quinta-feira, 18 de outubro de 2018

A ESCADA PARA O CÉU

Um dia, ocupado no trabalho manual, comecei a pensar no exercício espiritual do homem. E eis que, de repente, enquanto refletia, se apresentaram a meu espírito quatro degraus espirituais: a leitura, a meditação, a oração, a contemplação.

Esta é a escada dos monges, que os eleva da terra ao céu. Embora dividida em poucos degraus, ela é de imenso e incrível comprimento, com a ponta inferior apoiada na terra, enquanto a superior penetra as nuvens e perscruta os segredos do Céu (Gn 28,12).

Estes degraus, assim como são diversos em nome e em número, também se distinguem pela ordem e o valor. Se alguém examina diligentemente suas propriedades e funções, o que produz cada um deles para nós, e como diferem e se hierarquizam entre si, achará pequeno e fácil por sua utilidade e doçura todo o trabalho e esforço que lhes dedicar.

A leitura é o estudo assíduo das Escrituras, feito com aplicação do espírito. A meditação é uma ação deliberada da mente, a investigar com a ajuda da própria razão o conhecimento duma verdade oculta. A oração é uma religiosa aplicação do coração a Deus, para afastar os males ou obter o bem. A contemplação é uma certa elevação da alma em Deus, suspensa acima dela mesma, e degustando as alegrias da eterna doçura.

A leitura procura a doçura da vida bem-aventurada, a meditação a encontra, a oração a pede, a contemplação a experimenta. Por isso, o Senhor mesmo diz: 'Buscai e encontrareis, chamai e se vos abrirá'. Buscai lendo e encontrareis meditando, chamai orando e abrisse-vos contemplando. 

A leitura, de certo modo, leva à boca o alimento sólido, a meditação o mastiga e tritura, a oração consegue o sabor, a contemplação é a própria doçura que regala e refaz. A leitura está na casca, a meditação na substância, a oração na petição do desejo, a contemplação no gozo da doçura obtida. Para que se possa ver isto de modo mais expressivo, suponhamos um exemplo entre muitos.

(Excertos de carta de um irmão cartuxo)

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

BREVIÁRIO DA CONFIANÇA (IV)


17 DE OUTUBRO

GOLPES DE MISERICÓRDIA 

Os golpes que sofremos na vida vêm do Alto. São golpes de misericórdia, golpes de cirurgião, para curar. Ferem, causam dor, provocam gemidos? Não importa. Deixemos que o Médico Divino faça a operação necessária. Sem ela nos perderemos. Abençoemos a Mão Divina, que nos fere por misericórdia. É mão de pai, de amigo, que nos quer salvar. Não há outro remédio para nossa salvação. 

O Senhor, na Sua Providência Amorosa, decretou bater-nos, ferir-nos. Faça-se a vontade Divina, toda santa, toda amável! Um dia, no Céu, compreenderemos tudo. E' por castigo que Deus, muitas vezes, nos deixa na prosperidade. Felizes os que são batidos pela Mão Divina! E' o sinal mais certo de que caminham para a salvação. Sofremos, choramos, aflige-nos a dor? Vamos! Coragem! Deixemos que os golpes nos firam, que nos abram feridas, que as façam sangrar! Tudo será bom para o Céu. 

E' com sangue e com lágrimas que se argamassa aqui o edifício do Amor. São golpes de misericórdia ou, melhor, do Amor Misericordioso. Nas nossas aflições, é assim que devemos rezar: 'Batei, cortai, feri, meu Deus, contanto que me salve. Faça-se a Vossa Santíssima e Adorável Vontade!' Nos golpes que nos vêm do Alto, há justiça e misericórdia. A Justiça pune e expia o pecado. A misericórdia salva, purifica e nos leva ao Amor.


18 DE OUTUBRO

A MELHOR DAS ORAÇÕES 

A melhor das orações é o 'Pai Nosso' e, no 'Pai Nosso', o melhor é aquele 'Seja feita a Vossa Vontade assim na terra como no Céu'. Nesse conceito está todo o segredo da santidade. Não basta dizer: 'Senhor/ Senhor!' É mister acrescentar: 'Seja feita a Vossa Vontade'. 'Não são os que dizem: "Senhor! Senhor!" ­- diz o Evangelho - que hão de entrar no Reino dos Céus, mas som os que fazem a Vontade do Pai Eterno'. 

Pouco importam mil coroas e devoçõezinhas originais, se não sabemos conformar a nossa vontade com a Vontade de Deus.  Já  disse e repito: 'Fazer o que Deus quer e querer a que Deus faz, é  a melhor das orações'. E nisto se resume toda a vida cristã. A oração de conformidade é a mais perfeita e agradável a Nosso Senhor. Porque nos sobrecarregarmos frequentemente com tantas devoções, até com prejuízo dos deveres mais graves de estado, e observarmos todas tão escrupulosamente, se o essencial, que é o dever, talvez monótono, fica esquecido e desprezado, e não aceitamos sem revolta o que Deus Nosso Senhor nos envia de sofrimentos e cruzes? 

Digamos, sim, o 'Pai Nosso' todo dia, e com fervor. Não nos esqueçamos, porém, de que, se a prece dominical é a melhor das orações, é justamente porque naquele 'Seja feita a Vossa Vontade assim na terra como no Céu' se resume toda a nossa vida cristã.

(Excertos da obra 'Breviário da Confiança', do Mons. Ascânio Brandão, 1936)

terça-feira, 16 de outubro de 2018

POEMAS PARA REZAR (XXVII)



OS ANOS SÃO DEGRAUS

Os anos são degraus; a vida, a escada. 
Longa ou curta, só Deus pode medi-la. 
E a Porta, a grande Porta desejada, 
só Deus pode fechá-la, 
e pode abri-la. 

São vários os degraus: alguns sombrios, 
outros ao sol, na plena luz dos astros, 
com asas de anjos, harpas celestiais; 
alguns, quilhas e mastros 
nas mãos dos vendavais. 

Mas tudo são degraus; tudo é fugir 
à humana condição. 
Degrau após degrau, 
tudo é lenta
 ascensão. 

Senhor, como é possível a descrença, 
imaginar, sequer, que ao fim da estrada 
se encontre após esta ansiedade imensa 
uma porta fechada 
e nada mais?

(Fernanda de Castro, escritora e poetisa portuguesa, 1900 - 1944)