quarta-feira, 2 de setembro de 2026

SOBRE AS ÚLTIMAS QUATRO COISAS (XXVII)

   

PARTE IV - O CÉU

I. Sobre a natureza do Céu

Não devemos, como fazem alguns, imaginar o Céu como um reino puramente espiritual. Pois o Céu é um lugar determinado, onde não somente Deus está e onde agora se encontram os Anjos, mas onde também está Cristo em sua sagrada humanidade e Nossa Senhora com o seu corpo humano. Ali também habitarão todos os bem-aventurados com seus corpos glorificados, depois do Juízo Final. Se o Céu é um lugar determinado deve, por conseguinte, ser um reino visível, e não meramente espiritual; pois um lugar deve, por sua própria natureza, ser em certa medida conforme àqueles que nele habitam.

Além disso, sabemos que, depois do Juízo Final, os santos contemplarão o Céu com seus olhos corporais e, consequentemente, ele deve ser um reino visível. Ignoramos de que será constituída a estrutura material do Céu; sabemos apenas que será algo infinitamente superior e mais precioso do que a matéria de que são formadas as demais esferas, o sol, a lua e os outros corpos celestes. Pois, tendo Deus criado o Céu para si mesmo e para os seus eleitos, fê-lo tão belo e tão glorioso que os bem-aventurados jamais se cansarão de contemplar os seus esplendores por toda a eternidade.

Contudo, repito, não está ao alcance de quem escreve descrever, nem ao alcance de quem lê compreender, aquilo de que o Céu é realmente constituído. Talvez possamos aprender algo a esse respeito pelo que escreve Santa Teresa. Falando de si mesma, ela diz: 'A Santíssima Mãe de Deus deu-me uma joia e colocou em torno do meu pescoço uma magnífica corrente de ouro, à qual estava presa uma cruz de valor inestimável. Tanto o ouro como as pedras preciosas que me foram assim dados são tão diferentes daqueles que possuímos neste mundo que nenhuma comparação pode ser estabelecida entre eles. São belos para além de tudo quanto se possa conceber, e a matéria de que são compostos está além do nosso conhecimento. Pois aquilo que chamamos ouro e pedras preciosas, comparado a eles, parece escuro e sem brilho como carvão'.

Por essas palavras, podemos formar alguma ideia da beleza, da raridade e da preciosidade das pedras com que são construídas as muralhas do Céu. Delas também inferimos que a luz do Céu é tão deslumbrante que não apenas ofusca o sol e as estrelas, mas faz com que todo o brilho terreno pareça escuridão. Temos, além disso, todas as razões para crer que, na luz do Céu, todas as cores do arco-íris são vistas a cintilar, conferindo-lhe um encanto indescritível aos olhos dos bem-aventurados. Ademais, os corpos dos redimidos resplandecem de luz, e quanto mais santa tiver sido a sua vida na terra, mais brilhantemente resplandecerão no Céu.

Qual não deve ser a glória daquele firmamento celestial, cintilando com o fulgor de muitos milhares de estrelas! Nada é mais agradável aos olhos do que a luz; quão brilhante, quão bela deve ser a luz do Céu, se, comparados a ela, os luminosos raios do sol não passam de trevas! Quanto devem os redimidos deleitar-se na contemplação dessa claridade pura e deslumbrante! Ó meu Deus, concedei-me a graça de, enquanto estiver na terra, amar a luz e evitar as obras das trevas, para que eu possa alcançar a contemplação da luz eterna e perpétua!

Quanto à extensão do Céu, tudo o que sabemos é que ela é incomensurável, inconcebível e incompreensível. Um sábio teólogo, falando sobre esse assunto, diz: 'Se Deus transformasse cada grão de areia em um novo mundo, todas essas inúmeras esferas ainda não preencheriam a imensidão do Céu'. São Bernardo também afirma que temos fundamento para crer que a cada um dos salvos será destinado, na pátria celestial, um lugar e uma herança cujos limites não serão estreitos.

Quão incomensuravelmente vasto deve ser, então, o Céu! Bem pôde o profeta Baruc exclamar: 'Ó Israel, quão grande é a casa de Deus, e quão vasto é o lugar de sua possessão! É grande e não tem fim; é elevado e imenso' (Br 3,24-25). Podemos facilmente acreditar nisso, pois temos diante de nossos olhos os ilimitados domínios do espaço. Mas nada sabemos acerca da natureza dos infinitos domínios do Céu, embora possamos, até certo ponto, representá-los à nossa imaginação. Seria contrário ao bom senso pensar que essas vastas regiões celestiais sejam vazias e desertas, ou que o grande Artífice, para quem a criação de mundos é coisa tão pequena, as deixasse sem beleza e sem ornamento.

Se príncipes e senhores ocupam todos os espaços e não deixam recanto algum de seus palácios ou de seus jardins sem embelezamento e ornamento, haveremos de supor que o grande Rei do Céu permitiria que o seu palácio real, o seu paraíso celestial, carecesse de magnificência e beleza? O que haveria para deleitar os sentidos dos santos se o Céu fosse apenas um vasto espaço vazio? Que prazer, além da visão beatífica de Deus, haveria para eles, se permanecessem todos reunidos numa planície árida, como ovelhas encerradas num aprisco? Não temos, portanto, razão para crer que existem no Céu esplêndidas e espaçosas moradas, construídas de materiais incorruptíveis?

Mais ainda: um erudito comentador da Sagrada Escritura considera provável que, pela admirável habilidade e sabedoria do grande Criador, esses belos palácios e moradas tenham formas e dimensões variadas, sendo alguns mais baixos, outros mais elevados, e alguns mais ricamente adornados do que outros. Elevando-se acima de todos e superando-os em grandeza e magnificência, destaca-se o palácio do grande Rei, Jesus Cristo; e, logo depois, em esplendor e dignidade, vem a morada de Nossa Soberana Senhora, a Rainha do Céu. Seguem-se os doze palácios dos doze Apóstolos, tão ricos e belos que o próprio Céu se maravilha diante de sua magnificência. Além desses, existem inúmeras mansões e moradas que tornam a Jerusalém celeste indescritivelmente majestosa e encantadora. Essas esplêndidas habitações foram criadas quando o próprio Céu foi feito e destinadas a ser a morada dos redimidos.

A Igreja nos ensina, no Ofício dos Mártires, que cada um dos eleitos terá seu próprio lugar no reino dos Céus. Dabo sanctis meis locum nominatum in regno Patris mei, dicit Dominus - Darei aos meus santos um lugar determinado no reino de meu Pai, diz o Senhor. E o Salmista Real diz: 'Exultarão os santos na glória; alegrar-se-ão em seus leitos' (Sl 149,5). Temos também as palavras de Cristo: 'Fazei-vos amigos com as riquezas da iniquidade, para que, quando vierdes a faltar, eles vos recebam nas moradas eternas' (Lc 16,9) - isto é, empregai em obras de caridade e beneficência aquilo que possuís além do necessário, para que essas obras se tornem como amigos que vos obtenham a entrada nas moradas eternas e celestiais.

E ainda: 'Na casa de meu Pai há muitas moradas' (Jo 14,2). Daí se pode inferir que cada um dos redimidos possui sua própria morada no Céu. Pois, assim como um pai justo e prudente reparte seus bens entre os filhos, atribuindo a cada um a sua parte particular, assim também nosso Pai celestial distribui a cada um dos seus eleitos uma parte dos seus tesouros celestes, tanto visíveis como invisíveis, dando a cada qual mais ou menos, conforme aquilo que merece receber.

Quem poderá descrever a majestade e a glória dessas moradas celestes? Se os reis e príncipes deste mundo constroem para si palácios grandiosos e suntuosos, qual não deve ser o esplendor e a beleza da cidade celestial que o Rei dos reis edificou para si mesmo e para aqueles que o amam e são os seus amigos? Ouçamos o que São João diz acerca dessa cidade: 'Um Anjo mostrou-me a cidade santa, Jerusalém, que tinha a glória de Deus. Sua luz era semelhante a uma pedra preciosa, como pedra de jaspe, transparente como cristal. A própria cidade era de ouro puro, semelhante a vidro límpido, e os fundamentos da muralha da cidade estavam adornados com toda espécie de pedras preciosas' (Ap 21,11.18-19).

Falando das dimensões da cidade, escreve o mesmo Apóstolo: 'O Anjo que falava comigo tinha por medida uma cana de ouro, para medir a cidade, suas portas e sua muralha. A cidade era quadrangular, e seu comprimento era igual à largura; e ele mediu a cidade com a cana de ouro: doze mil estádios; seu comprimento, sua largura e sua altura eram iguais. E mediu a sua muralha: cento e quarenta e quatro côvados, medida de homem, que era também a medida usada pelo Anjo' (Jo 21,15-17). Um estádio equivale a duzentas e vinte jardas, e oito estádios perfazem uma milha. Deve-se observar que o Anjo não mediu a circunferência da cidade, mas apenas o comprimento de sua muralha, que era de doze mil estádios. Multiplicando-se esse número por quatro, obtêm-se quarenta e oito mil estádios para a circunferência da cidade, equivalentes a seis mil milhas. Para povoar uma cidade dessas dimensões seriam necessários muitos milhares de milhões de habitantes.

Pelas informações dadas por São João, que nos diz serem iguais o comprimento, a largura e a altura da cidade, podemos formar alguma ideia da imponente elevação dessa construção celestial. Essa cidade não constitui toda a Jerusalém celeste; é a morada especial do Deus Altíssimo, onde habita a sagrada humanidade de Cristo, juntamente com numerosas companhias de Anjos e dos Santos mais eminentes. Pois, além dessa augusta cidade, existem inúmeras outras nas planícies celestiais, nas quais os redimidos habitam em companhia dos Anjos. Quanto maior tiver sido o bem realizado por um santo na terra, mais grandiosa será a morada que lhe é destinada no Céu. Esses palácios e mansões são transparentes como cristal e construídos com pedras preciosas da mais alta qualidade. E podemos acrescentar, apoiados na autoridade de um erudito teólogo, que os bem-aventurados convivem uns com os outros e se reúnem para louvar e engrandecer a onipotência do Altíssimo, que lhes preparou moradas tão gloriosas, unindo suas vozes para exaltar a sua sabedoria e o seu amor.

Não sentes tu, ó minha alma, um intenso desejo de contemplar essa cidade celestial e, mais ainda, de nela habitar para sempre? Consideramos um prazer visitar uma bela cidade, célebre por sua arquitetura e por outros encantos; e muitos são os viajantes que percorrem o mundo inteiro para conhecer cidades estrangeiras e regalar os olhos com a sua beleza. Mas o que são essas cidades da terra comparadas às cidades celestiais? Se pudéssemos contemplá-las ainda que por poucos instantes, que maravilhas não veríamos! Certamente exclamaríamos, com as palavras do rei Davi: 'Quão amáveis são os vossos tabernáculos, ó Senhor dos Exércitos! Minha alma suspira e desfalece pelos átrios do Senhor. Meu coração e minha carne exultaram no Deus vivo. Bem-aventurados os que habitam em vossa casa, ó Senhor; eles vos louvarão pelos séculos dos séculos. Porque vale mais um só dia em vossos átrios do que milhares; preferi ser desprezado na casa de meu Deus a habitar nas tendas dos pecadores' (Sl 83,2-3.5.11).

Se nos é permitido aventurar-nos a falar do interior do reino celestial, podemos supor que o vasto e incomensurável espaço do Céu não contém somente essas cidades celestiais, mas muitas outras coisas, todas elas aumentando as delícias daquela terra bem-aventurada. Pois, assim como os reis e príncipes da terra possuem jardins e parques de recreio junto aos seus palácios, onde se deleitam durante o verão, assim também, afirmam muitos teólogos, existem paraísos celestiais que proporcionam ainda maior deleite aos bem-aventurados. Pois não somente as almas dos salvos, mas também seus corpos glorificados serão conduzidos pelos Anjos de Deus ao Céu depois do Dia do Juízo.

Santo Agostinho, Santo Anselmo e muitos outros santos não hesitam em sustentar que existem no Céu árvores verdadeiras, frutos verdadeiros e flores verdadeiras, indescritivelmente belos e agradáveis à vista, ao paladar, ao olfato e ao tato, diferentes de tudo quanto somos capazes de imaginar. Nas revelações dos santos, faz-se menção aos jardins do Céu e às flores que ali desabrocham; e sabemos que se narra na história de Santa Doroteia que ela enviou a Teófilo, pelas mãos de um Anjo, uma cesta de flores colhidas nos jardins do paraíso celestial, de beleza tão extraordinária que sua contemplação o levou a tornar-se cristão e a dar a vida pela fé em Cristo. Lemos também na vida de São Dídaco que, voltando a si depois de um êxtase em que caíra pouco antes de morrer, exclamou em alta voz: 'Ó, que flores há no Paraíso! Que flores há no Paraíso!' Episódios semelhantes são encontrados com frequência nas vidas dos santos.

Considera quão delicioso será para aqueles que tiverem a felicidade de se salvar passear pelos jardins celestiais e contemplar aquelas belas flores. Quão agradáveis serão aos olhos aquelas formosas flores, quão delicioso o perfume que exalam! Na verdade, se um homem viesse a possuir uma única dessas flores celestiais, ela produziria nele o mesmo efeito que produziu em Teófilo. Toda a beleza da terra perderia para ele o seu encanto, e ele aspiraria com toda a sua alma à beleza perfeita do Céu. Medita, portanto, frequentemente nas coisas do Céu; eleva teus olhos e teu coração ao luminoso firmamento acima de ti e desperta em teu coração, por este ou por outros meios, um ardente desejo de contemplar as moradas do Pai eterno e nelas habitar para sempre.

Ó Deus, que enriquecestes a Jerusalém Celeste com tamanha beleza para que nós, pobres filhos da terra, tivéssemos um desejo ainda maior de contemplá-la, eu vos suplico: inflamai meu coração de ardente amor e desejo pela morada celestial que preparastes para nós. Pois bem-aventurados são, ó Senhor, aqueles que habitam em vossa casa; eles gozarão para sempre da perfeita felicidade e louvarão eternamente o poder, a sabedoria e a bondade de nosso Deus. Quem me dera ser digno de pertencer àquela companhia sem pecado, contemplar aquela formosa cidade e tornar-me um de seus felizes habitantes! Concedei-me esta graça, ó Deus, eu vos suplico; não permitais que eu seja excluído do número dos vossos eleitos.

Ó bem-aventurados santos de Deus, vós que habitais nos átrios da Jerusalém Celeste, humildemente vos suplico que intercedais por mim, para que, em sua infinita clemência, o Deus de misericórdia me conceda viver de tal maneira que eu seja considerado digno de ser admitido em vossa bem-aventurada companhia! Ouvi as orações dos vossos Santos, ó Deus de infinita compaixão e, pelos méritos de Jesus Cristo, concedei-me uma parte daquela herança que Ele adquiriu para nós com o seu precioso Sangue. Que as coisas deste mundo percam todo o seu valor aos meus olhos, e fazei arder meu coração com o desejo de vos contemplar e de ver a cidade que edificastes, a Jerusalém Celeste. Amém.

(Excertos da obra 'The Four Last Things - Death, Judgment, Hell and Heaven', do Pe. Martin Von Cochem, 1899; tradução do autor do blog)