86. Há uma certa erva que, quando mastigada, comunica tamanha doçura que aqueles que a conservam na boca não podem sentir fome nem sede. Assim também, aqueles a quem Deus concede o seu maná celestial de doçura e consolação interiores não podem desejar nem aceitar as consolações mundanas com verdadeiro gosto ou satisfação. É uma pequena antecipação da bem-aventurança eterna, que Deus concede àqueles que o procuram; é o confeito que Ele oferece aos seus filhos para atraí-los; é o cordial que lhes apresenta para fortalecer-lhes o coração; é também, algumas vezes, o penhor e a garantia das recompensas eternas.
87. Quando nossa vontade encontra Deus, repousa nEle, encontrando nEle uma soberana complacência; entretanto, não deixa de exercer o movimento do desejo: pois, assim como deseja amar, ama também desejar; possui o desejo do amor e o amor do desejo. O repouso do coração não consiste em permanecer imóvel, mas em não necessitar de coisa alguma. Não consiste em não ter movimento, mas em não estar sujeito à necessidade de se mover.
88. Nada faz a camomila parecer tão amarga quanto provar mel antes dela. Quando começarmos a saborear as coisas divinas, já não será possível que as coisas deste mundo despertem o nosso apetite.
89. O suco da romã, como todos sabemos, é muito agradável tanto aos enfermos quanto aos sadios e apresenta uma mistura tão íntima de amargor e doçura que é difícil dizer se agrada ao paladar por sua doce amargura ou por sua amarga doçura. Do mesmo modo, o amor é agridoce; e, enquanto permanecermos neste mundo, sua doçura nunca será perfeitamente doce, porque o próprio amor nunca é perfeito, nem jamais se encontra pura e perfeitamente saciado e satisfeito. Não obstante, mesmo aqui o amor é extremamente agradável: sua amargura torna mais delicada a suavidade de sua doçura, enquanto sua doçura torna mais vivo o encanto de sua amargura.
90. Virá a hora da consolação; e então, com indizível doçura de alma, abrireis o vosso íntimo diante da Bondade Divina, que transformará vossos rochedos em fontes de água, vossa serpente em vara, e todos os espinhos do vosso coração em rosas - e nas mais belas das rosas - que reconfortarão o vosso espírito com sua doçura.
91. Os mundanos e os homens terrenos, que vivem conforme os costumes da terra, tão logo concebem algum bom pensamento ou alguma ideia que lhes parece digna de estima, ou quando possuem alguma virtude, não descansam enquanto não a exibem e a tornam conhecida por todos aqueles que encontram. Nisso, correm o mesmo risco das árvores que fazem brotar suas folhas muito cedo na primavera, como as amendoeiras: se, por acaso, a geada as surpreende, elas perecem e não produzem fruto algum. As pessoas mundanas, que tão levianamente deixam suas flores desabrochar na primavera desta vida mortal, movidas por um espírito de orgulho e ambição, correm sempre o grande risco de serem surpreendidas pela geada, que lhes fará perder o fruto de suas ações.
92. Os justos, ao contrário, conservam todas as suas flores encerradas na bainha da santa humildade e, tanto quanto podem, não permitem que apareçam antes do tempo do grande calor: quando Deus, o divino Sol da justiça, vier aquecer seus corações na vida eterna, onde produzirão para sempre o doce fruto da felicidade e da imortalidade.
93. Somos semelhantes ao coral que, no lugar de sua origem - o oceano - é um arbusto verde-pálido, frágil e flexível; mas, uma vez retirado das profundezas do mar, como do ventre de sua mãe, torna-se quase uma pedra e passa do verde ao vermelho vivo. Assim, enquanto permanecemos mergulhados no mar deste mundo, lugar de nosso nascimento, estamos sujeitos a mudanças extremas e somos flexíveis para todos os lados: à direita, inclinamo-nos ao amor celestial pela inspiração; à esquerda, ao amor terreno pela tentação. Mas, uma vez retirados desta condição mortal, teremos transformado o verde-pálido de nossas esperanças temerosas no vermelho vivo da posse segura. Nunca mais seremos inconstantes, mas permaneceremos para sempre firmes no amor eterno.
94. Sucede com tudo o que poderíamos dizer a respeito da grandeza, da glória e da felicidade eternas, bem como da beleza e dos encantos de que o Céu está repleto. Com efeito, entre uma única folha ou um único fruto e a própria árvore, inteiramente coberta de folhas e carregada de frutos, existe uma proporção ainda maior do que entre a luz do Sol e o esplendor de que os bem-aventurados desfrutam na glória. Nem a beleza dos prados adornados de flores na primavera, nem o encanto dos campos cobertos de colheitas maduras podem comparar-se à beleza e ao encanto dos campos celestiais da felicidade eterna, que superam infinitamente tudo quanto deles se possa dizer ou conceber.
95. Ó queridas resoluções, sois a bela árvore da vida que meu Deus plantou com suas próprias mãos no centro do meu coração e que meu Salvador deseja regar com seu sangue, para fazê-la produzir frutos. Eu morreria mil vezes antes de permitir que algum vento vos arrancasse do meu coração. Não! Nem os prazeres, nem as riquezas, nem as tribulações jamais me afastarão desta resolução. Ah, Senhor! Vós a plantastes e, desde toda a eternidade, guardastes em vosso seio paterno esta bela árvore para o meu jardim. Ai! Quantas almas não receberam semelhante favor! Como poderei, então, humilhar-me suficientemente diante de vossa misericórdia?
(Excertos da obra 'Flore mystique de St François de Sales' (1874) - A Flora Mística de São Francisco de Sales - Cap. VII, coletânea de textos organizada pelo padre Joseph Tissot, reunindo pensamentos e ensinamentos dos livros e cartas de São Francisco de Sales relacionados a plantas e flores, organizados como um tratado de vida cristã).
