quarta-feira, 19 de agosto de 2026

ETYMOLOGIAE (I)


📌 Mártires (De martyribus)

1. Na língua grega, os 'mårtires' (martyr) são chamados, em latim, 'testemunhas' (testis); daí também os 'testemunhos' serem chamados, em grego, martyria. E são chamados testemunhas porque, em razão do testemunho (testimonium) que deram de Cristo, padeceram seus sofrimentos e combateram pela verdade até a morte.

2. Embora pudéssemos chamå-los 'testes', empregando o termo latino, nós os chamamos 'mårtires', segundo o grego, porque essa palavra grega tornou-se bastante familiar aos ouvidos da Igreja, assim como muitos outros termos gregos que empregamos em lugar dos latinos.

3. O primeiro mĂĄrtir do Novo Testamento foi EstĂȘvĂŁo, cujo nome, na lĂ­ngua hebraica, Ă© interpretado como 'estandarte', pois, em seu martĂ­rio, ele foi o primeiro modelo proposto Ă  imitação dos fiĂ©is. O mesmo nome, traduzido da lĂ­ngua grega para o latim, significa 'o coroado'; e isso de modo profĂ©tico, porque, por certa previsĂŁo do futuro, seu nome anunciava antecipadamente aquilo que haveria de acontecer: ele sofreu e recebeu aquilo que seu nome significava. Assim, 'EstĂȘvĂŁo' quer dizer 'coroado': na humildade, foi apedrejado; na glĂłria, porĂ©m, foi coroado.

4. Hå, além disso, duas espécies de martírio: uma consiste no sofrimento manifesto; a outra, na fortaleza oculta da alma. Com efeito, muitas pessoas, suportando as ciladas do inimigo e resistindo a todos os desejos carnais, tornaram-se mårtires mesmo em tempos de paz, porque se ofereceram, em seus coraçÔes, como sacrifício a Deus Todo-Poderoso. São precisamente aquelas que, se sobreviesse um período de perseguição, também poderiam ter sido mårtires.

(Excertos da obra 'The Etymologies of Isidore of Seville' (Barney et al. 2006), tratado etimolĂłgico de Santo Isidoro de Sevilha [560 - 636], sobre o conhecimento da Antiguidade ClĂĄssica inserido no contexto de uma visĂŁo cristĂŁ do mundo)