sábado, 18 de maio de 2019

ORAÇÃO: IMMACULATA MATER DEI


Immaculata Mater Dei, Regina caelorum, Mater misericordiae, advocata et refugium peccatorum, ecce ego illuminatus et incitatus gratiis, a te materna benevolentia large mihi impetratis ex thesauro divino, statuo nunc et semper dare in manus tuas cor meum Iesu consecrandum. Tibi igitur, beatissima Virgo, coram novem choris Angelorum cunctisque Sanctis illud trado, Tu autem, meo nomine, Iesu id consecra; et ex fiducia filiali, quam profiteor, certum mihi est te nunc et semper quantum poteris esse facturum, ut cor meum iugiter totum sit Iesu, imitans perfectissime Sanctos, praesertim sanctum Ioseph, Sponsum tuum purissimum. Amen.

Imaculada Mãe de Deus, Rainha do Céu, Mãe da Misericórdia, Advogada e Refúgio dos pecadores, eis que eu, iluminado e inspirado pelas graças recebidas da vossa maternal intercessão junto ao tesouro divino, quero entregar o meu coração em vossas mãos, agora e sempre, para ser consagrado a Jesus. Ó Santíssima Virgem, na presença dos nove coros dos anjos e de todos os santos, eu o entrego a vós para que, em meu nome, possais consagrá-lo a Jesus; sob a vossa confiança filial, tenho a firme certeza de que, agora e sempre, tudo havereis de fazer para que o meu coração possa pertencer inteiramente a Jesus, a exemplo da perfeição dos santos e, em particular, ao de São José, vosso castíssimo Esposo. Amém.

[Escrita por São Vicente Pallotti (1798-1850), fundador dos Palotinos]

sexta-feira, 17 de maio de 2019

COMPÊNDIO DE SÃO JOSÉ (XII)


56. Como foi a morte de José? 

Também não possuímos elementos convincentes para esclarecer a respeito de sua morte; porém, aceitando que ele tenha morrido antes de Jesus, podemos deduzir que tenha tido uma morte ao lado de Jesus e de Maria. O certo é que a morte de José possui um significado importante, tanto é verdade que esta tem um valor e um lugar na piedade dos fiéis. A sensibilidade religiosa e a razão guiaram a piedade cristã a considerar, desde os tempos mais antigos, a morte de José como 'um plácido sono entre os braços da Virgem e de Jesus'. 

57. Por que São José é considerado protetor da boa morte? 

Há um livro apócrifo denominado 'A história de São José, o carpinteiro', que teve origem em Nazaré no século II, o qual foi escrito para uso litúrgico dos judeu-cristãos. Este relata que Jesus teria contado aos discípulos reunidos sobre o monte das Oliveiras toda a vida de José, particularmente a sua morte. Este relato difundiu-se ao ponto que os coptos monofisitas egípcios instituíram a festa da comemoração de sua morte, denominada de 'trânsito', no dia 20 de julho. Com a influência deste livro e desta festa, passou-se a considerar São José o protetor da boa morte e a cena do 'Trânsito de São José' apareceu na iconografia e se difundiu rapidamente. Nasceram várias confrarias para promover esta festa, até aquela mais recente instituída pelo Papa Pio X em 1913, junto à Igreja de São José Al Trionfale, em Roma, denominada de 'pia união do trânsito de São José para a salvação dos agonizantes'. Também o Papa Bento XV no motu proprio Bonum Sane em 1920 quis que São José fosse lembrado como protetor dos moribundos, porque expirou com a assistência de Jesus e de Maria. O mesmo papa aprovou também duas missas votivas a São José, uma para os moribundos e outra para a proteção da boa morte, e também uma oração para obter a boa morte: 'Que eu morra como o glorioso São José, entre os braços de Jesus e de Maria…'. Da mesma forma, Pio X em 1909 aprovou a Ladainha de São José e, dentre as invocações estão aquelas 'esperança dos enfermos', 'padroeiro dos agonizantes' e 'terror dos demônios'. Também o Papa Pio XI, pelo Ritual Romano de 1922, colocou para o rito da unção dos enfermos a invocação: 'São José, dulcíssimo padroeiro dos agonizantes, fortaleça a tua esperança' e, da mesma forma, compôs a belíssima oração: 'A ti eu recorro, São José, padroeiro dos moribundos…'. 

58. Podemos dizer alguma coisa de José após a sua morte? 

Muitos teólogos e santos, dentre os quais alguns respeitadíssimos como São Tomás de Aquino, Clemente de Alexandria e São Bernardino de Sena, afirmaram que José estava entre os santos que, na ressurreição de Jesus, saíram dos sepulcros conforme narra o evangelista Mateus (Mt 27,52-53). É evidente que São José seria o primeiro, devido à sua grandeza como pai de Jesus e esposo de Maria, a merecer este privilégio. Outros teólogos como Cornélio Lápide e Francisco Suárez afirmam que José subiu aos céus em corpo e alma na ascensão de Jesus. O Papa Bento XIV limitou-se a afirmar que acreditava piedosamente que São José ressuscitou. A Igreja nunca se pronunciou a este respeito porque não é um artigo de fé. O próprio Bernardino de Sena afirma que: 'Podemos crer por devoção, e não por segurança temerária, que Jesus ornou o seu pai putativo com o mesmo privilégio concedido à sua santíssima Mãe, de modo que, como ela foi levada aos céus em corpo e alma, assim também no dia da ressurreição do Senhor Jesus, ressuscitou consigo o santíssimo José…'.

59. Em virtude da sua sublime paternidade, como podemos exprimir melhor a dignidade de José?

Quanto mais unido a Jesus, maior a dignidade, por isso sua dignidade só é superada por aquela de Maria e, portanto, é superior àquela dos Anjos. Jesus foi-lhe obediente e submisso, e José teve para com ele um relacionamento de pai, na educação, no afeto e na convivência. Portanto teve uma tarefa altíssima, pois cooperou no mistério da nossa redenção. O teólogo Francisco Suárez defende a dignidade de José afirmando: 'Considero que a missão de apóstolo constituiu o maior encargo entre os que existem na Igreja … Entretanto, não é improvável a opinião segundo a qual a missão de José é ainda mais perfeita, por ser de ordem superior… existem encargos ou ministérios da ordem da graça santificante e, nesse caso, considero os apóstolos em suma dignidade… porém existem ministérios que se encontram no limite da ordem da união hipostática, a qual é de per si mais perfeita… justamente nesta ordem, no meu modo de ver, está o ministério de São José, ou seja, no mais alto grau'. 

60. Qual a importância de José nos mistérios da nossa redenção? 

Antes de tudo devemos afirmar que ele participou como nenhuma outra pessoa, com exceção de Maria, no mistério na encarnação de Jesus, função esta que ele exerceu como esposo de Maria e com a sua paternidade. Sua cooperação foi, podemos dizer, indireta, enquanto esposo de Maria, mas necessária e, enquanto pai de Jesus, embora não participando diretamente, colaborou enquanto nutriu, protegeu e educou Jesus, compartilhando com ele vários anos de sua vida. Deus confiou-lhe Jesus e Maria, os tesouros mais preciosos, e por isso a sua missão foi aquela de servir a economia da salvação, ao desígnio da redenção que se iniciou com a encarnação.

('100 Questões sobre a Teologia de São José', do Pe. José Antonio Bertolin, adaptado)

quarta-feira, 15 de maio de 2019

OS GRANDES MÍSTICOS DA IGREJA (III)

ANGELA DE FOLIGNO

Poucas almas experimentaram, de forma tão extremada, os ditames da conversão como Angela de Foligno (nascida em Foligno, pronuncia-se 'folinho', pequena cidade situada próxima a Assis, na região da Úmbria na Itália, em 1248). Mulher de beleza incomum, contraiu núpcias ainda muito nova e foi mãe de prole numerosa (7 filhos); entre limites pouco sensíveis ao ambiente familiar, trajes pouco modestos e apelos de uma vida ávida de festas e divertimentos, dedicou-se por inteiro a uma vida mundana, frívola e, muitas vezes, profundamente pecaminosa. 


Mas Deus tinha outros planos para ela. Aos 37 anos de idade, aquela vida imersa em caos e desordem começou a trilhar os duros caminhos da penitência e da conversão. E Angela sentiu medo; um medo terrível de perder a sua alma, quando experimentou vivamente, em sua consciência, o conhecimento dos seus pecados e de sua vida pecaminosa. Chorou profusamente de arrependimento, mas não se entregou a uma conversão imediata por uma santa confissão, por vergonha de revelar a um sacerdote os seus pecados. Sua fonte de inspiração, que seria modelo então de toda a sua vida, foi São Francisco de Assis, que lhe apareceu em sonho e lhe aconselhou a buscar um bom confessor de imediato. Este mediador da graça de Deus foi o Pe. Arnold, sacerdote franciscano, primo e capelão do bispo local que, por meio dessa primeira e tantas outras confissões e diálogos, tornar-se-ia mais tarde o diretor espiritual e o divulgador das experiências sobrenaturais da mística de Foligno. 

Nesta jornada mística, a fase inicial foi caracterizada por um preço amargo e doloroso - uma estação de purificação através do sofrimento: quem havia perdido Cristo e encontrado o mundo, agora, para viver em Cristo, perdia o mundo inteiro. Com efeito, numa sucessão de tragédias sem fim, Angela perdeu a mãe, o marido e todos os seus sete filhos (provavelmente devido a um surto continuado de alguma grave epidemia). O passo seguinte foi distribuir todos os seus bens aos necessitados e, então, tornar-se uma religiosa franciscana reclusa (provavelmente em 1291). Privada de toda e qualquer referência de natureza humana, ela vai experimentar agora uma jornada mística que a levará a cumes inimagináveis.

Nesta jornada, a transição da conversão para a experiência mística inexprimível ocorreu pela Paixão de Cristo, na busca cada vez maior de uma perfeita 'semelhança' com o Crucificado. Neste propósito, Angela entregou-se de corpo e alma, nunca se poupando da penitência e do sofrimento, no sentido de morrer completamente para as coisas do mundo e se transformar no Homem-Deus Crucificado. Todo o seu progresso espiritual está descrito na obra Memoriale (escrito em latim pelo Pe. Arnold a partir da exposição oral da própria mística em dialeto da região da Úmbria) e nos 36 textos que constituem o conjunto ordenado de suas chamadas instruções aos religiosos e religiosas franciscanas (compilados no Livro de Visões e Instruções de Ângela  de Foligno).


A diretriz desse caminho é marcada e delineada pela oração constante, como ela própria afirma: 'Quanto mais rezais, tanto mais sereis iluminado; quanto mais fordes iluminados, tanto mais profundamente e intensamente vereis o Sumo Bem, o Ser sumamente bom; quanto mais profundamente e intensamente o verdes, tanto mais o amareis; quanto mais o amardes, tanto mais vos deliciareis; e quanto mais vos deliciardes, tanto mais o compreendereis e tornareis capazes de compreendê-lo. Sucessivamente, chegareis à plenitude da luz, porque compreendereis não poder compreender'.

Embora já presente nos seus fundamentos na obra Memoriale, a teologia mística e algo complexa de Angela de Foligno, que a fez conhecida como 'Mestra dos Teólogos', é mais estruturada e detalhada nas Instruções, mediante um processo de tripla transformação da alma: a primeira acontece quando o homem busca viver o caminho da vida e da paixão de Cristo (união pela semelhança com Cristo); a segunda ocorre quando a alma é transformada em Deus (a união com Deus pode ser expressa por pensamentos e palavras) e a terceira é formada por uma imersão completa da alma em Deus e de Deus na alma (união tão perfeita que não é passível de expressão por pensamentos ou palavras).

Estas transformações da alma não constituem estados permanentes e a alma, depois de experimentá-las, deve retornar à sua condição natural, para seu grande desgosto e sofrimento. Neste processo de transformação, Angela vivenciou a incorporação dos estigmas e experimentou uma grande gama de êxtases e aniquilamentos interiores. Os êxtases e visões da Paixão de Cristo foram de tal magnitude que ela padecia terrivelmente do flagelo combinado destes eventos, sentindo os efeitos do sofrimento extremo em todos os ossos e juntas do corpo. Após ter recebido, certa vez, a comunhão dada por um anjo, passou vários anos de sua vida recebendo apenas a Santa Comunhão como único alimento.


No Natal de 1308, revelou às suas companheiras que a sua morte ocorreria em breve, o que aconteceu durante o sono na madrugada de 04 de janeiro de 1309. Seus restos mortais, após processo de conservação, repousam atualmente na Igreja de São Francisco em Foligno. Foi beatificada em 1701 pelo Papa Clemente XI e, recentemente, em outubro de 2013, foi canonizada pelo Papa Francisco por meio do processo de 'canonização equivalente', relativamente raro na Igreja, em que, por meio de uma decisão papal, pode-se declarar o culto litúrgico a uma bem aventurada pela Igreja universal, em detrimento da elaboração e do desenvolvimento de um longo processo de canonização formal.


(relicário de Angela de Foligno, Igreja de São Francisco)