sábado, 3 de outubro de 2026

LENDAS DA BEM AVENTURADA VIRGEM MARIA (I)


Em tempos antigos, vivia em um vilarejo em Hainaut, entre Valenciennes e Maubeuge ('onde' - diz a antiga crônica - 'Deus era servido com lealdade, e sua santa Mãe dignamente honrada'), uma moça simples do campo, cuja juventude e graça, candura e gentileza, atraíam a estima geral dos moradores do vilarejo. Ela cresceu pouco versada em assuntos mundanos, mas caminhando confiantemente diante de Deus em inocência e verdade, sem sonhar com o mal.

Sem o dom da memória, e ainda menos com o do conhecimento, a jovem do vilarejo conhecia apenas uma oração, que era - JESUS e MARIA! E mesmo quando seus lábios cessavam de se mover, o eco desses doces nomes flutuava em seu coração.*

* 'Esta curta oração, Jesus e Maria! é fácil de lembrar; ela preenche docemente a mente e é extremamente poderosa na hora da necessidade'  (Tomás de Kempis).

Acompanhai-me agora na lenda popular. O diabo - a quem nossos pais, por mais ignorantes que julguemos que tenham sido, percebiam estar agindo em vários momentos e em diferentes circunstâncias nas quais nós, com nosso orgulho intelectual, não permitimos que ele tenha qualquer papel, deixando de reconhecer o demônio que anda continuamente rugindo ao redor, procurando a quem devorar - o diabo, então, não podia contemplar, sem fúria, a constante e simples piedade desta pobre jovem, tão confiante, tão ingênua, tão simples e tão bela. Ele, portanto, buscou a sua ruína.

Ele atraiu muitos jovens apaixonados para cortejá-la. Com sua curta e simples, mas poderosa oração, ela os repelia sem sequer suspeitar de suas intenções. 'Esses camponeses são sujeitos enfadonhos e estúpidos' - disse o diabo, que, como muitos outros, julgava os talentos daqueles que empregava pelo sucesso de seus próprios planos.


Ele então despertou as paixões dos galanteadores na corte do Conde Guilherme VI. O mais nobre deles, tendo ouvido falar dos encantos da jovem aldeã, veio para a vizinhança ricamente vestido e ofereceu-lhe a homenagem dos seus elogios. A poderosa oraçãozinha triunfou sobre os cortesãos assim como havia feito sobre os rústicos camponeses. O coração humilde a sussurrava com uma firme esperança. Como lhe havia sido ensinado, ela acreditava piamente que Jesus era o seu Deus e Maria, a sua padroeira.

'Bem, isto é espantoso!' - disse o diabo: 'não me resta outra alternativa senão ir eu mesmo e ver o que posso fazer'. Ele sabia que a inocência é defendida pela proteção divina e que Deus guarda os corações simples. Ele estava enfurecido. Assumiu, então, a forma humana, diz a tradição, e apresentou-se diante da jovem. Ele possuía a aparência mais sedutora e os modos mais cativantes; e a conversa dele era tão animada que a jovem ficou encantada com ele; e ficou tão dominada pela confusão que ele lhe causava que se esqueceu de sua santa oração.

O demônio alegrou-se secretamente e redobrou os seus esforços até que, acreditando ter assegurado a sua presa, perguntou despretensiosamente à simples garota: 'Qual é o seu nome, bela jovem?' Por que o diabo fez essa pergunta? E o que teria motivado tal indagação? 'Maria!' - respondeu ela. Ao som deste nome, que é canal de graça e fonte de força, o demônio sobressaltou-se e desapareceu. Surpresa e alarmada com o sumiço repentino dele, a pobre jovem percebeu o perigo que havia corrido. Mas ela havia sido salva e nunca mais a sua curta e doce oração - JESUS e MARIA! - saiu da sua mente.

(Excertos da obra 'Légendes de la Sainte Vierge', por J. Collin de Plancy, 1853)