1. Há dois modos de responder a essa pergunta, conforme a
consideremos do ponto de vista de Deus ou do nosso.
Considerando-a do ponto de vista de Deus, a resposta é: 'Deus nos
fez para mostrar a sua bondade'. Posto que Ele é um Ser
infinitamente perfeito, a principal razão pela qual faz alguma coisa
deve ser uma razão infinitamente perfeita. Mas só há uma razão
infinitamente perfeita para se fazer alguma coisa: é fazê-la por
Deus. Por isso, seria indigno de Deus, contrário à sua infinita
perfeição, que Ele fizesse alguma coisa por uma razão inferior a
Si mesmo.
2. A primeira razão, pois – a grande razão pela qual Deus fez o
universo e nos fez a nós - foi a sua própria glória: para mostrar o
seu poder e bondade infinitos. Seu infinito poder mostra-se pelo
fato de existirmos. Sua infinita bondade, pelo fato de Ele nos
querer fazer participar do seu amor e felicidade.
3. Do nosso ponto de vista à
pergunta: 'Para que nos fez Deus?' dizemos que nos fez 'para participarmos da sua eterna felicidade no céu'. As duas
respostas são como que as duas faces da mesma moeda, o anverso
e o reverso: a bondade de Deus nos fez participar da sua felicidade
e a nossa participação na sua felicidade mostra a bondade de Deus.
4. Deus, que é infinitamente bom, não poria nos corações
humanos esta ânsia de felicidade perfeita se não houvesse modo
de satisfazê-la. Deus não tortura com a frustração as almas que
criou. Mas, mesmo que as riquezas materiais ou espirituais desta
vida pudessem satisfazer todos os desejos humanos, permaneceria
a certeza de que um dia a morte nos tirará tudo – e a nossa
felicidade seria incompleta. No céu, pelo contrário, não só
seremos felizes com a máxima capacidade do nosso coração, mas
teremos, além disso, a perfeição final da felicidade, por sabermos
que nada no-la poderá arrebatar.
5. Nunca se ressaltará bastante que a felicidade do céu consiste essencialmente na visão intelectual de Deus – na posse final e completa de Deus, a quem nesta terra desejamos e amamos debilmente e de longe. E se este há de ser o nosso destino - estarmos eternamente unidos a Deus pelo amor - disso se depreende que temos de começar a amá-lo aqui nesta vida.
6. Deus não pode elevar à plenitude o que nem sequer existe. Se não há um princípio de amor de Deus em nosso coração, aqui, na terra, não pode haver a fruição do amor na eternidade. Para isso nos colocou Deus na Terra, para que, amando-o, estabeleçamos os alicerces necessários para a nossa felicidade no céu.
7. Só há uma maneira de provarmos o nosso
amor a Deus: é fazer o que Ele quer que façamos, sendo o tipo de
homem que Ele quer que sejamos. O amor a Deus não está nos sentimentos. Amar a Deus não significa que nosso coração
deva dar saltos de cada vez que pensamos nEle. Algumas pessoas
poderão sentir seu amor a Deus de modo emocional; mas não é
isso o essencial. Porque o amor a Deus reside na vontade. Não é
pelo que sentimos sobre Deus, mas pelo que estamos dispostos a
fazer por Ele, que provamos o nosso amor a Deus.
(Excertos da obra 'A Fé Explicada', de Leo Trese)