quarta-feira, 3 de março de 2021

SOBRE A AMIZADE ÍNTIMA COM JESUS

1. Quando Jesus está presente, tudo é suave e nada parece dificultoso; mas, quando Jesus está ausente, tudo se torna penoso. Quando Jesus não fala ao coração, nenhuma consolação tem valor; mas se Jesus fala uma só palavra, sentimos grande alívio. Porventura não se levantou logo Maria Madalena do lugar onde chorava, quando Marta lhe disse: O Mestre está aí e te chama? (Jo 11,28). Hora bendita, quando Jesus te chama das lágrimas para o gozo do espírito! Que seco e árido és sem Jesus! Que néscio e vão, se desejas outra coisa, fora de Jesus! Não será isto maior dano do que se perdesse o mundo inteiro?

2. Que te pode dar o mundo sem Jesus? Estar sem Jesus é terrível inferno, estar com Jesus é doce paraíso. Se Jesus estiver contigo, nenhum inimigo te pode ofender. Quem acha a Jesus acha precioso tesouro, ou, antes, o bem superior a todo bem; quem perde a Jesus perde muito mais do que se perdesse a todo o mundo. Paupérrimo é quem vive sem Jesus, e riquíssimo quem está bem com Jesus.

3. Grande arte é saber conversar com Jesus, e grande prudência conservá-lo consigo. Sê humilde e pacífico, e contigo estará Jesus; sê devoto e sossegado, e Jesus permanecerá contigo. Depressa podes afugentar a Jesus e perder a sua graça, se te inclinares às coisas exteriores; e se o afastas e o perdes, aonde irás e a quem buscarás por amigo? Sem amigo não podes viver, e se não for Jesus teu amigo acima de todos, estarás muito triste e desconsolado. Logo, loucamente procedes, se em qualquer outro confias e te alegras. Antes ter o mundo todo por adversário, que ofender a Jesus. Acima de todos os teus amigos seja, pois, Jesus amado de um modo especial.

4. Sê livre e puro no teu interior, sem apego a criatura alguma. É mister desprenderes-te de tudo e ofereceres a Deus um coração puro, se queres sossegar e ver como é suave o Senhor. E, com efeito, tal não conseguirás, se não fores prevenido e atraído por sua graça, de modo que, deixando e despedindo tudo mais, com ele só estejas unido. Pois, quando lhe assiste a graça de Deus, de tudo é capaz o homem; e quando ela se retira, logo fica pobre e fraco, como que abandonado aos castigos. Ainda assim, não deves desanimar nem desesperar, antes resignar-te na vontade de Deus, e sofrer tudo que te acontecer, por honra de Jesus; pois ao inverno sucede o verão, depois da noite volta o dia, e após a tempestade reina a bonança.

(Excertos da obra 'Imitação de Cristo', de Thomas de Kempis)

INDULGÊNCIA PLENÁRIA DAS SEXTAS-FEIRAS DA QUARESMA

 


Indulgência Plenária: rezar com piedosa devoção a oração En ego, o bone et dulcissime Iesu (Eis-me aqui, ó bom e dulcíssimo Jesus!) nas sextas-feiras da Quaresma, diante de uma imagem de Jesus Crucificado e depois da comunhão.

En ego, o bone et dulcissime Iesu, ante conspectum tuum genibus me provolvo, ac maximo animi ardore te oro atque obtestor, ut meum in cor vividos fidei, spei et caritatis sensus, atque veram peccatorum meorum paenitentiam, eaque emendandi firmissimam voluntatem velis imprimere; dum magno animi affectu et dolore tua quinque vulnera mecum ipse considero ac mente contemplor, illud prae oculis habens, quod iam in ore ponebat tuo1 David propheta de te, o bone Iesu: Foderunt manus meas et pedes meos: dinumeraverunt omnia ossa mea. Amen.

Eis-me aqui, ó bom e dulcíssimo Jesus! De joelhos me prostro em vossa presença e vos suplico com todo o fervor de minha alma que vos digneis gravar no meu coração os mais vivos sentimentos de fé, esperança e caridade, verdadeiro arrependimento de meus pecados e firme propósito ele emenda, enquanto vou considerando com vivo afeto e dor as vossas cinco chagas, tendo diante dos olhos aquilo que o profeta Davi já nos fazia dizer, Ó bom Jesus: ‘Transpassaram minhas mãos e meus pés e contaram todos os meus ossos’.

(SI 21,17; cf. Missal Romano, ação de graças depois da missa)

É sempre importante lembrar que a indulgência não é o perdão dos pecados, mas a reparação das penas e danos devidos aos pecados. Para se obter a indulgência plenária é preciso:

1. ter uma disposição interior de afastamento total de todo o pecado, mesmo do pecado venial;
2. ter feito confissão recente;
3. receber a Sagrada Comunhão;
4. rezar em intenção do Santo Padre e da Santa Igreja (orações livres, mas que a Santa Sé recomenda fazer na forma de um 'Pai Nosso' e de uma 'Ave Maria').

terça-feira, 2 de março de 2021

VERSUS: IRA DE DEUS X CASTIGO DE DEUS

Pode Deus ser possuído pela IRA diante os pecados dos homens e, IRADO, não castigar os homens do pecado? Misericórdia e justiça não se contrapõem na Providência Divina, porque são ambos atributos infinitos em Deus.

'Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos muito amados. Progredi na caridade, segundo o exemplo de Cristo, que nos amou e por nós se entregou a Deus como oferenda e sacrifício de agradável odor. Quanto à fornicação, à impureza, sob qualquer forma, ou à avareza, que disto nem se faça menção entre vós, como convém a santos. Nada de obscenidades, de conversas tolas ou levianas, porque tais coisas não convêm; em vez disso, ações de graças. Porque sabei-o bem: nenhum dissoluto, ou impuro, ou avarento – verdadeiros idólatras! – terá herança no Reino de Cristo e de Deus. E ninguém vos seduza com vãos discursos. Estes são os pecados que atraem a ira de Deus sobre os rebeldes' (Ef 5,1-6) [fornicação, obscenidades, impureza ou avareza não são, mais do que nunca, pecados dos homens atuais?]


'A cólera do Senhor se inflamou novamente contra Israel e excitou Davi contra eles' (II Sm 24,1)

Deus enviou então o profeta Gad para ir ao encontro de Davi e lhe propor três alternativas de castigo:

'Preferes que venham sobre a tua terra sete anos de fome, ou que fujas durante três meses diante de teus inimigos que te perseguirão, ou que a peste assole a tua terra durante três dias? Reflete, pois e vê o que devo responder a quem me enviou' (II Sm 24,13). [são, em grande medida, os castigos da ira divina mencionados no Livro do Apocalipse].

'E Davi escolheu a peste' (II Sm 24,14) [preferindo ficar nas mãos de Deus do que nas mãos dos homens]

'Mandou, pois, o Senhor a peste a Israel, desde a manhã daquele dia até o prazo marcado. Ora, foi nos dias da colheita do trigo que o flagelo começou no povo e morreram setenta mil homens da população, desde Dã até Bersabeia' (II Sm 24,15).

Deus não castiga? A pandemia não é um castigo de Deus? [castiga o povo escolhido de Israel com a peste e não vai castigar a humanidade atual, mais perversa que os homens de Sodoma e de Gomorra, com uma pandemia?]. Mas o maior castigo de Deus para os homens dos tempos atuais é ESSE AQUI.

CALENDÁRIO CATÓLICO - MARÇO DE 2021

(clicar sobre o calendário para imagem maior)

segunda-feira, 1 de março de 2021

TRÊS TESTEMUNHOS DO PURGATÓRIO PELOS PADRES DA IGREJA

'Se alguém parte desta vida com pequenas faltas, é condenado ao fogo que consome todos os materiais combustíveis e prepara a alma para o Reino de Deus, onde nada de impuro pode entrar. Pois se sobre o fundamento de Cristo construístes não apenas ouro e prata mas pedras preciosas e ainda madeira, cana e palha, o que esperas que ocorra quando a alma seja separada do corpo? Entrarias no céu com tua madeira, cana e palha e, deste modo, mancharias o reino de Deus? Ou, em razão destes obstáculos, poderias ficar sem receber o prêmio por teu ouro, prata e pedras preciosas? Nenhum destes casos seria justo. Com efeito, serás submetido ao fogo que queimará os materiais levianos. Para nosso Deus, àqueles que podem compreender as coisas do céu, encontra-se o chamado ‘fogo purificador’. Porém, este fogo não consome a criatura, mas aquilo que ela construiu: madeira, cana ou palha. É manifesto que o fogo destrói a madeira de nossas transgressões e logo nos devolve o prêmio de nossas grandes obras' (Orígenes de Alexandria)

'Uma coisa é pedir perdão; outra coisa, alcançar a glória. Uma coisa é estar prisioneiro sem poder sair até ter pago o último centavo; outra coisa, receber simultaneamente o valor e o salário da fé. Uma coisa é ser torturado com longo sofrimento pelos pecados, para ser limpo e completamente purificado pelo fogo; outra coisa é ter sido purificado de todos os pecados pelo sofrimento. Uma coisa é estar suspenso até que ocorra a sentença de Deus no Dia do Juízo; outra coisa é ser coroado pelo Senhor' (Cipriano de Cartago).

'Contudo, há penas temporais que alguns padecem apenas nesta vida, outros após a morte, e outros agora e depois. De toda forma, estas penas são sofridas antes daquele severíssimo e definitivo juízo. Mas nem todos os que hão de sofrer penas temporais através da morte cairão nas eternas, que terão lugar após o juízo' ... 'Que deve haver algum fogo, inclusive depois desta vida, não é incrível. Algo pode ser examinado e levado à luz ou ocultado, dependendo do fiel que pode ser salvo: alguns mais lentamente, outros mais rapidamente, em maior ou menor grau, conforme amaram as coisas que se consomem mediante um certo fogo purificador' (Agostinho de Hipona).

domingo, 28 de fevereiro de 2021

EVANGELHO DE DOMINGO

  

'Andarei na presença de Deus, junto a ele na terra dos vivos' (Sl 115)

 28/02/2021 - Sexto Domingo do Tempo Comum

14. A TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR 


'Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, e os levou sozinhos a um lugar à parte, sobre uma alta montanha' (Mc 9,2). Uma alta montanha, o Monte Tabor. Como testemunhas da extraordinária manifestação da glória celeste e da vida eterna em Deus, Jesus conduz os três apóstolos escolhidos para o alto, numa clara assertiva de que é por meio do profundo recolhimento interior e da elevação da alma muito acima das coisas do mundo é que podemos viver efetivamente a experiência plena da contemplação de Deus.

'E transfigurou-se diante deles. Suas roupas ficaram brilhantes e tão brancas como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar' (Mc 9, 2-3). No mistério da transubstanciação do Senhor, os apóstolos testemunharam antecipadamente alguma coisa dos mistérios de Deus. Algo profundamente diverso da natureza humana, pois nascido direto da glória de Deus. Algo muito limitado da Visão Beatífica, posto que deveria atender sentidos humanos: 'nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem jamais passou pelo pensamento do homem o que Deus preparou para aqueles que O amam (1 Cor 2, 9). Ainda assim, algo tão extraordinário e consolador, que perturbou completamente aqueles homens e, ao mesmo tempo, os moldou definitivamente na certeza da vitória e da ressurreição de Cristo.

'Apareceram-lhe Elias e Moisés, e estavam conversando com Jesus' (Mc 9, 4). A revelação da glória de Deus é atestada pela Lei e pelos Profetas, pelo Senhor da vida e da morte, pelos textos das Sagradas Escrituras. Naquele momento, se fecha a Lei e a morte (com Moisés) e se cumprem todas as profecias e se impõe a vida eterna em Deus (com Elias, que ainda vive). E, para não se ter dúvida alguma, Deus se pronuncia no Alto do Tabor em favor do Filho: 'Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz!' (Mc 9, 7).

Do alto do Tabor, a ordem divina ecoa pelos tempos e pelas gerações humanas a todos nós, transfigurados na glória de Deus pelo batismo e herdeiros do Tabor eterno: 'Escutai o que ele diz!'. Como batizados, somos como os apóstolos descidos do monte e novamente envoltos pelas brumas e incredulidades do mundo. Pela transfiguração, entretanto, somos encorajados a vencer o mundo como Cristo, a superar a fragilidade de nossos sentidos, a elevarmos nosso pensamento às coisas do Alto, a manifestar em nós a glória de Deus como primícias do Céu, sob o consolo da fortaleza e da perseverança: 'Se Deus é por nós, quem será contra nós?' (Rm 8, 31b).

sábado, 27 de fevereiro de 2021

GALERIA DE ARTE SACRA (XXVIII)

 

Esta é a pintura cristã mais antiga da América e que se mantém preservada até hoje, executada pelos índios astecas em 1539, no México. A obra representa o milagre da transubstanciação ocorrido durante uma missa celebrada por São Gregório, em que Cristo - em modelo parcial pintado acima da cintura, na forma do Homem das Dores - apareceu no altar diante de uma duvidosa assembleia, durante o culto pascal. A pintura, com 56 cm de largura e 68 cm de altura, foi totalmente executada com penas justapostas de aves diversas e fixadas sobre um painel de madeira (técnica chamada 'plumaria'), expressão máxima da arte da cultura asteca utilizada para a representação de uma obra singular da iconografia cristã. A obra de arte encontra-se atualmente no Museu dos Jacobinos, em Auch / França.

A obra de arte foi executada pelos índios astecas, a mando do então governador da cidade do México - Diego Huanitzin - e sob a orientação e os cuidados do religioso franciscano Pierre de Ghant, como um presente do povo asteca ao então papa Paulo III. Executada apenas vinte anos após a conquista espanhola, constitui, assim, um testemunho vivo dos primórdios da evangelização e conversão dos ameríndios ao cristianismo. O trabalho em plumaria asteca da Missa de São Gregório muito provavelmente tomou como base uma impressão trazida da Espanha de uma obra de natureza similar - a Missa de São Gregório de Israhel van Meckenem (1490). Em ambas as obras, os instrumentos da Paixão de Cristo (Arma Christi) são igualmente reproduzidos, incluindo-se a coluna da flagelação, os pregos, a esponja, o galo e o chicote do castigo, inseridos no altar ou em torno dele.

A Missa de São Gregório, de Israhel van Meckenem (1490/1500)

A obra possui um valor artístico e histórico incomensuráveis mas, como instrumento de culto religioso e devocional, parece transmitir uma ideia de irradiação divina, pelo movimento ordenado e iridescente das mudanças de posição das centenas de penas fixadas em um mosaico único, sob iluminação difusa ou pelo simples fluxo de ar. Tais características e simbolismo são comparáveis aos vitrais das catedrais góticas, como expressão comum de Cristo como lux mundi (a luz do mundo). Essa constitui a síntese e o propósito final da aplicação da técnica da plumaria à arte cristã.

 Retrato de Cristo, plumaria com penas de beija-flor e papagaio, de Juan Bautista Cuiris (1550)