ἀληθής e ἀληθινός são palavras gregas comumente traduzidas com significado semelhante, no sentido de verdadeiro; real; genuíno; conforme a verdade ou fiel (em alguns contextos). A rigor, entretanto, há uma nuance de diferenciação fundamental entre ambas as palavras:
ἀληθής → significa verdadeiro em oposição ao falso; veraz, sincero, conforme os fatos.
ἀληθινός → significa verdadeiro no sentido de autêntico, perfeito, definitivo, em oposição ao que é apenas figurado ou aproximado.
Estas palavras aparecem diversas vezes no Novo Testamento, muitas vezes traduzidas do mesmo modo, mas são nos escritos de São João (Evangelho, Cartas, Apocalipse) que estas palavras se repetem várias vezes, e suas distinções são particularmente realçadas. Por exemplo:
Jo 3,33:
Aquele que recebe o seu testemunho confirma que Deus é verdadeiro [ὁ θεὸς ἀληθής ἐστιν] [verdadeiro, fiel]
Jo 5, 31:
Se eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro [ἡ μαρτυρία μου οὐκ ἔστιν ἀληθής] [verdadeiro, digno de aceitação]
Jo 17,3:
'Para que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro e aquele que enviaste, Jesus Cristo' [ἵνα γινώσκωσίν σε τὸν μόνον ἀληθινὸν Θεὸν, καὶ ὃν ἀπέστειλας Ἰησοῦν Χριστόν].
Por que João utiliza aqui o termo ἀληθινός (na verdade, sua flexão gramatical ἀληθινὸν)? Porque quer transmitir o sentido de que está falando do 'único Deus autêntico e verdadeiro, o único que é realmente Deus'.
Para João, ἀληθινός designa aquilo que é: autêntico; perfeito; definitivo; pleno da verdade e, no seu Evangelho, vai reproduzir sempre esse termo quando se refere sobre a verdadeira Luz (Jo 1,9); o verdadeiro Pão (Jo 6,32); a verdadeira Videira (Jo 15,1); o verdadeiro adorador (Jo 4,23); o verdadeiro Deus (Jo 17,3). É um vocabulário tipicamente joanino.
É imprescindível entender as nuances destas palavras gregas em contextos joaninos aparentemente similares. Quando Jesus fala em Jo 6,32: 'Em verdade, em verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu, mas o meu Pai é quem vos dá o verdadeiro pão [ὁ ἄρτος... ὁ ἀληθινός] do céu', está falando do pão único e autêntico pão que é Cristo (realidade definitiva) em contraste com o maná do deserto (mera figura do pão).
Mas, quando Jesus profere as palavras: 'Pois a minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue, verdadeiramente bebida' (Jo 6,55), João não usa nem ἀληθής e nem ἀληθινός, mas uma terceira forma da mesma família - ἀληθῶς - que é um advérbio, significando em verdade; de fato; verdadeiramente. Essa construção coloca a ênfase não na qualidade do alimento, mas na realidade da afirmação: a carne de Cristo é, de fato, alimento, e seu sangue é, de fato, bebida. A Presença Real na Eucaristia não é uma fantasia; é VERDADEIRAMENTE o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo que alimenta as nossas almas na Missa, para nos cobrir de bênçãos e graças e nos abrir desde agora as portas para a eterna felicidade no céu!
