PARTE II - O JUÍZO FINAL
XII. Como os condenados lamentarão e serão lançados no inferno
Sabemos, pelo testemunho das próprias palavras de Cristo que, aos condenados, será permitido falar com Ele, depois de terem recebido sua sentença. Então (isto é, após a sentença ter sido pronunciada), Ele nos diz: 'Eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou como estrangeiro, ou nu, ou doente, ou na prisão, e não te servimos? (Mt 25,44).
Quando as almas perdidas perceberem que não há mais nenhum resquício de esperança de que sua terrível sentença de condenação possa ser atenuada, elas, em seu desespero, proferirão horríveis imprecações: 'malditos sejam os pais que nos deram à luz; malditos sejam todos aqueles que nos levaram ao pecado; malditos sejam todos os homens que viveram conosco nesta terra; maldito seja Aquele que nos criou; maldito seja o sangue de Cristo, com o qual fomos redimidos; malditos sejam todos os santos de Deus!'
O que fará o Juiz Divino quando os ouvir injuriar a Deus dessa maneira chocante? Quando Ele próprio, diante do conselho judaico, reconheceu que era o Filho de Deus, o sumo sacerdote Caifás rasgou suas vestes e clamou em alta voz: 'Ele blasfemou; agora que ouviram a blasfêmia, o que pensam?' E o povo, respondendo, disse: 'Ele é digno de morte'. A mesma cena se repetirá agora, só que será mil vezes mais terrível. Quando Cristo ouvir essas blasfêmias, Ele exclamará, em santa indignação: 'Eles blasfemaram contra Deus, amaldiçoaram a mim e aos meus santos! Vocês mesmos ouviram, agora o que pensam?' Então, todos os anjos e santos responderão: 'Eles são dignos da morte eterna, das dores eternas do inferno! Levai-os para o lugar do tormento, levai-os para o fogo eterno!'
Então se cumprirá o que está predito no livro da Sabedoria: 'O Juiz Divino tomará o zelo como sua armadura e armará a criatura para a vingança dos seus inimigos. Ele vestirá a justiça como couraça e tomará o verdadeiro julgamento em vez de um elmo. Ele tomará a equidade como escudo invencível e afiará a sua ira severa como lança, e o mundo inteiro lutará com Ele contra os insensatos. Então, raios sairão diretamente das nuvens, como de um arco bem tensionado. Serão disparados e voarão em direção ao alvo. E granizo espesso será lançado sobre eles pela ira que lança pedras; as águas do mar se enfurecerão contra eles, e os rios correrão juntos de maneira terrível. Um vento poderoso se levantará contra eles e, como um redemoinho, os dividirá; e a sua iniquidade transformará toda a terra em um deserto, e a maldade derrubará os tronos dos poderosos' (Sb 5,18-24).
Com estas palavras terríveis, a Sagrada Escritura, o livro da verdade eterna, descreve a sagrada indignação com que o Juiz supremo castigará os condenados enquanto ainda estiverem na terra. Todos os elementos - trovões, relâmpagos, tempestades de granizo, as ondas furiosas do oceano, redemoinhos e tempestades - enfim, todos os poderes da natureza tornar-se-ão instrumentos para executar a vingança de Deus sobre aqueles que se rebelaram contra Ele, contra os miseráveis abandonados cuja existência na terra tem sido uma longa e terrível afronta ao seu Criador. Pois, em suas palavras e obras, blasfemaram contra Ele, o Deus de infinita santidade, poder e bondade amorosa. Ofenderam deliberadamente o Criador e Mantenedor do reino da natureza; por isso, toda a natureza se levantará contra eles em vingança.
Agora, quando Cristo derramar sobre esses seres infelizes toda a fúria das forças da natureza em sua raiva vingativa e primitiva, a terra se abrirá sob seus pés, e eles, juntamente com todos os demônios, serão engolidos. São João, no Apocalipse, diz: 'E um anjo poderoso pegou uma pedra, como que uma grande mó, e a lançou no mar, dizendo: com tal violência como esta será derrubada Babilônia, a grande cidade, e não será mais encontrada' (Ap 18,21). Não significam estas palavras proferidas pelo Anjo que todas as almas perdidas descerão ao inferno com o ímpeto de uma pedra de moinho que afunda até o fundo do abismo de águas para o qual é lançada? Ó terrível queda dos condenados! Quem pode pensar nisso sem estremecer! Ai daqueles para quem ela está preparada; melhor teria sido para eles nunca terem nascido! Assim serão precipitados e o inferno abrirá, como um dragão feroz, suas mandíbulas para devorá-los e os engolirão, conforme a profecia de Isaías: 'Por isso, o inferno se alargará e abrirá desmesuradamente a boca. O esplendor de Sião e sua multidão barulhenta, seu alvoroço e sua alegria nele desaparecerão' (Is 5,14).
Quem pode retratar o desespero dos condenados, a fúria com que, no abismo profundo e sombrio do inferno, procurarão, em sua raiva, rasgar-se e dilacerar-se entre si? Que palavras podem descrever os uivos e gemidos que ecoarão por aquele lugar de tormento? Está além do poder do homem conceber. Pois se a Sagrada Escritura nos diz que o olho não viu, nem o ouvido ouviu, nem ainda subiu ao coração do homem o que Deus preparou para aqueles que o amam, não se poderá também dizer que o homem não pode formar qualquer ideia do que Deus preparou para aqueles que tão frequentemente, tão deliberadamente, o insultaram? E se as alegrias do Céu superam toda a nossa capacidade de descrição, não serão também os tormentos do inferno inconcebivelmente inimagináveis?
Reflita sobre isso, ó leitor, reflita com frequência, e não desperdice a tua vida em prazeres fúteis, mas procura salvar a tua alma. Clama a Deus com todo o fervor do teu coração e implora que Ele te conceda uma sentença favorável no dia do Juízo Final, dizendo em oração fervorosa.
ORAÇÃO
Deus justíssimo e Juiz de todos os homens, muitas vezes e gravemente eu vos ofendi e nada tenho a esperar da vossa justiça senão castigo severo. No entanto, eis que vos confesso as minhas faltas; delas me arrependo e abomino, propondo firmemente, a partir de agora, ser-vos sempre fiel. Por isso, suplico-vos, pela vossa infinita misericórdia, que eu seja perdoado dos meus pecados, livrado da morte que condena e me torne merecedor da felicidade eterna. Amém.
(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)
