OREMUS

Oremus — Pensamentos para a Meditação de Todos os Dias

(Pe. Isac Lorena (1963), com complementos - entre [ ] - de trechos traduzidos do latim pelo autor do blog)

Obs.: a obra foi destinada originalmente a sacerdotes e seminaristas, mas pode e deve ser objeto de reflexão específica para os católicos em geral, sejam religiosos ou leigos.


17 DE FEVEREIRO 

Ipsi autem spreverunt me [mas se revoltaram contra mim (Is 1,2)]

Deus se compara a uma mãe, que recebe o desprezo dos filhos alimentados com sua carne e o seu sangue, suas lágrimas e sacrifícios. O texto não nos fala de um simples abandono de Deus, mas o que é pior, do desprezo que Deus recebe da sua criatura: spreverunt me [revoltaram contra mim]. Nesse desprezo, põe o homem toda a sua malícia.

Nosso Senhor nunca desprezou a ninguém, exceto os fariseus, em cujo orgulho havia mais do que uma simples indiferença para com a Verdade; havia um desprezo frio e cínico para com Nosso Senhor. Mal pensavam eles na palavra do Profeta: Vae qui spernis nonne et ipse sperneris [ai de ti que desprezas e ainda não fostes desprezado (Is 33,1)].

Se o desprezo do homem é o que mais ofende a Deus, o desprezo de Deus é o pior que pode acontecer para o homem. Os Mestres da Lei não se lembram disso? E eu me lembro? Desprezando a oração, sob o pretexto de aproveitar melhor o tempo, e descuidando da pureza de minha consciência, com a desculpa de não alimentar escrúpulos, não estarei desprezando o próprio Nosso Senhor? Esse descuido e esse desprezo podem me levar ao ponto de ver Nosso Senhor envergonhar-se de mim: Hunc Filius Hominis erubescet [(Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras), o Filho do Homem também se envergonhará (dele) (Lc 9, 26)].

16 DE FEVEREIRO

Propter nimiam caritatem [por extrema caridade (Ef 2,4)]

Meu Deus, não foi sem motivo que um dia o Apóstolo exclamou: Quis consiliarius eius fuit? [quem já foi seu conselheiro?] porque há tanto segredo e tanto mistério nos caminhos da tua Providência! Se o teu amor me escolheu desde toda a eternidade para formar na tua Igreja, em lugar de destaque...

Se a tua misericórdia me facilitou anos de formação, para que eu melhor te conhecesse, através dos sacramentos e da oração; se o teu amor me perdoou, tantas vezes e, se apesar da minha indiferença, ele ainda me persegue e me ama... Senhor, eu não te compreenderia, se o teu Apóstolo não me desse uma explicação, a única possível: propter nimiam caritatem [por extrema caridade] — realmente o teu amor é infinito e somente por ele é que eu chego a te compreender.

Mas se até hoje não me impressionei com essas provas de predileção, pois não procuro corresponder; se minha vida continua presa a tanta coisa inútil e indigna, transformada geralmente num montão de fraquezas e misérias, porque será? Eu mesmo não acho uma explicação. Preciso perguntar à minha consciência.

15 DE FEVEREIRO 

Quia non novisset hominem [porque sequer conhecia o homem (Mt 26,74)]

Naquela noite da Paixão, apesar de todas as suas promessas de fidelidade, por diversas vezes, o Apóstolo negou o seu Mestre. Mas depois, caindo em si, flevit amare [chorou amargamente]. 

Toda vez que subo ao altar, sem a devida preparação, levando comigo tantos pensamentos alheios ao Santo Sacrifício... Toda vez que vou ao púlpito, preocupado mais com a minha vaidade do que com a salvação das almas... Sempre que condescendo com a minha impaciência ou não mortifico o meu comodismo... Toda vez que descuido a oração ou fujo de um dever a cumprir... não estarei revivendo a covardia do Apóstolo?

Ele pelo menos chorou depois amargamente. E será que eu o tenho imitado também nisso? Um simples olhar sobre a minha vida me fará compreender que preciso viver in spiritu humiliatis et in animo contrito [em espírito de humildade e de coração contrito]. Vivo tão despreocupado como se, em minha vida, tudo estivesse numa ordem perfeita. No entanto, sei bem que não sou um inocente diante de Deus. Nesse caso, só me resta viver como penitente, antes que chegue a hora do redde rationem... [ajuste de contas...].

14 DE FEVEREIRO 

Domine, scrutaris me [Vós me perscrutais (Sl 138, 1)]

Que Deus me acompanha, semper et ubique [sempre e em toda a parte]: um pensamento que me devia preocupar, como já preocupava o salmista: Mirabilis est mihi scientia haec, sublimis: non capio eam [esse conhecimento é tão sublime e maravilhoso para mim, que eu não o posso apreender]. Deus lê meus pensamentos: intelligis cogitationes meas e longinquo [de longe penetrais meus pensamentos] — para Ele não existe antes nem depois.

Ele conhece todos os meus caminhos; não posso fugir à sua presença: ad omnes vias meas advertis [(Vós) me sondais de todas as maneiras]. Antes que eu fale, Ele já está me ouvindo: Verbum nondum est super lingram meam... jam nosti totum [a palavra ainda não me chegou à língua... e já a conheceis por inteiro]. Ele me envolve como uma bênção: a tergo et a fronte complecteris me et ponis super me manum tuam [me cercais por todos os lados e estendeis sobre mim a vossa mão]. 

Para onde eu for, sua Providência irá comigo: Si summam pennas aurorae, si habitem in termino maris, illic manus tua ducet me [se tomar as asas da aurora ou habitar os confins do mar, é ainda Vossa mão que há de me conduzir]. Como seria diferente a minha vida, se eu vivesse compenetrado dessa preocupação de Deus para comigo! Projice te in eum, noli metuere; non se subtrahet ut cadas; excipiet, et sanabit te [Abriga-te em Deus sem medo algum pois Ele não o abandonará nas suas quedas, mas o acolherá e o curará (de todos os seus males) (Santo Agostinho)].

13 DE FEVEREIRO 

Presbyteri sint ad commiserationem proni [os presbíteros devem ser movidos pela compaixão]

Era o que recomendava São Policarpo, acrescentando: Misericordes erga cunctos, non severi nimium in iudicio, scientes nos omnes debitores esse peccati [misericordiosos com todos, sem serem severos demais nos julgamentos, cientes de que todos nós estamos sob o débito do pecado; trecho da Epístola aos Filipenses, de São Policarpo de Esmirna]. 

A mansidão terá que ser a arma secreta do nosso apostolado. Fugindo à rudeza no falar, à rispidez no trato, o sacerdote será sempre o Bom Samaritano, sem fel nem vinagre, levando consigo o óleo inesgotável da misericórdia e da compreensão. Deus não quis distância entre a sua grandeza e a nossa miséria: Et homo factus est — mitis et humillis corde [E se fez homem — manso e humilde de coração].

Se pela nossa dignidade estamos muito acima dos fiéis, nem por isso precisamos olhar sempre de cima, encerrados na torre inacessível do nosso orgulho e vaidade. Estudamos mais, é certo; mas nem por isso podemos desprezar aqueles que estudaram menos. Temos certamente uma noção mais clara do Bem e do Mal; nem por isso podemos ter sempre uma palavra de crítica, à espera de todos e de tudo. Quanto mais nos julgarmos donos da verdade, tanto mais escravos seremos dos nossos erros. Não podemos fazer uma diferença que só a Deus pertence, scientes nos omnes debitores esse peccati [cientes de que todos nós estamos sob o débito do pecado].

12 DE FEVEREIRO

In manus tuas [em Vossas mãos]

Nas minhas mãos, possuído da minha vaidade ou do meu orgulho, nada poderei realizar de bom para Deus ou para as almas. Nas mãos de Nosso Senhor, eu serei o seu instrumento para realizar maravilhas: opera quae ego facio, et ipse faciet, et majora horum faciet [(aquele que crê em mim) fará também as obras que eu faço e fará ainda maiores do que estas (Jo 14,12)].

Um dia Ele estava em lugar deserto, acompanhado de milhares de pessoas. Nas mãos de um menino, cinco pães nada significavam para aquela multidão mal alimentada durante três dias. Mas, nas mãos de Nosso Senhor, os pães se multiplicaram; todo o povo se fartou, e ainda sobraram doze cestos... Preciso cuidar do meu trabalho e do meu esforço para que a minha vaidade não ponha tudo a perder. Nas minhas mãos, os maiores heroísmos e milagres nenhum valor teriam, porque preciso estar nas mãos de Nosso Senhor.

Tenho que proteger toda a minha atividade com o muro da boa intenção; do contrário, estarei de mãos vazias no fim do dia e no fim da minha vida. Sine me nihil potestis facere [sem Mim, nada podeis fazer] — a boa intenção me fará trabalhar com as mãos de Nosso Senhor. Por mim mesmo nada poderei realizar para a minha eternidade; por mais que eu faça, tudo será perdido porque quin non colligit mecum, dispergit [quem não recolhe comigo, dispersa (Lc 11,23)].

11 DE FEVEREIRO

In caritate radicati [arraigados na caridade (Ef 3,17)]

Uma árvore, com suas raízes em terra seca ou pedregosa, nada poderá produzir. Assim também uma vida sacerdotal que não esteja enraizada num grande amor a Deus, nada produz para as almas. Ninguém se alimenta de flores.

In caritate fundati [firmados na caridade] — não pode ser outro o alicerce da nossa vida sacerdotal. Somente assim haverá, em toda a nossa atividade, aquele bonus odor Christi [bom odor de Cristo] que atrai as almas e que as eleva para Deus. Uma profunda e sólida piedade, na palavra e no exemplo, será, para as almas, o que a chuva é para uma terra árida e seca. 

Faltando-lhe, porém, a vida interior, o padre não será mais que uma nubes sine aqua [nuvem sem água]: é a nuvem que somente lembra a chuva, mas que a não pode dar. Vemos então o povo, com fome e sede de Deus, morrendo à míngua, sem nada receber do sacerdote que não tem Deus consigo, para reparti-lo com as almas. Dicunt et non faciunt; alligant enim onera gravia et imponunt in humeros hominum; digito vero suo nolunt ea movere [dizem e não fazem, mas impõem fardos pesados que sobrecarregam os ombros dos homens, mas não querem movê-los nem mesmo com o dedo (Mt 23, 3-4)] é o que acontece, quando os que ensinam e pregam não estão in caritate radicati [arraigados na caridade].

10 DE FEVEREIRO

Exemplum esto fidelium [modelo para os fieis (1Tm 4,12)]

Numa de suas orações, a Igreja reza: Nominis tui gloriam verbo et exemplo diffundere valeamus [possamos difundir pela palavra e pelo exemplo a glória do Vosso Nome]. Muito mais que a nossa pregação pela palavra, a Igreja quer a nossa pregação pelo exemplo. Esta realiza muito mais que aquela.

O Santo Cura de Ars não foi orador de nome. Não escreveu livros, nem foi conferencista de fama. Para o seu apostolado, num simples lugarejo, não dispôs do rádio e menos ainda da televisão. No entanto, abalou a França inteira e o mundo todo, apenas com a força de sua santidade.

Escrita ou falada, a palavra será sempre um meio de inestimável valor para o meu apostolado. Mas, ela não terá valor algum, se não tiver a força do meu exemplo. Quanto papel e tinta mal empregados, às vezes, em escritos que podem revelar outras preocupações, menos a da glória de Deus! Quanta eloquência inútil, no púlpito ou no rádio, porque o povo está percebendo que o pregador não vive aquilo que ensina! Minha palavra não dará às almas um Cristo vivo, se Ele estiver morto na minha vida. É que as almas não se impressionam com o simples ruído de um cymbalum tinniens...[címbalo que retine... (I Cr 13, 1)].

09 DE FEVEREIRO

Se quis non amat Dominum Jesum... [se alguém não amar o Senhor Jesus... (1Cor 16,22)]

Que alguém pudesse ignorar o Amor infinito e não se interessasse por Nosso Senhor — era o que São Paulo não podia compreender. Daí a sua expressão: Sit anathema! [seja maldito!]. Se essa palavra vale para todos, como não deverá valer para aqueles que Nosso Senhor distinguiu como um amor todo particular!

Quantas provas de predileção não recebi de Nosso Senhor! Se eu não me interessar por Ele, como exigir que outros se interessem? Como irei citar essa palavra para outros se ela não está valendo principalmente para mim? Anathema sit [maldito seja!]: é a palavra que me lembra bem o que me espera na eternidade, se agora eu não quiser corresponder à predileção de Nosso Senhor para comigo.

Judas foi chamado como os demais Apóstolos. Um eleito de Nosso Senhor como todos os outros. Mas não quis reconhecer que a escolha do Mestre era uma responsabilidade. Não correspondeu e, com a queda final, veio o desespero. Bonum erat ei si non esset natus [melhor seria não ter nascido (Mc 14,21)]. Tenho que corresponder à predileção de Nosso Senhor para comigo, vivendo essa realidade que São Paulo não esquecia: Dilexit me et tradidit semetipsum pro me [Amou-me e se entregou (até à morte) por mim (Gl 2, 20].

08 DE FEVEREIRO

Simon Johannis, amas me? [Simão, filho de João, tu me amas? (Jo 21,15)]

Nosso Senhor sabia bem que o Apóstolo o amava: Domine, Tu scis quia amo te [Senhor, tu sabes que te amo]. Porque, então, aquela pergunta misteriosa: Amas me?... Nunca o Mestre lhe falara assim. Et contristatus est Petrus [E Pedro se entristeceu]. Aquela palavra do Mestre soava-lhe como uma indireta, com referência às negociações... uma humilhação diante dos companheiros ou um ajuste de contas em momento oportuno. Tudo isso poderia ter passado pela mente do Apóstolo. 

No entanto, ele não perdeu a confiança. Com a sinceridade de sempre, respondeu, tantas vezes quantas o Mestre perguntou: Domine, Tu scis quia amo te [Senhor, tu sabes que te amo]. Ele compreendeu que a Misericórdia infinita ali estava, fechando-lhe no coração uma ferida que ainda sangrava. O Mestre, antes de voltar para a eternidade, queria por uma pedra em cima daquelas negações, não deixando, para o Apóstolo, uma dúvida que o iria martirizar sempre. E o reabilitou, elevando-o aos olhos de todos: Pasce oves meas [guia as minhas ovelhas].

Quanta delicadeza nesse gesto aparentemente duro de Nosso Senhor! Diante de uma humilhação, de um fracasso ou aborrecimento, preciso pensar que Nosso Senhor não está me ferindo porque disso Ele é incapaz. Estará, sim, chamando a minha atenção: Diligam Te, Domine, et gratias agam! [Amar-Te-ei, Senhor, e dar-Te-ei graças!].

07 DE FEVEREIRO

Sobriam duxit sine labe vitam [levam uma vida sóbria e pura

Assim canta a Igreja, celebrando os seus confessores. E lembra as virtudes que lhes adornaram uma vida sem mancha: pius, prudens, humillis, pudicus [piedosos, prudentes, humildes, castos]. Nos meus primeiros anos de sacerdócio, o meu fervor era todo zelo, amor ao estudo e à oração; a docilidade, a pureza de consciência, a pontualidade nos meus deveres, caracterizavam o meu entusiasmo e dedicação.

Os anos foram passando. E, com um pouco de orgulho, apareceu também uma certa independência no meu modo de julgar as coisas. Achei que podia substituir certas idéias, que me pareceram antigas, por outras mais arejadas, que eu dizia ser fruto da experiência. Mais largas e mais cômodas, essas idéias se prestaram muito bem para justificar algumas falhas que meu fervor primitivo não teria justificado. E os frutos foram aparecendo pouco a pouco.

Hoje... quam mutatus ab illo! [quanto se mudou do que era!]. É verdade que os tempos mudam e todos mudam com eles. Mas não posso mudar para pior. Relinquentes vanitatem multorum, et falsas doctrinas, ad traditam nobis ab initio doctrinam, revertamur [Abandonemos os discursos vãos e as falsas doutrinas de tantos e retornemos aos ensinamentos que nos foram transmitidos desde o princípio, texto da Epístola de São Policarpo de Esmirna aos Filipenses].

06 DE FEVEREIRO

Sicut bonus miles Christi [como bom soldado de Cristo (2Tm 2,3)]

Um soldado que dá todo o seu entusiasmo, todas as suas forças, toda a sua dedicação à causa que defende; um soldado que não pede repouso, porque não conhece o cansaço nem o desânimo na luta de todos os dias: esse é o Miles Christi [soldado de Cristo] que o Apóstolo desejava para cada um de nós. 

E ele soube tão bem realizar esse ideal em sua vida! O seu contínuo impendam et superimpendar [gastar-se e se desgastar] não era um simples bom desejo, nem uma simples aspiração fervorosa. Era a realidade que encheu os longos anos do seu apostolado. É certo que num combate a vitória depende de todos. Por isso, cada qual deve dar a sua parte de esforço e dedicação. 

Sendo assim, eu não posso dar apenas uma parte do meu tempo, um pouco de atividade, uma parcela de esforço. Tenho que dar o máximo, porque a parte que me toca é essa: dar toda a minha vida pelas almas. Que pela minha dedicação, possa eu estar entre aqueles pelos quais a Igreja reza: Tuorum militum, Rex omnipotens, virtutem robora, ut consummato cursu certaminis, immortalitis bravium apprehendant [confirmai, ó Rei onipotente, a virtude dos vossos soldados, a fim de que, consumada essa vida mortal, alcancem a recompensa eterna].

05 DE FEVEREIRO

Verbo et exemplo, nos orare docuisti  [em palavras e no exemplo, nos ensinou a rezar]

Diz a Igreja que, no Jardim das Oliveiras, Ele nos ensinou a rezar. Para que? Ad tentationum pericula vitanda [evitar os perigos das tentações]. Preciso me convencer de que, sem a vida de oração, não poderei vencer as tentações. Uma alma sem fervor é presa fácil para qualquer assalto. 

Eu devo pensar que, se eu não fosse um sacerdote, já seria visado pelo demônio. Como padre, muito mais. Não posso pensar que o sacerdócio me colocou fora do alcance das tentações. Pelo contrário... é o que me diz a experiência. É certo que o demônio sempre terá mais força do que eu, caso eu esteja sozinho. Mas, sempre terei mais força do que ele, se eu me aliar com Deus. 

E essa aliança é estabelecida pela oração. Rezando, terei horror ao pecado e saberei evitar o perigo, porque o fervor abrirá os olhos de minha consciência. Rezando, as tentações nunca me encontrarão desprevenido, mas armado com a força de Deus. Tivessem os Apóstolos vigiado no Getsêmani e a prova não os teria colhido de surpresa. Estivessem mais preocupados com o Mestre, não o teriam abandonado.


04 DE FEVEREIRO

Fiat voluntas tua [seja feita a Vossa Vontade]

Tantas vezes rezamos esta palavra que Nosso Senhor nos ensinou! E é tão difícil praticar o que ela diz! Santa Teresa não exagerou quando disse que o caminho mais curto para o inferno é a nossa vontade própria. Basta dizer que, em tudo, ela é orientada pelo seu conselheiro particular, que se chama orgulho.

Depois de transtornar a obra de Deus no Paraíso, não admira que o orgulho cause tanta desordem na nossa vida. Ele é, para nós, o maior criador de casos. Quanta agitação inútil, quanto aborrecimento e desgosto ele nos prepara! Com um pouco mais de humildade, a nossa vida poderia ser menos complicada. 

Para nos impressionar, a arma secreta do orgulho é sempre a mesma: apresentar, como ameaçados de morte, os nossos direitos sagrados, que  outros procuram destruir. Geralmente, quanto orgulho atrás desses nossos direitos! Olhemos para Nosso Senhor: se Ele tivesse querido zelar tanto pelos seus direitos, como nós zelamos pelos nossos, o que seria de nós? O Presépio e a Cruz não conheceram direitos.

03 DE FEVEREIRO

Cordis tui suavitate percepta [conscientes da suavidade do Vosso Coração]

À medida que os primeiros discípulos foram conhecendo o Mestre, tanto mais se interessaram por Ele. Magister, ubi habitas? [Mestre, onde moras?]. Queriam estar na sua companhia, para ouvi-lo mais frequentemente. Tanto mais irei sentir quam suavis est Dominus [quão suave é o Senhor] quanto mais me interessar por Ele, a fim de O conhecer e O amar. 

Meu Mestre é, sim, um Crucificado; mas Ele não me enganou quando me disse que o seu jugo é suave. Se ainda não o percebi, compreende-se: Animalis homo non percipit... [o homem natural não capta (as coisas de Deus)...]. Com o paladar estragado pelo gosto da dissipação, uma alma nada pode sentir junto a Nosso Senhor. Porque podiam os santos passar noites inteiras em oração, enquanto eu me sinto aborrecido com uma meditação, cansado com uma leitura espiritual?

Somente depois de ter quebrado o vaso de sua vaidade e do seu apego, foi que a pecadora pôde sentir a misericórdia do Coração divino. Enquanto eu não me decidir a certas renúncias, não me irei sentir atraído por Nosso Senhor. In Corde Filii tui, nostris vulnerato peccatis, infinitos dilectionis thesaurus, misericorditer largiri dignatus es [No Coração do Vosso Filho, ferido por nossos pecados, infinitos tesouros do amor nos são profusamente concedidos pela Misericórdia divina] — preciso pensar que eu também posso e devo ter parte nessa riqueza infinita.

02 DE FEVEREIRO

In templo gloriae tuae praesentari [apresentar-nos no Templo de Tua Glória]

Não foi somente a mãe daqueles dois discípulos que sonhou com o Reino dos Céus para os seus filhos. A Santa Igreja também se preocupa com a nossa recompensa e hoje, de um modo especial, pede para nós um lugar na glória eterna.

Que apresentação solene não deverá ser a nossa in splendoribus sanctorum [no esplendor dos Santos!] - apresentação dos eleitos de Nosso Senhor. Ita nos facias [assim nos faça]: apresentados por Nossa Senhora, que já nos reconheceu por filhos quando recebeu, como filho, o Evangelista recém ordenado sacerdote. Ela nos viu desempenhando a sua missão de dar Nosso Senhor às almas; Ela esteve sempre conosco: Stabat juxta crucem [de pé, junto da Cruz]. Apresentados ao Pai per Dominum nostrum Jesum Christum [por Nosso Senhor Jesus Cristo]: Ele nos escolheu e nos marcou com o seu sacerdócio para sempre. Ele nos teve como seus amigos prediletos: Filioli mei [filhinhos meus]. 

Que saibamos passar pelo crivo das lutas e provações: purificatis tibi mentibus [com os espíritos purificados] — somente assim poderemos contar com a nossa apresentação solene, não a um Juiz mas a um Pai: in templo gloriae tuae [no Templo de Tua Glória] — para dEle recebermos o lugar que a Sua misericórdia nos preparou: cum Sanctis tuis in aeternum [com os teus Santos na eternidade].

01 DE FEVEREIRO

Frumentum Christi sum [sou trigo de Cristo]

Era este o pensamento que animava o grande bispo Santo Inácio, a caminho do martírio. E este, o pensamento que nos deveria preocupar sempre: somos o trigo que Nosso Senhor escolheu, para com ele alimentar as almas — cibus viatorum [pão dos peregrinos]. Sabemos que, para se tornar alimento, o grão de trigo deve antes morrer. Não foi assim com Nosso Senhor? Por isso exclamava Santo Inácio: Molar dentibus leonum [moído pelos dentes das feras].

Se não fomos, como ele, destinados às feras, aí está o nosso dia de trabalho, como um altar, à espera de sua vítima. Temos que nos imolar nos sacrifícios de cada dia, pois, somente assim, poderão as almas alimentar-se de nós. Ut panis mundus inveniar [para me converter em pão puro] — Deus sabe a quantas almas alimentou com esse grão de trigo que as feras moeram, transformando-o num pão imaculado.

Que esse exemplo alimente a nossa coragem, fazendo-nos aceitar com mais generosidade esse martírio lento a que Deus nos chamou. Christo confixus sum cruci [Estou pregado à Cruz de Cristo (Gl 2, 19)] — não podemos encarar nossa vida de outra maneira, pois, se o grão de trigo não morrer, não produzirá fruto.


31 DE JANEIRO

Video aliam legem... [reconheço outra lei (devido à minha natureza humana)... (Rm 7,23)]

Meu Deus, como é pesada, às vezes, esta natureza humana, com suas leis, exigências e imposições! Eu sei que a minha viagem é longa e difícil; por isso não posso levar nada comigo, para estar livre e desimpedido. Mas, se eu não tivesse que levar sempre comigo o peso insuportável desta natureza que me deste, seria bem mais fácil.

É que às vezes, eu me esqueço de que me fizeste homem e não anjo. Não esperas que eu te glorifique como um espírito celeste, mas como um simples homem. Para a tua infinita grandeza, queres a cooperação desta imensa miséria humana que eu sou. Tanto como a pureza dos anjos, ela também deve glorificar o teu Nome.

Senhor, que eu não viva alimentando pretensões de ser anjo, mas que me contente com uma santamente humana e humanamente santa. Criado à tua imagem e semelhança, eu sei que o pecado me desfigurou. Mas sei também que a redenção de teu Filho me purificou de tal forma, que voltei a ser digno de teu amor de Pai. E assim transfigurado pela tua graça, espero ser digno também de dar a minha nota nessa harmonia divina de tua glória! Um dia achaste que até as pedras poderiam cantar a tua grandeza. Compreendo então que eu também posso e devo amar o teu amor, e cantar a glória de teu Nome. 

30 DE JANEIRO

Qui unxit nos Deus [Deus é Aquele que nos consagrou (2Cr 1,21)]

A sua escolha foi como uma unção que me marcou desde toda a eternidade: Elegit nos ante mundi constitutionem [escolheu-nos antes da criação do mundo]. Quando a Igreja me ungiu, sacerdote para sempre, ela confirmou a unção pela qual Deus já me fizera Sacerdote desde sempre, marcando-me com um sinal da sua eleição.

E esse sinal, impresso por Ele em minha alma, nada poderá destruir. Esteja eu onde estiver, estará comigo o sinal dos eleitos de Deus. Pelos séculos afora, no céu ou no inferno, serei sempre o mesmo, reconhecido como sacerdos in aeternum [sacerdote eterno]. Em estado de graça ou em pecado, não poderei ocultar, diante dos anjos e dos homens, o sinal com que Deus me marcou. Quanto não deverá valer para mim a insistência do Apóstolo: Omnia, et in omnibus Christus! [Cristo, em tudo e em todos! (Cl 3,11)]. 

Muito mais que os simples cristãos, marcados com o batismo, devo refletir em mim o sacerdote eterno, porque sou uma continuação eterna do seu Sacerdócio, e está em mim o sinal da sua escolha de predileção: sicut electi Dei, sancti et dilecti [como eleitos de Deus, diletos e santos] — é assim que eu devo viver, pois que sinal de predileção mais significativo que o sacerdócio poderia Deus imprimir numa criatura sua? Foi principalmente para mim que São Paulo escreveu: Omne quodcumque facitis, in verbo aut in opere, omnia in nomine Domini Jesu Christi [Tudo quanto fizerdes, por palavra ou por obra, fazei tudo em nome do Senhor Jesus Cristo (Cl 3, 17].


29 DE JANEIRO

Adtendite ad petram! [atentai para a rocha! (Is 51,2)]

Não me basta olhar para esse meu Mestre de perfeição infinita. Ele não é uma estátua fria, colocada à minha frente, nem uma obra de arte esperando pela minha admiração. Senhor, eu reconheço que o meu modelo é de uma perfeição infinita que preciso estudar, e estudar atenciosamente, não só em um retiro ou dois, mas continuamente. 

Todos os dias, a cada momento, preciso consultar a sua santidade e perfeição, porque nunca chegarei a imitá-lo como devo. Não posso alimentar a presunção de pensar que já copiei, na minha vida, o suficiente para que as almas vejam em mim um retrato de Nosso Senhor. Infelizmente preciso confessar que ainda não conheço bastante Aquele que ensino a mim mesmo e às almas. Que eu não me dispense da obrigação de aprender, estudando o meu modelo. 

Sempre que ensinar a outros, preciso pensar que, se minha dignidade me colocou muito alto, nem por isso aumentou a minha virtude. Que eu não me apresente a ninguém como exemplo e modelo porque o mais necessitado de aprender sou eu mesmo. Vae nobis, ad quos pharisaeorum vitia transierunt!  [Ai de nós, quem temos herdado os vícios dos fariseus!] (São Jerônimo).

28 DE JANEIRO

Depositum custodi [guarda fielmente o bem confiado (ou seja, o depósito da fé) (1Tm 6,20)]

Nos primeiros séculos, escrevia Santo Inácio Mártir: Cum audirem quosdam dicentes: Nisi invenero in archivis, hoc est in Evangelio, non credam... Mihi vero Archiva Jesus Christus [É que ouvi alguns dizerem: se não o encontro nos documentos antigos, não creio no  Evangelho... para mim, documentos antigos são Jesus Cristo; trecho da Epístola aos Filadelfos, de Santo Inácio de Antioquia]. 

Temos que entregar a Verdade ao povo, tal qual a Igreja no-la entrega. E a Igreja a recebe de Nosso Senhor que não está somente no Evangelho, mas também na Tradição. Não podemos alimentar o espírito farisaico, que se prendia ao pé da letra. Littera enin occidit [a letra, por si, mata; referência negativa à observância rígida e literal aos princípios e às leis], observara São Paulo.

Em matéria de Fé e Moral, tudo o que não estiver de acordo com a Igreja, é novidade nociva às almas, porque a Igreja guarda, não somente a letra das verdades evangélicas, mas também o espírito dessas verdades, que está na Tradição. Doctrinis variis et peregrinis nolite abduci [não vos deixeis desviar pela diversidade de doutrinas estranhas] — era o conselho do Apóstolo (Hb 13,9). Se não podemos ensinar novidades estranhas à doutrina da Igreja, também não podemos atenuar a Verdade ou vesti-la de uma linguagem que a possa comprometer. Os alardes de ciência, o sentimentalismo ou o rigor exagerado não condizem com a simplicidade límpida e natural da Doutrina. Ao povo não interessa a nossa vaidade, mas a Verdade: Devitans profanas vocum novitates [evita as falácias profanas].


27 DE JANEIRO

Pars haereditatis meae [parte da minha herança (Sl 15,5)]

Naquele dia, da minha primeira Tonsura, eu disse que só Deus me bastava. Ele, a minha herança, e somente por Ele eu iria me interessar. Depois, com o correr dos anos, fui achando que o meu sacrifício fôra grande demais e que a minha generosidade fôra exagerada. Achei que Deus era pouco para me contentar.

Pobre mendigo, julgando-me iludido no meu sacrifício, comecei a ajuntar todos os restos que encontrei pelo meu caminho. E não percebi que, enquanto amontoava ninharias, pouco a pouco, eu ia perdendo a minha riqueza. Apeguei-me a tudo... pensando que era alguma coisa. Fui um avarento de tudo o que pude recolher. E agora reconheço o meu erro. Compreendi que só Deus pode encher a minha vida. Somente a sua riqueza tem valor porque é infinita.

Meu coração já foi criado assim: tão grande, que só Deus pode contentar. Preciso voltar atrás, à procura da herança que perdi. Para levá-la comigo, não posso desejar sequer outra coisa que não seja a minha riqueza infinita. Preciso abandonar tudo o que andei ajuntando ao longo do meu caminho. Deus meus et omnia [meu Deus e meu tudo] — eu estava certo quando pensei assim, naquele dia da minha Primeira Tonsura.

26 DE JANEIRO

Sempiternus Pontifex aedificat vos [o Pontífice Eterno vos engrandeça]

Assim escreveu, aos seus fiéis, o grande bispo dos primeiros séculos, São Policarpo: que o Pontífice eterno, Cristo, edifique a vossa santidade, in fine et veritate, in mansuetudine, in patientia, in castitate [ao final e verdadeiramente, pela mansidão, pela paciência, pela castidade]. Que maravilhoso programa de vida sacerdotal!

In fide et veritate [pela  fé e pela verdade]. É com Nosso Senhor que devemos erguer o edifício da nossa santidade sobre as verdades da fé, sinceramente apegados ao Pai que está nos céus. In mansuetudine, in patientia [pela mansidão, pela paciência] essa norma do nosso apostolado. Ser, para todos, um reflexo da misericórdia de Nosso Senhor, com uma paciência alegre e perseverante, porque vivemos expectantes beatam spem [na expectativa de nossa esperança feliz (Tt 2, 13)], conforme diz o Apóstolo.

In castitate [pela castidade]: a sinceridade com Deus nos dará a inocência e a reta intenção em tudo, com um santo respeito a nós mesmos e às almas. Não será demais, se realizarmos, em nossa vida sacerdotal, esse programa de santidade que o grande bispo apresentava aos simples fiéis do seu tempo. Não podemos construir sobre outra base, a não ser essa: In fide et veritate [pela fé e pela verdade] — porque omne quod non est ex fide, peccatum est [tudo o que não procede da fé é pecado (Rm 14, 23)].

25 DE JANEIRO

Ubi abundavit delictum [onde abundou o pecado  (Rm 5,20)]

Ao escrever estas palavras, o Apóstolo não quis falar de si próprio, mas da redenção em geral. No entanto, esse texto é bem um resumo da conversão do grande Perseguidor. Dedicando-se à caçada de cristãos, era ele o lobo feroz que todos temiam. Mas a Graça o transformou no servus Jesu Christi [servo de Jesus Cristo].

Preciso pensar que a conversão não é somente do erro para a Verdade, do pecado para a Graça. Dessa conversão, graças a Deus, não estarei necessitando. Mas, a conversão da tibieza para o fervor — é dessa conversão que estou precisando. Todos os dias, a todo momento, minha natureza está me empurrando para longe de Nosso Senhor. E posso dizer que ela nada conseguiu?

À hora de sua morte, um santo religioso pedia aos seus confrades: rezem, rezem muito pela minha conversão total! Essa conversão total, de toda a minha vida, é a que devo realizar continuamente, até ao fim dos meus dias. Nosso Senhor não deve estar simplesmente ao lado de uma vida sacerdotal, mas tem que ser o centro de toda essa vida: In quo fixa et firma, et immobiliter semper sit radicata mens mea et cor meum [Em quem meu coração e minha mente estejam fixados e firmemente enredados agora e para sempre; trecho da chamada Oração de São Boaventura]. Seja meu esse desejo de São Boaventura.

24 DE JANEIRO


Si de mundo fuissetis... [se fôsseis do mundo...(Jo 15,19)]

Ah!... se fôssemos do mundo! Ele estaria aos nossos pés, ele seria nosso: Haec tibi dabo, si adoraveris me... [te darei estas coisas se me adorares...] Se fôssemos do mundo, ele nos saberia compreender e amar: Quod suum erat mundus diligeret... [o mundo vos amaria como sendo seus...]. Se trabalhássemos para o mundo, ele nos saberia cobrir de elogios, e não nos pouparia recompensas; ele não usaria de todos os meios para impedir o nosso trabalho.

Mas, graças a Deus, não somos do mundo: Quia vero de mundo non estis, sed ego elegi vos de mundo, propterea odit vos mundus [Como, porém, não sois do mundo, mas do mundo vos escolhi, por isso o mundo vos odeia (Jo 15,19)]. Nosso Senhor não exagerou quando disse que o mundo nos odeia. 

Positus in maligno [sob o maligno (1Jo 5, 19)], ele [o mundo] não nos quer porque vê em nós a negação do seu espírito e da sua doutrina. Tanto melhor para nós. Uma prova a mais, de que somos realmente de Nosso Senhor. Quando Ele sentiu todo o peso da hipocrisia do mundo, foi que nos avisou: Se o mundo não vos quer, lembrai-vos que a mim também ele não quis. Quia de mundo non estis [porque não sois do mundo], nada mais triste que o sacerdote procurando agradar o mundo, condescendendo com seu espírito e com a sua mentalidade.

23 DE JANEIRO

Dentur idonei confessarii [haja confessores capazes]

Para São Pio V, era essa a receita indicada para a afervoramento das almas: Ecce omnium christianorum reformatio [e veremos uma reforma completa em toda a cristandade]. É certo que o púlpito, o rádio ou a pena poderão exercer muita atração sobre as minhas qualidades. E se eu as tiver, para todos os meios de apostolado, graças a Deus! Nesse bonum certamen [bom combate] pela salvação das almas, tenho que me utilizar de todos os meios ao meu alcance.

Não devo, porém, esquecer que uma coisa é falar a todos, em geral, e outra, falar a cada um em particular. Junto ao púlpito, ou junto ao rádio, meus ouvintes são apenas ouvintes, a caminho da verdade. No confessionário, eles já serão mais do que isso: penitentes, que desejam livrar-se da própria miséria.

É certo que o trabalho do púlpito, da pena ou do rádio é um apostolado relativamente leve e interessante. Chega mesmo a agradar a minha vaidade. No confessionário, o trabalho é, sem dúvida, mais pesado. Mas... um dia, exausto com suas longas caminhadas, Nosso Senhor estava descansando junto a um poço. E o seu cansaço não o impediu falar àquela samaritana que voltou à cidade, convertida. Diante dos penitentes é que eu serei médico, mestre e pai contanto que in omni patientia, et doctrina [com toda paciência e doutrina, ou seja, segundo as regras da caridade cristã].

22 DE JANEIRO

Elegit nos [nos escolheu (Ef 1,4)]

Certamente não foi por acaso que cheguei ao sacerdócio. O dedo da Providência andou trabalhando sempre, ao longo desse caminho que percorri, até chegar ao altar. Ante mundi constitutionem [antes da criação do mundo] — portanto, muito antes de que eu o pudesse saber, Deus já me havia escolhido. E, se houve uma escolha, foi porque havia outros que também podiam ser chamados. 

Mas eles não foram escolhidos e eu fui. Assim fez Ele também quando, entre os discípulos, escolheu os doze, que chamou Apóstolos: Vocavit discipulos suos, et elegit duodecim, quos et Apostolos nominavit [chamou os seus discípulos e escolheu doze dentre eles, os quais chamou de apóstolos (Lc 6,13)]. Portanto, minha vocação foi uma escolha a dedo; menos não se pode supor da sua infinita sabedoria, ante a sublimidade dos seus planos: Ut essemus sancti et immaculati in conspectu eius [para sermos santos e irrepreensíveis diante dos seus olhos (Ef 1,4)]. Não é pouco o que Ele espera de mim.

Fui escolhido para realizar em minha vida uma santidade superior. Não é apenas aos olhos do mundo que eu devo parecer santo, mas eu tenho que ser um santo aos olhos de Deus: in conspectu eius [diante dos seus olhos]. Compreendo então como deve valer para mim aquela insistência do Apóstolo: Videte vocationem vestram [Vede a vossa vocação!].  Se eu não a meditar, se eu não a tiver diante dos olhos, como a irei viver?

21 DE JANEIRO

Spectaculum facti sumus [fomos entregues em espetáculo (1Cr 4,9)]

Um espetáculo... é alguma coisa que chama a atenção, que prende a admiração e os olhares de todos. A nossa dignidade é esse espetáculo, aos olhos dos anjos e dos homens: et angelis et hominibus [aos anjos e aos homens]. Eles têm diante de si um simples homem, participando do sacerdócio eterno de Cristo. É realmente sublime esse espetáculo da sabedoria e misericórdia de Deus.

Mas não basta que Deus chame a atenção dos anjos e dos homens. Nós também temos que oferecer et angelis et hominibus [aos anjos e aos homens] um espetáculo de santidade e virtudes com a nossa vida sacerdotal. Podemos dizer que já chegamos a esse ponto? E, se não chegamos, será esse ao menos o nosso desejo, a nossa preocupação de todos os dias?

Em meio às trevas, a luz é sempre um espetáculo de calor e de vida. Lux mundi [luz do mundo]— temos que ser para todos um espetáculo de vida sobrenatural. Se não houver de nossa parte um esforço contínuo, pode ser que o mundo veja em nós um triste espetáculo de tibieza e indiferença. Que o nosso exame de consciência e os nossos retiros chamem a nossa atenção para esse ponto.

20 DE JANEIRO

Donec dies est [enquanto for dia (Jo 9,4)]

Meu Deus, tenho diante de mim um campo imenso de trabalho. E minha covardia, meu comodismo, nem sempre querem olhar para essa vinha que está exigindo meu esforço e dedicação. Tenho que aproveitar donec dies est [enquanto for dia]. Enquanto tenho tempo, enquanto as forças não me abandonam, enquanto não chega a noite da morte, preciso trabalhar sem descanso.

O bem que eu não fizer agora, nunca mais eu o farei. E o mérito que eu não ganhar agora, nunca mais será meu. Somos tão poucos, e o trabalho é tanto! Messis quidem multa [a messe é grande]— cada dia ela se torna mais difícil. Senhor, desperta a minha generosidade, para eu saber dar tudo pelas almas: meu tempo, meu descanso, minha morte. Que eu não me queira poupar, vendo que as almas se perdem. Adveniat regnum tuum [que venha o Vosso Reino]— não seja esta uma palavra morta nos meus lábios, mas a alma de toda a minha vida. 

Embora meu comodismo queira ignorar, meus olhos dizem que o inimicus homo ['homem inimigo', expressão que identifica o semeador de joio nas vinhas do Senhor (Jo 13, 28) e que denomina, por extrapolação, todos os grandes inimigos da Igreja] não descansa um momento. Por incrível que pareça, os filhos da treva atiram-se ao trabalho com mais inteligência e coragem que os filhos da luz. Não posso continuar, lamentando apenas, que o inimigo não descansa. Não é solução. O que eu tenho a fazer, é o que já fazia o teu Apóstolo: Impendam et superimpendar [gastar e se desgastar, no contexto de uma entrega contínua e redobrada em favor da salvação das almas, conforme as palavras de São Paulo em IICr 12, 15].

19 DE JANEIRO

Mea doctrina non est mea [minha doutrina não é minha (Jo 7,16)]

Temos que ensinar, verbo et opere [por palavras e ações], o que Nosso Senhor ensinou. E como ensinar? Pela palavra simples e despretensiosa, com o zelo e a mansidão do Mestre. Voar apenas sobre o auditório, com as asas de idéias demasiado elevadas, alardear ciência ou tentar vestir a simplicidade das verdades com a poesia de sedas e arminhos, é uma lamentável profanação do nosso Ministerium verbi [ministério da palavra].

Nosso Senhor não foi chamado de orador, mas de Mestre, porque a sua única preocupação era: Ut cognoscant te, solum Deum verum, et quem misisti [que Vos conheçam, um só Deus Verdadeiro, e quem enviastes (Jo 17,3)]. E temos que pregar também com o exemplo. Se em cada sacerdote há um pregador que reparte ao povo o pão da palavra, não falte igualmente o santo, que a todos alimente com a riqueza do exemplo.

Ouve-se às vezes: hoje o mundo não quer mais ouvir certas verdades antigas. Realmente, São Paulo já previu: Erit enim tempus, cum sanam doctrinam nos sustinebunt [porque virá tempo em que a sã doutrina não será suportada (pelos homens), em 2 Tm 4,3] Mas, se esse tempo já chegou, temos que perguntar: de quem é a culpa? Se soubermos viver as verdades antigas, o mundo certamente não as irá estranhar quando as pregarmos.

18 DE JANEIRO

Quoniam Ecclesia sancta est [porque a Igreja é santa]

Nosso Senhor nos fez membros de sua Igreja. Pelo sacerdócio, Ele nos elevou a uma posição de destaque, distinguindo-nos como seus amigos particulares: Jan non dicam vos servos, sed amicos [já não vos chamo de servos, mas de amigos]. Mas, não nos esqueçamos: essa distinção nos foi conferida unicamente em atenção à Santa Igreja. Temos portanto que servi-la, mas com amor e dedicação. Não somos empregados ou meros funcionários de uma organização.

O que a Santa Igreja espera de nós, não são tanto as obras de uma vida simplesmente ativa, mas as obras de uma vida santamente sacerdotal. O que mais interessa à Igreja não é o nosso trabalho pela santificação das almas; antes de tudo ela quer que nos santifiquemos.

Se o padre, tendo um nome feito no rádio e televisão, nos jornais e revistas, tiver seu nome desfeito na língua do povo... que ganhará a Igreja com isso? E ainda que muitos o tenham por virtuoso, se ele não for realmente Homo Dei [homem de Deus]— e Deus o sabe — não estará sendo o que a Igreja quer. Nossas virtudes serão atribuídas à Igreja como nossos falhas também o são. Como poderá pensar em santificar as almas aquele que não se preocupa com a própria alma? Que nos santifiquemos, para podermos santificar: é tudo o que a Igreja espera de nós. Quantum quisque amat Ecclesiam Christi, tantum habet Spiritum Sanctum [Quanto mais se ama a Igreja de Cristo, tanto mais se possui o Espírito Santo (Santo Agostinho].


17 DE JANEIRO

Mortui enim estis [porque estais mortos (Cl 3,3)]
  
Segundo a doutrina do Apóstolo, nós já morremos com Cristo, pelo batismo: Mortui estis [estais mortos]. No entanto, devemos continuar vivendo, mas de uma vida diferente: Vita vestra abscondita est in Christo Jesu [a vossa vida está escondida em Cristo Jesus].

Essa a grande realidade que a nossa natureza se recusa a aceitar. Justamente por não seguirmos a mentalidade do mundo, este não nos compreende e nos tem por mortos. Oxalá tenha razão, que estejamos realmente mortos para nós mesmos e para tudo o que o mundo nos põe diante dos olhos! Poderemos viver assim, mais in Christo Jesu [em Cristo Jesus], unicamente para as almas, olhando para a glória de Deus.

Essa foi a vida dos santos: o corpo neste mundo; mas a alma abscondita in Christo Jesu [escondida em Cristo Jesus] já vivendo num mundo superior. Para o Apóstolo São Paulo, do mundo só existiam as almas que ele queria salvar; o mais não lhe interessava, porque estava acima de tudo, vivendo em Nosso Senhor. Nemo enim nostrum sibi vivit et nemo sibi moritur. Sive enim vivimus, sive morimur, Domini sumus [Nenhum de nós vive para si e ninguém morre para si. Se vivemos, se morremos, pertencemos ao Senhor (Rm 14 7,8)].

16 DE JANEIRO

In medio luporum [no meio de lobos (Mt 10,16)]


Foi assim que Nosso Senhor nos viu neste mundo. Ele teve poucos amigos sinceros aqui na terra. Inimigos, no entanto, não lhe faltaram. Pelo caminho do nosso ministério sacerdotal, iremos encontrar, muitas vezes, os lobos que Nosso Senhor também encontrou. Mais perigosos, porém, que os lobos declarados, são aqueles que se apresentam com aparências de ovelhas.

Tome cuidado o sacerdote com certas amizades que ocultam segundas intenções. Amizades que visam envolver o padre na política ou que pretendem vantagens financeiras ou mesmo legalizar aparentemente certas situações duvidosas; essas amizades não passam de lupi rapaces [lobos vorazes]. Acabam despojando o padre do seu bom nome e da sua fama, para atirá-lo depois ao desprezo e desconfiança do povo.

Com um pouco de prudência, não nos será difícil distinguir entre um anjo bom e um demônio mediano: Qui veniunt ad vos in vestimentis ovium; intrinsecus autem sunt lupi rapaces [Eles vêm até vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes (Mt 7,15)]. São Paulo os conheceu de perto e deixou para os fiéis um aviso que vale para nós: Videte, fratres, quomodo caute ambuletis! [Vigiai, irmãos, com cuidado sobre a vossa conduta! (Ef 5,15)].

15 DE JANEIRO

Non quaero gloriam meam [Não busco a minha glória (Jo 8,50)]

O Sumo Sacerdote da Redenção não procurava a sua glória. Subindo ao altar do sacrifício, no Presépio, até consumar sua oblação, na Cruz, Ele só pensou na glória do Pai. E nós, sacerdotes cooperadores da Redenção?

Neste mundo eu não quero pedestal — dizia um padre com muita humildade. Se a exagerada preocupação de si mesmo é ridícula em qualquer indivíduo, mais desprezível se torna quando a notamos no sacerdote. Um exterior todo retocado pela vaidade, o gosto de falar sempre ex-cathedra [do alto, como um catedrático, sem admitir objeções], o desejo de estar em toda parte à procura de evidência, de amizades e elogios, a preocupação de agradar os mais altamente colocados, com desprezo dos mais humildes; enfim, o abuso da dignidade sacerdotal em proveito da própria vaidade... é triste, é lamentável.

Querer viver na glória quem deveria viver na imolação... não será um escândalo para as almas de boa vontade? A exagerada preocupação de se fazer simpático, poderá ter, para o padre, um resultado contrário. Coloquemos sempre um pouco mais de alma e convicção nesse Gloria Patri [Glória ao Pai], que rezamos, com os lábios, tantas vezes!

14 DE JANEIRO

Qui se existimat stare... [quem pensa estar de pé (1Cr 10,12)]

É muito grande a força do demônio. Se ele já dobrou muito caniço, já arrancou muito carvalho também. Cedros do Líbano vieram abaixo, porque confiaram demasiado na força das próprias raízes. É pela presunção que o demônio consegue minar os alicerces de muita vida sacerdotal. Videat ne cadat [vigiar para não cair] — isto quer dizer esforço e trabalho. 

Tome cuidado, empregue os meios, não se descuide, nem facilite. Tempestades há no ambiente que nos cerca. E as mais terríveis não são as que entram pelos sentidos, mas aquelas que rugem dentro de nós mesmos. Lamennais, o grande apologeta, pregou certa vez numa igreja dos redentoristas, na Suíça. Um sucesso. Perguntaram ao reitor da comunidade, o que achava daquele orador, coluna da Igreja na França. Com um ar de tristeza, o reitor, Ven. Pe. Passerat, respondeu: 'Tenho medo desse homem; ele não reza'. Algum tempo depois, Lamennais era um apóstata.

Naquela vida, como em tantas outras, a presunção e o orgulho minaram os alicerces. A base cedeu. Et descendit pluvia, et venerunt flumina, et flaverunt venti, et irruerunt in domum illam, et cecidit, et fuit ruina illius magna [caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa; ela caiu e grande foi a sua ruína (Mt 7,27)].

13 DE JANEIRO

Descendit de Caelis [Desceu dos Céus!]

Infelizmente esta palavra já não chama a nossa atenção. Achamos tão natural que isso tenha acontecido! Um dia, o orgulho do homem quis ocupar o trono de Deus. E esse orgulho absurdo pôs a humanidade a perder. Para salvá-la, Deus deixou o seu trono, e veio ao mundo, ocupar um estábulo... Esta solução redentora não foi apenas uma indireta divina contra o orgulho humano. Mais claramente  Deus não o poderia ter condenado.

Apesar disso, o meu orgulho continua vivo. Sei que Deus desceu dos céus à terra, e não tiro dessa verdade as consequências que devia tirar para a minha vida. Quando me coloco diante do Presépio ou da Cruz, meu orgulho fecha os olhos, para não ver a que ponto eu devo chegar. E depois de transformar o Paraíso num vale de lágrimas, ele vive enchendo a minha vida de queixas,  revoltas e reclamações. 

Soubesse eu ocupar 'o meu lugar', sempre na humildade, e seria tão feliz! Diante do Presépio e da Cruz é que eu devo meditar bem as palavras do Precursor: Illum oportet crescere, me autem minui [é preciso que Ele cresça e eu diminua]. Então compreenderei que preciso viver como Nosso Senhor viveu: Formam servi accipiens [assumindo a condição de escravo (Fl 2,7)].

12 DE JANEIRO

Mundamini qui fertis vasa Domini [purificai-vos, vós que levais os vasos do Senhor (Is 52,11)]

Seria essa uma das consequências do nosso exame diário de consciência: maior cuidado pela pureza de nossa alma. Se deviam ser puros e inocentes aqueles que apenas tocavam nos vasos do Templo, quanta inocência Deus não estará exigindo daqueles que devem tratar diariamente com o Panis Angelicus [Pão dos Anjos (Sagrada Eucaristia)].

Triste e lamentável seria, se justamente a alma do sacerdote destoasse daquela pureza e dignidade que a Igreja requer em tudo o que está a serviço do culto divino. Deponentes igitur omnem malitiam, et omnem dolum, et simulationes, et invidias, et omnes detractiones. Sicut modo geniti infantes [Deponde, pois, toda malícia, toda astúcia, fingimentos, invejas e toda espécie de maledicência, como crianças recém-nascidas (1Pd 2,1)]. Como seria diferente a minha vida, se diariamente, à noite, eu examinasse, com minha consciência, os pensamentos, palavras e ações do dia!

Não foi sem motivo que a Igreja insistiu comigo, dizendo: Estote ergo talis, ut sacrificiis divinis digne servire valeas [portanto, possas servir ao sacrifício divino de maneira digna; trecho do rito de ordenação constante do Pontifical Romano]. Revendo e estudando a minha vida de todos os dias, irei me convencer de que tudo leva certamente o selo da boa vontade, mas que alguma coisa poderá estar em desacordo com esse digne servire [servir dignamente]. Não irei permitir, então, que certas falhas me acompanhem sempre, como coisa normal, que a minha indiferença não vê, e, por isso mesmo, não condena.

11 DE JANEIRO

Mihi vivere Christus est [para mim o viver é Cristo (Fl 1,21)]

Por eu ser um Alter Christus [outro Cristo], minha vida precisa refletir continuamente a vida do meu Mestre. E isto não me será possível, sem um profundo conhecimento de Nosso Senhor. Por eu ser o Praedicator veritatis [pregador da Verdade], preciso conhecer a Verdade em sua fonte, assim como ela veio ao mundo. Mas, como irei imitar um Mestre que não conheço? E como irei ensinar e viver a Verdade que não estudo?

A biografia de Nosso Senhor — completa, enquanto possível — está no Evangelho. Aí posso encontrar veluti viva et spirans imago eius [a imagem dEle, viva e palpitante]. Irei vê-lo, para que o possa imitar e ensinar, assim como Ele era realmente. Mas, o Evangelho é talvez o livro que menos leio, e que menos estudo. Acho indispensável a leitura diária dos jornais e revistas. Mas, do Livro por excelência, leio apenas algum trecho, aos domingos, para os fiéis; e, talvez, nem isso. 

Há livros que me interessam muito mais, porque, infelizmente, ainda não descobri que há, no Evangelho, uma riqueza inesgotável, para mim, e para as almas que eu devo alimentar com a Palavra divina. A falta de interesse pelo Evangelho, denuncia sempre, no sacerdote, a falta de interesse no próprio Nosso Senhor.

10 DE JANEIRO

Infelix ego homo! [homem infeliz que sou! (Rm 7,24)]

Tratando-se das ocasiões de pecado, há um modo de encarar as coisas, não com simplicidade cristã, mas com exagerada naturalidade. Chama-se a isto mentalidade arejada, segundo a qual, as ocasiões não seriam tão frequentes, nem o perigo tão grande como quer a mentalidade antiga e acanhada. Nem tanto ao mar, mas também nem tanto à terra.

O Antigo Testamento já condenou aquele que ama o perigo. E São Paulo nos diz que, para nos enganar, o demônio é capaz de tudo; chega mesmo a se transfigurar: Ipse Satanas transfigurat se in angelum lucis [o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz]... A nossa fraqueza é tão grande, que facilmente chegamos a defender uma coisa, pelo simples motivo de a desejarmos. E assim, às vezes, dizemos não haver perigo, porque realmente queremos o perigo.

Estaremos em melhores condições que o Apóstolo? Infelix ego homo, quis me liberabit de corpore mortis huius? [Homem infeliz que sou! Quem me livrará deste corpo que me acarreta a morte?, palavras de São Paulo aos romanos, em Rm 7,24]. Spiritus quidem promptus est [o espírito, na verdade, está pronto] — não há dúvida; mas... caro autem infirma [mas a carne é fraca], e disto não podemos duvidar também. Temos uma natureza de morte; e quando ela quer alguma coisa, usa de todos os meios para a justificar: Quod volumus libenter credimus...[sempre acreditamos no que queremos acreditar].

09 DE JANEIRO

Similes ei erimus [seremos semelhantes a Deus (1Jo 3,2)]

Meu Deus, o que me pedes, neste mundo, é um nada; apenas alguns anos de luta. No entanto, o teu amor tem, reservada para mim, uma eternidade de glória: In hac brevi et exigua vita agones et labores; in illa vero vita, quae aeterna est, praemia meritorum [nesta vida breve e passageira, provações e fatigas; na outra e verdadeira vida, recompensa eterna (São Beda)].

Senhor, que este mundo não me faça perder de vista essa eternidade que, com tanto carinho, puseste diante dos meus olhos. Como irei desinteressar-me dessa recompensa que preparaste para teus filhos, ante mundi constitutionem [antes de criar o mundo]? Que dignidade, e que riqueza para mim: Nunc filli Dei sumus [desde agora somos fi­lhos de Deus!] No entanto, ainda preciso esperar: Nondum apparuit quid erimus [não se manifestou ainda o que seremos]; quero acalentar esta esperança, pois, cum apparuerit, similes ei erimus [quando se manifestar, sere­mos semelhantes a Deus].

Meu Deus, diante do que me espera, que eu não viva neste mundo como um escravo, nem sofra como se eu fosse um condenado ao desespero! Não posso me esquecer de que sou um dos teus filhos, com direito a uma parte da tua riqueza infinita. Ela está à minha espera, pois é herança minha. E eu estaria ofendendo a tua liberalidade, se quisesse fechar os olhos, para não ver aquilo que o teu amor, desde já, me quis mostrar. Levate oculos vestros! [levantai os vossos olhos! (Jo 4,35)].

08 DE JANEIRO

Si adhuc homnibus placerem [se quisesse agradar aos homens (Gl 1,10)]

É verdade que precisamos ganhar a todos para Nosso Senhor. E as palavras duras, as atitudes ríspidas, nunca foram meios de apostolado. Foi pela mansidão que Nosso Senhor atraiu a todos: Discite a me, quia mitis sum, et humilis corde  [aprendei de mim que sou manso e humilde de coração].

Mas que o nosso zelo não seja imprudente e sentimental, a ponto de nos levar a um erro perigoso. Condescender com certas ideias e fraquezas, por de lado a simplicidade cristã, porque certa classe de pessoas a não tolera, modernizar-se mundanamente com o intuito de agradar e atrair; enfim, sacrificar a verdade, apresentando-a menos pesada e mais agradável, certamente não seria isso digno do sacerdote de Nosso Senhor, o qual estaria perdendo pensando ganhar.

As almas somente se deixam atrair pela virtude. E se esta nem sempre agrada, nem por isso a podemos profanar. O sacrifício da Verdade não ganha a ninguém; antes põe a perder as almas; elas querem ver no sacerdote o homem de Verdade que não se diminui. Com o nosso modo de apresentar a Verdade aos homens, nunca poderemos prejudicá-la. O Apóstolo, com todo o seu zelo, confessava não ter agradado a todos: Si adhuc hominibus placerem, Christi servus non essem [Se quisesse agradar aos homens, não seria servo de Cristo, palavras de São Paulo aos Gálatas, em Gl 1, 10]. 

07 DE JANEIRO

Ego elegi vos [eu vos escolhi (Jo 15,19)]

Pouco antes de morrer, num discurso que não chegou a pronunciar, Pio XII escreveu: imensa é a bondade de Deus para com aqueles que Ele escolhe, como instrumento da sua vontade salvífica. Depositário e dispensador dos meios de salvação, o sacerdote, como não pode dispor deles segundo o próprio arbítrio, pois que é 'ministro', assim mantém inalterada a autonomia da sua pessoa, a liberdade e responsabilidade dos seus atos. 

Ele é portanto um instrumento consciente de Cristo, que, como um artista genial, dele se serve, como de um cinzel, para esculpir nas almas a imagem divina. Ai se o instrumento se negasse a seguir a mão do divino Artista; se deformasse o desenho dele, por próprio capricho! Bem medíocre resultaria a obra, se o instrumento fosse, por própria culpa, inepto. 

A santidade é o elemento primário que faz do sacerdote um instrumento perfeito de Cristo, já que o instrumento é tanto mais perfeito e eficaz, quanto mais unido estiver à causa principal (...) Em muitos casos não basta o fervor das próprias persuasões, nem o zelo da caridade para conquistar e conservar as almas para Cristo. Também aqui o bom povo tem razão, quando reclama de sacerdotes 'santos e doutos'.

06 DE JANEIRO

Invenerunt puerum... [acharam o menino... (Mt 2, 11)]

Sim, eles acharam o Menino, mas à custa de muito trabalho e sacrifício. Após uma viagem longa e penosa, chegaram enfim ao palácio do Rei dos judeus: um casebre, onde, na maior pobreza, estava uma simples criança. Para mim foi tão fácil achar Nosso Senhor! E nem sempre eu soube aproveitar dessa facilidade...

Eles acharam o Menino cum Maria, Matre eius [com Maria, sua Mãe]. Sempre com sua Mãe — foi assim que o Redentor realizou a sua obra de Redenção. Se não podemos separar o Redentor de sua Mãe Santíssima também não podemos separar Nossa Senhora da vida sacerdotal. O Alter Christus [outro Cristo] não saberá trabalhar sem Ela.

Os Magos ofereceram ouro, incenso e mirra. Não nos é tão difícil oferecer a Nosso Senhor o ouro e o incenso de um exuberante apostolado exterior. Anos e anos de trabalho, no afervoramento de uma paróquia, na organização de uma obra de assistência social, é com satisfação que entregamos tudo a Nosso Senhor. Mas... oferecer a mirra de certas renúncias interiores e mesmo exteriores... oferta dolorosa, muitas vezes, no entanto, necessária. Nosso Senhor não se contenta com uma parte do sacrifício que nos pede. Ele quer um sacrifício completo. Ele quer tudo. Ecce nos reliquimus omnia [Eis que deixamos tudo, palavras de São Pedro a Jesus, em Mt 19, 27].

05 DE JANEIRO

Fundamentum aliud... [um fundamento diferente... (1Cor 3,10)]

Nós, os sacerdotes, pensamos muito em realizar, em construir. Nada mais natural, pois o nosso ministério o exige. Muito mais importante, porém, que qualquer atividade exterior, é o nosso trabalho na construção de nossa vida interior. Desta é que depende tudo o mais.

Quanto mais alto um edifício, tanto mais sólida deverá ser a sua base, mais profundas os seus alicerces. Ora, a nossa vida sacerdotal é um verdadeiro arranha-céu, porque dá na vista de todo o mundo, e atinge mesmo a altura do céu, no que ela tem de grandioso e sublime. E que será dessa construção toda, se ela não assentar sobre o concreto de uma virtude a toda prova?

Se o exame de consciência me diz que a árvore de minha vida sacerdotal não está produzindo bons frutos, o remédio não está numas gotinhas d’água, derramadas sobre suas folhas... Tenho que regar as raízes dessa árvore. Por falta de vida interior, isto é, de base sólida, quanta vocação já não desmoronou! Até cedros do Líbano foram vistos, rolando correnteza abaixo... Fundamentum enim aliud nemo potest ponere, praeter id quod positum est, quod est Christus Jesus [Quanto ao fundamento, ninguém pode por outro diverso daquele que já foi posto, que é Jesus Cristo].

04 DE JANEIRO

Quomodo cecidisti! [como caíste!]

O exame diário de nossa consciência — quanto bem não nos faria, se o fizéssemos bem! Temos que fazê-lo sem medo, com um sincero desejo de ver a nossa miséria bem de perto. Um construtor precisa, frequentemente, examinar se a sua construção está sendo executada, de acordo com a planta estabelecida; qualquer erro poderá influir em todo o conjunto da obra. Maior cuidado exige de nós a construção de nossa vida espiritual (sacerdotal).

O modelo que devemos realizar é o de perfeição infinita. E o nosso trabalho está sendo objeto de admiração dos anjos e santos da eternidade. Costumamos dar tanta atenção às faltas alheias! Quanto assunto não nos fornecem para nossos comentários! Deixando-as de lado, em santa paz, tomemos diariamente as nossas faltas como assunto de uma conversa séria com a nossa consciência. 

Integritatis tuae curiosus explorator, vitam tuam quotidiana discussione examina. Attende diligenter quantum proficias vel quantum deficias; stude cognoscere te. Pone omnes transgressiones tuas ante oculos tuos, statue te ante teipsum, tamquam ante alium, et sic teipsum plange [como curioso explorador da sua própria conduta, examine com diligência a sua vida diária. Considera cuidadosamente os progressos feitos e o que se perdeu... esforce-se para conhecer a si mesmo... exponha todas as suas faltas diante dos seus olhos e coloque-se diante de si mesmo como se fosse outra pessoa ... e, então, lamente pelos seus erros]. Este é o conselho que nos dá São Bernardo (em Meditationes piissimae).

03 DE JANEIRO

Dum tempus habemus... [enquanto temos tempo (Gl 6,10)...]

Se a minha vida é feita de anos, os meus anos se compõem de minutos. Assim como Deus não me dá toda a existência de uma só vez, mas pouco a pouco, assim também não posso santificar a minha vida num momento, mas tenho que viver para Deus todos os meus minutos.

Que eu possa perder a vida num momento — isso me impressiona. Mas que, num momento, eu possa perder a eternidade — isso deveria impressionar-me muito mais. Saber aproveitar o tempo é viver com sabedoria: Non quasi insipientes, sed ut sapientes redimentes tempus, quoniam dies mali sunt (Ef 5,15) [não sejam néscios mas sábios, aproveitando bem o tempo, porque os dias são maus].

Ninguém sabe o bem que faz, quando faz o bem; e nem sabe o mal que faz, quando deixa de fazer o bem. Por isso, em matéria de passar o tempo, eu posso e devo ser um ignorante. Mas devo ser um sábio, tratando-se de aproveitar o tempo. Quando a minha vida chegar ao fim, nada irei desejar mais que uma parcela desse tempo que agora está nas minhas mãos. Antes que chegue o meu último dia, preciso aproveitar os meus dias, para não perder os meus anos: tempora labuntur, et senescimus annis [trecho de 'Os fastos' de Ovídio: tempora labuntur, tacitisque senescimus annis et fugiunt, freno non remorante, dies – os tempos se completam e envelhecemos nos anos silenciosos; os dias fogem, não havendo como estancá-los].

02 DE JANEIRO

In unione illius divinae intentionis [Em união com essa divina intenção]

Tenho pela frente um novo ano, que eu devo ganhar para a minha eternidade. Logo de início preciso me compenetrar do que disse Nosso Senhor: 'Sem mim nada podeis fazer'. Portanto, é com Ele que eu devo ir recolhendo, um por um, os dias que me esperam: Qui non colligit mecum, dispergit [quem comigo não ajunta, dispersa].

Se eu quiser trabalhar sozinho, terei que ouvir um dia a Escritura: Seminasti multum et intulisti parum (Ag 1,6) [semeais muito e recolheis pouco]. Deus me criou para a sua maior glória. E, fazendo uma seleção entre as almas que o amam, eu fui um dos contemplados. Ele deve ser mesmo infinitamente bom, para querer que a minha miséria coopere na sua Redenção, para sua glória infinita. Mas quanta atividade, grandiosa aos olhos do mundo, já não foi declarada sem valor, à hora da morte, porque lhe faltava o selo illius divinae intentionis! [com essa divina intenção!].

No dia em que me chamar, Deus irá examinar comigo a boa intenção que eu devia ter posto em tudo: Quaeretur a nobis quid fecimus, quam religiose viximus [seremos perguntados sobre o que fizemos e o quão honestamente vivemos - Imitação de Cristo, de Thomas de Kempis]. Posso aguardar tranquilo a hora dessa avaliação? Que o diga minha vida passada. Preciso vigiar a minha vaidade, meu apego, meu comodismo, para não lamentar um dia: Qui mercedes congregavit, misit eas in saeculum pertusum (Ag 1, 6) [para não lamentar como o trabalhador que guarda o seu salário numa sacola furada].

10 de JANEIRO

Procedamus in pace! [Vamos prosseguir em paz!]

E nem poderia ser de outra maneira: em paz com minha consciência, e em paz com Nosso Senhor: assim terei um ano realmente novo, diferente de quantos já vivi. Em paz comigo e com Deus, haverá em minha vida um aumento de fervor, para que eu possa dedicar este ano às almas e à minha alma. Olhando para os dias que estão para chegar, eu os vejo como um altar à minha espera. Quanto sacrifício nesse campo das almas que eu devo trabalhar!

Sacerdos pro populo [sacerdote para o próximo] — mas não serei, para as almas, a vida que elas esperam, se descuidar da minha própria vida interior; como cuidar das almas, ignorando as necessidades da própria alma? Tenho que agradecer a Nosso Senhor este novo ano que Ele me quer dar. E não posso esquecer que este poderá ser o último ano em minha vida. Será que, em 31 de dezembro deste ano, ainda estarei lendo os últimos pensamentos deste livro*?

Que o meu fervor destes dias me acompanhe sempre; não posso deixar, ao longo do meu caminho, os propósitos que tomei. E já que pode ser este o último ano da minha vida, preciso aproveitá-lo, quanto mais, para as almas, e para a minha alma. Um ano é tão pouco para o muito que tenho a realizar! Não posso esbanjar o meu tempo. Cotidie morior...[algo como 'morro a cada dia'].