PARTE III - O INFERNO
I. Sobre o fogo do Inferno
Apesar de, nos dias de hoje, muitos negarem a existência do Inferno ou, pelo menos, a eternidade do castigo, não consideramos que nos caiba apresentar uma série de provas de que existe um lugar chamado Inferno. No caso do leitor cristão, a quem este livro se destina, evidências dessa natureza são totalmente supérfluas, pois ele não terá naufragado em sua fé. De fato, que outras provas podem ser necessárias para a existência do Inferno e a eternidade do castigo, visto que os profetas, o próprio Cristo, os apóstolos e os Padres da Igreja, e até mesmo os turcos e os pagãos, falam disso como um fato inquestionável? Aqueles que negam a existência do Inferno devem, consequentemente, ser contados entre os tolos que dizem em seu coração que não há Deus que castigue as suas más ações.
Seria, sem dúvida, muito agradável para essas pessoas se tudo terminasse com esta vida, se não houvesse dia do Juízo Final ou se, pelo menos, as regiões infernais fossem um pouco menos intoleráveis. Isso explica por que se agarram a quaisquer argumentos aparentes com os quais se iludam e adormeçam seu medo dos castigos eternos do Inferno. Não entraremos em qualquer análise dos sofismas miseráveis com os quais esses tolos se enganam; pois o ensinamento da Igreja Católica sobre este ponto é tudo o que precisamos. Ela ensina que há um lugar ou estado de dor inigualável e sem fim reservado para os condenados.
Sabemos que realmente há fogo no Inferno, pelas palavras que Cristo dirigiu aos ímpios: 'Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que foi preparado para o diabo e seus anjos' (Mt 25,41). Isso mostra que há fogo real no Inferno e que nele os condenados devem arder eternamente. Qual será a intensidade dessa dor está além do poder do homem descrever. Pois, de todos os variados tipos de sofrimento físico a que o homem pode ser submetido, não há nenhum tão grande, tão cruel, tão agonizante quanto aquele causado pelo fogo. Suplícios ou a amputação dos membros de um homem são exemplos de torturas terríveis, mas não se comparam à dor da queimadura. Basta tocar um ferro em brasa para sentir que dor excruciante isso causa! Em um instante a pele se desprende, a carne viva se expõe, sangue e matéria escorrem da ferida, e a dor penetra até a medula dos nossos ossos. Não se pode evitar gritar e urrar como se tivéssemos perdido os sentidos. Ora, se o contato momentâneo com o ferro em brasa causa dor tão aguda, como seria se tivéssemos de segurar um ferro em brasa por algum tempo!
Agora, imagine que você fosse condenado a ser queimado vivo por seus pecados e, durante um dia inteiro, permanecesse em meio às chamas, incapaz de morrer. Como chorarias e gemerias lastimosamente, como gritarias e rugirias alto em tua agonia, de modo que os gritos de partir o coração arrancados de ti pela tortura que suportas não apenas fariam os espectadores estremecerem, mas os encheriam de sincera compaixão. Aquele homem deveria ter, de fato, um coração de pedra para suportar olhar impassível tal espetáculo.
Em pouco tempo, tu serias queimado a tal ponto que não serias mais reconhecível, reduzido à aparência de uma brasa incandescente. Agora, reflete, ó cristão: se a ação do fogo terreno causa agonia tão intolerável, qual será a tortura do fogo do Inferno, cujo calor é incomparavelmente mais intenso e penetrante do que o de qualquer fogo com o qual estamos familiarizados? E se perguntares por que o fogo do Inferno deve exceder tanto o fogo terreno na intensidade de seu calor, há várias razões que explicam esse fato.
Em primeiro lugar, todos sabem que quanto maior o fogo, maior o calor que ele exala. A chama de uma vela de cera não é muito quente, mas se a vela inteira estiver queimando de uma só vez, a chama que dela se eleva é muito mais quente. Quando uma casa está em chamas, o calor nas imediações é muito intenso, mas se uma aldeia inteira estiver em chamas, o calor da conflagração torna-se insuportável mesmo à distância. Se tal é o efeito produzido pelo fogo da terra, que é comparativamente pequeno em sua extensão, qual será a ação do fogo do Inferno, que é incomensuravelmente maior do que qualquer incêndio visto na terra!
Em segundo lugar, um fogo confinado em uma fornalha arde com muito mais intensidade do que se estivesse ao ar livre, porque o calor, ao estar confinado, não pode escapar nem se difundir, nem ser atenuado pelo ar circundante. Se assim é, com que fúria as chamas da imensa fornalha do Inferno irão arder, com que intensidade irão brilhar! Suponha-se uma desgraça como a de um homem ser lançado em um forno de cal, ou em uma fornalha aquecida até ficar incandescente: quão terríveis seriam seus sofrimentos!
A razão seguinte pela qual o fogo do Inferno supera em intensidade de calor todos os outros fogos é que ele é aceso pelo sopro de Deus. Pois o profeta Isaías diz: 'Vede! É o nome do Senhor que vem de longe, sua cólera é ardente, uma nuvem pesada se levanta, seus lábios respiram furor, e sua língua é como um fogo devorador. Seu sopro assemelha-se a uma torrente transbordante cuja água sobe até o pescoço. Ele passará as nações no crivo destruidor' (Is 30,27-28). E ainda: 'um lugar de incineração está preparado também para Tofet [inferno], cavado, profundo e largo; palha e lenha ali há em quantidade, e o sopro do Senhor, como uma torrente de enxofre, o acenderá' (Is 30,33).
Que descrição terrível é aqui dada do Inferno e de seu fogo torturante. Não digam que, nessas e em outras passagens conhecidas da Sagrada Escritura, as expressões empregadas são meras figuras de linguagem, pelas quais os profetas predisseram os julgamentos divinos prestes a recair sobre as nações pecadoras, e que não devem ser tomadas em sentido literal, como se referindo ao Inferno e às suas punições. Não nos iludamos. Essas imagens devem, é verdade, ser entendidas, em seu significado primário, como indicando a condenação das nações pecadoras; mas, num sentido mais amplo e elevado, de acordo com a interpretação que lhes dão os exegetas das Escrituras, são previsões do castigo judicial que, após o Juízo Final, será a sorte dos pecadores réprobos.
Santa Brígida afirma com razão em suas revelações: 'O calor do fogo do Inferno é tão grande que, se o mundo inteiro estivesse envolto em chamas, o calor de tal incêndio seria como nada em comparação com ele'. Daí aprendemos que aquele fogo terreno não tem mais semelhança com o fogo do Inferno do que a fraca chama de uma vela de cera com o calor branco de uma fornalha incandescente. Lembre-se disso, ó pecador, e leve tudo em alta consideração! São Agostinho nos diz que o fogo mais temível da terra é, em comparação com o fogo do Inferno, como uma pintura de fogo comparada a um fogo real. Quando vires um fogo, lembra-te do fogo do Inferno. E já que não suportarias colocar a mão por um único instante nesse fogo, pensa em como deve ser o calor do fogo do Inferno, que supera infinitamente o pequeno fogo que vês diante de ti. Se não consegues suportar isto, como poderás suportar o outro?
Ficou agora claro que os condenados serão um dia lançados, de corpo e alma, na enorme e terrível fornalha do Inferno, no imenso lago de fogo, onde estarão rodeados por chamas. Haverá fogo abaixo deles, fogo acima deles, fogo por toda a parte à sua volta. Cada respiração será o sopro escaldante de uma fornalha. Essas chamas infernais penetrarão em cada parte do corpo, de modo que não haverá parte ou membro, por dentro ou por fora, que não esteja mergulhado no fogo.
Quão desesperados serão os gritos, quão agonizantes os gemidos que subirão deste abismo de tortura! 'Ai de nós, criaturas miseráveis! Ai de nós mil vezes! Estamos sendo torturados nesta chama! A dor excruciante permeia cada membro do nosso corpo; a agonia intolerável não nos deixa descanso! Se ao menos pudéssemos morrer, se ao menos pudéssemos morrer para escapar desta tortura terrível! Ai de nós, este desejo é em vão! Mortos no que diz respeito à vida da alma, mortos porque perdemos a graça, a misericórdia de Deus, estamos ainda condenados a viver, a viver para todo o sempre! Que privilégio seria para nós a morte, a aniquilação! Mas ela nos escapa; não podemos mais esperar que venha para nos libertar desta miséria, desta tortura, da fornalha do Inferno. Ai de nós, quão grande foi a nossa loucura! Por prazeres fúteis de um momento, incorremos nesta miséria intolerável, uma miséria que perdurará por toda a eternidade'.
'Compreendei bem isto' - diz Davi - 'vós que vos esqueceis de Deus: não suceda que eu vos arrebate e não haja quem vos salve' (Sl 49,22). Escuta isto, ó pecador, e deixa que as lamentações dos perdidos te sirvam de lição. Imagina para ti mesmo a fossa de fogo na qual essas criaturas miseráveis têm de expiar os seus pecados. Tu aceitarias, perguntamos novamente, por qualquer quantia de dinheiro, por maior que fosse, passar um único dia imerso nessas chamas? Não, nem por todo o mundo tu aceitarias permanecer naquele fogo por uma única hora. Se assim é, por que, em nome de algum prazer pecaminoso, de algum ganho injusto, tu te lanças voluntariamente para sempre no fogo do inferno? Ó que loucura, que loucura consumada! Que Deus conceda que esses pecadores cegos sejam iluminados, para que tomem consciência da imprudência de sua conduta e se dediquem a tempo às coisas que dizem respeito à sua salvação.
ORAÇÃO
Ó Deus de justiça! Quão grande é a vossa ira e quão todo-poderoso é o vosso ódio ao pecado e ao pecador! Ai de mim e de todos aqueles que têm a terrível infelicidade de cometer pecado mortal. Que Deus me preserve de tal pecado, que seria o meio de me lançar na perdição eterna. Sofrirei de bom grado todas as coisas, as maiores tribulações temporais, as dores mais agudas, até mesmo a morte mais cruel, de modo a escapar do tormento eterno no Inferno. Este é o meu firme propósito; por isso, concedei-me a vossa graça e fortalecei-me nesta minha boa resolução.
(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)
