domingo, 22 de julho de 2018

A DUALIDADE DA GRAÇA

Páginas do Evangelho - Décimo Sexto Domingo do Tempo Comum


O Evangelho deste domingo reflete as dimensões opostas da vida cristã em comunidade e em isolamento, feitas das santas alegrias do convívio social ou moldadas pelas graças do recolhimento absoluto, tangidas pelo frenesi de multidões em marcha ou pelo silêncio contemplativo dos claustros mais inacessíveis. Como nos são diversos os desígnios do Senhor! Quão diversos são os caminhos e os meios que imprimem a santidade no coração e na alma daqueles que buscam sinceramente a Deus!

Os Apóstolos haviam sido enviados por Jesus em missão, 'dois a dois' (Mc 6,7), com a recomendação expressa de levarem muito pouca coisa: 'nem pão, nem sacola, nem dinheiro na cintura' e nem 'duas túnicas' (Mc 6, 8 - 9) e providos pela graça do dom da cura e do 'poder sobre os espíritos impuros' (Mc 6, 7). E estes homens, pescadores sem erudição, sem alforge e sem preparos retóricos, cumpriram com coragem heróica e humildade santa os ditames proclamados pelo Mestre: levar a Boa Nova a todos os povos e a todas as nações! E, na santa alegria da primeira missão apostólica cumprida, retornam agora ao convívio do Senhor e, cheios de júbilo, 'contaram tudo o que haviam feito e ensinado' (Mc 6, 30).

No convívio do Senhor! Na santa alegria do convívio do Senhor e dos demais Apóstolos, as primícias da Igreja são matizadas naqueles tempos pioneiros da evangelização universal. Uma comunidade viva, moldada pelos princípios das sólidas virtudes da humildade, do despojamento, da fraternidade e da partilha. Uma comunidade que crescia, que exigia novas pregações, que demandava zelo e tempo... Jesus, então, chama os seus discípulos: 'Vinde sozinhos para um lugar deserto e descansai um pouco' (Mc 6, 31). No meio da multidão, Jesus os exorta a viver a outra dimensão da realidade cristã, moldada pelo anonimato, pelo silêncio e pela solidão com Deus.

Nesse encontro pessoal com Deus, Jesus nos ensina a buscar a barca, os montes ou o deserto. Sim, na busca de uma maior intimidade com as coisas sobrenaturais, impõe-se afastar do burburinho e da agitação do mundo, para se mergulhar a alma no repouso físico e na contemplação do espírito. Eis, assim, a síntese da perfeição cristã, que associa ação e contemplação, convívio fraterno e recolhimento interior! E, como um círculo de perfeição, refaz-se em seguida a dualidade da graça: as multidões acercam-se uma vez mais do Mestre e este, movido pela compaixão, cerne da verdadeira devoção cristã, recomeça a sua pregação divina 'porque eram como ovelhas sem pastor' (Mc 30, 34).

22 DE JULHO - SANTA MARIA MADALENA


Maria Madalena. Para se fazer distinção do nome Maria tão comum entre os habitantes de Israel (esse era o nome, por exemplo, da irmã de Moisés), os textos bíblicos nomeavam as diferentes Marias por um acréscimo singular do personagem - assim, Maria Madalena é a Maria de Magdala, povoado situado às margens do Lago da Galileia e próximo à cidade de Tiberíades. Eis as pouquíssimas referências a ela nas Sagradas Escrituras:

[Lc 8, 2-3]: 'Os Doze estavam com ele, como também algumas mulheres que tinham sido livradas de espíritos malignos e curadas de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios; Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes; Susana e muitas outras, que o assistiram com as suas posses'.

[Jo 19, 25]: 'Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena'.

[Mc 15,40-41; 47]: 'Achavam-se ali também umas mulheres, observando de longe, entre as quais Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José, e Salomé, que o tinham seguido e o haviam assistido, quando ele estava na Galileia; e muitas outras que haviam subido juntamente com ele a Jerusalém... Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde o depositavam'.

[Mc 16, 1; 5-6; 9-10]: 'Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram aromas para ungir Jesus... Entrando no sepulcro, viram, sentado do lado direito, um jovem, vestido de roupas brancas, e assustaram-se. Ele lhes falou: Não tenhais medo. Buscais Jesus de Nazaré, que foi crucificado. Ele ressuscitou, já não está aqui. Eis o lugar onde o depositaram... Tendo Jesus ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria de Magdala, de quem tinha expulsado sete demônios. Foi ela noticiá-lo aos que estiveram com ele, os quais estavam aflitos e chorosos'.

[Jo 20, 1-2; 18]: 'No primeiro dia que se seguia ao sábado, Maria Madalena foi ao sepulcro, de manhã cedo, quando ainda estava escuro. Viu a pedra removida do sepulcro. Correu e foi dizer a Simão Pedro e ao outro discípulo a quem Jesus amava: Tiraram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o puseram! ... Maria Madalena correu para anunciar aos discípulos que ela tinha visto o Senhor e contou o que ele lhe tinha falado'.

Ela é a figura bíblica 'Maria de Magdala', da qual Jesus havia expulsado sete demônios. Esta acepção não implica a interpretação direta de 'uma grande pecadora'. O fato de ter-se livrado de 'sete demônios' (sete é o número da perfeição, da plenitude) implica que ela foi curada de todos os seus males tanto físicos (enfermidades) como espirituais (pecados, estes de naturezas quaisquer). É absolutamente forçada e despropositada a conjectura de que Maria Madalena pudesse ter sido uma 'prostituta' na sua condição pregressa antes do seu encontro com Jesus. Desta interpretação espúria, nasceram inúmeras outras lendas e desdobramentos fantasiosos da participação e do envolvimento desta mulher singular na vida pública de Jesus e dos seus apóstolos. 

sábado, 21 de julho de 2018

INTERPRETAÇÕES DOS SONHOS DE DOM BOSCO (V/Final)


A estreita correlação entre as visões dos sonhos de Dom Bosco com as mensagens e profecias de Fátima é bastante incisiva quando se considera a suposta descrição (certamente apenas parcial) do Terceiro Segredo de Fátima, em manuscrito da Irmã Lúcia, como revelado pelo Vaticano em 26 de junho de 2000:

(i) Depois das duas partes que já expus, vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora, um pouco mais alto, um Anjo com uma espada de fogo na mão esquerda; ao cintilar, despedia chamas que pareciam incendiar o mundo; mas apagavam-se com o contato do brilho que, da mão direita, expedia Nossa Senhora ao seu encontro.
(ii) O Anjo, apontando com a mão direita para a terra, com voz forte, disse: Penitência, Penitência, Penitência! 

Na suposta continuação das três partes que constituem o chamado Segredo de Fátima, as duas partes anteriores e já descritas pela vidente corresponderiam ao Primeiro Segredo - a perda eterna das almas e a visão do inferno e o Segundo Segredo - a revelação de castigos universais e os meios para evitá-los. A visão propriamente dita tem origem no Anjo empunhando uma espada de fogo, que remete de imediato a um cenário apocalíptico: 'as chamas pareciam incendiar o mundo'. Não se trata mais de um mundo imerso nas trevas, nem mais o mundo em que fulgurou outrora a luz portentosa da igreja; é apenas um mundo mergulhado num incêndio colossal, num mar de fogo. 

O Anjo empunha a espada de fogo com a mão esquerda e brada à humanidade por conversão apontando para a Terra com a mão direita. A mão direita é símbolo do poder e da justiça de Deus, instrumento da ira santa de Deus. Na invocação dirigida aos homens, a exortação angélica é um brado retumbante e vigoroso dirigido aos homens do pecado, sem mais concessões ou delongas possíveis: Penitência, Penitência, Penitência! 

A espada na mão esquerda reflete uma condição ainda potencial do castigo universal imposto a uma humanidade transtornada pelo pecado, que se tornou indiferente a todos os avisos e manifestações amorosas da Mãe de Deus e que desdenhou por completo das dores e sofrimentos anunciados e vividos tão tragicamente pelos homens e mulheres das gerações anteriores. O flagelo está ainda em suspenso. A luz emanada da mão direita da Virgem tem o poder de estancar e de apagar o fogo da justiça divina, mas este aceno da graça é condicional e depende da resposta da humanidade aos apelos de conversão universal.

(iii) E vimos, numa luz imensa que é Deus, 'algo semelhante a como se vêem as pessoas em um espelho quando lhe passam por diante' um Bispo vestido de branco e 'tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre'. 
(iv) Vários outros bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas a subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande Cruz de troncos toscos como se fora de sobreiro com a casca.
(v) o Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meio em ruínas, e meio trêmulo e com andar vacilante, acabrunhado de dor e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho. 

A 'luz imensa que é Deus' e pressentimentos sobrenaturais já eram experiências vivenciadas pelos videntes de Fátima durante aparições anteriores de Nossa Senhora [por exemplo, eles pressentiram que a visão do Imaculado Coração de Maria cravejado de espinhos, na segunda aparição, não devia ser revelado por eles naquele momento]. Os videntes vêem, com clareza cristalina (como a imagem refletida em um espelho), o Santo Padre como um bispo vestido de branco. O pressentimento sobrenatural confirma a natureza desta visão. 

O Santo Padre está em meio a uma longa e penosa caminhada atravessando cidades em ruínas e montes de cadáveres, sob angústia mortal e passos vacilantes. Nesta caminhada, é seguido por uma legião de sacerdotes e religiosos [e também leigos, como nomeados nesta multidão, em trecho mais adiante da mensagem] que se mantiveram fieis à Igreja. É uma imagem muito similar à da procissão do exílio que chega a uma praça cheia de mortos e feridos,  como narrada no segundo sonho de Dom Bosco. A mesma referência à quebra da fé, à transgressão do sagrado pelo profano, ao relativismo moral, ao catolicismo morno e sociológico, ao abandono da Igreja ao primado de Pedro ('a precipitação vertiginosa do sol em direção à Terra', na sexta aparição). O papa caminha sobre destroços e cadáveres (terríveis consequências* do flagelo do fogo, sinal inequívoco que o apelo triplo do Anjo à penitência terá sido em vão), sob penosos sofrimentos e aflições (a via crucis da Igreja).

* Em visões particulares, logo após a Terceira Aparição da Virgem, Jacinta revelou a Lúcia ter visto o Santo Padre a chorar numa casa muito grande, de joelhos e com as mãos no rosto, enquanto lá fora havia muita gente que lhe atiravam pedras ou que lhe rogavam pragas. Em outra ocasião, teve a visão do Santo Padre, a rezar diante do Imaculado Coração de Maria junto com uma multidão, enquanto uma outra multidão faminta se arrastava pelas estradas sem ter nada para se alimentar. Diante desse relato, Lúcia a instou a permanecer calada, porque senão isso poderia revelar o teor do Terceiro Segredo.

Mas a Paixão ainda está por vir. E a Igreja, à semelhança de Cristo, há de perpassar integralmente pelos padecimentos do seu próprio Calvário. O Sumo Pontífice e a multidão chegam, então, ao trecho final da caminhada - uma encosta íngreme e acidentada com uma cruz tosca no cimo. A Igreja descobre e sobe, trêmula, vacilante e desolada, o seu Gólgota. Amargo preço por ter abandonado os portos seguros da graça para ir de encontro à civilização moderna ('a grande cidade meio em ruínas') como uma nau sem rumo em mar revolto. A cruz - tosca cruz - é o símbolo de uma Igreja esmaecida do seu fulgor mas que, apesar de tudo, não perdeu a sua herança divina. Num mundo conturbado pelo pecado, dilacerado pelo pecado, ainda permanece firme sobre o Gólgota a Cruz de Cristo!

(vi) chegado ao cimo do monte, prostrado de joelhos aos pés da grande Cruz, [o papa] foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam vários tiros e setas.
(vii) e, assim mesmo, foram morrendo, uns trás dos outros, os bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas e várias pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de várias classes e posições. 
(viii) Sob os dois braços da Cruz estavam dois Anjos, cada um com um regador de cristal na mão, e neles recolhiam o sangue dos mártires e com eles regavam as almas que se aproximavam de Deus'.

As pés da Cruz, dá-se o martírio de papa e de uma multidão de fieis. Na verdade, acontece um massacre porque não se trata de um atentado a uma parte da Igreja, a um corolário da fé cristã, a algum dos seus dogmas, mas de uma guerra tremenda contra toda a Igreja. As armas podem disparar tiros e os arcos podem disparar setas: para arruinar desde os fundamentos da Igreja de Jesus Cristo, os inimigos investem para matar o corpo e a alma de milhões e de milhões, seja pelos conflitos armados, seja pelo cipoal de heresias, pela incredulidade, pelo ateísmo, pelo agnosticismo, pelo materialismo e por tantas outras doutrinas sectárias, 'setas' que matam a alma de tantos e tantos filhos da Igreja. O 'grupo de soldados' é um símbolo de uma ação planejada e implementada sob uma sólida e diabólica estratégia militar. Ao martírio de sangue está associado o martírio espiritual, cujos frutos serão cuidadosamente recolhidos pelos anjos para se regar as novas vinhas do Senhor e para gerar sementes de uma humanidade renovada. 

E este será um evento espantoso, fruto de uma intervenção direta e extraordinariamente sobrenatural, que sabemos há de vir por meio daquela 'que combate e dispersa os mais fortes exércitos da terra'. A Igreja vai padecer enormemente e viver o seu Calvário, porque Roma desprezou as profecias e se aviltou nos seus erros e contradições, mas renascerá triunfante porque Deus 'reservou a vitória sobre os seus inimigos a Si mesmo' (Pio IX). Esta confirmação do triunfo da Igreja e a explicação destes eventos por Nossa Senhora certamente devem estar incluídos no contexto do que ainda não se sabe do chamado Terceiro Segredo de Fátima.