105. CASTIGADO POR TER MENTIDO
O profeta Eliseu, que curou milagrosamente da lepra a Naamã, não quis receber do general nenhum presente.
Mas Giezi, criado do profeta, impelido pelo amor do dinheiro, foi atrás de Naamã, que regressava ao seu país, e disse-lhe que Eliseu, seu amo, mandava pedir-lhe um talento de prata e algumas roupas para dois hóspedes que acabavam de chegar. Ora, o profeta não mandara pedir coisa alguma. Por isso, em castigo dessa mentira, Giezi ficou coberto da mesma lepra de que Naamã ficara limpo.
106. FIRME COMO UMA COLUNA
Vivia em Siracusa, no terceiro século do cristianismo, uma rica e graciosa jovem chamada Luzia. Os dons da natureza de que estava adornada eram nada em comparação com os belos dotes de sua alma. Pura como um anjo, humilde, modesta, mansa, caridosa, cativava a todos que dela se aproximavam.
O cristianismo atravessava, naquela época, dias difíceis, e professar a fé em Jesus Cristo era considerado um crime digno de morte. Reconhecida como cristã, Luzia foi conduzida à presença do governador Pascásio, tristemente célebre por sua ferocidade contra os cristãos. O tirano, após várias perguntas, vendo que a donzela lhe respondia sempre com imperturbável coragem, disse-lhe com ar de mofa:
➖ Quando fores espancada, então te calarás.
Luzia replicou:
➖ Aos verdadeiros discípulos de Jesus Cristo não faltarão palavras, quando estiverem diante dos juízes, porque Ele disse que, em tais ocasiões, o Espírito Santo, que receberam, falará por eles.
➖ Então, o Espirito Santo está em ti?
➖ Sim; todos os que levam vida casta e pura são templos do Espírito Santo.
➖ Pois bem; eu te farei cometer um pecado feio para que o Espírito Santo saia de ti.
➖ Isso não está em teu poder. Se eu não consinto, a tua violência brutal só me pode proporcionar uma dupla coroa.
Pascásio, cheio de ira, ordenou aos algozes que a arrastassem a um lugar de pecado. Mas, naquele instante, manifestou-se claramente a virtude do Espírito Santo que estava na casta donzela. Os esbirros não conseguiram removê-la, pois uma força invisível tornou-a imóvel como uma coluna. O tirano teve de mandar matá-la ali mesmo.
107. RICOS COLARES E BRILHANTES COROAS
Conta Rufino que um dos antigos Padres do deserto viu, certa vez, estando em êxtase, uma multidão incontável de santos na glória do Paraíso. Todos eram de uma beleza incomparável; mas havia uma legião de bem-aventurados que brilhavam mais que os outros e tinham ao pescoço ricos colares e na cabeça brilhantes coroas. Indagou qual fosse a causa daquela diferença e foi-lhe respondido que aqueles bem-aventurados tão distintos dos outros eram os que, seguindo os conselhos evangélicos de perfeição, tinham renunciado ao mundo por amor de Jesus Cristo. Foi-lhe explicado, além disso, que a coroa de ouro, que os adornava, era a recompensa da perfeita obediência.
108. AI DE QUEM É INFIEL A VOCAÇÃO!
A hagiografia religiosa oferece-nos exemplos salutares e impressionantes sobre este assunto.
1. Vivia na pequena Casa da Divina Providência nos tempos de São José Cottolengo, uma religiosa, que, recobrada a saúde após uma enfermidade, resolveu voltar para sua família. Manifestou esse propósito ao Pe. Cottolengo, o qual ficou muito aflito e empregou toda a sua paternal bondade e eloquência para demover a infeliz de tal propósito. Mas nem as insinuações mais suaves, nem os conselhos mais persuasivos e argumentos mais convincentes, e nem mesmo as ameaças de castigos divinos conseguiram fazê-la voltar atrás.
A infeliz fazia-se de surda a tudo e terminou por dizer que partiria de qualquer forma. Então o santo, com semblante sério e ameaçador, disse-lhe com pesar e amargura: 'Se queres absolutamente ir embora, eu não te posso segurar, mas lembra-te do que te digo: não passarão três meses e tu serás traspassada a fio de espada'.
Foi uma profecia. Três meses depois, o cadáver da infeliz foi encontrado todo retalhado e horrivelmente deformado bem perto da sua casa. Fôra vítima de sua leviandade, do ciúme de alguns militares e da falta de correspondência à graça da vocação religiosa.
2. Um jovem entrara no Instituto fundado por São Camilo de Lellis. Depois de alguns anos, cedendo à tentação do demônio, obstinara-se no propósito de abandonar o convento e voltar á vida civil. São Camilo, tendo empregado tudo para segurá-lo na vocação e vendo baldados todos os seus esforços, predisse-lhe que teria um fim tristíssimo e morreria nas mãos da justiça. Nove anos mais tarde, aquele perjuro foi decapitado no meio da praça, em Nápoles.
3. Na vida de Santo Afonso Rodriguez, jesuíta, lê-se que este grande servo de Deus se entregou às mais rudes penitências e fervorosas orações para obter do céu que um noviço, seu confrade, vencesse umas fortíssimas tentações que experimentava contra a vocação.
Nosso Senhor revelara ao santo que, se o noviço deixasse a vida religiosa, os demônios o lançariam no abismo da perdição eterna; e não somente a ele, mas também aos pais dele que empregavam toda sorte de estratagema para o fazer retornar à família.
(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)
