quarta-feira, 6 de maio de 2026

O MARTÍRIO DE SÃO POLICARPO DE ESMIRNA

O martírio de São Policarpo constitui o relato mais antigo de uma execução cristã fora do Novo Testamento. Ao recusar-se a negar Cristo, o bispo de Esmirna, então com mais de 80 anos, foi queimado vivo em uma pira pública. Testemunhas oculares permitiram o registro detalhado do seu martírio, em documento preservado pela Igreja de Esmirna.


Uma vez pronta a pira, Policarpo tirou todas as suas roupas e afrouxou a túnica interior... Naquele momento, ele se viu cercado pela lenha da pira. Quando tentaram prendê-lo também com pregos, ele disse: 'Deixem-me como estou. Aquele que me dá força para suportar o fogo também me dará força para permanecer imóvel na pira, mesmo sem a precaução dos vossos pregos'.  Assim, não o prenderam à pira com pregos, mas apenas o amarraram. Amarrado como estava, com as mãos atrás das costas, ele permaneceu em pé como uma poderosa oferenda, escolhido para sacrifício de um grande rebanho, uma vítima digna preparada para ser oferecida a Deus.

Olhando para o céu, disse então: 'Senhor, Deus Todo-Poderoso, Pai do teu Filho amado e abençoado, Jesus Cristo, por meio de quem chegamos a conhecer-te, Deus dos anjos, dos poderes, de toda a criação, de toda a raça dos santos que vivem na tua presença, eu te bendigo por me julgares digno deste dia, desta hora, para que, na companhia dos mártires, eu possa compartilhar o cálice de Cristo, teu ungido, e assim ressuscitar para a vida eterna em alma e corpo, imortal pelo poder do Espírito Santo. 

Que eu seja recebido entre os mártires na tua presença hoje como um sacrifício rico e agradável. Deus da verdade, estranho à falsidade, tu preparaste isto e, como me revelaste, agora cumpriste a tua promessa. Eu te louvo por todas as coisas, eu te glorifico por meio do eterno sacerdote do céu, Jesus Cristo, teu Filho amado. Por meio dele seja dada glória a ti, juntamente com ele e o Espírito Santo, agora e para sempre. Amém'.

Quando disse 'Amém' e terminou a oração, os guardas acenderam a pira. Mas, quando uma grande chama irrompeu, nós, que tivemos o privilégio de ver aquilo, testemunhamos algo estranho e maravilhoso. De fato, fomos poupados para contar essa história a outros.

Como a vela de um navio inflando ao vento, a chama tornou-se, por assim dizer, uma cúpula envolvendo o corpo do mártir. Cercado pelo fogo, seu corpo parecia pão assado, ou ouro e prata incandescentes em uma fornalha, e não carne queimada. Um perfume tão doce chegou até nós que parecia o de incenso queimando ou de alguma resina desconhecida, preciosa e perfumada.