segunda-feira, 24 de agosto de 2026

A HERESIA DA SOLA SCRIPTURA

 

A chamada Sola Scriptura é a doutrina protestante segundo a qual a Sagrada Escritura constitui a única autoridade infalível e suprema em matéria de fé e moral. Por outro lado, a doutrina católica assume que Escritura, Tradição e Magistério constituem fontes indissociáveis na transmissão e interpretação da Revelação divina. Assim, a doutrina da Sola Scriptura rejeita a Sagrada Tradição e o Magistério da Igreja como autoridades infalíveis ao lado da Escritura.

A questão crucial é, portanto, um problema de origem comum: as Sagradas Escrituras e, neste sentido, vamos desconsiderar em princípio que existe uma diferença fundamental no número dos livros entre a Bíblia Católica (73 livros) e a Bíblia Protestante (66 livros, com a exclusão dos livros de Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, 1 Macabeus e 2 Macabeus, além de algumas partes de Ester e Daniel). Consideremos ainda que a Igreja Católica reconhece e atesta que a Escritura contém toda a revelação divina, bem como tudo que é necessário para a salvação eterna, de forma explícita ou implícita. Até aí, doutrina e heresia sempre caminharam juntas pois, por mais paradoxal que possa parecer, quase todas as grandes heresias que convulsionaram a Santa Igreja pelos séculos foram originadas na própria Escritura ou, melhor dizendo, a partir de interpretações equivocadas, descontextualizadas e manipuladas pelo livre exame dos textos bíblicos, como se a interpretação da Escritura fosse um complemento lógico e inerente à própria Escritura. 

Não é, nem de longe. Isso não significa que o fiel esteja proibido de ler e compreender a Bíblia. Significa que sua interpretação NÃO POSSUI UMA AUTORIDADE AUTÔNOMA E INFALÍVEL. A própria Escritura mostra a necessidade de mestres (Ef 4,11-14), da pregação apostólica (2Ts 2,15) e da autoridade da Igreja para resolver controvérsias (Mt 18,17-18). 

Com efeito, no texto bíblico do encontro de Filipe com o eunuco: 'Filipe correu, ouviu-o ler o profeta Isaías e perguntou: ‘Porventura entendes o que estás lendo?’ Ele respondeu: ‘Como é que posso, se não há alguém que mo explique?’ (At 8,30-31), fica claramente explícito que o eunuco possuía a Escritura e sabia lê-la, mas reconheceu que necessitava de um intérprete autorizado. Filipe, enviado pelo Espírito Santo e participante da missão apostólica, explicou-lhe que a passagem de Isaías se referia a Jesus Cristo. São Pedro reconhece expressamente que existem textos bíblicos difíceis, sujeitos a interpretações errôneas e equivocadas: 'Nelas há algumas passagens difíceis de entender, cujo sentido os ignorantes e vacilantes deturpam, como fazem também com as demais Escrituras, para a própria perdição (2Pd 3,16). Portanto, não se pode afirmar que o verdadeiro sentido seja sempre evidente ou inerentemente acessível a todo leitor. E, pior: estes erros de interpretação afetam também as demais Escrituras (não apenas passagens difíceis de entender) e que são a causa da própria perdição para os que deturpam os textos bíblicos pela livre interpretação.

No Evangelho, em resposta ao apóstolo fiel, Jesus vai oferecer a Pedro o primado da Igreja, como privilégio da glória, poder e realeza de Cristo: 'Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso, eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la' (Mt 16,17 - 18). E Jesus vai declarar em seguida o poder universal e sobrenatural da sua Igreja, criada ali, naquele momento da história, naquele lugar qualquer da chamada 'Cesareia de Felipe': 'Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado nos céus' (Mt 16,19). Ligado ou desligado. Poder absoluto, domínio universal, primado da verdade, Cátedra de Pedro.

O modelo bíblico, portanto, não pode ser nunca: Escritura → interpretação particular autossuficiente (heresia protestante), mas Escritura → fé apostólica → interpretação e decisão da Igreja assistida pelo Espírito Santo (doutrina católica). Se não fosse assim, Cristo não precisaria criar a sua Igreja, como depósito da fé ensinada nos Evangelhos. É neste contexto de unidade e univocidade da Revelação Divina que São Paulo não chama a Escritura isoladamente de 'coluna e sustentáculo da verdade', mas atribui essa função à Igreja, uma única Igreja, à Igreja do Deus vivo: 'A Igreja do Deus vivo, coluna e sustentáculo da verdade' (1Tm 3,15). Sim, a igreja do Deus vivo, a Igreja Católica, repositório da Verdade de Cristo, a única que POSSUI A AUTORIDADE AUTÔNOMA E INFALÍVEL para a interpretação da Escritura pelos selos da TRADIÇÃO e do MAGISTÉRIO

Implodidas estas duas vigas rígidas de sustentação, a Revelação Divina é exposta de forma ambígua e vacilante, a preço vil, por centenas de seitas que proclamam verdades lapidadas por eunucos da graça que não reconhecem a própria ignorância, uma vez consumidos por um orgulho desmedido. Sobre estes tolos, pairam as palavras duras e contundentes de Santo Agostinho: 'A alma abandona Aquele a quem deveria estar unida como seu fim e pretende tornar-se o próprio fim para si mesma' (A Cidade de Deus, XIV,13).