50. A videira é plantada principalmente por causa de seu fruto; e, por isso, o fruto é o primeiro a ser desejado e procurado, embora as folhas e as flores apareçam antes dele. Assim também, o grande Redentor foi o primeiro na intenção divina e naquele plano eterno que a Divina Providência formou para trazer as criaturas à existência. Tendo em vista esse fruto tão desejável, foi plantada a videira do mundo e estabelecida a sucessão de muitas gerações, as quais, à semelhança das folhas e das flores, deveriam preceder o fruto como precursoras, preparando convenientemente a vinda daquele cacho de uvas que o Esposo do Cântico dos Cânticos tanto louva e cujo vinho alegra a Deus e ao homem.
51. O nardo é um pequeno arbusto que jamais se eleva às alturas, como os cedros do Líbano, mas permanece sempre em sua pequenez, exalando o seu perfume com tamanha suavidade que alegra todos os que dele se aproximam. Podemos, com efeito, dizer com toda a verdade que a Santíssima Virgem é semelhante a um nardo preciosíssimo, pois jamais se exaltou por causa das grandes graças e favores que recebeu, nem pelos louvores que lhe foram tributados, mas permaneceu sempre bela em sua humildade e pequenez. E, por essa humildade, à semelhança do nardo, difundiu ao seu redor um perfume tão suave que este se elevou até o trono da Divina Majestade; e Deus tanto se comprazia nele que desceu do Céu, veio até esta terra e se encarnou em seu sagrado seio.
52. Imaginai uma grande esponja que acaba de ser formada no mar. Se a contemplardes, vereis que há água em todas as suas partes e que ela está inteiramente impregnada de água; o mar está acima e abaixo dela e, numa palavra, ela se encontra cercada de água por todos os lados... Observai, porém, peço-vos, que, embora o mar esteja em todas as partes da esponja, a esponja não se estende por toda a imensidão do mar, pois o mar é um oceano vasto e profundo que não poderia ser contido numa esponja. Ora, esta comparação representa muito bem a união da natureza divina com a natureza humana. A esponja representa a humanidade de Nosso Senhor; o oceano, a sua Divindade, que de tal modo impregnou a humanidade que não há a menor parte do corpo ou da alma de Nosso Senhor que não esteja repleta dela.
53. Ó Jesus! Enchei os nossos corações com o sagrado bálsamo de vosso divino Nome, para que a suavidade de seu perfume se difunda por todos os nossos sentidos e em todas as nossas ações! Mas, para que estes corações se tornem capazes de receber tão doce licor, circuncidai-os e cortai deles tudo quanto possa desagradar aos vossos santos olhos.
54. Consideramos também a Cruz, não como ela se encontra atualmente, separada do Crucificado, à maneira de uma relíquia, mas como era no tempo da Paixão, quando Nosso Senhor estava nela pregado, quando essa árvore preciosa estava carregada de seu fruto, quando essa mirra destilava de todos os lados gotas de Sangue salvador. Nessa contemplação, nossas almas honram a verdadeira Cruz com a mesma honra com que honram o Crucificado.
55. A mirra tem um perfume muito suave, mas seu suco é extremamente amargo. A querida esposa, pois - a Igreja ou a alma devota - diz que seu Amado será para ela como um ramalhete de mirra sobre o coração, para mostrar que conservará sempre a lembrança da amargura de sua dolorosa Paixão.
56. Houve, sem dúvida, uma grandíssima alegria na arca de Noé, quando a pomba, que pouco antes havia saído para verificar em que estado se encontrava o mundo, finalmente regressou trazendo no bico um ramo de oliveira, sinal seguro de que as águas haviam baixado e de que Deus havia restituído ao mundo a felicidade de sua paz. Mas, ó Deus! Que alegria, que júbilo festivo não deve ter tomado os Apóstolos reunidos, quando viram a sagrada Humanidade de Jesus retornar ao meio deles depois da Ressurreição, trazendo o ramo de oliveira de uma santa e agradável paz e dizendo-lhes: Pax vobis - A paz esteja convosco!
(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 5, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).
