocionemos com a simplicidade de Belém ou para que nos alegremos com os cantos e as luzes de uma missa pascoal. 

Santo Inácio de Loiola dá duas séries de regras para o discernimento do espírito, para adorar o que, na consolação (a expressão já está consagrada) vem de Deus, e o que, pelo contrário, não é mais que ilusão. Ora, nunca se pode exprobrar a Santo Inácio porque, em sua espiritualidade, tenha deixado à parte o esforço pessoal. Santa Teresa de Ávila considera a mortificação como uma condição indispensável da oração. E a renúncia das 'noites' de São João da Cruz, alcança proporções aterradoras.

Essa renúncia impõe-se tanto na oração e na sua preparação imediata como no comportamento geral da vida. Renúncia do espírito na atenção, do coração nos afetos, do corpo nos prazeres e comodidades. Não existe vida interior sem uma ascese do coração, da inteligência, dos sentidos. O diletantismo intelectual ou sentimental nada tem a ver com a vida interior. Que as emoções religiosas constituem manifestações acessórias da vida interior, nada mais exato; porém a realidade espiritual excede-os em todos os sentidos. 

2. A pontualidade

No polo oposto ao dos diletantes em religião que andam à cata de emoções, e para se preservarem da ilusão das consolações sensíveis, encontram-se outros que colocaram a vida interior na regulamentação dos atos cotidianos. A fidelidade em praticá-los constitui para eles a essência da vida espiritual. Considerar, antes de tudo, a religião como um dever que se tem de cumprir é, sem dúvida, algo de prudente e vantajoso. Este método evita o capricho e insiste sobre as verdades austeras do cristianismo. Mesmo sendo rígida, tal firmeza não está isenta de elevação.

Mas pode-se cumprir a lei com toda fidelidade sem por isso gozar de vida interior. O soldado que obedece ao regulamento, cumpre com seu ofício; mas isso não implica necessariamente que a execução de tais ordens enriqueça muito, digamos, nem seu coração, nem sua inteligência. A execução pontual não é a vida interior; mas pode e deve normalmente conduzir a ela. Não é raro encontrar homens abnegados, de um desprendimento fora do comum, mas que não possuem nenhuma vida interior, ao menos conscientemente. Nem por isso deveríamos desprezar ou subestimar seu espírito de sacrifício ou sua santidade. No sentido em que estamos falando, vida interior e santidade não são a mesma coisa. 

Nos vales e planícies por onde correm os rios que deságuam no Mediterrâneo, desde a Província até as costas da Síria, encontramos, a miúdo, leitos de rios obstruídos por penhascos e pedras, arrastados até ali pelas torrentes invernais, e que permanecem secos, desnudos e áridos durante quase todo o ano. Ora aqui, ora ali, uma vegetação rasteira ou uma touceira de juncos, ou ainda alguns louros-rosa atestam a presença de vestígios de umidade. Vários metros abaixo do solo, no entanto, correm lençóis de água abundante e fresca. Muitos viajantes, e até os próprios moradores do lugar nunca suspeitaram dessa efervescência interna e das reservas de fertilidade que se escondem sob aquele árido caos; da existência dessas águas que cruzam aquelas terras sem enriquecê-las e que os habitantes deixam perder-se sem aproveitá-las. 

O mesmo ocorre com as virtudes de que acabamos de falar. Uma aridez exterior recobre essa riqueza e essa efervescência que passam despercebidas aos íntimos e até aos próprios olhos dos que a possuem. O evangelho não nos mostra o reino de Deus como um conjunto de regras a seguir. Nosso Senhor compara o reino com uma semente, com uma levedura, com uma realidade que se alimenta e cresce, não por justaposição externa, mas por uma assimilação interna. A primeira imagem que apresenta aos que O interrogam sobre Sua doutrina - alguns dos quais até então não a haviam encontrado, como os judeus de Cafarnaum, Nicodemos e a Samaritana - é a da vida. Aos fariseus, aos quais amaldiçoou, jamais Jesus admoestou por suas irregularidades ou infrações ao código religioso. E até aqueles que não haviam sido corrompidos pelo orgulho farisaico, nem sempre estavam ao abrigo da aridez provocada por uma regularidade que havia mecanizado em excesso sua atividade espiritual.

Somos verdadeiramente os filhos da casa. De modo que nos portamos menos como servos, aos quais o Senhor dá Suas ordens, do que como filhos e filhas que se empenham em compreender o pensamento de Seu amantíssimo Pai. A vida interior nos leva a viver como filhos de Deus. No cristianismo trata-se menos de reconstruir um mosaico de acordo com o modelo do que desenvolver; graças a uma tarefa constante e quase sempre dolorosa, o germe que trazemos conosco, e deixar irradiar em nós 'a luz verdadeira que ilumina a todo o homem'. A regularidade pura, e simples, em si mesma não dá a ideia da riqueza de nossas relações de filhos com 'nosso Pai que está nos céus'. 

3. O alheamento à realidade

Outro erro na vida interior seria o alheamento às realidades mundanas. Às vezes, considera-se a vida interior como se se tratasse de uma evasão das nossas ocupações e dos nossos afetos. É uma tentação sedutora, não há que negar, a de abandonar esta intrincada trama dos nossos negócios humanos em procura de uma vida angélica, livre de todos os entraves materiais. Porém nós não somos anjos e nem temos que chegar a sê-lo; Cristo é nosso modelo e Ele não foi anjo e sim homem. Ele nos redimiu, encarnando-se, tornando-se um de nós e submetendo-se a todas as nossas debilidades, exceto o pecado. 

Submergir-se em uma solidão interior ou exterior que afaste por completo dos semelhantes, dos trabalhos, isto só por uma vocação excepcional; não é o caminho normal pelo qual deve dirigir-se o conjunto dos cristãos. Para a grande maioria, a solidão - o retiro fechado, por exemplo - não deve ser mais que um recolhimento passageiro. Se a vida interior exigisse o afastamento de nossas ocupações e afetos, ela seria exclusivamente daqueles que se apartaram das complicações da existência, como os sacerdotes e religiosos.

Cristãos há que, às vezes, pensam dessa maneira; e por isso afastam-se da vida interior como de um terreno reservado e que jamais lhes seria franqueado. A negligência e a humildade mal entendida, produzem este resultado. Nosso medo ante o esforço acalma-se quando pensamos que, ao menos, isso não nos é exigido de vez que nossa própria vocação, ou nossa qualidade de simples cristãos é um obstáculo, ou melhor, é incompatível com as exigências da vida interior. Uma humildade mal entendida, espantando-se de ver abrir-se ante nós perspectivas até então ignoradas, pode também desviar-nos da vida interior; para os outros as ambições heroicas; para nós, a modéstia dos caminhos já traçados. 

É um erro evidente. Esta situação a que nos leva e que nos fomenta a preguiça não está dentro da linha cristã. E não aproveitar totalmente das riquezas espirituais oferecidas por Deus, porque desdenham-nas os que nos cercam, não é praticar a humildade. A humildade cristã recolhe avidamente as mais altas ambições; chega até a falar a Deus chamando-O de 'Pai nosso'. Ao nos colocar no mundo, Deus tem um plano do qual participamos. Nosso dever não está em evitá-lo, mas em cumpri-lo. Não estamos no mundo para fugir deste plano, mas para santificá-lo. Para o homem e a mulher casados, a família, os filhos, a profissão, não são obstáculos, muito ao contrário, devem constituir o caminho que leva a Cristo. Afastar-se deste caminho - a menos que se trate de um chamado especial - não é o meio adequado para realizar o cristianismo. 

Procurar a Deus longe das condições em que Ele nos colocou é correr o risco de perdermo-nos em vãos esforços. As criaturas com as quais lidamos podem chegar a subjugar-nos; mas, por outro lado, afastando-nos delas podemos encontrar apenas o vácuo. O homem que não ama ao seu próximo, ou cujo amor não se manifesta em serviços efetivos, bem pode crer que ama a Deus, mas corre o perigo de se deixar levar por quimeras e de esvair-se na sua própria ilusão. Os erros na vida interior são comuns. Naquele recinto recôndito, no qual só Deus pode penetrar com perfeição, não se encontra a solidez tranquilizadora dos quadros exteriores. E apesar disso, para julgarmos o valor de nossa vida interior, devemos chegar a esse controle das nossas atitudes, servindo-nos das realidades de cada dia. 

Os grandes místicos nos recomendam que meçamos os mais extraordinários estados da alma de acordo com a maior ou menor fidelidade em cumprir os deveres de cada dia; a disposição de ânimo manifestada no seu comportamento é que indica se é bom o caminho seguido. O cumprimento fiel da vontade de Deus, eis o critério que devemos adotar para discernir o valor real de nosso interior. E este critério já nos ensinava o Mestre: 'Nem todo o que diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus; e sim o que faz a vontade de Meu Pai que está nos céus' (Jo 12,46).

(Excertos da obra 'Cristãos no mundo', do Padre E. Roche, trad. de Jovany de Sampaio, 1948)