sexta-feira, 14 de agosto de 2026

FRASES DE SENDARIUM (LXXX)

 

'A ciência da cruz só se aprende quando a colocamos sobre os ombros'

(Santa Teresa Benedita da Cruz)

Parece muito pesada a cruz que carregas para seguir a Jesus? Então, jogue fora os teus ressentimentos, tuas críticas, teus julgamentos, tua vaidade, tuas preocupações, teu ego... E verás como é suave a cruz. Não é o peso da cruz que te comprime os ombros, mas é o lastro inútil das vicissitudes humanas que te pesam os pés...

AS VINHAS DE DEUS (VIII)

 

50. A videira é plantada principalmente por causa de seu fruto; e, por isso, o fruto é o primeiro a ser desejado e procurado, embora as folhas e as flores apareçam antes dele. Assim também, o grande Redentor foi o primeiro na intenção divina e naquele plano eterno que a Divina Providência formou para trazer as criaturas à existência. Tendo em vista esse fruto tão desejável, foi plantada a videira do mundo e estabelecida a sucessão de muitas gerações, as quais, à semelhança das folhas e das flores, deveriam preceder o fruto como precursoras, preparando convenientemente a vinda daquele cacho de uvas que o Esposo do Cântico dos Cânticos tanto louva e cujo vinho alegra a Deus e ao homem.

51. O nardo é um pequeno arbusto que jamais se eleva às alturas, como os cedros do Líbano, mas permanece sempre em sua pequenez, exalando o seu perfume com tamanha suavidade que alegra todos os que dele se aproximam. Podemos, com efeito, dizer com toda a verdade que a Santíssima Virgem é semelhante a um nardo preciosíssimo, pois jamais se exaltou por causa das grandes graças e favores que recebeu, nem pelos louvores que lhe foram tributados, mas permaneceu sempre bela em sua humildade e pequenez. E, por essa humildade, à semelhança do nardo, difundiu ao seu redor um perfume tão suave que este se elevou até o trono da Divina Majestade; e Deus tanto se comprazia nele que desceu do Céu, veio até esta terra e se encarnou em seu sagrado seio.

52. Imaginai uma grande esponja que acaba de ser formada no mar. Se a contemplardes, vereis que há água em todas as suas partes e que ela está inteiramente impregnada de água; o mar está acima e abaixo dela e, numa palavra, ela se encontra cercada de água por todos os lados... Observai, porém, peço-vos, que, embora o mar esteja em todas as partes da esponja, a esponja não se estende por toda a imensidão do mar, pois o mar é um oceano vasto e profundo que não poderia ser contido numa esponja. Ora, esta comparação representa muito bem a união da natureza divina com a natureza humana. A esponja representa a humanidade de Nosso Senhor; o oceano, a sua Divindade, que de tal modo impregnou a humanidade que não há a menor parte do corpo ou da alma de Nosso Senhor que não esteja repleta dela.

53. Ó Jesus! Enchei os nossos corações com o sagrado bálsamo de vosso divino Nome, para que a suavidade de seu perfume se difunda por todos os nossos sentidos e em todas as nossas ações! Mas, para que estes corações se tornem capazes de receber tão doce licor, circuncidai-os e cortai deles tudo quanto possa desagradar aos vossos santos olhos.

54. Consideramos também a Cruz, não como ela se encontra atualmente, separada do Crucificado, à maneira de uma relíquia, mas como era no tempo da Paixão, quando Nosso Senhor estava nela pregado, quando essa árvore preciosa estava carregada de seu fruto, quando essa mirra destilava de todos os lados gotas de Sangue salvador. Nessa contemplação, nossas almas honram a verdadeira Cruz com a mesma honra com que honram o Crucificado.

55. A mirra tem um perfume muito suave, mas seu suco é extremamente amargo. A querida esposa, pois - a Igreja ou a alma devota - diz que seu Amado será para ela como um ramalhete de mirra sobre o coração, para mostrar que conservará sempre a lembrança da amargura de sua dolorosa Paixão.

56. Houve, sem dúvida, uma grandíssima alegria na arca de Noé, quando a pomba, que pouco antes havia saído para verificar em que estado se encontrava o mundo, finalmente regressou trazendo no bico um ramo de oliveira, sinal seguro de que as águas haviam baixado e de que Deus havia restituído ao mundo a felicidade de sua paz. Mas, ó Deus! Que alegria, que júbilo festivo não deve ter tomado os Apóstolos reunidos, quando viram a sagrada Humanidade de Jesus retornar ao meio deles depois da Ressurreição, trazendo o ramo de oliveira de uma santa e agradável paz e dizendo-lhes: Pax vobis - A paz esteja convosco!

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 5, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

GALERIA DE ARTE SACRA (XLVII)

William Dyce
(1806–1864) foi um pintor escocês particularmente interessante para quem aprecia arte cristã tradicional, ocupando uma posição singular na pintura britânica do século XIX como um artista especializado sobretudo em temas religiosos e medievais. Dyce procurava conciliar correção acadêmica, beleza formal e sentimento religioso, evitando muitas vezes o sentimentalismo teatral que aparece em parte da pintura religiosa oitocentista. Essa dimensão religiosa não era apenas temática. Dyce tinha profundo interesse pela liturgia e pela música sacra. Em 1841 fundou a Motett Society, dedicada ao estudo, execução e republicação de música eclesiástica dos séculos XVI e XVII. 

Abaixo, apresenta-se a reprodução de algumas das suas obras mais clássicas, sendo apenas a última delas uma obra não sacra.

Davi no deserto*

Nossa Senhora e o Menino Jesus

Cristo, Homem das Dores*

Lamentação sobre o Cristo Morto

São João conduz Nossa Senhora após a Crucificação

O encontro de Jacó e Raquel

Baía de Pegwell, Kent** - uma recordação de 5 de outubro de 1858

* Davi, representado como um jovem pastor, e Jesus são retratados em paisagens inspiradas nas Terras Altas da Escócia, em vez de nos cenários próprios do contexto bíblico.
** A pintura mostra membros de sua família recolhendo conchas na praia, diante das falésias de Kent.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (141/145)

 

141. ISTO É AMOR AO PRÓPRIO INSTITUTO!

Santo Inácio, quando se inteirava de que entre os seus religiosos havia algum espírito inquieto, que se permitia fazer críticas contra os Estatutos da Companhia, mandava-o embora inexoravelmente. Nenhuma razão o persuadia a transigir nesse ponto. 

No Colégio Romano ensinava então um célebre professor, homem de grande talento e possuidor de várias outras qualidades apreciáveis. Depois de certo tempo, veio à tona o espírito inquieto que o dominava e começou a pronunciar-se contra alguns regulamentos da Companhia, a externar e insinuar nos outros as suas idéias. Inácio repreendeu-o seriamente e, como os avisos não surtiram efeito, licenciou-o sem mais, embora fosse constrangido a por em seu lugar, como suplente, um jovem noviço flamengo, entrado na Ordem fazia pouco tempo.

142. A OBSERVÂNCIA ANTES DE MAIS NADA

P. Joli, Superior Geral da Congregação da Missão, quando se tratava da observância das Regras, era atentíssimo quanto a si e inflexível quanto aos outros, não se rendendo jamais nem a razões, nem a súplicas no permitir alguma quebra da Regra, por mínima que fosse. Quando um Superior lhe escreveu, pedindo certa licença, deu-lhe esta resposta: 'A nossa Regra é contrária a isso; e é preciso que estejamos fortemente apegados à Regra'. Eis a melhor de todas as razões.

Falando certo dia à sua comunidade, disse: 'Devemos ter em conta que nossa obrigação principal são as Regras e santos costumes da Congregação, deixando por isso, quando se trata de observá-la, todas as nossas devoções particulares: por exemplo, fazer mais conta de não falar sem licença com pessoas conhecidas, que encontramos eventualmente, do que fazer vinte disciplinas de nossa própria vontade'.

143. ARROJADO DO ALTO DA ESCADA

Na vida de São José Calasanz lemos uma passagem interessante e instrutiva. Ele foi chamado a salvar a juventude abandonada; o demônio, porém - afirma um autor - propõs a ele buscar a mais alta união com Deus mediante as delícias da vida contemplativa; apresentou-lhe, a seguir, as Índias e a Ásia, repletas de idólatras, a Europa infestada de hereges, o imenso número de pecadores para converter; mostrou-lhe ainda, por fim, quanto era árduo ocupar-se dos meninos incapazes de compreender as verdades da fé! 

Os seus companheiros, vítimas da mesma tentação, deram crédito ao demônio, retiraram-se e abandonaram o santo. O nosso santo, porém, não se deixou enganar; com isso o demônio ficou tão irritado que, um dia, o arrojou furiosamente do alto de uma escada, tomando a forma e o aspecto de sombras tenebrosas para amedrontá-lo.

144 - 145. DO PAGANISMO AO CLAUSTRO

1. Hiéria era pagã. Jovem e viúva de um senador romano, estava destinada a novas núpcias. Aconteceu, porém, que, durante a perseguição de Diocleciano contra os cristãos, veio a saber que em certo mosteiro vivia uma virgem chamada Febrônia, de vinte e cinco anos, belíssima, douta, eloquente, cujo rosto ninguém jamais via a não ser as suas coirmãs. Ora, Hiéria desejava vê-la; sentia uma como necessidade absoluta de satisfazer tão grande curiosidade.

Fingindo-se de monja, foi admitida à presença de Febrônia e pode vê-la e ouvir-lhe, chorando de comoção, suas santas palavras. Febrônia foi depois martirizada; e Hiéria, depositando sobre o féretro da virgem mártir todas as suas riquezas, ajoelhou-se aos pés da abadessa e, após fervorosas súplicas, obteve a graça de substituir a virgem.

2. Aglaé, nobre e rica romana, concubina de Bonifácio, que era o primeiro dos 73 intendentes de suas propriedades, ouvira dizer que quem honrava os santos mártires gozaria de especial proteção deles no tribunal de Deus.

Aglaé chamou, pois, a Bonifácio e deu-lhe a incumbência de ir ao Oriente à procura de relíquias.
➖ Senhora - disse Bonifácio - se um dia as minhas relíquias vos fossem enviadas sob a forma de mártir, vós as receberíeis?
Aglaé censurou-lhe esse modo de falar; mas Bonifácio morreu realmente mártir da fé, em Tarso. A nobre dama venerou aquelas relíquias, converteu-se, fez-se monja e de tal modo se purificou pela penitência que, mereceu ser sepultada na capela de São Bonifácio, que ela mesma mandara construir cerca de 50 estádios de Roma.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

terça-feira, 11 de agosto de 2026

SALMO 22


O Senhor é o pastor que me conduz; não me falta coisa alguma.
Pelos prados e campinas verdejantes, ele me leva a descansar. 
Para as águas repousantes me encaminha, e restaura as minhas forças. 

Ele me guia no caminho mais seguro, pela honra do seu nome. 
Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso, nenhum mal eu temerei; 
estais comigo com bastão e com cajado;
eles me dão a segurança.

Preparais à minha frente uma mesa, bem à vista do inimigo,
e com óleo vós ungis minha cabeça;
o meu cálice transborda.

Felicidade e todo bem hão de seguir-me por toda a minha vida;
e na casa do Senhor habitarei pelos tempos infinitos. 

(Salmo 22,1-6; tradução de acordo com o Lecionário da CNBB)

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

PRESENÇA DE DEUS

1. Precisamos estar convencidos de que Deus está sempre perto de nós. Vivemos como se ele estivesse longe, lá no alto dos céus, e nos esquecemos de que Ele está também constantemente ao nosso lado. Ele está presente como um Pai amoroso. Ele ama cada um de nós mais do que todas as mães do mundo podem amar seus filhos - ajudando-nos, inspirando-nos, abençoando... e perdoando... Precisamos estar cheios, imbuídos da ideia de que nosso Pai, e verdadeiramente nosso Pai, é Deus, que está perto de nós e no céu.

2. Acostume-se a elevar o seu coração a Deus, em atos de gratidão, muitas vezes ao dia. Porque Ele lhe dá isto e aquilo. Porque você foi desprezado. Porque você não tem o que precisa ou porque você tem. Porque Ele fez a sua Mãe tão bela, Sua Mãe que também é a sua Mãe. Porque Ele criou o sol e a lua e este animal e aquela planta. Porque Ele fez aquele homem eloquente e deixou você sem palavras... Agradeça a Ele por tudo, porque tudo está bem.

3. Não seja tão cego ou tão desatento a ponto de não entrar em cada Tabernáculo quando vislumbrar as paredes ou as torres das casas de Deus. Ele está esperando por você. Não seja tão cego ou tão desatento a ponto de não invocar Maria Imaculada com pelo menos uma exclamação, sempre que passar perto daqueles lugares onde você sabe que Cristo é ofendido.

4. Seja sempre uma alma de oração: nas intenções, que Jesus seja nosso objetivo; nos afetos, nosso Amor; na conversa, nosso tema; nas ações, nosso modelo.

5. Nunca tome uma decisão sem antes parar para refletir sobre o assunto na presença de Deus.

6. Se você se acostumar, mesmo que apenas uma vez por semana, a buscar a união com Maria para ir até Jesus, verá como terá mais a presença de Deus.

7. Viva na presença de Deus e você terá uma vida sobrenatural.

(Excertos da obra 'Caminho', de São Josemaria Escrivá)

domingo, 9 de agosto de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

                   

'Mostrai-nos, ó Senhor, vossa bondade, e a vossa salvação nos concedei!' (Sl 84)

Primeira Leitura (1Rs 19,9a.11-13a) - Segunda Leitura (Rm 9,1-5) - Evangelho (Mt 14,22-33)

  09/08/2026 - DÉCIMO NONO DOMINGO DO TEMPO COMUM

'VEM!' (JESUS ANDANDO SOBRE AS ÁGUAS)


Jesus, antes de despedir a multidão às margens do mar de Tiberíades, ordena aos apóstolos que entrem na barca e façam sozinhos a travessia para a outra margem. Aquele que, momentos antes, fizera a multiplicação dos pães e dos peixes, não se comprazia com o ardor da turba admirada pelo extraordinário milagre, mas refém de um messianismo enganoso e deturpado. Esse mesmo brilho enganoso poderia ter perpassado nos olhos de alguns de seus discípulos. Jesus, ciente destes desvios e interpretações ruinosas, liberta-se dos homens e se isola em oração fervorosíssima em lugar isolado, muito provavelmente para pedir e suplicar ao Pai o pleno cumprimento de sua missão salvífica e redentora, muito além das comoções humanas.

Então, já noite alta, os apóstolos sentiram medo e aflição, sozinhos na barca que se agitava perigosamente nas águas revoltas pelos ventos impetuosos. E o medo se transformou em terror quando julgaram ver um fantasma andando sobre as águas, em direção à barca. Jesus se revelou, então, a eles: 'Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!' (Mt 14,27). Mas a incerteza e a desconfiança ainda imperavam naquela barca à mercê dos ventos, expressas pelo grito de Pedro: 'Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água' (Mt 14,28). Ao que Jesus respondeu: 'Vem!' (Mt 14,28).

'Vem!' Eis o chamado de Jesus a Pedro, aos seus discípulos, a cada um de nós. Ir ao encontro de Jesus, e em Jesus colocar toda a nossa confiança e certeza, é o caminho da plenitude da graça. Ir ao encontro de Jesus, quaisquer que sejam os obstáculos, as provações e as tempestades do mundo, mesmo que pareça que estamos despojados de tudo e de todos, ainda que se tenha de andar sobre as águas de um mar tenebroso. Basta-nos a fé. A fé que faltou, então, a Pedro, quando distanciou o seu olhar do Senhor e se fixou nas marolas do mundo, afundando-se no mar. Mas 'Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro, e lhe disse: “Homem fraco na fé, por que duvidaste?' (Mt 14,3). E subiram ambos ao barco. 

A frágil embarcação no meio do nada e em completa escuridão é agora o templo de Deus: 'Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!' (Mt 14,33). Jesus está junto aos seus discípulos, e lhes dá a sua paz. Paz que faz serenar os ventos e as águas, paz que afasta os temores e aflições, paz que inunda os corações da graça divina. Paz que nos foi legada também como desígnio de salvação; tesouro que se encontra quando, na inquietude dos conflitos e incertezas do mundo, somos passageiros da grande Barca (Santa Igreja) que ruma confiante ao encontro do Senhor que Vem.

sábado, 8 de agosto de 2026

AS VINHAS DE DEUS (VII)

 

43. Os antigos filósofos, falando do homem, diziam que ele era uma árvore invertida, com as raízes para cima e os ramos para baixo. Ora, assim como uma árvore não pode viver por muito tempo se não extrair continuamente, por meio de suas raízes, o alimento de que necessita, assim também acontece com o homem, que não pode viver a vida da graça se não fizer descer sobre si as influências celestes por meio da oração, a qual, depois dos sacramentos, é um dos meios mais poderosos, não somente para conservar a graça, mas também para adquiri-la.

44. Assim como a vindima se faz espremendo as uvas, também a vindima espiritual se faz espremendo a graça de Deus e Suas promessas. Para extrair a graça de Deus, devemos multiplicar nossas orações por meio de breves, mas ardentes, elevações de nosso coração a Deus; e, para obter o cumprimento de Suas promessas, devemos multiplicar nossas obras de caridade, pois é em favor delas que Deus cumprirá Suas promessas.

45. 'Quem é esta que sobe do deserto como uma coluna de fumaça de perfumes aromáticos, de mirra e incenso e de todos os pós do perfumista, apoiada em seu amado?' (Ct 3,6 e 8,5.) Essas palavras podem muito bem ser aplicadas a uma alma humilde que pratica perfeitamente a bela virtude da humildade; pois, embora seja muito fecunda em boas obras, o humilde conceito que tem de si mesma faz com que não veja em si bem algum; antes, julga que nada faz e parece a seus próprios olhos semelhante a um deserto estéril, onde não há árvores frutíferas, porque não percebe em si mesma uma única virtude... O lírio e a rosa da oração somente se conservam e se alimentam entre os espinhos da mortificação.

46. Assim como as aves têm seus ninhos, para onde se retiram quando precisam, e os cervos têm seus bosques, onde podem abrigar-se dos ardores do verão, assim também nossos corações devem escolher, a cada dia, algum lugar de repouso, seja no Monte Calvário, seja nas Chagas de nosso Salvador, seja em algum outro lugar junto dEle, para onde possam retirar-se à vontade, a fim de buscar repouso e refrigério em meio às fadigas da vida e encontrar-se ali como em uma fortaleza, protegidos contra a tentação.

47. 'Tu és um jardim fechado e selado' - diz o Esposo, no Cântico dos Cânticos, à Santíssima Virgem; um jardim ornado com as mais belas flores que se poderiam encontrar... Não foi por meio dela que a Igreja foi semeada com as rosas do martírio e as violetas de tantas santas viúvas, humildes e modestas como essas flores, mas que espalham ao seu redor um suave perfume?... Foi seguindo o exemplo que ela nos deu que tantas virgens consagraram seus corações e seus corpos à Divina Majestade, mediante uma resolução e um voto indissolúvel de conservar sua virgindade e sua pureza.

48. São José superou em pureza os Anjos e os Arcanjos. Pois, se o sol necessita apenas de alguns dias para dar ao lírio a sua deslumbrante brancura, quem poderá imaginar a que admirável grau se elevou a pureza de José, exposta, como esteve, noite e dia, durante tantos anos, aos raios do Sol de Justiça e daquela Lua mística que recebe do Sol o seu esplendor?

49. Acima de tudo, recomendo-vos uma fervorosa oração mental, especialmente aquela que tem por objeto a Vida e a Paixão de Nosso Senhor. Esta é a árvore da vida, à sombra da qual devemos buscar repouso.

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 5, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

PORQUE HOJE É A PRIMEIRA SEXTA-FEIRA DO MÊS

 

Ó SENHOR, CONCEDEI-ME AMAR-VOS COM TODA A MINHA ALMA E MENTE!


Ó Senhor, não me priveis de vossos abençoados dons celestiais,
Ó Senhor, defendei-me e livrai-me dos tormentos eternos,
Ó Senhor, se pequei com minha mente, com meus pensamentos, com minhas palavras ou minhas ações, perdoai-me e curai minha alma,
Ó Senhor, concedei-me amar-vos com toda a minha alma e mente!

Ó Senhor, livrai-me da ignorância, do esquecimento, da covardia e do tédio,
Ó Senhor, não me deixeis cair e livrai-me de toda tentação,
Ó Senhor, iluminai meu coração obscurecido pelos desejos do maligno,
Ó Senhor, concedei-me amar-vos com toda a minha alma e mente!

Ó Senhor, como homem que sou, pequei, mas Vós, como Deus amado e benevolente, tende piedade da minha alma, vendo as fraquezas do meu coração,
Ó Senhor, enviai vossa Misericórdia em meu auxílio, para que eu possa glorificar vosso Santo Nome,
Ó Senhor Jesus Cristo, inscrevei vosso servo no Livro da Vida e concedei-me uma morte em paz,
Ó Senhor, concedei-me amar-vos com toda a minha alma e mente!

Ó meu Deus! Embora eu não tenha feito nada de bom, estendei vossa mão, ajudai-me com vossa graça para começar a fazer todo o bem,
Ó Senhor, cobri meu coração fraco com o orvalho de vosso amor,
Ó Senhor do céu e da terra, lembrai-vos de mim, vosso servo pecador, impuro e frio de coração, em vosso reino,
Ó Senhor, concedei-me amar-vos com toda a minha alma e mente!

Ó Senhor, aceitai meu sincero arrependimento,
Ó Senhor, pelo bem da minha alma, não me abandoneis,
Ó Senhor, afastai-me para longe das tentações,
Ó Senhor, concedei-me amar-vos com toda a minha alma e mente!

Ó Senhor, concedei-me pensamentos nobres e puros,
Ó Senhor, concedei-me as lágrimas do arrependimento, a memória da morte e a sensação de paz,
Ó Senhor, concedei-me humildade, caridade e obediência para agir em vosso nome,
Ó Senhor, concedei-me amar-vos com toda a minha alma e mente!

Ó Senhor, concedei-me a confissão e o perdão dos meus pecados,
Ó Senhor, concedei-me paciência, magnanimidade e doçura,
Ó Senhor, colocai em mim a fonte de todas as bênçãos e o temor de vós em meu coração,
Ó Senhor, concedei-me amar-vos com toda a minha alma e mente!

Ó Senhor, concedei que eu possa amar-vos com todo o meu coração e toda a minha alma, e que eu sempre obedeça à vossa palavra,
Ó Senhor, protegei-me dos provocadores, dos demônios, das paixões corporais e de tudo o que não me leva a Vós,
Ó Senhor, eu sei que agis como desejais; assim, seja feita em mim, pecador, a vossa vontade, porque bendito sois para todo o sempre.
Ó Senhor, concedei-me amar-vos com toda a minha alma e mente! Amém.

(São João Crisóstomo)

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXV)

 

PARTE III - O INFERNO

VII. Sobre o verme que não morre

Nosso Divino Salvador diz: 'Se a tua mão te escandaliza, corta-a; melhor é entrares na vida mutilado do que, tendo as duas mãos, ires para o inferno, para o fogo que nunca se apaga, onde o seu verme não morre e o fogo não se extingue. E, se o teu pé te escandaliza, corta-o; melhor é entrares coxo na vida do que, tendo os dois pés, seres lançado no inferno, no fogo inextinguível, onde o seu verme não morre e o fogo não se extingue. E, se o teu olho te escandaliza, arranca-o; melhor é entrares no Reino de Deus com um só olho do que, tendo dois olhos, seres lançado no inferno de fogo, onde o seu verme não morre e o fogo não se extingue' (Mc 9,42-47).

Por estas palavras, nosso bendito Redentor quis gravar profundamente em nossas almas a necessidade de evitar as ocasiões de pecado e de fazer até os mais dolorosos sacrifícios para fugir do pecado e, assim, escapar das penas eternas do inferno. Quis também imprimir vivamente em nossa mente que dois dos mais terríveis tormentos do inferno são o seu fogo inextinguível e o seu verme que nunca morre. Já vimos, em um capítulo anterior, em que consiste o terrível fogo do inferno. Resta-nos agora examinar em que consiste 'o verme que não morre'.

Todos os sentidos dos réprobos terão o seu castigo próprio; a razão, ou inteligência, é castigada pela pena da perda, como vimos no capítulo precedente, castigo este que ultrapassa incomparavelmente os sofrimentos dos sentidos. A memória dos condenados será atormentada pelo 'verme que não morre', isto é, por um remorso de consciência agudíssimo e incessante, que jamais lhes dará descanso.

O pecador condenado recordar-se-á de quantas graças e meios de salvação lhe foram concedidos durante a vida para salvar a sua alma; de como Deus lhe enviou tantas inspirações santas; de como recebeu tantas boas instruções; de como teve ao seu alcance a graça da oração para o ajudar a praticar as virtudes próprias do seu estado, vencer as tentações, guardar os Mandamentos de Deus e da sua Igreja; de como seus amigos piedosos o exortaram a levar uma vida santa, não apenas por suas palavras, mas sobretudo por seu bom exemplo; de como teve tantas oportunidades de instruir-se acerca de seus deveres, ouvindo a Palavra de Deus e lendo bons livros; e de fortalecer-se no cumprimento de suas obrigações pela recepção dos Sacramentos e pela prática da devoção à Santíssima Virgem.

Em suma, o pecador condenado recordar-se-á de quão pouco esforço lhe teria sido necessário para salvar a alma e evitar o inferno. Dirá a si mesmo: 'Tão pequeno esforço era necessário para a minha salvação! Mesmo depois dos meus numerosos pecados, uma boa confissão teria sido suficiente. Mas, por vergonha, por respeito humano, não a fiz. Como fui insensato! Quantas vezes minha consciência, minha família e meus amigos me exortaram a confessar-me! Tudo, porém, foi em vão. Outros cometeram pecados maiores do que os meus, mas deles se arrependeram, confessaram-se, mudaram de vida e agora desfrutam de uma felicidade inefável no Céu! Quanto a mim, estou perdido para sempre, e isso por minha própria culpa, pois tive à minha disposição uma abundância extraordinária de meios de salvação. Mas agora o arrependimento já não aproveita; é tarde demais!' Consideremos, porém, as expressões de pesar dos diversos pecadores condenados. Sua dor é vã, porque, à semelhança da de Judas, é o pesar do desespero. 

'Durante a vida' - dirão esses pecadores condenados a si mesmos - 'amei o conforto, o bem-estar e o luxo, as vestes finas, as joias preciosas e as mansões suntuosas. Para alcançar essas coisas, não hesitei em defraudar o meu próximo de todas as maneiras possíveis. Roubei meus patrões, prestei falsos juramentos, filiei-me a sociedades secretas, cheguei até a vender a minha própria virtude! Deixava de assistir à Santa Missa, comia carne nos dias proibidos, negligenciava os Sacramentos e fui ao ponto de renegar a minha fé. Contraí matrimônio diante de um magistrado civil ou de um ministro herege; contraí um matrimônio misto sem dispensa; obtive o divórcio e depois ousei violar as leis de Deus e da Igreja, casando-me novamente! Quis ser livre para fazer exatamente o que me agradava.

As leis de Deus e de Sua Igreja proibiam-me de frequentar ocasiões perigosas; mas desprezei essas leis porque queria divertir-me e satisfazer as minhas paixões, convivendo com pessoas e frequentando lugares que constituíam ocasião de pecado para mim. Assim, caí repetidas vezes em faltas, até mesmo nas mais vergonhosas.

Deus ordenava-me que fosse puro e casto, mas eu encontrava prazer em satisfazer as mais vis paixões de todas as maneiras possíveis, procurando toda ocasião favorável para isso. Quão criminosamente procedi ao negligenciar a educação religiosa de meus filhos, tornando-me assim causa da perdição de suas almas! Durante a vida, comprazia-me em ouvir e propagar maledicências, calúnias, conversas obscenas e até discursos ímpios. Gostava de ler romances imorais e de contemplar imagens e objetos indecentes. Enquanto vivi na terra, entreguei-me ao vício da embriaguez, abusando das bebidas fortes até degradar-me abaixo dos próprios animais e cometer inumeráveis crimes contra minha esposa, contra meus filhos e contra o meu próximo. Durante a vida, deleitava-me em blasfemar, praguejar, proferir terríveis juramentos e imprecações, em promover contendas, entregar-me ao jogo e praticar quase toda espécie de pecado.

E agora encontro-me encerrado na sombria prisão do inferno, em companhia de uma multidão incontável de malfeitores, assassinos e dos seres mais degradados que já existiram. Já não tenho um pai amoroso, um filho afetuoso, um amigo compassivo. Não! Todos os laços da amizade e da natureza foram para sempre rompidos, transformando-se para sempre em ódio diabólico. Todo espírito maligno, todo réprobo me insulta, me amaldiçoa, me atormenta e procura aumentar ainda mais os meus sofrimentos. Sou obrigado a suportar tudo isso porque, durante a vida, recusei-me a submeter-me à santa vontade de Deus. Eu poderia ter-me salvado com tanta facilidade, e agora estou perdido, perdido para sempre, e isso por minha própria culpa! Jamais verei a Deus; jamais gozarei das delícias do Céu; jamais serei libertado destes terríveis tormentos. Agora é tarde demais!'

Tudo isso, e muito mais, dirá aos condenados o verme da consciência, ferindo-os com censuras tão incessantes e impiedosas que quase os levará à loucura do desespero. Com efeito, os condenados urrarão e enfurecer-se-ão como possessos, lançando maldições contra si mesmos. Mas tudo será em vão; é tarde demais para o arrependimento. Esse terrível remorso nada fará para expiar os seus pecados; apenas aumentará a intensidade de seus sofrimentos.

Reflete sobre isso, ó pecador obstinado, que pecas com tanta audácia e, mesmo quando tua consciência te adverte, fechas os ouvidos às suas repreensões. Tem por certo que um dia a tua própria consciência será o teu carrasco e te atormentará com maior persistência do que os próprios demônios. Se desejas escapar dessa miséria sem fim, escuta agora a voz da tua consciência; segue os seus conselhos quando ela te manda evitar o mal e te exorta a praticar o bem.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

ἀληθινός

ἀληθής e ἀληθινός são palavras gregas comumente traduzidas com significado semelhante, no sentido de verdadeiro; real; genuíno; conforme a verdade ou fiel (em alguns contextos). A rigor, entretanto, há uma nuance de diferenciação fundamental entre ambas as palavras:

ἀληθής → significa verdadeiro em oposição ao falso; veraz, sincero, conforme os fatos.
ἀληθινός → significa verdadeiro no sentido de autêntico, perfeito, definitivo, em oposição ao que é apenas figurado ou aproximado.

Estas palavras aparecem diversas vezes no Novo Testamento, muitas vezes traduzidas do mesmo modo, mas são nos escritos de São João (Evangelho, Cartas, Apocalipse) que estas palavras se repetem várias vezes, e suas distinções são particularmente realçadas. Por exemplo:

Jo 3,33:
Aquele que recebe o seu testemunho confirma que Deus é verdadeiro [ὁ θεὸς ἀληθής ἐστιν] [verdadeiro, fiel]

Jo 5, 31:
Se eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro [ἡ μαρτυρία μου οὐκ ἔστιν ἀληθής] [verdadeiro, digno de aceitação]

Jo 17,3:
'Para que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro e aquele que enviaste, Jesus Cristo' [ἵνα γινώσκωσίν σε τὸν μόνον ἀληθινὸν Θεὸν, καὶ ὃν ἀπέστειλας Ἰησοῦν Χριστόν].

Por que João utiliza aqui o termo ἀληθινός (na verdade, sua flexão gramatical ἀληθινὸν)? Porque quer transmitir o sentido de que está falando do 'único Deus autêntico e verdadeiro, o único que é realmente Deus'.

Para João, ἀληθινός designa aquilo que é: autêntico; perfeito; definitivo; pleno da verdade e, no seu Evangelho, vai reproduzir sempre esse termo quando se refere sobre a verdadeira Luz (Jo 1,9); o verdadeiro Pão (Jo 6,32); a verdadeira Videira (Jo 15,1); o verdadeiro adorador (Jo 4,23); o verdadeiro Deus (Jo 17,3). É um vocabulário tipicamente joanino.

É imprescindível entender as nuances destas palavras gregas em contextos joaninos aparentemente similares. Quando Jesus fala em Jo 6,32: 'Em verdade, em verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu, mas o meu Pai é quem vos dá o verdadeiro pão [ὁ ἄρτος... ὁ ἀληθινός] do céu', está falando do pão único e autêntico pão que é Cristo (realidade definitiva) em contraste com o maná do deserto (mera figura do pão).

Mas, quando Jesus profere as palavras: 'Pois a minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue, verdadeiramente bebida' (Jo 6,55), João não usa nem ἀληθής e nem ἀληθινός, mas uma terceira forma da mesma família - ἀληθῶς - que é um advérbio, significando em verdade; de fato; verdadeiramente. Essa construção coloca a ênfase não na qualidade do alimento, mas na realidade da afirmação: a carne de Cristo é, de fato, alimento, e seu sangue é, de fato, bebida. A Presença Real na Eucaristia não é uma fantasia; é VERDADEIRAMENTE o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo que alimenta as nossas almas na Missa, para nos cobrir de bênçãos e graças e nos abrir desde agora as portas para a eterna felicidade no céu!

terça-feira, 4 de agosto de 2026

04 DE AGOSTO - SÃO JOÃO MARIA VIANNEY (CURA D'ARS)

    

A mais difícil, extraordinária e espantosa obra 
feita pelo Cura d’Ars foi a sua própria vida

Existem vidas extraordinárias entre os santos da Igreja. Mas poucas delas foram tão cingidas pela pequenez, pela humildade e pelo aniquilamento interior como a do pobre cura de Ars, São João Batista Maria Vianney (nascido em 08 de maio de 1786, em Dardilly, na França). Ordenado sacerdote em 1815, aquele que teria o dom extraordinário de ler consciências foi proibido inicialmente de atender confissões, 'porque não teria capacidade para guiar consciências'. Três anos depois, aceitou ser o vigário do minúsculo povoado de Ars, situado ao norte de Lyon, na época com pouco mais de 200 habitantes e nenhuma prática religiosa. Ali chegou em fevereiro de 1818, ali construiu uma santidade ímpar entre os padres da Igreja, ali se tornou um santuário de peregrinação de toda a Europa. Ali viveu incansavelmente a fadiga das confissões intermináveis (geralmente 17 horas diárias), da oração constante, da devoção incondicional à pequenez e à pobreza, até a sua morte, em 04 de agosto de 1859, aos 73 anos de idade. 

São João Batista Vianney foi canonizado em 1925 pelo Papa Pio XI e seu corpo incorrupto encontra-se depositado na igreja da paróquia de Ars. Foi proclamado Padroeiro dos Sacerdotes e no dia de sua morte, 4 de agosto, celebra-se o Dia do Padre

'Nós devemos nutrir um grande amor por todos os homens, pelos bons e pelos maus. Quem tem o amor não pode querer que alguém faça o mal, 
porque o amor perdoa tudo'

Corpo Incorrupto do Santo em Ars

Conta-se que, indo em direção a Ars, São João Batista Vianney perguntou a um menino a direção a seguir para se chegar ao povoado. Diante da orientação recebida, o santo respondeu a ele: 'já que você me ensinou o caminho para Ars, eu lhe ensinarei o caminho para o céu'. Que, no dia de hoje, os sacerdotes de Cristo reflitam sobre esta mensagem do Cura D'Ars e assumam incondicionalmente esse caminho de vida religiosa para a salvação de muitos homens.

FRASES DE SENDARIUM (LXXIX)

 

'Fazer a vontade de Deus é fazer o que Deus quer
 e querer o que Deus faz'

(Santo Afonso Maria de Ligório)

Senhor, não vos peço não ter tentações ou sofrimentos e nem que se cumpra as minhas humanas vontades, mas que o vosso propósito para mim se realize em plenitude em cada dia da minha vida. 

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

'POR QUE DEUS NOS CRIOU E O QUE ESPERA DE NÓS?'

1. Há dois modos de responder a essa pergunta, conforme a consideremos do ponto de vista de Deus ou do nosso. Considerando-a do ponto de vista de Deus, a resposta é: 'Deus nos fez para mostrar a sua bondade'. Posto que Ele é um Ser infinitamente perfeito, a principal razão pela qual faz alguma coisa deve ser uma razão infinitamente perfeita. Mas só há uma razão infinitamente perfeita para se fazer alguma coisa: é fazê-la por Deus. Por isso, seria indigno de Deus, contrário à sua infinita perfeição, que Ele fizesse alguma coisa por uma razão inferior a Si mesmo. 

2. A primeira razão, pois – a grande razão pela qual Deus fez o universo e nos fez a nós - foi a sua própria glória: para mostrar o seu poder e bondade infinitos. Seu infinito poder mostra-se pelo fato de existirmos. Sua infinita bondade, pelo fato de Ele nos querer fazer participar do seu amor e felicidade.

3. Do nosso ponto de vista à pergunta: 'Para que nos fez Deus?' dizemos que nos fez 'para participarmos da sua eterna felicidade no céu'. As duas respostas são como que as duas faces da mesma moeda, o anverso e o reverso: a bondade de Deus nos fez participar da sua felicidade e a nossa participação na sua felicidade mostra a bondade de Deus. 

4. Deus, que é infinitamente bom, não poria nos corações humanos esta ânsia de felicidade perfeita se não houvesse modo de satisfazê-la. Deus não tortura com a frustração as almas que criou. Mas, mesmo que as riquezas materiais ou espirituais desta vida pudessem satisfazer todos os desejos humanos, permaneceria a certeza de que um dia a morte nos tirará tudo – e a nossa felicidade seria incompleta. No céu, pelo contrário, não só seremos felizes com a máxima capacidade do nosso coração, mas teremos, além disso, a perfeição final da felicidade, por sabermos que nada no-la poderá arrebatar. 

5. Nunca se ressaltará bastante que a felicidade do céu consiste essencialmente na visão intelectual de Deus – na posse final e completa de Deus, a quem nesta terra desejamos e amamos debilmente e de longe. E se este há de ser o nosso destino - estarmos eternamente unidos a Deus pelo amor - disso se depreende que temos de começar a amá-lo aqui nesta vida. 

6. Deus não pode elevar à plenitude o que nem sequer existe. Se não há um princípio de amor de Deus em nosso coração, aqui, na terra, não pode haver a fruição do amor na eternidade. Para isso nos colocou Deus na Terra, para que, amando-o, estabeleçamos os alicerces necessários para a nossa felicidade no céu.

7. Só há uma maneira de provarmos o nosso amor a Deus: é fazer o que Ele quer que façamos, sendo o tipo de homem que Ele quer que sejamos. O amor a Deus não está nos sentimentos. Amar a Deus não significa que nosso coração deva dar saltos de cada vez que pensamos nEle. Algumas pessoas poderão sentir seu amor a Deus de modo emocional; mas não é isso o essencial. Porque o amor a Deus reside na vontade. Não é pelo que sentimos sobre Deus, mas pelo que estamos dispostos a fazer por Ele, que provamos o nosso amor a Deus.

(Excertos da obra 'A Fé Explicada', de Leo Trese)

domingo, 2 de agosto de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

                  

'Vós abris a vossa mão e saciais os vossos filhos' (Sl 144)

Primeira Leitura (Is 55,1-3) - Segunda Leitura (Rm 8,35.37-39) - Evangelho (Mt 14,13-21)

  02/08/2026 - DÉCIMO OITAVO DOMINGO DO TEMPO COMUM

CINCO PÃES E DOIS PEIXES



Depois da morte do Precursor João Batista, Jesus se dirige a um 'lugar deserto e afastado' (Mt 14, 13) para ficar a sós com os seus Apóstolos. Mas eis que uma grande multidão, uma esplêndida multidão, sai das cidades e vai a pé ao seu encontro. Tomado de amor e compaixão, Jesus abandona o seu intento de recolhimento e passa a atender toda aquela gente até 'ao entardecer' (Mt 14, 15). Famintos de Deus, a multidão agora está faminta de pão. E o Cordeiro de Deus há de saciá-los do pão da existência e prepará-los também para lhes dar alimento de vida eterna, na Santa Eucaristia.

Num primeiro momento, impõe-se a miserável condição humana, pouco afeita aos desafios e aos limites imponderáveis das graças divinas, expressa nas palavras de ansiedade e certa impaciência dos apóstolos: 'Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!' (Mt 14, 15). Neste cenário, pressupõe-se, na estrita percepção humana que, a partir daquele momento, cada um se virasse por conta própria; cada homem, mulher e criança daquela imensa multidão se preocupasse em arrumar o próprio alimento, nas imediações daquele lugar ou mais além.

Deus não nos abandona nunca; Deus não nos cria perspectivas de vida eterna pela insensibilidade de nossas necessidades humanas. Jesus vai dizer em outro momento que 'nem só de pão vive o homem'. Não só de pão, mas também de pão. E, para a incredulidade dos seus discípulos, ordena então: 'Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer! (Mt 14, 16). E, como em tudo o mais, Deus faz uso da graça como fruto da contrapartida humana; Jesus toma o que os homens têm ali a oferecer: cinco pães e dois peixes. Diante de oferta tão singela, vai realizar um dos seus mais portentosos milagres, que vai se configurar no prenúncio da partilha do seu Corpo e Sangue na Sagrada Eucaristia.

'Em seguida, partiu os pães e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às multidões' (Mt 14, 19). E os poucos pães e os poucos peixes se multiplicaram em muitos pães e em muitos peixes, que alimentaram com fartura a multidão, a ponto de serem recolhidos ainda doze cestos cheios (símbolo da partilha universal da graça divina) no final, pois Deus usa sempre da superabundância da graça para pagar o tributo da oferta sincera do homem. Este prodígio extraordinário é o prenúncio de outro milagre ainda maior que subsiste pelos tempos, a cada Santa Missa: na multiplicação das hóstias, o mesmo Deus é entregue aos homens na plenitude da graça, hoje, ontem e até a consumação dos séculos.

sábado, 1 de agosto de 2026

PRIMEIRO SÁBADO DO MÊS

01 DE AGOSTO - SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO

  

 'Quem reza se salva, quem não reza se condena!'

Hoje é o dia da celebração da festa de Santo Afonso Maria de Ligório, fundador da Congregação do Santíssimo Redentor e autor de 'Glórias de Maria', obra prima de devoção mariana. Nasceu em Marianella, pequena comunidade próxima a Nápoles, em 27 de setembro de 1696, de família nobre e, aos 16 anos, já era doutor em direito civil e canônico. Abandonando uma promissora carreira de advogado, consagrou-se a Nossa Senhora e ordenou-se sacerdote em 1726. Em 09 de novembro de 1732, fundou a Congregação do Santíssimo Redentor. Em 1762, foi nomeado Bispo de Santa Ágata dos Godos, cidade perto de Nápoles, retornando à devoção exclusiva à sua ordem somente em 1775. Faleceu no dia 1º de agosto de 1787, aos 91 anos, sendo canonizado pelo Papa Gregório XVI em 1839; Pio IX o declarou Doutor da Igreja em 1871 .

A santificação não é um processo único e específico, mas todos os santos têm em comum um extraordinário senso de auto-sacrifício e uma devoção ardente à Vontade Divina. Santo Afonso correspondeu à graça vencendo dolorosas doenças, perseguições e tentações.  A pior de todas as suas doenças foi um ataque terrível de febre reumática durante o seu episcopado, que durou de maio de 1768 a junho de 1769, que o deixou paralisado até o fim de seus dias. Por esta razão, a sua imagem é comumente retratada com seu queixo avançando proeminente em direção ao peito, reflexo da violenta curvatura que dobrou sua coluna vertebral para a frente e que limitava enormemente seus movimentos. As perseguições vieram principalmente do seu zelo fervoroso no combate às heresias do jansenismo e as tentações surgiram principalmente no final de sua vida quando, ao longo de três anos, passou por terríveis provações e diabólicas tentações contra todas as suas virtudes.

Tão notável quanto a intensidade com que Santo Afonso trabalhou é a enorme quantidade de trabalhos que produziu, sendo que esta prodigiosa coleção de obras teve início quando o santo já contava com cerca de 50 anos de idade. O primeiro esboço de sua obra 'Teologia Moral', por exemplo, só apareceu por volta de 1748. Entre o grande número de suas obras dogmáticas e ascéticas, 'Glórias de Maria', 'A Selva' e 'Meditações para Todos os Dias e Festas do Ano' são as mais conhecidas. Foi também poeta, músico e até pintor (o crucifixo abaixo foi pintado pelo santo). Amparava-se no princípio de não ser admissível perder um único momento do seu tempo em render graças a Deus, como ilustrado exemplarmente neste seu sermão sobre o valor do tempo.

VALOR DO TEMPO

Fili, conserva tempus et devita a malo: 'Filho, guarda o tempo e evita o mal' (Eclo 4, 23)

Sumário. Um só momento de tempo vale tanto como Deus, porque o homem pode a cada instante, por um ato de contrição ou de amor, adquirir a graça de Deus e aumentar a glória eterna. E tu, meu irmão, em que empregas o tempo tão precioso? Porque adias sempre para amanhã o que podes fazer hoje?... Reflete que o tempo passado já não te pertence; que o futuro não está em tua mão. Só tens o tempo presente para fazeres o bem, e este é brevíssimo! Mister é, pois, que o aproveites depressa, se não o quiseres chorar depois como perdido irremediavelmente.

I. Meu filho, diz o Espírito Santo, sê cuidadoso em conservar o tempo, porque é a coisa mais preciosa e o maior dom que Deus pode dar ao homem na terra. Até os próprios pagãos sabiam o que vale o tempo. Dizia Sêneca que não há valor igual ao do tempo: Nullum temporis pretium. Os Santos, porém, avaliaram muito melhor ainda o valor do tempo. Diz São Bernardino de Sena que um só momento vale tanto como Deus; porque o homem pode a cada instante, por um ato de contrição ou de amor, adquirir a graça de Deus e aumentar a glória eterna: Tempus tantum valet, quantum Deus.

O tempo é um tesouro que só se acha nesta vida; não se encontra na outra, nem no inferno, nem no céu. No inferno o grito contínuo dos réprobos é este: Oh, si daretur hora! 'Oxalá se nos desse uma hora!' Comprariam por todo o preço uma hora de tempo, que lhes bastaria para reparar a sua ruína; mas essa hora não a terão mais. No céu não há tristeza; mas se os bem-aventurados pudessem estar tristes, a sua única tristeza seria de terem perdido tempo nesta vida, tempo em que podiam adquirir maior glória e que não existe mais para eles.

Uma religiosa beneditina apareceu, depois da morte, com a auréola da glória, a uma pessoa e disse-lhe que estava plenamente contente; mas, se pudesse desejar alguma coisa, seria voltar à terra e sofrer para merecer mais glória. Acrescentou que de boa mente consentiria em sofrer até o dia do juízo a doença dolorosa que tinha sofrido antes de morrer, para adquirir a glória que corresponde ao merecimento de uma só Ave-Maria. - 'E tu, meu irmão, em que empregas o tempo? Porque adias sempre para amanhã o que podes fazer hoje?'

II. Reflete que já não te pertence o tempo passado; que o futuro não está em teu poder: só tens o tempo presente para praticares o bem. Pelo que te avisa São Bernardo: 'Desgraçado! como ousas contar com o futuro, como se Deus tivesse posto o tempo à tua disposição?' E Santo Agostinho acrescenta: 'Diem tenes, qui horam non tenes?' ('Como te podes prometer o dia de amanhã, se nem sequer sabes se te é dada mais uma hora de vida?') Em suma, conclui Santa Teresa: 'Se não estás pronto hoje para a morte, teme morrer mal'.

Ó meu Deus, agradeço-Vos o tempo que me dais para reparar as desordens da minha vida passada. Se chegasse a morte neste momento, uma das minhas maiores penas seria pensar no tempo que perdi. Ah! meu Senhor, destes-me o tempo para Vos amar, e empreguei-o em Vos ofender! Merecia ser enviado ao inferno desde o instante em que Vos voltei as costas; Vós, porém, me chamastes à penitência e me perdoastes. Prometi nunca mais ofender-Vos, mas quantas vezes tornei a injuriar-Vos, e Vós ainda me perdoastes! Bendita seja para sempre a vossa misericórdia! Se não fosse infinita, como poderíeis suportar-me tanto tempo? Quem poderia ter para comigo a paciência que Vós tivestes? Quanto sinto ter ofendido um Deus tão bom!

Meu amado Salvador, a vossa paciência para comigo deveria ser suficiente para me inflamar de amor para convosco. Por quem sois, não permitais que viva por mais tempo ingrato ao amor que me haveis dedicado. Desligai-me de tudo, e atraí-me todo ao vosso amor. Não, meu Deus, não quero perder outra vez o tempo que me dais para reparar o mal que fiz; quero empregá-lo todo em vosso serviço e em vosso amor. Fortalecei-me, dai-me a santa perseverança. Amo-Vos, ó bondade infinita, e espero amar-Vos sempre. Graças vos dou, ó Maria! Tendes sido a minha advogada para impetrar-me o tempo que estou gozando. Assisti-me agora, e fazei que o empregue sem reserva a amar o vosso divino Filho, meu Redentor, e a vós, minha Rainha e minha Mãe (II 50).

Santo Afonso Maria de Ligório: 'Valor do tempo' em Meditações para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II. Herder & Cia, 1921, p. 252-254, disponível em www.obrascatolicas.com

Santo Afonso de Ligório, rogai por nós!