domingo, 17 de fevereiro de 2019

O SERMÃO DA MONTANHA

Páginas do Evangelho - Sexto Domingo do Tempo Comum


O chamado 'Sermão da Montanha', conjunto de proposições expostas por Jesus naquele tempo a uma 'grande multidão de gente de toda a Judeia e de Jerusalém, do litoral de Tiro e Sidônia' (Lc 6, 17) contempla, de forma admirável, a síntese do Evangelho e da doutrina cristã como legado do Reino dos Céus aos homens de todos os tempos.

O primado desta herança aos homens de todos os tempos se impôs quando o Senhor, diante da enorme multidão, volveu o seu olhar divino aos Apóstolos, antes de proferir as bem-aventuranças que expressam os preceitos e as virtudes que nos santificam e nos tornam herdeiros do Reino dos Céus. Na prática do amor e na busca da perfeição cristã, eis o legado de nossa santificação: 'Bendito o homem que confia no Senhor, cuja esperança é o Senhor' (Jr 17, 7).

Essa via de santidade é expressa pelo Senhor sempre em termos da sua concepção oposta: 'Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus!' (Lc 6, 20) versus 'Mas ai de vós, os ricos, porque tendes já a vossa consolação' (Lc 6, 24). 'Bem-aventurados os que agora tendes fome, porque sereis saciados (Lc 6, 21) versus 'Ai de vós os que estais saciados, porque vireis a ter fome' (Lc 6, 25). 'Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque havereis de rir!' (Lc 6, 21) versus 'Ai de vós, que agora rides, porque tereis luto e lágrimas!' (Lc 6, 25). 'Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem, vos expulsarem, vos insultarem e amaldiçoarem o vosso nome, por causa do Filho do Homem!' (Lc 6, 22) versus 'Ai de vós quando todos vos elogiam!' (Lc 6, 26).

Com efeito, os caminhos da vida eterna não se conformam aos atalhos do mundo. Como Filhos de Deus, somos, desde agora, peregrinos do Céu mergulhados nas penumbras da fé e nas vertigens das realidades humanas, na certeza confiante do eterno reencontro: 'Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus' (Lc 6, 23).

sábado, 16 de fevereiro de 2019

DAS VERDADEIRAS AMIZADES

Ah! quanto é bom amar já na Terra o que se amará no Céu e aprender a amar aqui estas coisas como as amaremos eternamente na vida futura. Não falo simplesmente do amor cristão, que devemos ao nosso próximo, todo e qualquer que seja, mas aludo à amizade espiritual, pela qual duas, três ou mais pessoas comunicam mutuamente as suas devoções, bons desejos e resoluções por amor de Deus, tornando-se um só coração e uma só alma.

Com toda a razão podem cantar então as palavras de Davi: 'Oh! quão bom e agradável é habitarem juntamente os irmãos!' Sim, Filoteia, porque o bálsamo precioso da devoção está sempre a passar de um coração para o outro através de uma contínua e mútua participação; de tal modo que se pode dizer que Deus lançou sobre esta amizade a sua bênção, por todos os séculos dos séculos.

Todas as outras amizades são como as sombras desta e os seus laços são frágeis como o vidro, ao passo que estes corações ditosos, unidos em espírito de devoção, estão presos por uma corrente toda de ouro. Filoteia, todas as tuas amizades sejam desta natureza, isto é, todas aquelas que dependem da tua livre escolha, porque não deves romper nem negligenciar as que a natureza e outros deveres te obrigam a manter, como em relação aos teus pais, parentes, benfeitores e vizinhos.

Hás de ouvir que não se deve consagrar afeto particular ou amizade a ninguém, porque isto ocupa demais o coração, distrai o espírito e causa ciúmes; mas é um mau conselho, porque, se muitos autores sábios e santos ensinam que as amizades particulares são muito nocivas aos religiosos, não podemos, no entanto, aplicar o mesmo princípio a pessoas que vivem no meio do mundo — e há aqui uma grande diferença.

Num mosteiro onde há fervor, todos visam o mesmo fim, que é a perfeição do seu estado, e por isso a manutenção das amizades particulares não pode ser tolerada aí, para precaver que, procurando alguns em particular o que é comum a todos, passem das particularidades aos partidos. Mas no mundo é necessário que aqueles que se entregam à prática da virtude se unam por uma santa amizade, para mutuamente se animarem e conservarem nesses santos exercícios. Na religião, os caminhos de Deus são fáceis e planos e os que aí vivem se assemelham a viajantes que caminham numa bela planície, sem necessitar de pedir a mão em auxílio. 

Mas os que vivem no meio do mundo, onde há tantas dificuldades a vencer para ir a Deus, parecem-se com os viajantes que andam por caminhos difíceis, escabrosos e escorregadios, precisando sustentar-se uns nos outros para caminhar com mais segurança. Não, no mundo nem todos têm o mesmo fim e o mesmo espírito e daí vem a necessidade desses laços particulares que o Espírito Santo forma e conserva nos corações que lhe querem ser fiéis. Concedo que esta particularidade forme um partido, mas é um partido santo, que somente separa o bem do mal: as ovelhas das cabras, as abelhas dos zangões, separação esta que é absolutamente necessária.

Em verdade não se pode negar que Nosso Senhor amava com um amor mais terno e especial a São João, a Marta, a Madalena e a Lázaro, seu irmão, pois o Evangelho o dá a entender claramente. Sabe-se que São Pedro amava ternamente a São Marcos e a Santa Petronila, como São Paulo ao seu querido Timóteo e a Santa Tecla.

São Gregório Nazianzeno, amigo de São Basílio, fala com muito prazer e ufania da sua íntima amizade, descrevendo-a do modo seguinte: 'Parecia que em nós havia uma só alma, para animar os nossos corpos, e que não se devia mais crer nos que dizem que uma coisa é em si mesma tudo quanto é e não numa outra; estávamos, pois, ambos em um de nós e um no outro. Uma única e a mesma vontade unia-nos nos nossos propósitos de cultivar a virtude, de conformar toda a nossa vida com a esperança do Céu, trabalhando ambos unidos como uma só pessoa, para sair, já antes de morrer, desta Terra perecedora'. Santo Agostinho testemunha que Santo Ambrósio amava a Santa Mônica unicamente devido às raras virtudes que via nela e que ela mesma estimava este santo prelado como um anjo de Deus.

Mas para quê deter-te tanto tempo numa coisa tão clara? São Jerônimo, Santo Agostinho, São Gregório, São Bernardo e todos os grandes servos de Deus tiveram amizades particulares, sem dano algum para a sua santidade. São Paulo, repreendendo os pagãos pela corrupção de suas vidas, acusa-os de gente sem afeto, isto é, sem amizade de qualidade alguma. São Tomás de Aquino reconhecia, com todos os bons filósofos, que a amizade é uma virtude e entende a amizade particular, porque diz expressamente que a verdadeira amizade não pode se estender a muitas pessoas. A perfeição, portanto, não consiste em não ter nenhuma amizade, mas em não ter nenhuma que não seja boa e santa.

(Excertos da obra 'Filoteia ou Introdução à Vida Devota, de São Francisco de Sales)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

A MISSA DOS PRIMEIROS TEMPOS

A Eucaristia, desde os primeiros dias da Igreja, foi de suma importância para os cristãos e centro de todos os seus cultos. A reunião litúrgica, que nos descrevem os Atos dos Apóstolos, era a celebração da Santíssima Eucaristia. Eram cerimônias simples a princípio, que renovavam a última ceia, como o Divino Mestre recomendara aos Apóstolos: 'Fazei isto em memória de mim'.

Aos poucos estas cerimônias eucarísticas, a união dos fiéis com Cristo pela comunhão, receberam maiores solenidades, especialmente na sua preparação que consistiam em preces e súplicas. Textos sublimes do Antigo Testamento, como as preces dos salmos, foram incluídos nas cerimônias eucarísticas, bem como passagens da vida de Nosso Senhor e que se encontram nos Evangelhos. A estas celebrações se deu o nome de Missa. 

Nos tempos mais antigos, em que o grego era língua oficial dos cristãos, estas cerimônias se chamavam Eucaristia, e às vezes 'eulogia', que significa bênção. O nome que prevaleceu nas épocas posteriores foi o de 'Missa'. Estudando os antigos escritos dos Padres da Igreja e vendo as pinturas das catacumbas, podemos ter uma ideia do que consistia a missa nos primeiros tempos cristãos, no fim do século II ou início do século III. 

Estas cerimônias eram celebradas em casas particulares, onde se reuniam os fiéis; muitas destas casas eram doadas às comunidades que as transformavam em igrejas. Estas se tornavam cada vez mais vastas, pois aumentava sempre o número dos fiéis. As igrejas surgiram numerosas pois, durante as perseguições, decretos foram assinados pelos imperadores, para que elas fossem destruídas. Muitas vezes, as missas eram celebradas nas catacumbas, especialmente quando violentas eram as perseguições e lá se refugiavam os fiéis. Também na comemoração de um mártir, nos dias de sua festa, os sacrifícios eucarísticos eram celebrados em seu louvor diante de seu túmulo.

Com maiores solenidades, eram celebradas as missas de domingo, quase sempre à meia noite, terminando ao despontar da alvorada. Ainda hoje se celebram missas à meia noite, como no Natal, relembrando as antigas tradições. A Missa, como ainda hoje, se dividia em duas grandes partes. A primeira podiam assistir os catecúmenos, aqueles que se preparavam para o batismo. O celebrante se conservava voltado para o povo, saudando-o várias vezes, durante a cerimônia. As orações ao pé do altar não existiam e o Introito somente apareceu no século IV, com os cânticos de salmos, enquanto o celebrante se dirigia ao altar. A Missa dos Catecúmenos era de orações e de instrução. 

Pedia-se a Deus pelos catecúmenos, para que suas preces fossem acolhidas e eles instruídos na doutrina e nos mandamentos do Senhor; pedia-se pelos recém batizados, pelos doentes, escravos, pelos mártires que aguardavam o suplício. A estas súplicas feitas pelo diácono, os fiéis respondiam com as palavras gregas que ainda conservamos na missa: Kyrie eleison! Senhor, tende compaixão de nós!

O celebrante, logo depois, recitava a oração da missa na súplica geral por todos, que no final respondiam: 'Amém'. Colocado em lugar mais elevado, o leitor lia para todos trechos do Antigo Testamento, passagens das Epístolas de São Paulo, e de outros apóstolos, dos Padres da Igreja, dos Atos dos Apóstolos, ou narrativas dos mártires. A leitura do Evangelho era feita por um diácono e os fiéis de pé a escutavam atentamente. Terminada a leitura, o celebrante fazia os comentários sobre o trecho lido, ou escolhia um pregador para fazer a homilia.

Assim termina a Missa dos Catecúmenos, que reproduz, por assim dizer, a liturgia das sinagogas. O Credo que era recitado apenas nas profissões de fé ou em alguma outra circunstância, só mais tarde foi introduzido na missa. A segunda parte era a Missa dos Fiéis; os catecúmenos se retiravam da Igreja. A liturgia atual da missa conserva quase todas as cerimônias antigas na preparação e realização do augusto sacrifício.

Na missa dos fiéis, encontram-se as três partes essenciais do sacrifício: o ofertório, a consagração e a comunhão.Antes do ofertório, os fiéis levavam até o altar a matéria do sacrifício: o pão e o vinho. O simbolismo sublime desta cerimônia, em que os fiéis depositam no cibório a hóstia para a sua comunhão, é, como se vê, costume antigo na Igreja, revivido hoje nas Procissões do Ofertório, já comuns em muitos lugares.

Os antigos fiéis, além do pão e vinho para a consagração, ofereciam esmolas para os pobres, viúvas e para as obras de caridade. Os diáconos separavam as ofertas, depositando o vinho e o pão sobre o altar. Pelas orações chamadas secretas, o sacerdote, como ainda hoje, pedia ao Senhor que em troca dos dons terrenos, concedesse ao povo os dons do Céu.

Aproximando-se o momento mais solene de toda a cerimônia, o celebrante convidava os fiéis à piedade e ao fervor: 'Corações ao alto!' 'Temo-los no Senhor!' 'Demos graças a Deus'. 'Isto é digno e justo!' 'Verdadeiramente', continuava o sacerdote, 'é digno e justo que vos rendamos graças, ó Senhor, Santo, Pai Todo Poderoso e Eterno'. O prefácio é um cântico de triunfo e de glória, é um convite à união com as hierarquias dos anjos, para bendizer e louvar a Deus. Termina pelo Sanctus, que é um hino celestial: 'Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus dos exércitos. Os céus e a terra estão cheios da vossa glória. Hosana no alto dos céus. Bendito seja o que vem em nome do Senhor. Hosana no alto dos céus'. É um cântico sublime que os bem-aventurados cantam no céu, como descreve São João, na visão do Apocalipse.

Pinturas nas catacumbas nos mostram o sacerdote com as mãos estendidas sobre o pão e o vinho para tomar posse sobre a vítima, pronunciando depois as palavras solenes da Consagração, exatamente as mesmas proferidas por Cristo na última ceia. A última parte é a comunhão. O sacerdote, como fez Cristo, parte o pão: é a fração do pão, com que também se designava a missa outrora. A Didaqué nos fala da prece da unidade, que se pronunciava então: 'Assim como este pão estava, nos seus elementos, disperso pelas colinas e se encontra agora reunido, permiti, Senhor, que a nossa Igreja se reúna desde as extremidades da terra...'

A comunhão era dada sob as duas espécies do pão e do vinho. O sacerdote oficiante dava aos fiéis a hóstia sagrada, pronunciando as palavras: Corpus Christi. E o fiel respondia: Amém! O diácono trazia o cálice que contém o precioso sangue: Sanguis Christi calix vitae, e o comungante bebia um pouco. A última prece era o agradecimento a Deus pelas graças e benefícios, pela comunhão recebida. 'Ite, missa est!'

Prostrados os fiéis recebiam a bênção do celebrante e a Missa chegava ao seu final. Assim se celebravam nos primeiros tempos as santas missas, sacrifício único da Nova Lei em que Jesus Cristo, pelo ministério do sacerdote, se oferece e se imola no altar sob as espécies do pão e do vinho, para reconhecer o supremo domínio de Deus e nos serem aplicados os méritos de sua paixão e morte de cruz. Na assistência piedosa à santa missa e na participação ativa dela, encontravam os primeiros cristãos a força que os animava à santidade de vida e ao martírio. Possuíam Cristo em suas almas e nada seria capaz de os perturbar.

A Missa que hoje se celebra é essencialmente a mesma dos primeiros tempos do cristianismo: Renovação do Sacrifício do Calvário. E a liturgia atual conserva as antigas cerimônias, tão ricas em seus simbolismos. Desde a origem da Igreja incessantemente se renova sobre os nossos altares o sacrifício de Cristo, em todas as épocas, do Oriente ao Ocidente, do nascer ao por do sol, santificando as almas e espalhando para toda a humanidade, os frutos abundantes de vida e salvação do Sacrifício do Cordeiro de nossa Redenção.

(Excertos da obra 'As Mais Belas Histórias do Catolicismo', do Cônego Paulo Dilascio)