Fátima é o acontecimento sobrenatural mais extraordinário de Nossa Senhora e a mais profética das aparições modernas (que incluíram a visão do inferno, 'terceiro segredo', consagração aos Primeiros Cinco Sábados, orações ensinadas por Nossa Senhora às crianças, consagração da Rússia, milagre do sol e as aparições do Anjo de Portugal), constituindo a proclamação definitiva das mensagens prévias dadas pela Mãe de Deus em Lourdes e La Salette. Por Fátima, o mundo poderá chegar à plena restauração da fé e da vida em Deus, conformando o paraíso na terra. Por Fátima, a humanidade será redimida e salva, pelo triunfo do Coração Imaculado de Maria. Se os homens esquecerem as glórias de Maria em Fátima e os tesouros da graça, serão também esquecidos por Deus.
sexta-feira, 13 de outubro de 2017
FÁTIMA EM FATOS E FOTOS (XIII)
61. Como se deu a sexta aparição de Nossa Senhora?
A Cova da Iria foi invadida por uma imensa multidão naquela manhã do dia 13 de outubro de 1917, movidos pela aparição em si e pela promessa do milagre da Virgem. Cerca de 70 mil pessoas se aglomeravam no local, muitos deles desde a noite anterior, protegidos da chuva incessante por roupas grossas e botas (como era costumeiro na época, muitas mulheres estavam descalças). As pessoas ficavam praticamente confinadas pelas outras e pelo terreno completamente encharcado e lamacento.
Por volta das dez horas da manhã, a chuva tornou-se um aguaceiro e um mar de guarda-chuvas pretos se esparramou pela charneca de Fátima. Por volta do meio dia, a chuva tornara-se mais fina e irregular e o povo agora rezava em silêncio. Um arco rústico, ladeado por um arranjo retangular de pedras arrumadas e com uma pequena abertura frontal, havia sido montado diante da pequena azinheira, a esta altura praticamente reduzida ao seu tronco central e enfeitada por flores e fitas por Maria da Capelinha.
Lúcia foi acompanhada pela mãe que temia de fato pela vida da filha. Os pais de Francisco e Jacinta também se colocaram junto à azinheira. Passou o meio dia. Uma certa apreensão começou a tomar conta dos mais próximos às três crianças. Mas, então, olhando para o nascente, Lúcia vislumbrou o relâmpago e se pôs de joelhos, pedindo a Jacinta que fizesse o mesmo. Em seguida, viram Nossa Senhora, envolvida numa torrente de luz, pairando sobre as grinaldas de flores que ornavam a pequena azinheira.
62. Como foi o diálogo de Lúcia com Nossa Senhora nesta sexta aparição?
Com os olhos fixados na Virgem, Lúcia deu início ao diálogo da sexta aparição:
– Que é que Vossemecê me quer?
– Quero dizer-te que façam aqui uma capela em minha honra, que sou a Senhora do Rosário, que continuem sempre a rezar o Terço todos os dias. A guerra vai acabar e os militares voltarão em breve para as suas casas.
– Eu tenho muitas coisas para Lhe pedir: a cura de uns doentes e a conversão de alguns pecadores...
– Uns sim, outros não. É preciso que se emendem, que peçam perdão dos seus pecados.
E tomando um aspecto singularmente triste, continuou:
– Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor, que já está muito ofendido!
– Não quer mais nada de mim?
– Não quero mais nada.
– E eu também não quero mais nada.
Nossa Senhora abriu então as mãos e se elevou numa torrente de luz tão intensa, que parecia espargir pelo firmamento e empalidecer a própria luz solar. Em êxtase, as crianças viram Nossa Senhora desaparecer em meio a um turbilhão de luz.
63. Quais foram as visões de Lúcia ao final da sexta aparição?
Foram três as visões de Lúcia, em quadros sucessivos que se desvaneciam em sequência:
(i) Visão da Sagrada Família: São José e o Menino Jesus em seus braços faziam gestos com as mãos em forma de cruz, como que abençoando o mundo; ao lado deles, Nossa Senhora estava vestida de branco e coberta com um manto azul (como Nossa Senhora do Rosário);
(ii) Visão de Jesus e Nossa Senhora: Jesus Cristo, como o Divino Redentor, vestido de vermelho e a abençoar o Mundo, junto a Nossa Senhora, vestida de roxo como Nossa Senhora das Dores;
(iii) Visão de Nossa Senhora: Nossa Senhora como Nossa Senhora do Carmo.
Somente a primeira destas visões foi compartilhada pelos demais videntes. Ninguém da multidão foi testemunha de quaisquer destas visões.
64. Quais foram os eventos que se seguiram então na Cova da Iria?
Ao final da aparição, no lado oposto do céu, as nuvens pesadas abriram-se de repente e o sol apareceu radiante. A multidão reunida na Cova da Iria, volvendo-se para trás, foi testemunha, então, de um série extraordinária de fenômenos que ficou conhecida como 'o milagre do sol', que podem ser assim sintetizados:
(i) o sol tinha a forma de um disco luminoso, com a borda claramente delineada como um faixo luminoso e podia ser visado diretamente por longo tempo, sem cegar ou fuscar a visão das pessoas;
(ii) o sol pareceu dançar no firmamento, passando a girar aceleradamente sobre o seu eixo para, em seguida, interromper e recomeçar outras vezes esse movimento vertiginoso;
(iii) o sol começou a irradiar luzes diferentes e cambiantes, que foram disseminadas e refletidas sobre todo o ambiente da Cova da Iria (sobre as pessoas, a paisagem, os montes e as árvores);
(iv) ao final dos eventos, o sol pareceu precipitar-se sobre a terra num movimento apocalíptico que produziu nas pessoas um enorme temor e uma impressão geral de 'fim do mundo'; interrompendo esse processo de arremetida em ziguezague, o sol retornou então à sua posição natural e passou a ser visto na sua conformação original e ofuscante à visão direta;
(v) os mesmos fenômenos foram vistos por inúmeras outras pessoas, muitas delas a quilômetros de distância da Cova da Iria.
(fotografia publicada pelo jornal L'Osservatore Romano em 1951)
65. Como foi publicada à época a reportagem mais famosa do 'milagre do sol'?
A reportagem à época mais famosa dos extraordinários acontecimentos ocorridos em Fátima em 13 de outubro de 1917 foi feita pelo jornalista Avelino Almeida*, testemunha ocular dos acontecimentos, e publicada no dia 15/10/1917 pelo jornal 'O Século' de Lisboa.
* nasceu em Sintra em 10 de novembro de 1873 e faleceu em Lisboa em 2 de de agosto de 1932.
O texto descrevia o ambiente local, a chuva torrencial, a grande multidão e o chamado 'milagre do sol'. A manchete principal e os respectivos subtítulos da reportagem eram os seguintes:
COISAS ESPANTOSAS! COMO O SOL BAILOU AO MEIO DIA EM FÁTIMA
As aparições da Virgem – Em que consistiu o sinal do céu –
Muitos milhares de pessoas afirmam ter-se produzido um milagre – A
guerra e a paz
Seguia-se então uma fotografia com os três videntes e o texto extenso, do qual são destacados os seguintes excertos relativos ao chamado 'milagre do sol':
... 'A manifestação miraculosa, o sinal visível anunciado está prestes a produzir-se – asseguram muitos romeiros... E assiste-se então a um espetáculo único e inacreditável para quem não foi testemunha dele. Do cimo da estrada, onde se aglomeram os carros e se conservam muitas centenas de pessoas, a quem escasseou valor para se meter à terra barrenta, vê-se toda a imensa multidão voltar-se para o sol, que se mostra liberto de nuvens, no zênite.
O astro lembra uma placa de prata fosca e é possível fitar-lhe o disco sem o mínimo esforço. Não queima, não cega. Dir-se-ia estar-se realizando um eclipse. Mas eis que um alarido colossal se levanta, e aos espetadores que se encontram mais perto se ouve gritar: – 'Milagre, milagre! Maravilha, maravilha!' Aos olhos deslumbrados daquele povo, cuja atitude nos transporta aos tempos bíblicos e que, pálido de assombro, com a cabeça descoberta, encara o azul, o sol tremeu, o sol teve nunca vistos movimentos bruscos fora de todas as leis cósmicas – o sol 'bailou', segundo a típica expressão dos camponeses...
... 'E, a seguir, perguntam uns aos outros se viram e o que viram. O
maior número confessa que viu a tremura, o bailado do sol; outros,
porém, declaram ter visto o rosto risonho da própria Virgem, juram que
o sol girou sobre si mesmo como uma roda de fogo de artifício, que ele
baixou quase a ponto de queimar a terra com os seus raios... Há quem
diga que o viu mudar sucessivamente de cor...'
Um relato adicional pormenorizado dos eventos feito pelo mesmo jornalista, mas complementado por um grande número de fotografias da multidão presente na Cova da Iria, foi publicado posteriormente pela revista 'Illustração Portugueza', na sua edição de 29 de outubro de 1917, sob o título 'O Milagre de Fátima'.
quinta-feira, 12 de outubro de 2017
GLÓRIAS DE MARIA: NOSSA SENHORA APARECIDA
Jubileu de 300 anos de Nossa Senhora Aparecida
A história é bem conhecida: em 1717, Dom Pedro de Almeida Portugal e Vasconcelos (Conde de Assumar), efetivado como governador das Capitanias de São Paulo e Minas Gerais, viajou de navio de Portugal a Santos, com grande comitiva. Tomando posse do governo em São Paulo, seguiu rumo às minas de ouro em Minas Gerais, fazendo uma longa parada em Guaratinguetá, no período de 17 a 30 de outubro. Para a recepção do ilustre viajante, foram-lhe servidos os melhores pratos da culinária local, incluindo os saborosos pescados do Rio Paraíba do Sul.
Para a nobre tarefa de pescar uma grande quantidade de peixes, foram convocados os pescadores Domingos Alves Garcia, seu filho João Alves e Felipe Pedroso, cunhado de Domingos, entre outros. Entretanto, mesmo com o conhecimento enorme que tinham dos melhores pontos de pesca, não conseguiam nada. Mas algo extraordinário estava para ocorrer. Na rede lançada, surgiu primeiro uma pequena imagem em terracota de Nossa Senhora da Conceição, sem a cabeça, que foi recolhida e guardada com zelo pelos pescadores no fundo do barco. E eis que, numa nova investida, mais abaixo no rio, sem nada de peixe, veio a cabeça da imagem. Um objeto de dimensões tão reduzidas coletado do leito largo e vigoroso do Paraíba do Sul! E, surpresa ainda maior, novas investidas da rede trouxeram agora cardumes de peixes, em tão grande quantidade, repetindo-se, no largo do Porto de Itaguaçu, o milagre de Cristo no Mar da Galileia.
Cientes dos fatos extraordinários ocorridos, os pescadores locais recuperaram a imagem e passaram a venerá-la em suas casas, como imagem peregrina, até que a mesma foi colocada em pequeno oratório na casa de Atanásio Pedroso, filho de Felipe, e depois, com o culto já generalizado na ‘Nossa Senhora Aparecida’, erigiu-se uma pequena capela de sua devoção em Itaguaçu, com o apoio do Padre José Alves Vilela, pároco da Igreja de Santo Antônio de Guaratinguetá. Sob a sua coordenação, a devoção recebeu a aprovação episcopal e foi construída, então, a Igreja de Nossa Senhora Aparecida, no chamado Morro dos Coqueiros, inaugurada em 1745, apenas 28 anos após o achado da imagem. Em torno da igreja, implantou-se rapidamente uma comunidade que constitui hoje a cidade de Aparecida. A igreja tornou-se de imediato centro de romarias e de devoções marianas de toda a natureza.
Com a intensa participação popular e, pela ausência de sacerdotes no Brasil, optou-se pela solicitação de auxílio junto a comunidades religiosas europeias. Em 1894, com a chegada dos padres redendoristas alemães, as atividades religiosas, os cultos e as romarias tornaram-se muito mais organizados, favorecendo muito a rápida difusão da evangelização e a consolidação da igreja como santuário de frequente peregrinação. Tais eventos culminaram com a solene coroação da imagem de Nossa Senhora Aparecida em 8 de setembro de 1904 (com manto azul e coroa de ouro cravejada de diamantes e rubis, ofertados pela Princesa Isabel em visita ao santuário em 6 de novembro de 1888) e com a elevação do santuário à condição de Basílica Menor em 29 de abril de 1908. Em 16 de julho de 1930, o Papa Pio XI outorgou o título de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil. Em 1967, ano da comemoração do jubileu dos 250 anos da aparição da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, o Papa Paulo VI ofertou ao Santuário Nacional da Padroeira do Brasil uma Rosa de Ouro, ato repetido pelo Papa Bento XVI em 2007. O dia da Padroeira do Brasil é celebrado em 12 de outubro, feriado nacional.
As enormes e crescentes manifestações populares exigiram a construção de uma nova basílica, com dimensões e infraestrutura compatíveis com o maior centro de peregrinação espiritual do Brasil que se tornou Aparecida. Desta forma, entre 1955 e 1980, foi construída a atual Basílica, inaugurada a 04 de julho de 1980 pelo Papa João Paulo II e elevada a Santuário Nacional em 1984. Que continua a receber milhares de peregrinos, infindáveis romarias, em agradecimento, louvor e veneração à Virgem Padroeira do Brasil. Na Sala das Promessas, em meio a milhares de ex-votos, tem-se uma ideia da admirável senda de prodígios e milagres alcançados por tantos romeiros e fieis, pela intercessão de Nossa Senhora Aparecida.
Em Aparecida, ao contrário de tantos outros centros de peregrinação mariana, a Virgem fez-se aparecer apenas sob a forma de uma pobre e pequena imagem de terracota de 38cm de altura, sem quaisquer visões, mensagens ou prodígios sobrenaturais, para falar aos simples, aos humildes, aos fracos, aos desvalidos, que as almas simples, despojadas de valores intrinsecamente humanos e entregues somente à confiança e à misericórdia de Deus por Maria, são as glórias dos Céus.
ORAÇÃO A NOSSA SENHORA APARECIDA
quarta-feira, 11 de outubro de 2017
GALERIA DE ARTE SACRA (XXIII)
Uma das obras clássicas da fase madura do grande pintor renascentista Rafael Sanzio é a composição denominada 'A Madona do Peixe', menção à presença do jovem Tobias segurando um peixe, referência, por sua vez, à seguinte passagem do Velho Testamento (Livro de Tobias):
'O pai cego levantou-se e pôs-se a correr, tropeçando. Dando então a mão a um criado, foi ao encontro de seu filho. Abraçou-o e beijou-o, fazendo o mesmo sua mulher, e ambos começaram a chorar de alegria. Só se assentaram depois de terem adorado e agradecido a Deus. Tobias tomou então o fel do peixe e pô-lo nos olhos de seu pai. Depois de ter esperado cerca de meia hora, começou a sair-lhe dos olhos uma belida branca como a membrana de um ovo. Tobias tomou-a e a arrancou dos olhos de seu pai, o qual recobrou instantaneamente a vista' (Tb 11, 10- 15).
A obra foi encomendada por Geronimo del Doce para a capela de Santa Rosa de Lima no Mosteiro de San Domenico (Casa Maggiore dell'Ordine dei Predicatori) em Nápoles / Itália. O peixe é uma alusão direta ao sacramento do batismo, sinal de Cristo. A cura do cego por meio do fel de peixe nos lembra de Cristo curando o homem cego por meio de uma pasta de saliva e pó.
Um primeiro esboço da composição (26,7 cm x 26,4 cm), feito em giz vermelho sobre papel branco (obra atualmente em Florença na Itália), representa a Virgem Maria ao centro, com o Menino Jesus no colo, com o jovem Tobias aos pés da virgem, amparado pelo Arcanjo Rafael (o anjo que lhe havia revelado a forma de curar a cegueira do pai com o fel do peixe), e ladeada por São Jerônimo, tradutor da Bíblia para o latim, segurando as Sagradas Escrituras, abertas no Livro de Tobias.
Um segundo esboço (25,8 cm x 21,3 cm) encontra-se atualmente em um museu de Edinburgh na Escócia, detalhando melhor o arranjo (por exemplo, a presença do leão, símbolo de São Jerônimo, aos pés do santo) e o contexto geral da composição.
A impressão final em preto e branco (26,2 cm x 21,6 cm) mostra a composição completa, com todos os detalhes das expressões, vestimentas e posições relativas das figuras presentes (British Museum, na Inglaterra).
A obra final (215 cm x 158 cm), em óleo sobre tela (originalmente óleo sobre madeira) encontra-se atualmente no Museu do Prado, em Madri/Espanha.
terça-feira, 10 de outubro de 2017
CONFIANÇA E ESPERANÇA EM DEUS
✓ Arme-se contra mim o céu, amotinem-se a terra e os elementos; declarem-me guerra todas as criaturas; nada temo; basta-me saber que estou com Deus e que Deus está comigo.
✓ Nunca nosso bom Deus nos abandona senão para melhor nos reter. Nunca nos deixa senão para nos guardar melhor; nunca luta conosco, senão para se entregar a nós e nos abençoar.
✓Como seríamos felizes se, submetendo nossa vontade a Deus, O adorássemos quando nos envia tanto tribulações quanto consolações, crendo que os diversos sucessos que nos envia a sua divina mão são para utilidade nossa, para nos purificar na sua santa caridade.
✓Ruja, pois, a tempestade; não morrereis porque estais com Jesus. Se vos assaltar o temor, gritai: Ó meu Salvador, salvai-me! Dar-vos-á a mão; apertai-a e ide, contentes sem filosofar sobre o vosso mal. Enquanto São Pedro confiou, não o submergiu a tempestade; mas quando temeu, afogou-se.
✓O temor é um mal ainda maior do que o próprio mal. Quanto a mim, há ocasiões em que me parece não ter mais força para resistir, e que, se se apresentasse a ocasião, sucumbiria; mas então mais confio em Deus, e por mais certo tenho que em presença da ocasião Deus me revestiria com a sua força e devoraria os meus inimigos como argueiros.
✓Sirvamos, pois, hoje a Deus e Ele amanhã providenciará. Cada dia terá seu cuidado, pois, Deus, que reina hoje, reinará amanhã. Ou não vos enviará males, ou se vos enviar, dar-vos-á a coragem precisa para os suportar. Se sois tentados, não desejeis ser livres das tentações. É bom que as experimentemos, para termos ocasião de as combater e colher vitórias. Isto serve para praticar as virtudes mais excelentes e estabelecê-las solidamente na alma.
✓Para caminhar seguramente nesta vida, é preciso caminhar sempre entre o temor e a esperança; entre o temor dos juízos de Deus, que são abismos impenetráveis, e a esperança da sua misericórdia, que é sem número e sem medidas, ultrapassando todas as suas obras. É preciso temer os seus divinos juízos, mas sem desânimo, assim como se animar à vista da sua misericórdia.
✓ O nosso primeiro mal é que nos temos em grande apreço, e se nos acomete algum pecado ou imperfeição, eis-nos admirados, confusos, impacientes, porque pensávamos estar bons, resolutos e tranquilos; e, portanto, quando vemos que não é assim, quando caímos por terra, eis-nos perturbados e ofendidos de nos deixarmos enganar. Se soubéssemos o que somos, em lugar de nos admirar de cairmos, admirar-nos-íamos estar de pé um só dia ou uma só hora.
✓ Esforçai-vos por fazer com perfeição o que fizerdes, e quando estiver feito, não penseis mais nisso; mas pensai no que tendes para fazer, caminhando com singeleza na via do Senhor, sem atormentar o espírito. Convém odiar os defeitos, não com um ódio cheio de despeito, mas com um ódio tranquilo; olhai-os com paciência e fazei-os servir para vos humilharem na vossa estima. Considerai os vossos defeitos com mais dó do que indignação, mais humildade do que severidade, e conservai o coração cheio de um amor doce, sossegado e terno.
✓ É comum nos que começam a servir a Deus e que ainda não têm experiência da carência da graça e das vicissitudes espirituais, que, quando lhes falta o gosto desta devoção sensível e desta amável luz que os encaminhava nas vias do Senhor, logo perdem as forças e caem em uma grande tristeza e pusilanimidade de coração.
(Excertos da obra 'Pensamentos Consoladores', de São Francisco de Sales)
segunda-feira, 9 de outubro de 2017
HISTÓRIAS QUE OUVI CONTAR (XVIII)
Há muitos anos, num reino distante, vivia um rei muito poderoso e cujo reinado se estendia muito além do alcance de sua visão. Este rei tinha quatro esposas*.
A quarta esposa era, de longe, quem o rei amava mais. Ela era de uma beleza singular e para ela o rei devotava a maior parte do seu tempo, cobrindo-a e cercando-a com as túnicas mais valiosas, as jóias mais resplendentes e as iguarias mais tentadoras. Para ela, dirigiu sempre o que podia ter mais do que tudo, e para ela destinava nada além do que existia de melhor.
O rei amava muito também a sua terceira esposa. Ela era a mais deslumbrante de todas e o rei ficava eufórico quando a ostentava junto consigo, nas cerimônias oficiais ou em viagens a outros reinos. Mas o rei tinha um certo ciúme desta esposa e, assim, a cobria de agrados e cuidados no temor de que pudesse vir a perdê-la.
Em relação à segunda esposa, o rei a amava de uma forma muito terna e especial. Não era a mais bela e nem a mais deslumbrante das esposas, mas nenhuma delas se equiparava a esta em termos de uma ouvinte interessada, confidente extremada, sincera amizade. Em todos os momentos conturbados, em todas as decisões difíceis, era à segunda esposa quem o rei devotava toda atenção e zelo afetivo.
Em relação à segunda esposa, o rei a amava de uma forma muito terna e especial. Não era a mais bela e nem a mais deslumbrante das esposas, mas nenhuma delas se equiparava a esta em termos de uma ouvinte interessada, confidente extremada, sincera amizade. Em todos os momentos conturbados, em todas as decisões difíceis, era à segunda esposa quem o rei devotava toda atenção e zelo afetivo.
O rei convivia com a primeira esposa, mas seria forçoso demais dizer que ele a amava. Ela não tinha a beleza, nem o esplendor, nem o discernimento das demais esposas. É verdade que ela estava sempre presente, e que nunca pleiteara coisa alguma para si. Mas essa humildade e esse escondimento não agradavam o rei, pois estes definitivamente não combinavam com as suas regalias de honras e poder. A quarta esposa era apenas formal, e o rei não lhe dava atenção maior do que saber que ela existia e que convivia com as suas demais esposas.
********************
Chegando à velhice, coberto de honrarias e louvores, o rei veio a adoecer gravemente de uma doença desconhecida e muito contagiosa. A certeza da morte iminente se apoderou dele e, com maior temor ainda, se defrontava com a ideia de morrer daí a pouco e sozinho. Que lhe adiantava agora tantos reinos e súditos, posses e domínios? Nada. O que lhe restava de verdade no último suspiro de vida - assim pensou - eram as suas amadas esposas.
A terceira esposa! 'Mandem que ela venha me ver imediatamente e fique comigo', ela que tantas vezes me devotou atenção e acolhimento! E eis que, mais uma vez, a criada se aproxima do leito de morte para anunciar ao rei: 'Ela não pode estar ao vosso lado agora, porque os médicos assim o recomendaram, pois a vossa doença é muito contagiosa'. Uma terceira punhalada o atingiu no coração.
Desconsolado e roído nos estertores do fim, o rei clamou pela primeira esposa, sem expectativa nenhuma, sem maiores consolos. E, mal tendo feito a solicitação, eis que diante dele se prostra a primeira esposa, objeto de sua desconsideração de uma vida inteira. É ela que toma nas suas as mãos do rei, é ela que o consola nos últimos momentos, é ela que permanece com ele até o seu último suspiro, é ela que o perdoa sem lhe exigir o gesto de perdão.
********************
Na verdade, todos nós somos reis e temos quatro esposas na vida. A nossa quarta esposa é o nosso corpo. A ele damos tudo e por ele tudo fazemos, no afã de satisfazer os seus caprichos e os seus desejos. Mas não importa o que façamos, a nossa consciência - a criada dos avisos - vai nos lembrar que ele será a primeira coisa que vamos perder na hora da nossa morte.
Nossa terceira esposa são os nossos bens, status e riqueza. Que buscamos com tanta ânsia a vida toda, e que nos encheram de júbilo e ostentação diante dos outros, que nos levaram a posições dominadas pelo brilho fácil do orgulho, da vaidade, das honrarias que passam. A consciência vai nos alertar: quando você morrer, de que lhe servirá todos estes valores mundanos?
A nossa segunda esposa é a nossa família e os nossos amigos. Não importa o quanto eles estiveram ao nosso lado nesta vida, eles não poderão ser solidários conosco na passagem da morte. Nós estaremos sozinhos. A única coisa que ainda vamos ter conosco - a primeira esposa - é a nossa alma, justamente a esposa que teremos mais negligenciado e deixada no ostracismo, ainda que sempre estivesse conosco, sem nos abandonar sequer um único instante. Portanto, cultive, fortaleça e ame profundamente a sua primeira esposa - a sua alma - porque ela será a única a estar contigo na sua morte e a única que continuará fielmente ao teu lado por toda a eternidade!
(texto de autor desconhecido, reescrito e adaptado pelo autor do blog)
* na verdade, trata-se uma outra readaptação de um texto similar ao publicado em 'Histórias Que Eu Ouvi Contar' (XIV) neste blog.
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