De acordo com as palavras de São Paulo, 'haverá apostasia e o homem da iniquidade será revelado'. Em outras palavras, o Homem da Iniquidade nasce de uma apostasia ou pelo menos chega ao poder por meio de uma apostasia, ou é precedido por uma apostasia. Ou seja, ele não existiria se não fosse por uma apostasia. É isso que diz o texto inspirado; agora, observemos, como se pode ver na história, como o curso da Providência nos permite interpretar essa predição.
...Não há razões para temer que tal apostasia esteja sendo gradualmente preparada, se acumulando e amadurecendo em nossos dias? Não existe, neste exato momento, um esforço específico em quase todas as partes do mundo para se viver sem religião, mais ou menos evidente aqui e ali, mas mais visível e sedimenatdo nas regiões mais civilizadas e poderosas? Não há um consenso recente de que um estado não tem nada a ver com religião, que esta diz respeito apenas à consciência individual? O que equivale a dizer que podemos deixar a Verdade desaparecer da face da Terra sem fazer nada para impedi-la. Não existe um movimento vigoroso e unificado em todos os países com o objetivo de privar a Igreja de Cristo de seu poder e posição? Não existe um esforço febril e persistente para se livrar da necessidade da religião nos assuntos públicos?
Por exemplo, a tentativa de abolir os juramentos sob o pretexto de serem demasiado sagrados para os assuntos do dia a dia, em vez de garantir que sejam proferidos de forma mais reverente e apropriada. Não haveria uma tentativa de educar sem religião, isto é, colocando todas as formas de religião no mesmo nível? Não haveria uma tentativa de reforçar a temperança e todas as virtudes que dela decorrem, sem religião, por meio de sociedades baseadas em meros princípios de utilidade? De fazer da conveniência, e não da verdade, o fim e o padrão das decisões do Estado e da constituição das leis; de fazer dos números, e não da Verdade, o critério para defender ou rejeitar este ou aquele artigo de fé, como se as Escrituras fornecessem uma base para sustentar que muitos estão certos e poucos estão errados?
De privar a Bíblia do seu significado primordial, para nos fazer pensar que ela tem cem significados, todos igualmente verdadeiros ou, por outras palavras, que ela não tem significado algum, que é letra morta e que pode ser desconsiderada? Substituir a religião como um todo, na medida em que é externa e objetiva, expressa em leis e palavras escritas, por algo meramente subjetivo, confinando-a aos nossos sentimentos internos e, assim, dada a sua instabilidade e variabilidade, destruindo, em última instância, a religião?
(Excertos de "Quatro Sermões sobre o Anticristo', proferidos pelo Cardeal John H. Newman em 1873!)
