terça-feira, 19 de setembro de 2017

O ESPÍRITO DA CRUZ


Irmãos, há muito tempo que não me vedes aqui; não venho aqui com frequência. Vou falar-vos de uma coisa da qual nunca falei, nem aqui, nem algures. E essa coisa desejo-a a todos; sei bem que o meu desejo não chegará a todos. Vou falar-vos do espírito da Cruz. Quando o Bom Deus cria um corpo humano, dá-lhe uma alma, é um espírito humano; quando o Bom Deus dá a uma alma a graça do batismo, ela tem o espírito Cristão.

O espírito da Cruz é uma graça de Deus. Há a graça que faz apóstolos, e assim por diante. O que é o espírito da Cruz? O espírito da Cruz é uma participação do próprio espírito de Nosso Senhor levando a Sua Cruz, pregado à Cruz, morrendo na Cruz. Nosso Senhor amava a Sua Cruz, desejava-a. Que pensava Ele levando a Sua Cruz, morrendo na Cruz? Há aí grandes mistérios: quando se tem o espírito da Cruz, entra-se na inteligência destes mistérios. Existem poucos Cristãos com o espírito da Cruz, vêm-se as coisas de modo diferente do comum dos homens.

O espírito da Cruz ensina a paciência; ensina a amar o sofrimento, a fazer sacrifícios. Quando se tem o espírito da Cruz, é-se paciente, ama-se o sofrimento, fazem-se generosamente os sacrifícios que o Bom Deus nos pede. Quer-se a vontade de Deus, e ama-Se; acha-se bom o que nos pede.

Os santos queixavam-se muito a Deus que Ele não lhes dava bastante sofrimento; desejavam sofrer. Por que? Porque no sofrimento se pareciam mais com Nosso Senhor. Na vida de Santa Isabel da Hungria, é dito que, depois de a terem despojado de todos os seus bens, ainda a expulsaram de casa: quando viu que nada mais possuía, foi aos Frades Menores mandar cantar um Te Deum para agradecer a Deus por lhe ter tirado tudo. Tinha o espírito da Cruz.

A Imitação diz alguma coisa do que faz o espírito da Cruz: ama mais ter menos do que mais, ama mais estar em baixo do que em cima. Ama ser desprezado. É isto o espírito da Cruz; é muito raro. Não o tendes muito, o espírito da Cruz. Posso bem dizer-vo-lo, há muito tempo que vos conheço, desde que estou convosco. Tende-lo menos do que o tivestes outrora.

Logo que tendes algum sofrimento, depressa dizeis: 'Meu Deus, livrai-me disto'; fazeis novenas para vos libertardes. É preciso amar um pouco mais o sofrimento, e não pedir tão depressa para se ver livre dele. Se tivésseis o espírito da Cruz, veríamos muitas coisas que não vemos; e há as que vemos, que talvez não víssemos. É preciso ter um pouco mais do espírito da Cruz; é preciso pedi-lo. Tratemos de amar a Cruz, de amar a vontade de Deus.

(Excertos do último sermão pronunciado pelo Pe. Emmanuel-André, na festa da Exaltação da Santa Cruz, 14 de setembro de 1902, seis meses antes de morrer; postagem publicada originalmente em catolicosribeiraopreto.com).

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

EXERCÍCIOS DO AMOR DIVINO A JESUS (Parte II)

34 exercícios de amor a Jesus, propostos por São João Eudes, em honra e devoção aos 34 anos de sua vida; um ano no ventre de Maria e 33 de sua vida nesta terra.




PARTE II

9. Eu me entrego a Vós, Amor Irresistível, e me abandono inteiramente ao Vosso poder; vinde, vinde até mim e prostrai por terra tudo o que não seja de Vosso agrado; estabelecei em mim em plenitude o Vosso domínio celestial. Se para isso acontecer, o sofrimento é a premissa, entrego-me a Vós para padecer todos os martírios e tormentos mais dolorosos. Não me abandoneis! Livrai-me de tudo quanto Vos desagrada, meu Salvador, nada disso me importa. Porque o que realmente quero é Vos amar, ó meu Jesus, e Vos amar com perfeição, a qualquer custo e sobre todas as coisas.

10. Deus de Amor, que sois tão generoso, tão amoroso, que sois amor e dedicais tanto amor por mim, que também eu possa Vos amar assim! Que o Céu inteiro se converta em um incêndio de amor por Vós!

11. Quem poderá me impedir de Vos amar, Amor sem Medidas, depois de conhecer Vossa bondade infinita? Seria o  meu corpo? Antes se tornasse apenas pó. Seriam os meus pecados passados? Eu os faria submergir no oceano do Vosso Precioso Sangue. Tomai o meu corpo e a minha alma: fazei-me um homem das dores para que se apaguem em mim tudo o me impeça de Vos amar plenamente. Seria por acaso o mundo? Ou as criaturas? Mas não; eu renuncio, com todas as minhas forças, a qualquer afeto sensível às coisas criadas. Consagro inteiramente o meu coração e os meus afetos a Jesus Cristo, meu Criador e meu Deus.

Com efeito, Jesus não aclamou este mundo; pelo contrário, Ele disse que não era deste mundo, nem os seus, e nem seguia as medidas deste mundo. Assim, mundo, renuncio às tuas vontades e desprezo os teus prazeres como se fosse do mundo como um excomungado, como um anticristo, como um inimigo de meu senhor Jesus Cristo! Não anseio por nenhum dos teus louvores e mesuras, teus devaneios e tuas vaidades, nada do que possas me oferecer. Por que tudo isso é utopia, é nada. Quero sentir horror ao espírito mundano, ao teu comportamento, valores e concessões reprováveis. Eu quero odiar as tuas escolhas tanto quanto odeias e persegues a Jesus Cristo. Eis aí o meu adeus, mundo, adeus a tudo que não seja de Deus! De hoje em diante, escolho Jesus como o meu mundo, minha glória, meu tesouro, minhas graças, meu tudo.

Nada almejo a não ser Jesus; que se cerrem meus olhos às coisas do mundo e que eles se volvam por inteiro a Jesus. Não quero agradar e ser agradado a não ser para Jesus. Quero me alegrar em seu amor e no cumprimento de sua vontade; não quero sentir tristeza, a não ser por tudo aquilo que ofende e se opõe ao seu Divino Amor. Ou amar ou morrer, ou melhor, morrer e amar. Morrer para tudo o que não seja Jesus; amar o próprio Amor por inteiro, amar Jesus.

12. Jesus, Senhor dos meus amores, fui criado e colocado neste mundo apenas para Vos amar. Quão nobre, santo e excelso o fim para o qual fui criado! A que graça e a que dignidade fostes elevado, meu pobre coração, para ser parte da própria glória divina! Pois se Deus existe para Se contemplar e amar a Si mesmo, fostes feito para amar esse mesmo Deus e se ocupar eternamente em amá-Lo. Que seja bendito e amado para todo o sempre o Senhor da Vida que me deu um coração capaz de amá-Lo. Deus do meu coração: se Vós me criastes para Vos amar em perfeição, que eu viva para Vos amar sempre e cada dia mais, para Vos amar a esta perfeição! Ou amar ou morrer. Que não me seja dada a vida, a não ser para Vos amar. Jesus, prefiro antes padecer mil mortes do que perder o Vosso amor!

13. Sede, Amor Divino, a vida da minha vida, a alma da minha alma e o coração do meu coração. Que eu não viva senão por Vós e em Vós. Que eu não exista senão por Vós. Que eu não tenha mais pensamentos, palavras ou ações que não sejam somente por Vós e para Vós.

14. Sede, Senhor, o anseio exclusivo do meu coração, o único anelo digno de ser desejado. Que tudo o mais fora de Vós seja nada, que nem sequer mereça minha atenção. Somente quero a Vós, somente busco a Vós, somente desejo Vos amar. Vós sois o meu tudo, e o resto é nada; nada quero olhar, anelar ou amar que não sejais Vós. Quero tão somente estar Convosco e Vos amar em todas as coisas.

15. Jesus, Vós sois o Puro Amor, o único digno do amor do Pai eterno e de toda a corte celeste; intercedei para que eu Vos ame sobre todas as coisas, e em todas elas eu Vos ame em plenitude e que tudo que seja objeto do meu amor seja por amor a Vós e para Vós.

16. Jesus, único amor do meu coração, essência de todos os meus amores! Somente Vós sois digno de amor no céu e na terra. Quando será que seremos capazes de contemplar e amar somente a Vós?

17. Jesus, único amor do meu coração, afastai-me de mim mesmo e de todas as coisas do mundo; levai-me até Vós e envolvei-me no Vosso amor, de forma tão completa e absoluta, que somente em Vós possam estar por inteiro o meu espírito e o meu coração.

(versão para o português do autor do blog)

domingo, 17 de setembro de 2017

OS LIMITES DO PERDÃO

Páginas do Evangelho - Vigésimo Quarto Domingo do Tempo Comum


Naquele tempo em que os homens ainda hesitavam nos domínios da graça, Pedro vai se aproximar de Jesus para inquirir ao Mestre sobre os limites do perdão: 'Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?' (Mt 18, 21). Ao propor a questão, Pedro também estabelece uma referência humana a este limite - 'sete vezes' - em termos de uma concepção firmada exclusivamente nos princípios frágeis da justiça e da tolerância dos homens. 'Sete vezes', na abordagem de Pedro, seria o limite imaginável e possível da capacidade humana de perdoar a manifestação continuada do erro.

A resposta de Jesus é desconcertante para uma medida humana do perdão: 'Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete' (Mt 18,22). 'Setenta vezes sete' não implica meramente o valor humano do perdão multiplicado por setenta vezes; nem apenas um número particularmente elevado de se aplicar o perdão em medida abastada. É mais do que isso; Jesus pressupõe o perdão nos limites insondáveis da misericórdia infinita de Deus; o perdão verdadeiro deve ser reflexo da misericórdia que não impõe contenção de medidas e nem marcos limites.

Para ilustrar com clareza meridiana este princípio da misericórdia infinita de Deus, Jesus apresenta, então, a parábola do servo devedor de imensa fortuna que, instado a reconhecer a sua dívida, suplica ao Senhor a concessão de alternativas para quitá-la nas condições mais favoráveis possíveis. Movido pela compaixão e confiante no firme propósito de correção do seu servo, o Senhor lhe concede o perdão integral de todas as suas dívidas. Mas, saindo dali, o réu confesso de uma fortuna diante de Deus torna-se o juiz implacável diante da dívida inexpressiva do próximo: não apenas não perdoa a dívida em aberto, como leva à prisão o devedor de ninharias. Ciente de procedimento tão perverso, o Senhor se indigna e condena o servo infame com todo o rigor de sua justiça.

E Jesus conclui a parábola reforçando em que consiste a verdadeira medida do perdão ao próximo: 'perdoar de coração ao seu irmão' (Mt 18, 35). Perdoar significa 'perdoar de todo coração', sem quaisquer remanescentes de mágoa, rancor, ressentimentos. Perdoar significa aniquilar o mal feito na mesma medida do esquecimento integral da ofensa recebida. Neste contexto de graça, o nosso perdão torna-se perfeito e, tangido por sentimentos sinceros de caridade e de compaixão, atrai sobre nós, em medida insondável, a misericórdia infinita de Deus.