sábado, 8 de agosto de 2026

AS VINHAS DE DEUS (VII)

 

43. Os antigos filósofos, falando do homem, diziam que ele era uma árvore invertida, com as raízes para cima e os ramos para baixo. Ora, assim como uma árvore não pode viver por muito tempo se não extrair continuamente, por meio de suas raízes, o alimento de que necessita, assim também acontece com o homem, que não pode viver a vida da graça se não fizer descer sobre si as influências celestes por meio da oração, a qual, depois dos sacramentos, é um dos meios mais poderosos, não somente para conservar a graça, mas também para adquiri-la.

44. Assim como a vindima se faz espremendo as uvas, também a vindima espiritual se faz espremendo a graça de Deus e Suas promessas. Para extrair a graça de Deus, devemos multiplicar nossas orações por meio de breves, mas ardentes, elevações de nosso coração a Deus; e, para obter o cumprimento de Suas promessas, devemos multiplicar nossas obras de caridade, pois é em favor delas que Deus cumprirá Suas promessas.

45. 'Quem é esta que sobe do deserto como uma coluna de fumaça de perfumes aromáticos, de mirra e incenso e de todos os pós do perfumista, apoiada em seu amado?' (Ct 3,6 e 8,5.) Essas palavras podem muito bem ser aplicadas a uma alma humilde que pratica perfeitamente a bela virtude da humildade; pois, embora seja muito fecunda em boas obras, o humilde conceito que tem de si mesma faz com que não veja em si bem algum; antes, julga que nada faz e parece a seus próprios olhos semelhante a um deserto estéril, onde não há árvores frutíferas, porque não percebe em si mesma uma única virtude... O lírio e a rosa da oração somente se conservam e se alimentam entre os espinhos da mortificação.

46. Assim como as aves têm seus ninhos, para onde se retiram quando precisam, e os cervos têm seus bosques, onde podem abrigar-se dos ardores do verão, assim também nossos corações devem escolher, a cada dia, algum lugar de repouso, seja no Monte Calvário, seja nas Chagas de nosso Salvador, seja em algum outro lugar junto dEle, para onde possam retirar-se à vontade, a fim de buscar repouso e refrigério em meio às fadigas da vida e encontrar-se ali como em uma fortaleza, protegidos contra a tentação.

47. 'Tu és um jardim fechado e selado' - diz o Esposo, no Cântico dos Cânticos, à Santíssima Virgem; um jardim ornado com as mais belas flores que se poderiam encontrar... Não foi por meio dela que a Igreja foi semeada com as rosas do martírio e as violetas de tantas santas viúvas, humildes e modestas como essas flores, mas que espalham ao seu redor um suave perfume?... Foi seguindo o exemplo que ela nos deu que tantas virgens consagraram seus corações e seus corpos à Divina Majestade, mediante uma resolução e um voto indissolúvel de conservar sua virgindade e sua pureza.

48. São José superou em pureza os Anjos e os Arcanjos. Pois, se o sol necessita apenas de alguns dias para dar ao lírio a sua deslumbrante brancura, quem poderá imaginar a que admirável grau se elevou a pureza de José, exposta, como esteve, noite e dia, durante tantos anos, aos raios do Sol de Justiça e daquela Lua mística que recebe do Sol o seu esplendor?

49. Acima de tudo, recomendo-vos uma fervorosa oração mental, especialmente aquela que tem por objeto a Vida e a Paixão de Nosso Senhor. Esta é a árvore da vida, à sombra da qual devemos buscar repouso.

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 5, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).