terça-feira, 27 de setembro de 2016

A MÁ MORTE DOS RICOS DO MUNDO

Além de tudo que já foi dito, eu devo acrescentar uma refutação a certo erro muito prevalente entre os ricos deste mundo, que muito os afasta de uma vida correta e uma boa morte. O erro consiste nisto: o rico supõe que toda riqueza que possui é absolutamente sua propriedade, se justamente adquirida; e, portanto, podem legalmente gastá-la ou desperdiçá-la e ninguém pode lhes dizer: 'Por que você fez isto? Por que se vestir tão ricamente? Por que organizar festas tão suntuosas? Por que gastar tão prodigamente com teus cachorros e falcões? Por que gastar tanto em jogos e outros prazeres semelhante?'. E eles respondem: 'O que é isto para ti? Não é correto eu gastar o meu dinheiro para fazer aquilo que eu desejar?'

Este erro é, sem dúvida, mais grave e pernicioso: considerar que os ricos são mestres das suas propriedades com relação aos demais homens; embora, em relação a Deus, eles não sejam mestres, mas apenas administradores. Esta verdade pode ser provada com muitos argumentos: 'Do Senhor é a terra e o que nela existe, o mundo e seus habitantes' (Sl 24, 1). E ainda: 'Não preciso do novilho do teu estábulo, nem dos cabritos de teus apriscos, pois minhas são todas as feras das matas; há milhares de animais nos meus montes. Conheço todos os pássaros do céu, e tudo o que se move nos campos. Se tivesse fome, não precisava dizer-te, porque minha é a terra e tudo o que ela contém' (Sl 50, 9-12).

E no primeiro livro de Crônicas, quando Davi ofereceu para a construção do templo três mil moedas de ouro e sete mil moedas de prata e mármore em grande abundância; e quando movidos pelo exemplo do Rei, os príncipes das tribos ofereceram cinco mil moedas de ouro, dez mil moedas de prata, dezoito mil de bronze e cem mil de ferro, então Davi disse ao Senhor: 'A vós, Senhor, a grandeza, o poder, a honra, a majestade e a glória, porque tudo que está no céu e na terra vos pertence. A vós, Senhor, a realeza, porque sois soberanamente elevado acima de todas as coisas. É de vós que vêm a riqueza e a glória, sois vós o Senhor de todas as coisas; é em vossa mão que residem a força e o poder. E é vossa mão que tem o poder de dar a todas as coisas grandeza e solidez. Agora, ó nosso Deus, nós vos louvamos e celebramos vosso nome glorioso. Quem sou eu, e quem é meu povo, para que possamos fazer-vos voluntariamente estas oferendas? Tudo vem de vós e não oferecemos senão o que temos recebido de vossa mão' (1Cr 29, 11-14).O testemunho de Deus pode ser acrescentado através das palavras do profeta Ageu: 'A prata e o ouro me pertencem - oráculo do Senhor dos exércitos' (Ag 2,8). Assim falou o Senhor, para que o povo compreendesse que nada seria necessário caso o Senhor ordenasse sua construção, pois a Ele pertencem todo ouro e prata deste mundo.

Devo acrescentar dois outros testemunhos das palavras de Cristo, no Novo Testamento: Havia um homem rico que tinha um administrador. Este lhe foi denunciado de ter dissipado os seus bens. Ele chamou o administrador e lhe disse: 'Que é que ouço dizer de ti? Presta contas da tua administração, pois já não poderás administrar meus bens' (Lc 16, 1-2). O 'homem rico' aqui significa Deus, como dissemos a pouco, pois como diz o profeta Ageu, dele é o ouro e a prata. Por 'administrador'entenda-se os homens ricos, como explicam os santos padres Agostinho, Ambrósio e o Venerável Beda sobre esta passagem.

Se o Evangelho, então, deve ser acreditado, todo homem rico deste mundo deve reconhecer que suas riquezas, justa ou injustamente adquiridas, não são suas: se ele as adquiriu corretamente, ele é apenas o administrador; se injustamente, ele não é nada além de um ladrão. E desde que o homem rico não é mestre de suas riquezas, por consequência, quando acusado de uma injustiça frente a Deus, Deus pode retirá-las através da morte ou tomando-as, pois assim esta indicado nestas palavras: 'Presta contas da tua administração, pois já não poderás administrar meus bens'. Para Deus sempre haverá meios de reduzir um rico à pobreza, retirando os bens de sua custódia. Naufrágios, roubos, tempestades de granizo, pragas, muita chuva, seca e outras aflições são as muitas vozes de Deus dizendo ao rico: 'já não poderás administrar meus bens'.

Mas, então, ao final da parábola, nosso Senhor diz: 'fazei amigos com a riqueza injusta, para que, no dia em que ela vos faltar, eles vos recebam nos tabernáculos eternos' (Lc 16, 9). Ele não quer dizer que as esmolas são dadas a Ele, mas que os ricos não são ricos, propriamente falando, mas somente sombras Dele. Isto é evidente em outra passagem do Evangelho de São Lucas: 'Se, pois, não tiverdes sido fiéis nas riquezas injustas, quem vos confiará as verdadeiras?' (Lc 16, 11).O significado destas palavras é: se nas injustas riquezas ou seja, nas falsas riquezas, não tiverdes sido fiéis dando tudo liberalmente aos pobres, quem vos confiará as verdadeiras que fazem um homem realmente rico? Esta é a explicação dada por São Cipriano e Santo Agostinho.

Em outra passagem do mesmo evangelho, que pode ser considerada como um comentário sobre o administrador injusto: 'Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho finíssimo, e que todos os dias se banqueteava e se regalava. Havia também um mendigo, por nome Lázaro, todo coberto de chagas, que estava deitado à porta do rico. Ele avidamente desejava matar a fome com as migalhas que caíam da mesa do rico... Até os cães iam lamber-lhe as chagas. Ora, aconteceu morrer o mendigo e ser levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado. estando ele nos tormentos do inferno' (Lc 16, 19-23a). 

Este rico era certamente um daqueles que supõe ser mestre de seu próprio dinheiro e não administrador e, portanto, ele imaginou não estar ofendendo a Deus quando estava vestido de púrpura e linho, e celebrava suntuosamente todos os dias, tinha seus cães e bufões. Talvez tenha dito a si mesmo: eu gasto o meu dinheiro, não ataco ninguém, eu não violo as leis de Deus, eu não blasfemo nem juro em falso, observo os dias santos, honro pai e mãe, não mato, não sou adúltero, não roubo, não dou falso testemunho, não desejo a mulher do próximo, não faço nada disto. Mas, se é este o caso, por que ele foi para o inferno, ser atormentado no fogo? Devemos reconhecer que aqueles enganados, que supõem ser mestres absolutos de seu dinheiro, devem responder por muitos graves pecados, que as Santas Escrituras deveriam mencionar. Mas como nada mais é dito, entendemos que os adornos supérfluos e caros, seus magníficos banquetes, a multidão de servos e cães, enquanto não possuía nenhuma compaixão pelo pobre é causa suficiente para condená-lo aos tormentos eternos.

Portanto, podemos estabelecer uma regra clara para viver e morrer bem, e sempre considerar que iremos prestar contas a Deus de nosso palácios luxuosos, jardins, muitos servos, esplendor nas vestimentas, banquetes, gastos desnecessários, que afetam a multidão de pobres e doentes, que procuram pelos nossos supérfluos, que choram a Deus, e no dia do julgamento não pararão de clamar contra todos os homens ricos, até que sejam condenados às chamas eternas.

(Excertos da obra 'A Arte de Morrer Bem' de São Roberto Belarmino)

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

QUESTÕES SOBRE A NATUREZA DO DEMÔNIO (III)


QUESTÃO 5: Que paralelismo pode ser feito entre a zoologia e a demonologia?

Poderíamos dizer que existe um certo paralelismo entre a zoologia e a demonologia, uma vez que cada ser angélico deve ser completamente distinto de outro, ao extrapolar a sua forma [ou seja, não possuindo matéria, cada anjo deve tomar uma forma - em sentido filosófico - diferente para se distinguir dos demais]. Não obstante, é possível englobá-los em grandes grupos. De outra forma: se imaginarmos que, de cada espécie de mamífero, existisse um único exemplar; um único cervo, um único gamo, um único cavalo, etc. Cada um deles seria distinto dos demais; porém, num contexto zoológico, poderíamos agrupar esses seres únicos em uma espécie - a dos mamíferos - não porque estes seres vivos sejam iguais entre si, mas porque são mais semelhantes entre si em relação aos [seres vivos] pertencentes às espécies dos dos insetos, dos peixes, etc.

Estes mamíferos seriam distintos entre si, mas poderiam ser agrupados por existir uma maior semelhança entre eles do que entre os demais seres vivos. O mesmo acontece com as naturezas angélicas; cada uma é distinta da outra, mas podem ser reunidas em grandes grupos e, neste caso, em nove grupos, conforme a Bíblia: serafins; querubins; tronos; dominações; virtudes; potestades; principados; arcanjos e anjos. Se as diferenças entre os animais são, às vezes, tão grandes, no mundo angélico, estas são ainda maiores, pois a forma está livre das leis biológicas e físicas. Portanto, se é muito grande a diferença entre uma libélula e uma águia, muito maiores são as diferenças entre as naturezas angélicas. Se é enorme a diferença entre uma joaninha e uma baleia azul, indescritivelmente maior é a diferença entre um anjo da nona hierarquia em relação àqueles da primeira.

QUESTÃO 6: Que paralelismo pode ser feito entre a astronomia e a demonologia?

Existe [também] um certo paralelismo entre a astronomia e a demonologia. Um sistema solar é como uma espécie de parábola [que faz uma analogia] do que são Deus, os anjos e os demônios. Deus seria o Astro-Rei, ao redor do qual orbitam todos os demais corpos celestes do sistema solar, pois Ele é o centro que ilumina a todos. O restante de planetas, asteroides e satélites seriam os santos e os anjos. O sistema de rotação dos satélites em torno dos planetas seria como uma imagem da iluminação de uns seres angélicos sobre os outros. Ainda que os satélites girem em torno de um planeta, também giram em torno do Sol. 

Deus é o centro por mais intermediários que possam existir. Assim, os demônios seriam como aqueles corpos que se deixaram afastar da atração do Sol. O Sol os atrai, não os deixa de atrair nunca, não deixa de iluminar e de dar calor. Entretanto, esses corpos se afastaram tanto (livremente) que [agora] vivem nas trevas exteriores, no frio do vácuo e da escuridão. Deus segue atraindo-os, em cada instante, a cada segundo. Mas eles já estão irremediavelmente fora do alcance de sua atração e de sua luz. O Sol não os priva de sua luz; são eles que preferiram desviar-se em direção oposta.

Muitos homens se perguntam onde está a linha divisória entre a condenação eterna e a salvação. Esta parábola astronômica oferece luz sobre o tema, pois tal linha é como o limite [da ação] da força da gravidade.Um [corpo] pode estar já muito afastado, mas se [ainda] está unido à força da gravidade do Sol, está unido a Ele. Por outro lado, se [um corpo] vaga já completamente livre, alheio por completo à ação da gravidade [do Sol], isso constitui a condenação eterna. Se observarmos esta parábola astronômica desde a superfície da Terra, temos de adotar certas variantes (incluir as estrelas, por exemplo) e incluir outras nuances (incluir a Lua, por exemplo). Deus seria o Sol, a Virgem [Santíssima] seria a Lua e os anjos seriam as estrelas.

A diferença entre a luz do Sol e a das estrelas seria uma imagem análoga da diferença entre o ser de Deus e os dos espíritos angélicos. Os anjos seriam como um pálido e débil pontinho de luz em relação à luz ofuscante e irresistível de Deus. A diferença entre a luz das estrelas e da Lua seria a diferença entre [a luz irradiada] pelos anjos e pela Virgem. Aliás, em muitas passagens das Sagradas Escrituras, fica claro que as estrelas, brilhando luminosas no firmamento, são imagens dos espíritos angélicos (como, por exemplo, em Ap 12, 4 e Is 14, 12-15, entre outros).

QUESTÃO 7: Quais são os nomes dos demônios?

Satã: é o mais belo, inteligente e poderoso dos demônios que se rebelaram. É chamado de Satã ou Satanás no Antigo Testamento. A raiz primitiva do nome significa 'atacar', 'acusar', 'ser adversário', 'resistir' e, assim, Satã significaria 'adversário', 'inimigo', 'opositor'.

Diabo: é como Satã é chamado no Novo Testamento. Diabo vem do verbo grego diaballo, 'acusar'. Nós empregamos as palavras diabo e demônio como sinônimos, mas a Bíblia não. A Bíblia sempre utiliza o nome Diabo no singular para referir-se ao mais poderoso de todos os demônios. As Sagradas Escrituras também o chama de 'Acusador', 'o Inimigo', 'o Tentador', 'o Maligno', 'o Homicida desde o princípio', 'o Pai da Mentira', 'Príncipe deste mundo' e 'a Serpente'.

Belzebu: nome utilizado comumente como sinônimo de Diabo; provém de Baal-zebul que significa 'senhor das moscas' (citado em 2 Re 1,2).

Lilith: citado em Is 34,14, é considerado pela tradição judaica um ser demoníaco. Na mitologia mesopotâmica, é representado como um gênio com cabeça e corpo de mulher, mas com asas e extremidades inferiores de pássaro. 

Asmodeu: citado no Livro de Tobias, este nome provém do persa aesma daeva, que significa 'espírito de cólera'.

Seirim: citado em Is 13,21; Lev 17,7 e em Bar 4,35, sendo traduzido como 'os peludos'. O nome deriva do hebraico sa’ir que significa 'peludo' ou “bode'. 

Demônio: do grego daimon que significa 'gênio'; na mitologia greco-romana, não se tratava necessariamente de uma entidade maléfica. No Novo Testamento, porém, é um termo sempre usado para designar seres espirituais malignos.

Belial ou Beliar: da raiz baal, que significa 'senhor'; é citado, por exemplo, em  2 Cor 6, 15.

Apollyon: que significa 'destruidor', citado em Ap 9, 11. Diz-se que o nome hebraico equivalente é Abaddon, que significa 'perdição', 'destruição'.

Lúcifer: é um nome extra-bíblico que significa 'estrela da manhã' ou 'o que leva a luz'. O nome dado a ele por Deus nos dá a conhecer sobre a beleza deste anjo e nos recorda a enorme punição que mereceu. [Por outro lado] nos revela que foi um anjo especialmente privilegiado em sua natureza nos firmamentos angélicos, antes de se rebelar e de se deformar. A imensa maioria dos textos eclesiásticos utiliza o nome de Lúcifer como sinônimo de Diabo. Entretanto, o Pe. Gabriele Amorth considera este o nome próprio do demônio em segundo lugar na hierarquia demoníaca. Compartilho inteiramente da mesma opinião e o que conhecemos dos exorcismos nos confirma que Lúcifer é alguém distinto de Satã.

Como curiosidade, posso dizer que, em um exorcismo, um demônio revelou que os cinco demônios mais poderosos dos infernos seriam, nesta ordem: Satã, Lúcifer, Belzebu, Belial e Meridiano. É verossímil esta hierarquia? Somente Deus o sabe! O que é certo, e o sabemos pelas Sagradas Escrituras e pelos exorcismos, é que cada demônio possui um nome. Um nome dado por Deus que expressa a natureza do seu pecado. Diferentes nomes de demônios revelados por eles em exorcismos são: Perversão, Morte, Porta, Morada, etc. Outros, entretanto, revelam nomes que não sabemos o que significam: ElisedeiQuobad, JansenEishelij, etc. 

Em alguns livros de magia e bruxaria, encontram-se extensas listas de nomes [de demônios]. Estas listas enormes são tão enfadonhas quanto inventadas.  Não têm outro valor que não o da imaginação [fértil] de seus autores. Pois alguns oferecem não apenas as listas de nomes, mas inclusive o número de demônios que povoam o inferno. Essas descrições detalhadas das legiões infernais são essencialmente inventadas. Avançar além dos parcos dados [disponíveis] nas Sagradas Escrituras supõe adentrar no mundo da literatura [fantástica], abandonando o terreno firme da Palavra de Deus.

A Teologia pode nos dizer muitas coisas relativas aos demônios, mas sempre num contexto geral, trabalhando com conceitos. Ao trabalhar na essência [do tema], nada pode dizer sobre um dado demônio concretamente.  O autor de uma certa lista de demônios (tão exaustiva quanto inventada) afirma acerca de um deles, chamado Xaphan, que ele teria sugerido a Satã atear fogo no Céu, mas que teriam sido lançados no inferno antes de cometer o ato hediondo. Diz [ainda] que este demônio está encarregado eternamente de manter acesas as chamas do inferno. É desnecessário dizer que aconselho a este inventor de mitos que leia este livro, onde descobrirá que não há como atear fogo ao Céu, nem maneira de manter acesas as chamas do inferno.

(Excertos da obra 'Summa Daemoniaca', do Pe. Jose Antonio Fortea, tradução do autor do blog)

domingo, 25 de setembro de 2016

O HOMEM RICO E O POBRE LÁZARO

Páginas do Evangelho - Vigésimo Sexto Domingo do Tempo Comum 


Na parábola de Jesus no evangelho deste domingo, confrontam-se os valores da riqueza e da pobreza, presentes no corpo e nos sentidos dos liames humanos, fontes diversas que forjam o abismo incomensurável dos destinos eternos da alma. De um lado, o homem rico, avarento e enfastiado pela opulência dos bens materiais; de outro, o mendigo,  na pobreza de sua indigência completa, que almejava apenas 'matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico' (Lc 16, 21). Duas pessoas tão próximas, tão juntas, como as bordas adjacentes de um abismo profundo moldado pelo paroxismo da indiferença humana.

E este abismo tende a se tornar definitivamente intransponível para ambos ao final de suas vidas mortais. Se há um momento em que todos os homens se tornam absolutamente iguais é a hora da morte. Se há um momento em que os homens se tornam absolutamente desiguais é no momento após a morte. Eis a grande lição do evangelho deste domingo: o céu e o inferno são realidades dogmáticas da fé cristã e o pecado mortal impõe ao condenado a definitiva separação de Deus e sua danação eterna no abismo dos abismos: 'há um grande abismo entre nós; por mais que alguém desejasse, não poderia passar daqui para junto de vós, e nem os daí poderiam atravessar até nós’ (Lc 16, 25).

Ricos e pobres, todos nós seremos julgados não pela medida do muito ou pouco que fizemos nesta vida, mas pela medida com que fizemos bem aquilo que era da santa vontade de Deus. Ao morrer impenitente, o rico passa a viver a miséria da sua perdição; o pobre, que era apenas um nome neste mundo, torna-se o Lázaro na côrte eterna de Abraão. E, em contraposição à mendicância e às súplicas nunca ouvidas às suas portas, o rico irá suplicar três vezes pela clemência de Lázaro em seu favor e ao de seus irmãos: 'manda Lázaro molhar a ponta dos dedos... manda Lázaro à casa do meu pai ... se um dos mortos for até eles...' (Lc 16, 24, 27, 30).

A resposta de Abraão não estabelece concessão alguma: 'Se não escutam a Moisés, nem aos Profetas, eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos' (Lc 16, 31). É uma sentença definitiva sob o primado da verdade eterna. Com efeito, Jesus ressuscitou, mas quantos O escutam? Escutar Moisés e os Profetas é ouvir a Palavra de Deus, seguir Jesus pelas passagens do Evangelho, combater o bom combate da fé, carregar a cruz de todos os dias com Cristo, por Cristo e em Cristo para que um dia, transposta a morte que nos torna homens todos iguais, sejamos os Lázaros da vida eterna.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

VIDA DE ORAÇÃO (II)

Orar, orar tanto quanto possível, faz também parte da perseverança na oração. Urge orar muito, porquanto de tudo carecemos, e é dever nosso interceder também por tantos outros. Pedir unicamente para si, e só advogar seus mesquinhos interesses, não é preencher sua missão na Terra; é desconhecer o poder e a eficácia da oração. Nossa oração deve ser a de um filho de Deus, isto é, estender-se a todas as necessidades da Igreja e da humanidade inteira.

A cada momento, quantas graves e importantes questões, das quais dependem em grande parte a salvação das almas e a glória divina, estão perante o tribunal de Deus à espera das respectivas soluções! Incluir em nossas preces os interesses do mundo, apresentá-los ao Senhor, recomendando-os a Ele, é isto orar de modo apostólico, católico, divino, e ao mesmo tempo humano. Assim o fez o Salvador, e é o que nos ensina na oração dominical. Se, por acaso, acontecer que não tenhamos intenção precisa ou particular, percorramos em espírito as diferentes regiões da Terra, a fim de confiar à proteção divina os interesses que nelas se debatem; todos reclamam o auxílio de nossas preces.

Do mesmo modo como aprendemos a andar, a ler e a escrever - andando, lendo e escrevendo - assim também aprendemos a orar bem exercitando-nos na prática da oração. Se esta nos parece enfadonha e insípida, é porque não recorremos a ela com assiduidade. No entanto, quanto importa o gosto da prece, a facilidade de orar! Se prezarmos a oração, seremos engenhosos em achar tempo para o exercício dela, pois encontramos sempre ocasião propícia para aquilo que nos apraz. 

[...]

As palavras são imagens e símbolos. Postas em vibração pela vara mágica da memória, elas nos descortinam magníficas perspectivas no reino da verdade e fazem brotar mananciais da mais suave consolação. O Espírito Santo compôs para nosso uso, no livro dos Salmos, as mais belas orações vocais que se conhecem, e o Salvador levou a condescendência a ponto de nos dar uma fórmula precisa desse gênero de prece. Na celebração de seu culto oficial, a Igreja só emprega orações vocais que, por via de regra, são muito breves. A maior parte da humanidade só conhece esse modo de orar, e nele encontra a salvação eterna. É, pois, essa forma de oração a estrada real que conduz ao Céu, a escada de ouro por onde sobem e descem os anjos, levando a Deus as mensagens da Terra e trazendo aos homens as graças divinas. Enfim, graças à oração vocal, a prece da Cristandade em todo o mundo é simultaneamente particular e comum.

[...]

Há um grande número de orações que constituem excelentes modelos, dignos de todo acatamento, não somente pelo valor intrínseco, mas ainda em razão do seu autor, que é ou o Espírito Santo ou a Igreja. Os Salmos são as mais antigas orações de que temos notícia. Inspirados por Deus, e destinados na maior parte ao culto do Antigo Testamento, nem por isso deixam de pertencer à Igreja, pela estreita conexão que têm com o Messias. São eles uma prece essencialmente nossa, porquanto só no Tabernáculo Eucarístico encontram seu significado próprio e sua completa realização. O objeto desses cantares são Deus e o homem, as relações que entre eles existem por meio da Revelação e da Lei, assim como as bênçãos, esperanças, recompensas e castigos que delas dimanam... Todas as comoções e sentimentos que fazem pulsar o coração humano acham eco nesses admiráveis cânticos. 

[...]

A Oração Dominical goza do particular privilégio de ser composta por palavras saídas dos lábios do Divino Salvador. Recitando-as, podemos dizer em toda a realidade: vivemos e oramos mediante o Filho de Deus. Aquele a quem dirigimos nossas súplicas houve por bem ensinar-nos pessoalmente o modo de formulá-las. Ainda que prescindisse dessa prerrogativa, a Oração Dominical não deixa de ser, por si mesma, a prece por excelência. É explícita, breve, completa. Neste último ponto de vista, ela possui a essência do que constitui a prece: a invocação e a súplica. O título de 'nosso Pai', que damos a Deus, implica tanto a honra do mesmo Deus como a utilidade nossa, porquanto traz à memória as relações que a Ele nos unem como a um pai; inspira-nos os mais reconfortantes sentimentos de respeito, amor e confiança; mostra-nos no gênero humano, a que pertencemos, a grande família do Pai celeste. 

As súplicas contêm tudo o que razoável e oportunamente poderíamos solicitar, e a ordem em que estão dispostas é a mais adequada. Referem-se ao fim a que devemos tender ou aos meios de alcançá-lo. O fim é duplo: consiste na glorificação de Deus e em nossa salvação pela posse do Céu. Os dois primeiros pedidos relacionam-se com esse intuito. Dispostos em duas séries, acham-se depois concatenados os meios de obtermos o nosso fim. Na primeira, solicitamos os bens necessários à alma ou à vida material — terceiro e quarto pedidos; na segunda, imploramos a preservação dos males que possam ameaçar ou impossibilitar a realização de nossos desígnios — os três últimos. Nossa ambição não poderia ir mais longe, nem almejar coisa melhor. Tudo se acha sumariado nessa prece divina. 

[...]

Outra excelente maneira de orar é o uso das jaculatórias. No que concerne à oração, é isto uma indústria pessoal. Consistem as jaculatórias em aspirações ou atos de virtude muito breves, os quais, no decurso do dia, segundo as circunstâncias e sem preparação especial, desprendem-se de nosso coração e se elevam a Deus. Tudo pode dar ocasião a esses impulsos da alma: o sofrimento ou o prazer; uma graça obtida ou uma tentação que nos assalte; o desejo de renovar nossos bons propósitos ou a lembrança do que constitui o ponto do exame particular; uma igreja ou a imagem de um santo; ou ainda a presença de tal pessoa a quem desejamos qualquer bem ou queremos preservar de algum mal; finalmente, o cuidado de aproveitar os instantes de lazer, assaz numerosos se neles atentarmos. 

(Excertos da obra 'A vida Espiritual - Reduzida a Três Princípios' do Pe. Maurício Meschler)

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

FOTO DA SEMANA

'Tende piedade de nós, ó Deus de todas as coisas, olhai para nós, e fazei-nos ver a luz de vossa misericórdia!' (Ecl 36, 1)

terça-feira, 20 de setembro de 2016

DA EXPLICAÇÃO DO MAGNIFICAT (III)


Porque olhou para sua humilde serva

Porque olhou para sua humilde serva (em latim, quia respexit humilitatem ancillae suae): qual é essa humildade de que fala a Bem-aventurada Virgem? A esse respeito, não são unânimes os pensamentos dos santos Doutores. Dizem alguns que, entre todas as virtudes, a humildade é a única que não se contempla e não se conhece a si mesma; pois o que se julga humilde é soberbo. Razão pela qual, ao dizer que Deus olhou a sua humildade, a Bem-aventurada Virgem não se refere à virtude da humildade, mas à sua baixeza e abjeção.

'Há duas espécies de humildade' - diz São Bernardo - ' a primeira é a filha da verdade, é fria e sem calor. A segunda é a filha da caridade, e nos abrasa. A primeira consiste no conhecimento, e a segunda na afeição. Pela primeira, conhecemos que nada somos, e este conhecimento, tomamo-lo de nós mesmos e de nossa própria miséria e enfermidade. Pela segunda, calcamos aos pés a glória do mundo, e aprendemo-la daquele que se aniquilou a si mesmo, e que fugiu quando O procuraram para elevá-lO à glória da realeza; e que, em vez de fugir, ofereceu-Se voluntariamente quando O procuraram para crucificá-lo e mergulhá-lo em um abismo de opróbrios e ignomínias'.

Se perguntardes porque Deus considerou antes a humildade da Santíssima Virgem que a sua pureza e suas outras virtudes, se todas nela se achavam em grau elevadíssimo, responder-vos-á São Alberto Magno, com Santo Agostinho, que considerou antes a sua humildade, porque lhe era mais agradável que sua pureza.

'A virgindade é muito louvável' - diz São Bernardo - 'mas a humildade é necessária. Aquela é de conselho, esta, de mandamento. Podeis ser salvo sem a virgindade, mas sem humildade não há salvação. Sem a humildade de Maria, ouso dizer que não teria sido agradável a Deus a sua virgindade. Se Maria não fora humilde, o Espírito Santo não teria descido a ela; e se não houvera descido a ela, ela não seria Mãe de Deus. Ela agradou a Deus pela virgindade, mas concebeu o Filho de Deus pela humildade. Donde é necessário concluir que foi a humildade que tornou a sua virgindade agradável à divina Majestade'.

Quem não possui humildade, nada possui; e quem possui humildade, possui todas as outras virtudes. Daí, resulta parecer, segundo as palavras do Espírito Santo, pela boca da Igreja, que o Pai eterno só enviou seu Filho a este mundo, para encarnar-se e ser crucificado, a fim de ensinar-nos a humildade com o seu exemplo. 'O que o demônio destruiu pela soberba' - diz um santo Padre - 'o Salvador restabeleceu pela humildade'.

(Da Explicação do Magnificat, de São João Eudes)

domingo, 18 de setembro de 2016

O ADMINISTRADOR FIEL

Páginas do Evangelho - Vigésimo Quinto Domingo do Tempo Comum 


Eis a parábola que fala da necessidade imperiosa dos Filhos de Deus viverem a sábia prudência que nasce e se alimenta da verdadeira fidelidade. A prudência dissociada da fidelidade é vanglória humana; a santidade pressupõe a adoção conjunta e harmônica destas duas virtudes, na convivência diária e nas relações humanas, no exercício das atividades do mundo, na utilização criteriosa dos recursos materiais à nossa disposição - inclusive o dinheiro, com foco único e centrado na salvação eterna de nossas almas.

Qual o uso que se dá ao que nos foi dado por Deus? O fruto de nossa herança eterna é a forma com que lidamos com os bens materiais e espirituais que a Divina Providência semeou no campo fértil da sua vinha: saúde, bens, poderes, riquezas, talentos, habilidades - tudo nos é dado como dotes mutáveis e transitórios para serem compartilhados com o próximo e produzir frutos perenes de vida eterna em terras alheias. Por que, tal como no caso do administrador infiel da parábola do Evangelho deste domingo, todos seremos igualmente cobrados pelo Senhor da Vinha: 'Presta contas da tua administração, pois já não podes mais administrar meus bens’ (Lc 16, 2).

No Julgamento Particular de cada um de nós, já não haverá mais tempo para se administrar o bem que não se fez, a partilha não realizada, a herança não distribuída. Assim, Jesus nos alerta sobre a nossa condição de administradores temporários de bens e graças nesta vida, dos quais teremos de prestar conta de tudo. E cita o exemplo da esperteza do administrador infiel, que usou da sagacidade e de uma falsa e interesseira prudência para obter vantagens e benesses para a sua subsistência futura, porque, 'os filhos deste mundo são mais espertos em seus negócios do que os filhos da luz' (Lc 16, 8).

Com sábia prudência, os filhos da luz deveriam agir como administradores fieis dos bens e riquezas do mundo, coisas boas em si, desde que adquiridas com trabalho honesto e tratadas como meios para glória de Deus e não como fins para ganância e soberba dos homens: 'Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou odiará um e amará o outro, ou se apegará a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro' (Lc 16, 13). Eis aí a nossa herança como administradores bons e fieis: a eterna recompensa nas moradas eternas do Senhor da Vida.