AS VINHAS DE DEUS

  

1. Estou prestes a dizer a todos os que me ouvem que suas almas são a vinha de Deus, na qual a fé é a cisterna, a esperança é a torre, a santa caridade é o lagar, e a lei de Deus é a cerca que as separa dos infiéis... Tua vontade é a tua vinha; as inspirações divinas derramadas por Deus em tua alma são a cisterna; a santa castidade é a torre que, como a de Davi, deve ser feita de marfim; a obediência, pela qual todas as tuas ações se tornam meritórias, é o lagar. Que Deus preserve esta vinha que Ele plantou com as suas próprias mãos. Que Ele encha a cisterna com as abundantes águas da graça divina. Que proteja sua torre; que seu lagar, sob a pressão de sua mão, transborde do vinho bom; que conserve sempre fechada e espessa a bela cerca com que rodeou a sua vinha; e que seus santos anjos sejam os vinhateiros imortais.

2. Deus permita que floresças, ó bela planta, filha do céu; Deus permita que teus frutos cheguem à maturidade; e que Ele os preserve, dia e noite, em sua plena maturação, dos ventos cruéis que lançam ao chão os frutos da terra, onde os animais selvagens e famintos os devoram.

3. O anseio pela santidade deve ser semelhante às laranjeiras da costa marítima de Gênova, que permanecem cobertas de frutos, flores e folhas durante quase todo o ano. Pois o teu desejo deve amadurecer diariamente em frutos, em cada oportunidade de praticar o bem que se apresentar, sem jamais deixar de aspirar a novas ocasiões de progresso espiritual. Essas aspirações são as flores da árvore; suas folhas são o frequente reconhecimento de tua própria fraqueza, o qual preserva tanto as tuas boas obras quanto os teus bons desejos.

4. Nossos corações são árvores; os afetos e as paixões são seus ramos; e as obras e ações são seus frutos. O coração é bom quando possui bons afetos, e os afetos são bons quando produzem ações boas e santas. Se a doçura, a ternura e as consolações nos tornam mais humildes, pacientes, mansos, caridosos e compassivos para com o próximo; mais fervorosos na mortificação de nossas concupiscências e más inclinações; mais constantes em nossos exercícios religiosos; mais dóceis nas mãos de nossos superiores; mais simples em nosso modo de vida, então, sem dúvida, elas vêm de Deus. Mas se essa doçura é apenas para nós mesmos, tornando-nos curiosos, ásperos, excessivamente melindrosos, impacientes, obstinados, orgulhosos, presunçosos e duros de coração para com o próximo; se nos leva a acreditar que já somos santos e, por isso, não precisamos mais de direção nem de correção, então, certamente, essas consolações são falsas e perniciosas. Uma árvore boa produz bons frutos.

5. No princípio, Deus ordenou às plantas que produzissem frutos, cada uma segundo a sua espécie; da mesma forma, ordena a todos os cristãos, que são as plantas vivas da sua Igreja, que produzam os frutos da devoção, cada qual de acordo com sua condição e vocação.

6. Olhai as abelhas sobre o tomilho: elas encontram ali um suco amargo, mas, ao sugá-lo, transformam-no em mel. Assim também as almas verdadeiramente devotas transformam as amarguras, tribulações e mortificações da vida em doçura espiritual, porque o amor de Deus converte aquilo que naturalmente seria penoso em ocasião de alegria e crescimento interior.

7. O açúcar adoça os frutos ainda verdes e corrige tudo o que há de áspero ou nocivo nos frutos maduros. Ora, a devoção é o verdadeiro açúcar espiritual: ela retira das mortificações a sua amargura e das consolações todo o perigo. Ela anima os pobres e modera os ricos; suaviza a miséria dos oprimidos e a insolência dos favorecidos; alivia a tristeza dos que vivem na solidão e as discórdias dos que vivem em sociedade... Se a caridade é o leite, a devoção é sua nata; se a caridade é uma planta, a devoção é sua flor; se é uma pedra preciosa, a devoção é seu brilho; se é um bálsamo precioso, a devoção é seu perfume - um perfume de suavidade que consola os homens e faz os anjos estremecerem de alegria. 

8. Como é possível que uma alma racional, tendo uma vez provado as delícias do amor divino, possa algum dia voltar-se voluntariamente para beber as amargas águas do pecado mortal? As crianças que são alimentadas com leite, manteiga e mel detestam o amargor do absinto e da orpina, e choram lastimosamente se são forçadas a prová-los. Como, então, ó verdadeiro Deus, pode uma alma que uma vez experimentou a bondade e o amor de seu Criador abandonar-vos para seguir as vaidades do mundo? 

9. A mandrágora é um encanto, que enfeitiça os olhos e suaviza a dor, a tristeza e todas as nossas paixões por meio do sono. Contudo, aquele que lhe aspira o odor por muito tempo torna-se mudo, e aquele que dela bebe profundamente morre sem remédio... Poderiam o fausto, as riquezas e os deleites dos mundanos ser melhor representados? São belos e atraentes; mas quem come desses frutos, isto é, quem os examina cuidadosamente, descobrirá que são destituídos de gosto e de prazer. Não obstante, encantam e acalmam pelo seu vão perfume; e o apreço que os filhos do mundo lhes atribuem perturba aqueles que deles desfrutam em demasia ou neles se entregam com excessiva frequência. Ora, é por uma mandrágora como esta, por vagas sombras de contentamento, que abandonamos o amor de nosso Esposo celeste. E como podemos dizer que o amamos acima de todas as coisas, quando preferimos essas miseráveis vaidades à sua graça divina?

10. Podemos dizer que uma fé morta é como uma árvore seca, sem seiva nem vitalidade, e que, por isso, quando chega a primavera e as outras árvores produzem folhas e flores, permanece desnuda e sem fruto, porque lhe falta a seiva vivificante que corre em toda árvore que vive, ainda que possa parecer morta... Assim acontece com uma fé morta, que nunca pode produzir os frutos e as flores das boas obras, as quais uma fé viva produz em todos os tempos e estações. É, portanto, pelas obras da caridade que sabemos se a fé está viva, morta ou agonizante; e, quando ela não produz boas obras, dizemos que é uma fé morta; quando essas obras são poucas e débeis, dizemos que está morrendo; ao passo que, se, pelo contrário, são frequentes e fervorosas, dizemos que é uma fé viva. Ó quão verdadeiramente bela é esta fé viva!

11. Deveis certamente esforçar-vos por corrigir as vossa pequenas faltas, porque o melhor momento para combatê-las é enquanto ainda são pequenas; pois, se esperardes que cresçam, será mais difícil vencê-las. É fácil desviar o curso de um rio junto à sua nascente, quando ele ainda é apenas um pequeno regato; mas, mais adiante, ele há de zombar dos vossos esforços. 

12. Como é possível que, tendo eu uma vontade tão grande de amar a Deus, tantas imperfeições apareçam e cresçam dentro de mim? Elas não procedem da minha própria vontade, nem são queridas por minha vontade; não, certamente que não! Nascem, parece-me, como o visco que cresce sobre a árvore, mas não faz parte da árvore.

13. O lírio não tem uma estação determinada, mas floresce mais cedo ou mais tarde, conforme a profundidade da terra em que é plantado. Pois, se for plantado apenas à profundidade de três dedos, floresce imediatamente; mas, se for plantado a seis ou nove dedos de profundidade, florescerá tanto mais tarde quanto maior for essa profundidade. Do mesmo modo, se uma alma que deseja amar a Deus estiver profundamente mergulhada nos negócios do mundo, levará muito tempo para florescer. Mas, se viver no mundo apenas na medida em que o seu estado de vida o exigir, então a vereis produzir belas flores e espalhar ao seu redor um suave perfume.

14. Como acontece que, na primavera, os cães perdem o faro e o rastro de um animal com mais facilidade do que em qualquer outra época do ano? Caçadores e filósofos dizem que isso se deve ao fato de que, nessa estação, as ervas e as flores estão em pleno florescimento, e a variedade de seus perfumes embota de tal modo os sentidos dos cães, que eles já não conseguem distinguir entre o perfume das flores e o cheiro da presa. Do mesmo modo, as almas que estão continuamente cheias de desejos, planos e projetos mundanos jamais suspiram pelo amor divino e celestial, nem conseguem seguir as pegadas amorosas do Amor Divino.

15. Há algumas pessoas que são naturalmente leves e frívolas; outras, ásperas e ranzinzas; outras, apegadas às suas próprias opiniões; outras, inclinadas à ira e à indignação; de fato, há raríssimas pessoas nas quais não encontramos algum tipo de imperfeição. Mas, embora tais falhas possam parecer naturais de cada um, elas podem ser corrigidas e moderadas e, com grande cuidado e cultivando a virtude oposta, podemos nos libertar delas por completo. E eu lhe digo que isso precisa ser feito. Meios foram encontrados para transformar amêndoas amargas em doces, apenas perfurando o pé da árvore para deixar o suco escorrer. Por que não podemos expelir nossas inclinações perversas e assim nos tornarmos melhores? Não existe caráter natural tão bom que não possa ser corrompido por hábitos viciosos; e não há nenhum tão rebelde que não possa ser subjugado, primeiro, pela graça de Deus, e depois, pelo empenho constante e diligência.

16. Renunciar a nós mesmos é simplesmente purificar-nos de tudo o que é feito pelo instinto do amor-próprio, o qual, enquanto estivermos nesta vida mortal, não deixará de produzir brotos que devem ser imediatamente cortados, assim como fazemos com a videira. E como não basta podar a videira uma vez por ano, sendo necessário cortá-la em um momento e, em outro, desfolhá-la, de modo que o viticultor deve ter a podadeira continuamente pronta para cortar os ramos inúteis; da mesma forma devemos lidar com as nossas imperfeições.

17. O amor-próprio, a autoestima e uma falsa liberdade de espírito são raízes que nunca podem ser completamente arrancadas do coração humano; mas podemos impedir a produção de seu fruto, que é o pecado. É impossível, enquanto estivermos no mundo, evitar os seus primeiros ímpetos — ou seja, os seus brotos, isto é, os seus primeiros movimentos; mas podemos moderar e diminuir o seu número e a sua violência pela prática das virtudes opostas e, acima de tudo, do amor de Deus. Devemos, portanto, ser pacientes e corrigir os nossos maus hábitos pouco a pouco, conquistar as nossas aversões e superar as nossas más inclinações e paixões à medida que elas entrarem em ação.

18. Alguns autores nos asseguram que, se escrevermos algumas palavras em uma amêndoa inteira, a colocarmos novamente em sua casca, a fecharmos com muito cuidado e a plantarmos, cada fruto da árvore que nascer dela trará as palavras escritas nele. De minha parte, nunca pude aprovar o método daqueles que, desejando reformar um homem, começam pelo exterior - pelo corpo, pelo rosto, pelas vestes ou pelo cabelo. Penso que é muito melhor começar pelo interior: 'Voltai-vos para mim, diz Deus, de todo o vosso coração; meu filho, dai-me o vosso coração'. Pois, sendo o coração a fonte de todas as ações, conforme ele for, assim elas serão. O Esposo Divino, convidando a alma, diz: 'Põe-me como um selo sobre o teu coração, como um selo sobre o teu braço'. Sim, verdadeiramente, pois quem quer que tenha Jesus Cristo dentro de seu coração, logo o manifestará em suas ações externas.

19. Tendo encontrado o Salvador de nossas almas, Madalena converteu-se de forma tão verdadeira que se tornou um vaso puro e fragrante, no qual Deus derramou o mais precioso e suave licor da sua graça, com o qual ela depois perfumou o seu Salvador; e aquela que, por seus pecados, era uma massa de imundície, tornou-se, por sua conversão, um belo lírio, uma flor perfeitamente doce e perfumada; e quanto mais suja e revoltante ela era antes, por causa de seus pecados, tanto mais foi purificada e renovada pela graça depois. Assim como vemos que as flores no jardim tiram seu crescimento e beleza da matéria em decomposição, e quanto mais o solo é adubado, mais belas as flores se tornam, da mesma forma Santa Maria Madalena, após a sua conversão, foi mais bela em sua extrema humildade, em sua fervorosa contrição e no ardente amor com que fez penitência, porque, antes, estava profundamente imersa na maldade e no pecado.

20. Podemos, portanto, prestar contas da ordem dos efeitos da Divina Providência, no que diz respeito à nossa salvação, descendo do primeiro ao último - isto é, do fruto, que é a glória, até a raiz desta bela planta, que é a redenção de nosso Salvador. Pois a Bondade Divina concede a glória após os méritos, os méritos após a caridade, a caridade após a penitência, a penitência após a obediência em seguir a nossa vocação, a obediência em seguir a nossa vocação após a nossa vocação, e a vocação após a redenção realizada por nosso Salvador. Em suma, todas essas graças dependem absolutamente da redenção realizada por nosso Salvador, que lhes deu mérito para nós, segundo a estrita justiça, por meio de Sua sublime e amorosa obediência, a qual o tornou 'obediente até a morte, e morte de cruz', e que é a raiz de todas as graças que recebemos, nós que somos ramos espirituais enxertados em seu tronco.

21. Um inverno rigoroso mata e destrói todas as plantas e flores do campo, de modo que, se durasse para sempre, elas também permaneceriam neste estado de morte. O pecado, esse triste e terrível inverno da alma, destrói todas as obras santas que ali encontra; e, se durasse sempre, a vida e o vigor jamais retornariam. Mas, assim como no retorno da bela primavera, não apenas as novas sementes, semeadas sob o favor desta estação bela e frutífera, brotam frescas e fortes, cada uma segundo a sua espécie, mas também as antigas plantas, que a severidade do inverno havia castigado e murchado, tornam a esverdear e a ganhar vigor; da mesma forma, quando o pecado é expulso e a graça do amor divino retorna à alma, não apenas os novos afetos que o retorno desta santa primavera produz desabrocham em ricos méritos e bênçãos, mas as obras desbotadas e murchas sob a crueza do inverno passado do pecado, como que libertas de seu inimigo mortal, retomam sua força e vigor e, como que ressuscitadas da morte, florescem de novo e frutificam como méritos para a vida eterna.

22. Se formos melindrosos quanto a cargos e títulos, além de expormos nossas qualificações a exames e contradições, nós as tornamos vis e desprezíveis. Pois a honra, que é nobre quando concedida livremente, torna-se detestável quando exigida, buscada e reivindicada. As flores, que são lindas enquanto deixadas no solo em que foram plantadas, murcham assim que são colhidas.

23. Há muitas causas diferentes que servem para nos fazer julgar os outros precipitadamente, e devemos tentar descobri-las e corrigi-las o mais rápido possível. Algumas pessoas são ásperas, amargas e rudes por natureza, e tornam tudo o que encontram igualmente áspero e amargo, 'mudando' - diz o profeta - 'o juízo em absinto, e nunca julgando o seu próximo senão com rigor e aspereza'. Seria muito bom para essas pessoas caírem nas mãos de um bom médico espiritual. Pois, como essa amargura de coração lhes é natural, é difícil superá-la; e, embora não seja um pecado, mas apenas uma imperfeição, ainda assim é perigosa, porque faz o julgamento temerário e a calúnia reinarem na alma.

24. Todos os cristãos, certamente, mas especialmente todos os religiosos, ao considerarem e lerem as vidas dos santos, deveriam tentar moldar-se conforme o seu exemplo, assim como as abelhas apenas pousam nas flores para colher o mel com o qual se alimentam. Ora, há muitas almas que fazem justamente o contrário disso e se assemelham às vespas, que também pousam na flor, mas para extrair não o mel, mas o veneno; e, se porventura sugam o mel, é apenas para transformá-lo em fel; olhando para as ações de seus próximos não para colher o mel da santa edificação pela consideração de suas virtudes, mas para extrair veneno delas ao repararem nas falhas e imperfeições daqueles com quem convivem ... E, ainda, há outras pessoas maliciosas que não se contentam em reparar nas falhas alheias e copiá-las, mas dão más interpretações a tudo o que veem e incitam os outros a fazerem o mesmo, de modo que são exatamente como as vespas, que por seu zumbido atraem outras moscas para a flor onde descobriram o veneno. 

25. Às vezes, julgamos a afeição mais por belas frases do que pelos frutos de verdadeiros sentimentos interiores, os quais só aparecem em ocasiões raras e notáveis, e que nos são muito mais úteis.

26. A nogueira é muito prejudicial às vinhas e aos campos em que é plantada porque, sendo muito grande, atrai para si toda a seiva da terra, que deixa de ser suficiente para nutrir as outras plantas. Suas folhas são tão densas e espalhadas que fazem uma sombra agradável e, por fim, ela atrai os transeuntes que, ao derrubarem seus frutos, estragam e pisoteiam tudo ao redor. Esses amores tolos causam o mesmo dano à alma, pois a ocupam e absorvem todos os seus pensamentos e sentimentos com tanta força que ela não fica apta para nenhuma boa obra. As folhas, isto é, as conversas, os divertimentos e os galanteios, são tão frequentes que desperdiçam todo o tempo livre de alguém, e então causam tantas tentações, distrações, suspeitas e outras consequências miseráveis que o coração inteiro fica esmagado e arruinado. Em suma, eles banem não apenas o amor celestial, mas o temor de Deus, enervam a mente e enfraquecem a reputação. São, em uma palavra, o passatempo dos mundanos, mas a praga dos corações.

27. O grande São Basílio nos diz que a rosa entre os espinhos faz esta admoestação ao homem: 'As coisas mais agradáveis deste mundo, ó mortais, estão sempre misturadas com a dor; nada aqui é puro: o arrependimento está sempre lado a lado com a alegria, a família e os fardos com a criação dos filhos, a ignomínia com a glória, as humilhações com as honras, o desgosto com o prazer e a doença com a saúde. A rosa é uma flor bela' - continua - 'mas ela sempre me enche de tristeza, ao lembrar-me dos meus pecados, pelos quais a terra foi condenada a produzir espinhos'.

28. Mesmo a rosa não é tão perfeita que não tenha as suas imperfeições, pois embora pela manhã seja bela e brilhante, derramando um perfume delicioso ao seu redor, à noite está murcha e desbotada; de modo que a Escritura faz uso dela para simbolizar o prazer e os deleites do mundo, e coisas que, embora pareçam belas aos nossos olhos, são passageiras e de curta duração.

29. Ao cultivarmos o nosso jardim, não podemos deixar de admirar a inocência e a pureza do humilde morangueiro. Embora se arraste rente ao chão e seja continuamente pisado por serpentes, lagartos e outros répteis venenosos, não absorve o menor vestígio de veneno nem a mais leve qualidade maligna. É um verdadeiro sinal de que não possui qualquer afinidade com o veneno. Assim acontece também com as virtudes humanas. Ainda que estejam em um coração vil, terreno e dominado pelo pecado, de modo algum se contaminam com a sua malícia, porque são de natureza tão sincera e tão pura, que não podem ser corrompidas pela convivência com a iniquidade.

30. A nossa miserável natureza, ferida pelo pecado, assemelha-se às palmeiras que existem nesta região, as quais não produzem senão bagas imperfeitas, meros esboços de fruto. Produzir tâmaras plenamente desenvolvidas, doces e maduras, é privilégio reservado às terras mais quentes. Assim também os nossos pobres corações humanos produzem naturalmente certos começos de amor para com Deus; mas amá-lo acima de todas as coisas - que é a verdadeira maturidade do amor devido à Bondade Suprema - é dom que pertence somente às almas vivificadas e auxiliadas pela graça celeste, e que se encontram no estado da santa caridade.

31. O homem está neste mundo como uma árvore plantada pela mão do Criador, cultivada por sua sabedoria e regada pelo Sangue de Jesus Cristo, para que produza frutos segundo o agrado de seu Senhor, que deseja ser servido principalmente nisto: que, com pleno consentimento da nossa vontade, nos deixemos governar pela sua Providência, a qual conduz os que livremente se submetem a ela e arrasta os que lhe resistem.

32. O ramo da videira, unido à cepa, não produz fruto por si mesmo, mas porque faz parte da própria videira. Assim também nós estamos unidos a Nosso Senhor pela caridade, como os membros estão unidos à cabeça; e é por isso que os nossos frutos e as nossas boas obras, recebendo dele o seu valor, tornam-se meritórios para a vida eterna.

33. Se cortardes um pé de roseira e colocardes um grão de almíscar na abertura, as rosas que depois nascerem exalarão um intenso perfume de almíscar. Fendei, pois, o vosso coração pela santa penitência e depositai nessa abertura o amor de Deus; depois enxertai sobre ele a virtude que desejardes, e todas as vossas boas obras ficarão impregnadas do perfume da santidade, sem que tenhais de vos preocupar com isso.

34. E, assim como sementes que por si mesmas produziriam apenas melões insípidos e sem sabor passam a produzir melões deliciosos e perfumados quando são embebidas em água açucarada, assim também as nossas almas, que por si mesmas não seriam capazes de conceber um único bom pensamento para o serviço de Deus, quando são impregnadas das santas delícias do Espírito Santo, que habita em nós, produzem obras santas que conduzem à glória eterna e nos levam até ela.

35. As nossas obras, consideradas apenas como procedentes de nós mesmos, não passam de frágeis caniços; mas esses caniços tornam-se de ouro pela caridade. É com essa vara de ouro que se mede a Jerusalém celeste (Ap 21,15), a qual nos é concedida segundo essa medida. Pois tanto os homens como os anjos recebem maior ou menor grau de glória conforme a sua caridade e as suas obras; por isso, 'a medida do anjo é também a medida do homem' (Ap 21,17). E Deus 'dará a cada um segundo as suas obras' (Ap 22,12).

36. Deus nos ordenou que fizéssemos o melhor que pudéssemos para adquirir a virtude. Não negligenciemos, pois, nada do que possa contribuir para essa santa empresa. Mas, depois de termos plantado e regado, não nos esqueçamos de que somente Deus pode dar o crescimento (1Cor 3,6) às árvores de nossas boas inclinações e hábitos. Por isso, devemos esperar da sua Providência o fruto de nossos desejos e de nossas obras. Se, portanto, não sentimos que estamos progredindo na vida devota tanto quanto desejaríamos, não nos perturbemos; permaneçamos em paz e deixemos que a tranquilidade reine sempre em nossos corações. Cabe-nos cultivar bem a nossa alma, e a isso devemos dedicar-nos com fidelidade. Quanto à abundância da colheita, deixemo-la inteiramente nas mãos de Nosso Senhor. O lavrador jamais será censurado por não ter obtido uma colheita abundante; será, porém, justamente repreendido se negligenciar o cultivo da terra e deixar de lançar a semente no tempo oportuno.

37. Rogo-vos que não ameis coisa alguma com excessivo ardor, nem mesmo a virtude, pois às vezes a perdemos justamente por ultrapassar os limites da moderação... Parece-me que não é natural que uma rosa seja branca, pois as vermelhas são mais belas e exalam perfume mais suave; mas é natural que o lírio seja branco. Sejamos, pois, aquilo que somos, e sejamo-lo unicamente para a honra do nosso Criador, de cujas mãos saímos como obra sua... Seria grande insensatez esperar colher figos de uma oliveira, ou azeitonas de uma figueira. Quem deseja figos deve plantar figueiras; quem deseja azeitonas deve plantar oliveiras.

38. Devemos ter grande cuidado em jamais indagar por que a Sabedoria Suprema concedeu determinada graça a uma pessoa em vez de outra, ou por que faz abundarem os seus favores mais num lugar do que noutro. Pois, uma vez que todos possuem o necessário - e mais do que o necessário - para alcançar a salvação, que direito teria alguém de se queixar porque aprouve a Deus conceder as suas graças mais abundantemente a uns do que a outros? Como diz São Paulo: 'Cada um recebe de Deus o seu próprio dom: um de um modo, outro de outro' (1Cor 7,7)... É preciso, portanto, que haja flores de diferentes tamanhos, diversas cores, variados perfumes e, enfim, distintos graus de perfeição. Todas possuem o seu valor, a sua graça e o seu encanto; e todas, reunidas na harmonia da sua diversidade, compõem uma beleza perfeita e extremamente agradável.

39. Aqueles que respiram o perfume da mandrágora apenas de passagem, e à distância, deleitam-se com uma fragrância muito agradável; mas os que o aspiram de perto e por muito tempo acabam desfalecendo e adoecendo. Assim também as honras proporcionam uma doce consolação àquele que delas apenas saboreia moderadamente, sem nelas prender excessivamente o coração; mas tornam-se extremamente nocivas para quem delas se alimenta e a elas se apega.

40. A honra, a posição social e a dignidade são como o açafrão: nunca prosperam tanto como quando são pisados. A beleza só alcança toda a sua graça e encanto quando é despretensiosa e não se preocupa consigo mesma; e a ciência, quando nos enche de vaidade, perde o seu brilho e degenera em pedantismo.

41. É bom cultivar muitos santos desejos; mas é preciso que eles sejam ordenados, e que procureis realizá-los, cada um a seu tempo e conforme as vossas possibilidades. As videiras e outras árvores são podadas para que não produzam folhas e ramos em excesso, a fim de que sua seiva seja suficiente para formar bons frutos e para que toda a sua força natural não se dissipe numa abundância exagerada de folhagem. Assim também convém moderar a multiplicação dos nossos desejos, para que a alma não se entretenha apenas com eles, negligenciando, entretanto, as obras concretas. Ora, a menor dessas obras costuma ser mais proveitosa do que grandes desejos de coisas que estão além do nosso alcance. Porque Deus espera de nós muito mais fidelidade na realização das pequenas coisas que colocou ao nosso alcance do que um ardor desmedido pelas grandes obras que não dependem de nós.

42. Caminhemos por estes humildes vales das pequenas virtudes. Neles encontraremos a rosa entre os espinhos - a caridade, que resplandece em meio às aflições interiores e exteriores; o lírio da pureza; a violeta da mortificação; e muitas outras flores que não poderia enumerar. Mas, acima de todas, amo especialmente estas três pequenas virtudes: a mansidão do coração, a pobreza de espírito e a simplicidade de vida; e também estes grandes exercícios da caridade: visitar os enfermos, socorrer os pobres e consolar os aflitos, mas sempre sem agitação nem precipitação, e com verdadeira liberdade de espírito. Nossos braços ainda não são suficientemente longos para alcançar os cedros do Líbano; contentemo-nos, por enquanto, com o hissopo dos vales.

43. Os antigos filósofos, falando do homem, diziam que ele era uma árvore invertida, com as raízes para cima e os ramos para baixo. Ora, assim como uma árvore não pode viver por muito tempo se não extrair continuamente, por meio de suas raízes, o alimento de que necessita, assim também acontece com o homem, que não pode viver a vida da graça se não fizer descer sobre si as influências celestes por meio da oração, a qual, depois dos sacramentos, é um dos meios mais poderosos, não somente para conservar a graça, mas também para adquiri-la.

44. Assim como a vindima se faz espremendo as uvas, também a vindima espiritual se faz espremendo a graça de Deus e Suas promessas. Para extrair a graça de Deus, devemos multiplicar nossas orações por meio de breves, mas ardentes, elevações de nosso coração a Deus; e, para obter o cumprimento de Suas promessas, devemos multiplicar nossas obras de caridade, pois é em favor delas que Deus cumprirá Suas promessas.

45. 'Quem é esta que sobe do deserto como uma coluna de fumaça de perfumes aromáticos, de mirra e incenso e de todos os pós do perfumista, apoiada em seu amado?' (Ct 3,6 e 8,5.) Essas palavras podem muito bem ser aplicadas a uma alma humilde que pratica perfeitamente a bela virtude da humildade; pois, embora seja muito fecunda em boas obras, o humilde conceito que tem de si mesma faz com que não veja em si bem algum; antes, julga que nada faz e parece a seus próprios olhos semelhante a um deserto estéril, onde não há árvores frutíferas, porque não percebe em si mesma uma única virtude... O lírio e a rosa da oração somente se conservam e se alimentam entre os espinhos da mortificação.

46. Assim como as aves têm seus ninhos, para onde se retiram quando precisam, e os cervos têm seus bosques, onde podem abrigar-se dos ardores do verão, assim também nossos corações devem escolher, a cada dia, algum lugar de repouso, seja no Monte Calvário, seja nas Chagas de nosso Salvador, seja em algum outro lugar junto dEle, para onde possam retirar-se à vontade, a fim de buscar repouso e refrigério em meio às fadigas da vida e encontrar-se ali como em uma fortaleza, protegidos contra a tentação.

47. 'Tu és um jardim fechado e selado' - diz o Esposo, no Cântico dos Cânticos, à Santíssima Virgem; um jardim ornado com as mais belas flores que se poderiam encontrar... Não foi por meio dela que a Igreja foi semeada com as rosas do martírio e as violetas de tantas santas viúvas, humildes e modestas como essas flores, mas que espalham ao seu redor um suave perfume?... Foi seguindo o exemplo que ela nos deu que tantas virgens consagraram seus corações e seus corpos à Divina Majestade, mediante uma resolução e um voto indissolúvel de conservar sua virgindade e sua pureza.

48. São José superou em pureza os Anjos e os Arcanjos. Pois, se o sol necessita apenas de alguns dias para dar ao lírio a sua deslumbrante brancura, quem poderá imaginar a que admirável grau se elevou a pureza de José, exposta, como esteve, noite e dia, durante tantos anos, aos raios do Sol de Justiça e daquela Lua mística que recebe do Sol o seu esplendor?

49. Acima de tudo, recomendo-vos uma fervorosa oração mental, especialmente aquela que tem por objeto a Vida e a Paixão de Nosso Senhor. Esta é a árvore da vida, à sombra da qual devemos buscar repouso.

50. A videira é plantada principalmente por causa de seu fruto; e, por isso, o fruto é o primeiro a ser desejado e procurado, embora as folhas e as flores apareçam antes dele. Assim também, o grande Redentor foi o primeiro na intenção divina e naquele plano eterno que a Divina Providência formou para trazer as criaturas à existência. Tendo em vista esse fruto tão desejável, foi plantada a videira do mundo e estabelecida a sucessão de muitas gerações, as quais, à semelhança das folhas e das flores, deveriam preceder o fruto como precursoras, preparando convenientemente a vinda daquele cacho de uvas que o Esposo do Cântico dos Cânticos tanto louva e cujo vinho alegra a Deus e ao homem.

51. O nardo é um pequeno arbusto que jamais se eleva às alturas, como os cedros do Líbano, mas permanece sempre em sua pequenez, exalando o seu perfume com tamanha suavidade que alegra todos os que dele se aproximam. Podemos, com efeito, dizer com toda a verdade que a Santíssima Virgem é semelhante a um nardo preciosíssimo, pois jamais se exaltou por causa das grandes graças e favores que recebeu, nem pelos louvores que lhe foram tributados, mas permaneceu sempre bela em sua humildade e pequenez. E, por essa humildade, à semelhança do nardo, difundiu ao seu redor um perfume tão suave que este se elevou até o trono da Divina Majestade; e Deus tanto se comprazia nele que desceu do Céu, veio até esta terra e se encarnou em seu sagrado seio.

52. Imaginai uma grande esponja que acaba de ser formada no mar. Se a contemplardes, vereis que há água em todas as suas partes e que ela está inteiramente impregnada de água; o mar está acima e abaixo dela e, numa palavra, ela se encontra cercada de água por todos os lados... Observai, porém, peço-vos, que, embora o mar esteja em todas as partes da esponja, a esponja não se estende por toda a imensidão do mar, pois o mar é um oceano vasto e profundo que não poderia ser contido numa esponja. Ora, esta comparação representa muito bem a união da natureza divina com a natureza humana. A esponja representa a humanidade de Nosso Senhor; o oceano, a sua Divindade, que de tal modo impregnou a humanidade que não há a menor parte do corpo ou da alma de Nosso Senhor que não esteja repleta dela.

53. Ó Jesus! Enchei os nossos corações com o sagrado bálsamo de vosso divino Nome, para que a suavidade de seu perfume se difunda por todos os nossos sentidos e em todas as nossas ações! Mas, para que estes corações se tornem capazes de receber tão doce licor, circuncidai-os e cortai deles tudo quanto possa desagradar aos vossos santos olhos.

54. Consideramos também a Cruz, não como ela se encontra atualmente, separada do Crucificado, à maneira de uma relíquia, mas como era no tempo da Paixão, quando Nosso Senhor estava nela pregado, quando essa árvore preciosa estava carregada de seu fruto, quando essa mirra destilava de todos os lados gotas de Sangue salvador. Nessa contemplação, nossas almas honram a verdadeira Cruz com a mesma honra com que honram o Crucificado.

55. A mirra tem um perfume muito suave, mas seu suco é extremamente amargo. A querida esposa, pois - a Igreja ou a alma devota - diz que seu Amado será para ela como um ramalhete de mirra sobre o coração, para mostrar que conservará sempre a lembrança da amargura de sua dolorosa Paixão.

56. Houve, sem dúvida, uma grandíssima alegria na arca de Noé, quando a pomba, que pouco antes havia saído para verificar em que estado se encontrava o mundo, finalmente regressou trazendo no bico um ramo de oliveira, sinal seguro de que as águas haviam baixado e de que Deus havia restituído ao mundo a felicidade de sua paz. Mas, ó Deus! Que alegria, que júbilo festivo não deve ter tomado os Apóstolos reunidos, quando viram a sagrada Humanidade de Jesus retornar ao meio deles depois da Ressurreição, trazendo o ramo de oliveira de uma santa e agradável paz e dizendo-lhes: Pax vobis - A paz esteja convosco!

57. 'Um rebento sairá da raiz de Jessé' - diz o profeta Isaías; isto é, a Santíssima Virgem; e da Virgem nascerá uma flor, Nosso Senhor Jesus Cristo. Sobre essa flor repousará o Espírito Santo, comunicando-lhe 'o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de ciência e de piedade, e Ele será cheio do temor do Senhor' (Is 11,2). Assim, a sagrada humanidade de nosso Salvador é como uma flor divina sobre a qual repousou o Espírito Santo, para comunicar-lhe os seus sete dons. Isso nos é apropriadamente representado pelo candelabro de ouro com sete braços, que ficava diante do Tabernáculo do Antigo Testamento e que poderia ser chamado de flor, porque os seus braços estavam dispostos em forma de lírios.

58. Se os frutos mais delicados e mais facilmente perecíveis, como as cerejas, os damascos e os morangos, podem ser conservados durante um ano inteiro quando preparados em açúcar ou mel, não é de admirar que nossos corações, embora fracos e insensatos, sejam preservados da corrupção do pecado quando conservados pelo Corpo e Sangue incorruptíveis do Filho de Deus, que é 'mais doce que o mel e o favo de mel'.

59. O matrimônio é um estado que exige mais virtude e constância do que qualquer outro. É um exercício contínuo de mortificação e talvez o seja para vós ainda mais do que habitualmente. Deveis, portanto, preparar-vos para ele com grande cuidado, a fim de que dessa planta de tomilho, apesar de seu amargor natural, possais extrair o mel de uma vida santa. Que o doce Jesus seja sempre o açúcar e o mel que tornarão suave a vossa vocação! Que Ele viva e reine para sempre em nossos corações!

60. Assim como o sumo da videira, se permanecer por demasiado tempo na uva, corrompe-se e se estraga, também a alma humana, se permanecer entregue aos prazeres e à voluptuosidade, aos desejos e anseios, acaba por se corromper; mas, quando esmagada pela tribulação, produz uma doce bebida de penitência e amor.

61. A Divina Providência faz tudo bem e dispõe todas as coisas da melhor maneira. Que felicidade para essa jovem ter sido retirada do mundo antes que a malícia pervertesse o seu entendimento e ter deixado esse lodaçal antes de ser por ele manchada! [sobre a morte de uma jovem religiosa]. Os morangos e as cerejas são colhidos antes das peras e das laranjas, porque a sua estação assim o exige. Deixemos Deus colher aquilo que plantou em seu pomar: Ele colhe cada coisa no seu devido tempo.

62. Sei que vossos sofrimentos aumentaram ultimamente e, por isso, compadeci-me ainda mais de vós. Contudo, juntamente convosco, louvo e bendigo Nosso Senhor pelo seu beneplácito, que Ele realiza em vós, fazendo-vos participar de sua santa cruz e coroando-vos com sua coroa de espinhos... É um bom sinal para essa alma o fato de ter sofrido muitas aflições, pois, tendo sido coroada de espinhos, devemos crer que será coroada de rosas.

63. Plantai Jesus Cristo crucificado em vosso coração, e todas as cruzes deste mundo vos parecerão rosas... Sabeis o que fazem os pastores da Arábia quando percebem que se aproxima uma tempestade? Abrigam-se sob os loureiros, juntamente com seus rebanhos. Quando percebermos que as perseguições e as contradições nos ameaçam, devemos refugiar nossos afetos à sombra da Santa Cruz, com verdadeira confiança de que 'todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus' (Rm 8,28).

64. Um grande erro em que muitas pessoas, especialmente as mulheres, caem frequentemente é acreditar que o serviço que prestamos a Deus sem qualquer gosto ou ternura de coração é menos agradável à sua Divina Majestade; quando, pelo contrário, as nossas ações são como as rosas: embora sejam mais belas quando frescas, depois de secas exalam um perfume mais intenso e suave. Do mesmo modo, as nossas ações realizadas com ternura de coração são mais agradáveis a nós, que buscamos apenas a nossa própria satisfação; contudo, quando praticadas na aridez, possuem maior mérito e valor aos olhos de Deus.

65. O fogo contemplado por Moisés na montanha representava o santo amor. E, assim como aquelas chamas eram alimentadas entre os espinhos, também o exercício do amor sagrado se conserva mais perfeitamente em meio às tribulações do que na paz e no contentamento.

66. Vejo que todas as estações se encontram em vossa alma: ora sentis o inverno da esterilidade, das distrações, do desgosto e do cansaço; ora, os orvalhos do mês de maio, acompanhados do perfume das santas florzinhas; e, em outros momentos, o ardor do verão, no desejo de agradar ao nosso bom Deus. Resta apenas o outono, do qual, como dizeis, não vedes muitos frutos. Muitas vezes, porém, ao debulharmos o trigo e prensarmos as uvas, descobrimos que produziram mais do que prometiam a colheita e a vindima... Prossigamos sempre com um passo tranquilo e sereno; contanto que tenhamos uma vontade boa e determinada, não poderemos deixar de caminhar bem.

67. O manjericão, o alecrim, a manjerona, o hissopo, o cravo, a canela, o limão e o almíscar, reunidos e conservados inteiros, formam um perfume muito agradável pela mistura de seus diversos aromas; mas esse perfume não é tão excelente quanto a água deles destilada, na qual a suavidade de todos esses ingredientes se combina mais perfeitamente, formando uma essência primorosa, que deleita os sentidos de maneira muito mais intensa do que quando suas fragrâncias são aspiradas separadamente. Do mesmo modo, o amor pode ser cultivado nas uniões em que se misturam as afeições corporais e espirituais, mas nunca alcança tamanha perfeição como quando somente as almas e os corações, desprendidos de toda afeição sensível, se unem num amor puramente espiritual. Pois a fragrância das afeições assim unidas não é apenas mais suave e excelente, mas também mais viva, mais eficaz e mais sólida.

68. A caridade compreende os sete dons do Espírito Santo e assemelha-se a uma bela flor-de-lis, que possui seis pétalas mais brancas do que a neve e, no centro, graciosos estames dourados. O dom da sabedoria produz em nossos corações um amoroso gosto e deleite na bondade do Pai, nosso Criador; na misericórdia do Filho, nosso Redentor; e na suavidade do Espírito Santo, nosso Santificador.

69. Somos obrigados, para falar de Deus de algum modo, a empregar grande número de nomes, dizendo que Ele é bom, sábio, onipotente, verdadeiro, justo, santo, infinito, imortal e invisível! E, de fato, Deus é tudo isso conjuntamente, porque é mais do que tudo isso; isto é, Ele possui todas essas perfeições de maneira tão pura, tão excelente e tão sublime que, numa única e simples perfeição, encerra a virtude, a força e a excelência de todas as perfeições... Ó abismo das perfeições divinas, quão admirável sois por possuirdes em vós, numa única perfeição, a excelência de todas as perfeições - e isso de maneira tão sublime que ninguém, senão vós mesmo, pode compreendê-lo!

70. O sol contempla uma rosa, juntamente com milhares de milhões de outras flores, com a mesma atenção que lhe dedicaria se contemplasse somente aquela rosa. Assim também Deus, embora ame um número incontável de outras almas, não derrama sobre uma única alma menos amor do que derramaria se amasse somente a ela; pois a força do seu amor não diminui conforme a multidão dos raios que difunde, mas permanece sempre plena em sua própria imensidade.

71. Todos devem servir à caridade... É dela que devemos aprender a devida ordem no exercício dos conselhos; pois a uns ela prescreverá a castidade, e não a pobreza; a outros, a obediência, e não a castidade; a alguns, o jejum, mas não a esmola; a outros, a esmola, mas não o jejum; a alguns, a solidão, e não o cuidado das almas; e a outros, o convívio com o mundo, e não a solidão. Enfim, ela é a corrente sagrada pela qual se torna fecundo o jardim da Igreja; e, embora ela própria tenha uma única cor, sem cor determinada, as flores que produz têm, cada qual, a sua cor distinta. Torna os mártires mais rubros que a rosa, as virgens mais brancas que o lírio; a uns dá o delicado violeta da mortificação, a outros as flores de laranjeira do matrimônio, empregando de diversos modos os santos conselhos para a perfeição das almas que têm a felicidade de viver sob a sua direção.

72. Nazaré significa flor. Oh! quão bem esta cidade nos representa a vida religiosa! Pois o que é a vida religiosa senão uma casa, ou uma cidade, densamente coberta de flores, uma vez que todas as coisas que fazemos - quando vivemos segundo suas regras e estatutos - são outras tantas flores? Nossas mortificações, humilhações, orações - numa palavra, todos os exercícios que praticamos - que são eles senão atos de virtude, semelhantes a tantas belas flores que exalam um perfume suavíssimo diante da Divina Majestade? Podemos, portanto, dizer com razão que a vida religiosa é um jardim todo semeado de flores, muito agradável à vista e muito salutar para aqueles que desejam respirar a sua fragrância.

73. Assim como a oliveira, plantada junto à videira, comunica-lhe o seu sabor, também a caridade comunica a sua perfeição às outras virtudes com as quais entra em contato. Mas é igualmente verdade que, se a oliveira for enxertada na videira, não somente lhe comunica o sabor, mas também lhe transmite algo de sua própria seiva. Não vos contenteis, portanto, em possuir a caridade juntamente com o exercício das diversas virtudes; cuidai para que seja pela caridade e por meio dela que pratiqueis essas virtudes, de modo que elas possam, com toda a justiça, ser atribuídas à própria caridade.

74. Todas as flores amarelas e, sobretudo o girassol, não somente se alegram à vista do sol, mas seguem, com amorosa fidelidade, a atração de seus raios, contemplando o sol e voltando-se para ele desde o seu nascer até o seu ocaso. Assim também todas as virtudes recebem um novo esplendor e uma dignidade excelente pela presença do amor divino. Mas a fé, a esperança, o temor de Deus, a penitência, a piedade e todas as demais virtudes que, por sua própria natureza, tendem particularmente para Deus e para a sua honra, não somente recebem a impressão do amor divino, pela qual são elevadas a um alto valor, mas inclinam-se inteiramente para Ele, associando-se a Ele, seguindo-o e servindo-o em todas as ocasiões... Isso nos mostra que essas virtudes são muito preciosas e que, quando exercidas num coração que possui o amor de Deus, tornam-no mais fecundo e santo do que as outras virtudes que, por sua própria natureza, não possuem tão grande afinidade com o amor divino.

75. Nossas ações recebem o nome e a espécie das virtudes particulares das quais procedem; mas da santa caridade recebem o sabor de sua santidade, pois a caridade é a raiz e a fonte de toda santidade no homem. E assim como o tronco comunica o seu sabor ao fruto produzido pelo enxerto, de tal maneira que cada fruto conserva ainda a qualidade natural do enxerto do qual procede, assim também a caridade infunde a sua própria excelência e dignidade nos atos de todas as demais virtudes; mas deixa, contudo, a cada uma delas o valor e a bondade particulares que possui por sua própria natureza.

76. Não é de admirar que o santo amor, sendo o rei das virtudes, nada tenha, grande ou pequeno, que não seja amável; assim como o bálsamo, príncipe das árvores aromáticas, não possui casca nem folha que não seja perfumada. E que poderia o amor produzir que não fosse digno de amor e não tendesse para o amor?

77. Todas as obras virtuosas de uma alma que é amiga de Deus são consagradas a Deus. Pois, quando um coração se entrega, não entrega também tudo aquilo que lhe pertence? Quando alguém dá uma árvore, não dá juntamente suas folhas, suas flores e seus frutos? 'O justo florescerá como a palmeira; crescerá como o cedro do Líbano. Plantados na casa do Senhor, florescerão nos átrios da casa de nosso Deus' (Sl 91,13-14).

78. A erva aproxis é tão facilmente atraída pelo fogo que, mesmo quando se encontra a grande distância, atrai imediatamente para si a chama e rapidamente se consome, incendiando-se não apenas pelo calor, mas pela simples luz da chama que lhe é apresentada... Assim também, quando nossos corações se colocam na presença da bondade divina e atraem para dentro de si as perfeições divinas, pelo deleite que nelas encontram, podem dizer com verdade: 'A bondade de Deus é toda minha, porque me alegro em sua excelência; e eu sou todo dele, pois o seu beneplácito me possui'. 

79. Foi esse amor de compaixão que imprimiu os estigmas no amoroso e seráfico São Francisco e as ardentes chagas de nosso Salvador na amorosa e angélica Santa Catarina de Sena; pois a complacência amorosa aguçara as pontas da dolorosa compaixão, assim como o mel torna mais sensível e penetrante o amargor do absinto; ao passo que, inversamente, o doce perfume da rosa é enfraquecido e amortecido pelo alho plantado junto às roseiras. Pois, assim como a complacência amorosa que sentimos no amor de nosso Salvador nos faz experimentar uma compaixão mais profunda por seus sofrimentos, também, por outro lado, quando passamos da compaixão por suas dores à complacência em seu amor, a alegria se torna tanto mais ardente e mais elevada.

80. Os Magos do Oriente não conseguem contentar-se com a beleza da cidade de Jerusalém, nem com a magnificência da corte de Herodes, nem com o brilho da estrela; seus corações procuram a pequena gruta e o pequeno Menino de Belém. A Mãe do belo amor e seu santo esposo não conseguem repousar entre parentes e amigos; prosseguem ainda, 'procurando com aflição' o único objeto de sua complacência. O desejo de aumentar essa santa complacência afasta todo outro prazer, para que a alma possa gozar mais perfeitamente daquele para o qual a bondade divina a atrai.

81. A mirra produz seu primeiro líquido como que por transpiração; mas, para que entregue todos os seus sucos, é necessário ajudá-la mediante uma incisão. Do mesmo modo, o amor divino de São Francisco manifestou-se durante toda a sua vida como uma espécie de exalação que dele emanava, pois em todas as suas ações ele não respirava senão esse santo amor. Mas, para manifestar inteiramente a incomparável abundância desse amor, veio o Serafim celestial feri-lo. E, para que os homens soubessem que suas chagas eram feridas do amor celestial, elas não foram feitas com ferro, mas com raios de luz.

82. A bem-aventurada Madre Teresa diz admiravelmente que, quando a união da alma com Deus alcança tal perfeição que nos mantém unidos a Nosso Senhor, ela em nada difere do arrebatamento e da suspensão do espírito; mas, quando é breve, chama-se apenas união ou suspensão, ao passo que, se é prolongada, chama-se arrebatamento ou êxtase. De tal modo que, com efeito, a alma unida ao seu Deus tão firme e estreitamente que não pode facilmente ser separada dele já não está em si mesma, mas em Deus; assim como um corpo crucificado já não está em si mesmo, mas na cruz, e como a hera que se agarra ao muro já não está em si mesma, mas no muro.

83. Assim como os marinheiros que se fazem ao mar com vento favorável e bom tempo jamais se esquecem dos cabos, das âncoras e das demais coisas necessárias para o mau tempo e as tempestades, também o servo de Deus, embora desfrute do repouso e da doçura do santo amor, nunca deve estar sem o temor dos juízos divinos, a fim de poder servir-se dele em meio às tempestades e aos assaltos da tentação. Do mesmo modo, assim como a casca de uma maçã, embora tenha pouco valor em si mesma, serve, contudo, grandemente para conservar a fruta que recobre, assim também o temor servil, embora tenha tão pouco valor em si mesmo quando comparado ao amor, é, todavia, muito útil para preservar o amor em meio aos perigos desta vida mortal.

84. Com efeito, o santo amor é uma virtude, um dom, um fruto e uma bem-aventurança. Como virtude, torna-nos obedientes às inspirações interiores que Deus nos concede por meio de seus mandamentos e conselhos, em cuja execução praticamos todas as virtudes, das quais o amor é a virtude de todas as virtudes. Como dom, o amor torna-nos dóceis e receptivos às inspirações interiores, que são como os mandamentos e os conselhos secretos de Deus; e, ao colocá-los em prática, fazemos uso dos sete dons do Espírito Santo, dos quais o amor é o dom dos dons. Como fruto, ele nos proporciona um sabor e um prazer extraordinários na prática da vida devota, a qual requer os doze frutos do Espírito Santo; e, por essa razão, o amor é o fruto dos frutos. Como bem-aventurança, faz-nos receber como grande favor e singular honra as afrontas, calúnias, censuras e insultos que o mundo nos dirige; e faz-nos renunciar e rejeitar toda glória que não seja aquela que procede de nosso amado Salvador Crucificado.

85. O amor, portanto, é frequentemente representado pela romã, que, recebendo suas propriedades da árvore, pode ser chamada de virtude da árvore; parece também ser o seu dom, que ela oferece ao homem; e é o seu fruto, pois é comida para deleitar o paladar humano. E, finalmente, ela é, por assim dizer, a glória e a bem-aventurança da árvore, pois traz consigo uma coroa e um diadema.

86. Há uma certa erva que, quando mastigada, comunica tamanha doçura que aqueles que a conservam na boca não podem sentir fome nem sede. Assim também, aqueles a quem Deus concede o seu maná celestial de doçura e consolação interiores não podem desejar nem aceitar as consolações mundanas com verdadeiro gosto ou satisfação. É uma pequena antecipação da bem-aventurança eterna, que Deus concede àqueles que o procuram; é o confeito que Ele oferece aos seus filhos para atraí-los; é o cordial que lhes apresenta para fortalecer-lhes o coração; é também, algumas vezes, o penhor e a garantia das recompensas eternas.

87. Quando nossa vontade encontra Deus, repousa nEle, encontrando nEle uma soberana complacência; entretanto, não deixa de exercer o movimento do desejo: pois, assim como deseja amar, ama também desejar; possui o desejo do amor e o amor do desejo. O repouso do coração não consiste em permanecer imóvel, mas em não necessitar de coisa alguma. Não consiste em não ter movimento, mas em não estar sujeito à necessidade de se mover.

88. Nada faz a camomila parecer tão amarga quanto provar mel antes dela. Quando começarmos a saborear as coisas divinas, já não será possível que as coisas deste mundo despertem o nosso apetite.

89. O suco da romã, como todos sabemos, é muito agradável tanto aos enfermos quanto aos sadios e apresenta uma mistura tão íntima de amargor e doçura que é difícil dizer se agrada ao paladar por sua doce amargura ou por sua amarga doçura. Do mesmo modo, o amor é agridoce; e, enquanto permanecermos neste mundo, sua doçura nunca será perfeitamente doce, porque o próprio amor nunca é perfeito, nem jamais se encontra pura e perfeitamente saciado e satisfeito. Não obstante, mesmo aqui o amor é extremamente agradável: sua amargura torna mais delicada a suavidade de sua doçura, enquanto sua doçura torna mais vivo o encanto de sua amargura.

90. Virá a hora da consolação; e então, com indizível doçura de alma, abrireis o vosso íntimo diante da Bondade Divina, que transformará vossos rochedos em fontes de água, vossa serpente em vara, e todos os espinhos do vosso coração em rosas - e nas mais belas das rosas - que reconfortarão o vosso espírito com sua doçura.

91. Os mundanos e os homens terrenos, que vivem conforme os costumes da terra, tão logo concebem algum bom pensamento ou alguma ideia que lhes parece digna de estima, ou quando possuem alguma virtude, não descansam enquanto não a exibem e a tornam conhecida por todos aqueles que encontram. Nisso, correm o mesmo risco das árvores que fazem brotar suas folhas muito cedo na primavera, como as amendoeiras: se, por acaso, a geada as surpreende, elas perecem e não produzem fruto algum. As pessoas mundanas, que tão levianamente deixam suas flores desabrochar na primavera desta vida mortal, movidas por um espírito de orgulho e ambição, correm sempre o grande risco de serem surpreendidas pela geada, que lhes fará perder o fruto de suas ações.

92. Os justos, ao contrário, conservam todas as suas flores encerradas na bainha da santa humildade e, tanto quanto podem, não permitem que apareçam antes do tempo do grande calor: quando Deus, o divino Sol da justiça, vier aquecer seus corações na vida eterna, onde produzirão para sempre o doce fruto da felicidade e da imortalidade.

93. Somos semelhantes ao coral que, no lugar de sua origem - o oceano - é um arbusto verde-pálido, frágil e flexível; mas, uma vez retirado das profundezas do mar, como do ventre de sua mãe, torna-se quase uma pedra e passa do verde ao vermelho vivo. Assim, enquanto permanecemos mergulhados no mar deste mundo, lugar de nosso nascimento, estamos sujeitos a mudanças extremas e somos flexíveis para todos os lados: à direita, inclinamo-nos ao amor celestial pela inspiração; à esquerda, ao amor terreno pela tentação. Mas, uma vez retirados desta condição mortal, teremos transformado o verde-pálido de nossas esperanças temerosas no vermelho vivo da posse segura. Nunca mais seremos inconstantes, mas permaneceremos para sempre firmes no amor eterno.

94. Sucede com tudo o que poderíamos dizer a respeito da grandeza, da glória e da felicidade eternas, bem como da beleza e dos encantos de que o Céu está repleto. Com efeito, entre uma única folha ou um único fruto e a própria árvore, inteiramente coberta de folhas e carregada de frutos, existe uma proporção ainda maior do que entre a luz do Sol e o esplendor de que os bem-aventurados desfrutam na glória. Nem a beleza dos prados adornados de flores na primavera, nem o encanto dos campos cobertos de colheitas maduras podem comparar-se à beleza e ao encanto dos campos celestiais da felicidade eterna, que superam infinitamente tudo quanto deles se possa dizer ou conceber.

95. Ó queridas resoluções, sois a bela árvore da vida que meu Deus plantou com suas próprias mãos no centro do meu coração e que meu Salvador deseja regar com seu sangue, para fazê-la produzir frutos. Eu morreria mil vezes antes de permitir que algum vento vos arrancasse do meu coração. Não! Nem os prazeres, nem as riquezas, nem as tribulações jamais me afastarão desta resolução. Ah, Senhor! Vós a plantastes e, desde toda a eternidade, guardastes em vosso seio paterno esta bela árvore para o meu jardim. Ai! Quantas almas não receberam semelhante favor! Como poderei, então, humilhar-me suficientemente diante de vossa misericórdia?

(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. VII, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).