quarta-feira, 30 de setembro de 2026

INDEX DAS APARIÇÕES MARIANAS - I

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terça-feira, 29 de setembro de 2026

PÁGINAS DIFÍCEIS DOS EVANGELHOS (III)

3. A PARÁBOLA DOS DOIS FILHOS

Um homem pediu para os seus dois filhos que fossem trabalhar na vinha. O primeiro disse não, mas foi; o segundo disse sim, mas não foi [Mt 21,28-32].

Naquele tempo, Jesus disse aos sacerdotes e anciãos do povo: 
[28] Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, ele disse: 'Filho, vai trabalhar hoje na vinha!' 
[29] O filho respondeu: 'Não quero'. Mas depois mudou de opinião e foi. 
[30] O pai dirigiu-se ao outro filho e disse a mesma coisa. Este respondeu: 'Sim, senhor, eu vou'. Mas não foi. 
[31] 'Qual dos dois fez a vontade do pai?' Os sumos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: 'O primeiro'. Então Jesus lhes disse: 'Em verdade vos digo, que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus. 
[32] Porque João veio até vós, num caminho de justiça, e vós não acreditastes nele. Ao contrário, os cobradores de impostos e as prostitutas creram nele. Vós, porém, mesmo vendo isso, não vos arrependestes para crer nele'.


Na parábola desse Evangelho, um pai pede aos dois filhos que trabalhem na vinha. Um responde 'não', mas depois se arrepende e vai [29]; o outro responde 'sim', mas não vai [30]. Quando Jesus pergunta qual deles fez a vontade do pai, a resposta é clara: o primeiro [31]. As palavras seguintes de Jesus são impactantes: os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus [31], algo que soaria como uma aparente aprovação ao pecado.

Num primeiro contexto, à luz do ensinamento de Jesus sobre a graça, conclui-se do texto bíblico que, ainda que a vontade seja realmente humana e livre, ela não é autossuficiente para se voltar a Deus e perseverar no bem que conduz ao Reino. Deus não age no lugar do primeiro filho, como se este fosse passivo. A graça desperta e sustenta sua conversão; ele responde livremente, arrepende-se e vai. É nesse sentido que o Catecismo diz que a graça precede e suscita a resposta livre, sem suprimi-la. Assim, a crítica de Jesus não se dirige à vontade enquanto capacidade de escolher. Dirige-se à vontade fechada em si mesma, que presume que basta dizer 'sim', mas resiste ao chamado concreto de Deus. Por outro lado, a vontade convertida reconhece sua necessidade de ajuda e se manifesta em obras. Fazer a vontade do Pai é querer e agir em resposta à graça, e não apenas confiar na força de uma resolução pessoal.

E Jesus menciona, então, que publicanos e prostitutas precedem os chefes religiosos no Reino [31]. Lida isoladamente, a frase pode soar como um manifesto estranho em favor da vida pecaminosa em relação à vida religiosa. No versículo seguinte, a aparente contradição é desfeita: os cobradores de impostos e as prostitutas, apesar dos seus graves pecados, responderam sim à conversão ao acatarem as palavras de João Batista, ao contrário dos interlocutores de Jesus [32]. Jesus não elogia a cobrança injusta ou a prostituição; Jesus não atribui mérito ao pecado, mas à conversão do pecador como resposta ao chamado da graça divina.

A menção a exemplos de pecadores extremados tem uma função: mostrar aos chefes religiosos que sua condição respeitada não lhes garante a entrada no Reino. A comparação é entre pecadores que acolhem o chamado de Deus e pessoas que, apesar de sua posição religiosa, recusam esse chamado. Também não significa que todos os publicanos e todas as prostitutas se converteram, nem que todos os chefes religiosos estavam excluídos (Jesus usa o termo 'precedem' entre uns e outros). O contexto aqui é universal: Jesus explicita que a ação da vontade ao chamado da graça é para todos e que a conversão é tarefa contínua que se impõe tanto para quem caiu gravemente em pecado como para quem se considera justo. 

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

VERSUS: 'NÃO VOS PREOCUPEIS COM O AMANHÃ'

Quando alguém se encontra em dificuldade e já não sabe o que fazer, procura uma pessoa prudente a quem pedir conselho. Imaginemos que o mundo inteiro fosse um só homem: deseja escapar do mal, mas tarda em praticar o bem. À medida que suas aflições aumentam, a quem poderia recorrer com mais proveito do que a Cristo? Se não encontra conselheiro melhor, aproxime-se daquele que pode encontrar em toda parte; escute-o e acolha seu conselho.

Os males temporais que os homens tanto temem são passageiros: ou eles passam por nós, ou nós passamos por eles. Desaparecem enquanto vivemos ou ficam para trás quando morremos. Não pode ser grande, pela sua duração, uma tribulação que dura tão pouco. Tu, que te inquietas com o amanhã, já não te recordas do ontem? Quando chegar o dia seguinte, esse amanhã também será ontem. E, no entanto, os homens se consomem em ansiedade para escapar de sofrimentos que passam - ou, melhor, que voam. Quanto cuidado não deveriam dedicar, então, a escapar daquilo que permanece!

(Santo Agostinho)


Quando Cristo diz: 'não vos preocupeis com o amanhã' - não está proibindo o trabalho. Ele nos ensina a não ficar presos às coisas desta vida. Alguém pode nada fazer e, ainda assim, ocupar-se inteiramente em acumular para o futuro; outro pode trabalhar e permanecer livre da inquietação. Trabalhar e viver ansioso não são a mesma coisa.

Também quando disse a Marta que ela se preocupava com muitas coisas e que uma só era necessária, Cristo não condenou sua hospitalidade. Mostrou-lhe que há um momento próprio para cada cuidado: naquela hora, em que Ele estava ali para ensinar, escutar sua palavra merecia o primeiro lugar. Marta desejava recebê-lo e preparar-lhe uma boa mesa; poderia acolhê-lo também prestando atenção ao que Ele tinha a lhe dizer.

Aprendamos, pois, caríssimos, a pedir a Deus aquilo que convém pedir-lhe. Quanto às coisas desta vida, qualquer que seja seu desfecho, elas não podem causar-nos o dano que mais importa temer. A riqueza só pode oferecer seu conforto durante esta vida; a pobreza, por sua vez, não é um mal definitivo. Tanto os esplendores quanto as dores presentes passam depressa. Voltemos nosso cuidado, portanto, para as coisas que permanecem.

(São João Crisóstomo)

domingo, 27 de setembro de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

   

'Recordai, Senhor meu Deus, vossa ternura e compaixão!' (Sl 24)

Primeira Leitura (Ez 18,25-28) - Segunda Leitura (Fl 2,1-11) - Evangelho (Mt 21,28-32)

  27/09/2026 - VIGÉSIMO SEXTO DOMINGO DO TEMPO COMUM

 OS HUMILDES E DUROS DE CORAÇÃO


No Evangelho deste domingo, encontramos Jesus após a sua entrada triunfal em Jerusalém, acossado pela malícia humana dos escribas, mestres da lei, anciãos e demais membros do Sinédrio. Tomados pela inveja e calúnia, queriam justificar publicamente a sentença de morte que já haviam imposto secretamente a Jesus nos seus corações e mentes. O júbilo messiânico daquele Domingo de Ramos selara em definitivo o destino e a morte de Jesus.

A missão do Senhor aproxima-se do final e impõe-se cumpri-la até o fim. Jesus contempla com enorme tristeza aqueles homens duros de coração que, cientes de todos os textos proféticos, não compreenderam ou não quiseram compreender os sinais da vinda do Messias ao mundo dos homens. Da mesma forma como negaram João Batista, era preciso agora, com muito mais vigor e malícia, negarem a Cristo; mais do que isso, precisavam tramar e manipular o povo para tornar natural e incontestável a condenação de Jesus à morte, a uma morte de cruz.

Aos duros de coração, elabora, então, a parábola dos dois filhos que o pai ordena trabalharem na vinha: 'Filho, vai trabalhar hoje na vinha!’ (Mt 21,28). O primeiro se nega a princípio e depois acata a ordem do pai e o segundo, que parecia acatar, não cumpre a ordem paterna. Filhos que são os filhos deste mundo, chamados por Deus, para serem operários nas vinhas do Senhor: os que ouvem o chamado à graça, pela manhã ou nas horas mais tardias da vida, e vão trabalhar na vinha e os que não vão, por desobediência explícita, por insensatez, por descuidado zelo. Ontem, os primeiros foram os gentios, publicanos e pecadores e os últimos, os escribas e os fariseus que tramaram contra Jesus; ontem e sempre, os primeiros foram aqueles que humildemente refletiram as palavras e os ensinamentos do Mestre no coração e os últimos, os duros de coração, que se ensoberbeceram no jogo das meras palavras e das promessas vazias.

O caminho da salvação perpassa pelo coração. 'Então Jesus lhes disse: Em verdade vos digo que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus' (Mt 21,31). Foram e são muitos os pecadores que aceitaram o firme propósito do arrependimento sincero e de conversão; infelizmente também são muitos os que se apegam aos valores humanos, à vanglória, à tibieza e à obstinação do orgulho desmedido. Nesta conduta de retidão, serão separados o joio e o trigo, os justos e os ímpios diante do tribunal de Deus, porque 'quando um justo se desvia da justiça, pratica o mal e morre... quando um ímpio se arrepende da maldade que praticou e observa o direito e a justiça, conserva a própria vida' (Ez 18,26 - 27).

sábado, 26 de setembro de 2026

ORAÇÃO PELA INTERCESSÃO DA VIRGEM MARIA

 

Virgem Mãe de Deus, Maria Santíssima, refúgio seguro dos pecadores! A vós, que sois, depois de Deus, nossa esperança e consolação neste lugar de exílio, recorro com sincera confiança, embora seja tão indigno de vossa proteção. Sei quanto preciso converter-me de todo o coração; mas, ao mesmo tempo, a gravidade dos meus pecados me enche de temor.

A vós, portanto, me dirijo: a vós, que intercedeis por nós junto de vosso amado Filho Jesus, assim como Ele intercede junto do Pai eterno. Depois de Jesus, é a vós que devo recorrer para alcançar minha mudança de vida. Dignai-vos, pois, ó Mãe de Misericórdia, obter-me a graça de uma conversão verdadeira e duradoura.

Desejo mudar inteiramente de vida, e nisso sou sincero. Mas meus maus hábitos, o mau uso que fiz de tantas inspirações salutares, a quantidade e a gravidade dos meus pecados e os laços com que o mundo me prende tornam difícil essa mudança e exigem vosso auxílio especial. Concedei-mo, apesar da minha indignidade. Em vós confio; não me rejeiteis.

Embora mereça o castigo eterno, lanço-me aos vossos pés, contrito e arrependido. Reconheço que meus pecados me tiraram a força que a graça concede, afastaram-me do número dos filhos adotivos de Deus, privaram-me do direito à felicidade eterna e atraíram sobre mim a ira do Céu. Dizei-me o que devo fazer para recuperar a amizade de vosso Filho Jesus. Pedi-lhe, por seu Preciosíssimo Sangue, por sua dolorosa Paixão e por sua cruel morte na Cruz, que perdoe minhas faltas, e Ele as perdoará. Manifestai-lhe vosso desejo de que eu seja salvo, e Ele me salvará.

Mas, como ainda posso cair em pecado e perder a vida da graça em meio aos perigos que me cercam, velai sempre por mim; assim vencerei os inimigos que sem cessar procuram minha ruína. Infundi em meu coração uma fé viva, uma esperança firme, uma caridade ardente e todas as virtudes próprias do meu estado de vida. Alcançai-me a constância no bem e a perseverança final.

Enfim, sede minha Mãe amorosa nesta vida e minha advogada na hora da morte, para que eu esteja entre aqueles a quem vosso divino Filho dirá: 'Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino preparado para vós'. Amém.

('Prayer', The Raccolta or Collection of Indulgenced Prayers and Good Works, 1910)

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

BREVIÁRIO DIGITAL: A PEQUENA VIA (I)

'
É tão doce chamar a Deus 'Pai nosso'!… Não consigo imaginar bem o que terei a mais no Céu do que tenho agora. É verdade que verei a Deus; mas, quanto a estar com Ele, já estou com Ele aqui na terra'.

(Santa Teresa do Menino Jesus)

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

GLÓRIAS DE MARIA: NOSSA SENHORA DAS MERCÊS

   

Na coroa de glórias dadas à Nossa Senhora, a Virgem das Mercês é celebrada em 24 de setembro. Mercês significa 'graças', 'favores', 'bênçãos' mas, acima de tudo, 'misericórdia'. A devoção teve origem na Espanha, durante a dura perseguição e prisão imposta aos cristãos numa Europa então invadida pelos mouros.

Na noite de primeiro para 2 de agosto de 1218, Nossa Senhora se manifestou em sonho para São Pedro Nolasco, para São Raimundo de Peñaforte,  seu confessor, e para o rei Dom Jaime I de Aragão, dando-se a conhecer com o título de Mercês, e pedindo a fundação de uma ordem religiosa para o resgate dos cristãos cativos dos mouros. A ordem religiosa dos Mercedários foi, então, fundada em 10 de agosto de 1218, em Barcelona, na Espanha, tendo São Pedro Nolasco como primeiro diretor geral. A devoção logo se difundiu por toda a Europa e chegou ao Brasil, pelas mãos dos frades mercedários, dando origem a várias confrarias no país. Em 1696, o Papa Inocêncio XII estendeu a festa de Nossa Senhora das Mercês para toda a Igreja, estabelecendo a data de 24 de setembro para a sua celebração.


Oração a Nossa Senhora das Mercês

Virgem Maria, Mãe das Mercês,
com humildade acorremos a Vós,
certos de que não nos abandonais
por causa de nossas limitações e faltas.
Animados pelo vosso amor de Mãe,
oferecemo-vos nosso corpo para que o purifiqueis,
nossa alma para que a santifiqueis,
o que somos e o que temos, consagrando tudo a Vós.
Amparai, protegei, bendizei e guardai
sob a vossa maternal bondade a todos
e a cada um dos membros desta família
que se consagra totalmente a Vós.
Ó Maria, Mãe e Senhora nossa das Mercês,
apresentai-nos ao vosso Filho Jesus,
para que, por vosso intermédio
alcancemos, na terra, a sua Graça
e depois a vida eterna.
Amém!

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

TESOURO DE EXEMPLOS II (153/155)

 

153. POR QUE CHORAS?

Uma menina, mandada a fazer uma compra, perdeu o dinheiro e pôs-se a chorar. Um senhor, que por ali passava, perguntou-lhe:
➖ Menina, por que choras?
➖ Porque perdi o dinheiro com que devia fazer uma compra.
➖ Oh! E por que não tens mais cuidado?
➖ O senhor tem razão; mas o que mais me aflige é pensar no quanto custa ao meu pobre pai ganhar esse dinheiro.

Aquele senhor, compadecido, deu-lhe o dinheiro. Alguns instantes depois voltou a menina para devolver-lhe aquela importância, pois encontrara o dinheiro que havia perdido. O homem, admirado de tanta honradez, não aceitou a devolução e, como recompensa, deu-lhe mais outra quantia. A menina não a queria aceitar, repetindo que não fizera mais que cumprir o seu dever. O senhor, porém, respondeu que ela merecia aquele presente porque procedera não só com justiça mas com honradez.

154. O AMOR DÁ CORAGEM

Era uma jovem de uns dezesseis anos. Vivia num bairro pobre de uma cidade do norte da Espanha. Todos ali eram pescadores e passavam a vida à beira do mar. Sobre aquelas águas sem horizonte navegavam todos os dias procurando naqueles procelosos abismos o pão de cada dia. O pai de nossa jovem era pescador, e dos piores e mais brutos que se possam imaginar. Nunca o viram na igreja. Para ele só havia dois lugares prediletos: a taberna e o mar. Muito natural, portanto, que sua filha, apesar de seus dezesseis anos, não tivesse feito a primeira Comunhão.

Naqueles dias tinham chegado ali alguns padres missionários. Transformaram um barracão em igreja e, pela manhã e à noite, reuniam aqueles pobres pescadores para falar-lhes de Deus e da salvação eterna. Além disso, em horas diversas, reuniam os meninos e as meninas para explicar-lhes o catecismo. E isto era uma necessidade porque, entre aquelas pobres alminhas, muitas nunca tinham ouvido falar de confissão ou de comunhão. Nossa jovem de dezesseis anos era das mais assíduas e atentas. De manhã, quando o pai ia para o mar, ela corria à capela dos missionários para aprender a rezar e cantar e ouvir coisas tão belas que nunca ouvira em sua vida.

Chegou o dia da confissão. Passavam de sessenta as meninas que já haviam completado quinze anos e que no dia seguinte iam ter a felicidade de receber Jesus pela primeira vez. Estavam todas radiantes de alegria. Começava a anoitecer e o padre missionário levantou-se do confessionário. Terminara a sua tarefa. Naquele momento aproximou-se dele uma daquelas meninas e, apontando com o dedo uma jovem que estava no fundo da capela, disse:
➖ Padre, aquela menina tem mais de dezesseis anos e ainda não fez também a primeira comunhão. Nem sequer se confessou. Mas o senhor não a confesse porque, se o pai dela souber que se confessou, dá-lhe uma sova e a deixa moída.
➖ Ele é tão mau assim?
➖ Se é! É péssimo. É o pior homem do bairro e tem o apelido de 'Barrabás'.

O padre missionário dirigiu-se à jovenzinha, que já conhecemos, e entre os dois travou-se o seguinte diálogo:
➖ Quantos anos tens?
➖ Já completei dezesseis.
➖ Nunca te confessaste?
➖ Nunca.
➖ Sabes o catecismo?
➖ Antes, não; mas agora, sim; porque todos os dias tenho vindo pela manhã e à tarde e comprei um livrinho e já o sei de cor.

O padre fez-lhe algumas perguntas e viu que não havia menina que soubesse o catecismo tão bem como ela.
➖ E queres confessar-te?
➖ Sim, Padre.
➖ E comungar?
➖ Mais ainda.
➖ E teu pai consentirá?
➖ Meu pai não o saberá. Quando ele for de manhã para o mar, eu venho comungar e ele não ficará sabendo. E se souber...
➖ Então ele te bate...
➖ Paciência. Será só mais uma surra.

O missionário estava pasmado. A almas como aquelas não se pode negar o maior prêmio da vida: a Eucaristia. Sentou-se, pois, no confessionário e a menina aproximou-se da grade. Já estava o padre a dar-lhe a absolvição, quando se ouviram na capela uns passos pesados e compassados. Não havia dúvida: tinha que ser algum pescador que entrava com seus pesados sapatões. E era isso com efeito. Foi direto ao confessionário e, agarrando pelo braço a jovem que naquele instante se levantava, deu-lhe tremendas bofetadas e pontapés, empurrando-a para a rua e dizendo:
➖ Eu já suspeitava que tu andavas por aqui. De onde te vêm essas beatices? Eu te ensinarei a ter juízo. Fora daqui, filha má...

Era o pai. Não se enganaram os que disseram que ele era o homem mais bruto do bairro. O padre missionário não podia fazer nada com aquele pai monstro.
➖Meninas - disse àquelas que estavam ainda na igreja e contemplavam aterradas aquela cena brutal -  meninas, de joelhos! Vamos rezar três Ave-Marias por aquela filha mártir e por aquele pai verdugo.
E todos se ajoelharam e rezaram com fervor. 

Amanheceu o grande dia da comunhão daquelas boas meninas. Antes da hora já estavam ali com seus melhores vestidinhos. Os bancos estavam enfeitados com flores brancas. Ia começar a missa e o padre perguntou:
➖ Veio aquela menina a quem o pai ontem esbofeteou tão brutalmente?
➖ Não - disseram - não devemos esperar por ela. Terá cama por alguns dias, talvez com alguma costela quebrada.
Diziam isto, quando junto à pia de água benta apareceu a nossa jovem. Tinha a cabeça toda enfaixada, mas seus olhos brilhavam de alegria. Fez o sinal da Cruz e, satisfeita e resoluta, sentou-se no banco entre as outras jovens.
➖ Mas, minha filha - disse-lhe o velho missionário - o que foi que te aconteceu?
➖ Nada, padre - respondeu com a maior tranquilidade - apenas meu pai, por eu me ter confessado, me deu ontem tão tremendas pancadas, que estou com o rosto e a cabeça cobertas de feridas.
➖ E teu pai, onde está agora?
➖ Seguiu para o mar.
➖ Ele sabe que vieste comungar,?
➖ Não, senhor.
➖ E se ele vier a saber?
➖ Vai me dar outra sova.
➖ E que dizes sobre isso?
➖ Não faz mal, padre; para ter a felicidade de comungar, a gente bem pode aguentar duas sovas.
Com que prazer não terá Jesus entrado naquele coração. Aquela jovem, sim, amava a Jesus; aquela, sim, sabia fazer sacrifícios por amor de Jesus Cristo! Vós, meninos e meninas, admirai-lhe a grandeza de alma, a coragem e tal firmeza de caráter.

155. QUE SANTOS BEIJOS!

Margarida acabava de completar vinte anos. Não era mais uma menina. Entretanto, desde a sua primeira comunhão, amava a Jesus-Hóstia com um amor imenso, apaixonado. Sua maior alegria e felicidade consistia em lavar e engomar os objetos que serviam para o altar. Lavava as toalhas e, quando acabava de engomá-las, depositava nelas um beijo porque sabia que sobre elas seriam colocados pelos sacerdotes o cálice, o cibório, a custódia... Lavava e engomava os corporais e beijava-os não uma mas muitas vezes, porque - dizia - sobre eles repousará a branca hóstia, depois de consagrada.

Às vezes estava sozinha na igreja e não podia conter-se: corria ao altar do Santíssimo e, quando julgava que ninguém a via, subia a uma cadeira e beijava a portinha do sacrário, porque - dizia - ali atrás está escondido o meu amor. Aquela alma estava madura para o céu. Margarida morreu na flor dos anos. Tendo sido sacramentada, ia receber o sagrado viático; e foi então que fez o que sempre desejara fazer. Quando o sacerdote aproximou de seus lábios a hóstia divina, que seria a sua última comunhão, antes de tomá-la, imprimiu-lhe um beijo. E dizia depois, satisfeita, que nada mais lhe faltava para ser feliz. E partiu para o céu...

Todo ato de amor, toda jaculatória de amor, passará através da portinha do Sacrário e encherá de alegria o coração de Jesus tão esquecido pelos bons e tão desprezado pelos maus.

(Excertos da obra 'Tesouro de Exemplos' - Volume II, do Pe. Francisco Alves, 1960; com adaptações)

terça-feira, 22 de setembro de 2026

PÁGINAS DIFÍCEIS DOS EVANGELHOS (II)

2. OS TRABALHADORES DA ÚLTIMA HORA

Um patrão sai de casa, em diferentes horários do dia, à procura de trabalhadores para a sua vinha [Mt 20,1-16a].

[1] O Reino dos Céus é como a história do patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha.
[2] Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha. 
[3] Às nove horas da manhã, o patrão saiu de novo, viu outros que estavam na praça, desocupados, 
[4] e lhes disse: 'Ide também vós para a minha vinha! E eu vos pagarei o que for justo'. 
[5] E eles foram. O patrão saiu de novo ao meio-dia e às três horas da tarde, e fez a mesma coisa. 
[6] Saindo outra vez pelas cinco horas da tarde, encontrou outros que estavam na praça, e lhes disse: 'Por que estais aí o dia inteiro desocupados?' 
[7] Eles responderam: 'Porque ninguém nos contratou'. O patrão lhes disse: 'Ide vós também para a minha vinha'. 
[8] Quando chegou a tarde, o patrão disse ao administrador: 'Chama os trabalhadores e paga-lhes uma diária a todos, começando pelos últimos até os primeiros!'
[9]  Vieram os que tinham sido contratados às cinco da tarde e cada um recebeu uma moeda de prata. [10] Em seguida vieram os que foram contratados primeiro, e pensavam que iam receber mais. Porém, cada um deles também recebeu uma moeda de prata. 
[11] Ao receberem o pagamento, começaram a resmungar contra o patrão: 
[12] 'Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro'. 
[13] Então o patrão disse a um deles: 'Amigo, eu não fui injusto contigo. Não combinamos uma moeda de prata? 
[14] Toma o que é teu e volta para casa! Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti. 
[15] Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?' 
[16a] Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos.


A dificuldade do texto é que ele apresenta uma aparente injustiça. O salário representa o dom do Reino de Deus, que não é compartilhado com os princípios da lógica humana. A moeda de prata [denário] como pagamento diário [2] representa primariamente a vida eterna e, sendo um dom de Deus, não pode ser fracionada, porque a misericórdia de Deus é infinita para os que o amam; todos os trabalhadores foram contemplados com o mesmo salário, porque todos responderam, prontamente ou ainda que mais tarde, ao mesmo chamado à vinha e tornaram-se, então, herdeiros comuns da mesma graça: a vida eterna em Deus [8].

A premissa fundamental desta passagem dos Evangelhos é que Deus não faz acepção de pessoas. O Reino não é concedido em virtude de origem étnica, posição social ou anterioridade histórica, mas a todos que respondem sim ao chamado comum aos filhos de Deus. Todos os que receberam a moeda de prata aceitaram o chamado e, ainda que por pouco tempo, mereceram usufruir integralmente as graças divinas. As diversas horas do dia [1,3,5,6] representam diferentes etapas da vida humana: infância, juventude, maturidade, idade avançada ou proximidade da morte. São Gregório Magno associa uma segunda escala de tempos, associada à história da salvação, além dos períodos da vida humana: madrugada (época de Adão a Noé), nove horas da manhã (de Noé a Abraão), meio dia (de Abraão a Moisés), três horas da tarde (de Moisés a Cristo) e cinco horas da tarde (o tempo a partir de Cristo e da convocação dos gentios). Na história da salvação, os trabalhadores da primeira hora podem representar o povo da Antiga Aliança e os últimos, os gentios introduzidos na Igreja. E estes, portanto, não recebem um Reino de Deus inferior aos primeiros por terem sido chamados mais tarde na história.

A proposição fundamental distingue duas ordens de princípios: (i) justiça: Deus dá aos primeiros trabalhadores chamados aquilo que lhes prometeu; (ii) misericórdia: Deus dá aos últimos trabalhadores chamados mais dos que eles teriam merecido, num sentido não de elogiar o atraso voluntário da conversão, mas impedir o desespero daquele que foi chamado tarde. E, neste contexto, sobrevém a terceira ordem de princípios:  (iii) graças divinas: a parábola não elimina o verdadeiro mérito das obras realizadas na graça, nem exclui diferentes graus de glória. Todos os trabalhadores possuem o mesmo bem essencial: Deus. Mas nem todos o recebem segundo a mesma capacidade de caridade e mérito.

A parábola não nega o mérito; combate a pretensão de transformar a graça em dívida para com Deus. Este ensinamento está presente pela murmuração dos trabalhadores que foram contratados primeiro [11], pelo fato de o patrão ter determinado ao administrador efetuar o pagamento começando pelos últimos trabalhadores [8]. Eles não ficaram satisfeitos por apenas receber o que era justo [13], mas postularam uma partilha distinta em relação aos últimos, convertendo uma reivindicação aparentemente justa em inveja espiritual [15]. Portanto, cuidado: ainda que tenhamos trabalhado bem uma vida inteira, não nos locupletemos de orgulho próprio para reivindicar um mérito que não é nosso e muito menos para menosprezar aqueles que a Providência Divina esperou para chamar depois.

Por outro lado, a parábola não nos autoriza adiar a conversão e isso constituiria uma leitura gravemente contrária à sua proposição. Ao chamado do patrão, os trabalhadores da última hora disseram: 'Ninguém nos contratou' [7] e não: 'fomos chamados mais cedo, mas preferimos ser chamados outra vez somente no final do dia'. Há uma diferença fundamental entre aquele que só conhece ou acolhe eficazmente o chamado de Deus no final da vida (como o bom ladrão dos Evangelhos) daquele que porventura presume da misericórdia divina e adia deliberadamente a sua conversão. A presunção é um pecado gravíssimo contra a esperança, porque ninguém pode saber se terá uma última hora, tempo para se converter ou disposição interior para fazê-lo ainda em tempo.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

MEMÓRIA DO SANTO DO DIA

SANTA EFIGÊNIA, ROGAI POR NÓS! 

ONDE ESTÁS, QUANDO NÃO ESTÁS CONTIGO?

 


1. Não podemos confiar muito em nós, porque frequentemente nos faltam a graça e o critério. Pouca luz temos em nós e esta facilmente a perdemos por negligência. De ordinário também não avaliamos quanta é a nossa cegueira interior. A miúdo procedemos mal e nos desculpamos, o que é pior. Às vezes nos move a paixão, e pensamos que é zelo. Repreendemos nos outros as faltas leves, e nos descuidamos das nossas maiores. Bem depressa sentimos e ponderamos o que dos outros sofremos, mas não se nos dá do que os outros sofrem de nós. Quem bem e retamente avaliasse suas obras não seria capaz de julgar os outros com rigor.

2. O homem interior antepõe o cuidado de si a todos os outros cuidados, e quem se ocupa de si com diligência facilmente deixa de falar dos outros. Nunca serás homem espiritual e devoto, se não calares dos outros, atendendo a ti próprio com especial cuidado. Se de ti só e de Deus cuidares, pouco te moverá o que se passa por fora. Onde estás, quando não estás contigo? E, depois de tudo percorrido, que ganhaste se esqueceste a ti mesmo? Se queres ter paz e verdadeiro sossego, é preciso que tudo mais dispenses, e a ti só tenhas diante dos olhos.

3. Portanto, grandes progressos farás se te conservares livre de todo cuidado temporal; muito te atrasará o apego a alguma coisa temporal. Nada te seja grande, nobre, aceito ou agradável, a não ser Deus mesmo ou o que for de Deus. Considera vã toda consolação que te vier das criaturas. A alma que ama a Deus despreza tudo que é abaixo de Deus. Só Deus eterno e imenso, que tudo enche, é o consolo da alma e a verdadeira alegria do coração.

(Da Imitação de Cristo, de Thomas de Kempis)

domingo, 20 de setembro de 2026

EVANGELHO DO DOMINGO

  

'O Senhor está perto da pessoa que o invoca!' (Sl 144)

Primeira Leitura (Is 55,6-9) - Segunda Leitura (Fl 1,20c-24.27a) - Evangelho (Mt 20,1-16a)

  20/09/2026 - VIGÉSIMO QUINTO DOMINGO DO TEMPO COMUM

 NAS VINHAS DO SENHOR


Estamos na fase final da pregação pública de Jesus; depois da longa preparação dos discípulos e das premissas do seu Evangelho, aproxima-se o momento do sacrifício do Cordeiro Imolado para a salvação do mundo. Resta ao Senhor pouco tempo para consolidar, entre os seus, os fundamentos da Igreja e das realidades do Reino dos Céus. E, numa parábola magnífica, Jesus nos ensina que Deus nos chama a todos à perfeição e concede o mesmo prêmio de salvação eterna, independentemente de quando os seus escolhidos encontraram definitivamente o caminho da graça.

'O Reino dos Céus é como a história do patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha. Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha' (Mt 20, 1-2). Desde o batismo, desde a primeira hora, desde 'a madrugada' dos tempos, somos chamados a partilhar e compartilhar a glória de Deus nas vinhas do Senhor, como fieis da Igreja, como discípulos do Cristo, como filhos de Deus. No mundo dos homens, desde o batismo nos tornamos herdeiros potenciais da graça, operários da messe a caminho do Céu.

Mas o mundo nos empurra e confunde a caminhada da graça; as aspirações humanas nos tolhem e retêm os propósitos de santificação. Ficamos à mercê dos tempos e dos contratempos. Deus não nos abandona nunca e, como o patrão persistente e incansável, volta pela manhã, pelo meio-dia, pela tarde, pelo final do dia, à espera do 'sim' filial, pela conversão definitiva, pelo retorno do filho pródigo. Na parábola dos operários da vinha, todos receberam igualmente o mesmo prêmio, o mesmo pagamento, mesmo os que foram chamados por último: 'cada um deles também recebeu uma moeda de prata' (Mt 20, 10). Porque a medida da justiça de Deus não é feita pelas medidas humanas: a misericórdia de Deus é infinita para os que o amam; todos os trabalhadores foram contemplados com o mesmo salário, porque todos responderam, prontamente ou mesmo mais tarde, ao chamado à vinha e tornaram-se, assim, herdeiros comuns da mesma graça: a vida eterna em Deus.

Ainda assim, nas sementeiras da graça, fomentaram-se os espinhos da discórdia e da inveja, por parte dos operários que se julgaram injustiçados com o pagamento equivalente: 'Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro’ (Mt 20, 12). Pelo olhar da inveja humana, a misericórdia infinita de Deus teria que ter dimensões paralelas e distintas; a inveja obscurece o valor da graça daquele que a recebeu mais cedo pela concessão da mesma graça concedida ao que chegou mais tarde a ela nos caminhos da vida e, tantas vezes por isso, 'os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos' (Mt 20, 16). Porque a inveja mata e aniquila as sementes da graça recebida e é a caridade comum entre todos que produz, em todos, os mesmos frutos de vida eterna, nas vinhas do Senhor.

sábado, 19 de setembro de 2026

AS VINHAS DE DEUS (XIII/Final)

 

86. Há uma certa erva que, quando mastigada, comunica tamanha doçura que aqueles que a conservam na boca não podem sentir fome nem sede. Assim também, aqueles a quem Deus concede o seu maná celestial de doçura e consolação interiores não podem desejar nem aceitar as consolações mundanas com verdadeiro gosto ou satisfação. É uma pequena antecipação da bem-aventurança eterna, que Deus concede àqueles que o procuram; é o confeito que Ele oferece aos seus filhos para atraí-los; é o cordial que lhes apresenta para fortalecer-lhes o coração; é também, algumas vezes, o penhor e a garantia das recompensas eternas.

87. Quando nossa vontade encontra Deus, repousa nEle, encontrando nEle uma soberana complacência; entretanto, não deixa de exercer o movimento do desejo: pois, assim como deseja amar, ama também desejar; possui o desejo do amor e o amor do desejo. O repouso do coração não consiste em permanecer imóvel, mas em não necessitar de coisa alguma. Não consiste em não ter movimento, mas em não estar sujeito à necessidade de se mover.

88. Nada faz a camomila parecer tão amarga quanto provar mel antes dela. Quando começarmos a saborear as coisas divinas, já não será possível que as coisas deste mundo despertem o nosso apetite.

89. O suco da romã, como todos sabemos, é muito agradável tanto aos enfermos quanto aos sadios e apresenta uma mistura tão íntima de amargor e doçura que é difícil dizer se agrada ao paladar por sua doce amargura ou por sua amarga doçura. Do mesmo modo, o amor é agridoce; e, enquanto permanecermos neste mundo, sua doçura nunca será perfeitamente doce, porque o próprio amor nunca é perfeito, nem jamais se encontra pura e perfeitamente saciado e satisfeito. Não obstante, mesmo aqui o amor é extremamente agradável: sua amargura torna mais delicada a suavidade de sua doçura, enquanto sua doçura torna mais vivo o encanto de sua amargura.

90. Virá a hora da consolação; e então, com indizível doçura de alma, abrireis o vosso íntimo diante da Bondade Divina, que transformará vossos rochedos em fontes de água, vossa serpente em vara, e todos os espinhos do vosso coração em rosas - e nas mais belas das rosas - que reconfortarão o vosso espírito com sua doçura.

91. Os mundanos e os homens terrenos, que vivem conforme os costumes da terra, tão logo concebem algum bom pensamento ou alguma ideia que lhes parece digna de estima, ou quando possuem alguma virtude, não descansam enquanto não a exibem e a tornam conhecida por todos aqueles que encontram. Nisso, correm o mesmo risco das árvores que fazem brotar suas folhas muito cedo na primavera, como as amendoeiras: se, por acaso, a geada as surpreende, elas perecem e não produzem fruto algum. As pessoas mundanas, que tão levianamente deixam suas flores desabrochar na primavera desta vida mortal, movidas por um espírito de orgulho e ambição, correm sempre o grande risco de serem surpreendidas pela geada, que lhes fará perder o fruto de suas ações.

92. Os justos, ao contrário, conservam todas as suas flores encerradas na bainha da santa humildade e, tanto quanto podem, não permitem que apareçam antes do tempo do grande calor: quando Deus, o divino Sol da justiça, vier aquecer seus corações na vida eterna, onde produzirão para sempre o doce fruto da felicidade e da imortalidade.

93. Somos semelhantes ao coral que, no lugar de sua origem - o oceano - é um arbusto verde-pálido, frágil e flexível; mas, uma vez retirado das profundezas do mar, como do ventre de sua mãe, torna-se quase uma pedra e passa do verde ao vermelho vivo. Assim, enquanto permanecemos mergulhados no mar deste mundo, lugar de nosso nascimento, estamos sujeitos a mudanças extremas e somos flexíveis para todos os lados: à direita, inclinamo-nos ao amor celestial pela inspiração; à esquerda, ao amor terreno pela tentação. Mas, uma vez retirados desta condição mortal, teremos transformado o verde-pálido de nossas esperanças temerosas no vermelho vivo da posse segura. Nunca mais seremos inconstantes, mas permaneceremos para sempre firmes no amor eterno.

94. Sucede com tudo o que poderíamos dizer a respeito da grandeza, da glória e da felicidade eternas, bem como da beleza e dos encantos de que o Céu está repleto. Com efeito, entre uma única folha ou um único fruto e a própria árvore, inteiramente coberta de folhas e carregada de frutos, existe uma proporção ainda maior do que entre a luz do Sol e o esplendor de que os bem-aventurados desfrutam na glória. Nem a beleza dos prados adornados de flores na primavera, nem o encanto dos campos cobertos de colheitas maduras podem comparar-se à beleza e ao encanto dos campos celestiais da felicidade eterna, que superam infinitamente tudo quanto deles se possa dizer ou conceber.

95. Ó queridas resoluções, sois a bela árvore da vida que meu Deus plantou com suas próprias mãos no centro do meu coração e que meu Salvador deseja regar com seu sangue, para fazê-la produzir frutos. Eu morreria mil vezes antes de permitir que algum vento vos arrancasse do meu coração. Não! Nem os prazeres, nem as riquezas, nem as tribulações jamais me afastarão desta resolução. Ah, Senhor! Vós a plantastes e, desde toda a eternidade, guardastes em vosso seio paterno esta bela árvore para o meu jardim. Ai! Quantas almas não receberam semelhante favor! Como poderei, então, humilhar-me suficientemente diante de vossa misericórdia?

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. VII, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

POEMAS PARA REZAR (LXV)

 

OBLAÇÃO

Que eu seja nada, mais que coisa alguma,
tão desprovido de mortais matérias 
que o elogio se transforme em espuma
e o fogo consuma todas as misérias!

Que minha imagem seja palidez e sombras
para os que se importam com imagens tais
e se restarem os ais das minhas sombras
que se desvaneçam nas sombras dos meus ais!

Que eu anseie a Luz muito mais que a vida
sem valia alguma da humana medição;
que se eu tiver que me impor certa medida
que seja não ter limites os limites do perdão!

Que faça comunhão minhas mãos finitas
E que eu seja uva e pão, ainda que massa,
que se convertam em vossas mãos benditas,
em divinas hóstias de infinita graça!

(Arcos de Pilares)

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

É PRECISO ATRAVESSAR A PONTE...

 

Eis como enfileirados passamos o rio Jordão para entrar na terra prometida, onde Deus nos chama uns após outros. Viva Jesus! Nada há de tão atrativo neste mundo que nos faça desejar que os nossos amigos e parentes permaneçam aqui por muito tempo. Fazei pouco caso deste mundo, porque ele só nos serve de ponto para passarmos para outro melhor. Este mundo só existe para que sirva de ponte, para que possam existir os habitantes do céu.

À medida que vemos este mundo e os bens que nele temos desfazerem-se ante nossos olhos, é preciso recorrermos com mais ardor a Nosso Senhor e confessar que não colocamos as nossas esperanças nem esperamos os nossos contentamentos senão dele e da eternidade que nos destinou. É preciso que seja proferida esta pequena frase de confiança: não há homem no mundo que tenha o coração mais terno e afetuoso para as amizades do que eu, e que tenha sentimento mais vivo nas separações; no entanto tenho em tão pouca conta esta vaidade da vida que passamos, que nunca me volto para Deus com mais sentimento de amor do que quando me fere, ou quando permite que eu seja ferido.

Elevemos os nossos pensamentos ao céu, e estaremos isentos dos acidentes da terra. Tendo buscado bem a Deus, somos arrebatados para Ele. Devemos crer que Deus dispôs isto para seu melhor bem. Permaneçamos em paz, esperando que Ele disponha de nós. Seríeis muito temerário, caro amigo, se pretendêsseis estar isento dos embates que a inconstância desta vida dá de quando em quando aos homens. Quero que choreis essa perda, porque isso é razoável; mas desejo que não choreis desordenadamente, e que nesta ocasião demonstreis que já aproveitastes tanto na virtude que tendes mais fundamento na eternidade do que na imagem deste mundo.

Contemplai esta morte que talvez não tenha dado tempo ao falecido para se despedir dos que amava; e, esperando que ele passe para a graça de Nosso Senhor, digamos a tempo o adeus, renunciando de coração ao mundo e a toda a vaidade; e coloquemos os nossos corações na bem-aventurada eternidade que nos espera. Ah! Caro amigo! O meu coração compadece-se do vosso, e conjuro-o que pertença completamente Àquele que o ressuscitará da morte para a vida e que nos preparou as suas eternas bênçãos. Seja sempre bendito o seu santo nome!

Sim, querido amigo, chorai o vosso falecido, porque Nosso Senhor chorou Lázaro, seu amigo; mas não sejam lágrimas de pesar, mas de uma simples compaixão cristã e de um coração que, como o de São José, chora de ternura e não de arrogância como Esaú. É nestas ocasiões que convém submeter-nos ao agrado do doce Jesus.

Mas dizei-me: e nós quando iremos para essa pátria que nos espera? Ah! Eis-nos à espera da nossa partida, e choramos os que já partiram! Bom presságio são para essa alma as muitas aflições que ela sofreu; porque, tendo sido coroada de espinhos, devemos crer que será coroada de rosas. Vá pois este irmão, possuir o seu eterno repouso no reino da misericórdia de Deus. Se as minhas preces lhe podem apressar este bem, prometo-as de todo o coração; e se pudesse ter na vossa amizade, pedir-vos-ia de todo o coração; pelo menos permiti-me que ocupe o que tenho, e que à medida que os vossos parentes temporais vos vão faltando, o afeto mais que paternal que vos consagro e tenho fielmente dedicado, se torne maior em ternura e ardor santo.

Tomai as faixas de Nosso Senhor ou o sudário no qual foi envolvido para o sepulcro e enxugai com ele as lágrimas. Eu na verdade também choro nessas ocasiões, e o meu coração, de pedra para as coisas celestes, derrama lágrimas nesses casos; mas seja Deus louvado, e faço com doçura e para vos falar como a um amigo querido, sempre com um sentimento de dileção amorosa para com a Providência de Deus; porque, depois que Nosso Senhor amou a morte e que a ela se entregou por nosso amor, não posso querer mal à morte, nem dos meus irmãos e nem de ninguém, contanto que se faça por amor da sagrada morte do meu Salvador. Viva, pois, e que Ele reine sempre em vossos corações. Amém!

(São Francisco de Sales)

ETYMOLOGIAE (V)

 

📌As Leis divinas e as Leis Humanas (De legibus divinis et humanis)

1. Todas as leis são divinas ou humanas. As leis divinas fundamentam-se na natureza; as leis humanas, nos costumes. Por essa razão, as leis humanas podem divergir entre si, pois leis diferentes convêm a povos diferentes. Fas é a lei divina; ius é a lei humana. Atravessar a propriedade de um estranho é permitido pela lei divina; não é permitido pela lei humana.

2. Como a jurisprudência, as leis e os costumes diferem entre si (Quid differunt inter se ius, leges, et mores). Ius é um termo geral, e a lei é um aspecto do ius. Chama-se ius porque é justo (iustus). Todo o ius consiste em leis e costumes.

3. A lei é uma norma escrita. O costume é um uso comprovado pelo tempo, ou uma lei não escrita; pois lei (lex, genitivo legis) recebe seu nome de 'ler' (legere), porque é escrita. O costume (mos) é um uso de longa data, derivado igualmente dos 'hábitos morais' (mores, plural de mos). O 'direito consuetudinário' (consuetudo) é um determinado sistema de justiça estabelecido pelos hábitos morais, que é tomado como lei quando falta uma lei; e não importa se ele existe por escrito ou pela razão, pois a razão também confere validade à lei.

4. Além disso, se a lei se fundamenta na razão, então será lei tudo aquilo que estiver de acordo com a razão - desde que esteja de acordo com a religião, seja conforme à boa ordem dos costumes e contribua para o bem-estar. O direito consuetudinário (consuetudo) recebe esse nome porque está em 'uso comum' (communis usus).

5. O direito é natural, civil ou das nações. O direito natural (ius naturale) é comum a todos os povos e, por existir em toda parte pelo instinto da natureza, não é estabelecido por nenhuma disposição legal. Assim são a união entre homem e mulher, a herança e a educação dos filhos, a posse comum de todas as coisas, uma única liberdade para todos e o direito de adquirir tudo aquilo que é obtido do céu, da terra e do mar.

6. Também pertencem ao direito natural a restituição daquilo que foi confiado a alguém e do dinheiro que foi depositado, bem como a repulsão da violência pela força. Ora, isso, ou qualquer coisa semelhante, jamais é injusto, mas é considerado natural e justo.

7. O direito civil (ius civile) é aquele que cada povo ou cidade, individualmente, estabeleceu como próprio para si, por razões humanas ou divinas.

8. O direito das nações diz respeito à ocupação de territórios, à construção, às fortificações, às guerras, aos cativeiros, às escravizações, ao direito de retorno, aos tratados de paz, às tréguas, ao compromisso de não molestar as embaixadas e à proibição de casamentos entre diferentes povos. E é chamado 'direito das gentes' (ius gentium) porque quase todas as nações (gentes) fazem uso dele.

(Excertos da obra 'The Etymologies of Isidore of Seville' (Barney et al. 2006), tratado etimológico de Santo Isidoro de Sevilha [560 - 636], sobre o conhecimento da Antiguidade Clássica inserido no contexto de uma visão cristã do mundo)

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXVIII)

    

PARTE IV - O CÉU

II. Sobre as alegrias do Céu

Agora que meditamos sobre a Jerusalém celeste, a cidade de Deus, passaremos a considerar a felicidade de que gozam os santos que nela habitam, tanto no que diz respeito ao corpo quanto à alma. É verdade que, por enquanto, como regra geral, eles ainda não possuem seus corpos; mas, no Último Dia, todos os receberão novamente, e esses corpos serão então tão belos que nada neste mundo poderá comparar-se a eles. Isso se deverá principalmente ao fato de que cada membro será dotado de quatro qualidades ou atributos, a saber: beleza, impassibilidade, agilidade e sutileza. Em razão de sua beleza ou glória, o corpo de cada um dos eleitos resplandecerá como uma estrela; contudo, assim como uma estrela difere de outra em glória, também os santos brilharão com maior ou menor esplendor, conforme suas vidas na terra tenham sido mais ou menos santas.

Nesses corpos glorificados e radiantes, os bem-aventurados serão de uma beleza tão inexprimível que, se um homem mortal pudesse agora contemplar um desses seres resplandecentes, ficaria deslumbrado por seu fulgor e estaria prestes a morrer de alegria. Em suas revelações a Santa Brígida, a Santíssima Mãe de Deus disse certa vez: 'Os santos estão ao redor de meu Filho como incontáveis estrelas, cuja glória não pode ser comparada a nenhuma luz temporal. Acredita-me: se os santos pudessem ser vistos resplandecendo com a glória que agora possuem, nenhum olho humano poderia suportar sua luz; todos desviariam o olhar, deslumbrados e cegos'. Pensa que felicidade será para ti quando teu corpo resplandecer como o sol ao meio-dia. Tudo o que vive e se move alegra-se com a luz e o calor do sol: ele enche de alegria toda a face da natureza. Do mesmo modo, teu corpo será motivo de alegria e deleite para ti mesmo e para todos os que estiverem ao teu redor no Céu, por causa de sua beleza e de sua glória.

O segundo atributo é a impassibilidade, pois o corpo glorificado é incapaz de sofrer. Jamais estará doente ou enfermo; não envelhecerá nem perderá sua beleza. Nunca mais será afligido pela fome ou pela sede, pelo calor ou pelo frio, pelas correntes de ar ou pela umidade. Nunca mais poderá ser queimado pelo fogo, afogado na água, ferido pela espada ou esmagado sob algum peso; será imortal, imutável, eternamente dotado de perfeita saúde e de força que jamais desfalece. Se alguém na terra pudesse adquirir esse dom da impassibilidade, com que alegria daria tudo o que possui para obtê-lo!

O terceiro atributo é a agilidade. O corpo glorificado será capaz de percorrer as maiores distâncias com a velocidade do pensamento. Num só instante poderá descer do Céu à terra; num só instante poderá passar de uma extremidade dos Céus à outra, sem esforço, sem fadiga, sem dificuldade. Muitas vezes desejamos poder voar como os pássaros, avançar velozmente como as nuvens sobre as asas do vento, acompanhar o pensamento em seu rápido voo. Se fosse possível adquirir tal poder, todos abririam mão de todas as suas riquezas terrenas para possuí-lo, ainda que apenas por um único ano. Como é, então, que te esforças tão pouco para assegurar para ti a posse desse dom por toda a eternidade?

O quarto atributo do corpo glorificado é a sutileza, que consiste na faculdade de penetrar toda matéria, entrando e saindo por onde quer que deseje. Nenhuma parede é tão espessa, nenhum portão de ferro tão maciço, nenhuma montanha tão grande que possa constituir obstáculo para o corpo glorificado. Assim como os raios do sol atravessam o vidro, também os corpos dos redimidos, tal como se encontram no Céu, atravessam toda matéria, por mais densa e sólida que seja. Eles também podem tornar-se visíveis ou invisíveis à vontade. O que não darias para possuir semelhante faculdade?

Quão grande é a Vossa generosidade, Deus onipotente, para com os vossos eleitos! Vós lhes concedeis dons preciosos e sublimes, que nenhuma quantidade de riquezas deste mundo poderia comprar. Quem não passaria de bom grado a vida ao vosso serviço e não suportaria as aflições deste mundo, a fim de possuir por toda a eternidade esses dons inestimáveis? Pergunta a este pobre e frágil corpo se ele não desejaria ardentemente resplandecer como a luz, estar livre de todo sofrimento, mover-se com a velocidade do pensamento e ser tão livre de impedimentos quanto um espírito. Possuir semelhantes poderes seria, de fato, uma alegria e uma consolação inexprimíveis.

Não consentirias em que te fosse imposta uma dura penitência durante um ano inteiro, se ao fim dele esses atributos te fossem concedidos? Se assim é, não consideres um fardo levar aqui embaixo uma vida de penitência, na esperança de que esses belos dons sejam teus por toda a eternidade. Cuida para que, aqui na terra, ames a luz - a luz das boas obras; suporta com paciência toda dor e tribulação; sê pronto e zeloso no serviço de Deus; mortifica cada vez mais em ti todos os desejos sensuais, e certamente serás, na vida futura, o feliz possuidor desses quatro atributos do corpo glorificado.

Voltemos agora nossa atenção para o prazer e a satisfação que os bem-aventurados experimentarão por meio dos cinco sentidos; e, antes de tudo, consideremos que satisfação encontrarão por meio da visão. A faculdade da visão será tão perfeita que nada poderá ocultar-se aos seus olhos. Verão aquilo que está distante com a mesma nitidez com que veem o que está próximo; o menor objeto tão claramente quanto o maior; as trevas lhes serão tão claras quanto a luz. Sua visão será tão límpida que poderão contemplar o sol sem desviar os olhos, ainda que sua luz fosse cem vezes mais deslumbrante. Sua vista será tão penetrante que nenhum obstáculo poderá impedi-la. 

Pensa agora no deleite que aguarda o teu sentido da visão, quando teus olhos contemplarem pela primeira vez as glórias do Céu. Em primeiro lugar, contemplarão a própria cidade, com seus palácios e moradas, cujo esplendor e majestade são tão grandes que a contemplação dessas magníficas construções proporcionaria agradável ocupação por toda uma eternidade. Em segundo lugar, contemplarás com deleite as belas flores, as árvores, os jardins e todas as outras maravilhas que atrairão o olhar no Céu. Em terceiro lugar, será para ti um prazer inexprimível contemplar a ti mesmo e a todos os outros santos revestidos de beleza, glória, esplendor, graça e majestade, ultrapassando em muito tudo quanto se pode ver neste mundo.

Em quarto lugar, verás a incomparável beleza dos Anjos, pois acredita-se que esses espíritos celestes assumirão corpos de extraordinária formosura, formados do ar, a fim de se tornarem visíveis aos bem-aventurados. Essa opinião é sustentada por Santo Anselmo. E se a beleza de um Anjo excede incomensuravelmente toda a beleza humana, não te alegrarás em contemplar, por toda a eternidade, tantos milhares de seres angélicos, todos de beleza incomparável? Em quinto lugar, sobre nada repousarão teus olhos com tão intenso deleite quanto sobre a inexprimível beleza de Jesus e Maria, cujos corpos glorificados são tão irresistivelmente encantadores, atraentes, belos e majestosos que, se fosse permitido aos condenados contemplá-los, já não considerariam o Inferno insuportável.

Considera agora que fonte inesgotável de deleite será estar contínua e eternamente cercado por visões tão encantadoras e tão sublimes. Nossa inclinação natural leva-nos, aqui embaixo, a empreender longas viagens para contemplar alguma bela paisagem, a despender grandes somas para adquirir algum objeto belo e até mesmo a colocar em perigo nossas almas na busca ardente daquilo que é belo. Se o amor pela beleza está tão profundamente enraizado em nossa natureza, como é estranho que não ansiemos pela beleza do Céu! Por que não fechamos nossos olhos às atrações da terra, para que sejamos considerados dignos de abri-los diante dos esplendores do Céu? 

Da visão, passemos agora à audição. Seria imprudente tentar descrever o prazer que os ouvidos experimentarão ao escutar os cânticos dos Anjos e a suave música de suas harpas. Os nove coros dos Anjos cantarão os louvores de Deus, e os bem-aventurados unir-se-ão a eles não apenas de coração, mas também mesclarão suas vozes nessa doce harmonia. Assim, as faculdades tanto da alma quanto do corpo serão exercitadas, e os louvores de Deus se elevarão em melodiosos hinos e cânticos celestes.

Pois, se nós, mortais, somos impelidos pelo amor fervoroso e pela alegria do coração a elevar nossa voz em cânticos, quanto mais assim farão os santos Anjos e os bem-aventurados santos, todos abrasados pelo amor de Deus e repletos de uma alegria inexprimível! Seus hinos de louvor ressoarão incessantemente pelas moradas do Céu. Em espírito profético, o velho Tobias diz: 'As portas de Jerusalém serão construídas de safira e esmeralda, e todos os seus muros ao redor serão feitos de pedras preciosas; todas as suas ruas serão pavimentadas com pedras brancas e puras, e em suas ruas cantar-se-á: Aleluia' (Tb 13,21-22).

Essas palavras parecem indicar que os redimidos caminharão livremente uns com os outros pela Jerusalém celeste, unindo suas vozes em jubilosos aleluias. Em maravilhosa harmonia, os Anjos e os Santos louvarão e glorificarão o seu Deus. Que felicidade para eles, ó meu Deus! Que doçura, que alegria! Se os cânticos suaves nos alegram aqui e despertam sentimentos elevados em nosso coração, os cânticos dos Anjos e dos Santos certamente nos causarão arrebatamento e deleite quando tivermos a felicidade de ser admitidos em sua bem-aventurada companhia.

Meu Deus e meu tudo! Quão grande é a abundância dos favores que preparastes para aqueles que vos amam! Meu coração tem sede da torrente das alegrias celestes. Verdadeiramente bem-aventurados são aqueles que habitam em vossa casa, ó Senhor; eles vos louvarão pelos séculos dos séculos. Os santos exultarão e se alegrarão nessa glória, e os altos louvores de Deus estarão em seus lábios. Quem me dera que já agora me fosse concedido unir-me a esses cidadãos do Céu e, juntamente com eles, exaltar para sempre o vosso nome! Quando chegará a hora, aquela feliz hora em que me será concedido contemplar a majestade da vossa morada? Até que ela chegue, suportarei com paciência todos os sofrimentos e tribulações deste mundo e tornarei mais luminosa minha jornada por este vale de lágrimas cantando os vossos louvores; bendirei o Senhor em todo o tempo, o seu louvor estará sempre em minha boca. Engrandecei comigo o Senhor, ó Anjos e Santos; exaltemos para sempre o seu nome.

Do sentido da audição passemos agora ao olfato. Os deliciosos aromas do Paraíso ultrapassam tudo quanto o homem possa imaginar. Os mais belos lírios, rosas, violetas, cravos e outras flores raras e encantadoras crescem nos jardins do Paraíso celeste, e sua fragrância é tão deleitável que, se um homem possuísse apenas uma pétala de uma dessas flores, ficaria como que arrebatado pela suavidade de seu perfume. 'Israel [isto é, a multidão dos redimidos] florescerá como o lírio, e seu perfume será como o do Líbano' (Os 14,6).

A experiência tem mostrado abundantemente que os corpos dos santos, mesmo enquanto repousam em seus túmulos, já exalam suave fragrância; quão mais intensa será essa fragrância quando forem novamente chamados à vida e glorificados! Acima de todos, os corpos de Cristo e de sua Santíssima Mãe exalarão perfume tão suave que todo o Céu será por ele impregnado. Quão amáveis são os vossos tabernáculos, ó Senhor, onde seremos revigorados pelos aromas fragrantes que nos envolverão! Pois, se os suaves perfumes nos confortam e reanimam aqui embaixo, certamente os aromas do Paraíso darão força e refrigério aos bem-aventurados.

Até mesmo o sentido do paladar será satisfeito no Céu; não, é verdade, pelo consumo de alimentos comuns, mas de uma maneira que ainda não somos capazes de conceber. Os bem-aventurados saborearão um doce alimento que os saciará, como aprendemos pelas palavras do Salmista real: 'Eles se inebriarão com a abundância da vossa casa, e Vós os fareis beber da torrente de vossas delícias' (Sl 35,9). 

O sentido do tato terá igualmente o seu prazer particular. Quanto mais alguém se tiver mortificado aqui na terra, maior será o bem-estar de seu corpo na vida futura. Santo Anselmo diz: 'Na vida futura, os santos experimentarão uma sensação de conforto e bem-estar inexprimíveis. Essa agradável sensação penetrará todos os membros, produzindo um maravilhoso sentimento de paz e contentamento'. Com efeito, o que poderia faltar ao corpo glorificado no Céu? Ele gozará de saúde perpétua, repouso perpétuo e felicidade perpétua, de tal maneira que, na superabundância de alegria e satisfação, mal poderá compreender quão invejável é a sua condição.

Finalmente, os redimidos encontrarão imenso prazer em contemplar uns aos outros, em conversar entre si, no convívio afetuoso e na amizade recíproca. Pensa que bela visão será contemplar centenas de milhares de seres em todo o esplendor de seu estado glorificado. Se na terra consideramos agradável contemplar um belo rosto, podemos compreender, ainda que apenas em pequena medida, como será no Céu, onde o mais humilde de seus habitantes possuirá uma beleza que ultrapassa em muito os encantos pessoais de qualquer homem mortal.

Além disso, os redimidos estarão unidos entre si pelo vínculo da caridade mútua, pois amar-se-ão uns aos outros mais ternamente do que os mais afetuosos irmãos e irmãs. Ainda que jamais tenham se encontrado na terra, conhecer-se-ão melhor do que se tivessem sido criados juntos. Cada um conhecerá os acontecimentos da vida terrena do outro. Cada um poderá ver o coração do outro e saber quão grande é a afeição que este lhe dedica. Cada um se alegrará com a glória do outro como se fosse a sua própria; e o mais humilde no Reino dos Céus exultará com a glória do mais elevado tanto quanto este próprio poderá exultar. Isso foi explicado a Santo Agostinho por São João Batista em uma visão: 'Sabe” - disse-lhe ele - 'que, por causa da inexprimível caridade que os bem-aventurados têm uns pelos outros, cada qual não sente menor alegria pela exaltação do outro do que sentiria se ela fosse sua. Mais ainda: aquele que é maior deseja que o menor lhe seja igual e até mais honrado do que ele próprio; pois, no triunfo deste, ele também triunfaria. Da mesma maneira, aqueles que ocupam um lugar mais humilde alegram-se com a glória dos que ocupam os lugares mais elevados; não os invejam, longe disso. Não desejariam para si a elevada posição se os outros não a possuíssem; antes lhes dariam uma parte de sua própria glória, se isso fosse possível'.

Daí se pode compreender que os santos se alegram com o esplendor com que seus companheiros são coroados e nutrem por todos e por cada um deles uma afeição sincera e profunda. De modo especial, amam aquele que, por sua palavra ou por seu exemplo, os ajudou no caminho para o Céu; a esse não sabem como manifestar suficientemente sua gratidão. Cada um sentirá também particular afeição pelo santo que escolheu como seu padroeiro na terra e a quem honrou com especial devoção; e essa afeição será correspondida por aquele a quem foi dirigida. Aqueles que estiveram assim ligados uns aos outros encontrar-se-ão com maior frequência; conversarão sobre coisas santas e contarão mutuamente suas experiências na terra, narrando como, de maneira maravilhosa, a Providência de Deus os salvou da perdição eterna. Em suma, serão incontáveis os prazeres proporcionados aos redimidos por esse convívio, e eles farão tudo quanto estiver ao seu alcance para agradar uns aos outros e demonstrar mutuamente sua bondade.

Ó Deus de todas as misericórdias! Quem não desejaria entrar nessa terra de paz eterna, onde existem alegrias que ultrapassam tudo quanto o homem mortal pode conceber, alegrias tão numerosas e variadas, tão maravilhosas e tão doces! Às vezes, os prazeres deste mundo exercem tamanho fascínio sobre o homem que ele não consegue renunciar a eles, ainda que veja o Inferno aberto diante de si. E, no entanto, esses prazeres são menos que nada quando comparados às alegrias do Céu; na verdade, todas as alegrias que alguém possa imaginar ou desejar para si não podem igualar sequer a menor e mais humilde das alegrias que serão nossas por toda a eternidade! Ó meu Deus, quão inexprimível será a bem-aventurança do Céu! Que me seja concedida a felicidade de participar dessa ventura!

Movido por esse desejo, não vos darei descanso; todos os dias vos suplicarei que me leveis para junto de Vós. Desprenderei meu coração deste mundo; renunciarei inteiramente a todos os prazeres terrenos; todas as minhas aspirações, todos os meus afetos estarão voltados para os tesouros celestes, e todos os dias me conservarei pronto para abandonar este cenário terreno. Quanto mais cedo a morte vier buscar-me, tanto mais bem-vinda será, pois deixarei esta terra de exílio e entrarei em minha verdadeira pátria. Que Deus conceda que assim seja. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)