OREMUS

Oremus — Pensamentos para a Meditação de Todos os Dias

(Pe. Isac Lorena (1963), com complementos - entre [ ] - de trechos traduzidos do latim pelo autor do blog)

Obs.: a obra foi destinada originalmente a sacerdotes e seminaristas, mas pode e deve ser objeto de reflexão específica para os católicos em geral, sejam religiosos ou leigos.


24 DE JUNHO

Si vis religiosam ducere vitam... [se queres seguir a vida religiosa...]

A Imitação me diz que, se eu quiser viver uma vida religiosa, isto é, em união com Deus, tenho que viver, mais ou menos, como um louco aos olhos do mundo: oportet te stultum fieri [convém fazer-te louco]. Já no tempo de São Paulo, seguir a Nosso Senhor era um escândalo e uma loucura; em nossos dias, o mundo continua pensando da mesma forma, porque o seu espírito não mudou. 

Hoje ainda Nosso Senhor poderia queixar-se, como naquela noite, no Cenáculo: Pater juste, mundus te non cognovit [Pai justo, o mundo não te conheceu (Jo 17,25)]. Viver na obediência e no desapego, sem liberdade e sem conforto; viver como anjos em carne humana, enquanto ao meu redor todos se afogam no luxo, no prazer e na riqueza... Não importa que o mundo veja nisso uma loucura. O que me importa é compreender e seguir sempre o espírito de Nosso Senhor. 

Que eu não viva, no serviço de Deus, como um infeliz. Que eu não acompanhe o meu Mestre, como um criminoso, pegado à força. Que eu não reclame, enquanto sofro, por invejar a outros que estão gozando. Seria essa, realmente, uma loucura. Mas que eu acompanhe Nosso Senhor com generosidade, sem arrependimento, e verei que a sua palavra nunca enganou a ninguém: jugum meum suave est et onus meum leve [meu jugo é suave e meu peso é leve (Mt 11,30].

23 DE JUNHO

Pater, peccavi coram te! [Pai, pequei contra ti! (Lc 15,21)]

Apesar de toda a sua miséria, aquele filho pródigo ainda pôde encontrar o caminho para a casa paterna. Caiu em si, reconheceu o erro cometido, arrependeu-se, compreendeu que precisava sair daquela situação. Foi feliz, porque sua consciência ainda reagiu e o levou de volta para os braços de seu pai.

Nada mais triste para Nosso Senhor que constatar a morte da consciência no seu sacerdote. Se ela ainda reagisse... haveria alguma esperança. Mas quando ela não reage mais, quando não responde aos chamados da graça... é o fim. Si is qui odit me contra me insurrexisset, abscondissem me ab eo; sed eras tu, sodalis meus, amicus et familiaris, quocum dulce habui consortium [daqueles que me odeiam e me perseguem, poderia eu deles me esconder; porém, (isso não é possível) contra quem era meu amigo e companheiro e por quem nutria tão doce intimidade! (Sl 54)].

Um dia, Nosso Senhor tentou, num último esforço, ressuscitar uma consciência morta: Amice, ad quid venisti? [amigo, é para isto que vens aqui? (Mt 26, 50)]. E aquela consciência não reagiu; o traidor estava definitivamente perdido. Quid enim miserius misero non miserantem se ipsum, non flentem mortem suam, quae fiebat non amando Te, Deus, lumen cordis mei?... [o que, afinal, é mais miserável do que o miserável que não lamenta a sua miséria, que não chora a sua própria morte por não Vos ter amado, ó Deus, luz do meu coração? (Santo Agostinho)]

22 DE JUNHO 

Et alias oves habeo [tenho ainda outras ovelhas (Jo 10,16)]

'O Bom Pastor deve conhecer todas as ovelhas, ocupar-se de todas, prodigalizar-se a todas. O seu primeiro pensamento correrá para as ovelhas que não estão no redil: et illas oportet me adducere [preciso conduzi-las também].

É o problema das ovelhas que nunca entraram no redil; o problema das que dele fugiram, abandonando a fonte de água viva, para buscar lodo e lama nas cisternas fendidas — dereliquerunt fontes aquae vivae, et foderunt sibi cisternas, cisternas dissipatas [abandonaram a fonte da água viva para cavar cisternas, cisternas fendidas (Jr 2,13)].  Ovelhas desgarradas, que nem sequer aceitariam que as fossem buscar; outras, no entanto, gostariam de encontrar o olhar piedoso que as descubra e a mão caridosa que as recolha; enfim, que já se dispõem a voltar e talvez temem ser mal recebidas. 

Nós vos suplicamos que permaneçais num estado de santa e quase perene angústia pelas ovelhas ainda afastadas, porque nunca tiveram ou porque perderam a fé. Não duvidamos que, se elas baterem à vossa porta, no verão ou no inverno, de dia ou de noite, encontra-la-ão aberta ou pronta para se abrir. E aquelas que não vêm, buscai-as... com aquele apostolado da oração e do sacrifício, que não conhece obstáculo e é o mais eficaz' (Pio XII).

21 DE JUNHO

Non spiritum huius mundi accepimus [não recebemos o espírito do mundo (1Cor 2,12)]

No Batismo, na Confirmação e na Ordem, o que nos disse a Santa Igreja foi isto: accipe Spiritum Sanctum [recebe o Espírito Santo]. Não foi, portanto, o espírito do mundo que recebemos, sed spiritum qui ex Deo est [mas sim o espírito que vem de Deus]. Este espírito de santidade é que nos distingue dos demais. É a nota característica de nossa vida sacerdotal, que deve ser uma luz.

Com facilidade as almas sabem distinguir o padre mundanizado e o padre que vive cheio de Deus, porque fructus autem spiritus est caritas, gaudium, pax, patientia, fides, modestia, continentia, castitas [ao contrário, o fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, fidelidade, temperança, continência, castidade (Gl 5,19)]. As almas sabem que uma vida alimentada pelo espírito do mundo não pode produzir esses frutos, que só podem ser produzidos pelo espírito de Deus. A falta de zelo e mansidão, o apego, a vaidade, o comodismo são, entre outros, os frutos de uma vida alimentada pelo mundo.

Se não se apresentar às almas com o espírito de Deus, o sacerdote não será o homem diferente que elas procuram; será, sim, um tipo comum, incapaz, portanto, de realizar a sua missão de atrair e elevar as almas a Deus. Por isso insistia o Apóstolo: dico autem: Spiritu ambulate [digo, pois, conduzi-vos pelo Espírito (Gl 5,16)] — porque devemos viver de acordo com o espírito de Deus que recebemos.

20 DE JUNHO 

Pie vivamus in hoc saeculo [vivamos sobriamente no tempo presente (Tt 2,12)]

Viver piedosamente num mundo entregue à dissipação, desprezar o prazer que este mundo procura com tanta avidez e seguir Nosso Senhor sempre com a cruz às costas... diz o mundo que isso não passa de loucura. E compreendemos o porquê.

O mundo põe a sua esperança na mentira; nós, pelo contrário, confiamos na verdade. Tollat crucem suam [tome a sua cruz] — essa é uma ordem que não discutimos; confiamos na Verdade Eterna que assim nos falou. Sabemos bem que esse caminho para o Calvário terá um fim: cum Sanctis tuis in gloria numerari [com todos os Vossos Santos na glória].

Em meio às perseguições, à hora do martírio, os primeiros cristãos animavam-se mutuamente com a saudação: Dominus veniet! — [o Senhor vem!] porque eles O Esperavam, como fim e recompensa de todas as lutas. Era esse o consolo que os animava a suportar todos os tormentos. Para nós, Ele também há de vir. Se Ele nos mandou tollite iugum meum [tomai o meu jugo] — não foi apenas para nos ver com a cruz às costas; foi para nos entregar, um dia, a recompensa que nos preparou a constitutione mundi [desde a criação do mundo]. Compreendemos então o Apóstolo, aconselhando-nos a viver spe gaudentes [alegres na esperança] — gozando, desde agora, pela esperança de uma realidade que virá depois.

19 DE JUNHO

Non est opus valentibus medico [não são os sãos que precisam de médico (Mt 9,12)]

Apesar da tua mansidão, Senhor, apesar da tua infinita santidade, não posso deixar de ver, nesta palavra tua, uma pontinha de fina ironia. Era o teu desprezo para a hipocrisia dos teus inimigos; e mais, eles não teriam merecido.

Se eles se diziam santos e perfeitos, porque se queixavam das atenções que o médico das almas queria fazer aos pecadores? Mas eu sei que, na realidade, o teu zelo não tem limites e o teu amor não faz exceções. Os teus cuidados estão em toda parte, mas principalmente onde estiver uma ovelha desgarrada; e, no teu coração, junto a aqueles que te amam, os pródigos também podem ter o seu lugar.

Senhor, preciso imitar-te neste ponto, porque minha vaidade não se sente muito bem entre os ignorantes e o meu comodismo se acovarda ante as aperturas do pobre. Não tenho o teu amor nem a tua misericórdia e, por isso, gosto de fazer diferença entre aqueles que me procuram. Preciso compreender que sou de todos e a todos devo procurar com o teu zelo, a todos devo amar com o teu amor de Pai. É por isso que a tua Igreja me lembra que, hoje como ontem, omnes homines vis salvos fieri [(Deus quer) todos os homens sejam salvos (I Tm 2,4)].

18 DE JUNHO

Orate, fratres! [orai, irmãos!]

'Desejaríamos que nascesse em todos vós, e crescesse progressivamente, uma como santa inquietação por encontrar os meios aptos a fazer brilhar de novo a luz onde se encontram as trevas e a levar outra vez a vida a aqueles que estão mortos.

Começai procurando que respirem novamente, as almas atingidas pela asfixia, porque não rezam nunca, de maneira alguma. Esforçai-vos para que de todos os corações suba aos lábios, e dos lábios ao céu, uma invocação, embora breve, mas repetida todos os dias; eis um objetivo para o qual é justo que se mobilizem todas as forças do bem. Uma paróquia em que todos, a cada dia, se lembram de invocar o Senhor, não tardará a mostrar que nela germina a vida'.

Assim escreveu Pio XII; e o seu pensamento é claro; se hoje vemos que as almas morrem asfixiadas pelo mundo, não podendo respirar a Deus, a tarefa mais importante e urgente para nós, é fazer que as almas respirem ... pela oração! O mais, por importante que nos pareça, virá depois. Doce nos orare [ensina-nos a orar] — é o que as almas pedem ao Homem de Deus. E se ele não o sabe fazer, pela palavra e exemplo, é porque ele também vive asfixiado e não respira a Deus pela oração.


17 DE JUNHO

Oportet semper orare [é necessário orar sempre (Lc 18,1)]

Atirados ao trabalho de um apostolado que não nos dá descanso, precisamos de um profundo espírito de fé, que transforme a nossa atividade em contínua oração. Mesmo assim, porém, não podemos dispensar, todos os dias, um a sós com Deus, que alimente o nosso fervor habitual. 

A meditação, a Santa Missa com a devida ação de graças, o Breviário e uma breve leitura espiritual — é o mínimo para que não sejamos reduzidos a simples máquinas de trabalho. Um trabalho morto, sem alma, certamente não é digno de Deus. E nem será digno daquele que deve trabalhar e viver in unione illius divinae intentionis [em união com essa divina intenção].

Somente esses poucos momentos dedicados exclusivamente à oração, durante o dia, poderão elevar a nossa atividade, para que realizemos o nosso trabalho per Ipsum, et cum Ipso, et in Ipso [  ]. Necessária se torna, geralmente, a ditadura de um horário, que ponha tudo em seu tempo e lugar, dentro de uma vida bem ordenada. O autor da Imitação já observava em seu tempo: si te subtraxeris a superfluis locutionibus, necnon a novitatibus et rumoribus audiendis, tempus invenies pro bonis meditationibus instituendis [se te abstiveres de conversações supérfluas e também de ouvir novidades e boatos, acharás tempo suficiente para boas e santas meditações (Imit. I, 20,1)].

16 DE JUNHO 

Quid igitur faciam de Jesu? [que farei então de Jesus? (Mt 27,22)]

Para o sacerdote, Nosso Senhor está na oração e no recolhimento, no Breviário e na Missa de cada dia. Ele está nos anos de formação, intelectual e religiosa, está em todo o seu apostolado mas, principalmente, no poder que recebeu para ensinar e perdoar. Nosso Senhor está nas mãos do sacerdote.

Preocupado com a sua posição, Pilatos não sabia o que fazer com Nosso Senhor. Estava em suas mãos a sorte daquele Homem e ele, no entanto, perguntava: quid faciam de Jesu? [que farei de Jesus?]. A esse ponto poderá chegar também o sacerdote que se preocupa demasiado com certas coisas alheias ao seu ministério. Nosso Senhor está em suas mãos e ele não O sabe repartir com as almas. 

As ciências, as artes, a política, os negócios absorvem toda a sua atividade. Aquilo que podia ser apenas um meio de apostolado, acaba sendo a sua única preocupação. Temos assim um sacerdote que, sendo um gênio em ciências e artes, não sabe dizer duas palavras no púlpito ou atender algumas confissões. O fim principal da nossa vocação não consiste em alimentarmos nosso gosto e nossas inclinações particulares, mas em alimentarmos as almas, dando-lhes Nosso Senhor.

15 DE JUNHO 

Venite post me [vinde após mim (Mc 1,17)]

Nosso Senhor teve os seus planos quando nos chamou: Faciam vos piscatores hominum [farei de vós pescadores de homens]. Mas, para isso, há uma condição: venite post me [vinde após mim]. Temos que segui-lo, não somente com um olhar de boa vontade ou com simples desejos. Segui-lo em toda parte, como os Apóstolos, vivendo a sua vida, partilhando dos seus trabalhos e sacrifícios.

E para segui-lo, temos que deixar tudo: relictis retibus [deixaram as redes]. Eles trocaram o sossego das pescarias pela vida agitada e barulhenta em meio ao povo. Trocaram a vastidão das águas pelos caminhos cobertos de pó. Trocaram o que tinham pelo que poderiam ou não receber de esmola. Para segui-lo, não nos podemos apegar a nada. Hospes ego sum in terra [hóspede sou na terra] — apenas hóspedes, é o que somos neste mundo.

Et secuti sunt eum [e eles o seguiram] — aqui está a biografia dos Apóstolos e o resumo da vida de todos os santos. É a única explicação para as virtudes que praticaram e para os sacrifícios que venceram. Santificaram-se porque o seguiram. Esta igualmente é a explicação para a vida que devemos viver: Ele nos chamou e temos que segui-lo.

14 DE JUNHO 

Non te negabo [nunca vos negarei (Mt 26,35)]

Senhor, foi assim que te falou o teu Apóstolo, julgando-se dono de uma coragem que não possuía. E, como ele, todos os demais discípulos: Similiter et omnes dixerunt [e todos (os ostros discípulos) diziam o mesmo]. Certamente eles te falaram com sinceridade e não te quiseram enganar.

Por medo não cumpriram a palavra e, à hora da prova, eles te abandonaram. Mas logo depois estavam novamente à tua procura, no sepulcro. Tu sabes, Senhor, que eu sou também assim. Eu mesmo o sei; e ainda bem que o reconheço. Não quero e não posso alimentar a presunção de que sou inabalável nos meus propósitos. Quantas vezes eu já não te neguei, com a mesma frieza do Apóstolo, para depois voltar atrás!

Ensina-me a desconfiar de mim mesmo porque o meu orgulho não entende disso e vive me inspirando uma exagerada confiança em minhas resoluções. Embora seja grande a minha boa vontade — a dos Apóstolos também era — minha coragem não é tão grande como costumo supor. Que eu não me conforme com voltar sempre à tua presença como um filho pródigo. Muitas vezes já voltei e o teu amor me recebeu com festas; mas eu não sei quantas vezes ainda poderei voltar...

13 DE JUNHO 

Dum carni parcimus... [enquanto pela carne empenhamos...]

Esta palavra de Santo Agostinho chega aos nossos ouvidos qual longínqua reminiscência dos anacoretas. Vivemos, em geral, tão preocupados com a nossa saúde, com o nosso conforto e bem estar, que a penitência deixou de ser ponto obrigatório no nosso programa de vida.

Não entrar no terreno do ilícito — esse o resumo de certa ascese que se vai generalizando. E não raro se ouve a pergunta: Que mal haverá se alguém se concede um prazer lícito? Ao que poder-se-ia responder também com uma pergunta: Que mal haverá se alguém se nega um prazer lícito, in spiritu poenitentiae [com espírito de penitência]? A experiência mostra que, concedendo sempre à nossa vontade o que é permitido, nós a acostumamos mal; ad proelium hostem nutrimus [alimentamos um inimigo em batalha (S. Greg., Moral, XXX, cap. 14)].

O Apóstolo não dispensava a mortificação: castigo corpus meum [castigo o meu corpo (I Co 9,27)]. Por que? Ne reprobus efficiar... [para que não venha a ser condenado (por não cumprir aquilo que se pregava)]. E nós poderíamos dispensar essa virtude? Por menos não se amansa uma natureza animal como a nossa. Surge et ambula [Levanta-te e anda] — primeiro ficar de pé, dominar-se; depois, será possível caminhar. Por isso a Imitação já ensinava: Tantum proficies, quantum tibi ipsi vim intuleris [tanto mais aproveita (o homem) quanto mais vence a si mesmo (Imit. I 25,3)].

12 DE JUNHO 

Blasphemus fui et persecutor [era blasfemo e perseguidor (1Tm 1,13)]

Tanto antes como depois da sua conversão, o Apóstolo foi sempre um apaixonado pela Verdade. Por isso não nos estranha a profunda humildade com que fala de si mesmo: Peccatores, quorum primus sum ego [dos pecadores, sou o primeiro]. Mas a humildade nunca foi o desespero nem o pessimismo. A humildade que abate e desanima, outra coisa não é senão um orgulho mal disfarçado.

Com toda a sua humildade, Nossa Senhora pôde ver a sua grandeza, cantada pelos séculos afora: Beatam me dicent omnes generationes [todas as gerações me chamarão bem aventurada (Lc 1,48)]. Se a verdade me faz reconhecer o meu nada, a minha miséria, nem por isso me manda ignorar a infinita misericórdia de Deus. Eu seria um pobre condenado ao desespero se, ao considerar as minhas faltas, não pudesse contar com a bondade infinita de meu Pai.

São Paulo reconhecia o seu triste passado: blasphemus, et persecutor, et contumeliosus [blasfemo, e perseguidor e injuriador]. Nem por isso ele desesperou, deixando-se ficar num pessimismo estéril; pelo contrário, reconheceu o que a verdade também lhe mostrava: a misericórdia divina com que afirma tranquilamente: sed misericordiam Dei consecutus sum [mas alcancei a misericórdia de Deus].

11 DE JUNHO 

Qui volunt divites fieri [os que ambicionam tornar-se ricos (1Tm 6,9)]

Esses não se conformam com a pobreza do Mestre. Procuram rodear-se de todas as facilidades, de todo conforto. Em casa, tudo concorre para o bem estar. Fora, as visitas, as amizades, as rodas que não desprezam o luxo, ajudam as horas a passar menos monótonas e mais interessantes.

Na igreja, porém, a diferença é muito grande. Imagens, vasos, tapetes, castiçais, lembrando muita antiguidade e pouco interesse daquele que reza: diligo decorem domus tuae [amo a habitação da vossa casa (Sl 25, 8)]. Abandonado no sacrário, Nosso Senhor não vê passar uma alma pelo deserto da Igreja e o seu reino se prolonga bem mais que por quarenta dias e noites.

A isso nos leva a exagerada preocupação com o conforto e bem estar. Pensando em nós mesmos, esquecemos Nosso Senhor e as almas. Desideria multa nociva... mergunt homines in interitum et in perditionem [muitos desejos nefastos... que precipitam os homens na ruína e na perdição]. A raiz de todas as misérias é o desejo da riqueza. E para combatermos todos os males em sua raiz, não nos basta falar sobre a confiança na Providência. O mundo nos dirá que isso é muito fácil, quando se tem de tudo. Somente o nosso desapego e a nossa simplicidade poderão pregar e convencer.

10 DE JUNHO 

Qui parce seminat [aquele que semeia pouco (2Cor 9,6)]

Às vezes, o desânimo, o pessimismo ou mesmo a realidade me dizem que o resultado do meu trabalho não está sendo o que eu desejava. Queixo-me então da má vontade de outros, da incompreensão e indiferença com que respondem ao meu esforço. Minha preocupação é o resultado.

Tenho que me entregar ao trabalho, com todas as forças, com toda dedicação e boa vontade. Se eu não sei o quanto Deus está esperando de mim, é certo, no entanto que, se eu não lhe der todo o meu esforço, não estarei correspondendo à sua vontade. O resultado não me deve interessar tanto. Tenho que me interessar mais pela generosidade com que devo trabalhar. 

Não posso me impressionar com o que os outros pensem do resultado que eu possa conseguir; não é e nem deve ser por vaidade que eu ponho mãos ao arado. Se as censuras não me devem desanimar, chamando-me apenas a atenção, os elogios também não me façam envaidecer. Seja qual for o resultado, se eu não me poupar, dando a Nosso Senhor toda a minha boa vontade, o resultado sempre será grande aos olhos de Deus. E isso é tudo o que me deve interessar.

09 DE JUNHO

Qui quaerunt te, Deus [os que vos procuram, ó Deus (S 68,7)]

Aqueles que me vêem no altar, na igreja, no meu trabalho; aqueles que me ouvem, no púlpito ou no confessionário; todos aqueles que passam por mim, nas ruas e praças... poderei dizer o que vai na alma de cada um? Meu Deus, eu não sei qual seja o momento de tua graça para ninguém.

Não sei quais as circunstâncias que a tua misericórdia escolheu para o último assalto a uma alma que desejas conquistar. Eu não conheço bem todos os caminhos que o teu amor percorre, antes de chegar às profundezas de uma consciência. O que eu sei é que a tua misericórdia não descansa. A qualquer momento o teu amor poderá usar de mim, para os teus planos de conquista.

Colocado sobre o candelabro, quanto bem não poderei fazer, quando menos pense estar fazendo o bem! Mas, quanto mal não poderei fazer, se me esquecer que estou numa contínua evidência! Quanto bem poderás deixar de fazer porque, no momento exato, não poderias contar comigo! És o Bom Pastor que não descansa, à procura das tuas ovelhas. Que eu esteja, continuamente, em condições de ser usado pela tua graça na conquista das almas que o teu amor persegue!

08 DE JUNHO

Saeculi tristitia mortem operatur [a tristeza do mundo produz a morte (2Cor 7,10)]

Essa tristeza nunca poderá estar em nossa vida. Ela é do mundo porque não se eleva pela conformidade e pelo amor a Deus. É o desânimo que nos abate; é o pessimismo que nos leva ao isolamento, à falta de zelo e de caridade.

Vazia de Deus, essa tristeza não tem fé. Por isso acaba fechando a nossa alma para tudo e para todos. Mortem operatur [produz a morte] — é o resultado da falta de confiança. Quae enim secundum Deum tristitia est, poenitentiam operatur in salutem [com efeito, a tristeza segundo Deus produz um arrependimento salutar] — a tristeza cheia de Deus eleva a alma para o arrependimento, para as boas resoluções, enfim, para a graça. Não é o pessimismo nem o isolamento mas a confiança que nos leva a procurar o perdão e a força que Nosso Senhor nos pode dar.

Foi essa a tristeza do Apóstolo, após as negações; tristeza cheia de esperança, na certeza de que o Mestre o haveria de perdoar. A própria Igreja me aconselha essa tristeza de penitência e contrição: Humiliate capita vestra Deo [inclinai vossas cabeças diante de Deus], mas insiste na confiança, ao me dizer, todos os dias: Sursum corda! [Corações ao alto!]. Uma alegria santa e um otimismo alegre só poderão fazer bem à minha alma e às almas.

07 DE JUNHO 

Aprehende vitam aeternam [conquista a vida eterna (1Tm 6,12)]

Todos os dias, de manhã, tenho diante dos olhos o pondus diei [o peso do dia] que me espera. E, muitas vezes, com que insistência não reclama os meus cuidados e minha atenção! Tanta coisa para pensar, para decidir e fazer! Todos os meses e todos os anos me apresentam novos problemas e novos trabalhos. 

E eu não posso fugir a essa luta sem tréguas, que exige nada menos que todas as minhas forças. Em meio a tanta agitação, unum est necessarium [só uma coisa é necessária]. Tenho que me preocupar com tudo, sem esquecer o principal: a eternidade que virá depois de tudo.

Sim, ela virá depois de tudo; mas se não me preocupar com ela, antes de tudo, estarei esquecendo a única coisa necessária. Se eu não me preocupar agora com a minha eternidade, depois será tarde. Se eu a não ganhar agora, nunca mais a poderei ganhar. Aprehende vitam aeternam, in qua vocatus es [conquista a vida eterna, para a qual foste chamado] — tudo em minha vida só pode ter essa finalidade. Quid prodest homini?... [que servirá ao homem?... (Mt 16, 26]. À luz dessa pergunta de Nosso Senhor, é que eu devo colocar todos os meus cuidados e preocupações hoje, amanhã e sempre.

06 DE JUNHO

Vinctus Christi Jesu [prisioneiro de Jesus Cristo (Ef 3,1)]

Há, nesta palavra do Apóstolo, uma secreta alegria, por ter provado até os horrores do cárcere por amor ao seu Mestre. E há também um santo orgulho em se dizer 'Prisioneiro de Cristo'. O pensamento de que estava preso por causa de Nosso Senhor era-lhe um consolo que somente o podia animar. Por isso, nenhum abatimento e nenhuma inveja daqueles que podiam trabalhar em liberdade. Ele sabia que o seu cárcere era um exemplo e uma pregação. Sua inatividade, por amor ao Mestre, só poderia aumentar o mérito do seu apostolado.

Quando as forças me abandonarem, quando a saúde não corresponder, quando me faltar a necessária capacidade, não poderei deixar que o desânimo e o pessimismo estraguem meu apostolado. Não é somente com as forças físicas que eu posso trabalhar para Nosso Senhor.

E quando a obediência, ou mesmo a incompreensão não me permitir realizar tudo o que eu desejaria realizar, vinctus Christi [prisioneiro de Cristo] — preciso aceitar essa prisão em que as circunstâncias me fecham, acrescentando mais um sacrifício ao meu apostolado. O bom exemplo será sempre a melhor pregação.

05 DE JUNHO 

Vae vobis! [ai de vós! (Lc 6,24)]

Oito vezes seguidas, Nosso Senhor pronunciou, numa única ocasião, esta palavra. Era o que tinha a dizer aos fariseus e mestres da Lei. Era o seu desprezo divino, condenando a presunção dos homens. Que gestos e que olhares não terão acompanhado essa linguagem tão forte, que arrasava, perante o povo, a hipocrisia daqueles que pareciam intangíveis!

Hoje, somos nós os Mestres da Lei divina. A verdade está muito mais ao nosso alcance que para o comum dos fiéis. In medio Ecclesiae [no meio da Igreja], à vista de todos, fomos colocados super candelabrum [luz sobre o candelabro]. E é por isso que uma ruga em nossa vida é mais lamentável que uma chaga na vida de um leigo. Acostumados a ensinar a verdade e a condenar o erro, facilmente podemos cair na presunção de nos julgarmos um modelo em tudo.

Se algum colega fizer qualquer reparo a nosso respeito, diremos que é uma falta de caridade. Se houver algum comentário ou censura, da parte dos leigos, diremos que não precisamos levar em conta o que dizem as más línguas. E não procuramos saber, com sinceridade, se os reparos e censuras têm sua razão de ser. Fechamo-nos, intangíveis, na torre da nossa presunção. Se então a nossa consciência não nos despertar, fazendo-nos ver certas falhas, que o poderá  fazer?

04 DE JUNHO 

Duobus dominis servire  [servir a dois senhores (Lc 16,13)]

A tibieza em minha vida e a falta de fervor são sempre uma tentativa de realizar o que Nosso Senhor já declarou impossível. Querer a virtude e não romper com o pecado; rezar sempre: et ne nos inducas in tentationem [e não nos deixeis cair em tentação] e não evitar as ocasiões perigosas; querer o fervor e não renunciar a tudo o que me leva à dissipação... esse o absurdo que eu não posso realizar: nemo servus potest [nenhum servo pode].

São Paulo, cuja sinceridade não se prestava a servir a dois senhores ao mesmo tempo, já perguntava admirado: Quae enim participatio iustitiae cum iniquitate? quae societas lucis ad tenebras? [que união pode haver entre justiça e iniquidade? que sociedade entre a luz e a s trevas? (IICo, 6,14)]. O exemplo de minha vida para o mundo tem que ser um sal limpo e puro, pois Nosso Senhor já me disse que sal infatuatum ad nihilum valet ultra [o sal insosso para nada mais serve] nenhum resultado produz.

Aos olhos de todos, a minha virtude precisa ser uma luz sem sombra, que ilumine com segurança, inspirando certeza e coragem — luceat lux vestra! [brilhe a vossa luz!].  Preciso ter mais cuidado para que certos hábitos não estraguem o sal do meu bom exemplo e nem diminuam o brilho da minha vida, aos olhos do mundo e aos olhos de Deus.

03 DE JUNHO

Tu autem, o Homo Dei... [mas tu, ó homem de Deus... (1Tm 6,11)]

Com que respeito e convicção, o Apóstolo não terá escrito essa palavra! Se ele não me deixou uma definição verbal do Homo Dei [homem de Deus], em sua vida ele o soube retratar com perfeição. Pelo sacerdócio eu me tornei esse homem de Deus, porque fui destinado, ungido para Ele. Isso porém não basta. Tenho que ser um homem todo de Deus na minha vida.

Às vezes a tentação é esta: sou padre, é verdade, mas também sou homem. Preciso inverter a tentação, pensando de outra forma: Sou homem, é certo, mas também sou um sacerdote. Ungido e destinado para o serviço de Deus, tenho que ser diferente dos outros que não o foram. Sendo humano, não posso pretender uma vida nas alturas, despreocupado das almas. Sendo, porém, de Deus, não devo igualar-me aos outros que não o são. 

Sendo homem, preciso viver neste mundo, interessando-me pela sua salvação. Mas, como homem de Deus, preciso viver acima deste mundo, não me deixando contaminar pelo seu espírito. Quando deixei de ser um simples homem, foi para me tornar um homem de Deus, à imagem e semelhança do Homem de Deus.


02 DE JUNHO 

Crucifixi sunt cum eo duo latrones [foram crucificados com ele dois ladrões (Mt 27,38)]

Um dos ladrões era a revolta; o outro, a conformidade. O Mestre da paciência esteve crucificado entre a confiança e o desespero. Foi sempre assim. Nosso Senhor conheceu esses dois grupos: os inconformados e os que aceitam o sofrimento com espírito sobrenatural de reparação.

Sofrer porque não há remédio é próprio daqueles que não amam. Aceitar, porém, o sofrimento, com espírito de reparação, é coisa daqueles que pensam como o Apóstolo: adimpleo ea quae desunt passionum Christi [o que falta às tribulações de Cristo (Cl 1,24)]. Preciso pensar que minha vida só tem significação se estiver unida à morte de Nosso Senhor. Ela é a minha cooperação, para que as almas possam crescer in mensuram aetatis plenitudinis Christi [na medida da plena estatura de Cristo (Ef 4, 13)].

Não posso profanar o sofrimento com meu espírito pagão; ele é sagrado já que pertence à Redenção que eu devo realizar in unione illius divinae intentionis [em união com aquela divina intenção]. Toda a minha vida sacerdotal gira em torno de um sacrifício — o do Calvário, que eu renovo diariamente. A essa Redenção devo unir os sacrifícios da minha cooperação: pela Santa Igreja, pelos pecadores, por mim mesmo. Confixus sum Cruci [crucificado com Cristo]: esta palavra deve refletir a minha vida.

01 DE JUNHO 

Et contristati sunt vehementer [e ficaram profundamente consternados (Mt 17,23)]

Essa imensa tristeza dos Apóstolos foi causada pelas palavras de Nosso Senhor: Filius hominis tradendus est in manus hominum, et occident eum [o Filho do Homem deve ser entregue nas mãos dos homens, que vão matá-lo]. Os discípulos não podiam imaginar fosse essa a sorte reservada ao seu Mestre.

Em nossa vida não faltam tristezas e aborrecimentos que, muitas vezes, nos colocam numa situação de apatia, desânimo e pessimismo. Sinal que não agimos sempre de acordo com a Vontade de Deus, com verdadeiro espírito de fé. Se em tudo nos dirigíssemos pela boa intenção, ela não nos deixaria desanimar. Infelizmente, a nossa imprudência e precipitação é que dirigem muitas vezes a nossa atividade. E daí os aborrecimentos e os percalços que nos tornam desanimados e pessimistas.

Examinemos o nosso modo de agir e de trabalhar. Podemos dizer que, em tudo, aparece e prevalece o amor a Deus ou o zelo pelas almas? O que fazemos sinceramente para Nosso Senhor não nos aborrece nem desanima. O que nos torna apáticos ou mal humorados são as preocupações alheias ao nosso ministério, introduzidas em nossa vida pela vaidade, ambição e mesmo por uma caridade bastante sentimental. Que tenhamos zelo, sim, mas prudência também e boa intenção pois nemo militans Deo implicat se negotiis saecularibus [nenhum soldado de Deus pode dedicar-se aos negócios mundanos (2Tm 2,4)].

31 DE MAIO 

Petrus sequebatur eum a longe [Pedro o seguia de longe (Mt 26,58)]

Senhor: quanto não tenho que aprender do teu Apóstolo, nesse momento em que ele me poderia parecer um medroso, um covarde! Quando todos fugiram, embora de longe, ele te seguiu. Sozinho, em meio àquela turba, ele compreendia que nada seria possível fazer em tua defesa. 

Já estaria pressentindo a tormenta de ódio que iria desabar sobre o seu Mestre, naquele palácio do pontífice. Disfarçando, fingindo, ele procurou acompanhar-te, embora de longe. Uma força misteriosa não o deixava fugir, como os outros fizeram. Sentia-se preso pelo amor, a um Mestre e Amigo preso pela inveja e pelo ódio. Realmente, ele te queria bem!

Senhor, há muitos anos que eu te venho seguindo. E, se nem sempre te segui de perto, nunca também eu te quis abandonar. Meu consolo é que conheces minha boa vontade, assim como reconhecias o amor e dedicação do teu Apóstolo. Se ele te seguiu de longe foi porque as circunstâncias não lhe permitiram ficar ao teu lado, como sempre fizera. Tu scis quia amo te [tu sabes que te amo] — aumenta, Senhor, a minha generosidade para que eu não me conforme em te seguir sempre de longe. Que eu procure, com todas as forças, aproximar-me sempre mais de Ti!

30 DE MAIO

Non turbetur cor vestrum [Não se perturbe o vosso coração (Jo 14,1)]

'Uma terceira qualidade quereríamos no apóstolo que atende à santificação das almas. Há na Igreja um sopro do Espírito Santo, que convoca ao heroísmo, à dedicação completa. No meio dos espinhos de um mundo novamente pagão, brotam, sempre mais numerosas, flores imaculadas, que recreiam com sua frescura, e encantam com seu perfume: espíritos eleitos, de todas as idades e condições.

Quiséramos que, com uma santa coragem, os sacerdotes soubessem propor os alvos de uma santidade mais elevada. Porque tantas almas caem nas redes do mundo? Por acreditarem achar nele aquilo que faz o objeto de seus anseios; infelizmente tarde demais, percebem elas que os frutos dessa convivência são a inquietação, a dúvida, a tristeza, a desconfiança, o ódio. Sede corajosos!

Sabei tomar pela mão as almas e impeli-las, doce mas firmemente, para Jesus, para a amizade com Ele, para a transformação nEle. Fazei-lhes compreender que, só assim, elas acharão a paz, a fé, a alegria, a esperança, o amor; só assim elas acharão a vida. Sede discretos em começar, constantes em continuar, corajosos em levar a termo' (Pio XII).

29 DE MAIO

Non mea voluntas fiat [não se faça a minha vontade (Lc 22,42)]

'Outra qualidade, porém, deve ter o apóstolo, no trato com as almas, objeto dos seus cuidados pastorais. Sucede que nem sempre se consegue aquilo que se quer e raro é que se obtenha imediatamente. Nem está excluído que hostilidade, frieza ou indiferença possam tentar o sacerdote a desistir da sua obra ou tornem sua ação mais fraca e menos eficaz.

O apóstolo deve ser constante, persistente, sem ceder ao cansaço e ao tédio. Precisa saber ficar a pé, quando tudo impele a vacilar; ficar firme, quando se devesse cair de bruços ao peso de uma angústia que transforma em silenciosas agonias certas noites que parecem eternas. 

Então, quando os lábios do apóstolo murmura: Quid lucri? [o que ganhei?] ou quando dolorosamente ele exclama: Transeat a me... [aparte de mim...] é preciso que ele acrescente logo, como Jesus no Horto: Non mea voluntas sed tua, fiat [não se faça a minha vontade, mas a tua (Lc 22,42)]. E Deus enviará o anjo consolador para revigorá-lo, para sustentá-lo e a sua obra de salvação prosseguirá para coroar o seu zelo e o seu sacrifício' (Pio XII).

28 DE MAIO 

Zelus domus tuae [o zelo da tua casa (Jo 2,17)]

'Sede, antes de tudo, discretos em começar. Impelido pelo zelo que muitas vezes o devora, pode o sacerdote apóstolo cair num erro danoso pretendendo conseguir tudo de uma vez. Proceder desse modo significa expor-se primeiro a vãs ilusões, e depois, a desilusões amargas.

Não pode o apóstolo deixar de considerar a fraqueza moral alheia, a falta de preparo intelectual, as pessoas e coisas no meio das quais vive e, por assim dizer, a margem de onde a alma extraviada deveria vir a ele, melhor, voltar a Deus, se ela se deixasse induzir a empreender a travessia. Mas atacá-la com argumentos que ela não entende ou pedir o que ela não está preparada para lhe dar certamente seria nocivo aos efeitos do apostolado.

Essa discrição não quer dizer condescendência com a falsidade e com o mal. Trata-se aqui de iniciar os entendimentos para uma paz justa, não entre o bem e o mal, o que seria absurdo, mas entre o homem que renuncia a sua malícia e Deus que o acolhe. Saber renunciar a pressa, saber aguardar o momento propício, saber dosar o que se diz e o que se pede: eis um primeiro requisito indispensável à ação apostólica individual' (Pio XII).


27 DE MAIO

In tua simus voluntate concordes [concordes em fazer a Vossa Vontade]

Assim reza a Igreja. E, ensinando-nos a rezar, Nosso Senhor já nos lembrou que precisamos concordar com Deus, em tudo: Fiat voluntas tua, sicut in caelo [seja feita a vossa vontade como no céu]. Nós... discordando de Deus —  parece incrível, mas é o que acontece.

Temos que viver unidos a Nosso Senhor pela oração para que a nossa vontade e os nossos caprichos não ponham a perder nossas atividades. Nisi manserit in vite, palmes non potest ferre fructum a semet ipso [sem permanecer na videira, os ramos não podem dar frutos por si mesmos (Jo 15,4)]. Poderemos realizar maravilhas e passar pelos maiores sacrifícios; sem Ele, tudo será inútil, sem valor. A Igreja não é um regnum in se divisum [reino dividido em si mesmo] — é um corpo, cuja cabeça é Nosso Senhor. Para vivermos unidos a esta Cabeça, temos que viver com a Igreja, trabalhando com seu zelo sobrenatural, com seu amor e dedicação à glória de Deus.

Homo quidem habuit duos filios [um homem tinha dois filhos (Lc 15, 11)] — e um deles não quis concordar com seu pai, permanecendo em casa. Saiu para viver em liberdade. Nesse dia começou a sua ruína. É nessa desgraça que continuam a cair aqueles que não querem concordar com Deus, por não concordarem com sua Igreja ou com os próprios superiores.

26 DE MAIO 

Tu es qui venturus es? [sois vós aquele que deve vir? (Mt 11,3)]

A essa pergunta, Nosso Senhor respondeu, lembrando a sua doutrina e os seus milagres: Renuntiate quae audistis et vidistis [contai o que ouvistes e o que vistes (Mt 11,4)]. Hoje temos diante de nós aqueles que ainda não conhecem o Mestre. Querem conhecê-lo e por isso o procuram. Temos também aqueles que o conheceram e o abandonaram; não se interessam mais por Ele. A uns e outros deve chegar o nosso zelo, cheio de solicitude e prudência.

Se não lhes podemos oferecer milagres, como prova da nossa missão divina, nem por isso estamos desarmados diante da incredulidade ou da indiferença. O que podemos e devemos apresentar é o espetáculo de uma virtude a toda prova, assentada sobre uma doutrina que não é deste mundo. 

Se nossa vida estiver em tudo de acordo com a doutrina que pregamos, o mundo compreenderá que está diante daquele que pode perguntar: Quis ex vobis arguet me de peccato? [quem de vós me acusará de pecado? (Jo 8,46]. Para as almas não basta ouvir a doutrina do Mestre, querem vê-la praticada: Audistis et vidistis [ouvistes e vistes]. A santidade de nossa vida, toda iluminada pela presença de Nosso Senhor, será o argumento decisivo para aqueles que não creem. E, diante de nós, eles irão reconhecer: Invenimus Messiam [encontramos o Messias].

25 DE MAIO

Saepe videtur caritas... [muitas vezes parece caridade...]

Com a sua experiência, Santo Agostinho nos previne contra uma falsa caridade, nascida de um sentimentalismo perigoso — ubi non est nisi carnalitas [onde não há senão amor próprio]. Às vezes, são pessoas que trabalham nas obras paroquiais, nas associações, no cuidado da igreja... 

Às vezes, pessoas que nos distinguem com uma amizade toda especial: cartas, visitas, presentes. Aqui é uma pessoa que se diz escrupulosa, à procura de um guia e de um apoio. Ali é alguém que se julga vítima, incompreendida, sob o peso de mil problemas e dificuldades. Todas elas se julgam almas eleitas e, por isso, credoras de uma atenção especial. Querem elogios, visitas, horas de sala e de confessionário. Às vezes, por um nada, armam verdadeiras tempestades de ciúmes, comentários e aborrecimentos para o sacerdote. 

Aparentando piedade, querem monopolizar o vigário ou o confessor e, sob o disfarce de caridade, procuram apenas a si mesmas. Com um pouco de prudência, facilmente o sacerdote irá saber logo do que se trata. Valha-nos aqui o aviso de Nosso Senhor: Cavete ab hominibus! [cuidai-vos dos homens!]. E com a observação de um comentarista: Cavete a mulieribus! [cuidai-vos das mulheres!].


24 DE MAIO 

Dominus sollicitus est mei [O Senhor vela por mim (Sl 39, 18)]

Quanta poesia, quanta unção pôs Nosso Senhor em suas palavras, ao nos falar da Providência divina! (Mt 6,25). E, para o salmista, a Providência não é um simples cuidado de Deus a nosso respeito — o que já seria muito — mas é a solicitude de um Pai, verdadeira  preocupação de Deus para conosco.

Se Deus não somente cuida de nós, mas até vive preocupado conosco, porque teremos que pensar tanto em nós mesmos? Quid solliciti estis? [por que vos inquietais?]. Não precisamos pensar tanto no dia de amanhã: sufficit diei malitia sua [a cada dia basta o seu mal]. Os interesses de Nosso Senhor são as almas, e é a elas que nos devemos dedicar. Temos que ser a Providência divina para os outros, preocupando-nos com eles, material e espiritualmente. E como será isso possível, se não nos esquecermos de nós pela confiança em Deus?

Nosso egoísmo é tão grande que enche todos os nossos cuidados. Não há lugar para ninguém. Temos que sair das nossas preocupações, dando lugar a outros. E podemos sair tranquilos, confiando nessa verdade tão antiga, que Abrão, o Patriarca, já nos ensinou: Dominus providebit [o Senhor proverá].

23 DE MAIO 

Omnia vestra in caritate [tudo fazeis na caridade (1Cor 16,14)]

Se este conselho do Apóstolo valia para os simples fiéis, quanto mais não deverá valer para nós, sacerdotes. Que sentido terá a nossa vida de sacrifício, de renúncia e imolação, se não fizermos da glória de Deus uma como ideia fixa de toda a nossa atividade? Somente um grande amor a Nosso Senhor e às almas poderá justificar e explicar uma vida verdadeiramente sacerdotal.

Escrevendo aos padres da sua congregação, Santo Afonso dizia: 'Desejo imensamente que todos vivam como enamorados de Jesus Cristo, principalmente nestes tempos infelizes, em que Ele é tão pouco amado no mundo'. Realmente, Nosso Senhor está esquecido, porque o trabalho e a dissipação tomaram conta do mundo. Mas Ele espera que, ao menos os seus escolhidos se interessem por Ele: Numquid et vos vultis abire? [quereis vós também retirar-vos? (Jo 6,67].

Se nós, que devemos dar Nosso Senhor às almas, não nos interessamos por Ele; se damos ao mundo o espetáculo de uma vida dissipada porque nos preocupamos com outros interesses, muito mais que com Nosso Senhor; enfim, se nós não vivemos in caritate [na caridade], assim como ensinamos a outros, então é mesmo para se exclamar com Santo Afonso: Pobre Jesus Cristo!...

22 DE MAIO

Consurgunt reges terrae... [insurgem os reis da terra...(Sl 2,2)]

Deliciosa a expressão do salmista: Deus fazendo mofa dos seus inimigos. São reis e poderosos da terra que se levantam contra Ele. Mas, são reges terrae... [reis da terra...]. Pelo caminho de nosso ministério não faltam dificuldades que precisamos vencer. A oposição de alguns, a incompreensão de outros, a indiferença de muitos, e ainda, as nossas próprias falhas, tudo está diante de nós, dificultando o nosso trabalho.

Não nos admiremos; somos ministros de uma Igreja militante — in mundo pressuram habebitis [vós tereis aflições no mundo]. E se hoje a fé parece encontrar maiores dificuldades, nem por isso diminuiu a força de Deus que nunca abandonou a sua Igreja. Se pusermos a nossa confiança nos meios humanos, certamente iremos desanimar. Temos que nos apegar a Nosso Senhor pela vida de oração. A união com Deus é que nos dará a força de Deus.

E mesmo quando tudo nos parecer perdido, a confiança não nos deixará desanimar. Com a morte do Mestre, os discípulos poderiam pensar que tudo estava terminado. Mas a Ressurreição lhes mostrou que era apenas o começo, o que eles pensavam fosse o fim. Confidite, ego vici mundum [Coragem. Eu venci o mundo!].

21 DE MAIO 

Scio opera tua [conheço as vossas obras (Ap 2,2)]

Meu Deus, que consolo para mim saber que conheces tudo em minha vida! Se nada escapa aos olhos da tua Justiça, nada perde também a tua Misericórdia. O que me anima é pensar que olhas para a minha vida, mais com amor do que com justiça. 

O que te interessa não é tanto aquilo que possa merecer castigo; o que procuras em minha vida é, principalmente, o que possa merecer uma recompensa. Com amoroso carinho vives recolhendo tudo o que possa formar a minha eternidade, na glória que me queres dar. Sei muito bem que um simples copo de água dado por teu amor non perdet mercedem suam [não perderá a sua recompensa (Mt 10, 42)]. Se o mundo não reconhece o meu trabalho e se não dá valor aos meus sacrifícios, não importa.

In domo Patris mei [na casa do meu Pai] há uma recompensa à minha espera porque os teus olhos não perdem as migalhas que enchem a minha vida. O teu amor de Pai não me esquece e está recolhendo, um por um, os meus dias de trabalho. Quando estiver pronta a minha eternidade, sei que me virás buscar porque queres a minha companhia, para sempre: Intra in gaudium Domini tui! [entra na glória (alegria) do teu Senhor! (Mat 25, 21)].

20 DE MAIO 

Et videns eos sequentes... [e vendo que O seguiam...(Jo 1,38)]

Tendo ouvido que Nosso Senhor era o Cordeiro de Deus, os dois discípulos o seguiram. E o Mestre lhes perguntou: Quid quaeritis? [o que procurais?] — Eles queriam o Mestre, queriam a sua doutrina. Seguir a Nosso Senhor é o que já estamos fazendo há muito tempo. Mas se Ele nos perguntasse, às vezes: Quid quaeritis? [o que procurais?] — qual seria a nossa resposta?

Infelizmente nem sempre o seguimos com aquele interesse dos Apóstolos. Enquanto o acompanhamos, deixamo-nos prender por muita coisa que nos atrai, que desvia a nossa atenção e até nos afasta do caminho certo. Quando procuramos fugir a um trabalho, quando descuidamos alguma obrigação — quid quaeritis? [o que procurais?].

Quando reclamamos, sentindo-nos prejudicados em nosso descanso ou comodismo — quid quaeritis? [o que procurais?]. Quando condescendemos com a vaidade, preocupando-nos demasiado conosco, ou com outros — quid quaeritis? [o que procurais?]. Facilitando em certas ocasiões, alimentando certos apegos e amizades quid quaeritis? [o que procurais?]. Consultemos a nossa consciência e ela nos irá mostrar como, muitas vezes, pensando procurar a Nosso Senhor, estamos procurando a nós mesmos.

19 DE MAIO 

Iuvenilia desideria fuge! [foge das paixões da mocidade! (2Tm 2,22)]

Assim escreveu São Paulo a um moço. Mas, nem por isso, deixa de ser um conselho para aqueles que já estão mais avançados em anos. Iuvenilia desideria [paixões da mocidade] — porque atraem a mocidade, não deixam de impressionar também a idade madura.

Certas ilusões e ingenuidades são próprias da falta de experiência e, por isso, aparecem com mais frequência na mocidade. Outras porém, como a vaidade, o apego e os ciúmes não fazem questão de morar só em coração de moço; aninham-se perfeitamente em qualquer vida, em qualquer idade. Eu não devo pensar que, por ser mais avançado em anos, já esteja também mais longe nos caminhos da virtude. 

Eu bem sei que outros, em menos tempo, fizeram muito mais do que eu, nos anos todos que vivi. Preciso me prevenir contra essa falta de disposição para a luta, que os anos me poderão trazer. Avançando em idade, poderei atrasar-me ou até estacar no caminho da virtude. O programa do Apóstolo a Timóteo não é para ser realizado nuns poucos anos de mocidade; é trabalho, é luta para toda a vida: sectare vero iustitiam, fidem, spem, caritatem [busca com empenho a justiça, a fé, a esperança e a caridade]. Se eu não sei quantos anos de vida ainda terei, no caminho da virtude resta-me ainda muito para percorrer.


18 DE MAIO 

Ut etiam pro illo patiamini [mas, por Ele, sofrer (Fl 1,29)]

Diz o Apóstolo que nós recebemos não somente a graça de crer em Nosso Senhor, mas também a de podermos sofrer por Ele. Uma fé profunda leva-nos sempre ao espírito de sacrifício e reparação. Os mártires são a Fé que não morre.

Trabalhar para Nosso Senhor não nos pesa tanto, ainda mais quando dispomos de uma boa saúde, aliada a uma disposição natural para a atividade. Até a nossa vaidade se oferece para nos auxiliar no trabalho. Mas tratando-se de sofrer a falta de saúde, as incompreensões, a ausência de meios ou de qualidades... só mesmo um grande amor a Nosso Senhor é que nos pode animar. Ante o sofrimento as forças desaparecem.

Precisamos compreender que, sofrer por Ele, não é nenhum castigo; é uma graça. O sofrimento é um mérito puro, quando alimentado pelo amor; ninguém sofre por gosto ou vaidade. Messis quidem multa [a messe é grande (Lc 10,2)] — não é pouco o que devemos reparar com nossos sacrifícios. Operarii autem pauci [os operários são poucos (Lc 10,2)] — mas não são muitos os que se dedicam a essa forma de apostolado. No entanto, diz São Francisco de Sales, sofrer é quase a única coisa de bom que podemos fazer neste mundo. Nossa natureza não o entende; nossa generosidade o irá compreender.

17 DE MAIO 

Daemones rogabant eum [os demônios imploraram a Ele (Mt 8,31)]

Por incrível que pareça, um dia os demônios fizeram um pedido a Nosso Senhor: E que pedido! Si ejicis nos hinc, mitte nos in gregem porcorum... [se nos expulsas, envia-nos para aquela manada de porcos...]. Eram os demônios que pediam e Nosso Senhor os atendeu!

Depois disto, como não confiar nas palavras do Mestre: Petite et accipietis [Pedis e recebereis]? Impossível a Nosso Senhor não cumprir o que nos prometeu. Mas a condição é que peçamos. O Bone Jesu! [Ó Bom Jesus!] que eu me convença, de uma vez por todas, do amor com que me amas e da misericórdia com que me olhas! Eu devo pensar que nunca deixarias de atender a um pedido meu, porque, sem que eu o pedisse, já fizeste muito mais por mim.

Que eu reconheça a minha miséria de filho pródigo: preciso da tua força, da tua vida e, principalmente, do teu perdão. Embora pródigo, sempre serei teu filho, com direito de falar com meu Pai. Que eu não renuncie a esse direito porque seria essa a minha perdição. Preciso me convencer de que nada tenho e tenho tudo, na promessa de uma riqueza infinita que o teu amor me preparou. Mas essa riqueza somente será minha se eu a souber desejar e pedir, pois 'quem reza se salva'.

16 DE MAIO

Simile est regnum caelorum... [o Reino de Deus é similar ... (Mt 13,31)]

a uma sementeira que, lançada à terra, germinou, desenvolveu-se e se fez árvore, para abrigar as aves do céu: aí está o Reino de Deus em minha vida. Mas, para que a semente crescesse, foi necessário muito cuidado e carinho; do contrário, nem teria germinado.

No campo da minha vida, quanta sementinha tem sido atirada por Nosso Senhor. São, muitas vezes, insignificâncias, que eu não considero, mas que Ele já viu e sabe porque colocou nos meus caminhos. Nihil odisti eorum quae fecisti [(Deus) não odeia nada que fez (conforme Sb 11,25)] — os seus olhos consideram tudo, embora eu não queira considerar. Preciso dar às outras pequenas sementes o valor que elas têm. Se eu as desprezar, estarei desprezando a minha existência mesma. Aos olhos de Deus tudo é grande, porque de tudo Ele se serve para transformar a minha vida no seu Reino.

A fidelidade nas coisas pequenas nunca foi uma pequena virtude. Renunciar a uma palavrinha que eu iria dizer; caprichar numa simples genuflexão que iria ser apressada; fazer uma jaculatória para ganhar um momento que eu iria perder... quanto esforço e espírito de fé! E é desse esforço que está dependendo o Reino de Deus em minha vida.

15 DE MAIO

Implete hydrias aqua! [enchei as talhas de água! (Jo 2,7)]

O que pediam os convivas era vinho. Sua Mãe lhe diz: Vinum non habent [eles não têm vinho]. E Nosso Senhor manda encher as vasilhas com água... Sempre a sua misteriosa Providência! Et impleverunt eas [e encheram-nas] — logo depois a água estava transformada no melhor dos vinhos.

Em minha vida, há muita coisa a que não dou importância, como a água à hora daquele banquete em Caná. Mas... quodcumque dixerit vobis, facite [fazei o que Ele vos disser (Jo 2,5)] — que eu faça tudo, de acordo com Nosso Senhor. Que eu não me negue a cooperar com a sua Providência, embora não compreenda os seus desígnios. Que eu ponha toda a minha obediência e amor na vida simples que levo. Que eu me entregue, com toda confiança, à vontade de Nosso Senhor porque Ele não irá estragar nada, mas transformar tudo.

Não tenho que me inquietar, perguntando porque isto ou porque aquilo. A infinita Sabedoria já previu tudo em meu favor. Que eu não lhe negue a minha dedicação e Nosso Senhor saberá mudar a água da minha vida no vinho da minha eternidade. Que a minha única preocupação neste mundo seja o que Santo Tomás tão sabiamente pedia: Quae tibi placita sunt, ardenter concupiscere, prudenter investigare, verasciter agnoscere, et perfecte adimplere [aquilo que te agrada (ó Deus) ardentemente desejar, prudentemente investigar, verdadeiramente conhecer e perfeitamente realizar].

14 DE MAIO

Ut omnes facerem salvos [para que todos sejam salvos (1Cor 9,23)]

É São Francisco de Sales quem nos dá uma receita muito sábia para o nosso ministério pastoral. Diz ele que, para dirigir bem as almas, precisamos de um copo de ciência, um barril de prudência e um oceano de paciência.

Um copo de ciência — é certamente o mínimo. E se nos descuidamos, perdendo o contato com os livros, esse copo de ciência adquirido no seminário poderá secar. Um barril de prudência — e é Nosso Senhor quem indica a qualidade, mandando-nos ter uma prudência de serpentes. O Mestre já nos avisou que estaríamos no mundo, como ovelhas entre lobos. Geralmente ignoramos as dimensões da falsidade que nos rodeia: mundus vult decipi [o mundo quer ser enganado].

Um oceano de paciência — é o mais difícil, e também o mais necessário. Sem paciência, acabaremos no desânimo; não nos faremos ouvir nem compreender. Foi justamente pela paciência e mansidão que São Francisco de Sales realizou tanto. É que a bondade atrai a todos e para os pecadores, principalmente, ela já é uma promessa e uma esperança de perdão.

13 DE MAIO 

In veritatis amore crescamus [cresçamos no amor à verdade]

Esta a graça que a Igreja pede para nós na oração do dia. Uma graça que nunca deveríamos deixar de pedir: o amor à Verdade, e, consequentemente, o horror aos pecado, que é a mentira: In veritate non stetit, quia non est veritas in eo... mendax est [não permaneceu na verdade, porque a verdade não está nele... é mentiroso (Jo 8,44)].

Como a nossa natureza pende sempre para o pecado, entre a Verdade e a mentira, esta sempre ganha a nossa preferência. Daí o nosso medo à Verdade; custa-nos tanto a sinceridade com a nossa consciência, e com Deus mesmo! E daí também o nosso apego à mentira. 

Podemos dizer que ela anda solta em nossa vida: a mentira do orgulho, que já vem do Paraíso, a nos dizer que não precisamos obedecer tanto, nem a Deus, nem aos superiores; a mentira do apego, dizendo que este mundo pode muito bem contentar o nosso coração; a mentira da sensualidade, insinuando-se à nossa simpatia, como se o prazer dos sentidos superasse as alegrias do espírito. O demônio é a mentira; por isso a Igreja pede que Deus nos livre ab insidiis diaboli [das ciladas do demônio], para que sejamos mais sinceros com a nossa consciência e com Nosso Senhor.

12 DE MAIO 

Non omnia expediunt [nem tudo é oportuno (1Cor 10,22)]

Inspirado pelo meu orgulho e comodismo, às vezes, penso assim: Não me importa o que outros pensem ou digam a meu respeito; Deus é quem me julga. E se pergunto a minha consciência, porque chego a pensar dessa maneira, ela me responde: Porque não me quero impor certas renúncias... Para não dar o que falar, o Apóstolo renunciou a muita coisa que lhe seria lícita. E o mesmo eu terei que fazer muitas vezes. 

Certamente não estou em melhores condições que São Paulo cuja virtude, por si só, já bastava para fazer calar todos os seus inimigos. Nunca poderei sacudir os ombros, indiferente à impressão que possam ter de mim, não por respeito humano, mas porque assim exigem o meu ministério e a caridade. Não posso prejudicar a outros, expondo o meu nome. O que um faz, reflete nos outros, e até na própria Igreja.

De outro lado, a Moral me diz que muita coisa, em si lícita, poderá tornar-se ilícita, conforme as circunstâncias, principalmente em se tratando de ocasiões perigosas. Para mim também existe o perigo, pois, pela ordenação, não fui confirmado na graça. Aquele que facilita acaba caindo e, o que é pior, arrastando a muitos outros na queda.

11 DE MAIO 

Si sal evanuerit... [se o sal perder o sabor (Lc 14,34)]

Isso acontece quando o padre vai abandonando o seu fervor habitual. Com isso, perde a força... da graça. Qualquer pretexto é suficiente para dispensá-lo da meditação. Omite com facilidade o exame de consciência, à noite; o trabalho foi tanto e o cansaço é demais. Para os exercícios de piedade, não encontra o tempo necessário porque, não tendo ordem no seu trabalho, ainda se entrega à dissipação. 

A própria Missa, ele diz mas não a celebra rezando nem a pratica vivendo. Sem fervor, não se preocupa com a pureza de sua consciência. Facilita as ocasiões e as faltas vão se sucedendo, até que a consciência, morta, não reage mais ante as faltas mais graves. Logo o Homo Dei [homem de Deus] estará transformado num simples homem do mundo e, a essa altura, a própria batina poderá ir no naufrágio, se um milagre da graça a não salvar.

Ad nihilum valet ultra [para nada mais serve] — a esse ponto chegou: não servir para mais nada. Afastado de Deus e das almas, neque in sterquilinium utile est... [nem para adubo será útil...] assim falou Nosso Senhor. E com que tristeza não terá Ele proferido uma palavra tão dura!

10 DE MAIO 

Vinum novum in utres veteres [vinho novo em odres velhos (Mt 9,17)]

Nosso Senhor nos disse que não podemos conservar o vinho novo em vasilhame velho. E o mesmo pensamento exprimiu São Paulo, ao dizer que não podemos combinar o vetus homo [homem velho] com o homem renovado pela Graça. Querer conservar nossos defeitos, poupando-os, seria para nós o mesmo que renunciar à virtude. Como iríamos manifestar Nosso Senhor em nossa vida, mantendo, vivo em nós, o vetus homo [homem velho] comodista, vaidoso, apegado e cheio de si?

Não podendo ver a santidade em Nosso Senhor que lhes é invisível, as almas esperam ver a santidade no sacerdote. Supor não lhes basta, querem constatar a virtude do Alter Christus [outro Cristo]. Por isso o estudam e observam. Geralmente sabem distinguir muito bem o homem novo, feito de virtudes, e o homem velho, feito de falhas e fraquezas. Reconhecem com facilidade o Alter Christus, plenum gratiae et veritatis [outro Cristo, cheio de graça e de verdade] e o vetus homo [homem velho] que, a custo, consegue esconder-se atrás de uns poucos remendos de virtude. 

Nada mais triste, aos olhos do mundo, que um vetus homo [homem velho] transpirando vaidade, comodismo, apego e orgulho a pregar o desprendimento, a penitência, o amor a Deus. A impressão não pode ser outra: Alligant onera gravia, et imponunt in humeros hominum; digito autem suo nolunt ea movere [Atam fardos pesados e esmagadores e com eles sobrecarregam os ombros dos homens, mas não querem movê-los sequer com o dedo (Mt 23,4)].

09 DE MAIO 

Omnia in nomine Domini [(fazei) tudo em nome do Senhor (Cl 3,17)]

"Toda a vida do homem, peregrino neste mundo, deve tender para Deus e todos os atos humanos, devem, afinal, ser culto a Deus, em Jesus Cristo, e por Jesus Cristo. Ora, o oferecimento cotidiano das obras é já, per si [por si mesmo], culto prestado ao Senhor; é oração, e das melhores que, consagrando as primícias do dia, o santifica.

Mas quando vivido, animando conscientemente a executar bem as ações e a suportar bem cada sacrifício, então é a vida toda feita realmente culto a Deus, então é a oração vital de que falam os santos e que o Apóstolo inculcava aos fiéis: 'Fazei tudo em nome do Senhor Jesus'. 

Então a vida dos fiéis tenderá a elevar-se mais geralmente a um alto nível de santidade e a uma necessidade mais sentida de viver na graça de Deus, para que as nossas oblações lhe sejam aceitas. Assim, o pensamento mais frequente das grandes verdades da Fé e a maior intimidade com o Coração divino irão purificando a alma e ateando a chama do amor que vence as tentações, que não teme sacrifícios, que triunfa nos obstáculos e leva à santidade" (Pio XII).

08 DE MAIO 

Non erat eis locus in diversorio [não havia lugar para eles na hospedaria (Lc 2,7)]

Com que facilidade lemos estas palavras! E não refletimos bem quanto elas encerram de humildade para o Redentor e de doloroso para sua Mãe Santíssima. Não houve na cidade uma família que desse ao Messias um lugar para nascer. Ninguém quis receber aquela mulher que, com o seu filho, iriam dar muito trabalho... Antes de nascer, Nosso Senhor já estava sendo um incômodo, um indesejável para muita gente. E continuou sendo assim através dos tempos.

Uma senhora da sociedade pedia ao vigário para que não mandasse tocar os sinos de manhã porque a incomodavam... Após as missões, um pároco se queixava que os missionários lhe deixaram a paróquia fervorosa demais... E na minha vida, Nosso Senhor não estará sendo, às vezes, um tanto incômodo também?

Quando uma obrigação me vem tirar do meu sossego; quando um necessitado, do corpo ou da alma, me vem bater à porta fora de hora; quando um sacrifício se apresenta para estragar o meu repouso... então preciso pensar: É Ele, com toda certeza! Em Belém não o reconheceram; mas eu sei que é Ele, e preciso atendê-lo: quamdiu fecistis uni ex his fratribus meis minimis, mihi fecistis [o que fizerdes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes (Mt 25,40)].

07 DE MAIO 

Abscondi talentum tuum in terra ['escondi o teu talento na terra' (Mt 8,25)]

Meu Deus, não é para me queixar se eu digo que, na ordem temporal, não sou nenhum privilegiado. Pelo contrário, reconheço que a ausência de talentos me reduziu a uma completa nulidade. Mas na ordem espiritual, tenho que reconhecer a tua prodigalidade simplesmente incompreensível. 

A vocação à Fé, a graça, a oração e, principalmente, o sacerdócio, que me faz viver a teu lado... mais eu não poderia desejar, pois o teu amor de predileção não me podia elevar mais alto. Realmente, eu recebi demais. Se eu não tenho do que reclamar, o que eu devo, sim, é corresponder a  essa predileção, e ser digno da tua confiança. Não posso enterrar o que me deste; preciso fazer essa riqueza render, e muito mais. 

Senhor, Tu sabes quantos são aqueles que devem receber de mim e a tua Providência já determinou o quanto devo dar a cada um. Eu seria um servo inútil se não reconhecesse o valor desse tesouro que me deste e se o não soubesse administrar de acordo com teus planos. Preciso reconhecer a tua clemência nos talentos que me confiaste; essa riqueza eu a devo repartir com teus filhos, os meus irmãos.

06 DE MAIO 

Ite, docete [Ide, ensinai (Mt 28,19)]

Naquele tempo, essa palavra do Mestre poderia parecer absurda. Com que meios, com que recursos, aqueles homens sem experiência e sem prestígio, sairiam pelo mundo, ensinando a Cruz? Humanamente aquela missão deveria fracassar. Mas os discípulos obedeceram e o milagre se realizou.

Hoje desapareceram as distâncias. Posso pregar em toda parte, posso me fazer ouvir em todo o mundo, sem sair de casa. O progresso pôs em minhas mãos os meios que faltavam aos Apóstolos. Hoje eu posso me multiplicar. Nosso Senhor não me aconselhou apenas que pregasse; Ele me deu uma ordem nesse sentido. E se os meios para isso não me faltam, não posso alegar, como desculpa a minha falta de qualidades. Orator fit [o orador se faz] — tenho que me esforçar, pois o interesse pela minha missão exige que eu não me acomode na minha incapacidade.

Para ensinar a palavra de Deus, eu não devo certamente desprezar os meios humanos. Mas também não preciso ser um consumado orador sacro. Às almas de boa vontade aproveita muito mais uma palavra simples, cheia de Deus do que toda uma peça oratória, transpirando vaidade e cheirando a nada.

05 DE MAIO 

Diligo decorem domus tuae [amo a ornamentação da Vossa Casa (Sl 25,8)]

A Igreja nos lembra hoje* a figura de São Pio V, aquele que Deus escolheu ad divinum cultum reparandum [para restaurar o culto divino]. Esposa imaculada, a Igreja se dá em atenções e cuidados para com seu Esposo divino. Às vezes até nos poderia parecer exagerado o capricho, verdadeiro carinho com que ela prevê e determina todos os pormenores, referentes ao culto e à Casa de Deus.

Nós somos as pessoas dessa Casa, escalados, ou melhor, escolhidos para o serviço divino. E com que cuidado a Igreja não nos escolheu! Ela sabe o porquê. Amar a Casa de Deus significa bem mais que ter apenas um certo interesse pelas coisas da igreja. O principal, tratando-se do culto, somos nós mesmos. 

O nosso trabalho deve ser executado com aquele amor e carinho com que a Igreja procura servir a Nosso Senhor. Não pode ser executado mais ou menos. O culto sagrado está exigindo de nós alma e fervor, porque meras cerimônias, executadas sem piedade ou com uma piedade artificial, não convencem e nem elevam. No altar, mais do que nunca, somos os sacerdotes de um Deus vivo.

* no calendário católico tradicional

04 DE MAIO

Augusta porta quae ducit ad vitam! [estreita é a porta que conduz à vida! (Mt 7,14)]

Foi Nosso Senhor mesmo quem nos avisou: lata porta, et spatiosa via est, quae ducit ad perditionem [larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição (Mt 7, 13)]. Por isso Ele insiste conosco: intrate per angustam portam! [entrai pela porta estreita!]

É verdade que uma porta estreita não oferece tanta facilidade. E Nosso Senhor mesmo reconheceu que o caminho da virtude é estreito e apertada a porta de ingresso para a vida eterna: Quam angusta porta, et arcta via est, quae ducit ad vitam [porque estreita é a porta e apertado o caminho que conduz à vida!]. Segundo o Evangelho, a santidade, ora é um caminhar com a cruz às costas, ora um arado sulcando a terra. Às vezes é o trabalho numa vinha, outras vezes é o nosso empenho em forçar as portas de um Reino que sofre violências. Por isso, não devo estranhar se o trabalho me pesa e o caminho se apresenta longo e difícil. 

Nosso Senhor não me prometeu outra coisa neste mundo e Ele foi o primeiro a trilhar esse caminho do sacrifício: Exemplum dedi vobis [dei-vos o exemplo (Jo 13, 15)]. Não posso atender as queixas e lamúrias da minha natureza de morte. Quanto mais ela reclamar, tanto mais deverei compreender que não fui criado para viver sempre num vale de lágrimas. Tenho que aceitar os sacrifícios, como uma preparação amarga para uma alegria sem fim. In mundo pressuram habebitis [no mundo haveis de ter aflições (Jo 16,33)] — foi isto o que o Mestre me prometeu. 

03 DE MAIO

Nunquam indignationem tuam provocemus [(com o nosso orgulho) nunca provoquemos a vossa indignação]

É como reza a Santa Igreja, exprimindo uma preocupação sua, muito justa: Que o nosso orgulho não chegue a atrair sobre nós o desprezo e a ira de Deus. Com a sua grande experiência, dizia Santa Teresa: Prefiro ver os conventos cheios de todos os pecados, menos do pecado de orgulho: se os outros pecados dão lugar ao arrependimento, o orgulho cega a alma e não a deixa aproximar-se de Deus.

Para qualquer pecado existe sempre a Misericórdia divina; para o orgulho, só existe o desprezo de Nosso Senhor. É o que se vê no Evangelho. Até aquela mulier quae erat in civitate, peccatrix [mulher pecadora da cidade (Lc 7, 37)] encontra o perdão para a sua miséria. Mas as fariseus, que se fecharam no orgulho, não mereceram mais que o desprezo do Mestre, naquela palavra dura e corajosa: meretrices praecedent vos in regnum Dei [as mere­trizes vos precedem no Reino de Deus! (Mt 21,31)].

Preciso pensar que meu orgulho só deixará de existir na hora da minha morte. Enquanto eu estiver vivo, ele não estará morto. Se eu não o dominar, à medida que eu for crescendo em anos e experiência, poderei crescer também no orgulho e, nesse caso, irá crescer o desprezo de Deus para comigo.

02 DE MAIO 

Super candelabrum [luz sobre o candelabro (Mt 5,15)]

Somos a luz que Nosso Senhor acendeu in medio Ecclesiae [no meio da Igreja] e colocou super candelabrum, ut luceat omnibus qui in domo sunt [luz sobre o candelabro, que ilumina assim todos os que estão em casa]. Nossa missão será iluminar sempre. A luz da Verdade terá que brilhar continuamente em nossas palavras, mas também na nossa vida, para que sejamos realmente uma luz.

Não podemos esquecer que essa evidência é, para nós, uma responsabilidade. Super candelabrum [luz sobre o candelabro] — é natural que chamemos a atenção. Todos os olhares convergem sobre nós e nada perdem os amigos e inimigos que nos observam atenciosamente. Na escuridão os defeitos desaparecem. Mas na Luz, qualquer falha chama a atenção.

Alguém disse, e com razão, que o povo sabe não somente o que o padre faz, o que ele diz, mas também o que ele pensa... Ouve-se dizer, às vezes: com, ou sem motivo, as más línguas falam sempre. Que falem, isto é com as más línguas; que não devemos dar motivo, isto é conosco. Se falarem sem motivo, não importa, porque a luz sempre se impõe. Mas, se dermos motivo, não nos podemos queixar que as falhas apareçam, e, com elas, os comentários. Vítima das más línguas, São Paulo nunca se descuidou de seu bom nome. Por isso aconselhou também ao seu discípulo: In omnibus teipsum praebe exemplum [dá bom exemplo em todas as coisas (Tt 2,7)].

10 DE MAIO

Sub tuum praesidium... [sob a vossa proteção]

A devoção a Nossa Senhora — não é uma devoção que podemos ter; é uma devoção que devemos ter, por vontade de Deus. Desde a queda, no Paraíso, que Ele no-la mostrou. No plano divino da Redenção, nós a vemos em evidência nos dois momentos principais: Presépio e Calvário. E nunca talvez, como hoje, Nossa Senhora esteve tão presente na vida da Igreja e das almas.

Porque essa verdadeira preocupação de Deus em revelar sua Mãe Santíssima ao mundo? Simplesmente porque Deus quer o nosso amor para com Ela: é pelas mãos de uma mãe que o filho chega mais facilmente à presença de seu pai. Diz um autor que Deus, não nos podendo dar um retrato de si mesmo, para que dele nos lembrássemos sempre, deu-nos sua Mãe, que é o máximo em santidade e perfeição humana.

Para nós, sacerdotes, um motivo especial existe para essa devoção: Nossa Senhora nos ama com um amor particular porque vê em nós aqueles que perpetuam Nosso Senhor no mundo, mantendo-o nas almas. Porque somos participantes do sacerdócio eterno de seu Filho, Ela, Mater Christi [Mãe de Jesus Cristo], é a Mãe do nosso sacerdócio e o fervor de um padre é medido pela sua devoção a Nossa Senhora.

30 DE ABRIL 

Miser fui, et salvavit me [estava na miséria e (Ele) me salvou (Sl 114,6)]

O teu Evangelho, Senhor, me diz que todos neste mundo tiveram um lugar nas tuas preocupações; os pastores e as crianças, os Apóstolos e os traidores, os letrados e os Mestres da Lei, os publicanos e até os fariseus. Não posso acreditar que a tua Providência não me tenha visto e não se tenha preocupado comigo. Por isso é que também procuro o meu lugar, o lugar que ocupei na tua vida.

Não me vejo é certo, entre as crianças e os pastores: pois não tenho a inocência com que te procuravam. Não estou entre os Apóstolos e traidores: se não sou um apóstolo, também não sou um traidor, porque a tua Graça me amparou. Não fosse a tua graça, o que seria de mim? Não me julgo entre os publicamos e fariseus: apesar da minha miséria, Tu sabes, Senhor, que se alguma vez te abandonei, não foi para fugir ao teu domínio.

E nem me vejo entre os Mestres da Lei: se alguma vez a tua doutrina me foi dura, nem por isso deixei de a praticar. Eu me vejo, e muito bem, lá onde foste achar a ovelha desgarrada. Ela também não te abandonou, porque quisesse fugir aos teus cuidados. Por isso se entregou agradecida quando a foste buscar. A tua Providência me procurou, e... por quanto tempo! A tua mansidão me atraiu. E a tua misericórdia me colocou novamente em teu rebanho, porque o teu amor continua confiando em mim. E eu sei agora, melhor que antes, que não és o mercenário, mas o Bom Pastor, que eu bendigo e amo porque miser fui, et salvavit me [estava na miséria e (Ele) me salvou].

29 DE ABRIL 

Praedica Verbum! [prega a Palavra! (2Tm 4,2)]

Para um exame de consciência, siga este Decálogo do Pregador: (i) pregar a Verdade e não a vaidade.  Minha pessoa não interessa, de modo algum, aos ouvintes; (ii) Não pregar sem preparação.  Não posso profanar a Palavra que não é minha; ela é de Deus.

(iii) pregar aos domingos e dias santificados. Esta regularidade dá à palavra, que vem do coração, uma força que lenta, mas infalivelmente, exerce a sua eficácia (Pio XII); (iv) 4) não desfazer da pregação de outros. A caridade o exige. Se a minha palavra é de Deus, a dos outros também; (v) ensinar com a palavra, mas também com o exemplo. Não posso cair nesse absurdo, de matar com meu exemplo, aquilo que ensinei com a minha palavra.

(vi) não pecar contra a brevidade. Ensinar sem aborrecer!; (vii) não pregar somente o que outros escreveram. Preciso assimilar e preciso viver aquilo que prego, (viii) não esquecer a caridade, pregando a Verdade; (ix) não imitar cegamente a outros. Se eu me esforçar para dar ao povo uma palavra cheia de Deus, o mais é secundário; (x) pregar a Palavra e não palavras.

28 DE ABRIL

Semen est Verbum Dei [a semente é a Palavra de Deus (Lc 8,11)]

'Cada um de vós pregue esta palavra sagrada; cada um de vós insista com constância e coragem, mesmo quando uma falsa prudência aconselhar a desistir. Nós vemos o que aconteceu, o que está acontecendo, por se terem os homens afastado da sã doutrina, para pedirem, a mestres conformes as próprias paixões, as verdades a crer, as normas a seguir.

Hoje, como nos primeiros tempos, non est aequum nos derelinquere verbum Dei [não é razoável que abandonemos a Palavra de Deus (At 6,2)]. Devemos proclamar bem alto a advertência de São Paulo: fundamentum aliud nemo potest ponere... quod est Christus Jesus [quanto ao fundamento, ninguém pode por nenhum outro ... que não seja Jesus Cristo].

Por outros fundamentos à construção do mundo, significaria preparar sua ruína; lançar no terreno outra semente que não seja Cristo Jesus, significa ver crescer, junto ao trigo, o joio; esse joio que parece amor e é ódio; que parece paz e é guerra; que parece liberdade e é licença; que parece justiça e é opressão; que parece prudência e é medo; que parece coragem e é imprudência; que parece previdência e é desconfiança' (Pio XII).

27 DE ABRIL

Deus, pars mea in aeternum [Deus, minha herança na eternidade (Sl 72, 26)]


Dolorosa esta pergunta de São Bernardo: Quis, avidius clericis, quaerit temporalia? [quem pode ser mais avarento que um clérigo que cobiça coisas temporais?]. Nosso Senhor sabe que, devido à nossa posição, não podemos viver em extremos de miséria. E sabe também que as nossas obras de apostolado vivem, geralmente, de esmolas. Mas, precisamos ter sempre em conta, a opinião que o povo possa fazer de nós. 

Não é o escrúpulo, mas a prudência que nos aconselha cautela nesse ponto. Não basta que a nossa intenção seja boa, e o fim, que nos propomos, muito santo e necessário. Os meios terão que ser estudados com prudência. São Paulo também lidou com dinheiro e organizou obras de caridade. Mas não se descuidou da impressão que poderia dar: Exhibeamus nosmet ipsos sicut Dei ministros... in necessitatibus [nos apresentamos como ministros de Deus ... nas necessidades]. E porque esse cuidado? Ut non vituperetur ministerium nostrum [para que nosso ministério não seja repreendido (2Co 6,3)].

Não podemos dar a impressão de que o nosso ministério não consiste tanto em ganhar as almas, como ganhar outra coisa. Ganhando uma fama que não nos convêm, estaríamos perdendo tudo. Prudência na escolha dos meios, porque o apego, suposto ou verdadeiro, é a fogueira na qual, mais frequentemente, o povo sacrifica a boa fama e o bom nome do sacerdote.

26 DE ABRIL

Abominato Domini est omnis arrogans [todo (homem) arrogante é abominação a Deus (Pr 16,5)]

Se Deus detesta a arrogância, os homens também a desprezam. E se ela é tão antipática, tão ridícula, em qualquer pessoa, mais ainda no sacerdote, que deve ser o retrato vivo de Nosso Senhor. E Ele é inseparável da humildade.

Para que Deus e as almas não se afastem de mim, preciso por em prática o conselho da Escritura: superbiam in tuo sensu aut in tuo verbo numquam dominari permittas [Nunca permitas que o orgulho domine o teu espírito ou as tuas palavras (Tb 4,14)]. Preciso olhar para o meu Mestre, rodeado pelos pobres e humildes, falando com simplicidade aos mais ignorantes, atendendo a todos sem alardes de grandeza, com a maior bondade e mansidão. Ele era assim e eu não o posso mudar, apresentando aos olhos de todos um outro Cristo diferente.

A simplicidade e uma caridosa atenção para com todos serão armas valiosas no meu apostolado. Mas a vaidade, e presunção, o alarde de ciência e prestígio, o desprezo para com os pobres e ignorantes, só me poderão tornar ridículo diante de Deus e das almas. Quanto magnus es, humilia te in omnibus, et coram Deo invenies gratiam [Quanto mais fores elevado, mais te humilharás em tudo e, diante de Deus, encontrarás misericórdia (Eclo 3,20)].

25 DE ABRIL

Peccatores... quorum primus ego sum [pecadores... dos quais, sou eu o primeiro (1Tm 1,15)]

Comovedora a humildade do Apóstolo, considerando-se o maior dos pecadores. E não foi certamente por mero sentimentalismo, que ele, escrevendo aos coríntios, considerou-se o último dos Apóstolos, não merecendo sequer esse nome: Non sum dignus vocari apostolus, quoniam persecutus sum Ecclesiam Dei [não sou digno de ser chamado Apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus (1Co 15,9)]. Que tristeza amarga para aquele coração que tanto amava Nosso Senhor lembrar que perseguira a sua Igreja: Blasphemus fui, et persecutor! [fui blasfemo e perseguidor!].

São Paulo não esquecia o seu passado. Sabia bem onde a Graça o fôra buscar e, por isso, agradecia quia fidelem me existimavit, ponens in ministerio [porque me julgou fiel (digno de confian­ça) e me chamou ao ministério (1Tm 1,12)]. Eu também preciso olhar para trás e considerar o meu passado, não para me desanimar, reconhecendo que nem tudo ficou de acordo com a minha boa vontade. 

Preciso pensar no que fui, para compreender melhor o que sou e saber o que eu deveria ser. Que a humildade me coloque no meu lugar. Esse olhar sobre o meu passado irá tirar, da minha vida, um pouco do orgulho e do rigor com que olho para os outros. Terei mais paciência e compreensão, porque Peccatum meum contra me est semper [meu pecado está sempre diante de mim].

24 DE ABRIL

Ambo in foveam cadunt [ambos tombarão na mesma vala (Mt 15,14)]

Isso acontece quando um cego quer guiar a outro cego. Ambos acabam caindo, diz Nosso Senhor. É principalmente no confessionário que devemos ser os guias das consciências. O penitente busca ali o Caminho, a Verdade, a Vida sobrenatural, isto é, busca a Nosso Senhor mesmo. Para que não se iluda, é preciso que veja, que sinta no confessor, o amor a Deus, o zelo, o horror ao pecado, a mansidão, o espírito de fé.

Mas, ao lado da virtude, a ciência. A ruína das almas, dizia um santo, são os maus pregadores e os maus confessores. Um cego não terá confiança em seu guia, se perceber que ele também não está firme. É certo que, no confessionário, não podemos ser professores dando, a cada penitente, uma aula completa de ascese e moral. Mas também, não nos podemos transformar em máquinas de absolver. 

Homem algum poderia ocupar o confessionário para dizer a um pecador: Ego te absolvo [Eu te absolvo]. Nós o fazemos porque o sacerdócio nos deu esse poder. Mas ele não nos deu nem a ciência nem a virtude que o confessionário exige de nós. Homens de oração, precisamos estar em dia com a nossa Teologia Dogmática e Moral. Somente assim, poderemos ocupar, no confessionário, o lugar de Nosso Senhor.

23 DE ABRIL

Tradidit semet ipsum pro me [se entregou a si mesmo por mim (Gl 2,20)]

Assaltado e ferido por ladrões, estava um homem caído à beira de uma estrada. Passou um sacerdote. Olhou... e continuou tranquilamente o seu caminho. Naquele dia, pela estrada de Jericó, passou a figura exata do sacerdote sem caridade. Não conhecendo a Deus, não o soube ver naquele pobre homem, caído à beira do caminho. Era um sacerdote de nome; alguém que vivia no Templo.

Sacerdos pro populo [sacerdote pelo povo] — ele é das almas, deve viver para elas, vivendo exclusivamente para Deus. É um homem sui generis [único em seu gênero, especial] que não vive para si como outro qualquer. Sua vida é uma imolação que só termina com a morte. Sem caridade, porém, o sacerdote não se entrega nem a Deus e nem às almas. Sua vida é uma negação contínua já que procura poupar-se como um avarento de si mesmo. E se realiza alguma coisa é para si, para os próprios interesses; não pode pensar nos outros pois isso seria esquecer-se.

Preciso pensar que participo do sacerdócio dAquele que se entregou por mim. Se eu não me der todo a Deus, e às almas, serei sacerdote apenas de nome. Sine caritate sacerdos dici potes, esse vero non potes [sem a caridade, podereis dizer-vos sacerdotes, mas verdadeiramente não o sois].

22 DE ABRIL 

Domine, quid vis me facere? [Senhor, que queres que eu faça? (At 9,6)]

À beira da estrada, Bartimeu, o cego, gritando com toda força e simplicidade: Jesu... miserere mei!  [Jesus, tende piedade de mim!] Todo misericórdia, Nosso Senhor se aproxima e pergunta: Quid tibi vis faciam? [Que queres que eu te faça?]. Galopando pela estrada de Damasco, Saulo era o lobo, à procura das ovelhas de Cristo. De repente, cego, cai do cavalo. Desta vez não é o Agnus Dei [Cordeiro de Deus] quem pergunta: Quid tibi vis faciam? [Que queres que eu te faça?]. É o lobo, tremens ac stupens [trêmulo e atônito], quem indaga: Domine, quid vis me facere? [Senhor, que queres que eu faça?].

Nosso Senhor está pronto a atender sempre os meus pedidos. Foi Ele mesmo que me prometeu: Petite et accipietis [Pedi e recebereis]. Mas não posso esquecer também que Ele tem os seus desejos. Ele me deu as suas ordens e quer a minha obediência. De manhã até à noite, minhas obrigações estão diante de mim; eu as conheço muito bem e, por isso, não preciso perguntar qual a Vontade de Deus a meu respeito. 

Se eu prezo que Ele me ouça porque é meu Pai, Ele exige que eu o atenda como um filho. Às vezes, sua vontade poderá me parecer dura, exigindo sacrifícios e renúncias que me parecem acima de minhas forças. Mas eu sei que Ele não me pede o impossível. Não posso contra stimulum calcitrare [recalcitrar contra o aguilhão (resistir a ter como guia a Palavra de Deus) (At 26, 14)].

21 DE ABRIL

Curramus ad nobis propositum certamem [corramos ao combate que nos é proposto (Hb 12,1)]

Para estimular os fiéis a perseverarem na fé, São Paulo, na sua Carta aos Hebreus, lembra a firmeza e o heroísmo dos antepassados, quibus dignus non erat mundus [eles, de quem o mundo não era digno]. Preciso olhar para o exemplo dos mártires e confessores dos primeiros séculos, pois tenho muito a aprender daqueles que me precederam na vinha do Senhor.

E não posso esquecer aqueles que, ainda hoje, estão dando muito mais do que eu, no trabalho a que foram chamados. Enquanto eu penso e calculo para fazer um sacrifício, enquanto procuro avidamente o meu descanso e bem estar, queixando-me do pondus diei [peso do dia (Mt 20,12)], nos desertos ou cidades, nos cárceres ou campos de concentração, há outros que estão se consumindo num martírio que só Deus conhece.

Somente na eternidade irei saber tudo o que eles estão sofrendo, para conservarem a luz da fé em si e nos outros. Todos os dias tenho pela frente um combate a que não posso fugir. E ainda que eu dê, nessa luta, todo o meu tempo, minhas forças e minha saúde, eu só tenho que repetir: Servus inutilis sum [sou um servo inútil] — não estou fazendo mais que a minha obrigação.

20 DE ABRIL 

Neminem viderunt, nisi solum Jesum [não viram ninguém mais, mas tão somente Jesus (Mt 17,8)]

Cansados de caminhar sempre saturados com o povo que lhes não dava sossego, os Apóstolos gozaram bem um pedaço do céu, naqueles momentos da Transfiguração: Bonum est nos hic esse [é bom estarmos aqui (Mt 17,4)].  O espetáculo fôra deverás deslumbrante.

Durou pouco aquela ante visão do Paraíso, mas foi bem aproveitada. E quando ela terminou, tinham desaparecido Elias e Moisés, mas o Mestre ali estava como sempre; e isso era o principal para eles. Há muitos anos que eu vivo com Nosso Senhor. Moro na sua casa, trato continuamente com Ele e, todos os dias, eu o tenho diante de mim, tamquam occisum... [como que imolado... (Ap 5, 6)] transfigurado, portanto, pelos outros e por mim também. 

Se não o posso contemplar no Tabor, é na transfiguração do Calvário que eu o tenho diariamente em minhas mãos. No entanto, a minha missa termina e eu não continuo a ver nisi solum Jesum [tão somente Jesus]. De tal forma penetra a dissipação em minha vida, que não chego a perceber a presença de Nosso Senhor. Mihi vivere Christus est [para mim o viver é Cristo (Fp 1,21)] — era assim que vivia o Apóstolo e assim eu também deveria viver. Para isso tenho que viver o programa que ele realizou: Omnia, et in omnibus Christus [Cristo é tudo para todos (Cl 3,11)].

19 DE ABRIL

Ut exhibeatis... hostiam viventem [para que ofereceis... um sacrifício vivo (Rm 12,1)]

Essa hóstia viva deve ser o resultado de uma transformação, operada por um sacrifício. Mas Deus não nos quer como vítimas de um sacrifício imposto à força. A castidade foi a melhor parte que livremente escolhemos. Aceitando a dignidade sacerdotal, não fomos vítimas de nenhuma crueldade; aceitamos uma vocação, e, com ela, uma renúncia.

Deus não nos quer em sua casa, como condenados, arrastando penosamente uma carga injusta ou imprevista; nem se compraz em nos ver como vítimas de um castigo que nos abate e revolta. Ele nos quer simplesmente como filhos. Tratando-se de um Pai, qualquer renúncia será aceita com generosidade e alegria. Marcado com o arrependimento, ou com a má vontade, nosso sacrifício não poderia ser bem aceito. Hilarem datorem diligit Deus [Deus ama quem se dá com alegria (2Co 9,7)].

Ninguém se comove, nem se sente agradecido, diante de uma atenção forçada, sem alegria ou espontaneidade. Justamente por isso Deus nos ama como seus filhos prediletos porque lhe oferecemos um sacrifício livre aceitando, com a nossa vocação, uma renúncia que outros não quiseram ou não foram capazes de lhe oferecer: quidquid habeo, id Tibi restituo [Vós me destes tudo o que possuo].

18 DE ABRIL

In omni patientia et doctrina [com toda paciência e empenho de instruir (2Tm 4,2)]

Dada a natureza do seu ministério, muitas vezes terá o Padre que repreender e censurar. É este um dever a que não poderá fugir, sob pena de uma grave omissão. Terá que fazê-lo, no entanto, in omni patientia et doctrina [com toda paciência e empenho de instruir]. Dessa forma, estará mais ensinando que repreendendo.

In omni patientia [com toda paciência] — muitas vezes será necessário insistir porque o mal não se deixa arrancar de uma vez. E nesses casos, a precipitação e a impaciência nada resolvem. Et doctrina [e empenho de instruir] — gritamos muito contra certos abusos. Mas, talvez, não ensinamos e esclarecemos o suficiente. Nós mesmos achamos difícil obedecer sob ameaças e ofensas. Conseguiremos mais, procurando formar uma mentalidade esclarecida.

Fortiter in re [firmeza no trato] — é certo que não podemos cruzar os braços e condescender com o erro, ignorando-o. Mas, suaviter in modo [suavidade nos modos] — não são os nossos nervos, mas a prudência que nos deve indicar os meios de combater os abusos, sempre com paciência e doutrina. Os trovões e as tempestades não fazem germinar as sementes nem crescer as plantas. Uma chuvinha fina, de doutrina persistente, é o melhor que podemos fazer cair sobre a messe das almas.

17 DE ABRIL

Sine intermissione orate [orai sem cessar (1Ts 5,17)]

A um grupo de crianças, um sacerdote narrava os milagres de um santo quando uma delas, inocentemente, lhe perguntou: 'Padre, porque o senhor também não é um santo?' Essa pergunta impressionou o sacerdote que reconheceu depois: 'Não sou um santo porque não rezo'.

É São Bernardo quem nos mostra o resultado da oração: a) Mentem purificat [purifica o espírito] — os pensamentos se elevam, arejados; b) Regit affectus [rege as afeições]  — os sentimentos e afetos não ficam às soltas; c) dirigit actus [direciona as ações] — o nosso trabalho deixa de ser mera agitação; d) corrigit excessus [corrige os excessos] — porque os mostra e indica os meios de correção; e) componit mores [regula os costumes] — sobrenaturaliza a nossa vida; f) vitam honestat et ordinat [dá rumo e ordem à vida] — a união com Deus põe tudo no seu devido lugar.

Compreendemos São Tiago recomendando: Tristatur aliquis vestrum? Oret. Aequo animo est? Psallat. [Alguém dentre vós está triste? Re­ze! Está alegre? Cante. (Tg 5,13)]. Quantas vezes eu me perguntar: 'por que não sou um santo?', tantas vezes terei que responder, com minha consciência: 'Não sou um santo porque não levo uma vida de oração'. E se eu não rezo, não serei nunca o padre que sonhei ser um dia.

16 DE ABRIL

Vulpes foveas habent [as raposas têm as suas tocas (Mt 8,20)]

E o Mestre não teve sequer onde reclinar a cabeça. Ele não foi somente um homem pobre; foi, principalmente, um desapegado de tudo, mesmo do mais necessário. Alguém escreveu: Jesus é pobre, infinita e rigorosamente pobre. Príncipe da grande pobreza e Senhor da miséria perfeita. 

E Santo Afonso acrescenta: 'muitos gostariam de seguir a esse Pobre, contanto que nada lhe faltasse'. Não será esse o meu caso? Nosso Senhor não exige que eu viva como Ele, numa perfeita miséria. Permite que eu tenha o necessário; mas não pode permitir que eu me apegue a coisa alguma. Por causa desse apego, Ele foi vendido, um dia. E não será esse desejo de possuir o que o mundo oferece que mata, nas almas, o interesse pelo que é de Deus?

Quanto mais eu desejar deste mundo, tanto menos irei desejar a Nosso Senhor. Por experiência eu sei que, diante do conforto e bem estar, desaparecem o espírito de sacrifício, o zelo, os exercícios de piedade, o fervor. Pars haereditatis meae [minha parte de herança (Sl 15,5)] — ainda me interesso por ela? Primeiro o desapego de tudo; depois poderei apegar-me a esse Pobre, Senhor das riquezas infinitas: Da pauperibus, et veni, sequere me [dá aos pobres, vem e segue-me (Mt 19,21)].

15 DE ABRIL 

Vos, cum sitis mali... [vós, que sois maus (Mt 7,11)]

Meu Deus, eu devo ser mesmo um poço de maldade para estranhar tanto as provas da tua misericórdia infinita! Como os Mestres da Lei, eu me escandalizo, porque o teu amor ama os pecadores e a tua Providência os procura.

Como os Apóstolos que não te compreendiam, eu acho também que devias ter arrasado aquela cidade que não te quis receber. Teria sido uma lição para aquele povo. Como os fariseus, que te compreendiam ainda menos, acho também uma exibição absurda o que fez aquela pecadora que te lavou os pés, à hora daquele banquete.

Minha maldade não pode entender o teu amor; por isso não se conforma com a tua misericórdia, perdoando setenta vezes sete vezes... Sim, eu penso que és mau como eu sou. Por isso tenho tanto medo de Ti e fico, de longe, medindo o oceano das tuas misericórdias, com a medida curta de uma grande mesquinhez. E não me lembro que a maior prova da tua paciência e do teu amor sou eu mesmo, com toda a minha miséria.

14 DE ABRIL 

Misereor super turbam [tenho compaixão desse povo (Mc 8,2)]

Se Nosso Senhor quisesse dar a sua opinião a respeito de certas pregações e panegíricos, Ele teria que repetir a sua palavra: 'Tenho pena deste povo!' A um homem, religioso e simples, que saía da igreja, após a pregação de um famoso orador sacro, alguém perguntou: 'Que tal o pregador?' — 'Ele falou de tudo; mas não falou de Deus'. Uma palavra que vale por uma acusação.

Diante de certos pregadores, muitas vezes, somos obrigados a lamentar como Jeremias: Petierunt panem, et non erat qui frangeret eis [as crianças pedem pão e não há quem o reparta (Lm 4,4)]. Não é certamente com flores que se mata a fome a um indigente. As almas não nos pedem flores nem doces. Elas querem o pão que Nosso Senhor lhes deu; e tem direito de no-lo pedir. Elas querem uma palavra somente; mas uma palavra que esteja cheia de Deus, porque, de outra coisa, elas não se alimentam.

Para os alardes de ciência, vale a pergunta do Apóstolo: Et peribit infirmus in tua scientia, propter quem Christus mortuus est? [e vai se perder pela tua ciência o fraco, por quem Cristo morreu? (1 Co 8, 11]. E para a falta de estudo, para a falta de preparação, a dolorosa afirmação do mesmo São Paulo: Ignorantiam Dei quidam habent... [alguns vivem na ignorância de Deus... (1Co 15,34)].

13 DE ABRIL

Si secundum carmem vixeritis... [se viverdes segundo a carne (Rm 8,13)]

Lamentando a falta de fervor do clero de seu tempo, São Bernardo observou: Producitur somnus, producitur mensa, producuntur recreationes et lusus; solius Supremae Maiestatis cultus, summa qua potest celeritate, deproperatur [prolongam o sono e o tempo gasto à mesa, postergam as recreações e os passatempos; mas apressam o culto à Suprema Majestade o máximo que podem apressar].

Não estará, nessas palavras, um retrato da minha vida? Queixo-me frequentemente do excesso de trabalho e da consequente falta de tempo. Mas, poderei dizer que não tenho tempo para o meu repouso, para as minhas leituras, para as minhas distrações, passeios e visitas? Est modus in rebus [há uma medida (limite) das coisas]— e até no meu trabalho devo ter medida. O que não está certo, porém, é que eu dê todo o meu tempo ao trabalho e ao descanso, descuidando com isso da minha vida interior.

Nesse caso, um horário firme deverá diminuir um pouco a minha atividade e o repouso, para que minha alma também tenha a sua vez... de ser atendida. Pio XII tinha o mundo todo nas suas preocupações, e era homem da oração porque, se os cuidados andavam com ele, ele andava sempre com Deus. Que eu saiba dar o tempo necessário ao Deus das minhas obras e, certamente, não ficarão prejudicadas as obras do meu Deus.

12 DE ABRIL

Benedicam Dominum omni tempore [bendirei por todo o tempo o Senhor (Sl 33,2)]

Diz o Apóstolo que o sacerdote é o Homo Dei [homem de Deus], isto é, o homem que vive continuamente com Deus. Não é o homem que reza de vez em quando, em determinadas horas do dia, mas é aquele que vive rezando, porque a oração é a sua vida.

Ubicumque fueris, intra temetipsum ora [onde quer que estejas, reze consigo mesmo] — é o conselho que nos dá São Bernardo. Interrompido o contato entre a nossa alma e Deus, faltará vida sobrenatural à nossa vida humana. Aos olhos da dissipação do mundo, nada mais edificante que o sacerdote, transformado numa oração viva e contínua. Certamente não haverá pregação que penetre tanto as almas: 'Como prega bem Frei Exemplo! Não precisa alvoroçar o templo'...

Em contínuo contato com Deus, o sacerdote se transforma no Homem de Deus. Em todo o seu modo de pensar e de agir, haverá sempre um reflexo do mundo sobrenatural em que ele vive. Diante dele, as almas sentir-se-ão diante de Nosso Senhor. Dessa pregação, nenhum sacerdote poderá se dispensar. Muda, indireta, é a pregação de todo momento, que pode estar em toda parte. Qual uma chuva mansa e silenciosa, ela penetra as almas, impressiona a todos, sem necessidade de raios nem trovões. Vivus est enim sermo Dei, et efficax, et penetrabilior omni gladio ancipiti [porque a Palavra de Deus é viva e eficaz, mais penetrante do que uma espada de dois gumes (Hb 4,12)]

11 DE ABRIL

Fiat voluntas tua [seja feita a Vossa Vontade (Mt 6,10)]

No seu inspirado 'Hino da Conformidade', Santo Afonso conta: 'Ó vontade de meu Deus, como és digna de amor! Se nem sempre a sabemos amar, é porque nem sempre a reconhecemos. Porque a nossa vontade quer reinar soberana em nossa vida, a Vontade divina lhe parece uma força inimiga, invadindo os seus domínios. Com isso não nos conformamos.

Fiat voluntas tua [seja feita a Vossa Vontade] — é o que diariamente dizemos a Nosso Senhor, olhando-o sobre o altar, como Vítima. É a hora em que Ele nos aparece como perfeita expressão da conformidade às exigências da Justiça divina. Essa conformidade fez Nosso Senhor suar sangue no Jardim das Oliveiras. Tanto, certamente, Ele ainda não exigiu de nós. Mas, porque viu em tudo a Vontade do Pai, Nosso Senhor não desfaleceu, aceitou tudo, e foi para o Calvário.

Que será de nossa vida, se não soubermos ver em tudo a Vontade de Deus? Iremos semear o nosso caminho com queixas e reclamações, perdendo o respeito aos deveres e obrigações que enchem o nosso dia de trabalho. Realizar o mínimo, e isso porque não há outro remédio, não é digno de um filho de Deus, nem de um amigo de Nosso Senhor. Delectabor in mandatis tuis, quae diligo [deleitar-me em vossos mandamentos, que eu amo (Sl 118, 47)].

10 DE ABRIL 

Et mirabantur, quia cum muliere loquebatur [e maravilharam-se de que estivesse falando com uma mulher (Jo 4,27)]

Certamente porque não era esse um costume do Mestre. Também nesse ponto, Ele quis chamar a nossa atenção para a vigilância e prudência. Não podemos dizer que a mulher seja sempre, para o homem, um desvio no caminho da virtude. Mas também não podemos ignorar a força tremenda que o chamado sexo frágil exerce sobre o homem. 

Diz um autor que, no Paraíso, a mulher parece ter adquirido uma extraordinária força para impressionar, para convencer e seduzir. Reconhecendo-se mais fraca que o homem, ela não se manifesta, não se revela tanto como ele; é mais inclinada à falsidade. E o demônio sabe muito bem isto. Interessado em perder as almas, ele sabe usar da mulher para os seus planos. Já no Paraíso, não tentou diretamente ao homem. Tentou primeiro a mulher. E a experiência lhe deu resultado. Desde então, a mulher ficou sendo o instrumento cem por cento da sua confiança.

Não precisamos ver o demônio onde ele não está. Mas não podemos ignorar onde ele possa estar. Até certo ponto é verdadeira a observação do Cardeal Bona: 'a mulher conserva sempre o seu costume de expulsar o homem do Paraíso...'

09 DE ABRIL 

Lazare, veni foras [Lázaro, vem para fora! (Jo 11,43)]

O sacerdote é, como Lázaro, o amigo particular, o confidente de Nosso Senhor. É nas mãos do sacerdote que Nosso Senhor coloca o tesouro das suas graças, a chave da sua misericórdia, a riqueza da sua doutrina. Domine, ecce quem amas [Senhor, aquele que Vós amais (Jo 11,3)] — o sacerdote é simplesmente aquele que Nosso Senhor ama com verdadeira predileção, a ele se entregando numa prova de absoluta confiança.

Quando um sacerdote abandona o seu Mestre e Amigo, renunciando ao fervor ou à própria vocação, só mesmo um milagre da infinita Misericórdia para arrancar esse infeliz do túmulo em que se encerrou. O Bom Pastor não se nega a procurar a ovelha desgarrada: Vado ut excitem illum... [vou despertá-lo...]

É preciso que Nosso Senhor derrame as lágrimas da sua misericórdia e do seu amor: Et lacrymatus est Jesus [Jesus pôs-se a chorar (Jo 11, 35)]. Nem é para menos, porque corruptio optimi pessima [a corrupção dos melhores é a pior] — a ponto de arrancar lágrimas a Nosso Senhor. Por isso, diante do sacerdote vítima da tibieza ou do pecado, é preciso que Ele mande e grite com toda a insistência do seu amor: voce magna clamavit... [exclamou em alta voz...], num último e supremo esforço da sua misericórdia: Lazare, veni foras! [Lázaro, vem para fora! (Jo 11,43)]. E, apesar de tudo, às vezes, o milagre não se realiza...

08 DE ABRIL 

Non est Regnum Dei esca et potus [o Reino de Deus não é comida e nem bebida (Rm 14,17)]

Meu Deus, preciso compreender bem esta palavra do teu Apóstolo. E não a posso esquecer no meu apostolado, porque ela me mostra o espírito com que o Apóstolo via o teu Reino nas almas. Se eu não posso desprezar as coisas que me parecem insignificantes, também não posso transformar a minha vida numa nuvem de pó, cheia de agitação e de escrúpulos.

Ouço que me mandas por as mãos ao arado. E eu não posso perder tempo, a verificar se esse arado é leve ou pesado, se a sua lâmina corta ou não. O que me pedes é o meu trabalho. Queres que eu lance as redes ao mar. E eu não posso dizer que esperes e que as almas esperem também, até que eu estude, na retórica, a finura do meu gesto de pescador.

Tu queres as almas e com urgência. Por isso não posso ficar debruçado sobre os meus livros, a estudar a matemática dos meios, nem a escrupulosa perfeição dos meus planos de apostolado. Não posso protelar o meu trabalho, a estudar continuamente o modo como irei realizar o que me pedes. Que eu seja prudente, sim, não desprezando o estudo e a ponderação no meu apostolado. Mas que eu não ignore nunca a eficácia da tua Graça sobre tudo o mais.

07 DE ABRIL

Excidetur, et in ignem mittetur [cortada (a árvore) e lançada ao fogo (Lc 3,9)]

Será esse o fim da árvore que não dá bons frutos. Se a árvore da minha vida não está dando maus frutos, posso dizer que, com isso, ela já está sendo o que Deus quer? Não fazer o mal é certamente alguma coisa; mas não devo pensar que isso basta. Deus não me chamou às alturas do sacerdócio, para eu ser apenas uma boa árvore... de sombra. 

Uma figueira estéril não interessa a Nosso Senhor. O que Deus quer e espera de mim são os frutos de vida eterna. Por isso tenho que me preocupar com os frutos das boas obras que eu devo recolher aos celeiros de meu Pai. Pater meus agricola est [meu Pai é o agricultor (Jo 15,1)]. Um dia o Mestre estranhou a indolência de um grupo de trabalhadores, entregues à ociosidade: Quid statis tota die otiosi? [que fazeis ociosos todo o dia?]. E eles não estavam fazendo o mal. Faltava-lhes no entanto fazer o bem: Ite et vos in vineam meam [ide também vós à minha vinha].

Preciso pensar que, por omissão, também se peca. Se as circunstâncias não me permitem o trabalho direto na santificação das almas, indiretamente eu poderei fazer muito. E desse trabalho não me posso dispensar. Em plena luta de vida ou de morte para as almas, lamentar o mal não é tudo o que eu devo fazer.

06 DE ABRIL

Omnia arbitror ut stercora [tudo (do mundo) considero como esterco (Fl 3,8)]

Não devo estranhar que os mundanos amem tanto o mundo em que vivem. Nem posso admirar que eles se apeguem, com todas as forças, ao pó da terra. O que existe para eles é isso; não conhecem outra coisa. O que eu devo estranhar, sim, é que eu não me apegue tanto a Nosso Senhor como a minha vocação exige. 

Quando alguém não conhece o sobrenatural, o eterno, só pode amar o temporal, interessando-se pelo nada que tem nas mãos. O próprio São Paulo confessa que, antes de conhecer a Nosso Senhor, bem apegado andou à miséria deste mundo: Quae mihi fuerunt lucra... [o que para mim era lucro...]. Não me basta, portanto, conhecer o pouco ou nenhum valor deste mundo. Não me basta censurar o exagerado apego com que os mundanos se agarram ao pó da terra. Não me basta clamar contra essa verdadeira idolatria que eles praticam, diante do dinheiro, do luxo e do prazer. 

O que eu preciso é conhecer, sempre mais, a riqueza infinita de Nosso Senhor in quo sunt omnes thesauri sapientiae [na qual estão todos os tesouros da sabedoria (Cl 2, 3)]. Quanto mais eu conhecer essa riqueza, tanto menos irei pensar em outra coisa. Preciso conhecer, para depois repartir com as almas, Aquele de cujus plenitudine omnes accepimus [de quem a plenitude todos recebemos].

05 DE ABRIL 

Nolite diligere mundum! [não ameis o mundo! (1Jo 2,15)]

E como ter amor a este mundo se ele não me pertence e nem eu lhe posso pertencer? Por mais que eu amasse a este mundo, ele nunca poderia ser meu, porque estou por aqui de passagem. Por alguns anos... ou por alguns dias... não sei; o certo é que, a qualquer momento, eu poderei sair deste mundo.

Nesse caso, o que me deve interessar é a Casa de meu Pai, que me espera na eternidade. É para lá que eu devo ir pobre de tudo, porque lá eu terei muito mais. Essa casa é a minha herança, a infinita riqueza que meu Pai me preparou. Não a posso perder de vista, preocupando-me com este mundo e apegando-me a coisas que não poderei levar comigo.

In domo Patris mei [na casa do meu Pai] — sim, lá eu não serei um estranho; serei de casa, membro da família, com direitos adquiridos por toda a eternidade. Cum sanctis tuis, in aeternum [com os teus santos, pela eternidade] — embora muito indignamente, irei ocupar o meu lugar no Laus [glória, louvor] perene dos meus irmãos. E, eternamente dono de uma riqueza infinita, eu irei agradecer ao meu Pai a casa que Ele me preparou: In conspectu angelorum psallam Tibi, Deus meus! [Louvar-Vos-ei, Deus meu, em presença de vossos anjos!].

04 DE ABRIL 

Nescitis quid petatis [não sabeis o que pedis (Mt 20,22)]

O meu orgulho e o meu mau humor nunca viram com bons olhos aquela mater filiorum Zebedaei, cum filiis suis, petens aliquid ab eo [a mãe dos filhos de Zebedeu, com seus filhos, para lhe fazer uma súplica]. Demasiada pretensão, a daquela mulher, pedindo nada menos que os primeiros lugares do Reino, para seus dois filhos. Ambição exagerada, que não via a desvantagem para os outros, que também eram discípulos do Mestre.

No entanto, preciso agradecer a essa mulher simples e ignorante. Seu gesto de inocente pretensão me mostrou como Nosso Senhor é bom e humano. Minha vaidade não teria dado atenção àquela pobre mãe, que se preocupava com seus filhos e Nosso Senhor a atendeu. Meu comodismo não a teria ouvido e Nosso Senhor a ouviu pacientemente. Meu orgulho não a teria desculpado e Nosso Senhor a desculpou diante dos discípulos.

Eu, que não tenho humildade para pedir, que não tenho inocência para me aproximar de Deus... eu, que sempre me coloco de cima, como se não precisasse rezar, ouço o pedido daquela mulher, para dizer que era uma pretensão ingênua, ridícula. Mas, na sua encantadora simplicidade, a mãe dos dois discípulos me diz que a minha vaidade é bem mais ridícula e que o meu orgulho é bem mais desprezível diante de Deus.

03 DE ABRIL 

Erit Fletus et stridor dentium [(ali) haverá choro e ranger de dentes (Mt 8,12)]

Quase não compreendo essas palavras naqueles lábios divinos que tantas vezes se abriram, para consolar e perdoar. O Pai das misericórdias e Deus de toda consolação, falando-me de um suplício eterno, em termos bem claros e severos. Mas tenho que agradecer a sua misericórdia que não me escondeu essa verdade. Se Ele a repetiu tantas vezes, é porque eu a devo meditar não apenas uma vez. 

Suas ameaças foram pronunciadas com o mesmo amor com que pronunciou as suas palavras de perdão. Ele me avisou para não ter que me castigar. Certamente que o inferno não foi criado para aqueles que o temem, mas para aqueles que o querem ignorar. Ele existe para a má vontade. Mas eu também o devo temer, pois a experiência me diz que não posso confiar muito na minha vontade. Acaso ela também não foi ferida pelo pecado?

Nos insensati... erravimus a via veritatis; ambulavimus vias difficiles, viam autem Dei ignoravimus [nos enganamos... nos desviamos do caminho da verdade; andamos por caminhos difíceis e ignoramos o caminho de Deus]. Quantos não tiveram de reconhecer isto já à hora da morte! Quid nobis profuit superbia?... aut divitiarum iactantia? Transierunt omnia illa tamquam umbra. Talia dixerunt in inferno hi qui peccaverunt [o que ganhamos com o nosso orgulho? ... a riqueza mais a arrogância? ... tudo isso desapareceu como sombra. São tais coisas que os pecadores dizem no inferno (Sb 5,8.9.14)].

02 DE ABRIL

Totus in maligno est [todo (o mundo) sob o maligno (1Jo 5,9)]

Já em seu tempo, São João não se enganava a respeito do mundo: in maligno est [sob o julgo do maligno]. Se assim era, assim continua sendo. E é nesse mundo que eu devo trabalhar, é nesse mundo que eu devo viver, como um estranho, que ninguém compreende. Tenho que conservar a humildade, afogada entre os arranha-céus do orgulho que a despreza.

Tenho que ser pobre, desapegado e simples, em meio ao luxo que zomba do meu desprendimento. Tenho que guardar a inocência, qual uma flor em meio ao pântano da malícia e sensualidade que me rodeia. Tenho que me sacrificar no trabalho pelos outros, quando todos buscam o conforto e se afogam no prazer. Tenho que voltar meus olhos para o alto, quando todos me ensinam e tudo me obriga a buscar o pó da terra. E tenho que guardar acesa a luz da minha fé, quando todas as tempestades se arrojam sobre ela...

Deus me colocou tão alto!... para me ver lutando neste mundo tão baixo! Senhor, em meio a tanta negação, aumenta a minha resistência e a minha força na Fé! Haec est victoria quae vincit mundum: Fides vestra [Eis a vitória que vence o mundo: a vossa fé].

10 DE ABRIL 

Dominus operam eius desiderat [O Senhor precisa dele (Lc 19,31)]

Os discípulos deram apenas uma explicação: O Mestre queria o jumentinho para a sua entrada triunfal em Jerusalém. Queria — e isso era tudo. Nosso Senhor quis viver de esmolas; e muitas vezes Ele teve que pedir favores. Um pobre homem que nada tinha, nada podia. Mas, quando disse, Duc in altum [avança para o Alto; mar adentro] — Veni, sequere me [vem, segue-me] — ou Laxate retia vestra [lançai as vossas redes] — eram ordens que Ele estava dando, e queria ser obedecido.

Se hoje ainda Ele me repete aquele: Ite et vos in vineam meam [Ide vós também para a minha vinha], Ele não está me perguntando se posso ou se não posso, se tenho qualidades ou se não tenho forças. Ele quer a minha obediência pronta e generosa. Quer o meu trabalho, no conjunto da sua glória infinita. E eu não posso ficar estudando as suas ordens ou analisando a sua vontade. Nem posso discutir os caminhos que a sua Providência quer trilhar.

O que tenho a fazer é aceitar o trabalho que Ele me impõe. Sem demora, tenho que por mãos à obra. E nem devo estranhar que Ele queira precisar da minha miséria para a sua glória. Naquele dia, em Jerusalém, Ele, aclamado em seu triunfo, não quis usar de um jumentinho?

31 DE MARÇO

Ager est mundus [o campo é o mundo (Mt 13,38)]

"Há um mundo corrupto e corruptor, porque impregnado do mal — in maligno positus [sob o julgo do maligno]. Este mundo foi condenado por Jesus — nunc judicium est mundi [agora é o juízo deste mundo (Jo 12,31)]. A este mundo vós não pertenceis e, por isso, ele vos odeia — quia de mundo non estis... propterea odit vos mundus [porque não sois do mundo, por isso o mundo vos odeia].  

Com este mundo não vos deveis misturar, e menos ainda, confundir. Não podeis entreter diálogos, descer a pactos ou procurar compromissos; seu príncipe é Satanás — princeps huius mundi [príncipe deste mundo] — e com Satanás não pode haver acordo. Há porém um outro mundo: o mundo que Deus amou: Sic Deus dilexit mundum [porque deus amou o mundo] — o mundo ao qual Jesus foi enviado, não para condená-lo, mas para salvá-lo: Non misit Deus Filium suum in mundum, ut iudicet mundum, sed ut salvetur mundus per ipsum [pois Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo seja salvo por ele (Jo 3, 17)] — neste mundo há rebentos que esperam ser cultivados; plantas que querem crescer e multiplicar-se; frutos a serem recolhidos. 

Há, sobretudo, um terreno à espera de ser semeado. Sulcos estão prontos, traçados e escavados em profundidade pelas desilusões sofridas, pelas lágrimas derramadas, pela intensa vontade de ver reflorescer a fé e frutificar a esperança. Quereríamos que não considerásseis os espinhos que existem aqui e ali, mas apenas o bom terreno, que não falta e está esperando, embora inconscientemente, uma farta sementeira” (Pio XII).

30 DE MARÇO 

Cum veneris in regnum tuum [quanto estiveres em teu reino (Lc 23,42)]

Senhor, eu sei que a tua misericórdia, infinita como é, não pode me esquecer. Ela me acompanha e me assiste, qual uma mãe que não abandona o seu filho. E, ainda que essa mãe fosse capaz de esquecer o filho de suas entranhas, o teu amor nunca seria capaz de me esquecer.

Aquele ladrão que agonizou e morreu ao teu lado, no Calvário, não era um dos teus amigos. Não viveu contigo, nem sequer te conhecia. E teve a coragem de pedir m lugar no teu Reino, que a tua misericórdia não teve coragem de lhe negar. Somente esse gesto da tua bondade bastaria para me mostrar que és realmente o Amor, a misericórdia, o perdão.

Senhor, eu te venho acompanhando há tantos anos... e Tu sabes que toda a poeira da minha imensa miséria não chegou a secar aquela gota de boa vontade que me deste. Confesso que, ao longo do meu caminho, há vestígios de muita infidelidade, sombras de muita negação. Mas, há também, e Tu o sabes, muito golpe de espada em tua defesa, e muito sacrifício vencido por teu amor. É por isso que, com a mesma coragem do Bom Ladrão, eu olho para o meu Redentor e, com a mesma confiança, eu lhe peço: Memento mei, Domine! [lembra-te de mim, Senhor!].

29 DE MARÇO 

Mihi mundus crucifixus est [o mundo está crucificado para mim (Gl 6,14)]

A crucificação era o ódio, a execração e a ignomínia que caíam sobre o condenado à cruz. Para o mundo, nós somos uns crucificados. Ele não nos entende e nem pode contar conosco. Por isso ele não nos quer e nos cobre como seu desprezo, ridicularizando o nosso modo de pensar. Si mundus vos odit [se o mundo vos odeia (Jo 15, 18)] — ele nos dá o que tem.

Mas que o mundo esteja também crucificado para nós. Positus in maligno [sob o julgo do maligno], ele só pode merecer o nosso desprezo, pela sua malícia e leviandade. Das suas vítimas, sim, nós nos compadecemos, e por elas, temos que fazer tudo; certamente merecem o nosso interesse, a nossa dedicação.

Dois crucificados — nada podem fazer um pelo outro. O mundo nada fará por nós; não lhe pedimos, nem esperamos por isso. Mas ele também nada exija de nós e nem espere a nossa condescendência para com a sua leviandade. De modo alguma nossa compaixão para com os que erram poderá se transformar em aprovação ou tolerância para com seus erros. Estamos e devemos estar crucificados para esse mundo mergulhado na malícia. Mortui sumus peccato; quomodo adhuc vivemus in illo? [se estamos mortos ao pecado, como poderemos ainda viver nele?]. Realmente seria um absurdo.


28 DE MARÇO

Religio pura et immaculata [religião pura e imaculada (Tg 1,27)]

São Tiago a define, dizendo: visitare pupillos et viduas in necessitatibus eorum [visitar os órfãos e as viúvas em suas necessidades]. Minha religião com Deus obriga-me a pensar nos filhos de Deus, interessando-me por eles. Tenho que sofrer com meus irmãos que sofrem, socorrendo-os, espiritual e também materialmente.

Dificilmente irá pensar no Reino dos Céus o homem que não tem o mais necessário neste mundo. Mas, acrescenta o Apóstolo: Et immaculatum se custodire ab hoc saeculo [e conservar-se sem mácula neste mundo]. Eu não tenho deveres somente para com meus semelhantes; eu os tenho, principalmente, para com meu Deus. E como irei pensar em Deus, se me deixar arrastar pelo espírito do mundo que o não conhece? Pater juste, mundus te non cognovit [Pai Justo, o mundo não te conheceu (Jo 17,25)]. 

Somente irei pensar que meus semelhantes são meus irmãos, se me lembrar que eu e eles temos o mesmo Pai, Aquele que está nos céus. Não posso, portanto, aceitar o contágio do mundo, sob pretexto de fazer caridade ao mundo. Impossível esquecer meu Deus, porque devo pensar nos meus irmãos. Caridade absurda, a de querer socorrer aos outros, com prejuízo da minha consciência. Tanto mais eficiente será minha caridade quanto mais livre eu estiver no mundo. Então, minha caridade estará cheia de Deus.

27 DE MARÇO

Spiritus postulat pro nobis [O Espírito intercede por nós (Rm 8,26)]

Enquanto eu trabalho, enquanto eu rezo ou me sacrifico pelas almas, no fundo da minha alma, Alguém reza por mim. É o Espírito Santo quem fala ao Pai em meu favor. Como? Gemitibus inenarrabilibus [com gemidos inefáveis] — diz o Apóstolo.

E quanto eu me afasto de Deus, quando falto aos meus deveres ou me entrego à dissipação, Ele continua rezando. O que Ele pede para mim, o que diz a meu respeito, eu não sei. Mas, qui scrutatur corda scit quid desideret Spiritus [aquele que perscruta os corações sabe o que deseja o Espírito (Rm 8, 27)].  Se o meu fervor precisa de Deus, muito mais a minha indiferença e 'e aquele que perscruta os corações sabe o que deseja o Espírito', a minha tibieza. Se eu pudesse penetrar esse mistério! A vida de Deus em mim; a ação do Espírito Santo em minha alma! Como posso esquecer uma verdade tão consoladora? 

O Espírito Santo vive em mim e me acompanha; Ele se preocupa, Ele se interessa pela minha santificação. Eu o recebi pelo batismo, pela confirmação, pelo sacerdócio; é em mim dulcis hospes animae [doce hóspede da alma]. E dele eu me lembro tão pouco! Se eu me interessasse mais pela sua presença em minha alma, se eu contasse mais com essa realidade, compreenderia a delicadeza do Apóstolo escrevendo: nolite contristare Spiritum Sanctum, in quo signati estis [não contristeis o Espírito Santo, com quem estais assinalado]. Preciso ter esse cuidado...

26 DE MARÇO 

Adversus insidias diaboli  [contra as ciladas do demônio (Ef 6,11)]

Para podermos enfrentar as ciladas do demônio, o conselho do Apóstolo é este: induite armaturam Dei [revesti-vos da armadura de Deus]. Fechar os olhos para não se ver o perigo é sempre uma imprudência muito grande. E infelizmente há os que procedem assim. Mas se examinarmos, com sinceridade, a nossa consciência, ela nos dirá que, em nossos caminhos, há realmente ciladas e não poucas: Satanas expetivit vos ut cribraret sicut triticum [satanás vos postulou para vos peneirar como trigo]. Nosso Senhor certamente não exagerou. 

Pecando com facilidade, alguém chega ao ponto de não ver mais o perigo. É que as faltas continuadas criam o hábito do pecado e este se encarrega de justificar tudo. Compreende-se então essa lamentável leviandade com que são aceitas, e até procuradas, certas ocasiões perigosas. Somente uma piedade sólida, alimentada pela oração e vigilância, nos dará essa armatura Dei [armadura de Deus] que São Paulo nos manda vestir. 

Um Apóstolo achou que, à força dos inimigos, podia opor-se pela força da sua espada e esta nada mais fez do que cortar a orelha de um criado. Logo depois, a língua de uma mulher bastou para fazê-lo negar o seu Mestre, aquele que antes só falava de morrer com Ele. Eis aí uma advertência pesada para nós.

25 DE MARÇO

Ecce ancilla Domini [eis a serva do Senhor (Lc 1,38)]

Ela nunca teria esperado ver diante de si um Anjo, saudando-a com aquelas palavras: Ave, gratia plena! [Salve cheia de graça!]. E, menos ainda, teria imaginado para si a maternidade divina. Que momento aquele na vida de Nossa Senhora. Começava a ser Mãe do seu Criador, continuando uma simples criatura. 

E o momento mais sublime da sua vida foi, por excelência, a hora da sua humildade. Como se não quisesse penetrar todo o significado daquela saudação, preferiu apegar-se à ideia que sempre fizera de si mesma: ecce ancilla Domini [eis a serva do Senhor] — o Anjo a diz 'Mãe do Senhor' e ela se diz apenas 'escrava'. Naquele momento, Nossa Senhora compreendeu a sua missão; Deus a queria nos seus planos de redenção do mundo. E ela nada mais poderia querer, senão servir; estava pronta para cooperar: sou a sua serva, cumpra-se a sua vontade! 

A ideia que eu faço de mim mesmo é ditada pela humildade? Meus pensamentos, palavras e atitudes não trazem sempre a cor da vaidade e do orgulho? Se eu vivo preocupado com aparecer, é natural que a humildade não tenha, em minha vida, o seu momento. Acho que ela poderia me rebaixar... O non ministrari, sed ministrare [não para ser servido, mas para servir] deve valer para mim também.


24 DE MARÇO 

Et stupebant super doctrina eius [maravilham-se com a sua doutrina (Mc 1,22)]

Não era para menos. Ele não tinha outra doutrina senão a Verdade simples e límpida, que sempre atrai aqueles que a não conhecem. Ele não falava para agradar, mas para convencer. 

A nossa palavra, às vezes, não chega a penetrar as almas, não toca nas consciências, não produz resultado. Por que? A distância do ouvido ao coração é muito grande. Somente a palavra cheia de Deus a pode percorrer. Às vezes não damos ao povo a Palavra que Nosso Senhor nos deu: simples, cheia de zelo, de mansidão e, principalmente, de doutrina. Oferecemos a palavra dos homens, muito estudada, e até enfeitada, mas vazia de Deus, e até de nós mesmos porque a não vivemos. Essa palavra não vai do ouvido ao coração; falta-lhe a força. 

As almas não se deixam impressionar pela vaidade, mas pela verdade. E esta, não a podemos improvisar, embora possamos contar com os recursos de uma exuberante retórica. Antes de ser ensinada, a Verdade precisa ser vivida, para ter força de penetração. As almas não se interessam pela água de uma palavra eloquente, caprichada, mas vazia. Elas querem é a Verdade: ad eum vinum non habent [eles já não têm vinho (Jo 2, 3] — numa palavra, cheia da vida que Nosso Senhor lhe deu.

23 DE MARÇO

Lux venit mundum [a luz veio ao mundo (Jo 3,18)]

O que ninguém poderia esperar: a Luz eterna, infinita, fez-se homem. Descendit de caelis [descido do Céu] — veio ao mundo, para viver conosco et habitavit in nobis [e habitar entre nós]. No entanto... dilexerunt homines magis tenebras quam lucem [os homens amaram mais as trevas que a luz (Jo 3, 19)] e isto não se podia também esperar. Mas São João explica: erant enim eorum mala opera [pois suas obras eram más (Jo 3, 19)]. As más obras não podiam mesmo tolerar a Luz, e preferiram as trevas.

Na meditação, no exame de consciência, continua descendo sobre mim essa Luz eterna. Mas eu tenho sempre um certo medo de estar a sós com Deus e de falar com minha consciência. Porque será? Diante de Deus, eu teria de constatar as minhas faltas e a consciência me iria repreender. No recolhimento e na oração, eu teria que tomar certas resoluções, que seriam a morte de algumas ou de muitas faltas que eu não quero renunciar. Prefiro assim, não me achegar muito à Luz... 

Com Deus, eu não posso viver às escuras. Ele é a Luz que tudo penetra e devassa em minha vida. Preciso viver em dia com Nosso Senhor e estarei em paz com minha consciência. Que queira sinceramente acabar com certas faltas e evitar certas ocasiões e não precisarei ter tanto medo da oração e nem do exame de consciência.

22 DE MARÇO 

Consepulti cum illo per baptismum [sepultados com Ele pelo batismo (Rm 6,4)]

Aí está a nossa vocação batismal: Viver com Cristo, sepultados na Graça, ut destruatur corpus peccati, et ultra non serviamus peccato [para que o corpo do pecado seja destruído e para que não sejamos escravos do pecado (Rm 6, 6)].

Se pelo batismo já fomos sepultados com Nosso Senhor, quanto mais pelo sacerdócio! Desse vetus homo [homem velho] que o batismo sepultou, nasce um homem novo, com novo espírito — christianus [cristão]  — o qual, elevado pelo sacerdócio, é transformado num alter Christus [outro Cristo]Compreendamos porque tendo afirmado um dia: Lux sum mundi [sou a Luz do mundo], Nosso Senhor afirmou o mesmo a respeito dos seus discípulos: Vos estis lux mundi [vós sois a Luz do mundo]. 

Temos que ser, aos olhos do mundo, uma continuação viva de Nosso Senhor. A diferença que o hábito clerical nos imprime, diante de todos, é uma diferença apenas exterior, com a qual não nos podemos contentar. O que os deve distinguir é a vida sobrenatural que devemos viver: Ut quomodo Christus surrexit a mortuis, ita et nos in novitate vitae ambulemus [como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do Pai, assim nós também vivamos uma vida nova (Rm 6, 4)]. Essa a consequência do batismo e do sacerdócio. Se não realizarmos essa transformação interior, tudo o mais será inútil para que as almas vejam em nós a luz do mundo. Elas sabem distinguir bem a realidade e o artifício e não ignoram que um simples hábito clerical não basta para fazer um sacerdote.

21 DE MARÇO 

Sperant ut peccent [esperam confiantes para poder pecar (Santo Agostinho)]

O Santo Doutor se refere àqueles que não se resolvem a romper com o pecado. Confiam na bondade divina e fazem a paciência de Deus esperar, enquanto continuam pecando. Dinumerari non possunt quantos haec inanis spei umbra deceperit [ó quantos não são enganados por essa vã esperança]. Realmente, esta é uma esperança falsa.

Nosso Senhor já nos falou daquele homem que, tendo uma dívida a pagar, pediu humildemente: Patientiam habe in me, et omnia reddam tibi [tem paciência comigo e eu te restituirei tudo]. Logo depois estava aumentando a sua culpa... Quantas vezes não lamentamos, diante de Deus, esta ou aquela queda! Se Deus nos dissesse que é a última vez, tomaríamos mais cuidado. Mas, porque contamos com a sua paciência infinita, saímos da sua presença para novos pecados. Se Deus nos chamou, ante mundi constitutionem [antes da criação do mundo], não foi certamente para ficar à nossa espera.

O Bom Ladrão não pediu a Nosso Senhor que o livrasse da morte para converter-se depois. Mas converteu-se na hora em que a Graça o tocou. Certamente a paciência de Deus não tem limites, contanto que ponhamos um limite à nossa tibieza. Por isso Ele já nos avisou, e tantas vezes, que poderá chegar de surpresa, para um ajuste definitivo das contas...

20 DE MARÇO 

Sub umbra alarum tuarum [sob a sombra de tuas asas (Sl 16,8)]

Santo Inácio costumava dizer: 'Nada de grande fará para Deus aquele que teme exageradamente os homens'. Um dia, São José teve que empreender uma fuga para o Egito. Sem conhecimento algum da região, por estradas desertas, ele saiu para iniciar a vida numa terra completamente estranha. Acompanhado de uma mulher e de uma criança, era um pobre homem perseguido por um exército. Mas, confiando em Deus, entregou-se à Providência; obedeceu, e salvou a vida do Redentor. Enquanto isso, fracassaram todos os planos de um rei que dispunha de todos os meios para realizar o seu intento. A velha história de Davi, enfrentando Golias...

De que meios dispomos para as lutas do nosso apostolado? Somos uma simples gota de fé, lutando para sobreviver num oceano de paganismo. O mundo tem tudo para perder as almas. Jogando com o dinheiro e com a sensualidade, sua força de atração é simplesmente irresistível. 

Nós, como atração, apresentamos uma cruz e, quando muito, uma promessa. Humanamente seria para desanimar. No entanto, omnia possum in eo qui me confortat [tudo posso naquele que me fortalece (Fl 4,13)]. Nossa força não repousa nos meios humanos, mas na palavra do Mestre: Ego vici mundum [Eu venci o mundo].

19 DE MARÇO 

Cum esset iustus [porque era (homem) justo (de bem) (Mt 1,19)]

Com isso, o Evangelista nos diz que São José era bem o Homo Dei, Homem de Deus, como nenhum outro. Para viver ao lado da santidade infinita, Ele foi o Santo, o Justo, que trabalhou para Nosso Senhor até à morte. Que modelo para nós!

Em certo modo, a nossa missão é muito superior a de São José. Mas a nossa virtude estará também à altura dessa dignidade a que Deus nos elevou? Se a santidade não está exigindo que todos os dias apresentemos grandiosas realizações, ela exige, no entanto, que ponhamos, cada vez mais, amor e dedicação em tudo o que fazemos. Somente a caridade poderá impedir que a nossa vida seja um fracasso.

Para realizar menos do que nós, São José foi o Santo, o Justo. E nós? Alimentamos realmente um desejo firme, sincero, dessa santidade sacerdotal que nos devem distinguir? Certamente nunca seremos dignos da grandeza a que fomos elevados; mas nem por isso nos iremos dar por satisfeitos, com a pouca virtude que já alcançamos. Se quisermos progredir, há muito ainda por fazer nesse campo de nossa vida interior. Cum esset iustus [porque era (homem) justo] — aí está toda a biografia de um santo. Oxalá essa palavra possa resumir também a nossa vida!

18 DE MARÇO 

Si fidem quis dicat se habere opera [se alguém diz ter fé mas não tem obras (Tg 2,14)]

O Apóstolo já estranhava a fé sem as obras e perguntava: Quid proderit? [qual é o benefício (disso)?]. É uma fé morta, que nada realiza. Nós também estranhamos, na vida de outros, essa fé que se resume em determinadas exterioridades. Muitos há que têm fé, sem religião; mas há também os que dizem ter religião e não têm fé, porque não a vivem.

Podemos dizer que a nossa vida esteja sendo realmente uma consequência das verdades que cremos? É o resultado de uma fé viva? A vida eterna, a presença de Deus, a malícia do pecado, a necessidade da oração, enfim, as verdades que eu creio, talvez estejam mais nas minhas palavras, que na vida que eu levo. Minhas orações não caíram na rotina? E minha atividade não estará sendo fruto, não do zelo, mas de uma natureza irrequieta ou de uma vaidade mal controlada?

In fide vivo Filii Dei [vivo na fé do Filho de Deus] — por isso, o Apóstolo foi capaz de realizar tanto para Deus e para as almas; soube ser o justo que vive realmente da fé. E eu, que procuro reavivar a fé em outras almas, porque não faço o mesmo em minha alma? Que não seja para mim a admiração de São Gregório: En haec credidisti, et tamem sic vixisti? [Nas coisas crestes, mas foi deste modo que vivestes?].

17 DE MARÇO 

Tu non poteris quod isti et istae? [Tu não podes fazer o que outros fizeram? (Santo Agostinho)]

Frequentemente acontece que não realizamos em nossa alma o que conseguimos realizar nas almas. Não raro uma simples palavra nossa é suficiente para despertar, em outros, o arrependimento e bons propósitos. Chegamos mesmo a operar verdadeiras conversões; mas, impressionando a outros, nem sempre conseguimos impressionar a nós mesmos.

Quanto não nos falam o Breviário, a Santa Missa, os Sacramentos, as Verdades que pregamos! E que impressão nos fazem? Levam-nos realmente a uma vida mais fervorosa? É que nos falta a vontade séria de melhorar. Falta-nos a energia necessária para colocarmos a virtude no lugar ocupado por determinadas faltas. Fazemos o papel daquele rapaz do Evangelho, o qual, com um simples bom desejo, pensava poder ganhar o Reino dos Céus. O que outros conseguiram, nós também poderíamos realizar, se resolvêssemos querer isso com toda a sinceridade. 

Duc in altum [avança para o Alto*] — que Deus nos livre dessa praia que é a mediocridade. Ele nos quer lutando, no mar alto, pois já nos avisou que simples desejos não abrem as portas do seu Reino. É preciso muito mais. Que o digam os santos!

* nas palavras de Cristo no Evangelho: avança mar adentro, rema para águas mais profundas, busca sempre e em tudo as coisas de Deus.

16 DE MARÇO 

Veni, Domine Jesu! [Vinde, Senhor Jesus!(Ap 22,20)]

Era assim que o teu Apóstolo rezava. Na sua inocência e no seu amor, ele suspirava pela tua presença, e te pedia com sinceridade: Veni, Domine! [Vinde, Senhor!]. Mas eu, Senhor, preciso de um médico, porque o pecado me assaltou nos meus caminhos e, precisando de uma força para manter a minha fraqueza, de uma luz para iluminar a escuridão em que vivo e precisando de um amigo e de um pai, não chego a pedir a tua presença, nem me interesso pela tua vinda.

É que eu tenho medo de contrariar aqueles que se apossaram de mim, tomando conta de minha vida. O orgulho, a leviandade, o comodismo, o apego, a dissipação, não iriam concordar com a tua presença. Não serias somente um incômodo para eles, mas a própria morte. À tua chegada, alguma ou muita coisa teria que morrer em mim; a minha indecisão e a minha covardia não se conformam com isso.

Senhor, Tu sabes que, apesar de tudo, eu desejo a tua presença em minha vida. Ainda que eu não o diga, por medo, atende o desejo de minha alma que te pede: Veni, noli tardare! [Vinde, não tardeis!].

15 DE MARÇO 

Omnipotentes facit omnes qui in se sperant [(Ele) torna todo-poderosos aqueles que nEle esperam (São Bernardo)]

Foi Nosso Senhor mesmo quem garantiu a onipotência para aquele que crê e confia: Omnia possibilia sunt credenti [tudo é possível para aquele que crê]. Se os santos realizaram milagres, isto é, o impossível, foi porque puderam dispor da onipotência divina, pela fé e confiança em Deus.

Em meio ao nosso apostolado, muita coisa há que deve ser realizada, mas que nos parece impossível. Como transformar para o bem um mundo positus in maligno [sob o julgo do maligno]? Como santificar as almas que vivem nesse mundo, ouvindo, vendo e respirando o mal continuamente? Se a fé puser em nossas mãos a força de Deus, tudo será possível.

O apostolado que Nosso Senhor indicou aos seus discípulos, humanamente falando, era um absurdo. No entanto, a fé e a confiança no Mestre realizaram o impossível: Confidite, ego vici mundum! [Tende confiança, Eu venci o mundo!]. Eles confiaram, e venceram também. Se quisermos trabalhar, contando com as nossas forças e ignorando a força de Deus, perderemos o nosso tempo. Com ele, porém, a nossa fraqueza realizará maravilhas e o nosso trabalho fará milagres.

14 DE MARÇO 

Pacem meam do vobis [dou-vos a minha paz (Jo 14,27)]

A paz de Nosso Senhor era a serenidade imperturbável de quem sabia ter cumprido sua missão: Ego te clarificavi [eu te glorifiquei]. A paz de Deus supõe a paz da consciência. E esta precisa estar viva, em liberdade, pois a paz de uma consciência amordaçada ou morta pelo pecado é a paz do sepulcro; e esta certamente não é a paz de Nosso Senhor.

Non turbetur cor vestrum [não se perturbe vosso coração] — era o que o Mestre aconselhava aos discípulos que, logo mais, o iriam abandonar. Mas seria essa uma fraqueza que eles não estavam prevendo. Apesar de tudo, continuariam com seu Mestre, passada a tempestade. Não havia, por isso, motivos de confusão e desespero.

Na minha vida, a única desordem é sempre o pecado. E essa desordem é que gera a confusão. Se eu não estiver em paz com Deus, não estarei contente comigo mesmo; minha consciência não terá paz, a não ser que esteja morta... Quando eu não mais puder olhar para Deus, com a consciência tranquila; quando eu tiver medo da presença de meu Pai; quando eu não tiver mais coragem de falar com Ele, então, sim, terei que me inquietar, para resolver logo a minha situação: ibo ad Patrem meum [irei ao meu Pai].

13 DE MARÇO 

Adversarius vester circuit [vosso adversário anda ao redor (1Pd 5,8)]

São Pedro no-lo mostra tamquam leo rugiens [como o leão que ruge], solto, à procura da presa, circuit, quaerens quem devoret [anda ao redor, buscando a quem devorar].

Mas o demônio sabe muito bem despistar a própria presença. Desde o Paraíso, ele já usa máscara. Quanta vítima ele já não fez, escondido na desculpa de que isto ou aquilo é muito natural! Não haverá condescendência e até certo interesse em querer ignorá-lo? Se ele não está em certas ocasiões perigosas que eu facilito: leituras, diversões, amizades, onde estará ele então? Somente no inferno?...

É a própria Igreja quem me avisa que ele anda pelo mundo, para por a perder as almas. E se há uma alma que ele deseja perder, essa é a minha. Um padre que ele desvia do fervor, são multidões que ele ganha. Para se destruir ocultamente uma casa, nada melhor que minar os seus alicerces e, ferido o pastor, as ovelhas não terão defesa. Preciso atender melhor a minha consciência. Não posso descuidar, toda vez que ela der o sinal de alarme. Eu sei que ela não costuma gritar sem motivo...

12  DE MARÇO 

Sine me nihil potestis facere  [sem mim nada podeis fazer (Jo 15,5)]

"O que somos todos nós, o que fazemos todos nós? Sem Jesus não somos nada e, sem Ele, nada podemos fazer. Compreendereis em cheio a necessidade, para todos quantos desejam trabalhar na vinha do senhor, de estarem estreitissimamente unidos a Ele, de se identificarem com Ele. 

Não é difícil imaginar o que aconteceria ao mundo, se todos os sacerdotes se apresentassem aos homens non in persuasibilibus humanae sapientiae verbis, sed in ostensione spiritus et virtutis [não com os discursos persuasivos da sabedoria humana, mas antes com os efeitos sensíveis do espírito e da virtude (de Deus) (1Cor 2,4)], pois a luz da fé, a firmeza da esperança e o ardor da caridade não derivam da sabedoria dos homens, mas da força de Deus.

Se neles for Jesus quem reza, Jesus quem prega, Jesus quem opera, quem poderia descrever a abundância das águas a fluir pelo mundo e as plantas a se multiplicarem, o encanto das flores e o valor dos frutos? Possa Jesus fazer resplandecer em vosso espírito o encanto desta luz e fazer-vos sentir no coração a força desta certeza! Possa Jesus tornar-se o senhor absoluto de vossas almas!" (Pio XII).

11 DE MARÇO 

Omnia sustineo propter electos [tudo suporto pelos escolhidos (2Tm 2,10)]

São Paulo certamente não exagerou quando disse que suportava tudo pelas almas; seu ideal não era outro: Ut et ipsi salutem consequantur [para que eles encontrem a  salvação]. E as suas Cartas e Atos já nos dão uma ideia do que ele sofreu no apostolado.

Nós não podemos resumir o nosso zelo em celebrar diariamente a Santa Missa, e depois, esperar que nos chamem para administrar algum sacramento. Mais alguma coisa? Sim; pelo menos a oração e o estudo. Temos que ser, nas mãos de Nosso Senhor, instrumentos aptos a realizar, pelas almas, tudo o que Ele quer realizar. Com Ele, que somos nós? Que podemos fazer, unidos a Ele, tendo em nós Jesus vivo, habitante, operante? Tudo. Omnia possum in eo que me confortat [tudo posso naquele que me fortalece  (Fl 4,13)]. 

Portanto, não somos nós os autores das obras apostólicas, mas instrumentos de Deus, cultivadores do seu campo, dispensadores da sua palavra e da sua graça: dispensatores mysteriorum Dei [administradores dos mistérios de Deus (I Cr 4,1]. Se perdermos o contato com Deus e com os livros, deixaremos de ser instrumentos da graça para sermos simples máquinas de trabalho. Que apostolado imenso não poderá realizar uma inteligência cheia de cultura, num homem cheio de Deus!

10 DE MARÇO 

In his quae didicisti [naquilo que aprendeste (2Tm 3,14)]

Não podendo servir a dois senhores, ao mesmo tempo, também não podemos seguir a outro Mestre que não seja Nosso Senhor. Unus est Magister vester [um só é o Vosso Mestre]. E conhecemos bem a sua doutrina. Tudo o que Ele nos ensinou, com a palavra e com o exemplo, está entre o Presépio e a Cruz. 

Entre esses parênteses de renúncia e humilhação não está certamente uma vida fácil; o que se vê é o sacrifício de uma Vítima. O mundo também quer ser o nosso mestre e a nossa natureza olha com muita simpatia para tudo o que ele nos quer ensinar. Sempre houve quem quisesse abrandar Nosso Senhor, visando amaciar a sua doutrina. Tentativa inútil; entre a humilhação do Presépio e o aniquilamento do Calvário, existe apenas uma explicação: regnum caelorum vim patitur et violenti rapiunt illud [o reino dos céus é tomado à força e são os violentos que o arrebatam (Mt 11,12)]. Foi essa realidade que o Mestre nos deixou.

Nosso Senhor nunca modificou a sua doutrina para adotá-la ao gosto do homem. Antigo ou moderno, o homem é quem precisa adaptar-se à palavra do Mestre. Si quis vult post me venire [Se alguém quer vir após mim ] — Ele não força ninguém, mas se quiser, terá que ser assim: abneget semetipsum et tollat crucem suam [negue-se a si mesmo e tome a sua cruz cada dia (Lc 6, 23)]. Esta palavra é bem clara, para não nos deixar dúvidas.

09 DE MARÇO 

Recogitabo tibi omnes annos meos [recordarei todos os meus anos (Is 38,15)]

Sobre os anos que já vivi, não é muito o que posso ver, porque é pouco o que a minha memória pode alcançar. Mesmo assim tenho que olhar para os caminhos que já deixei atrás. In amaritudine animae [com amargura da alma],  um dia o filho pródigo pôs-se a pensar e compreendeu a própria situação. É assim também que eu devo olhar para a minha vida.

Graças a Deus vejo muito esforço realizado, à sombra da boa vontade que sempre me acompanhou. Mas não posso fechar os olhos, diante das falhas e quedas que estão marcando os meus caminhos. Muitas vezes nada mais fiz que arrastar penosamente o peso da minha miséria, para que ela não me arrastasse. Aqui e ali, sobram restos de um esforço inútil porque achei que meu entusiasmo não se deixaria vencer. Eu, que deveria ser o guia e apoio para outros, mal conseguia me manter de pé.

Meu Deus, eu quis vencer a distância sozinho e agora reconheço que a boa vontade não é tudo. Não posso confiar tanto em mim mesmo. Preciso confiar mais no auxílio que a tua mão me oferece, enquanto me repetes o que tantas vezes já ouvi: Surge et ambula! [Levanta-te e anda!].

08 DE MARÇO 

Filii lucis estis et diei [sois filhos da luz e do dia (1Ts 5,5)]

No dia em que nasci para a graça, pelo batismo, uma luz estava ao meu lado, lembrando a Fé que Deus se dignou acender em minha vida: accipe lampadem ardentem! [recebe a luz da fé! (do rito batismal)]. Pelo sacerdócio fui escolhido para viver in domo Domini, omnibus diebus vitae meae [na casa do Senhor, por todos os dias da minha vida]. E como viver diante da Luz eterna, se minha vida não for também uma luz pela santidade que me deve distinguir? Sic luceat lux vestra! [Assim brilhe a vossa luz! (Mt 5,16)].

Isto quer dizer que eu devo brilhar não somente pela dignidade mas, de um modo especial, pela virtude. Non sumus noctis neque tenebrarum [não somos da noite e nem das trevas (1Ts 5,5)] — o que o Apóstolo escreveu para os simples fiéis deverá valer muito mais para mim. Como irei iluminar aqueles que vivem na treva, e na sombra da morte se eu estiver nas mesmas ou em piores condições? 

Não serei a luz do mundo se eu não viver em pleno dia de uma absoluta sinceridade com minha consciência e com Deus. Mais devoção para com o dia do meu batismo! Ele me lembra que preciso viver às claras, não me refugiando à sombra de pretextos e desculpas. Sicut in die honeste ambulemus [vivamos honestamente como em pleno dia (Rm 13,13)] — com meu Deus, eu posso e devo ser sincero. E uma consciência limpa irá tornar a minha vida clara e luminosa como o dia.

07 DE MARÇO 

Ut mederer contritis corde [para curar corações contritos (Is 61,1)]

É principalmente no confessionário que o sacerdote exerce o seu ofício de médico das almas. Tão importante quanto pesado, esse munus [encargo] exige do confessor:

Doutrina — recolhida não somente nos anos de seminário, mas principalmente depois através da experiência e do estudo; Piedade — um doente da alma não busca apenas a um sábio; Compreensão — paciente, sem facilitar conversas inúteis e compreensivo, sem exageros de complacência, o confessor saberá ganhar a confiança do doente; Zelo — estando pronto para socorrer a todos e não reservando sua atenção para meia dúzia de almas eleitas; Prudência — não se deixando contagiar nem ser influenciado pelo penitente, sendo reservado em determinados assuntos e comedido nas palavras. 

Não se confunda a prudência com o escrúpulo, nem o zelo com o apego. Assim como o médico do corpo, também o médico das almas, ao atender os seus doentes, terá que precaver-se contra possíveis contágios. Se a rispidez prejudica o penitente, excessos de delicadeza comprometem o confessor. Alguém observou, e com razão, que o sentimentalismo nunca deve estar presente no confessionário.

06 DE MARÇO 

Omnes ejecit de templo [expulsou todos do templo (Jo 2,15)]

Quanta indignação e quanta energia em Nosso Senhor no dia em que fez aquela limpeza no Templo! O Mestre da mansidão surpreendeu a todos, com a sua atitude firme, transbordante de autoridade: Omnes ejecit de templo, oves quoque et boves, et nummulariorum effudit aes, et mensas subvertit [expulsou todos do templo, e também as ovelhas e os bois, espalhou pelo chão o dinheiro dos cambistas e derrubou as mesas].

Toda a minha vida deve ser a casa de Deus uma vez que Ele deve estar presente em tudo. Mas, posso dizer que ela tem sido aquela domus orationis [casa de oração] que Nosso Senhor espera? Pode ser que eu tenha introduzido, em minha vida, alguma ou muita coisa que não pertence a Deus, nem a Ele se dirige.

Quanto trabalho que eu poderia ter entregue a Nosso Senhor e eu vendi por um pouco de vaidade! Quanto sacrifício que eu poderia ter feito em meu apostolado e não fiz, preferindo um descanso bem dispensável! Quantas obras de zelo que nem cheguei a iniciar para ter uma vida mais cômoda e sossegada! E a minha meditação, minha leitura espiritual, o Breviário, o recolhimento... não foram também negociados? Preciso por ordem na minha vida, mas com aquela decisão e energia de que Nosso Senhor me deu como exemplo.

05 DE MARÇO

Eluceat in eis totius forma iustitiae (Pontifical) [a essência de toda a justiça resplandeça nele]

"A grandeza e a força do padre vêm por ser ele um homem plenamente de Deus e das almas. Ser homem de Deus é, antes de tudo, tender à perfeição da divina caridade: sancti estote, quia ego sanctus sum, Dominus Deus vester [sereis santos porque Eu, Vosso Deus e Senhor, sou santo (Lv 19,2)].

Hoje como ontem, a santidade tem, como condições indispensáveis, a oração e a ascese. Não poderemos recomendar bastante, por mais que o façamos, a todos os nossos filhos empenhados no trabalho do ministério sacerdotal que se examinem sobre a sua fidelidade no exercício dessa dupla obrigação.

Não foi sem motivo que, no início do nosso pontificado*, demos esta palavra de ordem a todos os sacerdotes da Igreja: Orate, magis magisque et instanter orate! [Orai, orai cada vez mais e com maior insistência!]. As grandes leis que regem a união a Deus e à fecundidade apostólica são as mesmas no decorrer dos séculos: a cruz continua sendo o instrumento de nossa salvação; é sempre pelo sacrifício de si mesmo, inspirado pela caridade divina, é sempre in oratione et jejunio [em oração e jejum] que o Príncipe deste mundo tem de ser vencido". Diante dessas palavras de Pio XII*,  é lamentável que se coloque sob outra base a santidade das almas.

04 DE MARÇO 

Nisi folia tantum [somente folhas (Mt 21,19)]

À procura de frutos naquela figueira, Nosso Senhor não encontrou mais do que folhas. Foi tudo o que a árvore lhe ofereceu. Minha vida sacerdotal também poderá chegar a esse ponto: ser uma figueira estéril, uma vida vazia, que nada oferece para a eternidade. 

Se eu não viver com Nosso Senhor poderei realizar muito, mas Ele não aceitará nada. Preciso viver da sua vida, pois qui manet in me, et ego in eo, hic fert fructum multum [quem permanecer em mim e eu nele, esse dará muito fruto (Jo 15, 5)]. Por si mesmo, a minha vida é apenas uma figueira estéril. Ele me escolheu e, com isso, mostrou que confia em mim. Só mesmo a sua misericórdia para confiar nessa nulidade que eu sou. Agora preciso corresponder, apresentando a Nosso Senhor o fruto do meu trabalho, realizado na minha alma e nas almas que Ele me confiou. Quanto não poderei fazer se eu souber trabalhar com Ele!

Que a noite não me venha lembrar aquele remorso: diem perdidi! [perdi o dia!]. Minha vida é a vinha de Nosso Senhor e a toda hora Ele quer recolher frutos, já que folhas não interessam. Tenho que lhe entregar meu tempo, minha saúde, minhas forças, porque tudo lhe pertence. E para não iludir suas esperanças a meu respeito, basta que eu conte com Ele sempre: Gratia Dei mecum [que a graça de Deus esteja comigo!].

03 DE MARÇO

Quorum deus venter est  [cujo deus é o ventre (Fl 3,19)]

Qual será o meu deus — perguntava alguém — será Deus mesmo? Aí está uma pergunta que eu também deveria fazer, às vezes, à minha consciência. Pode ser que Deus não esteja sendo o meu Deus, como penso geralmente.

Quando uma alma procura libertar-se de Deus acaba escrava de si mesma. As paixões a dominam e, não vivendo para Deus, ela vive para o orgulho, para a sensualidade e para a ambição. A experiência mostra que, quando uma alma se cansa de Deus, é porque não tem mais forças; o pecado a destruiu. Preciso colocar Deus no centro de toda a minha vida para o qual terá que convergir toda a minha atividade. Ele será a única direção dos meus pensamentos, desejos e preocupações. 

E se não for assim, minha vida não será mais que uma agitação contínua, em todas as direções, sem uma finalidade que a leve, dirija e sobrenaturalize. Frequenter et ferventer da mihi, dulcissime Domine, cor meum ad Te dirigere [com fervor contínuo, o meu coração possa se erguer para Vós, Senhor] — quanta sabedoria neste pedido de Santo Tomás! E, reconhecendo a minha dissipação: defectionem meam, cum emendationis proposito, dolendo pensare [com o firme propósito de arrepender-me e emendar-me das minhas faltas]. Que eu procure o meu Deus sicut cervus desiderat fontes aquarum [como o cervo anseia pelas águas da fonte].

02 DE MARÇO 

Stude cognoscere te [Estude para conhecer a ti mesmo]

Ao nos dar este conselho, São Bernardo pergunta: Quid prosunt lecta et intellecta, nisi temetipsum legas et intelligas? [De que adiantam as coisas lidas e entendidas se não leres e entenderes a ti mesmo?]. Muita coisa, certamente, está reclamando o nosso estudo e a nossa atenção. Para a nossa vida pastoral, já não podemos dispensar sequer a leitura dos jornais. Mas, entre todos os conhecimentos úteis e necessários, há um que nunca poderá ser descuidado; é o conhecimento de nós mesmos.

Para a construção do edifício da nossa virtude, não nos basta um conhecimento superficial de nós mesmos, uma ideia vaga das nossas boas e más qualidades. Precisamos nos conhecer a fundo, para sabermos com que material iremos construir. Alguma coisa poderemos aproveitar do vetus homo [homem velho] e não será muito, certamente. Tudo o mais terá que ser material novo, trabalhado com muito esforço e perseverança. 

Se por menos não se faz um simples cristão, quanto mais tratando-se de um Alter Christus! [um segundo Cristo!]. Certamente não nos iremos transformar na lux mundi [luz do mundo] com uns simples retoques de boa vontade e alguns bons desejos. Compreendamos São Boaventura rezando: Transfige medullas et viscera animae meae! [transpasse a medula e as entranhas da minha alma!].

10 DE MARÇO 

Sub capite spinoso [sob uma Cabeça coroada de espinhos]

Uma palavra de São Bernardo, que nos pede um exame de consciência: Non decet sub capite spinoso esse membrum delicatum [não convém um membro tíbio sob uma Cabeça coroada de espinhos]. Cristo é a nossa Cabeça, mas uma Cabeça coroada de espinhos. Ele aceitou todas as dores e todo o sarcasmo daquela coroa. E nós... com essa Cabeça coroada de espinhos, poderemos viver à procura de conforto, de fama, elogios e bem estar?

Crescamus in illo qui est caput Christus [cresçamos em todos os sentidos, naquele que é a Cabeça, Cristo (Ef 4,15)]. Embora nossa natureza não se simpatize muito com uma Cabeça coroada de espinhos, embora nosso orgulho se recuse a aceitá-la, é com ela que devemos crescer na virtude, para que, unidos também a ela, o Pai nos possa, um dia, reconhecer por filhos. O nosso comodismo precisa saber que momentaneum quod delectat, aeternum quod cruciat... [é passageiro o que deleita, é eterno o que atormenta...].

Poucas almas neste mundo foram tão provadas como o Apóstolo. E se ele nunca desfaleceu foi porque teve os olhos sempre voltados para a glória, que deveria substituir os espinhos: reposita est mihi corona iustitiae [me aguarda a coroa da justiça]. Por isso a Igreja também nos lembra a recompensa final: ab ipso gloria et honore coronari mereamur in caelis [para sermos coroados em glória e esplendor no Céu]. Triste seria se perdêssemos de vista o que o Profeta já previu: corona tribulationis effloruit...[a coroa de tribulações resplandecerá...(como uma coroa de glória), conforme Is 28,5].

29 DE FEVEREIRO 

Memento quia pulvis es! [lembra-te que és pó!]

Senhor, todos os dias estou vendo a morte que passa à minha frente, levando outros consigo. Ela está nas flores que murcham, no ocaso do sol, como na cabeceira dos agonizantes que assisto. Ela está em toda parte e eu não a quero ver em parte alguma. Tenho medo de pensar que ela está a meu lado, com a impressão de que ela já roubou a minha vida. Como se a morte pudesse impedir que eu viva...

No entanto, diariamente, eu tenho em minhas mãos o Cordeiro divino tamquam occisum [como que imolado] para eu saber que, todos os dias, deverá extinguir-se um pouco o óleo da minha lâmpada, para glória do meu Pai. Que eu compreenda, Senhor, a minha vocação: sepultado in mortem [à morte] pelo Batismo. Tenho que morrer, todos os dias, um pouco física e espiritualmente. Quero aprender a contar os meus dias: dinumerare nos doce dies nostros [ensinai-nos a bem contar os nossos dias] não com a riqueza de quem está perdendo alguma coisa, mas com a alegria de quem está ganhando a eternidade. 

Quero pensar nos dias que vivi, com a alegria de quem pôde lutar e sofrer para a tua Glória. Posso olhar os meus dias que vão morrendo porque a minha vida foi sempre uma lâmpada acesa — super candelabrum [luz sobre o candelabro] — ardendo para a glória do teu Nome. Os meus dias não passaram; foi tua mão quem os recolheu para, com eles, preparar a minha eternidade. Senhor, ensina-me a contar os meus dias, os meses e anos que vivi, com a alegria de quem está prestes a começar uma vida sem fim, com a alegria de um peregrino que volta para a sua Pátria; com a confiança do filho pródigo que encontra finalmente a casa de seu Pai — in gloria Dei Patris [na glória de Deus Pai]. Ensina-me a contar os dias que vivi com a coragem do teu Apóstolo que, alquebrado, no fim da sua carreira, podia exultar, cantando de esperança: cursum consummavi; in reliquo reposita est mihi corona iustitiae [terminei a carreira, me aguarda desde agora a coroa da justiça (2 Tm 4,7-8)].

28 DE FEVEREIRO 

aspiciens retro... [olham para trás (Lc 9,9)]

Senhor, quantos não começaram a trabalhar na tua vinha com entusiasmo e dedicação para depois abandonarem tudo! Começaram a olhar para trás, com saudades do que haviam deixado e acabaram como aquele primeiro filho pródigo: Et cupiebat implere ventrem suum de siliquis, quas porci manducabant... [e queria se fartar das alfarrobas (espécie de vagens) que os porcos comiam...].

Depois de te abandonarem, abandonando a oração, todos eles se encontram nesse ponto. Meu Deus, eu sei que não devo olhar para atrás. O que eu abandonei, não me deve mais interessar. Foi uma renúncia livre e espontânea da minha parte, preparada com sinceridade e durante anos. Agora tenho que olhar para a frente porque a tua riqueza é muito grande para me deixar pensar em outra coisa.

Mãos ao arado — esse o gesto, o mesmo gesto que devo renovar todos os dias. Nenhum desânimo e nenhum pessimismo deverão cruzar o meu caminho: Non sunt condignae passiones huius temporis... [os sofrimentos do tempo presente não são nada...]. Que eu não me esqueça a Quem eu fiz o meu sacrifício e que eu me lembre para Quem trabalho. Poderei assim ouvir continuamente a palavra do teu reconhecimento que me espera: Intra in gaudium Domini tui! [entra na glória eterna do Vosso Deus! (Mt 25, 21)].

27 DE FEVEREIRO 

Simile est regnum caelorum fermento [O reino dos Céus é como o fermento (Mt 13,33)]

Santo Afonso não se cansava de insistir com seus missionários: 'Eu vos recomendo um grande amor a Jesus Cristo!' Com a experiência que tinha, ele sabia que, sem um grande amor a Nosso Senhor, a nossa vida se torna vazia e inútil toda a nossa atividade.

Aí está o fermento que deverá influir em toda a massa de nossa vida cotidiana, dando força ao nosso apostolado. Uma palavra ou um gesto que tenha amor a Deus é uma colher cheia de fermento, capaz de transformar as almas. Vazio de Deus, porém, todo um sermão nada realiza para Nosso Senhor. Doze Apóstolos converteram nações inteiras porque eles eram realmente apóstolos, que amavam sinceramente o seu Mestre. O que eles tinham era somente isso: amor a Nosso Senhor.

Às vezes ouvimos dizer: mas o que eu posso fazer sozinho se o trabalho é tanto? Sem dúvida, o trabalho é imenso e aumenta sempre mais. Justamente por isso, se a nossa é grande, o fermento deve estar em proporção. E o fermento não serão as nossas qualidades e os nossos recursos, mas unicamente um grande amor a Nosso Senhor e às almas.

26 DE FEVEREIRO 

Praedicamus Christum Crucifixum [pregamos Cristo Crucificado (1Cor 1,23)]

A doutrina que devemos pregar é a doutrina de um Crucificado. E a vida que devemos viver é a vida que Ele viveu. Não importa que os pagãos ou semi-pagãos de nossos dias vejam nisso uma loucura. Não nos podemos impressionar porque o mundo se escandaliza com nossa doutrina e com nossa vida.

Nossa vocação é pregar e viver a Redenção que se realizou na Cruz. Somente assim estaremos cooperando com o Redentor, diante do qual o mundo também se escandalizou. É verdade que a nossa natureza também estará pronta a fazer coro com os gentios, reclamando. Não importa; o Modelo que temos a copiar, o Mestre que temos a seguir é um Crucificado. 

Nosso Senhor é sempre o mesmo. E se Ele escandalizou o mundo pagão de outrora, continuará escandalizando o nosso século que alguém caracterizou com este nome: século do colchão de molas... Expressão pitoresca, mas real. Diante do Crucificado, lembremo-nos da palavra do salmista: Firmiter inhaesit gressus meus semitis tuis, non titubarunt pedes mei [fortaleça meus passos em vossos caminhos para que meus pés não se confundam]. Que outros pensem de outra forma, que vivam uma vida diferente: nos autem sensum Christi habemus [nós, porém, temos o sentimento de Cristo (1Cor 2,16)].

25 DE FEVEREIRO 

Debitores sumus non carni... [não somos devedores da carne (Rm 8,12)]

Não foi a natureza que nos salvou, ut secundum carnem vivamus [para que vivamos segundo a carne (Rm 8,12)] — diz São Paulo. A natureza nada devemos, a não ser motivos de muito remorso. A graça devemos tudo: Gratia Dei sum id quod sum [pela graça de Deus, eu sou o que sou].

Não podemos permitir que o naturalismo entre em nossa vida. Ocultando-se sob a capa de certas idéias novas, ele se oferece para atenuar e desculpar certas fraquezas, procurando ignorar o pecado original. Costumamos dizer que a nossa natureza é fraca; mas ela dispõe de uma força tremenda. E não foi com meias medidas que os santos chegaram a dominá-la. Apesar de todos os nossos esforços e boa vontade, não conseguimos fazer que a nossa natureza acompanhe os passos do nosso fervor.

Ferida pelo pecado, mal conseguimos arrastá-la e, se não o fizermos, seremos arrastados por ela. Quanta queda não começou com um simples defeito ou uma má inclinação que pareciam muito inocentes, coisa muito natural como geralmente se diz. O que os santos conseguiram somente à custa de um esforço contínuo, não será com simples desejos que nós iremos conseguir: si spiritu facta carnis mortificaveritis, vivetis [ se, pelo espírito, mortificardes as obras da carne, vivereis (Rm 8,13)].

24 DE FEVEREIRO 

Ut digne ambuletis [que andeis (viveis) digno (Ef 4,1)]

Que saibamos viver santamente a nossa vocação — foi o que nos disse o Apóstolo, quando escreveu: Ut digne ambuletis vocatione qua vocati estis [que andeis digno da vocação pela qual fostes chamado]. A nossa vocação não poderá ser vivida com dignidade se a não vivermos com santidade.

São Paulo mesmo nos lembra que Deus nos escolheu, ut essemus sancti [para que sejamos santos]. É pela santidade, e somente por ela, que realizaremos o programa de Deus e o que as almas esperam de nós. Em nossos dias fala-se tanto na técnica e especialização dos métodos de apostolado. Ótimo, mas não nos esqueçamos, porém, que a nossa especialização é, por excelência, a santidade. Sem ela, estaremos no plano comum dos fiéis, embora Nosso Senhor nos queira ver muito acima, super candelabrum [luz sobre o candelabro (referência à condição superior de santificação pessoal exigida pela vocação sacerdotal)].

Quer sejamos apóstolos da palavra, no púlpito, na imprensa ou no rádio, quer realizemos maravilhas com a nossa atividade, se não estivermos trabalhando seriamente em nos santificar, Deus não estará satisfeito conosco: Quaerite primum regnum Dei! [Buscai primeiro o Reino de Deus!]. Nosso Senhor não quer de nós um apostolado comum, mas um apostolado de santidade: In sanctitate et iustitia coram ipso, omnibus diebus nostris [em santidade e justiça, em sua presença, todos os dias da nossa vida (Lc 1,75)].

23 DE FEVEREIRO 

Hic non est eius [este não é dele (Rm 8,10)]

Se alguém não tem o espírito de Nosso Senhor não lhe pertence — assim diz o Apóstolo. E o espírito de Nosso Senhor está entre o Presépio e o Calvário: sacrifício e imolação. A diferença entre o Bom Pastor e o mercenário é que o primeiro dá a sua vida pelas ovelhas, imolando-se por elas, e o mercenário foge à imolação a fim de se poupar. 

Não podemos separar o sacrifício do nosso ministério sacerdotal. Sacrifício do orgulho, pela obediência; do comodismo, pela mortificação; da natureza, pela castidade; do apego exagerado, pelo desprendimento. Se não for esse o espírito de nossa vida, poderemos ter todas as qualidades que o mundo admira, mas não seremos os sacerdotes daquele que foi Sacerdote e Vítima também. 

As almas, que geralmente têm o sensus Dei [sentimento de Deus], percebem muito bem quando estão diante de um sacerdote que se poupa no trabalho de se santificar e de santificar os outros. Guardam uma certa desconfiança, e, embora não o digam elas pensam com razão: Hic non est eius [este não é dele]. Será essa a impressão que estamos dando com nossa vida? Que impressão amarga, verdadeira desilusão, para aqueles que nos observam!

22 DE FEVEREIRO 

Non diligamus verbo... [não amemos com palavras (1Jo 3,18)]

Quantas vezes não dizemos a Nosso Senhor que o amamos e, tantas vezes, Ele verifica o contrário em nossa vida. Quantas vezes não pregamos sobre a caridade e, muitas vezes, o que fazemos não está de acordo com o que pregamos. Nosso Senhor resumiu a hipocrisia dos fariseus nestas palavras: Dicunt, et non faciunt [pregam mas não praticam].

O Apóstolo quer que a nossa caridade não fique em palavras mas se traduza em obras. No entanto: Opere et veritate [de fato e de verdade] — porque nem toda caridade é verdadeira. Pode ser que o motivo da nossa caridade não seja Nosso Senhor mas um mero capricho ou sentimentalismo de nossa parte. Chegamos então a restringir a nossa caridade a um determinado grupo, a uma classe de pessoas ou a uma determinada obra de assistência. Pode ser que essa caridade não seja tanto para os outros mas para nós mesmos. 

A verdadeira caridade não é somente aquela que nos agrada; a que não nos agrada é também verdadeira e poderá ser mais meritória. Se não nos resolvemos a praticar a caridade opere et veritate [de fato e de verdade], como quer o Apóstolo, não nos admiremos que os inimigos explorem a falsa caridade como meio de atrair as almas. Saepe videtur caritas, ubi non est nisi carnalitas [Muitas vezes parece ser caridade o que não é senão amor-próprio (Santo Agostinho)].

21 DE FEVEREIRO 

Qui faciunt omnia quae licent... [quem faz tudo o que é permitido.. .]

Foi Santo Agostinho quem escreveu: Qui faciunt omnia quae licent, cito facient quae non licent [quem faz tudo o que é permitido, em breve fará o que não é permitido]. Faltando-nos o hábito da mortificação interior, não nos preocupamos com o espírito da lei; olhamos somente para a letra e acabamos aceitando o pecado como coisa muito natural. Cito facient [em breve fará]: é uma consequência quase inevitável.

Não podemos e nem devemos andar com o metro nas mãos, a medir cada palmo de terreno, procurando saber até onde podemos ir sem cair no despenhadeiro. Era essa a moral dos fariseus para a qual não existe amor a Deus, espírito de sacrifício, nem delicadeza de consciência. Temos que servir a Deus in spiritu et veritate [em espírito e verdade]. 

Não nos basta salvar apenas as aparências, guardando farisaicamente o pé da letra. Essa é a moral do mundo. Para nós vale o que diz Nosso Senhor: Spiritus est Deus, et eos qui adorant, eum, in spiritu et veritate oportet adorare [Deus é espírito, e os seus adoradores devem adorá-lo em espírito e verdade (Jo 4,24)]. Tanto amor a Deus e às almas devemos ter para chegarmos a renunciar o pé da letra e ficarmos com seu espírito: Pater tales quaerit qui adorent eum [são esses adoradores que o Pai deseja (Jo 4,23 ].

20 DE FEVEREIRO 

Vade et amplius noli peccare! [Vá e não peques mais! (Jo 8,7)]

O Mestre não condenou aquela pecadora; sua misericórdia assim não o permitiu: Nec ego te condemnabo [nem eu te condeno]. Os fariseus, sim, quiseram condená-la. E foi preciso que o Mestre lhes fizesse ver que não podiam condenar-se a si próprios: Unus post unum exibant... [retiraram-se um por um...].

Senhor, porque não sou misericordioso como Vós e porque sou um pouco pior que os próprios fariseus, costumo condenar a todos e a tudo. Tratando-se dos outros, o meu zelo e a minha hipocrisia estão sempre vigilantes, como os Mestres da Lei que nada perdiam: Excolantes culicem, camelumen autem glutientes [que filtram o mosquito e engolem o camelo* (Mt 23, 24)]. Exatamente o que fiz, muitas vezes.

* expressão que tem o significado de caracterizar o farisaísmo hipócrita que se apega a coisas secundárias e não ao que é realmente relevante (como guias cegos) e que tem sua origem no fato de que os filtros antigos eram feitos de linha grossa, chamada 'camelo' (sem correlação, portanto, com o animal). Ou seja, os guias cegos são aqueles que, pensando coar o mosquito, na verdade engolem o próprio filtro.

Que eu não julgue ninguém. In quo enim iudicas alterum, teipsum condemnas [no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas]. Esta é uma verdade que já constatei, mais vezes, em minha vida, embora meu orgulho a não aceite. Que eu aprenda a perdoar: Vade [Vá] — sem, no entanto, aprovar o pecado: et amplius noli peccare [e não peques mais]. Que eu guarde o meu zelo para vigiar os meus defeitos. E que não reserve o meu rigor para as faltas alheias, mas para as minhas, que são mais graves. E que eu aprenda, como os fariseus aprenderam, de uma vez por todas, que eu não sou dono da Lei nem senhor único da virtude.

19 DE FEVEREIRO 

Omnibus omnia factus sum [fiz-me tudo para todos (1Cor 10,24)]

Assim falava São Paulo, porque seu zelo não conhecia limites: Ut omnes facerem salvos [para por todos (os meios) salvar alguns]. São palavras que refletem a vida mesma de Nosso Senhor e deveriam refletir também a minha vida.

Quantas vezes, porém, as almas reclamam o meu trabalho e o meu comodismo se nega porque estou absorvido em outras ocupações, mais de acordo com o meu gosto! Às vezes, é meu orgulho que protesta, dizendo que este ou aquele trabalho não me fica bem. Quantas vezes é minha covardia, procurando refugiar-se em pretextos de última hora e em desculpas que ela consegue vestir até com aparências de boa intenção! 

É assim que chego, às vezes, a pensar: preciso poupar a minha saúde para poder trabalhar mais. E, sempre a me poupar, não chega nunca esse dia de eu trabalhar mais para Nosso Senhor. Essa prudência demasiada humana acaba matando o meu espírito de sacrifício, meu entusiasmo e meu zelo pelas almas. Se o Bom Pastor tivesse consultado essa prudência o que seria da ovelha desgarrada? Prudentia carnis mors est [a prudência da carne é a morte].

18 DE FEVEREIRO 

Ut impleamini in omnem plenitudinem Dei [para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus (Ef 3,19)]

Nessa intenção rezava o Apóstolo, pelos fiéis do seu tempo: Flecto genua mea ad Patrem [dobro meus joelhos em presença do Pai (Ef 3, 14)]. Certamente que o meu zelo não deseja menos para as almas que me foram confiadas. Mas, antes de pensar nas almas, tenho que pensar na minha alma. Como desejar a plenitude de Deus, para outros, se eu mesmo a não desejo para mim?

Eu sou o nada e Deus é a plenitude. No entanto, por incrível que pareça, essa plenitude não chega para encher o vazio de minha vida, simplesmente porque a não desejo, nem me interesso por ela. Quantas vezes não falo da grandeza divina... para os outros! Eu mesmo não a procuro para a minha vida; ela é muito grande para a minha mesquinhez.

É que Deus, sendo a plenitude, não deixa lugar para coisa alguma. E eu gostaria de reservar, em minha vida, um ou mais lugares para certas coisas que não chego a renunciar porque não quero perder. Pode ser que pessoas mais simples e de menos formação vivam mais na plenitude de Deus do que eu. Foi sempre assim: não encontrando acolhida in diversorio [numa estalagem], Nosso Senhor se contenta até com um presépio, contando que seja exclusivamente seu.

17 DE FEVEREIRO 

Ipsi autem spreverunt me [mas se revoltaram contra mim (Is 1,2)]

Deus se compara a uma mãe, que recebe o desprezo dos filhos alimentados com sua carne e o seu sangue, suas lágrimas e sacrifícios. O texto não nos fala de um simples abandono de Deus, mas o que é pior, do desprezo que Deus recebe da sua criatura: spreverunt me [revoltaram contra mim]. Nesse desprezo, põe o homem toda a sua malícia.

Nosso Senhor nunca desprezou a ninguém, exceto os fariseus, em cujo orgulho havia mais do que uma simples indiferença para com a Verdade; havia um desprezo frio e cínico para com Nosso Senhor. Mal pensavam eles na palavra do Profeta: Vae qui spernis nonne et ipse sperneris [ai de ti que desprezas e ainda não fostes desprezado (Is 33,1)].

Se o desprezo do homem é o que mais ofende a Deus, o desprezo de Deus é o pior que pode acontecer para o homem. Os Mestres da Lei não se lembram disso? E eu me lembro? Desprezando a oração, sob o pretexto de aproveitar melhor o tempo, e descuidando da pureza de minha consciência, com a desculpa de não alimentar escrúpulos, não estarei desprezando o próprio Nosso Senhor? Esse descuido e esse desprezo podem me levar ao ponto de ver Nosso Senhor envergonhar-se de mim: Hunc Filius Hominis erubescet [(Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras), o Filho do Homem também se envergonhará (dele) (Lc 9, 26)].

16 DE FEVEREIRO

Propter nimiam caritatem [por extrema caridade (Ef 2,4)]

Meu Deus, não foi sem motivo que um dia o Apóstolo exclamou: Quis consiliarius eius fuit? [quem já foi seu conselheiro?] porque há tanto segredo e tanto mistério nos caminhos da tua Providência! Se o teu amor me escolheu desde toda a eternidade para formar na tua Igreja, em lugar de destaque...

Se a tua misericórdia me facilitou anos de formação, para que eu melhor te conhecesse, através dos sacramentos e da oração; se o teu amor me perdoou, tantas vezes e, se apesar da minha indiferença, ele ainda me persegue e me ama... Senhor, eu não te compreenderia, se o teu Apóstolo não me desse uma explicação, a única possível: propter nimiam caritatem [por extrema caridade] — realmente o teu amor é infinito e somente por ele é que eu chego a te compreender.

Mas se até hoje não me impressionei com essas provas de predileção, pois não procuro corresponder; se minha vida continua presa a tanta coisa inútil e indigna, transformada geralmente num montão de fraquezas e misérias, porque será? Eu mesmo não acho uma explicação. Preciso perguntar à minha consciência.

15 DE FEVEREIRO 

Quia non novisset hominem [porque sequer conhecia o homem (Mt 26,74)]

Naquela noite da Paixão, apesar de todas as suas promessas de fidelidade, por diversas vezes, o Apóstolo negou o seu Mestre. Mas depois, caindo em si, flevit amare [chorou amargamente]. 

Toda vez que subo ao altar, sem a devida preparação, levando comigo tantos pensamentos alheios ao Santo Sacrifício... Toda vez que vou ao púlpito, preocupado mais com a minha vaidade do que com a salvação das almas... Sempre que condescendo com a minha impaciência ou não mortifico o meu comodismo... Toda vez que descuido a oração ou fujo de um dever a cumprir... não estarei revivendo a covardia do Apóstolo?

Ele pelo menos chorou depois amargamente. E será que eu o tenho imitado também nisso? Um simples olhar sobre a minha vida me fará compreender que preciso viver in spiritu humiliatis et in animo contrito [em espírito de humildade e de coração contrito]. Vivo tão despreocupado como se, em minha vida, tudo estivesse numa ordem perfeita. No entanto, sei bem que não sou um inocente diante de Deus. Nesse caso, só me resta viver como penitente, antes que chegue a hora do redde rationem... [ajuste de contas...].

14 DE FEVEREIRO 

Domine, scrutaris me [Vós me perscrutais (Sl 138, 1)]

Que Deus me acompanha, semper et ubique [sempre e em toda a parte]: um pensamento que me devia preocupar, como já preocupava o salmista: Mirabilis est mihi scientia haec, sublimis: non capio eam [esse conhecimento é tão sublime e maravilhoso para mim, que eu não o posso apreender]. Deus lê meus pensamentos: intelligis cogitationes meas e longinquo [de longe penetrais meus pensamentos] — para Ele não existe antes nem depois.

Ele conhece todos os meus caminhos; não posso fugir à sua presença: ad omnes vias meas advertis [(Vós) me sondais de todas as maneiras]. Antes que eu fale, Ele já está me ouvindo: Verbum nondum est super lingram meam... jam nosti totum [a palavra ainda não me chegou à língua... e já a conheceis por inteiro]. Ele me envolve como uma bênção: a tergo et a fronte complecteris me et ponis super me manum tuam [me cercais por todos os lados e estendeis sobre mim a vossa mão]. 

Para onde eu for, sua Providência irá comigo: Si summam pennas aurorae, si habitem in termino maris, illic manus tua ducet me [se tomar as asas da aurora ou habitar os confins do mar, é ainda Vossa mão que há de me conduzir]. Como seria diferente a minha vida, se eu vivesse compenetrado dessa preocupação de Deus para comigo! Projice te in eum, noli metuere; non se subtrahet ut cadas; excipiet, et sanabit te [Abriga-te em Deus sem medo algum pois Ele não o abandonará nas suas quedas, mas o acolherá e o curará (de todos os seus males) (Santo Agostinho)].

13 DE FEVEREIRO 

Presbyteri sint ad commiserationem proni [os presbíteros devem ser movidos pela compaixão]

Era o que recomendava São Policarpo, acrescentando: Misericordes erga cunctos, non severi nimium in iudicio, scientes nos omnes debitores esse peccati [misericordiosos com todos, sem serem severos demais nos julgamentos, cientes de que todos nós estamos sob o débito do pecado; trecho da Epístola aos Filipenses, de São Policarpo de Esmirna]. 

A mansidão terá que ser a arma secreta do nosso apostolado. Fugindo à rudeza no falar, à rispidez no trato, o sacerdote será sempre o Bom Samaritano, sem fel nem vinagre, levando consigo o óleo inesgotável da misericórdia e da compreensão. Deus não quis distância entre a sua grandeza e a nossa miséria: Et homo factus est — mitis et humillis corde [E se fez homem — manso e humilde de coração].

Se pela nossa dignidade estamos muito acima dos fiéis, nem por isso precisamos olhar sempre de cima, encerrados na torre inacessível do nosso orgulho e vaidade. Estudamos mais, é certo; mas nem por isso podemos desprezar aqueles que estudaram menos. Temos certamente uma noção mais clara do Bem e do Mal; nem por isso podemos ter sempre uma palavra de crítica, à espera de todos e de tudo. Quanto mais nos julgarmos donos da verdade, tanto mais escravos seremos dos nossos erros. Não podemos fazer uma diferença que só a Deus pertence, scientes nos omnes debitores esse peccati [cientes de que todos nós estamos sob o débito do pecado].

12 DE FEVEREIRO

In manus tuas [em Vossas mãos]

Nas minhas mãos, possuído da minha vaidade ou do meu orgulho, nada poderei realizar de bom para Deus ou para as almas. Nas mãos de Nosso Senhor, eu serei o seu instrumento para realizar maravilhas: opera quae ego facio, et ipse faciet, et majora horum faciet [(aquele que crê em mim) fará também as obras que eu faço e fará ainda maiores do que estas (Jo 14,12)].

Um dia Ele estava em lugar deserto, acompanhado de milhares de pessoas. Nas mãos de um menino, cinco pães nada significavam para aquela multidão mal alimentada durante três dias. Mas, nas mãos de Nosso Senhor, os pães se multiplicaram; todo o povo se fartou, e ainda sobraram doze cestos... Preciso cuidar do meu trabalho e do meu esforço para que a minha vaidade não ponha tudo a perder. Nas minhas mãos, os maiores heroísmos e milagres nenhum valor teriam, porque preciso estar nas mãos de Nosso Senhor.

Tenho que proteger toda a minha atividade com o muro da boa intenção; do contrário, estarei de mãos vazias no fim do dia e no fim da minha vida. Sine me nihil potestis facere [sem Mim, nada podeis fazer] — a boa intenção me fará trabalhar com as mãos de Nosso Senhor. Por mim mesmo nada poderei realizar para a minha eternidade; por mais que eu faça, tudo será perdido porque quin non colligit mecum, dispergit [quem não recolhe comigo, dispersa (Lc 11,23)].

11 DE FEVEREIRO

In caritate radicati [arraigados na caridade (Ef 3,17)]

Uma árvore, com suas raízes em terra seca ou pedregosa, nada poderá produzir. Assim também uma vida sacerdotal que não esteja enraizada num grande amor a Deus, nada produz para as almas. Ninguém se alimenta de flores.

In caritate fundati [firmados na caridade] — não pode ser outro o alicerce da nossa vida sacerdotal. Somente assim haverá, em toda a nossa atividade, aquele bonus odor Christi [bom odor de Cristo] que atrai as almas e que as eleva para Deus. Uma profunda e sólida piedade, na palavra e no exemplo, será, para as almas, o que a chuva é para uma terra árida e seca. 

Faltando-lhe, porém, a vida interior, o padre não será mais que uma nubes sine aqua [nuvem sem água]: é a nuvem que somente lembra a chuva, mas que a não pode dar. Vemos então o povo, com fome e sede de Deus, morrendo à míngua, sem nada receber do sacerdote que não tem Deus consigo, para reparti-lo com as almas. Dicunt et non faciunt; alligant enim onera gravia et imponunt in humeros hominum; digito vero suo nolunt ea movere [dizem e não fazem, mas impõem fardos pesados que sobrecarregam os ombros dos homens, mas não querem movê-los nem mesmo com o dedo (Mt 23, 3-4)] é o que acontece, quando os que ensinam e pregam não estão in caritate radicati [arraigados na caridade].

10 DE FEVEREIRO

Exemplum esto fidelium [modelo para os fieis (1Tm 4,12)]

Numa de suas orações, a Igreja reza: Nominis tui gloriam verbo et exemplo diffundere valeamus [possamos difundir pela palavra e pelo exemplo a glória do Vosso Nome]. Muito mais que a nossa pregação pela palavra, a Igreja quer a nossa pregação pelo exemplo. Esta realiza muito mais que aquela.

O Santo Cura de Ars não foi orador de nome. Não escreveu livros, nem foi conferencista de fama. Para o seu apostolado, num simples lugarejo, não dispôs do rádio e menos ainda da televisão. No entanto, abalou a França inteira e o mundo todo, apenas com a força de sua santidade.

Escrita ou falada, a palavra será sempre um meio de inestimável valor para o meu apostolado. Mas, ela não terá valor algum, se não tiver a força do meu exemplo. Quanto papel e tinta mal empregados, às vezes, em escritos que podem revelar outras preocupações, menos a da glória de Deus! Quanta eloquência inútil, no púlpito ou no rádio, porque o povo está percebendo que o pregador não vive aquilo que ensina! Minha palavra não dará às almas um Cristo vivo, se Ele estiver morto na minha vida. É que as almas não se impressionam com o simples ruído de um cymbalum tinniens...[címbalo que retine... (I Cr 13, 1)].

09 DE FEVEREIRO

Se quis non amat Dominum Jesum... [se alguém não amar o Senhor Jesus... (1Cor 16,22)]

Que alguém pudesse ignorar o Amor infinito e não se interessasse por Nosso Senhor — era o que São Paulo não podia compreender. Daí a sua expressão: Sit anathema! [seja maldito!]. Se essa palavra vale para todos, como não deverá valer para aqueles que Nosso Senhor distinguiu como um amor todo particular!

Quantas provas de predileção não recebi de Nosso Senhor! Se eu não me interessar por Ele, como exigir que outros se interessem? Como irei citar essa palavra para outros se ela não está valendo principalmente para mim? Anathema sit [maldito seja!]: é a palavra que me lembra bem o que me espera na eternidade, se agora eu não quiser corresponder à predileção de Nosso Senhor para comigo.

Judas foi chamado como os demais Apóstolos. Um eleito de Nosso Senhor como todos os outros. Mas não quis reconhecer que a escolha do Mestre era uma responsabilidade. Não correspondeu e, com a queda final, veio o desespero. Bonum erat ei si non esset natus [melhor seria não ter nascido (Mc 14,21)]. Tenho que corresponder à predileção de Nosso Senhor para comigo, vivendo essa realidade que São Paulo não esquecia: Dilexit me et tradidit semetipsum pro me [Amou-me e se entregou (até à morte) por mim (Gl 2, 20].

08 DE FEVEREIRO

Simon Johannis, amas me? [Simão, filho de João, tu me amas? (Jo 21,15)]

Nosso Senhor sabia bem que o Apóstolo o amava: Domine, Tu scis quia amo te [Senhor, tu sabes que te amo]. Porque, então, aquela pergunta misteriosa: Amas me?... Nunca o Mestre lhe falara assim. Et contristatus est Petrus [E Pedro se entristeceu]. Aquela palavra do Mestre soava-lhe como uma indireta, com referência às negociações... uma humilhação diante dos companheiros ou um ajuste de contas em momento oportuno. Tudo isso poderia ter passado pela mente do Apóstolo. 

No entanto, ele não perdeu a confiança. Com a sinceridade de sempre, respondeu, tantas vezes quantas o Mestre perguntou: Domine, Tu scis quia amo te [Senhor, tu sabes que te amo]. Ele compreendeu que a Misericórdia infinita ali estava, fechando-lhe no coração uma ferida que ainda sangrava. O Mestre, antes de voltar para a eternidade, queria por uma pedra em cima daquelas negações, não deixando, para o Apóstolo, uma dúvida que o iria martirizar sempre. E o reabilitou, elevando-o aos olhos de todos: Pasce oves meas [guia as minhas ovelhas].

Quanta delicadeza nesse gesto aparentemente duro de Nosso Senhor! Diante de uma humilhação, de um fracasso ou aborrecimento, preciso pensar que Nosso Senhor não está me ferindo porque disso Ele é incapaz. Estará, sim, chamando a minha atenção: Diligam Te, Domine, et gratias agam! [Amar-Te-ei, Senhor, e dar-Te-ei graças!].

07 DE FEVEREIRO

Sobriam duxit sine labe vitam [levam uma vida sóbria e pura

Assim canta a Igreja, celebrando os seus confessores. E lembra as virtudes que lhes adornaram uma vida sem mancha: pius, prudens, humillis, pudicus [piedosos, prudentes, humildes, castos]. Nos meus primeiros anos de sacerdócio, o meu fervor era todo zelo, amor ao estudo e à oração; a docilidade, a pureza de consciência, a pontualidade nos meus deveres, caracterizavam o meu entusiasmo e dedicação.

Os anos foram passando. E, com um pouco de orgulho, apareceu também uma certa independência no meu modo de julgar as coisas. Achei que podia substituir certas idéias, que me pareceram antigas, por outras mais arejadas, que eu dizia ser fruto da experiência. Mais largas e mais cômodas, essas idéias se prestaram muito bem para justificar algumas falhas que meu fervor primitivo não teria justificado. E os frutos foram aparecendo pouco a pouco.

Hoje... quam mutatus ab illo! [quanto se mudou do que era!]. É verdade que os tempos mudam e todos mudam com eles. Mas não posso mudar para pior. Relinquentes vanitatem multorum, et falsas doctrinas, ad traditam nobis ab initio doctrinam, revertamur [Abandonemos os discursos vãos e as falsas doutrinas de tantos e retornemos aos ensinamentos que nos foram transmitidos desde o princípio, texto da Epístola de São Policarpo de Esmirna aos Filipenses].

06 DE FEVEREIRO

Sicut bonus miles Christi [como bom soldado de Cristo (2Tm 2,3)]

Um soldado que dá todo o seu entusiasmo, todas as suas forças, toda a sua dedicação à causa que defende; um soldado que não pede repouso, porque não conhece o cansaço nem o desânimo na luta de todos os dias: esse é o Miles Christi [soldado de Cristo] que o Apóstolo desejava para cada um de nós. 

E ele soube tão bem realizar esse ideal em sua vida! O seu contínuo impendam et superimpendar [gastar-se e se desgastar] não era um simples bom desejo, nem uma simples aspiração fervorosa. Era a realidade que encheu os longos anos do seu apostolado. É certo que num combate a vitória depende de todos. Por isso, cada qual deve dar a sua parte de esforço e dedicação. 

Sendo assim, eu não posso dar apenas uma parte do meu tempo, um pouco de atividade, uma parcela de esforço. Tenho que dar o máximo, porque a parte que me toca é essa: dar toda a minha vida pelas almas. Que pela minha dedicação, possa eu estar entre aqueles pelos quais a Igreja reza: Tuorum militum, Rex omnipotens, virtutem robora, ut consummato cursu certaminis, immortalitis bravium apprehendant [confirmai, ó Rei onipotente, a virtude dos vossos soldados, a fim de que, consumada essa vida mortal, alcancem a recompensa eterna].

05 DE FEVEREIRO

Verbo et exemplo, nos orare docuisti  [em palavras e no exemplo, nos ensinou a rezar]

Diz a Igreja que, no Jardim das Oliveiras, Ele nos ensinou a rezar. Para que? Ad tentationum pericula vitanda [evitar os perigos das tentações]. Preciso me convencer de que, sem a vida de oração, não poderei vencer as tentações. Uma alma sem fervor é presa fácil para qualquer assalto. 

Eu devo pensar que, se eu não fosse um sacerdote, já seria visado pelo demônio. Como padre, muito mais. Não posso pensar que o sacerdócio me colocou fora do alcance das tentações. Pelo contrário... é o que me diz a experiência. É certo que o demônio sempre terá mais força do que eu, caso eu esteja sozinho. Mas, sempre terei mais força do que ele, se eu me aliar com Deus. 

E essa aliança é estabelecida pela oração. Rezando, terei horror ao pecado e saberei evitar o perigo, porque o fervor abrirá os olhos de minha consciência. Rezando, as tentações nunca me encontrarão desprevenido, mas armado com a força de Deus. Tivessem os Apóstolos vigiado no Getsêmani e a prova não os teria colhido de surpresa. Estivessem mais preocupados com o Mestre, não o teriam abandonado.


04 DE FEVEREIRO

Fiat voluntas tua [seja feita a Vossa Vontade]

Tantas vezes rezamos esta palavra que Nosso Senhor nos ensinou! E é tão difícil praticar o que ela diz! Santa Teresa não exagerou quando disse que o caminho mais curto para o inferno é a nossa vontade própria. Basta dizer que, em tudo, ela é orientada pelo seu conselheiro particular, que se chama orgulho.

Depois de transtornar a obra de Deus no Paraíso, não admira que o orgulho cause tanta desordem na nossa vida. Ele é, para nós, o maior criador de casos. Quanta agitação inútil, quanto aborrecimento e desgosto ele nos prepara! Com um pouco mais de humildade, a nossa vida poderia ser menos complicada. 

Para nos impressionar, a arma secreta do orgulho é sempre a mesma: apresentar, como ameaçados de morte, os nossos direitos sagrados, que  outros procuram destruir. Geralmente, quanto orgulho atrás desses nossos direitos! Olhemos para Nosso Senhor: se Ele tivesse querido zelar tanto pelos seus direitos, como nós zelamos pelos nossos, o que seria de nós? O Presépio e a Cruz não conheceram direitos.

03 DE FEVEREIRO

Cordis tui suavitate percepta [conscientes da suavidade do Vosso Coração]

À medida que os primeiros discípulos foram conhecendo o Mestre, tanto mais se interessaram por Ele. Magister, ubi habitas? [Mestre, onde moras?]. Queriam estar na sua companhia, para ouvi-lo mais frequentemente. Tanto mais irei sentir quam suavis est Dominus [quão suave é o Senhor] quanto mais me interessar por Ele, a fim de O conhecer e O amar. 

Meu Mestre é, sim, um Crucificado; mas Ele não me enganou quando me disse que o seu jugo é suave. Se ainda não o percebi, compreende-se: Animalis homo non percipit... [o homem natural não capta (as coisas de Deus)...]. Com o paladar estragado pelo gosto da dissipação, uma alma nada pode sentir junto a Nosso Senhor. Porque podiam os santos passar noites inteiras em oração, enquanto eu me sinto aborrecido com uma meditação, cansado com uma leitura espiritual?

Somente depois de ter quebrado o vaso de sua vaidade e do seu apego, foi que a pecadora pôde sentir a misericórdia do Coração divino. Enquanto eu não me decidir a certas renúncias, não me irei sentir atraído por Nosso Senhor. In Corde Filii tui, nostris vulnerato peccatis, infinitos dilectionis thesaurus, misericorditer largiri dignatus es [No Coração do Vosso Filho, ferido por nossos pecados, infinitos tesouros do amor nos são profusamente concedidos pela Misericórdia divina] — preciso pensar que eu também posso e devo ter parte nessa riqueza infinita.

02 DE FEVEREIRO

In templo gloriae tuae praesentari [apresentar-nos no Templo de Tua Glória]

Não foi somente a mãe daqueles dois discípulos que sonhou com o Reino dos Céus para os seus filhos. A Santa Igreja também se preocupa com a nossa recompensa e hoje, de um modo especial, pede para nós um lugar na glória eterna.

Que apresentação solene não deverá ser a nossa in splendoribus sanctorum [no esplendor dos Santos!] - apresentação dos eleitos de Nosso Senhor. Ita nos facias [assim nos faça]: apresentados por Nossa Senhora, que já nos reconheceu por filhos quando recebeu, como filho, o Evangelista recém ordenado sacerdote. Ela nos viu desempenhando a sua missão de dar Nosso Senhor às almas; Ela esteve sempre conosco: Stabat juxta crucem [de pé, junto da Cruz]. Apresentados ao Pai per Dominum nostrum Jesum Christum [por Nosso Senhor Jesus Cristo]: Ele nos escolheu e nos marcou com o seu sacerdócio para sempre. Ele nos teve como seus amigos prediletos: Filioli mei [filhinhos meus]. 

Que saibamos passar pelo crivo das lutas e provações: purificatis tibi mentibus [com os espíritos purificados] — somente assim poderemos contar com a nossa apresentação solene, não a um Juiz mas a um Pai: in templo gloriae tuae [no Templo de Tua Glória] — para dEle recebermos o lugar que a Sua misericórdia nos preparou: cum Sanctis tuis in aeternum [com os teus Santos na eternidade].

10 DE FEVEREIRO

Frumentum Christi sum [sou trigo de Cristo]

Era este o pensamento que animava o grande bispo Santo Inácio, a caminho do martírio. E este, o pensamento que nos deveria preocupar sempre: somos o trigo que Nosso Senhor escolheu, para com ele alimentar as almas — cibus viatorum [pão dos peregrinos]. Sabemos que, para se tornar alimento, o grão de trigo deve antes morrer. Não foi assim com Nosso Senhor? Por isso exclamava Santo Inácio: Molar dentibus leonum [moído pelos dentes das feras].

Se não fomos, como ele, destinados às feras, aí está o nosso dia de trabalho, como um altar, à espera de sua vítima. Temos que nos imolar nos sacrifícios de cada dia, pois, somente assim, poderão as almas alimentar-se de nós. Ut panis mundus inveniar [para me converter em pão puro] — Deus sabe a quantas almas alimentou com esse grão de trigo que as feras moeram, transformando-o num pão imaculado.

Que esse exemplo alimente a nossa coragem, fazendo-nos aceitar com mais generosidade esse martírio lento a que Deus nos chamou. Christo confixus sum cruci [Estou pregado à Cruz de Cristo (Gl 2, 19)] — não podemos encarar nossa vida de outra maneira, pois, se o grão de trigo não morrer, não produzirá fruto.


31 DE JANEIRO

Video aliam legem... [reconheço outra lei (devido à minha natureza humana)... (Rm 7,23)]

Meu Deus, como é pesada, às vezes, esta natureza humana, com suas leis, exigências e imposições! Eu sei que a minha viagem é longa e difícil; por isso não posso levar nada comigo, para estar livre e desimpedido. Mas, se eu não tivesse que levar sempre comigo o peso insuportável desta natureza que me deste, seria bem mais fácil.

É que às vezes, eu me esqueço de que me fizeste homem e não anjo. Não esperas que eu te glorifique como um espírito celeste, mas como um simples homem. Para a tua infinita grandeza, queres a cooperação desta imensa miséria humana que eu sou. Tanto como a pureza dos anjos, ela também deve glorificar o teu Nome.

Senhor, que eu não viva alimentando pretensões de ser anjo, mas que me contente com uma santamente humana e humanamente santa. Criado à tua imagem e semelhança, eu sei que o pecado me desfigurou. Mas sei também que a redenção de teu Filho me purificou de tal forma, que voltei a ser digno de teu amor de Pai. E assim transfigurado pela tua graça, espero ser digno também de dar a minha nota nessa harmonia divina de tua glória! Um dia achaste que até as pedras poderiam cantar a tua grandeza. Compreendo então que eu também posso e devo amar o teu amor, e cantar a glória de teu Nome. 

30 DE JANEIRO

Qui unxit nos Deus [Deus é Aquele que nos consagrou (2Cr 1,21)]

A sua escolha foi como uma unção que me marcou desde toda a eternidade: Elegit nos ante mundi constitutionem [escolheu-nos antes da criação do mundo]. Quando a Igreja me ungiu, sacerdote para sempre, ela confirmou a unção pela qual Deus já me fizera Sacerdote desde sempre, marcando-me com um sinal da sua eleição.

E esse sinal, impresso por Ele em minha alma, nada poderá destruir. Esteja eu onde estiver, estará comigo o sinal dos eleitos de Deus. Pelos séculos afora, no céu ou no inferno, serei sempre o mesmo, reconhecido como sacerdos in aeternum [sacerdote eterno]. Em estado de graça ou em pecado, não poderei ocultar, diante dos anjos e dos homens, o sinal com que Deus me marcou. Quanto não deverá valer para mim a insistência do Apóstolo: Omnia, et in omnibus Christus! [Cristo, em tudo e em todos! (Cl 3,11)]. 

Muito mais que os simples cristãos, marcados com o batismo, devo refletir em mim o sacerdote eterno, porque sou uma continuação eterna do seu Sacerdócio, e está em mim o sinal da sua escolha de predileção: sicut electi Dei, sancti et dilecti [como eleitos de Deus, diletos e santos] — é assim que eu devo viver, pois que sinal de predileção mais significativo que o sacerdócio poderia Deus imprimir numa criatura sua? Foi principalmente para mim que São Paulo escreveu: Omne quodcumque facitis, in verbo aut in opere, omnia in nomine Domini Jesu Christi [Tudo quanto fizerdes, por palavra ou por obra, fazei tudo em nome do Senhor Jesus Cristo (Cl 3, 17].


29 DE JANEIRO

Adtendite ad petram! [atentai para a rocha! (Is 51,2)]

Não me basta olhar para esse meu Mestre de perfeição infinita. Ele não é uma estátua fria, colocada à minha frente, nem uma obra de arte esperando pela minha admiração. Senhor, eu reconheço que o meu modelo é de uma perfeição infinita que preciso estudar, e estudar atenciosamente, não só em um retiro ou dois, mas continuamente. 

Todos os dias, a cada momento, preciso consultar a sua santidade e perfeição, porque nunca chegarei a imitá-lo como devo. Não posso alimentar a presunção de pensar que já copiei, na minha vida, o suficiente para que as almas vejam em mim um retrato de Nosso Senhor. Infelizmente preciso confessar que ainda não conheço bastante Aquele que ensino a mim mesmo e às almas. Que eu não me dispense da obrigação de aprender, estudando o meu modelo. 

Sempre que ensinar a outros, preciso pensar que, se minha dignidade me colocou muito alto, nem por isso aumentou a minha virtude. Que eu não me apresente a ninguém como exemplo e modelo porque o mais necessitado de aprender sou eu mesmo. Vae nobis, ad quos pharisaeorum vitia transierunt!  [Ai de nós, quem temos herdado os vícios dos fariseus!] (São Jerônimo).

28 DE JANEIRO

Depositum custodi [guarda fielmente o bem confiado (ou seja, o depósito da fé) (1Tm 6,20)]

Nos primeiros séculos, escrevia Santo Inácio Mártir: Cum audirem quosdam dicentes: Nisi invenero in archivis, hoc est in Evangelio, non credam... Mihi vero Archiva Jesus Christus [É que ouvi alguns dizerem: se não o encontro nos documentos antigos, não creio no  Evangelho... para mim, documentos antigos são Jesus Cristo; trecho da Epístola aos Filadelfos, de Santo Inácio de Antioquia]. 

Temos que entregar a Verdade ao povo, tal qual a Igreja no-la entrega. E a Igreja a recebe de Nosso Senhor que não está somente no Evangelho, mas também na Tradição. Não podemos alimentar o espírito farisaico, que se prendia ao pé da letra. Littera enin occidit [a letra, por si, mata; referência negativa à observância rígida e literal aos princípios e às leis], observara São Paulo.

Em matéria de Fé e Moral, tudo o que não estiver de acordo com a Igreja, é novidade nociva às almas, porque a Igreja guarda, não somente a letra das verdades evangélicas, mas também o espírito dessas verdades, que está na Tradição. Doctrinis variis et peregrinis nolite abduci [não vos deixeis desviar pela diversidade de doutrinas estranhas] — era o conselho do Apóstolo (Hb 13,9). Se não podemos ensinar novidades estranhas à doutrina da Igreja, também não podemos atenuar a Verdade ou vesti-la de uma linguagem que a possa comprometer. Os alardes de ciência, o sentimentalismo ou o rigor exagerado não condizem com a simplicidade límpida e natural da Doutrina. Ao povo não interessa a nossa vaidade, mas a Verdade: Devitans profanas vocum novitates [evita as falácias profanas].


27 DE JANEIRO

Pars haereditatis meae [parte da minha herança (Sl 15,5)]

Naquele dia, da minha primeira Tonsura, eu disse que só Deus me bastava. Ele, a minha herança, e somente por Ele eu iria me interessar. Depois, com o correr dos anos, fui achando que o meu sacrifício fôra grande demais e que a minha generosidade fôra exagerada. Achei que Deus era pouco para me contentar.

Pobre mendigo, julgando-me iludido no meu sacrifício, comecei a ajuntar todos os restos que encontrei pelo meu caminho. E não percebi que, enquanto amontoava ninharias, pouco a pouco, eu ia perdendo a minha riqueza. Apeguei-me a tudo... pensando que era alguma coisa. Fui um avarento de tudo o que pude recolher. E agora reconheço o meu erro. Compreendi que só Deus pode encher a minha vida. Somente a sua riqueza tem valor porque é infinita.

Meu coração já foi criado assim: tão grande, que só Deus pode contentar. Preciso voltar atrás, à procura da herança que perdi. Para levá-la comigo, não posso desejar sequer outra coisa que não seja a minha riqueza infinita. Preciso abandonar tudo o que andei ajuntando ao longo do meu caminho. Deus meus et omnia [meu Deus e meu tudo] — eu estava certo quando pensei assim, naquele dia da minha Primeira Tonsura.

26 DE JANEIRO

Sempiternus Pontifex aedificat vos [o Pontífice Eterno vos engrandeça]

Assim escreveu, aos seus fiéis, o grande bispo dos primeiros séculos, São Policarpo: que o Pontífice eterno, Cristo, edifique a vossa santidade, in fine et veritate, in mansuetudine, in patientia, in castitate [ao final e verdadeiramente, pela mansidão, pela paciência, pela castidade]. Que maravilhoso programa de vida sacerdotal!

In fide et veritate [pela  fé e pela verdade]. É com Nosso Senhor que devemos erguer o edifício da nossa santidade sobre as verdades da fé, sinceramente apegados ao Pai que está nos céus. In mansuetudine, in patientia [pela mansidão, pela paciência] essa norma do nosso apostolado. Ser, para todos, um reflexo da misericórdia de Nosso Senhor, com uma paciência alegre e perseverante, porque vivemos expectantes beatam spem [na expectativa de nossa esperança feliz (Tt 2, 13)], conforme diz o Apóstolo.

In castitate [pela castidade]: a sinceridade com Deus nos dará a inocência e a reta intenção em tudo, com um santo respeito a nós mesmos e às almas. Não será demais, se realizarmos, em nossa vida sacerdotal, esse programa de santidade que o grande bispo apresentava aos simples fiéis do seu tempo. Não podemos construir sobre outra base, a não ser essa: In fide et veritate [pela fé e pela verdade] — porque omne quod non est ex fide, peccatum est [tudo o que não procede da fé é pecado (Rm 14, 23)].

25 DE JANEIRO

Ubi abundavit delictum [onde abundou o pecado  (Rm 5,20)]

Ao escrever estas palavras, o Apóstolo não quis falar de si próprio, mas da redenção em geral. No entanto, esse texto é bem um resumo da conversão do grande Perseguidor. Dedicando-se à caçada de cristãos, era ele o lobo feroz que todos temiam. Mas a Graça o transformou no servus Jesu Christi [servo de Jesus Cristo].

Preciso pensar que a conversão não é somente do erro para a Verdade, do pecado para a Graça. Dessa conversão, graças a Deus, não estarei necessitando. Mas, a conversão da tibieza para o fervor — é dessa conversão que estou precisando. Todos os dias, a todo momento, minha natureza está me empurrando para longe de Nosso Senhor. E posso dizer que ela nada conseguiu?

À hora de sua morte, um santo religioso pedia aos seus confrades: rezem, rezem muito pela minha conversão total! Essa conversão total, de toda a minha vida, é a que devo realizar continuamente, até ao fim dos meus dias. Nosso Senhor não deve estar simplesmente ao lado de uma vida sacerdotal, mas tem que ser o centro de toda essa vida: In quo fixa et firma, et immobiliter semper sit radicata mens mea et cor meum [Em quem meu coração e minha mente estejam fixados e firmemente enredados agora e para sempre; trecho da chamada Oração de São Boaventura]. Seja meu esse desejo de São Boaventura.

24 DE JANEIRO


Si de mundo fuissetis... [se fôsseis do mundo...(Jo 15,19)]

Ah!... se fôssemos do mundo! Ele estaria aos nossos pés, ele seria nosso: Haec tibi dabo, si adoraveris me... [te darei estas coisas se me adorares...] Se fôssemos do mundo, ele nos saberia compreender e amar: Quod suum erat mundus diligeret... [o mundo vos amaria como sendo seus...]. Se trabalhássemos para o mundo, ele nos saberia cobrir de elogios, e não nos pouparia recompensas; ele não usaria de todos os meios para impedir o nosso trabalho.

Mas, graças a Deus, não somos do mundo: Quia vero de mundo non estis, sed ego elegi vos de mundo, propterea odit vos mundus [Como, porém, não sois do mundo, mas do mundo vos escolhi, por isso o mundo vos odeia (Jo 15,19)]. Nosso Senhor não exagerou quando disse que o mundo nos odeia. 

Positus in maligno [sob o maligno (1Jo 5, 19)], ele [o mundo] não nos quer porque vê em nós a negação do seu espírito e da sua doutrina. Tanto melhor para nós. Uma prova a mais, de que somos realmente de Nosso Senhor. Quando Ele sentiu todo o peso da hipocrisia do mundo, foi que nos avisou: Se o mundo não vos quer, lembrai-vos que a mim também ele não quis. Quia de mundo non estis [porque não sois do mundo], nada mais triste que o sacerdote procurando agradar o mundo, condescendendo com seu espírito e com a sua mentalidade.

23 DE JANEIRO

Dentur idonei confessarii [haja confessores capazes]

Para São Pio V, era essa a receita indicada para a afervoramento das almas: Ecce omnium christianorum reformatio [e veremos uma reforma completa em toda a cristandade]. É certo que o púlpito, o rádio ou a pena poderão exercer muita atração sobre as minhas qualidades. E se eu as tiver, para todos os meios de apostolado, graças a Deus! Nesse bonum certamen [bom combate] pela salvação das almas, tenho que me utilizar de todos os meios ao meu alcance.

Não devo, porém, esquecer que uma coisa é falar a todos, em geral, e outra, falar a cada um em particular. Junto ao púlpito, ou junto ao rádio, meus ouvintes são apenas ouvintes, a caminho da verdade. No confessionário, eles já serão mais do que isso: penitentes, que desejam livrar-se da própria miséria.

É certo que o trabalho do púlpito, da pena ou do rádio é um apostolado relativamente leve e interessante. Chega mesmo a agradar a minha vaidade. No confessionário, o trabalho é, sem dúvida, mais pesado. Mas... um dia, exausto com suas longas caminhadas, Nosso Senhor estava descansando junto a um poço. E o seu cansaço não o impediu falar àquela samaritana que voltou à cidade, convertida. Diante dos penitentes é que eu serei médico, mestre e pai contanto que in omni patientia, et doctrina [com toda paciência e doutrina, ou seja, segundo as regras da caridade cristã].

22 DE JANEIRO

Elegit nos [nos escolheu (Ef 1,4)]

Certamente não foi por acaso que cheguei ao sacerdócio. O dedo da Providência andou trabalhando sempre, ao longo desse caminho que percorri, até chegar ao altar. Ante mundi constitutionem [antes da criação do mundo] — portanto, muito antes de que eu o pudesse saber, Deus já me havia escolhido. E, se houve uma escolha, foi porque havia outros que também podiam ser chamados. 

Mas eles não foram escolhidos e eu fui. Assim fez Ele também quando, entre os discípulos, escolheu os doze, que chamou Apóstolos: Vocavit discipulos suos, et elegit duodecim, quos et Apostolos nominavit [chamou os seus discípulos e escolheu doze dentre eles, os quais chamou de apóstolos (Lc 6,13)]. Portanto, minha vocação foi uma escolha a dedo; menos não se pode supor da sua infinita sabedoria, ante a sublimidade dos seus planos: Ut essemus sancti et immaculati in conspectu eius [para sermos santos e irrepreensíveis diante dos seus olhos (Ef 1,4)]. Não é pouco o que Ele espera de mim.

Fui escolhido para realizar em minha vida uma santidade superior. Não é apenas aos olhos do mundo que eu devo parecer santo, mas eu tenho que ser um santo aos olhos de Deus: in conspectu eius [diante dos seus olhos]. Compreendo então como deve valer para mim aquela insistência do Apóstolo: Videte vocationem vestram [Vede a vossa vocação!].  Se eu não a meditar, se eu não a tiver diante dos olhos, como a irei viver?

21 DE JANEIRO

Spectaculum facti sumus [fomos entregues em espetáculo (1Cr 4,9)]

Um espetáculo... é alguma coisa que chama a atenção, que prende a admiração e os olhares de todos. A nossa dignidade é esse espetáculo, aos olhos dos anjos e dos homens: et angelis et hominibus [aos anjos e aos homens]. Eles têm diante de si um simples homem, participando do sacerdócio eterno de Cristo. É realmente sublime esse espetáculo da sabedoria e misericórdia de Deus.

Mas não basta que Deus chame a atenção dos anjos e dos homens. Nós também temos que oferecer et angelis et hominibus [aos anjos e aos homens] um espetáculo de santidade e virtudes com a nossa vida sacerdotal. Podemos dizer que já chegamos a esse ponto? E, se não chegamos, será esse ao menos o nosso desejo, a nossa preocupação de todos os dias?

Em meio às trevas, a luz é sempre um espetáculo de calor e de vida. Lux mundi [luz do mundo]— temos que ser para todos um espetáculo de vida sobrenatural. Se não houver de nossa parte um esforço contínuo, pode ser que o mundo veja em nós um triste espetáculo de tibieza e indiferença. Que o nosso exame de consciência e os nossos retiros chamem a nossa atenção para esse ponto.

20 DE JANEIRO

Donec dies est [enquanto for dia (Jo 9,4)]

Meu Deus, tenho diante de mim um campo imenso de trabalho. E minha covardia, meu comodismo, nem sempre querem olhar para essa vinha que está exigindo meu esforço e dedicação. Tenho que aproveitar donec dies est [enquanto for dia]. Enquanto tenho tempo, enquanto as forças não me abandonam, enquanto não chega a noite da morte, preciso trabalhar sem descanso.

O bem que eu não fizer agora, nunca mais eu o farei. E o mérito que eu não ganhar agora, nunca mais será meu. Somos tão poucos, e o trabalho é tanto! Messis quidem multa [a messe é grande]— cada dia ela se torna mais difícil. Senhor, desperta a minha generosidade, para eu saber dar tudo pelas almas: meu tempo, meu descanso, minha morte. Que eu não me queira poupar, vendo que as almas se perdem. Adveniat regnum tuum [que venha o Vosso Reino]— não seja esta uma palavra morta nos meus lábios, mas a alma de toda a minha vida. 

Embora meu comodismo queira ignorar, meus olhos dizem que o inimicus homo ['homem inimigo', expressão que identifica o semeador de joio nas vinhas do Senhor (Jo 13, 28) e que denomina, por extrapolação, todos os grandes inimigos da Igreja] não descansa um momento. Por incrível que pareça, os filhos da treva atiram-se ao trabalho com mais inteligência e coragem que os filhos da luz. Não posso continuar, lamentando apenas, que o inimigo não descansa. Não é solução. O que eu tenho a fazer, é o que já fazia o teu Apóstolo: Impendam et superimpendar [gastar e se desgastar, no contexto de uma entrega contínua e redobrada em favor da salvação das almas, conforme as palavras de São Paulo em IICr 12, 15].

19 DE JANEIRO

Mea doctrina non est mea [minha doutrina não é minha (Jo 7,16)]

Temos que ensinar, verbo et opere [por palavras e ações], o que Nosso Senhor ensinou. E como ensinar? Pela palavra simples e despretensiosa, com o zelo e a mansidão do Mestre. Voar apenas sobre o auditório, com as asas de idéias demasiado elevadas, alardear ciência ou tentar vestir a simplicidade das verdades com a poesia de sedas e arminhos, é uma lamentável profanação do nosso Ministerium verbi [ministério da palavra].

Nosso Senhor não foi chamado de orador, mas de Mestre, porque a sua única preocupação era: Ut cognoscant te, solum Deum verum, et quem misisti [que Vos conheçam, um só Deus Verdadeiro, e quem enviastes (Jo 17,3)]. E temos que pregar também com o exemplo. Se em cada sacerdote há um pregador que reparte ao povo o pão da palavra, não falte igualmente o santo, que a todos alimente com a riqueza do exemplo.

Ouve-se às vezes: hoje o mundo não quer mais ouvir certas verdades antigas. Realmente, São Paulo já previu: Erit enim tempus, cum sanam doctrinam nos sustinebunt [porque virá tempo em que a sã doutrina não será suportada (pelos homens), em 2 Tm 4,3] Mas, se esse tempo já chegou, temos que perguntar: de quem é a culpa? Se soubermos viver as verdades antigas, o mundo certamente não as irá estranhar quando as pregarmos.

18 DE JANEIRO

Quoniam Ecclesia sancta est [porque a Igreja é santa]

Nosso Senhor nos fez membros de sua Igreja. Pelo sacerdócio, Ele nos elevou a uma posição de destaque, distinguindo-nos como seus amigos particulares: Jan non dicam vos servos, sed amicos [já não vos chamo de servos, mas de amigos]. Mas, não nos esqueçamos: essa distinção nos foi conferida unicamente em atenção à Santa Igreja. Temos portanto que servi-la, mas com amor e dedicação. Não somos empregados ou meros funcionários de uma organização.

O que a Santa Igreja espera de nós, não são tanto as obras de uma vida simplesmente ativa, mas as obras de uma vida santamente sacerdotal. O que mais interessa à Igreja não é o nosso trabalho pela santificação das almas; antes de tudo ela quer que nos santifiquemos.

Se o padre, tendo um nome feito no rádio e televisão, nos jornais e revistas, tiver seu nome desfeito na língua do povo... que ganhará a Igreja com isso? E ainda que muitos o tenham por virtuoso, se ele não for realmente Homo Dei [homem de Deus]— e Deus o sabe — não estará sendo o que a Igreja quer. Nossas virtudes serão atribuídas à Igreja como nossos falhas também o são. Como poderá pensar em santificar as almas aquele que não se preocupa com a própria alma? Que nos santifiquemos, para podermos santificar: é tudo o que a Igreja espera de nós. Quantum quisque amat Ecclesiam Christi, tantum habet Spiritum Sanctum [Quanto mais se ama a Igreja de Cristo, tanto mais se possui o Espírito Santo (Santo Agostinho].


17 DE JANEIRO

Mortui enim estis [porque estais mortos (Cl 3,3)]
  
Segundo a doutrina do Apóstolo, nós já morremos com Cristo, pelo batismo: Mortui estis [estais mortos]. No entanto, devemos continuar vivendo, mas de uma vida diferente: Vita vestra abscondita est in Christo Jesu [a vossa vida está escondida em Cristo Jesus].

Essa a grande realidade que a nossa natureza se recusa a aceitar. Justamente por não seguirmos a mentalidade do mundo, este não nos compreende e nos tem por mortos. Oxalá tenha razão, que estejamos realmente mortos para nós mesmos e para tudo o que o mundo nos põe diante dos olhos! Poderemos viver assim, mais in Christo Jesu [em Cristo Jesus], unicamente para as almas, olhando para a glória de Deus.

Essa foi a vida dos santos: o corpo neste mundo; mas a alma abscondita in Christo Jesu [escondida em Cristo Jesus] já vivendo num mundo superior. Para o Apóstolo São Paulo, do mundo só existiam as almas que ele queria salvar; o mais não lhe interessava, porque estava acima de tudo, vivendo em Nosso Senhor. Nemo enim nostrum sibi vivit et nemo sibi moritur. Sive enim vivimus, sive morimur, Domini sumus [Nenhum de nós vive para si e ninguém morre para si. Se vivemos, se morremos, pertencemos ao Senhor (Rm 14 7,8)].

16 DE JANEIRO

In medio luporum [no meio de lobos (Mt 10,16)]


Foi assim que Nosso Senhor nos viu neste mundo. Ele teve poucos amigos sinceros aqui na terra. Inimigos, no entanto, não lhe faltaram. Pelo caminho do nosso ministério sacerdotal, iremos encontrar, muitas vezes, os lobos que Nosso Senhor também encontrou. Mais perigosos, porém, que os lobos declarados, são aqueles que se apresentam com aparências de ovelhas.

Tome cuidado o sacerdote com certas amizades que ocultam segundas intenções. Amizades que visam envolver o padre na política ou que pretendem vantagens financeiras ou mesmo legalizar aparentemente certas situações duvidosas; essas amizades não passam de lupi rapaces [lobos vorazes]. Acabam despojando o padre do seu bom nome e da sua fama, para atirá-lo depois ao desprezo e desconfiança do povo.

Com um pouco de prudência, não nos será difícil distinguir entre um anjo bom e um demônio mediano: Qui veniunt ad vos in vestimentis ovium; intrinsecus autem sunt lupi rapaces [Eles vêm até vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes (Mt 7,15)]. São Paulo os conheceu de perto e deixou para os fiéis um aviso que vale para nós: Videte, fratres, quomodo caute ambuletis! [Vigiai, irmãos, com cuidado sobre a vossa conduta! (Ef 5,15)].

15 DE JANEIRO

Non quaero gloriam meam [Não busco a minha glória (Jo 8,50)]

O Sumo Sacerdote da Redenção não procurava a sua glória. Subindo ao altar do sacrifício, no Presépio, até consumar sua oblação, na Cruz, Ele só pensou na glória do Pai. E nós, sacerdotes cooperadores da Redenção?

Neste mundo eu não quero pedestal — dizia um padre com muita humildade. Se a exagerada preocupação de si mesmo é ridícula em qualquer indivíduo, mais desprezível se torna quando a notamos no sacerdote. Um exterior todo retocado pela vaidade, o gosto de falar sempre ex-cathedra [do alto, como um catedrático, sem admitir objeções], o desejo de estar em toda parte à procura de evidência, de amizades e elogios, a preocupação de agradar os mais altamente colocados, com desprezo dos mais humildes; enfim, o abuso da dignidade sacerdotal em proveito da própria vaidade... é triste, é lamentável.

Querer viver na glória quem deveria viver na imolação... não será um escândalo para as almas de boa vontade? A exagerada preocupação de se fazer simpático, poderá ter, para o padre, um resultado contrário. Coloquemos sempre um pouco mais de alma e convicção nesse Gloria Patri [Glória ao Pai], que rezamos, com os lábios, tantas vezes!

14 DE JANEIRO

Qui se existimat stare... [quem pensa estar de pé (1Cr 10,12)]

É muito grande a força do demônio. Se ele já dobrou muito caniço, já arrancou muito carvalho também. Cedros do Líbano vieram abaixo, porque confiaram demasiado na força das próprias raízes. É pela presunção que o demônio consegue minar os alicerces de muita vida sacerdotal. Videat ne cadat [vigiar para não cair] — isto quer dizer esforço e trabalho. 

Tome cuidado, empregue os meios, não se descuide, nem facilite. Tempestades há no ambiente que nos cerca. E as mais terríveis não são as que entram pelos sentidos, mas aquelas que rugem dentro de nós mesmos. Lamennais, o grande apologeta, pregou certa vez numa igreja dos redentoristas, na Suíça. Um sucesso. Perguntaram ao reitor da comunidade, o que achava daquele orador, coluna da Igreja na França. Com um ar de tristeza, o reitor, Ven. Pe. Passerat, respondeu: 'Tenho medo desse homem; ele não reza'. Algum tempo depois, Lamennais era um apóstata.

Naquela vida, como em tantas outras, a presunção e o orgulho minaram os alicerces. A base cedeu. Et descendit pluvia, et venerunt flumina, et flaverunt venti, et irruerunt in domum illam, et cecidit, et fuit ruina illius magna [caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa; ela caiu e grande foi a sua ruína (Mt 7,27)].

13 DE JANEIRO

Descendit de Caelis [Desceu dos Céus!]

Infelizmente esta palavra já não chama a nossa atenção. Achamos tão natural que isso tenha acontecido! Um dia, o orgulho do homem quis ocupar o trono de Deus. E esse orgulho absurdo pôs a humanidade a perder. Para salvá-la, Deus deixou o seu trono, e veio ao mundo, ocupar um estábulo... Esta solução redentora não foi apenas uma indireta divina contra o orgulho humano. Mais claramente  Deus não o poderia ter condenado.

Apesar disso, o meu orgulho continua vivo. Sei que Deus desceu dos céus à terra, e não tiro dessa verdade as consequências que devia tirar para a minha vida. Quando me coloco diante do Presépio ou da Cruz, meu orgulho fecha os olhos, para não ver a que ponto eu devo chegar. E depois de transformar o Paraíso num vale de lágrimas, ele vive enchendo a minha vida de queixas,  revoltas e reclamações. 

Soubesse eu ocupar 'o meu lugar', sempre na humildade, e seria tão feliz! Diante do Presépio e da Cruz é que eu devo meditar bem as palavras do Precursor: Illum oportet crescere, me autem minui [é preciso que Ele cresça e eu diminua]. Então compreenderei que preciso viver como Nosso Senhor viveu: Formam servi accipiens [assumindo a condição de escravo (Fl 2,7)].

12 DE JANEIRO

Mundamini qui fertis vasa Domini [purificai-vos, vós que levais os vasos do Senhor (Is 52,11)]

Seria essa uma das consequências do nosso exame diário de consciência: maior cuidado pela pureza de nossa alma. Se deviam ser puros e inocentes aqueles que apenas tocavam nos vasos do Templo, quanta inocência Deus não estará exigindo daqueles que devem tratar diariamente com o Panis Angelicus [Pão dos Anjos (Sagrada Eucaristia)].

Triste e lamentável seria, se justamente a alma do sacerdote destoasse daquela pureza e dignidade que a Igreja requer em tudo o que está a serviço do culto divino. Deponentes igitur omnem malitiam, et omnem dolum, et simulationes, et invidias, et omnes detractiones. Sicut modo geniti infantes [Deponde, pois, toda malícia, toda astúcia, fingimentos, invejas e toda espécie de maledicência, como crianças recém-nascidas (1Pd 2,1)]. Como seria diferente a minha vida, se diariamente, à noite, eu examinasse, com minha consciência, os pensamentos, palavras e ações do dia!

Não foi sem motivo que a Igreja insistiu comigo, dizendo: Estote ergo talis, ut sacrificiis divinis digne servire valeas [portanto, possas servir ao sacrifício divino de maneira digna; trecho do rito de ordenação constante do Pontifical Romano]. Revendo e estudando a minha vida de todos os dias, irei me convencer de que tudo leva certamente o selo da boa vontade, mas que alguma coisa poderá estar em desacordo com esse digne servire [servir dignamente]. Não irei permitir, então, que certas falhas me acompanhem sempre, como coisa normal, que a minha indiferença não vê, e, por isso mesmo, não condena.

11 DE JANEIRO

Mihi vivere Christus est [para mim o viver é Cristo (Fl 1,21)]

Por eu ser um Alter Christus [outro Cristo], minha vida precisa refletir continuamente a vida do meu Mestre. E isto não me será possível, sem um profundo conhecimento de Nosso Senhor. Por eu ser o Praedicator veritatis [pregador da Verdade], preciso conhecer a Verdade em sua fonte, assim como ela veio ao mundo. Mas, como irei imitar um Mestre que não conheço? E como irei ensinar e viver a Verdade que não estudo?

A biografia de Nosso Senhor — completa, enquanto possível — está no Evangelho. Aí posso encontrar veluti viva et spirans imago eius [a imagem dEle, viva e palpitante]. Irei vê-lo, para que o possa imitar e ensinar, assim como Ele era realmente. Mas, o Evangelho é talvez o livro que menos leio, e que menos estudo. Acho indispensável a leitura diária dos jornais e revistas. Mas, do Livro por excelência, leio apenas algum trecho, aos domingos, para os fiéis; e, talvez, nem isso. 

Há livros que me interessam muito mais, porque, infelizmente, ainda não descobri que há, no Evangelho, uma riqueza inesgotável, para mim, e para as almas que eu devo alimentar com a Palavra divina. A falta de interesse pelo Evangelho, denuncia sempre, no sacerdote, a falta de interesse no próprio Nosso Senhor.

10 DE JANEIRO

Infelix ego homo! [homem infeliz que sou! (Rm 7,24)]

Tratando-se das ocasiões de pecado, há um modo de encarar as coisas, não com simplicidade cristã, mas com exagerada naturalidade. Chama-se a isto mentalidade arejada, segundo a qual, as ocasiões não seriam tão frequentes, nem o perigo tão grande como quer a mentalidade antiga e acanhada. Nem tanto ao mar, mas também nem tanto à terra.

O Antigo Testamento já condenou aquele que ama o perigo. E São Paulo nos diz que, para nos enganar, o demônio é capaz de tudo; chega mesmo a se transfigurar: Ipse Satanas transfigurat se in angelum lucis [o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz]... A nossa fraqueza é tão grande, que facilmente chegamos a defender uma coisa, pelo simples motivo de a desejarmos. E assim, às vezes, dizemos não haver perigo, porque realmente queremos o perigo.

Estaremos em melhores condições que o Apóstolo? Infelix ego homo, quis me liberabit de corpore mortis huius? [Homem infeliz que sou! Quem me livrará deste corpo que me acarreta a morte?, palavras de São Paulo aos romanos, em Rm 7,24]. Spiritus quidem promptus est [o espírito, na verdade, está pronto] — não há dúvida; mas... caro autem infirma [mas a carne é fraca], e disto não podemos duvidar também. Temos uma natureza de morte; e quando ela quer alguma coisa, usa de todos os meios para a justificar: Quod volumus libenter credimus...[sempre acreditamos no que queremos acreditar].

09 DE JANEIRO

Similes ei erimus [seremos semelhantes a Deus (1Jo 3,2)]

Meu Deus, o que me pedes, neste mundo, é um nada; apenas alguns anos de luta. No entanto, o teu amor tem, reservada para mim, uma eternidade de glória: In hac brevi et exigua vita agones et labores; in illa vero vita, quae aeterna est, praemia meritorum [nesta vida breve e passageira, provações e fatigas; na outra e verdadeira vida, recompensa eterna (São Beda)].

Senhor, que este mundo não me faça perder de vista essa eternidade que, com tanto carinho, puseste diante dos meus olhos. Como irei desinteressar-me dessa recompensa que preparaste para teus filhos, ante mundi constitutionem [antes de criar o mundo]? Que dignidade, e que riqueza para mim: Nunc filli Dei sumus [desde agora somos fi­lhos de Deus!] No entanto, ainda preciso esperar: Nondum apparuit quid erimus [não se manifestou ainda o que seremos]; quero acalentar esta esperança, pois, cum apparuerit, similes ei erimus [quando se manifestar, sere­mos semelhantes a Deus].

Meu Deus, diante do que me espera, que eu não viva neste mundo como um escravo, nem sofra como se eu fosse um condenado ao desespero! Não posso me esquecer de que sou um dos teus filhos, com direito a uma parte da tua riqueza infinita. Ela está à minha espera, pois é herança minha. E eu estaria ofendendo a tua liberalidade, se quisesse fechar os olhos, para não ver aquilo que o teu amor, desde já, me quis mostrar. Levate oculos vestros! [levantai os vossos olhos! (Jo 4,35)].

08 DE JANEIRO

Si adhuc homnibus placerem [se quisesse agradar aos homens (Gl 1,10)]

É verdade que precisamos ganhar a todos para Nosso Senhor. E as palavras duras, as atitudes ríspidas, nunca foram meios de apostolado. Foi pela mansidão que Nosso Senhor atraiu a todos: Discite a me, quia mitis sum, et humilis corde  [aprendei de mim que sou manso e humilde de coração].

Mas que o nosso zelo não seja imprudente e sentimental, a ponto de nos levar a um erro perigoso. Condescender com certas ideias e fraquezas, por de lado a simplicidade cristã, porque certa classe de pessoas a não tolera, modernizar-se mundanamente com o intuito de agradar e atrair; enfim, sacrificar a verdade, apresentando-a menos pesada e mais agradável, certamente não seria isso digno do sacerdote de Nosso Senhor, o qual estaria perdendo pensando ganhar.

As almas somente se deixam atrair pela virtude. E se esta nem sempre agrada, nem por isso a podemos profanar. O sacrifício da Verdade não ganha a ninguém; antes põe a perder as almas; elas querem ver no sacerdote o homem de Verdade que não se diminui. Com o nosso modo de apresentar a Verdade aos homens, nunca poderemos prejudicá-la. O Apóstolo, com todo o seu zelo, confessava não ter agradado a todos: Si adhuc hominibus placerem, Christi servus non essem [Se quisesse agradar aos homens, não seria servo de Cristo, palavras de São Paulo aos Gálatas, em Gl 1, 10]. 

07 DE JANEIRO

Ego elegi vos [eu vos escolhi (Jo 15,19)]

Pouco antes de morrer, num discurso que não chegou a pronunciar, Pio XII escreveu: imensa é a bondade de Deus para com aqueles que Ele escolhe, como instrumento da sua vontade salvífica. Depositário e dispensador dos meios de salvação, o sacerdote, como não pode dispor deles segundo o próprio arbítrio, pois que é 'ministro', assim mantém inalterada a autonomia da sua pessoa, a liberdade e responsabilidade dos seus atos. 

Ele é portanto um instrumento consciente de Cristo, que, como um artista genial, dele se serve, como de um cinzel, para esculpir nas almas a imagem divina. Ai se o instrumento se negasse a seguir a mão do divino Artista; se deformasse o desenho dele, por próprio capricho! Bem medíocre resultaria a obra, se o instrumento fosse, por própria culpa, inepto. 

A santidade é o elemento primário que faz do sacerdote um instrumento perfeito de Cristo, já que o instrumento é tanto mais perfeito e eficaz, quanto mais unido estiver à causa principal (...) Em muitos casos não basta o fervor das próprias persuasões, nem o zelo da caridade para conquistar e conservar as almas para Cristo. Também aqui o bom povo tem razão, quando reclama de sacerdotes 'santos e doutos'.

06 DE JANEIRO

Invenerunt puerum... [acharam o menino... (Mt 2, 11)]

Sim, eles acharam o Menino, mas à custa de muito trabalho e sacrifício. Após uma viagem longa e penosa, chegaram enfim ao palácio do Rei dos judeus: um casebre, onde, na maior pobreza, estava uma simples criança. Para mim foi tão fácil achar Nosso Senhor! E nem sempre eu soube aproveitar dessa facilidade...

Eles acharam o Menino cum Maria, Matre eius [com Maria, sua Mãe]. Sempre com sua Mãe — foi assim que o Redentor realizou a sua obra de Redenção. Se não podemos separar o Redentor de sua Mãe Santíssima também não podemos separar Nossa Senhora da vida sacerdotal. O Alter Christus [outro Cristo] não saberá trabalhar sem Ela.

Os Magos ofereceram ouro, incenso e mirra. Não nos é tão difícil oferecer a Nosso Senhor o ouro e o incenso de um exuberante apostolado exterior. Anos e anos de trabalho, no afervoramento de uma paróquia, na organização de uma obra de assistência social, é com satisfação que entregamos tudo a Nosso Senhor. Mas... oferecer a mirra de certas renúncias interiores e mesmo exteriores... oferta dolorosa, muitas vezes, no entanto, necessária. Nosso Senhor não se contenta com uma parte do sacrifício que nos pede. Ele quer um sacrifício completo. Ele quer tudo. Ecce nos reliquimus omnia [Eis que deixamos tudo, palavras de São Pedro a Jesus, em Mt 19, 27].

05 DE JANEIRO

Fundamentum aliud... [um fundamento diferente... (1Cor 3,10)]

Nós, os sacerdotes, pensamos muito em realizar, em construir. Nada mais natural, pois o nosso ministério o exige. Muito mais importante, porém, que qualquer atividade exterior, é o nosso trabalho na construção de nossa vida interior. Desta é que depende tudo o mais.

Quanto mais alto um edifício, tanto mais sólida deverá ser a sua base, mais profundas os seus alicerces. Ora, a nossa vida sacerdotal é um verdadeiro arranha-céu, porque dá na vista de todo o mundo, e atinge mesmo a altura do céu, no que ela tem de grandioso e sublime. E que será dessa construção toda, se ela não assentar sobre o concreto de uma virtude a toda prova?

Se o exame de consciência me diz que a árvore de minha vida sacerdotal não está produzindo bons frutos, o remédio não está numas gotinhas d’água, derramadas sobre suas folhas... Tenho que regar as raízes dessa árvore. Por falta de vida interior, isto é, de base sólida, quanta vocação já não desmoronou! Até cedros do Líbano foram vistos, rolando correnteza abaixo... Fundamentum enim aliud nemo potest ponere, praeter id quod positum est, quod est Christus Jesus [Quanto ao fundamento, ninguém pode por outro diverso daquele que já foi posto, que é Jesus Cristo].

04 DE JANEIRO

Quomodo cecidisti! [como caíste!]

O exame diário de nossa consciência — quanto bem não nos faria, se o fizéssemos bem! Temos que fazê-lo sem medo, com um sincero desejo de ver a nossa miséria bem de perto. Um construtor precisa, frequentemente, examinar se a sua construção está sendo executada, de acordo com a planta estabelecida; qualquer erro poderá influir em todo o conjunto da obra. Maior cuidado exige de nós a construção de nossa vida espiritual (sacerdotal).

O modelo que devemos realizar é o de perfeição infinita. E o nosso trabalho está sendo objeto de admiração dos anjos e santos da eternidade. Costumamos dar tanta atenção às faltas alheias! Quanto assunto não nos fornecem para nossos comentários! Deixando-as de lado, em santa paz, tomemos diariamente as nossas faltas como assunto de uma conversa séria com a nossa consciência. 

Integritatis tuae curiosus explorator, vitam tuam quotidiana discussione examina. Attende diligenter quantum proficias vel quantum deficias; stude cognoscere te. Pone omnes transgressiones tuas ante oculos tuos, statue te ante teipsum, tamquam ante alium, et sic teipsum plange [como curioso explorador da sua própria conduta, examine com diligência a sua vida diária. Considera cuidadosamente os progressos feitos e o que se perdeu... esforce-se para conhecer a si mesmo... exponha todas as suas faltas diante dos seus olhos e coloque-se diante de si mesmo como se fosse outra pessoa ... e, então, lamente pelos seus erros]. Este é o conselho que nos dá São Bernardo (em Meditationes piissimae).

03 DE JANEIRO

Dum tempus habemus... [enquanto temos tempo (Gl 6,10)...]

Se a minha vida é feita de anos, os meus anos se compõem de minutos. Assim como Deus não me dá toda a existência de uma só vez, mas pouco a pouco, assim também não posso santificar a minha vida num momento, mas tenho que viver para Deus todos os meus minutos.

Que eu possa perder a vida num momento — isso me impressiona. Mas que, num momento, eu possa perder a eternidade — isso deveria impressionar-me muito mais. Saber aproveitar o tempo é viver com sabedoria: Non quasi insipientes, sed ut sapientes redimentes tempus, quoniam dies mali sunt (Ef 5,15) [não sejam néscios mas sábios, aproveitando bem o tempo, porque os dias são maus].

Ninguém sabe o bem que faz, quando faz o bem; e nem sabe o mal que faz, quando deixa de fazer o bem. Por isso, em matéria de passar o tempo, eu posso e devo ser um ignorante. Mas devo ser um sábio, tratando-se de aproveitar o tempo. Quando a minha vida chegar ao fim, nada irei desejar mais que uma parcela desse tempo que agora está nas minhas mãos. Antes que chegue o meu último dia, preciso aproveitar os meus dias, para não perder os meus anos: tempora labuntur, et senescimus annis [trecho de 'Os fastos' de Ovídio: tempora labuntur, tacitisque senescimus annis et fugiunt, freno non remorante, dies – os tempos se completam e envelhecemos nos anos silenciosos; os dias fogem, não havendo como estancá-los].

02 DE JANEIRO

In unione illius divinae intentionis [Em união com essa divina intenção]

Tenho pela frente um novo ano, que eu devo ganhar para a minha eternidade. Logo de início preciso me compenetrar do que disse Nosso Senhor: 'Sem mim nada podeis fazer'. Portanto, é com Ele que eu devo ir recolhendo, um por um, os dias que me esperam: Qui non colligit mecum, dispergit [quem comigo não ajunta, dispersa].

Se eu quiser trabalhar sozinho, terei que ouvir um dia a Escritura: Seminasti multum et intulisti parum (Ag 1,6) [semeais muito e recolheis pouco]. Deus me criou para a sua maior glória. E, fazendo uma seleção entre as almas que o amam, eu fui um dos contemplados. Ele deve ser mesmo infinitamente bom, para querer que a minha miséria coopere na sua Redenção, para sua glória infinita. Mas quanta atividade, grandiosa aos olhos do mundo, já não foi declarada sem valor, à hora da morte, porque lhe faltava o selo illius divinae intentionis! [com essa divina intenção!].

No dia em que me chamar, Deus irá examinar comigo a boa intenção que eu devia ter posto em tudo: Quaeretur a nobis quid fecimus, quam religiose viximus [seremos perguntados sobre o que fizemos e o quão honestamente vivemos - Imitação de Cristo, de Thomas de Kempis]. Posso aguardar tranquilo a hora dessa avaliação? Que o diga minha vida passada. Preciso vigiar a minha vaidade, meu apego, meu comodismo, para não lamentar um dia: Qui mercedes congregavit, misit eas in saeculum pertusum (Ag 1, 6) [para não lamentar como o trabalhador que guarda o seu salário numa sacola furada].

10 de JANEIRO

Procedamus in pace! [Vamos prosseguir em paz!]

E nem poderia ser de outra maneira: em paz com minha consciência, e em paz com Nosso Senhor: assim terei um ano realmente novo, diferente de quantos já vivi. Em paz comigo e com Deus, haverá em minha vida um aumento de fervor, para que eu possa dedicar este ano às almas e à minha alma. Olhando para os dias que estão para chegar, eu os vejo como um altar à minha espera. Quanto sacrifício nesse campo das almas que eu devo trabalhar!

Sacerdos pro populo [sacerdote para o próximo] — mas não serei, para as almas, a vida que elas esperam, se descuidar da minha própria vida interior; como cuidar das almas, ignorando as necessidades da própria alma? Tenho que agradecer a Nosso Senhor este novo ano que Ele me quer dar. E não posso esquecer que este poderá ser o último ano em minha vida. Será que, em 31 de dezembro deste ano, ainda estarei lendo os últimos pensamentos deste livro*?

Que o meu fervor destes dias me acompanhe sempre; não posso deixar, ao longo do meu caminho, os propósitos que tomei. E já que pode ser este o último ano da minha vida, preciso aproveitá-lo, quanto mais, para as almas, e para a minha alma. Um ano é tão pouco para o muito que tenho a realizar! Não posso esbanjar o meu tempo. Cotidie morior...[algo como 'morro a cada dia'].