terça-feira, 4 de maio de 2021

O DOGMA DO PURGATÓRIO (VI)


Capítulo VI

Localização do Purgatório - Santa Francisca Romana - Santa Maria Madalena de Pazzi

Aprouve a Deus mostrar em espírito as moradas sombrias do Purgatório a algumas almas privilegiadas, que deviam revelar os seus tristes mistérios para a edificação dos fiéis. Dentre este número, encontra-se a ilustre Santa Francisca Romana, fundadora dos Oblatos, que morreu em Roma em 1440. Deus a favoreceu com grandes luzes sobre o estado das almas na outra vida. Ela viu o inferno e seus tormentos horríveis; viu também o interior do Purgatório e a misteriosa ordem - que dizia estabelecer uma hierarquia das expiações - que reina nesta porção da Igreja de Jesus Cristo.

Em obediência aos seus superiores, que se julgavam obrigados a impor-lhe esta obrigação, ela deu a conhecer tudo o que Deus lhe havia manifestado; e suas visões, escritas a pedido do venerável Cônego Matteotti, seu diretor espiritual, têm toda a autenticidade que se pode desejar em tais assuntos. Assim, a serva de Deus declarou que, após ter suportado com indizível horror a visão do Inferno, ela saiu daquele abismo e foi conduzida por seu guia celestial - o Arcanjo Rafael - para as regiões do Purgatório. Ali não reinava nem horror, nem desordem, nem desespero e nem escuridão eterna; ali a esperança divina difundia a sua luz e ela foi informada de que este lugar de purificação era também chamado de 'portal da esperança'. Ela viu que as almas sofriam cruelmente, mas os anjos as visitavam e as ajudavam em seus sofrimentos.

O purgatório - disse ela - é dividido em três partes distintas, que são as três grandes províncias daquele reino do sofrimento. Eles estão situados um abaixo do outro e ocupados por almas de diferentes ordens. Essas almas estão aprisionadas mais profundamente na medida em que estão mais conspurcadas e mais distantes do momento de sua libertação.

A região mais inferior é tomada por um fogo devorador, mas que não é escuro como o do inferno; é um vasto mar de fogo que projeta labaredas imensas. Inúmeras almas estão mergulhadas em suas profundezas: são aquelas que se tornaram culpadas de pecado mortal, devidamente confessados, mas que não foram expiados suficientemente em vida. A serva de Deus teve ciência então que, para cada pecado mortal perdoado, ainda faz-se necessário um período de expiação de sete anos. Este período não deve ser entendido como uma medida fixa, uma vez que os pecados mortais podem diferir enormemente, mas como um tempo médio de expiação. Embora as almas estejam envoltas nas mesmas chamas, seus sofrimentos não são os mesmos; estes diferem de acordo com o número e a natureza dos pecados de cada alma.

Neste Purgatório Inferior, a santa viu leigos e também pessoas consagradas a Deus. Os leigos eram aqueles que, depois de uma vida de pecado, tiveram a felicidade de se converterem sinceramente; as pessoas consagradas a Deus eram aquelas que não tinham vivido de acordo com a santidade do seu estado religioso. Nesse mesmo momento, ela viu descer a alma de um sacerdote que ela conhecia, mas cujo nome ela não revela. Ela observou que ele tinha o rosto coberto por um véu que escondia uma mancha - a mancha da sensualidade. Embora tivesse levado uma vida edificante, esse padre nem sempre mantivera uma rígida temperança e buscara com demasiada ansiedade as satisfações à mesa.

A santa foi levada então ao Purgatório Intermediário, destinado às almas que mereciam um castigo menos rigoroso. Ele tinha três compartimentos distintos; um parecia uma imensa masmorra de gelo, cujo frio era indescritivelmente intenso; o segundo, ao contrário, era como um enorme caldeirão de óleo fervente e piche; o terceiro tinha a aparência de um lago de metal líquido semelhante ao ouro ou a prata fundidos.

O Purgatório Superior - que a santa não descreve - é a morada temporária das almas que, tendo sido purificadas pelas dores dos sentidos, sofrem agora tão somente a dor da separação de Deus, à medida em que se aproximam do feliz momento de sua libertação.

Essa é, em substância, a visão de Santa Francisca Romana em relação ao Purgatório. O que se segue é um relato de Santa Madalena de Pazzi, uma carmelita florentina, como é relatado em sua vida pelo Padre Cepari. Ele dá uma imagem mais completa do Purgatório, enquanto a visão anterior apenas projetava os seus contornos.

Algum tempo antes de sua morte, que ocorreu em 1607, a serva de Deus, estando uma noite com várias outras religiosas no jardim do convento, foi arrebatada em êxtase e viu o Purgatório aberto diante dela. Ao mesmo tempo, como ela fez saber mais tarde, uma voz a convidou a visitar todas as prisões da Justiça Divina, e ver quão verdadeiramente dignas de compaixão são as almas ali aprisionadas.

Nesse momento, ela disse: 'Sim, irei'. Ela consentiu em empreender esta dolorosa jornada. Na verdade, ela caminhou por duas horas através do jardim, que era muito grande, parando de vez em quando. Cada vez que interrompia a sua caminhada, ela contemplava com atenção os sofrimentos que lhe eram mostrados. Ela então foi vista torcendo as mãos de compaixão, o seu rosto empalideceu, e o seu corpo curvou-se sob o peso do sofrimento diante do que se passava aos seus olhos.

Ela começou a chorar e a lamentar em alta voz: 'Misericórdia, meu Deus, misericórdia! Desce, ó Sangue Precioso, e livra essas almas de sua prisão. Pobres almas que sofrem tão cruelmente e, ainda assim, estão felizes e alegres. As masmorras dos mártires, em comparação a essas, eram jardins de deleite. No entanto, existem outras ainda mais profundas. Quão feliz eu deveria me considerar se não fosse obrigada a me adentrar nessas profundezas'.

Ela desceu, no entanto, porque foi forçada a continuar o seu caminho. Mas, depois de dar alguns passos, parou apavorada e, suspirando profundamente, gritou: 'Como? Religiosos estão também nesta morada sombria? Ó Bom Deus, como são atormentados! Ah, Senhor!'. Ela não explica a natureza destes sofrimentos; mas o horror que ela manifestava ao contemplá-los a fazia suspirar a cada passo. Ela passou dali para lugares menos sombrios. Eram masmorras de almas simples e de crianças nas quais a ignorância e a falta de razão atenuavam muitos defeitos. Seus tormentos pareciam-lhe muito mais suportáveis ​​do que os dos outros. Nada além de gelo e fogo estavam lá. Ela notou que as almas tinham consigo os seus anjos da guarda, que as fortificavam enormemente com a sua presença; mas ela viu também demônios cujas formas terríveis faziam aumentar os seus sofrimentos.

Avançando mais alguns passos, ela viu almas ainda mais infelizes e foi ouvida gritando: 'Ó quão horrível é este lugar; está cheio de demônios horríveis e tormentos incríveis! Quem, ó meu Deus, são as vítimas dessas torturas cruéis? Ai de mim! Elas estão sendo perfurados com espadas afiadas, sendo cortadas em pedaços!'. Ela recebeu como resposta que eram as almas cuja conduta havia sido marcada pela hipocrisia.

Avançando ainda um pouco, viu uma grande multidão de almas que estavam pisoteadas por assim dizer, e esmagadas por uma prensa; e compreendeu que eram as almas vitimadas pela impaciência e pela desobediência em vida. Enquanto as contemplava, seus olhares, seus suspiros e toda a atitude delas  expressavam compaixão e terror.

Um momento depois, a sua agitação aumentou e ela soltou um grito terrível. Era a masmorra das almas dos mentirosos que agora estava aberta diante dela. Depois de considerá-los com atenção, gritou em voz alta: 'Os mentirosos estão confinados em um lugar próximo ao inferno e os seus sofrimentos são particularmente intensos: chumbo derretido é derramado em suas bocas e eu os via queimar e, ao mesmo tempo, tremer de frio'.

Ela foi então para a prisão das almas que haviam pecado por fraqueza e foi ouvida a exclamar: 'Ai de mim! Pensei que te encontraria entre aqueles que pecaram por ignorância, mas estava enganada: você queima com um fogo mais intenso'. Mais adiante, ela percebeu almas que haviam se apegado demais aos bens deste mundo e pecaram por avareza: 'Que cegueira' - disse ela - 'para buscar avidamente uma fortuna perecível! Aqueles que antes as riquezas não podiam saciar o suficiente, estão aqui fartos de tormentos. Eles são fundidos como o metal na fornalha'. 

Dali ela passou para o lugar onde estavam aprisionadas as almas manchadas de impureza. Ela os viu em uma masmorra tão imunda e pestilenta que a visão lhe produziu náusea. Ela se afastou rapidamente daquele lugar repugnante. Vendo os ambiciosos e os orgulhosos, ela disse: 'Eis aqueles que desejavam brilhar diante dos homens; e que agora estão condenados a viver nesta obscuridade terrível!'. Então ela viu as almas que haviam sido culpadas de ingratidão para com Deus. Eles eram vítimas de tormentos indizíveis e, por assim dizer, afogadas em um lago de chumbo derretido, por terem, por sua ingratidão, secado a fonte de piedade.

Finalmente, em uma última masmorra, ela viu almas que não haviam sido entregues a nenhum vício em particular, mas que, por falta de vigilância adequada sobre si mesmas, cometeram todos os tipos de falhas triviais. Ela observou que essas almas participavam das punições de todos os vícios, em grau atenuado, porque as faltas cometidas apenas de vez em quando as tornavam menos culpadas do que as cometidas repetidamente pelo hábito.

Depois desta última estação, a santa deixou o jardim, implorando a Deus que nunca mais a fizesse testemunhar um espetáculo tão comovente, pois sentia que não tinha mais forças para suportá-lo. Seu êxtase ainda continuava e, conversando com Jesus, ela lhe disse: 'Diga-me, Senhor, qual foi o seu desígnio ao desvelar para mim aquelas terríveis prisões, das quais eu sabia tão pouco e compreendia ainda menos? Ah! Agora vejo: queria dar-me o conhecimento da Vossa santidade infinita e fazer-me detestar cada vez mais a menor mancha do pecado, que é tão abominável aos Vossos olhos'. 

Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog)