quarta-feira, 16 de setembro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXVIII)

    

PARTE IV - O CÉU

II. Sobre as alegrias do Céu

Agora que meditamos sobre a Jerusalém celeste, a cidade de Deus, passaremos a considerar a felicidade de que gozam os santos que nela habitam, tanto no que diz respeito ao corpo quanto à alma. É verdade que, por enquanto, como regra geral, eles ainda não possuem seus corpos; mas, no Último Dia, todos os receberão novamente, e esses corpos serão então tão belos que nada neste mundo poderá comparar-se a eles. Isso se deverá principalmente ao fato de que cada membro será dotado de quatro qualidades ou atributos, a saber: beleza, impassibilidade, agilidade e sutileza. Em razão de sua beleza ou glória, o corpo de cada um dos eleitos resplandecerá como uma estrela; contudo, assim como uma estrela difere de outra em glória, também os santos brilharão com maior ou menor esplendor, conforme suas vidas na terra tenham sido mais ou menos santas.

Nesses corpos glorificados e radiantes, os bem-aventurados serão de uma beleza tão inexprimível que, se um homem mortal pudesse agora contemplar um desses seres resplandecentes, ficaria deslumbrado por seu fulgor e estaria prestes a morrer de alegria. Em suas revelações a Santa Brígida, a Santíssima Mãe de Deus disse certa vez: 'Os santos estão ao redor de meu Filho como incontáveis estrelas, cuja glória não pode ser comparada a nenhuma luz temporal. Acredita-me: se os santos pudessem ser vistos resplandecendo com a glória que agora possuem, nenhum olho humano poderia suportar sua luz; todos desviariam o olhar, deslumbrados e cegos'. Pensa que felicidade será para ti quando teu corpo resplandecer como o sol ao meio-dia. Tudo o que vive e se move alegra-se com a luz e o calor do sol: ele enche de alegria toda a face da natureza. Do mesmo modo, teu corpo será motivo de alegria e deleite para ti mesmo e para todos os que estiverem ao teu redor no Céu, por causa de sua beleza e de sua glória.

O segundo atributo é a impassibilidade, pois o corpo glorificado é incapaz de sofrer. Jamais estará doente ou enfermo; não envelhecerá nem perderá sua beleza. Nunca mais será afligido pela fome ou pela sede, pelo calor ou pelo frio, pelas correntes de ar ou pela umidade. Nunca mais poderá ser queimado pelo fogo, afogado na água, ferido pela espada ou esmagado sob algum peso; será imortal, imutável, eternamente dotado de perfeita saúde e de força que jamais desfalece. Se alguém na terra pudesse adquirir esse dom da impassibilidade, com que alegria daria tudo o que possui para obtê-lo!

O terceiro atributo é a agilidade. O corpo glorificado será capaz de percorrer as maiores distâncias com a velocidade do pensamento. Num só instante poderá descer do Céu à terra; num só instante poderá passar de uma extremidade dos Céus à outra, sem esforço, sem fadiga, sem dificuldade. Muitas vezes desejamos poder voar como os pássaros, avançar velozmente como as nuvens sobre as asas do vento, acompanhar o pensamento em seu rápido voo. Se fosse possível adquirir tal poder, todos abririam mão de todas as suas riquezas terrenas para possuí-lo, ainda que apenas por um único ano. Como é, então, que te esforças tão pouco para assegurar para ti a posse desse dom por toda a eternidade?

O quarto atributo do corpo glorificado é a sutileza, que consiste na faculdade de penetrar toda matéria, entrando e saindo por onde quer que deseje. Nenhuma parede é tão espessa, nenhum portão de ferro tão maciço, nenhuma montanha tão grande que possa constituir obstáculo para o corpo glorificado. Assim como os raios do sol atravessam o vidro, também os corpos dos redimidos, tal como se encontram no Céu, atravessam toda matéria, por mais densa e sólida que seja. Eles também podem tornar-se visíveis ou invisíveis à vontade. O que não darias para possuir semelhante faculdade?

Quão grande é a Vossa generosidade, Deus onipotente, para com os vossos eleitos! Vós lhes concedeis dons preciosos e sublimes, que nenhuma quantidade de riquezas deste mundo poderia comprar. Quem não passaria de bom grado a vida ao vosso serviço e não suportaria as aflições deste mundo, a fim de possuir por toda a eternidade esses dons inestimáveis? Pergunta a este pobre e frágil corpo se ele não desejaria ardentemente resplandecer como a luz, estar livre de todo sofrimento, mover-se com a velocidade do pensamento e ser tão livre de impedimentos quanto um espírito. Possuir semelhantes poderes seria, de fato, uma alegria e uma consolação inexprimíveis.

Não consentirias em que te fosse imposta uma dura penitência durante um ano inteiro, se ao fim dele esses atributos te fossem concedidos? Se assim é, não consideres um fardo levar aqui embaixo uma vida de penitência, na esperança de que esses belos dons sejam teus por toda a eternidade. Cuida para que, aqui na terra, ames a luz - a luz das boas obras; suporta com paciência toda dor e tribulação; sê pronto e zeloso no serviço de Deus; mortifica cada vez mais em ti todos os desejos sensuais, e certamente serás, na vida futura, o feliz possuidor desses quatro atributos do corpo glorificado.

Voltemos agora nossa atenção para o prazer e a satisfação que os bem-aventurados experimentarão por meio dos cinco sentidos; e, antes de tudo, consideremos que satisfação encontrarão por meio da visão. A faculdade da visão será tão perfeita que nada poderá ocultar-se aos seus olhos. Verão aquilo que está distante com a mesma nitidez com que veem o que está próximo; o menor objeto tão claramente quanto o maior; as trevas lhes serão tão claras quanto a luz. Sua visão será tão límpida que poderão contemplar o sol sem desviar os olhos, ainda que sua luz fosse cem vezes mais deslumbrante. Sua vista será tão penetrante que nenhum obstáculo poderá impedi-la. 

Pensa agora no deleite que aguarda o teu sentido da visão, quando teus olhos contemplarem pela primeira vez as glórias do Céu. Em primeiro lugar, contemplarão a própria cidade, com seus palácios e moradas, cujo esplendor e majestade são tão grandes que a contemplação dessas magníficas construções proporcionaria agradável ocupação por toda uma eternidade. Em segundo lugar, contemplarás com deleite as belas flores, as árvores, os jardins e todas as outras maravilhas que atrairão o olhar no Céu. Em terceiro lugar, será para ti um prazer inexprimível contemplar a ti mesmo e a todos os outros santos revestidos de beleza, glória, esplendor, graça e majestade, ultrapassando em muito tudo quanto se pode ver neste mundo.

Em quarto lugar, verás a incomparável beleza dos Anjos, pois acredita-se que esses espíritos celestes assumirão corpos de extraordinária formosura, formados do ar, a fim de se tornarem visíveis aos bem-aventurados. Essa opinião é sustentada por Santo Anselmo. E se a beleza de um Anjo excede incomensuravelmente toda a beleza humana, não te alegrarás em contemplar, por toda a eternidade, tantos milhares de seres angélicos, todos de beleza incomparável? Em quinto lugar, sobre nada repousarão teus olhos com tão intenso deleite quanto sobre a inexprimível beleza de Jesus e Maria, cujos corpos glorificados são tão irresistivelmente encantadores, atraentes, belos e majestosos que, se fosse permitido aos condenados contemplá-los, já não considerariam o Inferno insuportável.

Considera agora que fonte inesgotável de deleite será estar contínua e eternamente cercado por visões tão encantadoras e tão sublimes. Nossa inclinação natural leva-nos, aqui embaixo, a empreender longas viagens para contemplar alguma bela paisagem, a despender grandes somas para adquirir algum objeto belo e até mesmo a colocar em perigo nossas almas na busca ardente daquilo que é belo. Se o amor pela beleza está tão profundamente enraizado em nossa natureza, como é estranho que não ansiemos pela beleza do Céu! Por que não fechamos nossos olhos às atrações da terra, para que sejamos considerados dignos de abri-los diante dos esplendores do Céu? 

Da visão, passemos agora à audição. Seria imprudente tentar descrever o prazer que os ouvidos experimentarão ao escutar os cânticos dos Anjos e a suave música de suas harpas. Os nove coros dos Anjos cantarão os louvores de Deus, e os bem-aventurados unir-se-ão a eles não apenas de coração, mas também mesclarão suas vozes nessa doce harmonia. Assim, as faculdades tanto da alma quanto do corpo serão exercitadas, e os louvores de Deus se elevarão em melodiosos hinos e cânticos celestes.

Pois, se nós, mortais, somos impelidos pelo amor fervoroso e pela alegria do coração a elevar nossa voz em cânticos, quanto mais assim farão os santos Anjos e os bem-aventurados santos, todos abrasados pelo amor de Deus e repletos de uma alegria inexprimível! Seus hinos de louvor ressoarão incessantemente pelas moradas do Céu. Em espírito profético, o velho Tobias diz: 'As portas de Jerusalém serão construídas de safira e esmeralda, e todos os seus muros ao redor serão feitos de pedras preciosas; todas as suas ruas serão pavimentadas com pedras brancas e puras, e em suas ruas cantar-se-á: Aleluia' (Tb 13,21-22).

Essas palavras parecem indicar que os redimidos caminharão livremente uns com os outros pela Jerusalém celeste, unindo suas vozes em jubilosos aleluias. Em maravilhosa harmonia, os Anjos e os Santos louvarão e glorificarão o seu Deus. Que felicidade para eles, ó meu Deus! Que doçura, que alegria! Se os cânticos suaves nos alegram aqui e despertam sentimentos elevados em nosso coração, os cânticos dos Anjos e dos Santos certamente nos causarão arrebatamento e deleite quando tivermos a felicidade de ser admitidos em sua bem-aventurada companhia.

Meu Deus e meu tudo! Quão grande é a abundância dos favores que preparastes para aqueles que vos amam! Meu coração tem sede da torrente das alegrias celestes. Verdadeiramente bem-aventurados são aqueles que habitam em vossa casa, ó Senhor; eles vos louvarão pelos séculos dos séculos. Os santos exultarão e se alegrarão nessa glória, e os altos louvores de Deus estarão em seus lábios. Quem me dera que já agora me fosse concedido unir-me a esses cidadãos do Céu e, juntamente com eles, exaltar para sempre o vosso nome! Quando chegará a hora, aquela feliz hora em que me será concedido contemplar a majestade da vossa morada? Até que ela chegue, suportarei com paciência todos os sofrimentos e tribulações deste mundo e tornarei mais luminosa minha jornada por este vale de lágrimas cantando os vossos louvores; bendirei o Senhor em todo o tempo, o seu louvor estará sempre em minha boca. Engrandecei comigo o Senhor, ó Anjos e Santos; exaltemos para sempre o seu nome.

Do sentido da audição passemos agora ao olfato. Os deliciosos aromas do Paraíso ultrapassam tudo quanto o homem possa imaginar. Os mais belos lírios, rosas, violetas, cravos e outras flores raras e encantadoras crescem nos jardins do Paraíso celeste, e sua fragrância é tão deleitável que, se um homem possuísse apenas uma pétala de uma dessas flores, ficaria como que arrebatado pela suavidade de seu perfume. 'Israel [isto é, a multidão dos redimidos] florescerá como o lírio, e seu perfume será como o do Líbano' (Os 14,6).

A experiência tem mostrado abundantemente que os corpos dos santos, mesmo enquanto repousam em seus túmulos, já exalam suave fragrância; quão mais intensa será essa fragrância quando forem novamente chamados à vida e glorificados! Acima de todos, os corpos de Cristo e de sua Santíssima Mãe exalarão perfume tão suave que todo o Céu será por ele impregnado. Quão amáveis são os vossos tabernáculos, ó Senhor, onde seremos revigorados pelos aromas fragrantes que nos envolverão! Pois, se os suaves perfumes nos confortam e reanimam aqui embaixo, certamente os aromas do Paraíso darão força e refrigério aos bem-aventurados.

Até mesmo o sentido do paladar será satisfeito no Céu; não, é verdade, pelo consumo de alimentos comuns, mas de uma maneira que ainda não somos capazes de conceber. Os bem-aventurados saborearão um doce alimento que os saciará, como aprendemos pelas palavras do Salmista real: 'Eles se inebriarão com a abundância da vossa casa, e Vós os fareis beber da torrente de vossas delícias' (Sl 35,9). 

O sentido do tato terá igualmente o seu prazer particular. Quanto mais alguém se tiver mortificado aqui na terra, maior será o bem-estar de seu corpo na vida futura. Santo Anselmo diz: 'Na vida futura, os santos experimentarão uma sensação de conforto e bem-estar inexprimíveis. Essa agradável sensação penetrará todos os membros, produzindo um maravilhoso sentimento de paz e contentamento'. Com efeito, o que poderia faltar ao corpo glorificado no Céu? Ele gozará de saúde perpétua, repouso perpétuo e felicidade perpétua, de tal maneira que, na superabundância de alegria e satisfação, mal poderá compreender quão invejável é a sua condição.

Finalmente, os redimidos encontrarão imenso prazer em contemplar uns aos outros, em conversar entre si, no convívio afetuoso e na amizade recíproca. Pensa que bela visão será contemplar centenas de milhares de seres em todo o esplendor de seu estado glorificado. Se na terra consideramos agradável contemplar um belo rosto, podemos compreender, ainda que apenas em pequena medida, como será no Céu, onde o mais humilde de seus habitantes possuirá uma beleza que ultrapassa em muito os encantos pessoais de qualquer homem mortal.

Além disso, os redimidos estarão unidos entre si pelo vínculo da caridade mútua, pois amar-se-ão uns aos outros mais ternamente do que os mais afetuosos irmãos e irmãs. Ainda que jamais tenham se encontrado na terra, conhecer-se-ão melhor do que se tivessem sido criados juntos. Cada um conhecerá os acontecimentos da vida terrena do outro. Cada um poderá ver o coração do outro e saber quão grande é a afeição que este lhe dedica. Cada um se alegrará com a glória do outro como se fosse a sua própria; e o mais humilde no Reino dos Céus exultará com a glória do mais elevado tanto quanto este próprio poderá exultar. Isso foi explicado a Santo Agostinho por São João Batista em uma visão: 'Sabe” - disse-lhe ele - 'que, por causa da inexprimível caridade que os bem-aventurados têm uns pelos outros, cada qual não sente menor alegria pela exaltação do outro do que sentiria se ela fosse sua. Mais ainda: aquele que é maior deseja que o menor lhe seja igual e até mais honrado do que ele próprio; pois, no triunfo deste, ele também triunfaria. Da mesma maneira, aqueles que ocupam um lugar mais humilde alegram-se com a glória dos que ocupam os lugares mais elevados; não os invejam, longe disso. Não desejariam para si a elevada posição se os outros não a possuíssem; antes lhes dariam uma parte de sua própria glória, se isso fosse possível'.

Daí se pode compreender que os santos se alegram com o esplendor com que seus companheiros são coroados e nutrem por todos e por cada um deles uma afeição sincera e profunda. De modo especial, amam aquele que, por sua palavra ou por seu exemplo, os ajudou no caminho para o Céu; a esse não sabem como manifestar suficientemente sua gratidão. Cada um sentirá também particular afeição pelo santo que escolheu como seu padroeiro na terra e a quem honrou com especial devoção; e essa afeição será correspondida por aquele a quem foi dirigida. Aqueles que estiveram assim ligados uns aos outros encontrar-se-ão com maior frequência; conversarão sobre coisas santas e contarão mutuamente suas experiências na terra, narrando como, de maneira maravilhosa, a Providência de Deus os salvou da perdição eterna. Em suma, serão incontáveis os prazeres proporcionados aos redimidos por esse convívio, e eles farão tudo quanto estiver ao seu alcance para agradar uns aos outros e demonstrar mutuamente sua bondade.

Ó Deus de todas as misericórdias! Quem não desejaria entrar nessa terra de paz eterna, onde existem alegrias que ultrapassam tudo quanto o homem mortal pode conceber, alegrias tão numerosas e variadas, tão maravilhosas e tão doces! Às vezes, os prazeres deste mundo exercem tamanho fascínio sobre o homem que ele não consegue renunciar a eles, ainda que veja o Inferno aberto diante de si. E, no entanto, esses prazeres são menos que nada quando comparados às alegrias do Céu; na verdade, todas as alegrias que alguém possa imaginar ou desejar para si não podem igualar sequer a menor e mais humilde das alegrias que serão nossas por toda a eternidade! Ó meu Deus, quão inexprimível será a bem-aventurança do Céu! Que me seja concedida a felicidade de participar dessa ventura!

Movido por esse desejo, não vos darei descanso; todos os dias vos suplicarei que me leveis para junto de Vós. Desprenderei meu coração deste mundo; renunciarei inteiramente a todos os prazeres terrenos; todas as minhas aspirações, todos os meus afetos estarão voltados para os tesouros celestes, e todos os dias me conservarei pronto para abandonar este cenário terreno. Quanto mais cedo a morte vier buscar-me, tanto mais bem-vinda será, pois deixarei esta terra de exílio e entrarei em minha verdadeira pátria. Que Deus conceda que assim seja. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)