quarta-feira, 25 de abril de 2018

A BÍBLIA EXPLICADA (XIX) - A PORTA ESTREITA

'Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição e numerosos são os que por aí entram. Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho da vida e raros são os que o encontram' 
(Mt 7, 13-14)


No livro do Deuteronômio [capítulos 28 a 32], Deus dispôs diante o povo hebreu dois caminhos - um repleto de bênçãos; outro eivado de maldições. Dois caminhos antagônicos, opostos, separados por um abismo de consequências irreconciliáveis: 'ponho diante de ti a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a vida, para que vivas com ela a tua posteridade, amando o Senhor, teu Deus, obedecendo à sua voz e permanecendo unido a ele. Porque é esta a tua vida e a longevidade dos teus dias na terra que o Senhor jurou dar a Abraão, Isaac e Jacó, teus pais' (Dt 30, 19-20).

Jesus nos remete à mesma opção dos dois caminhos que conduzem, ao final da trilha, a uma porta estreita ou a uma porta larga e espaçosa. No primeiro caso, não se anda em bandos, nem no atropelo de caravanas ou romarias, mas impõe uma caminhada pessoal, contínua e perseverante, que nos leva às eternas moradas. Muitas vezes, e quase sempre, estamos sozinhos e seguir em frente não nos dá o privilégio da companhia. Por isso, é um caminho difícil, penoso, que depende essencialmente de uma escolha pessoal. O segundo caminho é plano e espaçoso, que oferece muitos encantos e encontros, muitas opções de paradas e descanso. Nunca estaremos sozinhos e, muitas vezes, seguir é apenas uma opção entre parar e voltar muitos passos.

Cada um de nós é totalmente responsável pelo seu destino final, pela construção de uma caminhada essencialmente pessoal; vamos prestar contas de todos os nossos atos e de nossa vida sozinhos - irremediavelmente sozinhos - diante do Pai. Por isso, o caminho espiritual de elevação a Deus é uma senda estreita; cada passo dado é uma certeza absoluta de que estamos mais perto da felicidade eterna, mais próximos de Deus. O outro caminho, pela sua amplitude, falseia esta realidade e nos consola com apelos mundanos e da companhia provisória, comumente nos expõe às necessidades humanas e aos interesses do tempo, e nos regala com a brevidade da vida e não com a eternidade da graça.

Jesus é enfático em caraterizar as dificuldades de se seguir o 'caminho da vida'. Dizer-se ciente e comprometido com a Santa Vontade de Deus é um propósito bastante atraente e certamente atrai muitas boas intenções e pode ser inclusive bastante romantizado, mas nada tem de fácil ou de romântico. É um caminho de decisões constantes, firmes decisões, no compromisso de se viver a autêntica fé cristã no cotidiano da vida. Exige convicção, fortaleza de espírito, perseverança, confiança em Deus. Não é um percurso de algumas horas ou uma senda de quilômetros. É um caminho a ser percorrido por uma vida inteira, todos os dias. O caminho da vida leva à porta da vida eterna: não se fica diante de Deus pela eternidade sem gastar a sola do sapato no caminho da santidade. 

O 'caminho da morte', por outro lado, é gratuito e feliz, quase como uma corredeira de eventos jubilosos. Quase nunca se está sozinho, a felicidade está sempre nos outros, nos prazeres de lugares e acontecimentos. O coração está cheio de amores e disposições, mas apenas para os sentimentos e os interesses mais óbvios e humanos; a vontade está condicionada a um futuro imediato e previsível; a mente está totalmente tomada pelo significado de coisas a fazer no estrito domínio da rendição completa aos ditames do tempo que passa. 

Todo homem terá que percorrer um destes dois caminhos; não existe meio termo. Jesus não aceitou a sua missão pela metade e redimiu o mundo porque aceitou plenamente o caminho do amor e o caminho da Cruz. E, ao dar o testemunho da porta estreita, foi incisivo em determinar que o caminho da redenção e da salvação tem o mesmo sentido. Deus não faz opções por quem tem meio coração, um coração partido e dividido entre Deus e o mundo, entre a fé e o pecado. É apenas o pleno amor a Deus que vai empurrar, no amparo do livre arbítrio, as nossas almas para o caminho estreito da vida e para a porta estreita da eternidade, tal como nos conclama o próprio Deus, com santa veemência, pela boca de Moisés: 'Escolhe, pois, a vida' (Dt 30, 19).

terça-feira, 24 de abril de 2018

A CARIDADE É A MANIFESTAÇÃO DE TODAS AS VIRTUDES

O que desejo do homem, como frutos da ação, é que prove suas virtudes na hora oportuna. Talvez ainda te recordes! Quando, há muito tempo, desejavas fazer grandes penitências por minha causa e perguntavas: 'Que mortificações eu poderia fazer por ti?', eu te respondi no pensamento: 'Sou aquele que gosta de poucas palavras e de muitas ações'. Então era minha intenção mostrar-te que não me comprazo no homem que apenas me chama por palavras: 'Senhor, Senhor, gostaria de fazer algo por ti', ou naquele que pretende mortificar o corpo com muitas macerações, mas sem destruir a vontade própria. Queria dizer-te que desejo ações varonis e pacientes, bem como as virtudes internas, de que falei antes, as quais são todas elas operativas e produtoras de bons frutos na graça.

Ações baseadas em outros princípios constituem para mim meras palavras, realizações passageiras. Eu, qual ser infinito, quero ações infinitas, amor infinito. Desejo que as mortificações e demais exercícios corporais sejam considerados como meios, não como fins. Se neles repousar o inteiro afeto da pessoa, ser-me-ia dado algo de finito, à semelhança de uma palavra que, ao sair da boca, já não existe, quando é pronunciada sem amor. Só o amor produz e revela a virtude!

Quando uma ação, que chamei com o nome de 'palavra', está embebida de caridade, então me agrada; já não se apresenta sozinha, mas acompanhada de discernimento verdadeiro, isto é, como ato que é meio para se atingir um objetivo superior. Não é exato olhar a penitência ou qualquer ato externo como base e finalidade principal; são obras limitadas, seja porque praticadas durante esta vida passageira, seja porque um dia a pessoa terá que deixá-las por resolução pessoal ou por ordem alheia. Umas vezes a abandonará o homem coagido pela impossibilidade de continuar o que começou, e isto acontece em situações diversas; outras vezes por obediência à ordem do superior. Aliás, neste caso, se as continuar não terá merecimento algum e cometerá até uma falta.

Como percebes, as mortificações são coisas finitas e como tais hão de ser praticadas. São meios, não finalidade. Quem as assume como finalidade, sentir-se-á vazio quando tiver de abandoná-las. Foi quanto ensinou o glorioso apóstolo Paulo ao vos convidar em sua carta (Cl 3,5) a mortificar o corpo e a destruir a vontade própria, ou seja, a refrear o corpo mortificando a carne, quando ela se opõe ao espírito. A vontade própria deve ser destruída e submetida à minha. Tal coisa é feita pela virtude do discernimento, como expliquei antes, com o desprezo do pecado e da sensualidade, por efeito do autoconhecimento. Eis a espada que mata e corta todo egoísmo; eis os servidores que não me apresentam somente 'palavras', mas ações. Eles formam o meu prazer. É em tal sentido que afirmava eu que desejo poucas palavras e muitas ações!

Ao dizer 'muitas', não me refiro à quantidade. É o desejo da alma, alicerçado no amor que vivifica as virtudes, que há de atingir o infinito. Também não quis manifestar desprezo pela palavra! Apenas afirmei que desejava 'poucas palavras', a indicar que todas as ações externas são finitas. Indiquei-as com o termo 'poucas', mas elas bem que me agradam quando são feitas como meios para adquirir a virtude, sem a conotação de objetivo principal.

Não se deve considerar como mais perfeito o grande penitente que arrasa o seu corpo, ao fazer a comparação com alguém que se mortifica menos. Como já disse, seu merecimento não está nisso. Se assim fosse, mal estaria quem, por razões legítimas, não pode fazer atos de penitência externa e vive unicamente na prática do amor, sob a luz do discernimento, sem poder agir diversamente. O discernimento leva o homem a amar-me sem limites, sem restrições, já que sou a Verdade suma e eterna. É relativamente ao amor ao próximo, que o discernimento impõe limites e formas de amar.

Ao brotar da caridade, o discernimento faz amar o próximo ordenadamente. Pela caridade exercida com retidão, ninguém pode pecar, prejudicando-se sob pretexto de ser útil aos outros. Não seria caridade com discernimento se alguém cometesse um só pecado para salvar o mundo inteiro do inferno ou para adquirir um grande ato de virtude. Seria falta de discernimento, pois é ilícito fazer uma grande ação virtuosa ou beneficente através de um ato pecaminoso. O verdadeiro discernimento ordena-se da seguinte forma: faz o homem orientar todas as suas faculdades a me servirem com virilidade e solicitude; amar o próximo realmente, mesmo sacrificando mil vezes a vida corporal, se fosse possível, para a salvação alheia; suportar dificuldades e aflições para que o outro possua a vida da graça; colocar os seus bens materiais a serviço do outro. Eis quanto realiza o discernimento na medida em que procede do amor.

Compreendes, assim, que o homem que deseja ter a graça, com discernimento tributar-me-á amor infinito, sem restrições; quanto ao próximo, ter-lhe-á juntamente com esse amor infinito uma caridade ordenada, não se prejudicando com pecados, sob pretexto de ajudá-lo. A esse respeito vos advertiu São Paulo (1Cor 13,1-) que a caridade deve começar por si mesmo, pois de outra forma não seria de perfeita utilidade para os demais. No caso de imperfeição interior, imperfeitas serão as obras feitas para si e para o próximo. Não é certo que alguém para salvar pessoas finitas e criadas por mim, viesse a ofender-me enquanto Bem infinito. Seria mais grave e de maiores proporções a culpa que o efeito decorrente. Por motivo algum, portanto, deves cometer o pecado. Sabe disto a caridade verdadeira, a qual possui a iluminação do discernimento santo.

O discernimento é uma luz que dissolve a escuridão, afasta a ignorância e alimenta as virtudes, bem como as ações externas que conduzem à virtude. Ele constitui uma atitude prudente que não padece enganos, uma atitude perseverante que não pode ser vencida. O discernimento estende-se do céu à terra, isto é, do conhecimento do meu ser até o conhecimento do próprio ser, do meu amor ao amor pelo próximo. E sempre com humildade. Prudentemente ele evita e sai ileso de todos os laços do demônio e dos homens. Sem outras armas além da paciência, ele superou o demônio. Mediante essa doce e gloriosa iluminação, a carne reconheceu a própria fraqueza; desprezou-se; venceu o mundo; submeteu-o a um amor maior; envileceu-o; como senhor, dele fez caçoada!

Devido ao discernimento, os seguidores do mundo são incapazes de destruir as virtudes internas; ao contrário, suas perseguições até as fazem aumentar, servindo-lhes de prova. Como indiquei, as virtudes são concebidas interiormente no amor e depois se revelam, exteriorizam-se através do próximo. Assim, se as virtudes não se mostrarem, agindo exteriormente no tempo da perseguição, é sinal de que não se tratava de verdadeira virtude interna. Já disse e expliquei que uma virtude não será perfeita, nem frutificará, senão em benefício dos homens. Acontece como para a mulher que concebeu um filho; enquanto não der à luz a criança, de modo que a veja a sociedade, seu marido não dirá que tem um filho. Sucede o mesmo comigo, esposo da alma; até que a pessoa não exteriorize sua virtude no amor do homem, revelando-a de acordo com as urgências em geral ou em particular, afirmo que na realidade não é interiormente virtuosa. O mesmo afirmo quanto aos vícios, pois todos eles são cometidos contra os homens.

('O Diálogo', de Santa Catarina de Sena)

segunda-feira, 23 de abril de 2018

CATECISMO MAIOR DE PIO X (V)

Jacó e seus filhos no Egito

37. José, no Egito, logo granjeou, com sua virtude, a estima e o afeto de seu amo; mas depois, caluniado pela mulher de Potifar, foi lançado no cárcere. Ali esteve durante dois anos, até que, por haver interpretado ao Faraó e rei do Egito dois sonhos e profetizado que depois de sete anos de fartura seguiriam sete anos de fome, foi retirado da prisão e nomeado vice-rei do Egito. No tempo de abundância José fez grandes provisões, de maneira que quando a fome começou assolar a terra, o Egito estava abastecido de mantimentos.

38. Gente de toda parte ia até lá para acudir ao trigo; Jacó também foi forçado a enviar os seus filhos, que a princípio não conheceram José; mas reconhecidos por ele, deu-se-lhes a conhecer, ordenou-lhes que trouxessem seu pai ao Egito com toda sua família. Jacó, ansioso por abraçar o seu filho amado, foi até lá, e o rei lhe assinalou a terra de Gessen para sua morada e dos seus.

39. Depois de 17 anos no Egito, Jacó, próximo da morte, reuniu em torno de si os seus doze filhos, e com eles os dois filhos de José por nome Efraim e Manassés; recomendou que voltassem para a terra de Canaã, mas sem deixar esquecidos seus ossos no Egito; abençoou a todos em particular, predizendo a Judá, que o cetro ou poder supremo não sairia de sua descendência até a vinda do Messias.

Servidão dos hebreus no Egito

40. Os descendentes de Jacó, chamados hebreus ou israelitas, foram por algum tempo respeitados e tolerados pelos egípcios. Mas multiplicaram-se em grande número, formando um grande povo; outro Faraó, que reinou mais tarde, oprimiu-os com o jugo da mais dura escravidão, chegando a ordenar que todos os filhos varões recém-nascidos fossem jogados no Nilo.

Libertação dos hebreus por Moisés

41. Na terrível escravidão do Egito teria perecido todo o povo hebreu sem ver a terra de Canaã, se Deus não viesse prodigiosamente tirá-los das mãos de seus opressores cruéis.

42. Um menino hebreu, de nome Moisés foi providencialmente salvo das águas do Nilo pela filha de Faraó, que o instruiu e o educou na mesma corte de seu pai. Deus se serviu dele para libertar seu povo e cumprir as promessas feitas a Abraão.

43. Moisés já crescido, ordenou-lhe o Senhor que, em companhia de seu irmão Aarão, fosse ao Faraó e lhe intimasse que permitisse aos hebreus saírem do Egito. O Faraó recusou. Moisés, para vencer o coração endurecido do rei, munido de um cajado, feriu o Egito com dez castigos prodigiosos e terríveis, denominados as Pragas do Egito, a última das quais foi que um Anjo, por volta da meia-noite, começando pelo filho do rei, matou todos os primogênitos do Egito, desde os homens até os animais.

44. Na mesma noite em que ocorreu este massacre, os hebreus, por ordem de Deus, celebraram pela primeira vez a festa da Páscoa, que quer dizer passagem do Senhor. Aqui o rito ordenado por Deus: que cada família sacrificasse um cordeiro sem defeito e rociasse com seu sangue a porta de sua casa, com o qual estaria segura durante a passagem do Anjo; que assasse a carne e a comesse logo em traje de caminhantes, com o báculo nas mãos, como pessoas prontas para partir. Esse cordeiro era uma figura do imaculado Cordeiro Jesus, que com o seu sangue havia de salvar todos os homens da morte eterna.

45. O Faraó e todos os egípcios, à vista de seus filhos mortos, sem mais tardança deram pressa aos hebreus para que partissem, entregando-lhes todo o ouro e prata e quanto pediram. Os hebreus partiram e, depois de três dias, encontravam-se junto à praia do Mar Vermelho.

Travessia do Mar Vermelho

46. Logo arrependeu-se o Faraó de ter deixado partir os hebreus e imediatamente seguiu atrás deles com seu exército, e alcançou-os junto ao mar. Moisés encorajou o povo, que estava aterrorizado com a visão dos egípcios; estendeu seu cajado sobre o mar e as águas foram divididas lado a lado até o fundo, deixando grande caminho aos hebreus, que passaram a pé enxuto.

47. O Faraó, obstinado em sua perversidade, lançou-se atrás deles por aquele caminho, mas apenas entrou, as águas caíram sobre ele, e todos, homens e cavalos, foram submersos.

(Do Catecismo Maior de Pio X)