sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

ORAÇÃO: RORATE CAELI (HINO DO ADVENTO)

Rorate Caeli constitui o hino do advento por excelência por comportar o espírito de expectativa e de súplica característico destes tempos litúrgicos. Composto no espírito da expectativa histórica da vinda do Messias, prenunciada nos textos bíblicos do Antigo testamento, o refrão do hino é um excerto do Livro do Profeta Isaías (Is 45, 8): 'Que os céus, das alturas, derramem o seu orvalho, que as nuvens façam chover a vitória; abra-se a terra e brote a felicidade e, ao mesmo tempo, faça germinar a justiça! Sou eu, o Senhor, a causa de tudo isso'.


Rorate Caeli desuper et nubes pluant justum
Derramai, ó Céus, o vosso orvalho do alto, e as nuvens chovam o Justo

Ne irascaris Domine, ne ultra memineris iniquitatis
Ecce civitas Sancti facta est deserta
Sion deserta facta est, Jerusalem desolata est.
Domus sanctificationis tuae et gloriae tuae
Ubi laudaverunt Te patres nostri.

Não vos ireis, Senhor, nem vos lembreis da iniquidade.
Eis que a cidade do Santuário ficou deserta:
Sião tornou-se deserta; Jerusalém está desolada.
A casa da vossa santificação e da vossa glória,
Onde os nossos pais vos louvaram.

Rorate Caeli desuper et nubes pluant justum.
Derramai, ó Céus, o vosso orvalho do alto, e as nuvens chovam o Justo

Peccavimus et facti sumus tamquam immundus nos,
Et cecidimus quasi folium universi
Et iniquitates nostrae quasi ventus abstulerunt nos
Abscondisti faciem tuam a nobis
Et allisisti nos in manu iniquitatis nostrae.

Pecamos e tornamo-nos como os imundos,
E caímos, todos, como folhas.
E as nossas iniquidades, como um vento, dispersaram-nos.
Escondestes de nós o vosso rosto
E esmagastes-nos pela mão das nossas iniquidades.

Rorate Caeli desuper et nubes pluant justum.
Derramai, ó Céus, o vosso orvalho do alto, e as nuvens chovam o Justo

Vide, Domine, afflictionem populi tui
Et mitte quem missurus es
Emitte Agnum dominatorem terrae
De petra deserti ad montem fíliae Sion
Ut auferat ipse jugum captivitatis nostrae.

Olhai, ó Senhor, para a aflição do vosso povo,
E enviai Aquele que estais para enviar!
Enviai o Cordeiro dominador da Terra
Da pedra do deserto ao monte da filha de Sião
Para que Ele retire o jugo do nosso cativeiro.

Rorate Caeli desuper et nubes pluant justum.
Derramai, ó Céus, o vosso orvalho do alto, e as nuvens chovam o Justo

Consolamini, consolamini, popule meus
Cito veniet salus tua
Quare moerore consumeris, quia innovavit te dolor?
Salvabo te, noli timere
Ego enim sum Dominus Deus tuus Sanctus Israel, Redemptor tuus.

Consola-te, consola-te, povo meu,
Em breve há de vir a tua salvação!
Por que te consomes na tristeza, se a dor te renovou?
Eu te salvarei, não tenhas medo!
Porque Eu sou o Senhor, teu Deus,
o Santo de Israel, o teu Redentor.

Rorate Caeli desuper et nubes pluant justum.
Derramai, ó Céus, o vosso orvalho do alto, e as nuvens chovam o Justo

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

AS REGRAS DA MORTIFICAÇÃO CRISTÃ (I)

Introdução

A mortificação cristã tem por fim neutralizar as influências malignas que o pecado original ainda exerce nas nossas almas, inclusive depois que o batismo as regenerou. Nossa regeneração em Cristo, ainda que tenha anulado completamente o pecado em nós, nos deixa sem embargo muito longe da retidão e da paz originais. O Concílio de Trento reconhece que a concupiscência, ou seja, o triplo apetite da carne, dos olhos e do orgulho, se deixa sentir em nós, mesmo depois do batismo, a fim de excitar-nos às gloriosas lutas da vida cristã.

A Escritura logo chama esta tripla concupiscência de 'homem velho' em oposição ao 'homem novo que é Jesus que vive em nós e nós mesmos que vivemos em Jesus, como 'carne' ou 'natureza caída', oposta ao 'espírito' ou 'natureza regenerada' pela graça sobrenatural. Este velho homem ou esta carne, ou seja, o homem inteiro, com sua dupla vida moral e física, deve ser, não digo aniquilado, porque é coisa impossível enquanto dure a vida presente, mas sim mortificado, ou seja, reduzido praticamente à impotência, à inércia e à esterilidade de um morto; há que impedir-lhe que dê seu fruto, que é o pecado, e anular sua ação em toda a nossa vida moral. 

A mortificação cristã deve, portanto, abraçar o homem inteiro, estender-se a todas as esferas de atividade nas quais a natureza é capaz de mover-se. Tal é o objeto da virtude de mortificação. Vamos indicar sua prática, recorrendo sucessivamente às manifestações múltiplas de atividade em que se traduz em nós:

i) A atividade orgânica ou a vida corporal;

ii) A atividade sensível, que se exerce seja sob a forma do conhecimento sensível pelos sentidos exteriores ou pela imaginação, seja sob a forma de apetite sensível ou de paixão;

iii) A atividade racional e livre, princípio dos pensamentos e dos juízos, e das determinações da nossa vontade;

iv) Consideraremos a manifestação exterior da vida da alma, ou as ações exteriores;

v) E, finalmente, o intercâmbio das relações com o próximo.

A. Mortificação do Corpo

1. Limite-se, tanto quanto possa, em matéria de alimentos, ao estritamente necessário. Medite estas palavras que Santo Agostinho dirigia a Deus: 'Tu me ensinaste a considerar os alimentos como remédios. E quem é, Senhor, que não se deixa arrastar às vezes além dos limites do necessário? Se existe alguém assim, é de fato grande, e deve engrandecer teu nome';

2. Rogue a Deus com frequência, rogue a cada dia que lhe impeça, com sua graça, de transpassar os limites da necessidade, ou deixar-se levar pelo atrativo do prazer;

3. Não coma nada entre as refeições, a menos que haja alguma necessidade ou razões de conveniência;

4. Pratique a abstinência e o jejum, mas os pratique somente sob obediência e com discrição;

5. Não é proibido experimentar satisfação corporal, mas o faça com intenção pura, bendizendo a Deus;

6. Regule o sono, evitando nisto toda relaxação ou moleza, sobretudo pela manhã. Se puder, fixe uma hora para se deitar e levantar, e se obrigue a ela energicamente;

7. Em geral, não descanse senão na medida do necessário; entregue-se generosamente ao trabalho, e não meça esforços e penas. Tenha cuidado para não extenuar o corpo, mas guarde-se também de agradá-lo: quando sentir que ele está disposto a rebelar-se, por pouco que seja, trate-o como a um escravo;

8. Se sente alguma ligeira indisposição, evite irritar-se com os demais por seu mau humor; deixe aos seus irmãos o cuidado de queixar-se; pelo que lhe cabe, seja paciente e mudo como o divino Cordeiro que levou verdadeiramente todas as nossas enfermidades;

9. Guarde-se de pedir uma dispensa ou revogação da ordem do dia pelo mínimo mal-estar: 'Há de se fugir como da peste de toda dispensa em matéria de regras', escrevia São João Berchmans;

10. Receba docilmente, e suporte com humildade, paciência e perseverança a penosa mortificação que se chama doença.

(Cardeal Mercier)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

DICIONÁRIO DA DOUTRINA CATÓLICA (XVII)

  

PIA DE ÁGUA-BENTA

É aquela que se encontra à entrada da Igreja, nas colunas ou nas paredes, com água benta para que os fiéis, tocando-a devotamente, purifiquem-se dos pecados veniais, antes de entrarem no templo santo. Substitui a fonte que antigamente havia no adro para os fiéis lavarem o rosto e as mãos antes de entrarem na Igreja.

PIAS UNIÕES

São associações de fiéis, instituídas para o exercício de alguma obra de caridade ou de piedade. Não podem existir sem aprovação do bispo. Não devem erigir-se senão em igrejas ou capelas públicas ou ao menos semi-públicas. Estando eretas em igrejas que não sejam suas, podem exercer as funções eclesiásticas próprias, somente na capela ou no altar em que estão estabelecidas.

PLUVIAL (Capa de Asperges)

É uma veste aberta pela frente, que o sacerdote, em certos atos litúrgicos, lança aos ombros, caindo até quase ao chão. Era antigamente uma capa que servia para as procissões, tendo um capuz para abrigar-se da chuva (daí o nome de pluvial). Sendo antes igual à casula, foi perdendo a sua forma, até que, aberta por diante e coberta de bordados, começou a ser considerada, na Idade Média, como veste honorífica. O capuz foi perdendo a sua forma e uso, até se transformar no estofo liso, ornado de uma franja, que atualmente se encontra ao meio das costas, na capa. A capa é uma veste litúrgica reservada ao clero. O pluvial dos simples presbíteros não deve ser preso no pescoço com fecho ou broche de metal lavrado, o que é reservado aos bispos, mas sim com colchetes ou coisa semelhante. Não é permitido haver um presbítero assistente revestido de capa, numa missa que não seja de pontifical, exceto na primeira missa de um novo sacerdote.

POBREZA VOLUNTÁRIA

É um dos três Conselhos Evangélicos e consiste em renunciar à posse dos bens materiais. Geralmente este conselho é seguido pelos fiéis que abraçam o estado religioso. Diz o Apóstolo São Paulo: 'Nada trouxemos para este mundo e, sem dúvida, nada levaremos dele. Tendo, pois, com que nos sustentarmos e com que nos cobrirmos, vivamos contentes' (I Tm 6, 7.8).

POSITIVISTA

É aquele que afirma, absurda e impiamente, que só conhecemos os fenômenos sensíveis, e que, por isso, não podemos de modo nenhum atingir a natureza das coisas, ou demonstrar a existência de Deus e da alma humana.

POSSESSÃO DO DEMÔNIO

É a ação do demônio no corpo do homem produzindo, por meio dos membros e dos sentidos do possesso, atos extraordinários. São sinais de possessão: o homem falar línguas desconhecidas ou entendê-las, manifestar coisas ocultas e distantes, produzir forças superiores à idade e às condições naturais da pessoa, etc. Embora seja de admitir a possessão diabólica, não devemos ser fáceis em acreditar nos casos que se contam a tal respeito. Os meios de combater a possessão são os indicados contra os obsessos.

PRÁTICAS DE PIEDADE 

Eis algumas: I. Oração da manhã, para louvar a Deus e o suplicar desde o princípio do dia e oração da noite para agradecer e pedir perdão; II. Meditação, para aperfeiçoar a vida moral; III. Assistir à Missa, para tomar parte no único Sacrifício da Religião divina; IV. Comunhão diária, para alimentar a vida divina na alma; V. Trabalho e deveres de estado, bem cumpridos, para fazer a vontade de Deus; VI. Visita ao Santíssimo Sacramento e comunhão espiritual, para alimentar o fervor; VII. Leitura espiritual, para refletir e bem dispor a vontade; VIII. Exame de consciência, para vencer hábitos maus e defeitos; IX. Regularidade em todas as ações ordinárias, para haver ordem na vida;  X. Comemoração religiosa de aniversários, tais como do batismo, da comunhão solene e de outros.

PRECEITO

É a aplicação da lei àquilo que é regulado pela lei. Há preceitos afirmativos, e estes obrigam sempre, mas admitem exceções em certas circunstâncias, como por exemplo: o preceito de ouvir Missa, de que em certos casos alguém está isento; e há preceitos negativos, os quais nunca é lícito transgredir, como por exemplo: o preceito de não matar. Ninguém é obrigado ao preceito enquanto não o conhece. Aos príncipes seculares compete preceituar, para utilidade comum, nas coisas temporais; aos prelados compete preceituar nas coisas eclesiásticas. Na lei Evangélica ou no Cristianismo, há três gêneros de preceitos: os preceitos da Fé, que nos obrigam a crer firmemente todos os mistérios que Deus revelou à sua Igreja; os preceitos sacramentais, que nos obrigam aos sacramentos da Igreja, com as devidas disposições e em certos tempos e os preceitos morais, que estão contidos no Decálogo e no Santo Evangelho, particularmente no Sermão da montanha. Todos os preceitos morais pertencem à lei da natureza, por isso devem ser observados por todos os homens. Toda a lei é cumprida pelos preceitos da caridade, e os preceitos da caridade são somente dois: amor a Deus e amor ao próximo.

PREDESTINAÇÃO

É um ato da vontade divina, determinando, desde toda a eternidade, conduzir certas criaturas para a vida eterna. Escrevendo aos Romanos, São Paulo afirma: 'aos que Deus predestinou, a esses chamou e aos chamados justificou-os e, aos justificados, glorificou-os'» (Rm 8, 30). E em outro lugar, escreve ainda o mesmo Apóstolo: 'Deus elegeu-nos (em Cristo), antes da constituição do mundo... e predestinou-nos em caridade, para sermos seus filhos adotivos por Jesus Cristo, segundo o beneplácito da sua vontade (Ef 1, 4. 5). O Concílio Valentino (ano 855) ensina: 'confessamos fielmente a existência da predestinação dos eleitos para a vida eterna'. A predestinação nada põe no predestinado, senão os seus efeitos, que são a preparação para a glória e a preparação para a graça, que é o meio único para conseguir a glória. Os predestinados não estão certos da sua predestinação, a não ser que Deus lhes faça conhecer. Ninguém, pois, pode ter a presunção de que é predestinado; todavia aquele que vive cristãmente, como a Igreja ensina, pode ter a esperança de ser chamado ao Céu, porque não pode viver virtuosamente sem um auxílio especial da graça divina.

PRIMÍCIAS E DÍZIMOS

São os recursos devidos ao clero e que são pagos segundo os particulares estatutos e costumes louváveis em cada região.

PRESBITERATO

É a ordem que confere o poder de consagrar o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo, de administrar os sacramentos, exceto o da Confirmação e o da Ordem, de pregar, de benzer os fiéis e as coisas que tenham a seu uso, e de presidir às suas assembléias nos atos do culto religioso. Para receber a Ordem de Presbítero é necessário ter vinte e quatro anos completos e ter passado metade do quarto ano do curso teológico, a não ser que outra coisa seja permitida por legítimo privilégio.

PRESENÇA DE DEUS

Deus está em todas as criaturas, criando, conservando, governando, conhecendo tudo, mesmo os nossos pensamentos e os segredos do nosso coração. Esta verdade é luz e é força; lembrada que seja, evita o erro da inteligência e fortalece a vontade no desejo e na prática do bem. Guiados pelo pensamento da presença de Deus, vivemos sempre e em toda a parte, acompanhados ou sós, como um filho bem educado sob os olhares de seu pai, abstemo-nos de toda a ação má ou palavra repreensível, repelimos toda a ideia que possa despertar um mau desejo, vivemos alegremente e confiados na sua divina proteção. O Apóstolo São Paulo, falando da presença de Deus, escreveu: 'Não há criatura alguma invisível à sua vista; antes todas as coisas estão nuas e descobertas aos olhos dAquele a quem havemos de dar contas' (HB 4, 13).

PRIMA

É a primeira das Horas Canônicas que se segue a Laudes. Chama-se Prima porque devia ser recitada na primeira hora do dia, isto é, pelas seis horas da manhã. É, sem dúvida, a mais bela oração da manhã.

PRIMAZ

É um título dado a um bispo e que, além da prerrogativa de honra e direitos de precedência ao arcebispo, não tem consigo alguma jurisdição especial.

PROCLAMAS

São os anúncios públicos de futuro matrimônio, feitos na igreja, principalmente com o fim de descobrir impedimentos, se os houver. Os nubentes devem ser proclamados nas paróquias do seu domicílio ou quase domicílio, se o tiverem, e na do batismo, e naquelas em que tenham residido por mais de seis meses contínuos, depois da idade núbil. São dispensados da proclamação onde tenham residido unicamente por motivo de estudo. [Os proclamas devem ser lidos na igreja em três domingos e dias santos de guarda, à hora da Missa paroquial, ou a outra hora em que haja regular concurso de fiéis]. Todos os fiéis são obrigados a revelar ao pároco ou ao bispo do lugar, antes da celebração do Matrimônio, os impedimentos de que tiverem conhecimento. Só por motivo grave, o pároco pode assistir ao Matrimônio sem terem passado três dias depois da última proclamação, ou mediante licença do bispo. Não se realizando o matrimônio dentro de seis meses após a última proclamação ou de obtida a dispensa da mesma, deve repetir-se a leitura dos proclamas. Havendo causa legítima, o bispo pode dispensar das proclamações..

PROFECIA

É a predição certa e manifesta de um acontecimento futuro, contingente e livre, que realmente se realizou na época designada e cujo conhecimento, no momento da predição, não pôde ser adquirido por causas naturais. A profecia só pode ser feita por Deus, porque o homem não pode conhecer, com certeza, uma coisa futura, que depende da livre vontade de Deus ou de alguma criatura. Deus fez-se conhecer do seu povo escolhido — o povo de Israel — principalmente por meio das profecias, revelando-se a alguns homens de bom espírito que anunciavam acontecimentos futuros, acompanhando esses anúncios com milagres que Deus permitia que fizessem, para provar o caráter divino da revelação. Pelos milagres o povo conhecia ser verdade o que os profetas anunciavam e cria em Deus. Pela realização das profecias, os homens do tempo em que se realizavam, reconheciam-nas como verdadeiras e criam em Deus. Houve 4 profetas chamados maiores, por serem os seus escritos mais extensos: Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel. Houve 12 profetas chamados menores, porque foram menos extensos no que escreveram.

PROFISSÃO RELIGIOSA

É a consagração temporária ou perpétua que o religioso ou a religiosa faz da sua pessoa a Deus (de forma simples ou solene), prometendo viver segundo a regra e o espírito da Ordem Religiosa a que pertence. Para fazer profissão perpétua, é necessário ter 21 anos de idade, quer a profissão seja simples, quer seja solene.

PÚLPITO

É uma tribuna que na igreja é destinada à pregação. Geralmente está colocado em uma coluna ou na parede da igreja, do lado do Evangelho, à altura suficiente para que o pregador se possa fazer ouvir de todos os fiéis que assistem à pregação. Nas igrejas catedrais, fica do lado da Epístola, para o pregador estar voltado para o bispo.

PURGATÓRIO

É o lugar onde as almas dos que morrem na graça de Deus, mas com algum pecado venial ou sem estarem purificadas das penas temporais devidas aos pecados graves já perdoados, expiam pelo sofrimento as penas dos pecados cometidos neste mundo, até que satisfaçam à justiça divina, para poderem entrar no Céu. Os sofrimentos das almas do Purgatório consistem em estarem privadas da visão de Deus e estarem ligadas pelos tormentos do fogo. Não sofrem somente: gozam também, porque têm a certeza de ir para o Céu e estão na graça de Deus. Nós podemos socorrê-las com os nossos sufrágios - orações, esmolas, sacrifícios, e, principalmente, oferecendo por elas o Santo Sacrifício da Missa. A Sagrada Escritura assim nos ensina, dizendo que: 'é santo e salutar o pensamento de orar pelos defuntos, para que sejam livres dos seus pecados' (II Mc 12, 46). O Purgatório é apenas um lugar de expiação e durará só até ao fim do mundo.

(Verbetes da obra 'Dicionário da Doutrina Católica', do Pe. José Lourenço, 1945)

CALENDÁRIO CATÓLICO - DEZEMBRO DE 2020

 
(clicar sobre o calendário para imagem maior)

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

O MUNDO É MUITO BOM

Este mundo é muito bom, tal como foi feito e tal como o vemos, porque Deus o quer assim: ninguém pode duvidar disso. Se a criação fosse desordenada e se o universo evoluísse ao acaso, poder-se-ia por em causa esta afirmação. Mas como o mundo foi feito com sabedoria e ciência, de modo racional e lógico, posto que foi ornado de toda a beleza, é preciso que Aquele que a ele preside e que o organizou não seja senão a Palavra de Deus, o seu Verbo, o seu Logos.

Sendo a boa Palavra do Deus de bondade, foi esse Verbo que dispôs a ordem de todas as coisas, que reuniu os contrários com os contrários para com eles formar uma só harmonia. É Ele, 'poder e sabedoria de Deus' (1Cor 1,24), que faz girar o céu, que tem a terra suspensa e que, sem que ela assente em nada, a mantém com a sua própria vontade ( Hb 1,3). O sol ilumina a terra com a luz que recebe dele, e a lua recebe a sua medida da sua luz. Por Ele a água fica suspensa nas nuvens, as chuvas regam a terra, o mar mantém-se nos seus limites, a terra cobre-se de toda a espécie de plantas (Sl 103).

A razão de esta Palavra, Verbo de Deus, ter vindo até às criaturas é verdadeiramente admirável. A natureza dos seres criados é passageira, fraca, mortal; mas, sendo pela sua natureza bom e excelente, o Deus do universo ama os homens.  Assim, vendo que, entregue a si própria, toda a natureza criada se esvai e se dissolve, para evitar que isso aconteça e para que o universo não regresse ao nada, Deus não o abandona às flutuações da sua natureza. 

Na sua bondade, com o seu Verbo, Ele governa e mantém toda a criação, que não sofre, portanto, o destino que teria se o Verbo não cuidasse dela, isto é, a aniquilação. 'Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criatura; porque foi nele que todas as coisas foram criadas, no céu e na terra, as visíveis e as invisíveis, tudo nele subsiste. Ele é a cabeça do Corpo, que é a Igreja' (Cl 1,15-18).

(Santo Atanásio)

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

TESOURO DE EXEMPLOS (34/36)

 

34. O VALOR DA COMUNHÃO

A. Lê-se na biografia do Cardeal Newman um episódio edificante. Ele, antes de se tornar católico, era protestante e alto dignitário da Igreja Anglicana, com um vultoso estipêndio anual, pago pelo governo inglês. Mesmo nessa condição, quis estudar as razões e os fundamentos da Igreja Católica e, conhecida a verdade, abraçou-a prontamente.

Como se sabe, tornou-se um católico fervorosíssimo; preparou-se, fez-se sacerdote e foi um apóstolo d  Eucaristia. Antes da conversão, procurou-o um amigo que lhe disse: 'Pense seriamente no passo que vai dar; saiba que, fazendo-se católico, o governo não vai lhe dar mais nada e vai retirar a sua prebenda (subsídio)'

Newman pôs-se em pé e exclamou com ar de desprezo:

O que é um punhado de ouro, em relação a uma comunhão?

E, a seguir, fez-se católico. Suas palavras merecem ser bem meditadas.

B. Luísa compreendeu bem o valor da comunhão. Tem apenas nove anos e não pode ir comungar senão aos domingos na missa, às dez horas. Sua mãe, temendo que ela adoeça por ter de ficar tanto tempo em jejum, proíbe-lhe a comunhão. Luísa, usando de esperteza, finge quebrar o jejum mas, durante a semana inteira, não come e nem bebe qualquer coisa antes do almoço.

➖ Mamãe, a senhora deixa eu comungar amanhã?

➖ Não, filhinha; a comunhão é muito tarde... você pode ficar doente.

 Mas, mamãe, eu passei toda a semana em jejum até a hora do almoço e não fiquei mal...

35. AS CRIANÇAS DÃO BELOS EXEMPLOS

A. Um menino se aproximou do sacerdote e perguntou:

➖ Senhor Padre, é verdade que só as mulheres podem comungar todos os dias?

➖ Quem lhe disse isso?

➖ Ninguém; eu é que pensei que nós não poderíamos comungar sempre.

Quando soube que também os meninos podiam fazer o mesmo, apresentou-se todas as manhãs à sagrada mesa. E não ficou nisso: tornou-se um apóstolo, pois a ele deveu o avô, um pobre varredor de rua, a graça do batismo e da comunhão antes da morte.

B. Uma menina se preparava para fazer a sua primeira comunhão. Ela já sabia toda a doutrina e quase todas as orações. Um dia perguntou:

➖ Mamãe, eu queria fazer a minha primeira comunhão na Páscoa.

➖ Não, não pode ser! - respondeu a mãe.

➖ Mas por que, mamãe, eu queria tanto...

➖ Não; não pode, você é muito desobediente.

➖ Ah! é por isso, mamãe? A senhora vai ver como eu não a desobedecerei mais. 

Passaram-se quinze dias; a menina parecia transformada. Foi então falar de novo com a mãe:

➖ Então, mamãe, não tenho obedecido bem?

➖ Sim; você tem-se comportado bem.

➖ Bem, mamãe; agora a senhora me deixa comungar?

Este exemplo foi imitado por outras crianças e, na Páscoa, pela primeira vez, houve primeiras comunhões de crianças precoces, acompanhadas de seus pais que também comungaram.

36. O PASTORZINHO QUE VEIO A SER PAPA

Um dia, lá pelos idos do ano de 1530, um frade de Ascoli, na Marca de Ancona (ltália), perdera o caminho. Encontrando por acaso um pastorzinho, aproximou-se do pequeno e lhe perguntou:

➖ Por onde é que se vai para Ascoli?

➖ Ascoli? Sei, sim, senhor. Caminhemos devagar, a passo de meus cordeirinhos, e e eu o levarei até lá - disse o menino.

Pelo caminho, iam conversando. O frade notou que o pequeno era vivo, amável e de boa prosa. Foi interrogando-o e soube, então, que ele era filho de um trabalhador muito pobre, que morava em um casebre ali perto, e mal ganhava para se sustentar. Em vista disso, havia posto o filho a cuidar das ovelhas e porcos de um vizinho mais abastado. O menino não sabia ler. Entretinha-se a cantar alguns cânticos religiosos que tinha aprendido de sua boa mamãe. Era tudo.

O frade ficou encantado com o rapazinho e, depois que este lhe mostrou o caminho e a cidade não muito longe, convidou-o a visitá-lo em seu convento em Ascoli. O pastorzinho não se fez de rogado. foi até o convento e, daí em diante, o seu passeio favorito, quando tinha tempo, era ir conversar com o frade, seu conhecido. Um dia, tendo apresentado o menino ao superior do convento, o frade lhe perguntou se não era uma pena deixar sem instrução um rapazinho tão desembaraçado e inteligente.

O superior foi da mesma opinião. Era preciso fazer estudar aquele pastorzinho. Dirigiram-se aos pais, prometendo-lhes que se encarregariam da educação de seu filho. A proposta foi aceita com gosto. O pastorzinho passou a morar no convento e, em seguida, foi admitido na comunidade, onde estudou e ordenou-se sacerdote, chegando a ser professor de teologia. Confiaram-lhe cargos importantes, de que se desempenhou tão bem que o papa o fez cardeal. Em 1585, após a morte de Gregório XIII, o antigo pastorzinho foi eleito papa com o nome de Sixto V, tornando-se um dos maiores pontífices da Igreja.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos', do Pe. Francisco Alves, 1958; com adaptações)

ver PÁGINA: TESOURO DE EXEMPLOS

domingo, 29 de novembro de 2020

EVANGELHO DO DOMINGO

 

'Iluminai a vossa face sobre nós, convertei-nos, para que sejamos salvos!' (Sl 79)

 29/11/2020 - Primeiro Domingo do Advento

1. O QUE VOS DIGO, DIGO A TODOS: VIGIAI!


Hoje começa um novo ano litúrgico da Santa Igreja com o Tempo do Advento, período que os cristãos são conclamados a viver em plenitude as graças da expectativa, da conversão e da esperança, à espera do Senhor Que Vem. O Ano Litúrgico 2020-2021 é o Ano B, no qual os exemplos e ensinamentos de Jesus Cristo são proclamados a cada domingo pelas leituras do Evangelho de São Marcos.

E o novo ano litúrgico começa com Jesus exortando a vigilância aos filhos de Deus: 'O que vos digo, digo a todos: Vigiai!' (Mc 13, 37). Do alto do Monte das Oliveiras e à vista de Jerusalém, Jesus vai alertar os seus discípulos sobre a necessidade de se permanecer vigilantes, na oração e na confiança de uma vida de plenitude cristã, diante das coisas do mundo, que passam e repassam no cotidiano de nossas vidas. Vigilância que se impõe naqueles tempos, na vida futura da Igreja, nos remotos tempos da história: 'Vigiai, portanto, porque não sabeis quando o dono da casa vem: à tarde, à meia-noite, de madrugada ou ao amanhecer. Para que não suceda que, vindo de repente, ele vos encontre dormindo' (Mc 13, 35 - 36).

São palavras de salvação, porque a única coisa realmente importante para o homem é a salvação eterna de sua alma. Tudo o mais é efêmero e sem sentido. No fim dos tempos ou no fim de nossa vida, o Juízo Final ou o Juízo Particular vai nos pedir contas essencialmente da nossa vigilância filial à Santa Vontade de Deus, no cumprimento de nossas ações cristãs, no acervo das graças recebidas, na inquietude do coração humano ao encontro do Pai.

Vigiar significa essencialmente não pecar, não ofender a Santidade de Deus com as misérias e as fragilidades humanas, não conspurcar a Infinita Pureza da alma que nos foi legada um dia com a lama dos prazeres, frivolidades e maldades de uma vida profanada pelos valores do mundo. Porque haverá o dia do juízo, no qual os homens serão levados ou deixados para trás: 'Cuidado! Ficai atentos, porque não sabeis quando chegará o momento' (Mc 13, 33). Vigiar é estar preparado para que sejam santos todos os dias de nossa vida e para que Deus escolha, dentre eles, o mais belo, para receber de volta as almas vigilantes que Ele próprio desenhou para a eternidade.