sexta-feira, 15 de março de 2019

SOBRE O PERDÃO DOS PECADOS E OS MÉRITOS FUTUROS

Se o Apóstolo diz que a herança vem da fé, para que seja gratuita e para que a promessa fique garantida, muito me admiro que os homens prefiram confiar na sua fraqueza a confiar na firmeza da promessa de Deus. Mas alguém dirá: 'Não estou certo sobre a vontade de Deus ao meu respeito'. O que dizer? Não estás certo nem sequer de tua vontade sobre ti mesmo e não temes o que está escrito: 'Aquele que julga estar em pé, tome cuidado para não cair' (lCr 10,12). Se ambas as vontades são incertas, por que o homem não apóia sua fé, esperança e caridade no mais firme e não no mais fraco?

Replicarão: 'Mas quando se diz: 'Se creres, serás salvo' (Rm 10,9), uma das duas coisas é exigência, a outra é oferecida. O que se exige, depende do homem, o que é oferecido, está no poder de Deus'. Por que não dizer que ambas estão no poder de Deus, o que se exige e o que se oferece? Pois pede-se que conceda o que manda. Os que têm fé rogam para que lhes aumente a fé, rogam pelos que não creem, para que lhes seja concedida a fé. Portanto, tanto em seu crescimento como em seu princípio, a fé é dom de Deus. 

Está escrito: Se creres, serás salvo, do mesmo modo que se diz: Se pelo Espírito mortificardes as obras da carne, vivereis. Nesta passagem, também uma das duas coisas é exigida e a outra é oferecida. Diz o texto: 'Se pelo Espírito mortificardes as obras da carne, vivereis'. Portanto, exige-se a mortificação das obras da carne e nos é oferecida a vida. Acaso parece bem dizer que mortificar as obras da carne não seja dom de Deus e que não confessemos ser dom de Deus porque sabemos ser uma exigência em troca da recompensa oferecida da vida eterna, se as fizermos? Não permita Deus que esta opinião agrade aos que participam da verdadeira doutrina da graça e a defendem. E este um erro condenável dos pelagianos, os quais o Apóstolo faz calar, quando diz: 'Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus' (Rm 8,13-14), o que evita acreditar que a mortificação de nossa carne não seja um dom de Deus, mas capacidade de nosso espírito. 

Ao mesmo Espírito de Deus se referia ao dizer: 'Mas isso tudo é o único e mesmo Espírito que o realiza, distribuindo a cada um os seus dons, conforme lhe apraz' (lCr 12,11). No conteúdo desse 'isso tudo', mencionou também a fé, como sabeis. Portanto, assim como, embora seja de Deus, o mortificar as obras da carne é exigência para a consecução do prêmio da vida eterna prometida, assim também a fé, embora seja condição indispensável para alcançar a recompensa da salvação prometida, quando se diz: 'Se creres, serás salvo'. Por conseguinte, ambas as coisas são preceitos e dons de Deus, para entendermos que as fazemos e Deus faz com que as façamos, como diz claramente pelo profeta Ezequiel. Pois nada mais claro do que a sentença: 'E farei com que as (minhas leis) pratiqueis' (Ez 36,27). Prestai atenção a esta passagem da Escritura e percebereis que Deus promete fazer o que ele manda cumprir. E faz certamente aí menção dos méritos e não dos deméritos daqueles a quem revela retribuir bens por males, pois ele faz com que pratiquem depois boas obras, fazendo com que cumpram os seus mandamentos.

Toda a argumentação, da qual nos servimos para defender que a graça de Deus por Jesus Cristo nosso Senhor é de fato graça, ou seja, não nos é concedida em vista de nossos merecimentos, embora se confirme claramente pelos testemunhos das divinas Escrituras, contudo apresenta dificuldades para aqueles situados na maioridade e em uso da razão. Estes, se não atribuem algo a si mesmos que ofereçam a Deus primeiramente para receber a retribuição, julgam ser limitados em todo o exercício da piedade. Mas quando se trata de crianças e do Mediador de Deus e dos homens, o homem Cristo Jesus (lTm 2,5), é improcedente toda afirmação sobre méritos prévios à graça de Deus. Pois as crianças não se distinguem umas das outras no tocante a méritos prévios para pertencerem ao Libertador dos homens, nem este se tornou libertador dos homens por algum merecimento humano, sendo ele também ser humano.

Portanto, quem terá ouvidos para tolerar a afirmação segundo a qual as crianças deixam esta vida já batizadas na idade infantil em virtude de seus méritos futuros, e as crianças morrem na referida idade sem serem batizadas devido a seus deméritos futuros, quando não há lugar à recompensa ou à condenação por parte de Deus não havendo ainda uma vida de virtudes ou de pecados?  O Apóstolo fixou um limite, o qual — expressando-me mais delicadamente — a temerária conjetura humana não pode ultrapassar. 

Ele diz: 'Todos nós teremos de comparecer manifestamente perante o tribunal de Cristo, a fim de que cada um receba a retribuição do que tiver feito durante a sua vida no corpo, seja para o bem, seja para o mal' (2Cr 5,10). Ele diz: 'ter feito' e não acrescentou: 'ou haveriam de fazer'. Mas ignoro como tais homens puderam pensar em méritos futuros por parte de crianças, méritos que não hão de existir, e que mereçam castigo ou recompensa. E por que está escrito que o homem será julgado por aquilo que praticar pelo corpo, se muitas vezes as ações são feitas só pela alma e não pelo corpo ou qualquer de seus membros, e frequentemente são ações de tamanha importância que apenas em pensamento são dignas de um castigo muito justo, como é, para não mencionar outras, o que o insensato diz em seu coração: 'Não há Deus'? (Sl 13,1). 

O que significa então do que tiver feito durante a sua vida no corpo, senão 'do que tiver feito durante o tempo em que viveu no corpo', de modo que 'no corpo' queria dizer o tempo do corpo? Depois da morte do corpo, ninguém estará no corpo, a não ser pela última ressurreição, não mais para alcançar merecimentos, mas para receber a recompensa pelos merecimentos e penas expiatórias pelos deméritos. No intervalo entre a deposição e a recepção do corpo, as almas ou são atormentadas ou descansam, de acordo com o que fizeram durante a morada no corpo. 

A este tempo da permanência no corpo diz respeito também o que os pelagianos negam, mas a Igreja de Cristo confessa, ou seja, o pecado original. Remido pela graça de Deus este pecado ou não remido por um juízo de Deus, quando morrem as crianças, ou passam dos males para os bens pelo mérito da regeneração ou passam dos males desta vida para os males da outra pelo merecimento de origem. É o que ensina a fé católica e o que alguns hereges aceitam sem nenhuma oposição. Mas que alguém seja julgado não conforme os merecimentos adquiridos durante a vida no corpo, mas de acordo com os merecimentos que teria, se tivesse uma vida longa, tomado de admiração e espanto, não consigo descobrir onde se apóia esta opinião de pessoas que, como vossas cartas revelam, são dotadas de inteligência não comum. 

Não me atreveria a acreditar em tal opinião, se não considerasse ser maior ousadia não acreditar em vossa informação. Mas confio que o Senhor os assistirá para que, admoestados, percebam logo que os chamados futuros pecados, se pelo juízo de Deus podem ser punidos com relação aos não batizados, também podem ser perdoados pela graça de Deus com respeito aos batizados. Pois todo aquele que diz que pelo juízo de Deus somente podem ser punidos os pecados futuros, mas não podem ser perdoados pela misericórdia de Deus, devem considerar a grave ofensa que faz a Deus e à sua graça. Isto supõe que Deus pode ter presciência de um pecado futuro, mas não pode perdoá-lo. Se isto é absurdo, maior ainda será dizer que Deus deveria socorrer pelo batismo, que apaga os pecados, os pecadores futuros, que morrem na infância, se tivessem uma vida longa.

É possível que eles digam que os pecados são perdoados aos que fazem penitência. Portanto, os que morrem em idade infantil sem o batismo não são perdoados porque Deus prevê que, se vivessem, não fariam penitência, ao passo que são perdoados os que deixam esta vida já batizados, porque Deus sabe, em sua presciência, que fariam penitência se vivessem. Que eles considerem e percebam que, se fosse assim, Deus castigaria nos não batizados não apenas o pecado original, mas também seus pecados pessoais, se vivessem, e, com relação aos batizados, ficaria remido não somente o pecado original, mas perdoados também os pecados pessoais futuros, se vivessem. Isso porque não poderiam pecar a não ser quando atingissem a idade da compreensão, mas haveria previsão de que uns fariam penitência e outros, não, e, portanto, de que uns deixariam esta vida batizados e outros sem o batismo. 

Se os pelagianos chegassem a dizer isto, como negam o pecado original, não se empenhariam em buscar para as crianças não sei que lugar de felicidade fora do Reino de Deus, principalmente porque devem ter a convicção de que não podem obter a vida eterna pelo fato de não terem comido a carne e bebido o sangue de Cristo (Jo 6,54). Além disso, carece de validez o batismo conferido aos que não têm nenhum pecado. Diriam talvez que não há pecado original, mas que são batizadas ou não batizadas as crianças que morrem na infância de acordo com seus merecimentos futuros, se vivessem, e, de acordo com os mesmos merecimentos, recebem ou não o corpo e o sangue de Cristo, sem o que não podem obter a vida eterna. 

Além disso, diriam que são batizadas com real remissão dos pecados, embora não tenham pecado algum por herança de Adão, pois são-lhes perdoados os pecados dos quais Deus prevê que fariam penitência. Assim, facilmente levariam avante e provariam sua tese pela qual negam o pecado original e afirmam a concessão da graça de Deus em virtude de nossos merecimentos. Mas como os méritos humanos futuros, que nunca existirão, sem dúvida alguma são nulos, e isto é facílimo perceber, e, por isso, nem mesmo os pelagianos chegaram a dizê-lo, muito menos deviam tê-lo dito esses irmãos nossos. Não é fácil descrever o desagrado que me causa o ver que os pelagianos consideram falsidade e absurdo uma doutrina, enquanto não o consideram esses irmãos, que, pela autoridade católica, condenam conosco o erro dos hereges.

(Excertos da Obra 'Sobre a Justificação dos Santos', de Santo Agostinho)