terça-feira, 22 de setembro de 2026

PÁGINAS DIFÍCEIS DOS EVANGELHOS (II)

2. OS TRABALHADORES DA ÚLTIMA HORA

Um patrão sai de casa, em diferentes horários do dia, à procura de trabalhadores para a sua vinha [Mt 20,1-16a].

[1] O Reino dos Céus é como a história do patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha.
[2] Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha. 
[3] Às nove horas da manhã, o patrão saiu de novo, viu outros que estavam na praça, desocupados, 
[4] e lhes disse: 'Ide também vós para a minha vinha! E eu vos pagarei o que for justo'. 
[5] E eles foram. O patrão saiu de novo ao meio-dia e às três horas da tarde, e fez a mesma coisa. 
[6] Saindo outra vez pelas cinco horas da tarde, encontrou outros que estavam na praça, e lhes disse: 'Por que estais aí o dia inteiro desocupados?' 
[7] Eles responderam: 'Porque ninguém nos contratou'. O patrão lhes disse: 'Ide vós também para a minha vinha'. 
[8] Quando chegou a tarde, o patrão disse ao administrador: 'Chama os trabalhadores e paga-lhes uma diária a todos, começando pelos últimos até os primeiros!'
[9]  Vieram os que tinham sido contratados às cinco da tarde e cada um recebeu uma moeda de prata. [10] Em seguida vieram os que foram contratados primeiro, e pensavam que iam receber mais. Porém, cada um deles também recebeu uma moeda de prata. 
[11] Ao receberem o pagamento, começaram a resmungar contra o patrão: 
[12] 'Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro'. 
[13] Então o patrão disse a um deles: 'Amigo, eu não fui injusto contigo. Não combinamos uma moeda de prata? 
[14] Toma o que é teu e volta para casa! Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti. 
[15] Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?' 
[16a] Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos.


A dificuldade do texto é que ele apresenta uma aparente injustiça. O salário representa o dom do Reino de Deus, que não é compartilhado com os princípios da lógica humana. A moeda de prata [denário] como pagamento diário [2] representa primariamente a vida eterna e, sendo um dom de Deus, não pode ser fracionada, porque a misericórdia de Deus é infinita para os que o amam; todos os trabalhadores foram contemplados com o mesmo salário, porque todos responderam, prontamente ou ainda que mais tarde, ao mesmo chamado à vinha e tornaram-se, então, herdeiros comuns da mesma graça: a vida eterna em Deus [8].

A premissa fundamental desta passagem dos Evangelhos é que Deus não faz acepção de pessoas. O Reino não é concedido em virtude de origem étnica, posição social ou anterioridade histórica, mas a todos que respondem sim ao chamado comum aos filhos de Deus. Todos os que receberam a moeda de prata aceitaram o chamado e, ainda que por pouco tempo, mereceram usufruir integralmente as graças divinas. As diversas horas do dia [1,3,5,6] representam diferentes etapas da vida humana: infância, juventude, maturidade, idade avançada ou proximidade da morte. São Gregório Magno associa uma segunda escala de tempos, associada à história da salvação, além dos períodos da vida humana: madrugada (época de Adão a Noé), nove horas da manhã (de Noé a Abraão), meio dia (de Abraão a Moisés), três horas da tarde (de Moisés a Cristo) e cinco horas da tarde (o tempo a partir de Cristo e da convocação dos gentios). Na história da salvação, os trabalhadores da primeira hora podem representar o povo da Antiga Aliança e os últimos, os gentios introduzidos na Igreja. E estes, portanto, não recebem um Reino de Deus inferior aos primeiros por terem sido chamados mais tarde na história.

A proposição fundamental distingue duas ordens de princípios: (i) justiça: Deus dá aos primeiros trabalhadores chamados aquilo que lhes prometeu; (ii) misericórdia: Deus dá aos últimos trabalhadores chamados mais dos que eles teriam merecido, num sentido não de elogiar o atraso voluntário da conversão, mas impedir o desespero daquele que foi chamado tarde. E, neste contexto, sobrevém a terceira ordem de princípios:  (iii) graças divinas: a parábola não elimina o verdadeiro mérito das obras realizadas na graça, nem exclui diferentes graus de glória. Todos os trabalhadores possuem o mesmo bem essencial: Deus. Mas nem todos o recebem segundo a mesma capacidade de caridade e mérito.

A parábola não nega o mérito; combate a pretensão de transformar a graça em dívida para com Deus. Este ensinamento está presente pela murmuração dos trabalhadores que foram contratados primeiro [11], pelo fato de o patrão ter determinado ao administrador efetuar o pagamento começando pelos últimos trabalhadores [8]. Eles não ficaram satisfeitos por apenas receber o que era justo [13], mas postularam uma partilha distinta em relação aos últimos, convertendo uma reivindicação aparentemente justa em inveja espiritual [15]. Portanto, cuidado: ainda que tenhamos trabalhado bem uma vida inteira, não nos locupletemos de orgulho próprio para reivindicar um mérito que não é nosso e muito menos para menosprezar aqueles que a Providência Divina esperou para chamar depois.

Por outro lado, a parábola não nos autoriza adiar a conversão e isso constituiria uma leitura gravemente contrária à sua proposição. Ao chamado do patrão, os trabalhadores da última hora disseram: 'Ninguém nos contratou' [7] e não: 'fomos chamados mais cedo, mas preferimos ser chamados outra vez somente no final do dia'. Há uma diferença fundamental entre aquele que só conhece ou acolhe eficazmente o chamado de Deus no final da vida (como o bom ladrão dos Evangelhos) daquele que porventura presume da misericórdia divina e adia deliberadamente a sua conversão. A presunção é um pecado gravíssimo contra a esperança, porque ninguém pode saber se terá uma última hora, tempo para se converter ou disposição interior para fazê-lo ainda em tempo.