71. Todos devem servir à caridade... É dela que devemos aprender a devida ordem no exercício dos conselhos; pois a uns ela prescreverá a castidade, e não a pobreza; a outros, a obediência, e não a castidade; a alguns, o jejum, mas não a esmola; a outros, a esmola, mas não o jejum; a alguns, a solidão, e não o cuidado das almas; e a outros, o convívio com o mundo, e não a solidão. Enfim, ela é a corrente sagrada pela qual se torna fecundo o jardim da Igreja; e, embora ela própria tenha uma única cor, sem cor determinada, as flores que produz têm, cada qual, a sua cor distinta. Torna os mártires mais rubros que a rosa, as virgens mais brancas que o lírio; a uns dá o delicado violeta da mortificação, a outros as flores de laranjeira do matrimônio, empregando de diversos modos os santos conselhos para a perfeição das almas que têm a felicidade de viver sob a sua direção.
72. Nazaré significa flor. Oh! quão bem esta cidade nos representa a vida religiosa! Pois o que é a vida religiosa senão uma casa, ou uma cidade, densamente coberta de flores, uma vez que todas as coisas que fazemos - quando vivemos segundo suas regras e estatutos - são outras tantas flores? Nossas mortificações, humilhações, orações - numa palavra, todos os exercícios que praticamos - que são eles senão atos de virtude, semelhantes a tantas belas flores que exalam um perfume suavíssimo diante da Divina Majestade? Podemos, portanto, dizer com razão que a vida religiosa é um jardim todo semeado de flores, muito agradável à vista e muito salutar para aqueles que desejam respirar a sua fragrância.
73. Assim como a oliveira, plantada junto à videira, comunica-lhe o seu sabor, também a caridade comunica a sua perfeição às outras virtudes com as quais entra em contato. Mas é igualmente verdade que, se a oliveira for enxertada na videira, não somente lhe comunica o sabor, mas também lhe transmite algo de sua própria seiva. Não vos contenteis, portanto, em possuir a caridade juntamente com o exercício das diversas virtudes; cuidai para que seja pela caridade e por meio dela que pratiqueis essas virtudes, de modo que elas possam, com toda a justiça, ser atribuídas à própria caridade.
74. Todas as flores amarelas e, sobretudo o girassol, não somente se alegram à vista do sol, mas seguem, com amorosa fidelidade, a atração de seus raios, contemplando o sol e voltando-se para ele desde o seu nascer até o seu ocaso. Assim também todas as virtudes recebem um novo esplendor e uma dignidade excelente pela presença do amor divino. Mas a fé, a esperança, o temor de Deus, a penitência, a piedade e todas as demais virtudes que, por sua própria natureza, tendem particularmente para Deus e para a sua honra, não somente recebem a impressão do amor divino, pela qual são elevadas a um alto valor, mas inclinam-se inteiramente para Ele, associando-se a Ele, seguindo-o e servindo-o em todas as ocasiões... Isso nos mostra que essas virtudes são muito preciosas e que, quando exercidas num coração que possui o amor de Deus, tornam-no mais fecundo e santo do que as outras virtudes que, por sua própria natureza, não possuem tão grande afinidade com o amor divino.
75. Nossas ações recebem o nome e a espécie das virtudes particulares das quais procedem; mas da santa caridade recebem o sabor de sua santidade, pois a caridade é a raiz e a fonte de toda santidade no homem. E assim como o tronco comunica o seu sabor ao fruto produzido pelo enxerto, de tal maneira que cada fruto conserva ainda a qualidade natural do enxerto do qual procede, assim também a caridade infunde a sua própria excelência e dignidade nos atos de todas as demais virtudes; mas deixa, contudo, a cada uma delas o valor e a bondade particulares que possui por sua própria natureza.
76. Não é de admirar que o santo amor, sendo o rei das virtudes, nada tenha, grande ou pequeno, que não seja amável; assim como o bálsamo, príncipe das árvores aromáticas, não possui casca nem folha que não seja perfumada. E que poderia o amor produzir que não fosse digno de amor e não tendesse para o amor?
77. Todas as obras virtuosas de uma alma que é amiga de Deus são consagradas a Deus. Pois, quando um coração se entrega, não entrega também tudo aquilo que lhe pertence? Quando alguém dá uma árvore, não dá juntamente suas folhas, suas flores e seus frutos? 'O justo florescerá como a palmeira; crescerá como o cedro do Líbano. Plantados na casa do Senhor, florescerão nos átrios da casa de nosso Deus' (Sl 91,13-14).
(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. 5, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).
