A Igreja nos ensina, no Ofício dos Mártires, que cada um dos eleitos terá seu próprio lugar no reino dos Céus. Dabo sanctis meis locum nominatum in regno Patris mei, dicit Dominus - Darei aos meus santos um lugar determinado no reino de meu Pai, diz o Senhor. E o Salmista Real diz: 'Exultarão os santos na glória; alegrar-se-ão em seus leitos' (Sl 149,5). Temos também as palavras de Cristo: 'Fazei-vos amigos com as riquezas da iniquidade, para que, quando vierdes a faltar, eles vos recebam nas moradas eternas' (Lc 16,9) - isto é, empregai em obras de caridade e beneficência aquilo que possuís além do necessário, para que essas obras se tornem como amigos que vos obtenham a entrada nas moradas eternas e celestiais.
E ainda: 'Na casa de meu Pai há muitas moradas' (Jo 14,2). Daí se pode inferir que cada um dos redimidos possui sua própria morada no Céu. Pois, assim como um pai justo e prudente reparte seus bens entre os filhos, atribuindo a cada um a sua parte particular, assim também nosso Pai celestial distribui a cada um dos seus eleitos uma parte dos seus tesouros celestes, tanto visíveis como invisíveis, dando a cada qual mais ou menos, conforme aquilo que merece receber.
Quem poderá descrever a majestade e a glória dessas moradas celestes? Se os reis e príncipes deste mundo constroem para si palácios grandiosos e suntuosos, qual não deve ser o esplendor e a beleza da cidade celestial que o Rei dos reis edificou para si mesmo e para aqueles que o amam e são os seus amigos? Ouçamos o que São João diz acerca dessa cidade: 'Um Anjo mostrou-me a cidade santa, Jerusalém, que tinha a glória de Deus. Sua luz era semelhante a uma pedra preciosa, como pedra de jaspe, transparente como cristal. A própria cidade era de ouro puro, semelhante a vidro límpido, e os fundamentos da muralha da cidade estavam adornados com toda espécie de pedras preciosas' (Ap 21,11.18-19).
Falando das dimensões da cidade, escreve o mesmo Apóstolo: 'O Anjo que falava comigo tinha por medida uma cana de ouro, para medir a cidade, suas portas e sua muralha. A cidade era quadrangular, e seu comprimento era igual à largura; e ele mediu a cidade com a cana de ouro: doze mil estádios; seu comprimento, sua largura e sua altura eram iguais. E mediu a sua muralha: cento e quarenta e quatro côvados, medida de homem, que era também a medida usada pelo Anjo' (Jo 21,15-17). Um estádio equivale a duzentas e vinte jardas, e oito estádios perfazem uma milha. Deve-se observar que o Anjo não mediu a circunferência da cidade, mas apenas o comprimento de sua muralha, que era de doze mil estádios. Multiplicando-se esse número por quatro, obtêm-se quarenta e oito mil estádios para a circunferência da cidade, equivalentes a seis mil milhas. Para povoar uma cidade dessas dimensões seriam necessários muitos milhares de milhões de habitantes.
Pelas informações dadas por São João, que nos diz serem iguais o comprimento, a largura e a altura da cidade, podemos formar alguma ideia da imponente elevação dessa construção celestial. Essa cidade não constitui toda a Jerusalém celeste; é a morada especial do Deus Altíssimo, onde habita a sagrada humanidade de Cristo, juntamente com numerosas companhias de Anjos e dos Santos mais eminentes. Pois, além dessa augusta cidade, existem inúmeras outras nas planícies celestiais, nas quais os redimidos habitam em companhia dos Anjos. Quanto maior tiver sido o bem realizado por um santo na terra, mais grandiosa será a morada que lhe é destinada no Céu. Esses palácios e mansões são transparentes como cristal e construídos com pedras preciosas da mais alta qualidade. E podemos acrescentar, apoiados na autoridade de um erudito teólogo, que os bem-aventurados convivem uns com os outros e se reúnem para louvar e engrandecer a onipotência do Altíssimo, que lhes preparou moradas tão gloriosas, unindo suas vozes para exaltar a sua sabedoria e o seu amor.
Não sentes tu, ó minha alma, um intenso desejo de contemplar essa cidade celestial e, mais ainda, de nela habitar para sempre? Consideramos um prazer visitar uma bela cidade, célebre por sua arquitetura e por outros encantos; e muitos são os viajantes que percorrem o mundo inteiro para conhecer cidades estrangeiras e regalar os olhos com a sua beleza. Mas o que são essas cidades da terra comparadas às cidades celestiais? Se pudéssemos contemplá-las ainda que por poucos instantes, que maravilhas não veríamos! Certamente exclamaríamos, com as palavras do rei Davi: 'Quão amáveis são os vossos tabernáculos, ó Senhor dos Exércitos! Minha alma suspira e desfalece pelos átrios do Senhor. Meu coração e minha carne exultaram no Deus vivo. Bem-aventurados os que habitam em vossa casa, ó Senhor; eles vos louvarão pelos séculos dos séculos. Porque vale mais um só dia em vossos átrios do que milhares; preferi ser desprezado na casa de meu Deus a habitar nas tendas dos pecadores' (Sl 83,2-3.5.11).
Se nos é permitido aventurar-nos a falar do interior do reino celestial, podemos supor que o vasto e incomensurável espaço do Céu não contém somente essas cidades celestiais, mas muitas outras coisas, todas elas aumentando as delícias daquela terra bem-aventurada. Pois, assim como os reis e príncipes da terra possuem jardins e parques de recreio junto aos seus palácios, onde se deleitam durante o verão, assim também, afirmam muitos teólogos, existem paraísos celestiais que proporcionam ainda maior deleite aos bem-aventurados. Pois não somente as almas dos salvos, mas também seus corpos glorificados serão conduzidos pelos Anjos de Deus ao Céu depois do Dia do Juízo.
Santo Agostinho, Santo Anselmo e muitos outros santos não hesitam em sustentar que existem no Céu árvores verdadeiras, frutos verdadeiros e flores verdadeiras, indescritivelmente belos e agradáveis à vista, ao paladar, ao olfato e ao tato, diferentes de tudo quanto somos capazes de imaginar. Nas revelações dos santos, faz-se menção aos jardins do Céu e às flores que ali desabrocham; e sabemos que se narra na história de Santa Doroteia que ela enviou a Teófilo, pelas mãos de um Anjo, uma cesta de flores colhidas nos jardins do paraíso celestial, de beleza tão extraordinária que sua contemplação o levou a tornar-se cristão e a dar a vida pela fé em Cristo. Lemos também na vida de São Dídaco que, voltando a si depois de um êxtase em que caíra pouco antes de morrer, exclamou em alta voz: 'Ó, que flores há no Paraíso! Que flores há no Paraíso!' Episódios semelhantes são encontrados com frequência nas vidas dos santos.
Considera quão delicioso será para aqueles que tiverem a felicidade de se salvar passear pelos jardins celestiais e contemplar aquelas belas flores. Quão agradáveis serão aos olhos aquelas formosas flores, quão delicioso o perfume que exalam! Na verdade, se um homem viesse a possuir uma única dessas flores celestiais, ela produziria nele o mesmo efeito que produziu em Teófilo. Toda a beleza da terra perderia para ele o seu encanto, e ele aspiraria com toda a sua alma à beleza perfeita do Céu. Medita, portanto, frequentemente nas coisas do Céu; eleva teus olhos e teu coração ao luminoso firmamento acima de ti e desperta em teu coração, por este ou por outros meios, um ardente desejo de contemplar as moradas do Pai eterno e nelas habitar para sempre.
Ó Deus, que enriquecestes a Jerusalém Celeste com tamanha beleza para que nós, pobres filhos da terra, tivéssemos um desejo ainda maior de contemplá-la, eu vos suplico: inflamai meu coração de ardente amor e desejo pela morada celestial que preparastes para nós. Pois bem-aventurados são, ó Senhor, aqueles que habitam em vossa casa; eles gozarão para sempre da perfeita felicidade e louvarão eternamente o poder, a sabedoria e a bondade de nosso Deus. Quem me dera ser digno de pertencer àquela companhia sem pecado, contemplar aquela formosa cidade e tornar-me um de seus felizes habitantes! Concedei-me esta graça, ó Deus, eu vos suplico; não permitais que eu seja excluído do número dos vossos eleitos.
Ó bem-aventurados santos de Deus, vós que habitais nos átrios da Jerusalém Celeste, humildemente vos suplico que intercedais por mim, para que, em sua infinita clemência, o Deus de misericórdia me conceda viver de tal maneira que eu seja considerado digno de ser admitido em vossa bem-aventurada companhia! Ouvi as orações dos vossos Santos, ó Deus de infinita compaixão e, pelos méritos de Jesus Cristo, concedei-me uma parte daquela herança que Ele adquiriu para nós com o seu precioso Sangue. Que as coisas deste mundo percam todo o seu valor aos meus olhos, e fazei arder meu coração com o desejo de vos contemplar e de ver a cidade que edificastes, a Jerusalém Celeste. Amém.
(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)
