3. A PARÁBOLA DOS DOIS FILHOS
Um homem pediu para os seus dois filhos que fossem trabalhar na vinha. O primeiro disse não, mas foi; o segundo disse sim, mas não foi [Mt 21,28-32].
Naquele tempo, Jesus disse aos sacerdotes e anciãos do povo:
[28] Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, ele disse: 'Filho, vai trabalhar hoje na vinha!'
[29] O filho respondeu: 'Não quero'. Mas depois mudou de opinião e foi.
[30] O pai dirigiu-se ao outro filho e disse a mesma coisa. Este respondeu: 'Sim, senhor, eu vou'. Mas não foi.
[31] 'Qual dos dois fez a vontade do pai?' Os sumos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: 'O primeiro'. Então Jesus lhes disse: 'Em verdade vos digo, que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus.
[32] Porque João veio até vós, num caminho de justiça, e vós não acreditastes nele. Ao contrário, os cobradores de impostos e as prostitutas creram nele. Vós, porém, mesmo vendo isso, não vos arrependestes para crer nele'.
Na parábola desse Evangelho, um pai pede aos dois filhos que trabalhem na vinha. Um responde 'não', mas depois se arrepende e vai [29]; o outro responde 'sim', mas não vai [30]. Quando Jesus pergunta qual deles fez a vontade do pai, a resposta é clara: o primeiro [31]. As palavras seguintes de Jesus são impactantes: os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus [31], algo que soaria como uma aparente aprovação ao pecado.
Num primeiro contexto, à luz do ensinamento de Jesus sobre a graça, conclui-se do texto bíblico que, ainda que a vontade seja realmente humana e livre, ela não é autossuficiente para se voltar a Deus e perseverar no bem que conduz ao Reino. Deus não age no lugar do primeiro filho, como se este fosse passivo. A graça desperta e sustenta sua conversão; ele responde livremente, arrepende-se e vai. É nesse sentido que o Catecismo diz que a graça precede e suscita a resposta livre, sem suprimi-la. Assim, a crítica de Jesus não se dirige à vontade enquanto capacidade de escolher. Dirige-se à vontade fechada em si mesma, que presume que basta dizer 'sim', mas resiste ao chamado concreto de Deus. Por outro lado, a vontade convertida reconhece sua necessidade de ajuda e se manifesta em obras. Fazer a vontade do Pai é querer e agir em resposta à graça, e não apenas confiar na força de uma resolução pessoal.
E Jesus menciona, então, que publicanos e prostitutas precedem os chefes religiosos no Reino [31]. Lida isoladamente, a frase pode soar como um manifesto estranho em favor da vida pecaminosa em relação à vida religiosa. No versículo seguinte, a aparente contradição é desfeita: os cobradores de impostos e as prostitutas, apesar dos seus graves pecados, responderam sim à conversão ao acatarem as palavras de João Batista, ao contrário dos interlocutores de Jesus [32]. Jesus não elogia a cobrança injusta ou a prostituição; Jesus não atribui mérito ao pecado, mas à conversão do pecador como resposta ao chamado da graça divina.
A menção a exemplos de pecadores extremados tem uma função: mostrar aos chefes religiosos que sua condição respeitada não lhes garante a entrada no Reino. A comparação é entre pecadores que acolhem o chamado de Deus e pessoas que, apesar de sua posição religiosa, recusam esse chamado. Também não significa que todos os publicanos e todas as prostitutas se converteram, nem que todos os chefes religiosos estavam excluídos (Jesus usa o termo 'precedem' entre uns e outros). O contexto aqui é universal: Jesus explicita que a ação da vontade ao chamado da graça é para todos e que a conversão é tarefa contínua que se impõe tanto para quem caiu gravemente em pecado como para quem se considera justo.
